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A vida doméstica não é uma escravidão
Sociedade

A vida doméstica não é uma escravidão

A vida doméstica não é uma escravidão

Talvez o trabalho não remunerado das mulheres “valha”, de fato, uma quantia obscena de dinheiro, como sugeriu recentemente um jornal norte-americano. Mas existem outras coisas para além disso: coisas feitas por amor e que, por isso, não vêm com um código de barras.

Jane Clark ScharlTradução: Equipe Christo Nihil Praeponere22 de Junho de 2020Tempo de leitura: 8 minutos
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Recentemente, o jornal norte-americano The New York Times publicou um artigo intitulado Women’s Unpaid Labor is Worth $10,900,000,000,000 (“O trabalho não remunerado das mulheres vale 10 trilhões e 900 bilhões de dólares”). Como poderíamos esperar, o texto é cínico e parcial.

Embora o artigo tente se apresentar como resultado de uma simples pesquisa, em homenagem ao Dia Internacional das Mulheres, sobre as contribuições delas para a sociedade — muitas vezes não reconhecidas —, ele acabou assumindo a forma da verborragia comercialista semimarxista que tem dominado a nossa sociedade. Expôs assim um equívoco que está no centro do pensamento americano sobre trabalho, dinheiro e sociedade, a saber: que as coisas só possuem valor se lhes atribuirmos alguma quantia em dólar — e que as pessoas que fazem algo sem serem remuneradas são, por isso, necessariamente exploradas.

Como disse G. K. Chesterton: “[O feminismo] está mesclado com uma ideia confusa segundo a qual as mulheres são livres quando servem aos seus patrões, mas escravas quando ajudam os seus maridos”. O raciocínio feminista presente no artigo do The New York Times é terrivelmente reducionista e ignora por completo os benefícios intangíveis oriundos do assim chamado “trabalho não remunerado” das mulheres — sem dúvida alguma, benefícios para a sociedade, as famílias e os homens, mas em número ainda maior para as mulheres.

Agora, algumas advertências. Primeiro: se alguém espera com justiça ser pago por uma tarefa, mas não o é, estamos diante de um caso intolerável de exploração. Segundo: ao longo da história, as mulheres foram injustamente excluídas da plena participação na sociedade, uma injustiça que ainda existe hoje em algumas sociedades e deve ser enfrentada. Terceiro: as mulheres que escolhem entrar para o mercado de trabalho como funcionárias devem ser recompensadas justamente, tal como os seus equivalentes masculinos. Nada disso, porém, está em questão no artigo do The New York Times.  

O texto poderia ser uma celebração do quanto as mulheres contribuem para a sociedade e de como o seu trabalho abnegado deixa o mundo muito mais belo e alegre, mas não é. Não é sequer uma exposição que pretende lançar luzes sobre as diferenças salariais entre homens e mulheres. Em vez disso, documenta a enorme contribuição que as mulheres dão à sociedade e sugere que é uma injustiça o fato de não serem remuneradas por essa contribuição.

Vejamos a frase de abertura: “Se as mulheres americanas recebessem um salário mínimo pelo trabalho não remunerado que realizam em casa e no cuidado dos familiares, teriam gerado uma receita de U$ 1,5 trilhão no ano passado”. A frase não menciona quantas famílias foram beneficiadas pelo cuidado das mulheres nem quantos idosos receberam assistência de mulheres em sua vida. Em vez disso, reduz esses atos humanos a uma quantia monetária para sugerir que há algo injusto no fato de as mulheres não serem remuneradas pela prática desses atos de caridade. 

Detalhe de “Um da família”, de Frederick George Cotman.

Este ponto é crucial: são atos de caridade realizados em larga escala por mulheres. Embora, sem dúvida, fosse possível que elas não fizessem algumas dessas coisas (reconheço que às vezes me canso de lavar a louça e organizar a casa), o texto ignora completamente outra possibilidade, a saber: que elas fazem essas coisas por amor.

