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O escândalo de uma vida crucificada
EspiritualidadeIgreja Católica

O escândalo de uma vida crucificada

O escândalo de uma vida crucificada

A vida crucificada é loucura para os que se perdem, mas para nós é o poder de Deus.

Equipe Christo Nihil Praeponere6 de Fevereiro de 2014Tempo de leitura: 3 minutos
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Dentre os inúmeros incômodos causados pelo catolicismo ao pensamento mundano – que encontra espaço até mesmo em alguns que tão somente com os lábios dizem ser católicos – talvez não haja um mais perturbante e irritante que a virgindade ou celibato; de fato, dizer com a vida: “Deus existe, entrego-me a Ele de modo total e indiviso", é tão ameaçador para os adversários da moral católica quanto para as trevas uma luz brilhar; ademais, a cruz erguida de tal forma diante dos olhos dos infiéis só pode inspirar desprezo, repugnância e, até mesmo, ódio.

Na virgindade “pelo Reino dos Céus" (Mt 19, 12), a cruz brilha em toda a sua grandeza e beleza; pois, aqueles que optaram pela virgindade pertencem, na radicalidade evangélica, a Jesus Cristo e crucificaram a própria carne com suas paixões e seus desejos (Cf. Gl 5, 24). Virgindade que, como observa Josef Pieper, quer dizer muito mais do que o que comumente pensamos a seu respeito:

Não é um fato, mas um ato; não um estado, mas uma opção. A mera integridade, como fato físico, não é o constitutivo formal da virgindade enquanto virtude, ainda que a integridade possa ser o selo e a coroa da castidade vitoriosa. O ato constitutivo da virgindade como virtude é a resolução, expressa ainda mais profundamente no voto, de abster-se das relações sexuais e do prazer correspondente.[1]

Assim, não é uma realidade simplesmente corporal, física, mas é também uma livre atitude espiritual, uma realidade do coração, uma opção livre por seguir o Senhor em seu Amor de Cruz. Com belíssimas e acertadas palavras, ensinou São João Crisóstomo: “A raiz e o fruto da virgindade é a vida crucificada"[2].

A vida crucificada é raiz porque é dela, da vida mortificada e crucificada com Cristo, que vem o ' sustento' e a 'subsistência', ela é a 'fonte' e 'nascente', da virgindade; e se olhamos para Aquele que é a Vida (Cf. Jo 14, 6), o Crucificado (Cf. Jo 19, 17-18) – a Vida Crucificada –, vemo-lO como o 'sustento', 'subsistência', 'fonte' e 'nascente', por excelência, dessa entrega total de si.

Como fruto, a vida crucificada é o dom, o presente, o deleite da virgindade. A união ao Senhor Crucificado é o anelo da alma desposada com Cristo – “fui crucificado junto com Cristo. Já não sou eu quevivo, mas é Cristo que vive em mim. Minha vida presente na carne, vivo-a pela fé no Filho de Deus, que me amou e se entregou a si mesmo por mim" (Gl 2, 19-20). Que glória maior há do que essa união crucificada? Jesus é a Vida com as marcas da cruz, o Cordeiro Imolado, mas de pé (Ap 5, 6). A cruz, para nós católicos, “é força de Deus" (1Cor 1, 18; Fl 3, 18-19).

O Papa Francisco, em discurso ao episcopado brasileiro, afirmou com belíssimas palavras: “Mas haverá algo de mais alto que o amor revelado em Jerusalém? Nada é mais alto do que o abaixamento da Cruz, porque lá se atinge verdadeiramente a altura do amor!"[3]. E Bento XVI, magistralmente, ensinou: “A cruz é o ato do 'êxodo', o ato do amor, que é tomado a sério até o extremo e que vai 'até o fim' (Jo 13, 1), e por isso é o lugar da glória, o lugar do toque autêntico e da união com Deus, que é amor (1Jo 4, 7.16)"[4].

