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Minha jornada rumo à masculinidade: um ex-transexual conta a sua história
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Minha jornada rumo à masculinidade:
um ex-transexual conta a sua história

Minha jornada rumo à masculinidade: um ex-transexual conta a sua história

Abusos e confusões na infância fizeram Walt Heyer pensar que era uma mulher presa no corpo de um homem. Sua vida cheia de vícios e uma escolha precipitada mostraram que ele estava errado.

LifeSiteNews.comTradução: Equipe Christo Nihil Praeponere24 de Setembro de 2015Tempo de leitura: 6 minutos
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Em meados de 1940, Walt Heyer era só um garotinho que crescia na Califórnia, interessado em cowboys, carros e guitarras, até que, um dia, sua avó começou a fantasiar que ele queria ser uma menina. Ela ingenuamente confeccionou para seu neto um vestido roxo de seda, o qual ele passaria a usar quando a visitasse.

Mal sabia Walt que aquele vestido seria o gatilho a desencadear 35 longos anos de "tormentos, desilusões, remorsos e mágoas". A confusão com a sua identidade sexual o levaria ao alcoolismo, às drogas e até a uma tentativa de suicídio.

No auge de seus conflitos interiores, Walt recorreria a uma "cirurgia de redefinição de sexo" (uma vaginoplastia) para se parecer com uma mulher – operação da qual ele acabou se arrependendo profundamente. "Deus me fez homem, do jeito que eu era, e nenhum bisturi jamais poderia mudar isso", declarou Walt, em uma entrevista ao LifeSiteNews.com.

Hoje, resgatado por sua fé em Jesus e plenamente conformado com a sua masculinidade, Walt vive para divulgar a sua história e conscientizar as pessoas atormentadas com conflitos sexuais, para que não cometam o mesmo erro que ele cometeu.

A vergonha de ser homem

Em um livro de 2006, Trading my Sorrows, Walt relembra que o vestido roxo foi apenas a primeira de muitas influências em sua vida que o fizeram envergonhar-se de ser homem. Houve a molestação sexual que ele sofreu nas mãos de seu tio, a qual fê-lo sentir vergonha de seus órgãos genitais. Da parte de seu pai, uma disciplina rígida – praticamente indistinguível de abusos físicos – fez com que Walt se sentisse incapaz de corresponder às expectativas paternas.

Walt recorda que nunca se achava bom o suficiente para seus pais. "O que eu buscava desesperadamente era a aprovação de meus pais naquilo que eu fazia de melhor, era achar meu próprio nicho, onde eu pudesse me expressar, desenvolver meus talentos e fazer algo de que eu gostasse", ele explica, em seu livro.

O menino sem nenhuma auto-estima começou a desprezar a si mesmo e o seu corpo, passando a achar consolação em seu estranho hábito de vestir-se como menina – que ele tratou cuidadosamente de esconder dos pais. O cross-dressing tornou-se o seu lugar secreto, onde ele se sentia a salvo dos conflitos externos e das duras disciplinas aplicadas por seu pai e sua mãe.

Uma tirana dentro de si

Enquanto entrava na adolescência, Walt diz que a garota dentro de sua cabeça crescia mais poderosa e demandando mais de seu tempo. Ainda que ele gostasse de carros estilosos e saísse com belas garotas da escola, não importava o quanto ele lutasse, parecia-lhe impossível livrar-se daquela obsessão. Depois do ensino médio, Walt saiu da casa dos pais e começou a fantasiar-se na privacidade de sua própria casa. Até então, ele já tinha acumulado um número considerável de peças femininas, mas ainda se sentia profundamente envergonhado de seu hábito secreto.

Depois, Walt casou-se, ficou rico e passou a viver o "sonho americano" – pelo menos nas aparências, já que ele mantinha secretas as suas contínuas escapadelas ao mundo feminino.

Sua vida dividia-se em três diferentes personagens: a do homem de negócios bem-sucedido, mas alcoólatra; a do bom esposo e pai de família; e a do travesti transtornado. Dentro de si, porém, Walt experimentava angústia e desilusão. Tudo em sua vida começou a desmoronar.