Todo o mundo que já fez algo por amor sabe que tais tarefas são a sua própria recompensa. Mas algumas pessoas não sabem que transformar um trabalho feito por amor num trabalho remunerável altera, de fato, a natureza dele. Os artistas certamente experimentam isso quando se tornam profissionais: de repente, a arte assume uma natureza laboral. As exigências do mercado começam a ter um peso enorme. E mesmo com o entusiasmo por serem remunerados por seu trabalho criativo, muitos artistas têm a sensação de que algo se perdeu.

É algo que transparece na própria linguagem: as pessoas que fazem artesanato, arte, esporte ou realizam um trabalho sem se preocupar com ganhos financeiros são chamadas de amadoras, que vem de um termo em latim para designar “aquele que ama”. As pessoas que fazem coisas sem expectativa de remuneração são amantes. Por outro lado, “profissional” refere-se a quem faz algo como meio de sobrevivência. Embora, sem dúvida, não haja nada errado em sair do “amadorismo” para o “profissionalismo”, há uma profunda diferença espiritual entre ser amante de uma tarefa e fazê-la como meio de sobrevivência.

O artigo menciona um dia na Islândia, em 1975, quando quase todas as mulheres do país se recusaram a “trabalhar, fazer faxina ou cuidar dos filhos”. O The New York Times exalta o episódio como um momento de coragem em que as mulheres da Islândia assumiram o controle de suas próprias vidas, mostrando a homens preguiçosos e ingratos o quanto a sociedade devia a elas. Na verdade, esse estratagema pueril mais parece um abandono da decência comum. Imagine por um momento que tivesse ocorrido o contrário: se todos os homens do país se recusassem a trabalhar por um dia, independentemente das consequências para seu futuro profissional, ou se não fizessem nada para apoiar as suas famílias. Tal boicote seria rapidamente considerado um gesto imaturo para chamar a atenção e como tal seria condenado. É difícil ter uma visão positiva de uma mãe que se recusa a cozinhar e a cuidar dos próprios filhos por causa de uma manifestação política. Quando se negaram a realizar essas ações, as mulheres da Islândia revelaram inadvertidamente o segredo de boa parte daquilo que consideramos “trabalho feminino”: ele tem raízes no amor e na abnegação.   

O artigo celebra o boicote islandês como um triunfo e observa que “hoje, as mulheres de lá têm uma das taxas mais elevadas de participação na força de trabalho em todo o mundo”. O pressuposto implícito é que, numa sociedade ideal, deveria haver o maior número possível de mulheres na força de trabalho.

É claro que isso deixa sem resposta várias perguntas importantes. Se, assim como os homens, todas as mulheres devem participar da força de trabalho para que uma família possa sobreviver, quem assumirá aqueles atos de caridade — a educação dos filhos, o cuidado dos idosos e a construção de um belo lar? O governo assumirá essa tarefa? Esse trabalho será de algum modo dividido entre homens e mulheres? Quem controlará ou autorizará a divisão de trabalho? E, num nível menos tangível, que efeito terá na qualidade de nossas vidas a “sistematização” daquilo que deveria ser um gesto de amor?  

Finalmente, o que dizer sobre o fato de muitas mulheres preferirem ficar em casa para participar desses pequenos atos de caridade a se envolverem na assim chamada “força de trabalho”? Hoje, levei o nosso filho ao parque, passei numa cafeteria no caminho de volta para casa a fim de comprar um lanche e ajudar esse pequeno negócio durante a crise de coronavírus. Organizei a casa, levei meu bebê para jogar pedras no lago, fiz almoço e jantar para o meu marido. Durante a soneca do meu filho, realizei algumas horas de trabalho pelo qual serei remunerada, mas o restante do meu dia cai na categoria do “trabalho não remunerado” do qual se queixa o artigo do The New York Times.

Então, comparo o meu dia com o do meu marido: ele passa nove horas no escritório doméstico, o menor cômodo da casa, atendendo a telefonemas de trabalho com o seu fone de ouvido. Ele está com teletrabalho agora; numa situação normal, ele teria saído de casa às 6h30min e não teria chegado antes das 17h30min (na melhor das hipóteses).  

