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Os desejos santos crescem com a demora
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Os desejos santos
crescem com a demora

Os desejos santos crescem com a demora

Como o amor de Santa Maria Madalena deve inspirar-nos à espera paciente por Nosso Senhor.

Equipe Christo Nihil Praeponere22 de Julho de 2014Tempo de leitura: 3 minutos
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A festa [1] de Santa Maria Madalena é ocasião oportuna para recordar a centralidade do amor no coração do Cristianismo. À parte as várias discussões exegéticas e históricas sobre quem foi Maria Madalena e em que trechos essa personagem aparece nas Escrituras, a cena célebre a que se deve recorrer no dia de hoje é, sem dúvida, a passagem em que Nosso Senhor, já ressuscitado, aparece à santa de Magdala, recompensando a sua espera amorosa junto ao Seu túmulo.

Conta o Evangelho que, “no primeiro dia da semana, bem de madrugada, quando ainda estava escuro, Maria Madalena foi ao túmulo e viu que a pedra tinha sido retirada do túmulo" (Jo 20, 1). Tendo avisado a Pedro e João o acontecido, eles – que “ainda não tinham compreendido a Escritura, segundo a qual ele devia ressuscitar dos mortos" (Jo 20, 9) –, tão somente entraram no sepulcro, “voltaram para casa" (Jo 20, 10).

Tendo partido os Apóstolos, no entanto, não fez o mesmo Maria. O Evangelista diz que ela "tinha ficado perto do túmulo, do lado de fora, chorando" (Jo 20, 11). São Gregório Magno, em comentário a este versículo, sublinha “quão forte era o amor que inflamava o espírito dessa mulher, que não se afastava do túmulo do Senhor, mesmo depois de os discípulos terem ido embora. Procurava a quem não encontrara, chorava enquanto buscava e, abrasada no fogo do seu amor, sentia a ardente saudade daquele que julgava ter sido roubado" [2].

O Papa ensina, a partir dessa atitude de Maria, uma lição valiosa: que só recebem de Nosso Senhor as graças aqueles que as pedem insistentemente e as esperam pacientemente. O amor de Maria, que não se contenta enquanto não contempla a face de Cristo, move-nos a olhar para as demoras de Deus como fonte de salvação e oportunidade para aumentarmos o nosso amor para com Ele.

“Ela começou a procurar e não encontrou nada; continuou a procurar, e conseguiu encontrar. Os desejos foram aumentando com a espera, e fizeram com que chegasse a encontrar. Pois os desejos santos crescem com a demora; mas se diminuem com o adiamento, não são desejos autênticos. (...) Por isso afirmou Davi: 'Minha alma tem sede de Deus, e deseja o Deus vivo. Quando terei a alegria de ver a face de Deus?' (Sl 41, 3)." [3]

São Francisco de Sales, por sua vez, explicando que “quem ama verdadeiramente, quase não tem prazer senão na coisa amada" [4], coloca na boca de Maria Madalena os apelos da esposa do Cântico dos Cânticos: “O meu amado é meu, e eu sou dele" (Ct 2, 16); “Dizei-me, vistes porventura aquele a quem minha alma ama?" (Ct 3, 3). Comentando o mesmo Evangelho, ele destaca que nem o fato de conversar com os anjos pôde consolar o seu coração enamorado: “A gloriosa amante Madalena depara com os anjos no sepulcro, e estes ter-lhe-ão falado em tom angélico, isto é, com suavidade, a fim de apaziguarem o tormento em que se encontrava. Mas ela, chorosa, não encontrou consolo nem nas suas palavras doces, nem no esplendor das suas vestes, nem na graça celeste do seu porte, nem na beleza amável do seu rosto. Pelo contrário, lavada em lágrimas, dizia: 'Levaram o meu Senhor e não sei onde O puseram'." [5]

Mesmo vendo Cristo sob o aspecto de jardineiro, São Francisco de Sales comenta que ela não se pôde contentar. “Cheia da morte do seu Senhor, não deseja flores, pelo que o jardineiro lhe é indiferente; [ela] tem no coração a cruz, os cravos, os espinhos, e procura o seu Crucificado". E o doutor da Igreja empresta a ela estas belas palavras: “Meu caro jardineiro, (...) se por acaso plantastes o meu bem-amado Senhor trespassado, qual lírio amachucado e seco, entre as vossas flores, dizei-me depressa, que eu irei buscá-Lo." [6]

Qual não foi a alegria dessa mulher ao ouvir a voz de Jesus chamando por seu nome! “Ela voltou-se e exclamou, em hebraico: Rabuni! (que quer dizer: Mestre)" (Jo 20, 16).