Ele foi atrás do álcool como uma espécie de fuga, mas isso só aumentou ainda mais seu desejo de tornar-se uma mulher. Aquela tirana feminina dentro de si começou a tomar cada vez mais espaço e, para pôr fim ao seu tormento, o desesperado Walt tomaria uma decisão trágica e irreversível.

A cirurgia para mudar de sexo

Walt Heyer como "Laura Jensen".

Walt depositou todas as suas esperanças na cirurgia de mudança de sexo. Seria ela a solução a afastar permanentemente a sua dor.

Primeiro, vieram os seios, implantados por cirurgia plástica. Depois, o procedimento de que Walt mais se arrepende: a transformação cirúrgica de seu órgão reprodutor masculino na aparência de um órgão reprodutor feminino.

Walt esperava que o procedimento aliviasse o seu "debilitante estresse psicológico" e fizesse cessar, de uma vez por todas, o conflito que tirava o seu sono desde os tempos da infância. Mas, para o seu desalento, a mudança de sua genitália e de sua aparência externa não teve o mesmo efeito em seu interior.

Depois da operação, a mente de Walt converteu-se em um campo de batalha de pensamentos e desejos conflitantes, que foram se agravando e aumentando a sua crise depressiva. Todo dia após a cirurgia, ficava mais claro que ele tinha cometido um "grande erro". Seu vício no álcool e na cocaína, em uma tentativa patética de afastar a dor emocional, só fazia aumentar a sua miséria e solidão.

Agora, Walt sabia que o bisturi do cirurgião e a amputação de seus órgãos não tinham mudado a sua sexualidade. A cirurgia tinha sido uma "fraude completa". Ele sentiu que não tinha escolha, a não ser viver a vida como uma mulher artificial, uma "impostora".

A tentativa de suicídio

A essa altura, Walt tinha atingido o fundo do poço. A operação havia destruído a sua identidade, a sua família, o seu círculo social e a sua carreira. Desesperado, ele não via mais nada a fazer, senão abraçar a morte. Walt – agora, "Laura Jensen" – tentou saltar de uma cobertura, mas foi impedido por alguém que passava.

Desabrigado e sem dinheiro, aquele "transexual" terminaria vivendo nas ruas, não fosse a ajuda de um bom samaritano, que lhe deu lugar para dormir em sua garagem. Esse novo amigo encorajou Walt a participar dos Alcoólicos Anônimos. Ele aceitou o desafio e, naquele grupo motivacional, percebeu que precisava recorrer a um "poder superior", caso quisesse sair da confusão em que tinha se metido. Estava cada vez mais clara para ele a sua identidade masculina. Ele não era "Laura", mas tão somente um homem envolto numa "fantasia de mulher".

"Eu estava bem consciente de que era agora a escória da humanidade, um marginal, com uma existência descartada e distorcida por minhas próprias escolhas. O álcool, as drogas e aquela cirurgia tornaram-me um inútil para os outros. Eu tinha falhado miseravelmente como o homem que Deus me tinha criado para ser."

Saindo do vale das trevas

Através da ajuda de alguns amigos cristãos, Walt começou uma jornada rumo à cura e à descoberta de sua verdadeira identidade masculina. A primeira chave para vencer a batalha que ardia dentro dele era a sobriedade. Pouco a pouco, ele foi abandonando a bebida e se voltou à religião cristã como nova fonte de força.

Uma vez, durante um momento de oração com seu psicólogo cristão, Walt diz ter experimentado espiritualmente o Senhor, todo vestido de branco, que se aproximou dele com os braços estendidos, abraçou-o com força e disse: "Agora, você está seguro comigo, para sempre". Nesse momento, ele descobriu que só encontraria a cura e a paz que tanto desejava em Jesus Cristo.

Em entrevista a LifeSiteNews.com, Walt conta que aqueles que lutam com sua identidade sexual e acham que a cirurgia de sexo é uma solução "precisam ir a um psicólogo ou psiquiatra, começar uma terapia e cavar bem fundo para investigar o que está causando o seu desejo, porque, nesse assunto, sempre há uma raiz psicológica ou algum caso psiquiátrico não resolvido e que precisa ser explorado".