O trabalho dele não é ruim. É bem remunerado e tem benefícios. Contudo, eu não trocaria o meu dia não remunerado pelo dia remunerado dele. E não estou sozinha; muitas mulheres adoram a própria capacidade de criar um belo lar para o marido e os filhos. Percebemos que o compromisso dos nossos maridos de irem para o trabalho todos os dias, para que possamos ficar em casa — fora do turbilhão materialista e hipermercantilizado que constitui boa parte da sociedade americana —, é um sacrifício para eles, mas uma bênção para nós.

No ensaio A emancipação da domesticidade, G. K. Chesterton observa algo que poderia — mas não deveria — fazer as feministas tremerem. Diz ele:

A mulher deve ser cozinheira, mas não uma cozinheira competitiva; professora, mas não uma professora competitiva; decoradora de interiores, mas não uma decoradora competitiva; costureira, mas não uma costureira competitiva [...]. Ao contrário do homem, ela pode desenvolver todos os seus talentos [...]. As mulheres não ficavam em casa por serem limitadas; pelo contrário, ficavam em casa para expandir-se. O mundo fora de casa é que era extremamente limitado, um labirinto de caminhos restritos, um manicômio de monomaníacos. Somente graças à limitação e proteção parciais a mulher era capaz de desempenhar cinco ou seis profissões e, desta forma, aproximar-se tanto de Deus como uma criança ao brincar de cem coisas diferentes. A diferença é que as profissões da mulher, ao contrário das da criança, eram todas verdadeiramente — e quase terrivelmente —  frutíferas.     

Neste trecho Chesterton celebra a maravilhosa capacidade feminina de viver como uma “amadora”, uma amante que dedica sua vida ao que ama justamente por amá-lo, e não porque obtém algum tipo de benefício financeiro. Segundo Chesterton, as mulheres nesse âmbito são verdadeiramente livres de um jeito que os homens empregados na força de trabalho não podem ser.

É possível que o The New York Times esteja certo: talvez o trabalho não remunerado das mulheres “valha” uma quantia obscena de dinheiro. Mas existem outras coisas para além dele: a liberdade das exigências do mercado, a beleza da construção de um lar, a espontaneidade e a diversão nas brincadeiras com os filhos, o amor no cuidado dos vizinhos ou familiares idosos. E nenhuma dessas coisas possui um código de barras.

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Salvar almas: o imperativo do Coração de Maria
Espiritualidade

Salvar almas:
o imperativo do Coração de Maria

Salvar almas: o imperativo do Coração de Maria

Se, como disse a Irmã Lúcia, não há problema espiritual, por mais difícil que seja, que não possa ser resolvido pelo Rosário, então não há pecador, por mais distante que esteja da Igreja, que não possa ter a graça de se converter, se alguém estiver rezando o Terço por ele.

John HendersonTradução: Equipe Christo Nihil Praeponere22 de Junho de 2020Tempo de leitura: 4 minutos
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Nossa Senhora de Fátima contrariou o costume de aparecer aos videntes no 13.º dia de cada mês, quando, em agosto, ela apareceu no dia 19. Ao fazer isso, ela mostrou seu carinho especial por São João Eudes, cuja festa é celebrada naquele dia. S. João Eudes foi o primeiro santo a promover a devoção ao Coração de Maria, de forma especialmente grandiosa. Tendo em conta que Fátima era o meio escolhido por Deus para consolidar ainda mais esta devoção particular no mundo, não podemos ver a aparição irregular de Nossa Senhora no dia 19 como coisa qualquer, mas como um incentivo providencial para saber o que S. João tem a ensinar sobre o Coração da nossa Rainha.

Segundo S. João Eudes, nada é mais agradável ao Coração de Maria do que trabalhar pela salvação das almas: 

A maior alegria que podemos dar ao admirável Coração de Maria, todo em chamas de amor pelas almas que custaram o Sangue precioso de seu Filho, é trabalhar com zelo e dedicação pela salvação delas. Se o coração dos anjos e santos no Céu se regozija com a conversão de cada pecador na terra, a Rainha dos anjos e santos encontra nisso infinitamente mais alegria do que a de todos os habitantes do Céu juntos, porque o seu Coração possui mais amor e caridade [1].