São Gregório Magno remata: “Era ele quem Maria Madalena procurava exteriormente; entretanto, era ele que a impelia interiormente a procurá-lo" [7]. Se Maria procurava ardentemente o rosto de Deus, era por iniciativa do próprio Jesus que o fazia, o mesmo Jesus que disse: “Ninguém pode vir a mim, se o Pai que me enviou não o atrair" (Jo 6, 44). Se também nós, não ignorando os apelos de Cristo, que bate à porta do nosso coração, nos lançarmos à espera amorosa e paciente diante do sacrário, o lugar em que o sacerdote deposita o seu Corpo glorioso, veremos a face do Senhor. Perseveremos, com confiança, pois “quem perseverar até o fim, esse será salvo" (Mt 10, 22).

Referências

  1. Homilia XXV, 1 (PL 76, 1189).
  2. Ibid., 2 (PL 76, 1190).
  3. Tratado do amor de Deus, V, 7.
  4. Idem.
  5. Idem.
  6. Homilia XXV, 5 (PL 76, 1193).

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A natureza sem a graça
Espiritualidade

A natureza sem a graça

A natureza sem a graça

O triste projeto de um povo que, fingindo ignorar que a natureza humana é decaída pelo pecado original, vive como se Deus não existisse.

Equipe Christo Nihil Praeponere22 de Julho de 2014Tempo de leitura: 3 minutos
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Em sua obra para destruir o “organismo misterioso de Cristo", o inimigo tem querido, nas palavras do Papa Pio XII, “a natureza sem a graça" [1].

De fato, antes mesmo da criação do homem, já se havia manifestado a soberba de Satanás, que queria ser igual a Deus por suas próprias forças. É claro que o demônio não procurava ser como Deus “por equiparação", isto é, transmutando-se na natureza divina. Ele “sabia, por conhecimento natural, ser isso impossível", explica Santo Tomás. Porém, ele queria ter “como fim último a semelhança com Deus, que é dom da graça, (...) pela virtude da sua natureza, e não pelo auxílio divino, segundo a disposição de Deus" [2]. Citando Santo Anselmo, resume o Aquinate que o demônio desejou aquilo que obteria se perseverasse.

É o próprio Tomás quem explica em que sentido o desejo de assemelhar-se a Deus é pecaminoso. Porque se é verdade que o diabo caiu por querer ser como Ele, também é verdade que o próprio Senhor ordenou: “Santificai-vos e sede santos, porque eu sou santo" [3]; e repetiu, pela boca do Verbo encarnado: “Sede, portanto, perfeitos, como o vosso Pai celeste é perfeito" [4]. Ora,

“quem neste sentido deseja ser semelhante a Deus não peca, pois, deseja alcançar a semelhança com Deus na ordem devida, a saber, enquanto tem essa semelhança recebida de Deus. Se, porém, desejasse ser semelhante a Deus por justiça, como por virtude própria e não pela virtude de Deus, pecaria." [5]

Foi deste último modo – “por justiça, como por virtude própria" – que o demônio se quis assemelhar a Deus. E para esse mesmo caminho de morte ele seduziu a humanidade: “No dia em que comerdes da árvore, vossos olhos se abrirão, e sereis como Deus" [6]. Eva, atraída pela aparência do fruto e pelas palavras do tentador, “colheu o fruto", arrebatando-o com violência. A humanidade, feita à imagem e semelhança de Deus, acabava por imitar o diabo, tentando dominar, à força, aquilo que se deveria receber como um dom gratuito do Criador.

Aparentemente, até esta parte da história, o projeto do inimigo de edificar “a natureza sem a graça" tinha alcançado grande sucesso.

Mas, “se pelo pecado de um só toda a multidão humana foi ferida de morte, muito mais copiosamente se derramou, sobre a mesma multidão, a graça de Deus, concedida na graça de um só homem, Jesus Cristo" [7]. O Verbo, existindo em condição divina, “não se apegou ao ser igual a Deus". Nesse trecho da Carta aos Filipenses, São Paulo usa a palavra grega “ἁρπαγμὸν" (lê-se: harpagmón), apresentando um contraste com a atitude dos primeiros pais: enquanto Eva se quis apropriar indevidamente da divindade, o próprio Deus se rebaixou à nossa humanidade, “assumindo a forma de escravo", humilhando-se e “fazendo-se obediente até à morte – e morte de cruz!" [8]. Tudo isso para conceder-nos a Sua filiação divina: “Por natureza só há um Filho de Deus, que, por sua bondade, se fez por nós filho do homem, a fim de que, filhos do homem por natureza, por sua mediação nos tornássemos filhos de Deus por graça" [9].