Diante de tamanha grandeza, quem vive a virgindade, celibato, compreende que, além de ser virtude essa vida crucificada, muito mais do que “ter feito um dom", um grande sacrifício a Deus, é perceber que recebeu um grande dom de Deus[5], uma vocação. E esse grande Dom, só é capaz “de compreendê-lo" aquele “a quem isso é dado" (Mt 19, 11-12)[6].

Compreende-se, assim, o escândalo[7] e a irritação causados pela virgindade àqueles que vivem etsi Deus non daretur (como se Deus não existisse). A virtude e dom da Virgindade desmascara a “cegueira de espírito, [...] o amor desordenado de si mesmo, o ódio a Deus, o apego a esta vida e o horror à futura"[8], próprios daqueles que vivem sob o senhorio da luxúria e levantam seu estandarte; esses, são semelhantes ao demônio que é torturado por essas vidas crucificadas com Cristo e investe de todas as formas para destruí-las.

Contudo, para todos os homens de boa vontade, a Virgindade é um grande presente de Deus, um grande dom. Que também o seja para nós! Que a Virgindade vivida por tantos santos e santas da Mãe Igreja, e ainda hoje por tantos clérigos, irmãos e irmãs de vida consagrada, arranque-nos de nossa luxúria e, assim, cercados por tamanha “nuvem de testemunhas" (Hb 12, 1) e intercessores, abracemos a nossa cruz e sigamos a Jesus.

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O crucificado que nos trouxe Deus
Igreja Católica

O crucificado que nos trouxe Deus

O crucificado que nos trouxe Deus

Somente na fé católica a crucificação de Cristo tem sentido, pois nela é que se encontra o verdadeiro "Jesus histórico"

Equipe Christo Nihil Praeponere3 de Fevereiro de 2014Tempo de leitura: 4 minutos
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Desde que Rudolf Bultmann decretou que não se pode crer na ressurreição depois da lâmpada elétrica, o número de interpretações malucas que surgiram sobre a Pessoa de Cristo é algo que não está no gibi[1]. Imagina-se de tudo: Jesus marxista, Jesus operário, hippie, camarada e tutti quanti. Nessa brincadeira, só não há espaço para uma única interpretação: a que está no Magistério da Igreja.

Essa tendência mais ou menos crítica de se desconfigurar o rosto tradicional de Jesus acentuou-se, segundo o Papa Bento XVI, a partir dos anos 50. Trata-se de uma cisão entre o "Jesus histórico" e o "Cristo da fé". Haveria um abismo enorme entre um personagem e outro. Cristo seria apenas uma invenção da comunidade primitiva, não tendo nada que ver com a salvação e a remissão dos pecados. Jesus, em tese, seria apenas um revolucionário à sua maneira, um reformador social. Alguém que viera contestar o status quo, abrindo caminho para as futuras revoluções do povo judeu e, por conseguinte, do "Povo de Deus". Todavia, bem observa o Papa Emérito, "quem lê várias destas reconstruções, umas ao lado das outras, pode rapidamente verificar que elas são muito mais fotografias dos autores e dos seus ideais do que reposição de um ícone, entretanto tornado confuso"[2].

Não é de se admirar que vários desses teólogos que propõem uma tal interpretação cristológica padeçam do mesmo complexo antirromano de Lutero. Por fim, quem começa negando a Igreja termina negando Deus. A bem da verdade, são homens que perderam a fé e que, cada vez mais, se submetem ao dogma do mundo moderno, no qual Deus não tem importância nem espaço. Eles se renderam à proposta racionalista, à pompa do criticismo e, em última análise, à sedução do Anticristo que, na expressão de Soloviev, é doutor honoris causa em teologia[3]. Satanás, mais do que ninguém, é o primeiro a usar a bíblia para tentar o Senhor: "Se és o Filho de Deus, ordena que estas pedras se transformem em pão" (Mt 4, 3). Nesse desafio, esconde-se a hipocrisia de quem, querendo assumir o lugar de Deus, põe-se a derrubá-Lo de Seu trono, como uma pedra de tropeço, "um estorvo", "porque os teus pensamentos não são de Deus, mas dos homens" (Cf. Mt 16, 22). Assim, Jesus torna-se uma figura "pouco plausível, remota, obscura e esquisita, alguém que falava numa língua estranha e que morreu há muito tempo"[4], não tendo mais nada a nos dizer ou ensinar.