A caridade consiste em desejar o bem do outro. Ora, o bem supremo do homem é a salvação de sua alma. Logo, a forma mais verdadeira e mais alta de caridade é trabalhar para ajudar os outros a alcançar a felicidade suprema e eterna.

As virtudes da e da esperança, embora inferiores à caridade, são sempre listadas antes dela como requisitos necessários. Qualquer imperfeição em alguma uma dessas duas virtudes teológicas implicará, inevitavelmente, alguma imperfeição na caridade. Infelizmente, em nossa era pós-Vaticano II, defeitos graves em ambas as virtudes são abundantes [2]. Para dar alegria a Maria, trabalhando de fato pela salvação das almas, é imperativo corrigir os erros comuns sobre a fé e a esperança que estão destruindo o amor.

“A maior alegria que podemos dar ao admirável Coração de Maria… é trabalhar com zelo e dedicação pela salvação das almas”.

A fé nos informa não apenas sobre o que é o bem último do homem, mas também sobre o único meio pelo qual esse fim bom pode ser alcançado. Pela fé, sabemos, ou pelo menos deveríamos saber, que a Igreja é a única Arca da salvação — extra Ecclesiam nulla salus. Os santos agiram de acordo com essa verdade revelada. Eles oraram e ofereceram sacrifícios pela conversão das almas. Muitos católicos hoje em dia não acreditam nesse dogma de fé, no sentido em que foi infalivelmente definido. Por isso, muitos não oferecem orações ou sacrifícios pela conversão dos que estão fora da Igreja. Em vez disso, dedicam grande parte de tempo e energia ao combate às “mudanças climáticas” e outras questões de justiça social, reais ou fictícias. Não há verdadeira caridade sem verdadeira fé.

Vê-se ainda uma grave falta de esperança em uma das justificativas mais comuns dadas pelos católicos modernos para rejeitarem o dogma segundo o qual “fora da Igreja não há salvação”. Os que nele não acreditam costumam falar de seus conhecidos não-católicos como se fosse impossível convertê-los, por terem sido criados em ambientes que os levaram a ter contra a fé preconceitos insuperáveis.

Ora, os fundamentos da esperança de um católico são a onipotência de Deus, sua bondade e fidelidade às suas promessas. Se esses católicos liberais realmente acreditassem na onipotência divina, saberiam que Deus é capaz de vencer qualquer preconceito. Se eles cressem na bondade de Deus, saberiam que não é vontade de Deus que alguém permaneça nas trevas religiosas. Antes, Deus quer que todos os homens “cheguem ao conhecimento da verdade” (1Tm 2, 4).

S. João Eudes escreveu sobre como a soberania divina se reflete no Coração de Maria. Ele definiu a soberania divina como “uma perfeição que dá a Deus poder absoluto e infinito sobre todas as obras de suas mãos. Ele pode dar vida ou morte quando bem entender, no lugar e da maneira que quiser; Ele pode nos lançar no abismo do nada, ou nos retirar dele. Deus comunicou essa soberania a Maria, como a Rainha do Céu, em um grau sublime” [3]. Nós lembramos esse privilégio de Nossa Senhora, na ladainha lauretana, quando pedimos à Virgo potens, “Virgem poderosa”, que rogue por nós. Quanto mais esperança tivermos no poder e na bondade de Maria, mais ansiosos estaremos para pedir-lhe que nos obtenha a conversão e a salvação daqueles que nos são queridos. Os que não têm esperança e pensam que Maria não é poderosa o suficiente para obter a conversão dos seus não estarão tão ansiosos por buscar sua intercessão. Não há caridade sem esperança.

A Irmã Lúcia de Fátima expressou uma grande esperança no poder da oração a Maria através do Rosário, de modo particular: 

A Santíssima Virgem, nestes últimos tempos em que vivemos, deu uma nova eficácia à oração do Santo Rosário. De tal maneira que agora não há problema, por mais difícil que seja, seja temporal ou, sobretudo, espiritual, que se refira à vida pessoal de cada um de nós; ou à vida das nossas famílias, [...] que não possamos resolver agora com a oração do Santo Rosário.