"É possível levar um ano explorando e tentando entender o que está acontecendo, até que a pessoa aceite o seu sexo e queira viver o projeto que Deus deu preparou para ela", ele diz.

Agora, como um senhor, Walt acredita que, se pudesse voltar no tempo e dar alguns conselhos para si mesmo enquanto jovem, ele diria àquele rapaz imaturo que evitasse a cirurgia de mudança de sexo e procurasse descobrir a raiz oculta em sua vontade de operar-se.

Walt acredita que a sua história testemunha o poder da esperança, ensina que nunca se deve desistir de alguém, não importa quantas vezes ele ou ela caia ou quantas curvas e reviravoltas haja no caminho da recuperação. Acima de tudo – ele diz –, nunca se deve "subestimar o poder de cura da oração e do amor que está nas mãos do Senhor".

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Jovem agnóstico se converte à Igreja Católica através da arte sacra
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Jovem agnóstico se converte à
Igreja Católica através da arte sacra

Jovem agnóstico se converte à Igreja Católica através da arte sacra

"Depois de copiar as pinturas de Rafael e de Fra Angelico, descobri que o que fazia bonitas aquelas obras não era simplesmente a técnica, mas a espiritualidade por trás delas."

Regina MagazineTradução: Equipe Christo Nihil Praeponere22 de Setembro de 2015Tempo de leitura: 6 minutos
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O Papa Bento XVI ensinou, certa feita, que "uma obra de arte pode abrir os olhos da mente e do coração, impelindo-nos rumo ao alto". Foi justamente o que aconteceu com Osamu Tanimoto. Filho de um engenheiro elétrico e de uma dona de casa, esse artista japonês descobriu a Fé enquanto estudava as obras clássicas do Renascimento, em Florença – e se tornou parte de um movimento global de artistas que estão redescobrindo a Igreja Católica.

Confira a seguir trechos de uma entrevista exclusiva concedida por esse jovem pintor ao site Regina Magazine.

O primeiro contato com a arte

Osamu, conte-nos sobre a sua vida no Japão e sobre a relação da sua família com as artes.

Fui criado em Tóquio, o caçula de três irmãos. Meu pai era professor de engenharia elétrica e minha mãe, dona de casa. Meu irmão mais velho é consultor e o outro trabalha em um banco. Minha família não tinha nada a ver com artes. Meu pai, principalmente, não entendia por que eu perdia meu tempo com isso... Era a impressão que ele tinha, até um dia ele perceber que as artes valiam a pena. Não posso culpá-lo por nada, porque toda a arte contemporânea confunde as pessoas e faz com que elas questionem se, afinal, os artistas não são apenas pessoas "fora da caixa" sem qualquer habilidade ou virtude. Eles não parecem pessoas à procura da verdade e da beleza.

Ainda que desde jovem eu fosse sempre entusiasmado com a arte, estudei educação na Universidade de Waseda, em Tóquio, para fazer a vontade do meu pai, que não queria que eu seguisse a carreira de artista.

Depois, mudei-me para a Temple University, para tentar estudar fora e seguir seriamente a profissão artística. Lá, encontrei meu primeiro professor de pintura a longo prazo, Walderedo, que retratou as florestas amazônicas e os americanos nativos. Comecei a reproduzir obras-primas, com as mesmas técnicas que eram utilizadas antigamente, como o afresco, a têmpera de ovo, a ponta de prata etc. No mesmo ano, entrei na nova Academia Russa de Arte, em Florença, para estudar desenho, pintura e composição. Fui treinado na tradição acadêmica russa e graduei-me em 2014 com o meu trabalho de conclusão The Return of the Prodigal Son ("O Retorno do Filho Pródigo"). Hoje, trabalho como professor na Escola de Arte Sacra, desde 2013.

O primeiro contato com a Fé

Vim a Florença atraído pela harmonia das obras renascentistas. Depois de copiar as pinturas de Rafael e de Fra Angelico, descobri que o que fazia bonitas aquelas obras não era simplesmente a técnica, mas a espiritualidade por trás delas.