E é óbvio que uma figura dessa estirpe não merece o nosso culto. O Cristo desenhado por esses teólogos inspira pouquíssima devoção. n'Ele não se encontra a beleza do transcendente, mas a máscara das ideologias, que, em última análise, não passam de sistemas derivados de programas destrutivos. Quem olha para este Jesus não olha para o Pai, como atestam as Escrituras. Pelo contrário, é o rosto sombrio da mentira o que se enxerga. E se Cristo deixa de ser divino para ser tão somente político, também o seu culto deixa de ser a participação no seu Sacríficio da Cruz - em que o fiel presta sua adoração, contrição e ação de graças - para se converter num passatempo ou, pior ainda, numa convenção de facções ideológicas.

Com efeito, a crítica que muito se faz à liturgia da Igreja é, na verdade, um ataque ao coração de Deus. Na base de tudo encontra-se um ateísmo politizado que transforma a teologia em um campo de ação: não há motivo para se cultuar Deus, para prestar-lhe nossa devoção; o homem deve ser o seu princípio, meio e fim, o homem deve se autocultuar. Trata-se, então, da mesma repulsa de Pedro diante do mistério da cruz. Não se quer a dor, não se quer o sacrifício, somente o bem-estar, o conforto material. "Se és o Filho de Deus…", repete-se o desafio. Por outro lado, quando lançamos um olhar sincero sobre essa mentalidade, percebemos que tudo se encaminha para muito longe do paraíso: "Ela julgava poder transformar pedras em pão, mas gerou pedras em vez de pão".[5]

Esse progressismo adolescente, ao qual o Papa Francisco já lançou duras condenações, transgride a fidelidade; "essa gente, movida pelo espírito do mundo, negociou a própria identidade, negociou a pertença a um povo, um povo que Deus ama tanto, que Deus quer como seu povo"[6]. Ser fiel ao ministério de Jesus tal como está descrito no Evangelho e, obviamente, no Magistério da Igreja não significa acreditar em "algo mítico, que pode ao mesmo tempo significar tudo e nada"[7]; é precisamente o contrário, é lançar-se com firmeza à única certeza que dá sentido à nossa existência, significa olhar para o crucificado, no qual encontramos "a própria bondade de Deus, que se dá nas nossas mãos, que se entrega a nós e que, por assim dizer, suporta conosco todo o horror da história."[8] Cristo, portanto, mais do que nos dar bem-estar, conforto e paz, veio fazer algo muito maior: Ele veio nos trazer Deus!

"Somente por causa da dureza de nosso coração é que pensamos que isso seja pouco"[9]

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A ponta do iceberg
Sociedade

A ponta do iceberg

A ponta do iceberg

Todos fariam um grande favor a si mesmos, às suas famílias e ao Brasil se, na hora da novela, desligassem seus televisores, acendessem uma vela e rezassem o Terço.

Equipe Christo Nihil Praeponere3 de Fevereiro de 2014Tempo de leitura: 3 minutos
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Recentemente, duas pesquisas científicas comprovaram a ligação direta que existe entre a audiência das novelas da Rede Globo, as crescentes taxas de divórcio e a queda da natalidade nas famílias brasileiras[1]. Aquilo de que já se suspeitava há muito tempo foi confirmado: as telenovelas globais exercem uma grande influência no comportamento das pessoas.

Na semana passada, mais uma telenovela serviu de palco para "forçar limites morais", como escreveu um jornalista, na Folha de São Paulo[2]. Pelos comentários de vários telespectadores nas redes sociais, parece que, infelizmente, a armadilha funcionou, mais uma vez. Após o entusiasmo com a trama de uma dupla de homossexuais que, entre outras coisas, recorreu à inseminação artificial para "produzir" um filho, o pedido para ver um "beijo gay" no final da última novela das oito foi reiterado por inúmeras pessoas. E, mesmo depois de alcançado o seu intento, muitos não se contentaram com o que viram, alegando que o beijo teria sido "morno demais".