Ora, se não há problema espiritual, por mais difícil que seja, que não possa ser resolvido pelo Rosário, então não há pecador, por mais distante que esteja da Igreja, que não possa ter a graça de se converter, se alguém estiver rezando o Rosário por ele. Se queremos dar grande alegria à Rainha dos anjos e santos, devemos nos esforçar ao máximo para viver a mensagem de Fátima, de oração e sacrifício pela salvação das almas.

Notas

  1. S. João Eudes, O admirável Coração de Maria. Publicações do Coração Imaculado. Buffalo, NY, p. 255.
  2. Reconhecer, com o autor do texto, que “em nossa era pós-Vaticano II, defeitos graves [...] são abundantes” na vivência das virtudes teologais, não significa atribuir ao Concílio a culpa exclusiva da crise em que nos encontramos. A esse respeito, cf. Ao vivo com Pe. Paulo, episódio n.º 221: O Magistério do Concílio Vaticano II (Nota da Equipe CNP).
  3. S. João Eudes, op. cit., p. 141.

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“O maior e pior cativeiro é o da alma”
Espiritualidade

“O maior e pior cativeiro é o da alma”

“O maior e pior cativeiro é o da alma”

“O maior, e pior cativeiro é o da Alma”. Jesus Cristo “não trouxe nem a paz para o mundo, nem o bem-estar para todos nem um mundo melhor”; o que Ele veio nos trazer foi Deus. Não nos esqueçamos disso.

Equipe Christo Nihil Praeponere19 de Junho de 2020Tempo de leitura: 8 minutos
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Cogitatiónes Cordis eius in generatióne et generatiónem: ut éruat a morte ánimas eórum et alat eos in fame, “Os pensamentos do seu Coração foram, através das gerações, arrancar as almas da morte e saciá-las da fome” (Sl 32, 11.19): eis a antífona que a liturgia da Missa de hoje, solenidade do Sagrado Coração de Jesus, propõe-nos à meditação. 

Os pensamentos do coração humano do Verbo eterno de Deus são apresentados, aqui, abarcando a humanidade inteira, pois foi para salvar, afinal, todos os homens, de todas as épocas, que Ele se encarnou. Nas palavras de Pio XII, “pela visão beatífica de que gozou apenas concebido no seio da Mãe Santíssima, tem continuamente presente todos os membros do seu corpo místico e a todos abraça com amor salvífico” (Mystici Corporis, n. 75). 

Isso significa que os pensamentos do Coração de Jesus, durante sua vida terrenal, dirigiram-se não só à Virgem Maria e aos Apóstolos, aos homens de seu tempo e aos primeiros discípulos: no retirar-se para rezar, nos milagres que realizava, nos trabalhos que fazia, Jesus pensava em mim, pensava em você. E a finalidade de suas palavras e obras era nada menos que arrancar-nos da morte e saciar-nos da fome

Se todos continuam a morrer, no entanto, e muitas pessoas continuam não tendo o que comer, teriam ficado os pensamentos de Deus “só no pensamento”? Teria sido em vão a obra de Jesus Cristo? O Pe. Antônio Vieira, pregando aos escravos em um de seus sermões sobre o Rosário (XXVII, 4) esclarece que o cativeiro de que veio libertar-nos Jesus não é o do corpo, senão o da alma:

Assim como o homem se compõe de duas partes, ou de duas metades, que são corpo, e Alma, assim o cativeiro se divide em dois cativeiros: um cativeiro do corpo, em que os corpos involuntariamente são cativos, e escravos dos homens; outro cativeiro da Alma, em que as Almas por própria vontade se vendem, e se fazem cativas, e escravas do Demónio. E porque Eu vos prometi que a Virgem, Senhora nossa do Rosário, vos há de libertar, ou forrar, como dizeis, do maior cativeiro; para que conheçais bem quanto deveis estimar esta alforria, importa que saibais, e entendais primeiro qual destes dois cativeiros é o maior. A Alma é melhor que o corpo, o Demónio é pior Senhor que o homem, por mais tirano que seja; o cativeiro dos homens é temporal, o do Demónio eterno; logo nenhum entendimento pode haver, tão rude, e tão cego, que não conheça que o maior, e pior cativeiro é o da Alma [...].

