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Liturgia das Horas, uma “escola de oração”
Liturgia

Liturgia das Horas,
uma “escola de oração”

Liturgia das Horas, uma “escola de oração”

O que é a oração das Horas canônicas e por que ela é tão importante, não só para os padres e religiosos, mas para todos os católicos? Conheça nesta matéria sete razões para começar a rezar a Liturgia das Horas — e transformar isso num hábito para a sua vida.

Equipe Christo Nihil Praeponere19 de Fevereiro de 2021Tempo de leitura: 15 minutos
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Nosso Senhor mandou a seus discípulos que rezassem sem cessar. E embora muitos deles, durante os dias da vida terrestre de Cristo, não tivessem conseguido vigiar com Ele e cumprir esse mandato com toda a fidelidade, o Espírito Santo cuidaria de ensinar-lhes esse ofício e, século após século, inspirar os sagrados pastores, seus sucessores, para que tirassem do tesouro das Escrituras coisas velhas e novas.

A Liturgia das Horas nasce justamente do coração orante dos discípulos de Jesus. Constitui primeiro um ato da Igreja de imitação do seu Esposo, que não deixou de rezar jamais, em privado e no Templo, em seu ministério público e no ápice de sua missão. Ao rezar as Horas canônicas, o Corpo dos fiéis se une à sua Cabeça mística, pois, na verdade,

a dignidade da oração cristã tem sua raiz na participação da mesma piedade do Unigênito para com o Pai e daquela oração que lhe dirigiu durante sua vida terrena e que agora continua, sem interrupção, em toda a Igreja e em cada um de seus membros, em nome e pela salvação de todo gênero humano (Instrução Geral sobre a Liturgia das Horas [IGLH], n. 7).

Isso significa que, seja qual for a oração que façamos, importa que sempre a façamos “por Cristo, nosso Senhor”. É por isso que o santo Rosário tem como eixo os mistérios da vida de Jesus; é por isso que as ladainhas sempre terminam com uma oração que o menciona; é por isso que a prece mais rezada pelos católicos, a Ave-Maria, tem no centro justamente o santíssimo nome de nosso Salvador. As nossas devoções só têm sentido se feitas “por Cristo, com Cristo e em Cristo”. Ele é o centro: é tornando-nos um com Ele que podemos nos dizer verdadeiramente cristãos.

Além dessas muitas orações privadas que podemos fazer, no entanto, existe também a oração pública da Igreja, em sua liturgia. E é justamente aqui que entra, junto com a Santa Missa, a Liturgia das Horas.

Mas por que mesmo a oração das Horas canônicas é tão importante? E por que ela deveria ser rezada não só por clérigos e religiosos, mas por todo o povo de Deus? É o que queremos apresentar a seguir: sete razões, simples, para que também você comece a rezá-la — e não só agora, na Quaresma, mas por toda a sua vida.

Estamos em guerra!

Por que a Liturgia das Horas?! Primeiro, porque estamos num combate espiritual e, se há uma coisa que os Salmos lembram o tempo todo, é isso. Escritos em sua maioria pelo rei Davi, essas orações estão intimamente ligadas aos percalços de sua vida como guerreiro e governante. A todo instante acossado por inimigos, ameaçado por povos estrangeiros, perseguido por membros de sua própria família, Davi travou numerosas batalhas, e no meio delas elevava confiante sua voz a Deus, pedindo-lhe que o ajudasse e livrasse do mal: 

O inimigo persegue a minha alma,
ele esmaga no chão minha vida
e me faz habitante das trevas,
como aqueles que há muito morreram.
Já em mim o alento se extingue,
o coração se comprime em meu peito (Sl 142 [143], 3s)!