Se, por um lado, é grande a misericórdia de Deus, por outro, é uma constante na história a tentação de abandoná-Lo e “roubar" o tesouro sobrenatural. A heresia pelagiana, ainda nos primeiros séculos da Igreja, colocou inúmeras pessoas no caminho de uma terrível torre de Babel. Corria-se em busca do Céu, mas se buscava alcançá-lo por esforços puramente humanos.

Hoje, tragicamente, o Céu não é a meta de quase ninguém. Um pouco de sucesso profissional, mais um punhado de prazeres passageiros e uma casa confortável na praia, são o medíocre projeto do homem deste século, que desconhece o significado de “graça", “pecado" ou das mais elementares verdades da fé. Realidade triste que, infelizmente, é passada também aos mais jovens. Está praticamente consolidada entre nós uma educação naturalista, permissiva e liberal, pela qual o ser humano não passaria de um “bom selvagem" e quaisquer atos humanos poderiam ser aceitáveis, desde que acomodados ao terreno já vilipendiado da consciência.

“A natureza sem a graça" é o triste projeto de Satanás – e de um povo que, fingindo ignorar que a natureza humana é decaída pelo pecado original, vive como se Deus não existisse.

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Estar “no mundo” sem ser “do mundo”
EspiritualidadeSociedade

Estar “no mundo” sem ser “do mundo”

Estar “no mundo” sem ser “do mundo”

Todas as atividades, mesmo as de caráter temporal, que se exercem em união com o divino Redentor, se tornam um prolongamento do trabalho de Jesus.

Equipe Christo Nihil Praeponere12 de Julho de 2014Tempo de leitura: 4 minutos
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Recentemente, falando aos membros das emissoras de televisão católicas da Itália, o Papa Francisco voltou a criticar o que chama de “clericalismo" [1], isto é, limitar a ação dos leigos “às tarefas no seio da Igreja", ao invés de penetrar “[os] valores cristãos no mundo social, político e econômico" [2]. Na prática cotidiana, seria colocá-los em funções que deveriam ser exercidas ordinariamente pelos sacerdotes, o que terminaria por obscurecer – quando não por eliminar completamente – a distinção entre a hierarquia e os fiéis.

Para evitar esse mal apontado pelo Santo Padre, nada mais importante que conhecer a identidade e a vocação dos leigos. Qual o papel que exercem dentro da Igreja? Ensina o Concílio Vaticano II:

“Por vocação própria, compete aos leigos procurar o Reino de Deus tratando das realidades temporais e ordenando-as segundo Deus. Vivem no mundo, isto é, em toda e qualquer ocupação e atividade terrena, e nas condições ordinárias da vida familiar e social, com as quais é como que tecida a sua existência. São chamados por Deus para que, aí, exercendo o seu próprio ofício, guiados pelo espírito evangélico, concorram para a santificação do mundo a partir de dentro, como o fermento, e deste modo manifestem Cristo aos outros, antes de mais pelo testemunho da própria vida, pela irradiação da sua fé, esperança e caridade. Portanto, a eles compete especialmente, iluminar e ordenar de tal modo as realidades temporais, a que estão estreitamente ligados, que elas sejam sempre feitas segundo Cristo e progridam e glorifiquem o Criador e Redentor." [3]

A partir dessas palavras, é possível perceber a “vocação universal à santidade" na Igreja. Contrariamente a uma mentalidade de senso comum, não são apenas os clérigos que devem ser santos, mas todos os fiéis. O chamado à perfeição, à união com Cristo pelo amor, acontece primeiramente no Batismo. E, deste sacramento, todos podem (e devem) dar testemunho – inclusive os leigos, que estão no mundo, a fim de conquistarem mais almas para Cristo.