E se buscarmos o princípio fundamental, por que Cristo sendo Redentor do género humano só veio remir, e libertar os homens do cativeiro das Almas, e não da servidão dos corpos, o fundamento claro, e manifesto é: porque para libertar do cativeiro dos homens, bastavam homens; para libertar do cativeiro do Demónio, e do pecado, é necessário todo o poder de Deus [...].

Os Discípulos de Emaús, e os outros mais rudes da Escola de Cristo, cuidavam que a Sua vinda ao mundo fora para “libertar os filhos de Israel da sujeição, e cativeiro dos Romanos”: Nos autem sperabamus, quia ipse esset redempturus Israel (Lc 24, 21); mas por isso mereceram o nome de “homens néscios, e de tardo, e baixo coração”: O stulti, et tardi corde (Ibid., 25). Porventura para libertar os filhos de Israel do jugo dos Romanos, faltava-Lhe a Deus uma vara de Moisés, uma queixada de Sansão, uma funda de Davi, uma espada do Macabeu? Mas estas armas, e estes braços, só bastam para libertar do cativeiro dos corpos; porém para o cativeiro das Almas, e para as libertar do jugo do Demónio, e do pecado, só tem forças, e poder o mesmo Deus, e esse com ambos os braços estendidos em uma Cruz. Vede, vede bem, quanto vai de cativeiro a cativeiro, de resgate a resgate, e de preço a preço. Com admirável energia o ponderou São Pedro, como se falara convosco, vendidos, e comprados por dinheiro. 

Scientes, quod non corruptibilibus, auro, vel argento redempti estis: sed pretioso Sanguine quasi agni immaculati Christi (1Pd 1, 18–19). Exorta o Apóstolos a todos que tratem da salvação de suas Almas, e de as conservar em graça: e para isso diz que consideremos que “não fomos resgatados com ouro, nem com prata, senão com o preço infinito do Sangue do Filho de Deus”. Nas quais palavras é muito digno de ponderar que não só nos manda São Pedro considerar o preço, por que fomos resgatados, senão também o preço, por que não fomos resgatados. O preço por que não fomos resgatados, que é o ouro e a prata: Non corruptibilibus, auro, vel argento; e o preço por que fomos resgatados, que é o Sangue do Filho de Deus: Sed pretioso Sanguine quasi agni immaculati Christi. Pois se para tratarmos com todo o cuidado, e vigilância, da Salvação de nossas Almas, o único, e maior motivo é a consideração de que Deus as resgatou com o Sangue de Seu próprio Filho; porque ajunta o Apóstolo na mesma consideração o preço, com que não foram resgatadas, que é o ouro, e a prata? Porque o seu principal intento nestes dois preços, que nos manda considerar, foi: para que da diferença dos resgates conhecêssemos a diferença dos cativeiros. Para resgatar do cativeiro do corpo, basta dar outro tanto ouro, ou prata, quanto custou o Escravo vendido. Mas para resgatar o cativeiro da Alma, quanto ouro, ou prata será bastante? Bastará um Milhão? Bastarão dois Milhões? Bastará todo o ouro de Sofala, e toda a prata do Potosi? Oh vileza, e ignorância das apreensões humanas! Se todo o mar se convertera em prata, e toda a terra em ouro; se Deus criara outro mundo, e mil mundos, de mais preciosa matéria que o ouro, e mais subidos quilates que os diamantes; todo este preço não seria bastante para libertar do cativeiro do Demónio, e do pecado, uma só Alma por um só momento. Por isso foi necessário que o Filho de Deus Se fizesse Homem, e morresse em uma Cruz, para que com o preço infinito de Seu Sangue pudesse resgatar, e resgatasse as Almas do cativeiro do Demónio, e do pecado. 

Na mesma linha, ensina o Papa Bento XVI em seu comentário teológico aos Evangelhos: 

Mas então o que é que Jesus realmente trouxe, se não trouxe nem a paz para o mundo, nem o bem-estar para todos nem um mundo melhor? O que é que Ele trouxe?