Trechos como este estão hoje à inteira disposição da Igreja e de nós, que somos os seus membros, na luta contra os demônios e contra as pessoas e instituições que neste mundo, infelizmente, fazem as vezes deles e os representam. Falando, a propósito, das imprecações tantas vezes contidas nos Salmos (e que já tivemos a oportunidade de comentar aqui), D. Estêvão Bettencourt ensina o seguinte:

Para o cristão…, mesmo as imprecações mais veementes do saltério tomam valor cristão. Não há dúvida, o discípulo de Jesus tem por lei “amar os inimigos, orar pelos que o perseguem” (Mt 5, 39.44). Sem, porém, derrogar ao amor dos homens, ele pode, e deve, devotar ódio ao pecado e ao reino de Satanás; deve desejar a extirpação completa deste potentado e dos seus baluartes, baluartes que, em parte, são as tendências desregradas da própria natureza humana, em parte são tudo que há de mal disseminado em torno de nós. Que o cristão, pois, reze os salmos imprecatórios, tendo em vista os vícios e as instituições hodiernas inimigas do reino de Cristo, todas as instituições e seitas que se esforçam por disseminar o erro e o pecado no mundo. E contra tais esteios do mal não hesitará em proferir os salmos imprecatórios, do íntimo do coração, com a plenitude do seu amor para com Deus e o próximo [1].

Ou seja, a batalha do cristão não é apenas “contra os espíritos malignos nos ares” (Ef 6, 12). Na verdade, vai-se firmando, cada dia com mais clareza, uma espécie de encarnação do mal nas instituições, contra a qual também precisamos dirigir as nossas energias. Diante de um sistema a nível global que ataca a nossa fé, procura tirar as nossas liberdades, contaminar as nossas famílias, fazer uma verdadeira “lavagem cerebral” em nossos filhos, é preciso retomar a consciência de que somos Igreja, e Igreja militante

Sim, nós temos inimigos, mas não porque sejamos maus, violentos ou vingativos. O simples fato de amarmos Jesus e procurarmos seguir os seus Mandamentos é motivo suficiente para que o mundo nos odeie e persiga. Não sejamos, pois, ingênuos: estamos em guerra!

Sentimentos desordenados

Os nossos piores inimigos, porém, continuam sendo... nós mesmos. O mundo pode nos cercar de todos os lados, os demônios podem investir contra nós com todas as suas forças. Mas absolutamente ninguém tem o poder de nos arrastar ao pecado. Só nós, com o mau uso de nossa liberdade, podemos voltar as costas para Deus.

É, pois, porque temos os nossos sentimentos desordenados, em segundo lugar, que precisamos com urgência rezar a Liturgia das Horas. 

O rei Davi experimentou ao longo de sua vida todos os mesmos sentimentos que nos movem: amor e ódio, dor e prazer, alegria e tristeza, desespero e esperança, temor e coragem. Nenhuma dessas paixões escapou à consideração do salmista. Ao direcioná-las todas a Deus em oração, porém, essas realidades são ordenadas e “remediadas” por Ele

A verdade é que não podemos ficar simplesmente à mercê do que sentimos ou deixamos de sentir. Diferentemente dos animais, para os quais o instinto é um comando, nós podemos freá-lo e regular o nosso interior: 

Não queira ser semelhante ao cavalo,
ou ao jumento, animais sem razão;
eles precisam de freio e cabresto
para domar e amansar seus impulsos,
pois de outro modo não chegam a ti (Sl 31 [32], 8s).

Muitas pessoas não têm disciplina na oração, por exemplo, porque estão à mercê de gostos e de seu estado emocional: se não estão “com vontade”, não rezam, e enquanto a tal “vontade” não vem, ficam sem rezar. Isso pode durar dias, semanas, meses… Enquanto isso a vida passa, e nós ficamos longe de Deus.

A oração das Horas canônicas tende a remediar esse problema, na medida em que nos “obriga” a parar, de alguma forma, para que rezemos em momentos específicos do dia. Pois não podemos nos dirigir a Deus só quando estamos com ânimo e entusiasmo. Muito pelo contrário: nossa oração — como dito no início deste texto — deve ser perseverante, seja qual for a circunstância em que nos encontremos. Ao nos colocarmos diante de Deus para pronunciar os Salmos que desde sempre os seus filhos recitam, vamos nos surpreender em ver como eles “tocam” a nossa vida, lidando inclusive com a nossa mornidão e desânimo: 

Por que te entristeces, minh’alma,
a gemer no meu peito?
Espera em Deus! Louvarei novamente
o meu Deus Salvador (Sl 42, 5)!

Das profundezas, eu clamo a vós, Senhor,
escutai a minha voz (Sl 129, 1)!