Os fiéis estão “no mundo". Bem antes do Concílio Vaticano II, foi o próprio Jesus quem o observou. Mas, se “eles estão ainda no mundo", também, assim como Ele, “não são do mundo" [4]. Como se dá isso? Não nasceram os homens – e também os cristãos – de pais e mães desta terra? Como entender, então, que não sejam “do mundo"? É simples: o verdadeiro nascimento do cristão acontece no Batismo. É este sacramento que o torna “de outro mundo", como diz Jesus a Nicodemos: “Quem não nascer de novo não poderá ver o Reino de Deus". E ainda: “Quem não renascer da água e do Espírito não poderá entrar no Reino de Deus" [5].

Nascidos do alto, pelo batismo, mas colocados “no mundo", os cristãos são chamados à imitação de Cristo, no meio dos homens. Não é possível, em uma atitude de escapismo, “fugir" do mundo ou da realidade de sofrimento que aflige o homem neste “vale de lágrimas". Nem foi isso que Cristo pediu. Ainda em sua oração sacerdotal, Ele roga ao Pai: “Não peço que os tires do mundo, mas sim que os preserves do mal" [6]. Este “mal", define-o Santa Teresa assim: “Nesta vida, só o pecado merece ser chamado de mal, por acarretar males eternos e para sempre. Isso (...) é o que nos deve encher de temor e o que havemos de pedir a Deus em nossas orações" [7].

Cristo passou a maior parte de sua vida humana no ofício de carpinteiro, na presença de seu pai e de sua mãe, aparentemente “oculto", mas já oferecendo a Sua oblação de coração, que culminaria na Cruz. O próprio Senhor de todo o universo, que lançou sobre Adão e Eva este castigo por seu pecado, veio tirar da terra o seu sustento, com trabalhos penosos [8]. Há dúvida de que, já aqui, ele tomava sobre Si as nossas enfermidades e carregava os nossos sofrimentos [9]? E, se a santidade consiste em seguir o exemplo de Cristo, há dúvida de que é na vida oculta das atividades penosas que devemos nos santificar?

São Josemaría Escrivá, em sua famosa homilia “Amar o mundo apaixonadamente", dizia que “Deus nos espera cada dia" nas “tarefas civis, materiais, seculares da vida humana". E salientava: “Há algo de santo, de divino, escondido nas situações mais comuns, algo que a cada um de nós compete descobrir" [10].

O grande segredo para descobrir Deus no trabalho está na atitude interior de quem labuta. Qualquer serviço pode converter-se em sacrifício, se feito com o espírito de Cristo. Como ensina São João XXIII:

Todo o trabalho e todas as atividades, mesmo as de caráter temporal, que se exercem em união com Jesus, divino Redentor, se tornam um prolongamento do trabalho de Jesus e dele recebem virtude redentora: 'Aquele que permanece em mim e eu nele, produz muito fruto' (Jo 15, 5)." [11]

Que as batalhas travadas de acordo com nossas condições de vida – das quais não podemos fugir – nos façam frutificar e nos tornem, em nossas ocupações, verdadeiros “ministros de Cristo". Sem confundir a vocação laical com o ministério ordenado, mas comprometendo radicalmente a nossa vida, como diz Santo Agostinho:

“Ó irmãos, quando ouvis o Senhor dizer: 'Onde estou eu aí estará também o meu ministro', não deveis pensar somente nos bons bispos e nos bons clérigos. Também vós, a vosso modo, deveis ser ministros de Cristo, vivendo bem, fazendo esmolas, pregando o seu nome e a sua doutrina a quem puderdes, de modo que cada qual, mesmo se pai de família, reconheça dever, também por esse título, um afeto paterno à sua família. Por Cristo e pela vida eterna, ninguém deixe de exortar os seus, e os instrua, exorte, repreenda, demonstrando-lhes sempre benevolência e mantendo-os na ordem; exercerá assim em casa o ofício de clérigo e, de certo modo, o de bispo, servindo Cristo, para com ele permanecer eternamente." [12]

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Um organismo decapitado
EspiritualidadeSociedade

Um organismo decapitado

Um organismo decapitado

Além de tentar arrancar do coração humano as virtudes sobrenaturais infundidas por Deus em sua alma, o trabalho do diabo tem ido além.

Equipe Christo Nihil Praeponere7 de Julho de 2014Tempo de leitura: 3 minutos
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Ainda destrinchando as palavras do Papa Pio XII sobre a lenta e gradual destruição da humanidade, é preciso que nos atentemos às seguintes palavras: “Nestes últimos séculos [o “inimigo"] tentou realizar a desagregação intelectual, moral, social, da unidade no organismo misterioso de Cristo" [1].