E a resposta é dada de um modo muito simples: Deus. Ele nos trouxe Deus. Ele trouxe aos povos da terra o Deus cujo rosto lentamente tinha antes se desvelado desde Abraão passando por Moisés e pelos profetas até a literatura sapiencial; o Deus que apenas em Israel havia mostrado o seu rosto e que, no entanto, tinha sido venerado sob múltiplas sombras entre os povos do mundo; este Deus, o Deus de Abraão, de Isaac e de Jacó, o verdadeiro Deus.

Ele nos trouxe Deus: agora conhecemos o seu rosto, agora podemos chamar por Ele. Agora conhecemos o caminho que como homens devemos percorrer neste mundo. Jesus trouxe Deus e assim a verdade sobre o nosso fim e a nossa origem; a fé, a esperança e o amor. Somente por causa da dureza do nosso coração é que pensamos que isso seja pouco. Sim, o poder de Deus é suave neste mundo, mas é o verdadeiro, o poder que permanece. Parece que as coisas de Deus se encontram sempre “em agonia”. Mas se mostram como o que realmente subsiste e redime. As riquezas do mundo que Satanás podia mostrar ao Senhor desmoronaram-se entretanto. A sua glória, a sua doxa revelou-se apenas aparência. Mas a glória de Cristo, a glória do seu amor, humilde e sempre disposta para o sofrimento, nunca se desmoronou e nunca perecerá [1].

Por fim, um complemento de outro teólogo recente:

Henri de Lubac notou certa vez que, na era moderna, o ódio por hereges religiosos arrefeceu. Mas isso se deu, ele explicava, não porque desenvolvemos corações mais caridosos. Ao contrário, o que fizemos foi simplesmente transferir nossos interesses e nossas inimizades para a política. Nossa verdadeira paixão hoje é o poder, e eliminar qualquer coisa que seja um obstáculo para o alcançarmos e o exercermos.

Essas são verdades que homens de todos os tempos precisam ouvir, porque a tentação de reduzir o Evangelho a um plano de transformação social, a um projeto de libertação meramente política, está sempre à espreita. É muito fácil que também nós incorramos no erro dos discípulos de Emaús, que se entristeceram por causa do “fracasso humano” de Jesus. Observando tudo o que acontece ao nosso redor apenas com os olhos da carne, o desânimo parece apossar-se de nós. Só com um olhar verdadeiramente de fé para vencermos essa inclinação que nos deprime e desorienta

Neste dia em que a Igreja presta um culto todo especial ao Sagrado Coração, recordando como os pensamentos de Nosso Senhor se voltaram a nós, elevemos também as nossas mentes a Ele, em oração, e meditemos no amor com que Ele amou a nós, que estamos no século XXI; a nós, que moramos no Brasil; a nós, vítimas da pandemia do coronavírus; a nós, vítimas de tantas mentiras e desinformações que circulam, tentando confundir-nos.

Nosso Senhor pensou em nós! “Os pensamentos do seu Coração” atravessam as gerações e chegam à nossa: também agora Ele quer “arrancar as almas da morte e saciá-las da fome”. Mas essa morte e essa fome são espirituais, e nosso inimigo verdadeiro é o demônio. Se ele conseguir tirar-nos da graça, afastar-nos de Deus, condenar-nos ao inferno, então ele terá cumprido com êxito seu papel, e o resto são apêndices. 

Não nos esqueçamos disso. E que os pensamentos do nosso coração estejam continuamente voltados ao Coração que nunca deixou de pensar em nós.

Referências

  1. Joseph Ratzinger. Jesus de Nazaré: do batismo no Jordão à transfiguração. São Paulo: Editora Planeta, 2007, p. 54.

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Uma ladainha a São Luís Gonzaga
Oração

Uma ladainha a São Luís Gonzaga

Uma ladainha a São Luís Gonzaga

Esta é uma ladainha com invocações dirigidas a São Luís Gonzaga, “para obter todas as virtudes que convêm ao jovem cristão, principalmente o dom da castidade”.