O tempo consagrado a Deus

Afinal de contas, precisamos começar a fazer no tempo o que faremos por toda a eternidade, em terceiro lugar

Quem quer que comece a rezar a Liturgia das Horas facilmente se surpreende com a quantidade de “tempo perdido” que tinha antes de começar esse bom hábito. Nós nos iludimos muito com mil passatempos inúteis, e acabamos gastando boa parte do dia neles. Redes sociais, filmes e seriados na TV, conversas inúteis em WhatsApp e outros aplicativos de mensagens: se somarmos todo o tempo gasto com essas coisas, perceberemos o quanto andamos dispersos e desfocados, e como aquela história de que “não tínhamos tempo” para rezar não passava, na verdade, de desculpa esfarrapada.

A oração das Horas canônicas é, de fato, um prelúdio da vida eterna, onde só viveremos para amar e adorar a Deus. Ao nos levantarmos, rezamos as Laudes. No meio dos nossos trabalhos, a Hora média. O Sol se põe, é hora das Vésperas. Ao repouso precedem as Completas. Deste modo, toda a nossa vida é ritmada com esse louvor incessante a Deus

Essa consagração do tempo é importante porque, embora estejamos no tempo, somos da eternidade. Não fomos feitos para este mundo, para as coisas caducas aqui desta terra. Mas facilmente podemos cair nessa ilusão. A Liturgia das Horas age justamente como uma prevenção. Como ela nos mantém em contato contínuo com Deus, é um lembrete perene de que nossa alma precisa suspirar por Ele:

Sois vós, ó Senhor, o meu Deus!
Desde a aurora ansioso vos busco!
A minh’alma tem sede de vós,
minha carne também vos deseja,
como terra sedenta e sem água (Sl 62 [63], 2)!

Com isso, a oração das Horas canônicas também nos prepara para receber melhor o sacramento da Eucaristia, em quarto lugar. Pois quem não sabe que um alimento se torna muito mais saboroso quanto maior for o nosso desejo de comê-lo?

A salvação das almas

Em quinto lugar, mas nem por isso menos importante: precisamos santificar a nós e aos que estão sob os nossos cuidados

Quem reza a Liturgia das Horas nunca está sozinho: sua voz se faz uma com a de toda a Igreja. E, se é verdade que por muito tempo essa oração foi identificada apenas com os padres e religiosos — naturalmente, já que essas pessoas estão obrigadas por voto a rezá-la —, o Concílio Vaticano II deu um grande incentivo a que também os leigos a rezassem. (Convenhamos que o uso do vernáculo tornou muito mais acessível o Ofício Divino. O antigo era feito todo em latim, e nem todos têm aptidão, tempo e facilidade para aprender esse idioma e rezar nele.) Por isso, a Instrução Geral da Liturgia das Horas dispõe que: 

Os grupos de leigos, em qualquer lugar em que se encontrem reunidos, são convidados a cumprir essa função da Igreja, celebrando parte da Liturgia das Horas, seja qual for o motivo pelo qual se reuniram: oração, apostolado ou qualquer outra razão. Convém que aprendam a adorar a Deus Pai em espírito e verdade, antes de tudo na ação litúrgica, e tenham presente que, mediante o culto público e a oração, atingem toda a humanidade e podem fazer muito pela salvação de todo o mundo (n. 27).

Como a oração de um simples fiel leigo pode atingir “toda a humanidade” e salvar “todo o mundo”? Ora, através do mistério da comunhão dos santos, que nos une não apenas aos santos do Céu, mas também a todos os nossos irmãos na fé, tanto aos que militam neste mundo quanto aos que padecem no Purgatório [2]! Como Igreja, fazemos parte de uma família, o Corpo místico de Cristo: nele, cada membro cuida do outro como se cuidasse de si próprio, pois é a saúde do organismo inteiro que está em jogo. À Cabeça, que é Cristo, todos nos dirigimos confiantes, pois foi Ele mesmo quem disse: “Pedi, e dar-se-vos-á; buscai, e encontrareis; batei, e abrir-se-vos-á” (Lc 11, 9).

Esse trabalho de intercessão é tão importante, que as as Laudes e Vésperas da atual Liturgia das Horas trazem sempre o momento das Preces, no qual podemos apresentar a Deus, além das petições designadas no livro litúrgico, também as que trazemos em nossos corações. 