A que Pio XII queria se referir, nesse discurso, ao falar do “organismo misterioso de Cristo"? Esse Pontífice, que escreveu a bela encíclica Mystici Corporis, “sobre o Corpo Místico de Jesus Cristo e nossa união nele com Cristo" [2], podia muito bem estar falando da Igreja, que é “muito mais excelente que quaisquer outras sociedades humanas" [3]. Mas, dado o contexto – a desestruturação presente em todo o mundo –, também é provável que tenha querido falar da sociedade humana como um todo.

Mas, por que chamar a sociedade de “organismo misterioso de Cristo"? Porque, como atesta Santo Tomás de Aquino, verdadeiramente, Cristo é cabeça de todos os homens:

“Cristo é a cabeça de todos os homens, mas em graus diversos. Assim, primária e principalmente, é a cabeça daqueles que atualmente lhe estão unidos pela glória. Em segundo lugar, dos que lhe estão unidos pela caridade. Em terceiro, dos que lhe estão unidos pela fé. Em quarto, dos que lhe estão unidos só em potência sem ainda terem sido reduzidos ao ato, mas que a este devem ser reduzidos, segundo a divina predestinação. O quinto, enfim, os que lhe estão unidos em potência e nunca serão reduzidos a ato, como os homens que vivem neste mundo e que não são predestinados. Mas que, partindo deste mundo, deixam totalmente de ser membros de Cristo, por já não poderem ser unidos a Cristo." [4]

Ao assumir a natureza humana, Jesus procurou salvar todos os homens. “Como não há, não houve, nem haverá homem algum cuja natureza não foi assumida por Cristo Jesus, nosso Senhor, assim não há homem algum, não houve, nem haverá pelo qual ele não tenha sofrido", diz uma declaração magisterial do século IX. Mas, como “o cálice da salvação humana", “se não for bebido, não salva" [5], o sacrifício de Cristo, embora útil a todos, pode ser ineficaz, não por defeito do resgate operado por Nosso Senhor, mas por ingratidão dos homens. Por isso, o demônio se esforça por transformar aqueles que receberam, pelos méritos de Cristo, a herança eterna, em rebeldes e moradores do inferno.

Em nossos tempos, porém, além de tentar o homem com a falta de fé, com o desespero e com o ódio, tentando arrancar de seu coração as virtudes sobrenaturais infundidas por Deus em sua alma, o trabalho do diabo tem ido além. A própria seiva natural tem sido impiedosamente sugada de suas veias e passam a ser aceitos comportamentos que, em si mesmos, não só entram em choque com preceitos religiosos, mas com a própria realidade das coisas.

Como não deplorar, por exemplo, que o aborto e a eutanásia sejam amplamente aceitos por legislações civis mundo afora? Como não enxergar na promoção de um “estilo de vida homossexual" uma profunda disfunção cultural, que coloca o prazer acima da própria preservação da espécie? Como não se espantar com o agigantamento descontrolado do “Estado-babá", que não só distribui vales e bolsas aos seus cidadãos – que bem podem ser chamados de súditos –, mas chega a arrogar para si o direito de educar as crianças e os jovens?

O “inimigo", indica o Santo Padre, é “astuto". Obscurecendo a compreensão da lei natural, torna praticamente impossível a obra de evangelização entre os homens. Afinal, como se pode ensinar que Deus é um pai amoroso, que “de tal modo amou o mundo, que lhe deu seu Filho único, para que todo o que nele crer não pereça, mas tenha a vida eterna" [6], se se aceita que uma mãe que mata seu filho permaneça impune ou, pior, receba toda a assistência do Estado para assassiná-lo? Ou se se entrega aos políticos a responsabilidade de criar as crianças, eliminando lenta e gradualmente as figuras paternas e maternas de seus imaginários? Como se podem ensinar as verdades eternas, cujo fio condutor é a Palavra (o λόγος) que “se fez carne" [7], a uma sociedade que sequer entende a finalidade primária do ato conjugal?

Por esses e outros fatos, é preciso concordar com o Papa: está-se diante de uma verdadeira “desagregação intelectual, moral, social, da unidade do organismo misterioso de Cristo" – que chega a parecer “decapitado". A solução é recuperar como guia e senhor Aquele que é “a cabeça de todos os homens" e procurar, com a oração e com a pregação do Evangelho, integrar todos no Corpo Místico de Cristo, que é a Igreja.

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