Aqui, tive a graça de conhecer o escultor irlandês Dony MacManus, que depois se tornou meu padrinho. Foi ele quem me introduziu na história de Jesus Cristo, o homem que era Deus – não como um pregador, mas como um amigo. Muitas coisas que Jesus dizia eram surpreendentes e controversas, e o que a Igreja ensinava me parecia ir contra a corrente. Mas, do fundo do meu coração, eu via que essas coisas estavam certas.

A que você se refere?

Refiro-me a como a Igreja enxerga a relação entre o homem e a mulher no contexto do matrimônio, a como a razão e a fé dão as mãos uma à outra e caminham juntas. O que mais me impressionou e inquietou foi o mistério da Ressurreição. O fato de que qualquer sofrimento valeria a pena e, levado com fé, não deveria apagar a minha esperança, virou todo o meu mundo de ponta cabeça.

No Japão, eu era completamente alheio ao cristianismo. A religião cristã não é algo grande em meu país e, além disso, a sociedade é muito secularizada. Em Tóquio, por exemplo, as pessoas simplesmente nunca ouviram falar de Jesus Cristo. De alguma forma, isso me ajudou, porque, pelo menos, eu não tinha nada contra a Igreja quando escolhi (ou fui escolhido para) ser batizado.

Como a sua família reagiu à sua conversão?

Embora meus familiares não sejam religiosos – provavelmente têm alguma influência cultural do budismo e do xintoísmo –, eles respeitaram bem a minha escolha de conversão. O fato de minha tia também ser uma convertida pode tê-los ajudado a entender a minha decisão. Hoje, sou feliz que eles vejam e se alegrem com minhas pinturas – especialmente "O Retorno do Filho Pródigo" –, ainda que não sejam cristãos.

A arte sacra como caminho de conversão

"O Retorno do Filho Pródigo", óleo sobre tela.

Para você, então, a arte foi um caminho para entender a doutrina cristã?

Sim. Todos aqueles corpos representados na arte sacra me ajudaram a entender o conceito de "Encarnação". Os corpos são templos do Espírito Santo (cf. 1 Cor 6, 19) e o mais belo e nobre projeto criado por Deus.

A Capela Sistina, de Michelangelo, só faz sentido porque celebra a beleza do corpo humano no seu contexto espiritual. É claro que, depois de minha conversão oficial, cinco anos atrás, minha conversão ainda continua. Agora, eu crio obras de arte imitando basicamente a Deus, e isso me faz amadurecer na fé, porque, quando eu pinto um tema religioso, eu rezo mais. Para mim, a virtuosidade na arte e na vida crescem lado a lado.

A arte sacra foi a minha porta de entrada nos mistérios da fé. Ela tocou o meu coração e elevou a minha alma com a sua harmonia. Por exemplo, a "Anunciação", de Pontormo, o modo como o anjo se aproxima, e a doçura da expressão, da postura e das cores de Maria... Dentro dessa linguagem natural das obras de arte, abre-se todo um mundo sobrenatural. Essas pinturas e esculturas, mais do que científicas, são espirituais.

Posso dizer que eu era como o analfabeto na Idade Média – geralmente, eu via as imagens do Evangelho primeiro e só depois lia a passagem e entendia a história. Provavelmente, por entender as coisas visualmente, a arte cristã desempenhou um papel maior em ajudar-me a conhecer os Evangelhos.

A arte sacra como profissão

"Maria Dolorosa", também de Osamu Tanimoto.

Você diz que a sua vocação como artista é "traduzir o Evangelho para a arte de hoje". Quais cenas da Bíblia você tem interesse em pintar?

Quero pintar quantas eu conseguir, uma por uma. A ressurreição da filha de Jairo é um episódio importante para mim porque também é uma história de conversão. Jesus a ressuscitou dos mortos. Ele fez o milagre. Essa é exatamente a experiência que eu tive quando me converti e é essa a beleza que eu quero comunicar. Também há outras realidades envolvidas nessa cena, como a surpresa dos discípulos e a alegria dos seus pais...

Você parece ter gastado um bom tempo pensando nisso...

Para mim, também é importante comunicar a extraordinariedade do evento. É claro, os discípulos tinham confiado no que Jesus estava dizendo e fazendo, mas a reação deles deve ter sido extremamente humana, simples e espontânea. A alegria dos pais da menina deve ter sido o máximo. Vale a pena visualizar especialmente esses aspectos emocionais em torno de Jesus. Eu espero que eles falem ao homem de hoje, aos que querem "ver para crer", como o Apóstolo Tomé quis ver Jesus e tocá-Lo, antes de acreditar que a Sua ressurreição era verdadeira.