Sem dúvida, a melhor forma de filtrar essas coisas está na mão de cada família: chama-se controle remoto. As pessoas são livres para escolher ao que querem ou não assistir na televisão. No entanto, comprovada a relação entre as telenovelas e as mudanças sociais no Brasil, ninguém pode ignorar que aquilo que é exibido nas telas da TV não ficará, simplesmente, na televisão. Aquilo que a Globo exibe para muitas pessoas ou famílias desatentas irá refletir, de algum modo, nas opiniões que elas possuem, nas conversas que elas mantêm e nos ambientes que elas frequentam. E isso afetará toda a sociedade, na qual estão incluídas até mesmo as pessoas que louvavelmente se recusam a dar audiência às novelas globais.

É mesmo preciso dizer o que estava por trás do "beijo gay"? Diante da oposição de boa parte da população brasileira não só ao chamado "casamento homoafetivo" como ao próprio ato homossexual, a novela "Amor à Vida" foi uma tentativa clara de minar essa resistência. Apelando a recursos sentimentais, os produtores da trama – não temendo a condenação do profeta que lamenta "aqueles que ao mal chamam bem" e "tornam doce o que é amargo" (Is 5, 20) – recorreram à mesma estratégia que facilitou a legalização do divórcio no Brasil, há 40 anos: trocar o verdadeiro amor à pessoa humana pela aceitação de uma conduta imoral; transformar a preocupação com o pecador em um perigoso conformismo com o pecado.

A confusão que resulta dessa mentalidade é evidente: quando uma pessoa prefere "rótulos" referentes à sua conduta sexual àquilo que ela realmente é – ser humano, filha de Deus –, a sua verdadeira dignidade é escondida e dá lugar a uma desfiguração:

"A pessoa humana, criada à imagem e semelhança de Deus, não pode definir-se cabalmente por uma simples e redutiva referência à sua orientação sexual. Toda e qualquer pessoa que vive sobre a face da terra conhece problemas e dificuldades pessoais, mas possui também oportunidades de crescimento, recursos, talentos e dons próprios. A Igreja oferece ao atendimento da pessoa humana aquele contexto de que hoje se sente a exigência extrema, e o faz exatamente quando se recusa a considerar a pessoa meramente como um 'heterossexual' ou um 'homossexual', sublinhando que todos têm uma mesma identidade fundamental: ser criatura e, pela graça, filho de Deus, herdeiro da vida eterna."[3]

É lamentável que muitos católicos, enganados por esse pensamento reducionista, se tenham prestado ao papel patético não só de dar ibope à novela, como de pedir ou aprovar o "beijo gay", ignorando – ou fingindo ignorar – que essa é apenas a ponta de um iceberg. Desse modo, fazem lembrar a condenação do Apóstolo que, reprovando as práticas homossexuais, lamentou a atitude daqueles que "não somente as praticam, como também aplaudem os que as cometem" (Rm 1, 32).

Mas, ainda que "Amor à Vida" não tivesse mostrado nenhum "beijo gay", ainda que não tivesse reforçado a difusão do lobby homossexual: ainda assim, teria sido um tremendo desamor à vida e à família assisti-la. As telenovelas estão, a todo momento, "forçando limites morais", especialmente quando exibem, de modo constante, cenas de sexo mais ou menos explícitas. Com isso, elas tiram o sexo da intimidade conjugal dos esposos e dizem às pessoas que é normal ter sexo com qualquer um, a qualquer hora e em qualquer lugar, estimulando, assim, uma lenta, porém eficaz, "pornografização" da sociedade[4].