Equipe Christo Nihil Praeponere19 de Junho de 2020Tempo de leitura: 2 minutos
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Esta ladainha, com invocações dirigidas a São Luís Gonzaga (cuja memória a Igreja celebra no dia 21 de junho), é “para obter todas as virtudes que convêm ao jovem cristão, principalmente o dom da castidade”. Encontra-se no célebre livro de orações latinas Coeleste palmetum e foi traduzida por nossa equipe para essa publicação.

Uma objeção muito comum às ladainhas de santos é que elas são repetitivas e enfadonhas. A própria palavra “ladainha” é frequentemente usada em sentido pejorativo. A isso poderíamos responder simplesmente, parafraseando São Josemaría Escrivá (cf. Sulco 475): bendita monotonia de invocações, que purifica a monotonia de nossos pecados

Mas há mais: a ideia dessas orações tradicionais da Igreja é que, ao repetir dia após dia os títulos dos santos, sejamos estimulados a imitar as suas grandes virtudes. As ladainhas de São José, de Nossa Senhora, do Sagrado Coração de Jesus, e também esta de São Luís, constituem, portanto, uma verdadeira escola de santidade, à parte o valor que possuem de impetrar em nosso favor o auxílio desses grandes amigos de Deus.

Além desta prece que agora tornamos disponível, temos em nosso site uma outra prática tradicional de oração ao santo padroeiro da juventude: são as Seis súplicas a São Luís Gonzaga, que todos podem rezar, igualmente com grande fruto.


Senhor, tende piedade de nós.
Jesus Cristo, tende piedade de nós.
Senhor, tende piedade de nós.

Jesus Cristo, ouvi-nos.
Jesus Cristo, atendei-nos.

Pai celeste, que sois Deus, tende piedade de nós.
Filho Redentor do mundo, que sois Deus, tende piedade de nós.
Espírito Santo, que sois Deus, tende piedade de nós.
Santíssima Trindade, que sois um só Deus, tende piedade de nós

Santa Maria, padroeira de São Luís, rogai por nós.
São Luís Gonzaga, rogai por nós.
São Luís, dotado das bênçãos de Deus, rogai por nós.
São Luís, repleto do Espírito Santo, rogai por nós.
São Luís, confessor digníssimo do Cristo, rogai por nós.
São Luís, adorador devotíssimo da Eucaristia, rogai por nós.
São Luís, escravo fidelíssimo da Virgem Maria, rogai por nós.
São Luís, depreciador generoso dos prazeres deste mundo, rogai por nós.
São Luís, exemplo de humildade, rogai por nós.
São Luís, amante da pobreza, rogai por nós.
São Luís, perfeito na obediência, rogai por nós.
São Luís, paciência admirável, rogai por nós.
São Luís, poderosíssimo no Céu, rogai por nós.
São Luís, terror dos demônios, rogai por nós.
São Luís, honra e glória da juventude, rogai por nós.
São Luís, modelo e padroeiro dos estudantes, rogai por nós.
São Luís, imitador da vida evangélica, rogai por nós.
São Luís, espelho das virgens, rogai por nós.
São Luís, consolador dulcíssimo dos aflitos, rogai por nós.
São Luís, saúde certíssima dos enfermos, rogai por nós.
São Luís, honra e ornamento da Companhia de Jesus, rogai por nós.
São Luís, esplendor da Igreja, rogai por nós.
São Luís, insigne por seus inúmeros milagres, rogai por nós.

Cordeiro de Deus, que tirais o pecado do mundo, perdoai-nos, Senhor.
Cordeiro de Deus, que tirais o pecado do mundo, ouvi-nos, Senhor.
Cordeiro de Deus, que tirais o pecado do mundo, tende piedade de nós.

V. Rogai por nós, São Luís Gonzaga,
R. Para que sejamos dignos das promessas de Cristo. 

Oremos:
Ó Deus, fonte dos dons celestes, que reunistes no angélico jovem Luís Gonzaga a prática da penitência e a admirável pureza de vida, concedei-nos, por seus méritos e preces, imitá-lo na penitência, se não o seguimos na inocência. Por Cristo, nosso Senhor. Amém.

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