A vida como católico em Florença

Como você leva a sua vida hoje, sendo um católico expatriado em Florença?

Estou vivendo em Florença há seis anos e meio. A melhor parte é que há tantas igrejas na cidade, e tantas delas bonitas, que eu posso escolher a qual Missa ir e no horário que quiser.

Ainda que alguns florentinos pratiquem a fé e outros não, a maioria está culturalmente familiarizada com os valores da doutrina da Igreja no cotidiano, como a caridade, a hospitalidade etc. As pessoas estão acostumadas a compartilhar as coisas e isso é bonito. Ao mesmo tempo, a sociedade de Florença é construída em uma ordem hierárquica bem rígida e há uma mentalidade legalista fortemente presente. Apesar disso, de alguma forma, aqui eu me sinto em casa, por causa da minha conversão à Fé.

Toda vez que eu vejo o afresco de Vasari na cúpula da Catedral de Santa Maria del Fiore, eu me lembro do meu batismo. Sei que, na prática, essa não é a minha casa, sou um estrangeiro e sempre serei. Eu me pergunto, porém, onde era a casa de Jesus. Nazaré ou a casa do Seu Pai? Certamente, também lá é o meu lugar.

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Por que tenho que contar os meus pecados a um padre?
Doutrina

Por que tenho que contar os
meus pecados a um padre?

Por que tenho que contar os meus pecados a um padre?

Muitas vezes, a recusa em buscar o sacramento da Confissão nasce de um escândalo tipicamente protestante: certas pessoas não se conformam com o fato de que Deus usa instrumentos humanos para redimir a humanidade.

Equipe Christo Nihil Praeponere21 de Setembro de 2015Tempo de leitura: 3 minutos
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Algumas das objeções que são feitas para não recorrer ao sacramento da Penitência consistem em dizer que "não é necessário contar nossos defeitos para outro pecador" ou que "basta confessar os próprios pecados diretamente para Deus".

Essa recusa em buscar a Confissão nasce de um escândalo tipicamente protestante. Certas pessoas não se conformam com o fato de que Deus usa instrumentos humanos para redimir a humanidade: usou Maria para trazer o Seu Filho ao mundo; usou os Apóstolos para transmitir Seus ensinamentos às nações; e, ainda hoje, usa as mãos dos bispos e sacerdotes – que são os sucessores dos Doze – para trazer a Sua presença e o Seu perdão aos fiéis. Impossível não recordar as passagens dos Evangelhos em que Jesus perdoava os pecados às pessoas, e os escribas, desconfiados, pensavam que Ele blasfemava. Formados na ciência das Escrituras, estes sabiam bem que só Deus podia perdoar os pecados. Ao mesmo tempo, porém, ignoravam não só a divindade de Jesus, como não aceitavam que Ele pudesse conceder o poder do perdão também aos seres humanos (cf. Mt 9, 8).

Foi justamente o que fez Nosso Senhor quando, depois da ressurreição, reunidos os Doze, disse-lhes: "Recebei o Espírito Santo. A quem perdoardes os pecados, serão perdoados; a quem os retiverdes, lhes serão retidos" ( Jo 20, 23). Com isso, Ele confirmava o poder das chaves, dado aos Apóstolos (cf. Mt 28, 16-20), deixando bem claro que "a reconciliação com a Igreja é inseparável da reconciliação com Deus" [1].

É o que diz um belo sermão, que consta num recente Ofício das Leituras, de autoria do bem-aventurado Isaac, abade do mosteiro de Stela [2]. Na Liturgia das Horas, o texto do século XI leva um título sugestivo: Cristo não quer perdoar nada sem a Igreja. O raciocínio desse escritor eclesiástico é bem simples: "Pertence somente a Deus perdoar os pecados", ele escreve. "Mas, tendo desposado o onipotente a fraqueza, o excelso, a humildade, da escrava fez uma rainha; aquela que estava atrás, a seus pés, colocou-a a seu lado".