Voltemos ao controle remoto: todos fariam um grande favor a si mesmos, às suas famílias e ao Brasil se, na hora da novela, apagassem seus televisores, acendessem uma vela e rezassem o Terço em família, rogando a Nossa Senhora Aparecida que tenha misericórdia desta Terra de Santa Cruz.

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A obra da redenção de Cristo na Igreja
EspiritualidadeIgreja Católica

A obra da redenção de Cristo na Igreja

A obra da redenção de Cristo na Igreja

Participamos da obra da redenção de Cristo à medida que nos deixamos tocar pela mediação da Igreja.

Equipe Christo Nihil Praeponere31 de Janeiro de 2014Tempo de leitura: 5 minutos
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O Verbo de Deus se fez carne para, rasgando o "véu do templo (...) em duas partes de alto a baixo" (Cf. Mt 27, 51), "abrir os olhos aos cegos, para tirar do cárcere os prisioneiros e da prisão aqueles que vivem nas trevas" (Cf. Is 42, 7).

A promessa divina ao Povo de Israel falava de um novo Moisés, um profeta que, a exemplo do primeiro, fosse capaz de falar "face a face" com o Senhor. Mas, de maneira bastante singular, esse novo Moisés não só veria o rosto de Deus verdadeiramente, como também viveria na mais perfeita relação filial. Se, portanto, no primeiro se encontrava apenas a sombra do Altíssimo - uma vez que de Deus pôde ver somente as costas (Cf. Ex 33, 23) -, no segundo, revela-se o rosto bondoso do Pai. Em Cristo, Deus já não é mais um estranho; é um amigo que, entregando-se completamente na cruz, arranca o homem das trevas e o introduz no mistério do amor. No sacrifício do madeiro, derrama-se o sangue da redenção, cuja única gota "faz salvar todo o mundo e apagar todo o pecado"[1]. Cristo veio à Terra para trazer Deus: "Ele trouxe aos povos da terra o Deus cujo rosto lentamente tinha antes desvelado desde Abraão passando por Moisés e pelos profetas"[2].

Foi inspirado por isso que Santo Tomás de Aquino escreveu na Suma Teológica aquele belíssimo texto, cantado na liturgia do Sábado Santo, durante a bênção do círio pascal: "Ó feliz culpa, que mereceu tal e tão grande Redentor". Eis a graça do Senhor que faz dos abismos da humanidade caminhos para a salvação. Vendo a condição de sua criatura, escravizada pelas correntes do mal, não a abandonou à própria sorte, mas - amando-a de tal maneira - enviou seu próprio Filho "para que todo o que n'Ele crer não pereça, mas tenha a vida eterna" (Cf. Jo 3, 16). O pecado, ao mesmo tempo em que rompe a relação de amizade com Deus, suscita a busca misericordiosa do Pai. Ele parte atrás do filho que se machucou, desce até mesmo aos infernos, "vai procurar Adão, nosso primeiro pai, a ovelha perdida.": "Quer ir visitar todos os que se assentaram nas trevas e à sombra da morte. Vai libertar de suas dores aqueles dos quais é filho e para os quais é Deus: Adão acorrentado e Eva com ele cativa"[3].

Com efeito, a obra da redenção de Cristo começa desde a manjedoura. Para que pudesse redimir a humanidade, era necessário que Ele experimentasse todo o drama do homem, bem como suas angústias e alegrias, seus medos e suas esperanças. Jesus toca toda a nossa existência. E, por isso, faz-se igual a nós em tudo, exceto no pecado. Chora perante a dor de uma perda - como na morte de Lázaro -, enfurece-se diante da hipocrisia dos homens - empunhando o chicote para bater nos vendilhões do templo -, sente fome no deserto, unindo-se ao desespero de tantos que ainda hoje vivem essa mesma miséria. Enfim, Cristo consagra-se a si mesmo: "Eu consagro-me por eles, para eles serem também consagrados na verdade" (Cf. Jo 17, 19). Em virtude disso, cada cristão é chamado a contribuir nesta mesma obra, completando em sua própria carne as dores que faltaram na paixão de Jesus. E esta obra redentora de Cristo -- lembrava o Papa João Paulo II -- " deve ser participada pelo mundo pela mediação da Igreja"[4].