Tratando Cristo e a Igreja sob a perspectiva da união que existe entre eles – e que São Paulo denomina como um "grande mistério" ( Ef 5, 32) –, o abade Isaac aplica a este "matrimônio" as palavras de Cristo: "O que Deus uniu o homem não separe" (Mt 19, 6), e conclui:

"Portanto, sem Cristo nada pode a Igreja perdoar; nada quer Cristo perdoar sem a Igreja. A Igreja não pode perdoar a não ser ao penitente, isto é, àquele a quem Cristo tocou. Cristo não quer ter por perdoado aquele que despreza a Igreja. (...) Não queiras, pois, tirar do corpo a cabeça, de forma que em parte alguma haja o Cristo total: nem em parte alguma, o Cristo total sem a Igreja nem a Igreja toda sem Cristo em parte alguma. Pois Cristo completo e íntegro, entende-se cabeça e corpo, por isto diz: Ninguém subiu ao céu a não ser o Filho do homem que está no céu (Jo 3, 13). É este o único homem que perdoa os pecados."

Note-se a precisão das palavras: a Igreja não pode ( nihil potest) perdoar sem Cristo; Jesus, ao contrário, sendo Deus, até pode perdoar sem a Igreja, mas não quer (nihil vult) fazer isso. Ninguém põe em discussão que Deus tem potestade para salvar como quer; nenhum católico questiona o fato de que Ele pode perdoar os pecados como bem entende. Porém, quando mandou o Seu Filho ao mundo desposando a miserável carne humana, Ele a escolheu como instrumento de redenção; quando concedeu aos Seus discípulos o "ministério da reconciliação" (2 Cor 5, 18), quis que a remissão dos pecados fosse concedida aos homens pelas mãos frágeis e humanas dos padres da Igreja.

Assim como no tempo de Cristo, nenhum homem tem poder para perdoar os pecados. Quando os sacerdotes católicos repetem, em toda Confissão: "Eu te absolvo dos teus pecados, em nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo", eles agem " in persona ipsius Christi – na pessoa do próprio Cristo". Nas mãos sacerdotais que traçam sobre nós o sinal da cruz, estão as próprias mãos chagadas do Redentor, apagando os nossos pecados e ressuscitando as nossas almas.

Cristo está vivo e atuante na Sua Igreja. Não queiramos separar o que Ele uniu. Aproximemo-nos com confiança do sacramento da Confissão – atendendo ao pedido do Papa Francisco – e recebamos a alegria do perdão e a paz da consciência!

Referências

  1. Catecismo da Igreja Católica, § 1445.
  2. Cf. Sermo 11 (PL 194, 1728-1729).

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Após ver o inferno, atriz alemã desiste da carreira para se tornar eremita
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Após ver o inferno, atriz alemã desiste
da carreira para se tornar eremita

Após ver o inferno, atriz alemã desiste da carreira para se tornar eremita

Uma experiência impressionante mudou radicalmente a vida de Katja Giammona. Saiba o que a fez abandonar as telas de cinema para entrar no silêncio e no escondimento da vida religiosa.

Equipe Christo Nihil Praeponere18 de Setembro de 2015Tempo de leitura: 7 minutos
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O novo livro do jornalista Antonio Socci, Avventurieri dell'eterno (Rizzoli, 2015), apresenta aos leitores o incrível testemunho de Katja Giammona, uma história que – assegura o autor – "tocará o fundo de sua alma".

A entrevista da ex-atriz foi dada com a permissão específica de seu pai espiritual. Para ela, de fato, "retirada do mundo com toda a sua vaidade", os contatos com o mundo externo são extremamente reduzidos, quase inexistentes. A disponibilidade para a entrevista foi dada via e-mail e telefone. Benedita – como hoje se chama, na vida religiosa – só concordou em falar porque sabe que "o seu testemunho pode ajudar a muitos".

Nascida em Wolfsburg, na Alemanha, a 11 de julho de 1975, em uma família de testemunhas de Jeová, Katja foi ensinada desde a infância a ler a Bíblia e acompanhar os pais em sua caminhada religiosa. Mas, ainda no começo de sua adolescência – graças a uma amiga católica e à ajuda de um pastor protestante –, a jovem sentiu o desejo de levar à perfeição o seu batismo, entrando plenamente na Igreja Católica (o batismo das testemunhas de Jeová, recorda Katja, não é considerado válido pela Igreja, porque não é ministrado em nome da Trindade, mas tão somente em nome de Jesus).

Nos anos 90, Katja trabalhou na televisão e no cinema, realizando o sonho de tornar-se uma atriz famosa, seja na Alemanha, seja na Itália. Mas a sua carreira foi definitivamente interrompida porque, como ela mesma explica, "Cristo me queria para si, e que eu vivesse e trabalhasse somente para Ele, e não para fazer carreira para a TV e para o inferno".

Em fevereiro de 2002, estando em Berlim para o Festival Internacional de Cinema, aconteceu algo que mudou radicalmente a sua vida. Em visita à casa de alguns amigos, ela caiu num sono profundo, talvez por um desmaio ou pelo cansaço, indo parar em um pequeno quarto escuro. Naquele lugar, ela viu em torno de si muitas chamas que se elevavam do chão e começou a correr desesperadamente, sem achar uma saída.

Foi uma experiência real e impactante do inferno, a qual, embora tenha durado alguns momentos, pareceu-lhe uma eternidade. Ali, Katja encontrou um demônio disfarçado de jovem, que ria dela, dizendo: "Pode correr, mas daqui você não sai". Mesmo com o corpo intacto, ela sentia dores de queimaduras, um "sofrimento terrível", durante o qual ela chegou a pensar que iria morrer:

Eram sobretudo os pecados contra a castidade que me tinham levado à perdição. (...) O demônio ria do fato de que a minha alma, que procurava o verdadeiro amor, que é Cristo, tinha sido afastada do caminho do seu Reino. Ele me mostrou os rapazes que passaram pela minha vida, ainda que apenas através de uma paquera ou de um pensamento. O nosso bom Senhor Jesus nos ensina, no Evangelho, que é possível pecar só com um olhar ou um pensamento (cf. Mt 5, 28). O ser humano quase sempre se esquece disso.

Sim, porque não entendemos quão loucamente somos amados por Deus, com um amor infinitamente maior que o de qualquer ser humano. Se considerássemos apenas isso, não poderíamos julgar insignificante 'um pensamento'. Quem ama é imensamente vulnerável, pode ser ferido pela pessoa que ama, ainda que só por uma palavra ou um pensamento. (...) Alguém que ama você não se sentiria profundamente ferido, sabendo do desejo que você tem por outra pessoa? E nós achamos que não ferimos o Senhor Deus?

É assim mesmo. Se apenas compreendêssemos quão imensamente somos amados...!

Também ficou profundamente gravado em sua memória o fato de que:

Esses homens, meus amigos, que caminhavam nas chamas, permaneciam ali. O demônio me disse que era ele quem tinha me seduzido através deles. Tinham sido usados por ele. Também notei que havia um ou outro que não ficava naquelas chamas. Isso significava que eles não estavam no inferno, talvez tivessem se confessado dos seus pecados. Mas aqueles outros permaneciam ali. Compreendi que eles já estavam no fogo e, depois, foram enviados a mim para atirar-me nas chamas. O demônio usa especialmente aqueles que já estão em pecado mortal para atirar outras almas no abismo.

Em dado momento, através de uma fenda "aberta" no quarto, Katja viu a sua mãe. Convertida à fé católica há alguns anos, ela havia cultivado o piedoso costume de levantar-se à noite para rezar a coroa de Santa Brígida [1]. O relógio da sala marcava três horas da madrugada e, enquanto sua mãe rezava, Katja suplicava-lhe ardentemente por oração (já que ela "não podia rezar a Deus por si mesma" naquele estado): "Mamma, prega per me! Ti scongiuro, prega per me! – Mamãe, reza por mim! Eu te imploro, reza por mim!"