A missão da Igreja é anunciar Cristo, fazer-se portadora da sua mensagem, em meio as tantas dificuldades que o mundo de hoje apresenta. Essa missão obedece uma ordem: "O pão é importante, a liberdade é mais importante, mas o mais importante é a adoração"[5]. Precisamente por isso que ela não pode rebaixar a sua ação pastoral à de uma "ong piedosa"[6]. Em primeiro lugar deve estar o anúncio, a entrega da Palavra de Deus. Cristo e Igreja somam um único Corpo, e é somente neste corpo que o homem pode encontrar sossego, pode encontrar a salvação, "porque nos fizeste para ti, e nosso coração está inquieto enquanto não encontrar em ti descanso."[7] Parece absurdo que a Igreja tenha que se preocupar primeiro com a mensagem, depois com alimento. Diante de uma criança faminta que pede esmola na rua, pode representar até mesmo certa crueldade. Mas é justamente o contrário; é por se preocupar com a fome que a Igreja presta o devido culto a Deus, pois "onde esta ordem dos bens não for respeitada, mas invertida, não haverá nenhuma justiça, não haverá mais cuidado com os homens que sofrem; mas precisamente aí o domínio dos bens materiais será desorganizado e destruído"[8]. A verdadeira caridade nasce do alto da cruz, nasce do sacrifício - a Palavra de Deus é o verdadeiro alimento, "o pão descido do céu" (Cf. Jo 6, 51). O roubo, por sua vez, nasce justamente da inversão desses valores, transformando Deus em um objeto secundário. A esse respeito, ensinava Bento XVI:

[...] Trata-se do primado de Deus. Trata-se de O reconhecer como realidade, como a realidade sem a qual nada mais pode ser bom. A história não pode ser regulada longe de Deus por estruturas simplesmente materiais. Se o coração do homem não for bom, então nada pode tornar-se bom. E a bondade do coração só pode, em última instância, vir daquele que é bom, que é o bem em si mesmo[9].

O exemplo de São Francisco de Assis, Dom Bosco e Madre Teresa de Calcutá nos dá essa certeza. Estes homens e mulheres santos só fizeram o que fizeram pelos pobres porque antes se entregaram totalmente a Deus, passando horas a fio à frente do sacrário. Quanto nos penaliza, portanto, "que muitos participem tão friamente na obra da Redenção de Cristo"[10]. Há-de se lamentar, obviamente, da "sujeira" que há na Igreja, do modo como "se abusa do Santíssimo Sacramento", de como se abusa "da sua presença", a "traição dos discípulos, a recepção indigna do seu Corpo e do seu Sangue é certamente o maior sofrimento do Redentor, o que Lhe trespassa o coração"[11]. Quando a Igreja, por alguma razão, deixa de anunciar Jesus, ela se converte em um instrumento do Anticristo, "confessa o mundanismo do diabo", "o mundanismo do demônio"[12]. Deveríamos pensar muito bem nisso antes de reclamarmos da riqueza da liturgia, da sua beleza e ornamentação. Judas terminou numa forca, trocando Cristo por algumas moedas de prata e reclamando do perfume que havia sido usado para lavar os Seus pés: "Por que não se vendeu este bálsamo por trezentos denários e não se deu aos pobres" (Cf. Jo 12, 5). Não é mero acaso que as experiências revolucionárias dos dois últimos séculos tenham também terminado em grandes forcas: "Dizia isso não porque ele se interessasse pelos pobres, mas porque era ladrão e, tendo a bolsa, furtava o que nela lançavam" (Cf. Jo 12, 6).

A Igreja, seguindo os passos de Cristo, existe para frear o avanço do inferno na Terra. Quem está nela está em Cristo. E somente quem está em Cristo pode enxergar a face bondosa do Pai, na qual se revela Sua obra redentora, a loucura do seu amor: a vitória da cruz!

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