Benedita conta que, depois de abandonar a seita das testemunhas de Jeová, sua mãe tornou-se uma alma de muita penitência, tendo feito jejuns e vigílias por longos sete anos, até que Deus acolhesse a oferta dela pela sua conversão. Ela também lamenta o fato de que tantas pessoas ignorem ou se esqueçam de rezar pela conversão dos pecadores. "O Senhor me revelou – ela afirma – que, quando Ele salva uma alma, não o faz porque essa pessoa é especial, mas por pura misericórdia. Ele se comove com a oração, com os sacrifícios e com as lágrimas daqueles que imploram misericórdia e salvação para uma alma."

Enquanto estava no inferno, a mãe de Katja não a escutava, mas, mesmo assim, rezava pela filha, como sempre fazia, com devoção e amor maternais – uma oração que a própria filha recusava, porque, ela conta, "para mim eram orações de fanáticos que, em vez de fazer bem, traziam má sorte". Presa naquele quarto infernal, todavia, ela entendeu que não ter ninguém para rezar por ela era "uma verdadeira punição".

Subitamente, então, ela caiu em si e se encontrou de novo em sua cama, imóvel, pálida, e com os lábios "ligeiramente azulados". Os seus amigos estavam ali, espantados, enquanto ela tentava em vão pronunciar alguma palavra – experiência típica de quem acorda de um coma, comenta Socci. O que parecia não passar de um pesadelo, porém, fez a vida de Katja mudar totalmente de rumo.

A experiência do inferno mostrou a Katja a contradição de sua vida: enquanto se dizia católica, a atriz vivia afundada no pecado. Ela acreditava que o pecado não era algo tão sério e dava de ombros para a voz da sua consciência: "Eu era uma pecadora que sequer me dava conta da própria condição. Porque o mundo repete a você que pecados não existem". Mesmo se declarando católica "no papel", a atriz morava junto com o seu namorado, ignorando a gravidade do seu pecado e considerando o seu sentimento de culpa um "fanatismo" herdado das testemunhas de Jeová. A partir daquela noite, ela sentiu a exigência de uma mudança radical na própria vida: terminou o seu relacionamento e fez uma peregrinação a Medjugorje, juntamente com sua mãe, com o propósito sincero de consagrar a sua vida ao serviço do Senhor.

Entre as várias formas de vida consagrada, Katja sentiu que a sua vocação particular era o deserto. Depois de uma experiência na África, no deserto geográfico, entendeu que o verdadeiro deserto que Deus lhe havia preparado era aquele da alma. A essa altura, ela decidiu aposentar-se, "como Maria Madalena aos pés de Jesus", abraçando a vida eremítica e tomando para si o novo nome de Benedita.

Foi assim que Katja abandonou definitivamente sua antiga vida para colocar-se aos pés do Senhor – a exemplo de São Bento, Santo Arsênio e Santo Antão, os quais têm em comum o fato de "terem confiado em Cristo e se entregado completamente a Ele", sem pretensões, sem procurar títulos, riquezas ou fama, sem fazer muitos projetos e racionamentos, mas vivendo "dia após dia a vontade divina".

Sua vocação, Katja explica tê-la aprendido da sua experiência pessoal: a primeira vocação é o batismo, mas, depois, "deve-se estar pronto a deixar tudo e todos, se Cristo chama, como chamou o jovem rico":

A mim, depois de sete anos de sacrifício e oração por parte de minha mãe, foi dada a graça de compreender que não basta ser batizada e ser católica 'no papel' [para salvar-se]. Descobri que Deus é católico, que a sua Igreja é a nossa querida Mãe, que devemos praticar a fé, que devemos observar os mandamentos e que o inferno existe!

"Deus nos conhece e conhece a nossa vocação", ela diz, e isso não é uma "coisa da cabeça ou do próprio gosto, mas algo sobrenatural". É o Espírito Santo que guia, não a razão ou os cálculos humanos. "Não tenhamos a pretensão de ter que entender tudo de Deus. Não devemos entender, mas amar".

Ao fim da entrevista, Benedita lança um apelo: "Aventurar-se com Cristo, acreditem em mim, vale a pena. Abram as portas dos seus corações a Cristo e Ele se revelará a vocês em todo o seu esplendor".

Notas

  1. Quando o texto foi publicado, faltava a informação de que a mãe de Katja se havia convertido à Igreja Católica. Esperamos que essa correção tenha facilitado a compreensão do artigo.

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