O perigo do ativismo

Essa obra de pedir a intervenção de Deus nas nossas vidas é muito mais fecunda que as nossas ações, por melhores e sacrificadas que sejam. Pois nós fazemos só o que nos é possível, enquanto com nossa oração nós confiamos as coisas a Deus, que tudo pode.

É justamente para repelir o “ativismo”, em sexto lugar, que serve a Liturgia das Horas. Assim como Deus criou todo o universo em seis dias e no sétimo descansou, também nós precisamos descansar de nossos trabalhos. Mas não descansar no sentido moderno do termo; hoje em dia, o único repouso que as pessoas conhecem é o dos lazeres vãos e o do relaxamento moral. A verdade, porém, é que nada pode trazer mais paz e tranquilidade à nossa vida do que aqueles momentos em que ficamos a sós com Deus, na vida de oração.

É claro que a récita das Horas canônicas não substitui nossa vida de oração íntima com Deus. Trata-se antes de algo a mais, de um cuidado maior que damos a Deus, de pequenos gestos de carinho, pequenos “eu te amo” que lhe dizemos ao longo do nosso dia. A união, no entanto, que acontece na oração íntima é insubstituível — assim como carinhos e belas palavras não substituem o ato conjugal na vida matrimonial.

Repertório para nossa oração pessoal

Mas até nisso a Liturgia das Horas nos ajuda, dando-nos “repertório”, por assim dizer, para nossa oração pessoal. Eis o sétimo e último motivo para rezá-la. Como diz o Apóstolo, “não sabemos o que havemos de pedir como convém, mas o mesmo Espírito ora por nós com gemidos inefáveis” (Rm 8, 26). Ora, que melhor auxílio nos poderia dar a Terceira Pessoa da Santíssima Trindade do que as palavras que Ela mesma inspirou os autores humanos das Escrituras a escrever?

É nos Salmos, nos Evangelhos, nas Cartas dos Apóstolos que encontramos material para meditação e preces com que invocar a Deus. Como na Liturgia das Horas não rezamos só com a voz (oração vocal), mas também com a mente (oração mental) — do contrário, como lembra S. Teresa, nem se poderia chamar a isso verdadeira oração —, nossa memória vai-se alimentando com o que recitamos e, depois, quando formos para a intimidade do nosso quarto, poderemos falar a Deus com muito mais liberdade e leveza, repetindo os versículos que aprendemos.

No fim das contas, com a oração das Horas canônicas, todo o nosso dia se transforma em um grande hino de louvor a Deus, pois as frases que guardamos se transformam em jaculatórias com as quais podemos nos dirigir a Ele sempre (especialmente os trechos dos Salmos mais frequentes no Saltério, como o 50, o 62, o 109 e todos os das Completas):

Guardai-me, ó Deus, porque em vós me refugio!
Digo ao Senhor: “Somente vós sois meu Senhor:
nenhum bem eu posso achar fora de vós!

[...]

Ó Senhor, sois minha herança e minha taça,
meu destino está seguro em vossas mãos!
Foi demarcada para mim a melhor terra,
e eu exulto de alegria em minha herança!

Eu bendigo o Senhor, que me aconselha,
e até de noite me adverte o coração. 
Tenho sempre o Senhor ante meus olhos,
pois se o tenho a meu lado não vacilo (Sl 15 [16], 1s.5-8).

Tende piedade, ó meu Deus, misericórdia!
Na imensidão de vosso amor, purificai-me!
Lavai-me todo inteiro do pecado,
e apagai completamente a minha culpa!

Eu reconheço toda a minha iniquidade,
o meu pecado está sempre à minha frente.
Foi contra vós, só contra vós, que eu pequei,
e pratiquei o que é mau aos vossos olhos (Sl 50 [51], 3-6)!

Por onde começar?

Quem compreendeu todos os porquês acima deve estar se perguntando agora: “Tudo bem, mas por onde eu começo?”

Nessa matéria, a internet e os telefones móveis são ferramentas de grande auxílio aos católicos que rezam: com uma simples pesquisa por “Liturgia das Horas”, é possível encontrar uma porção de sites que disponibilizam gratuitamente essa oração pública da Igreja, sem falar dos aplicativos de celular para todos os gostos. 

Apesar de toda essa facilidade e conveniência, seria muito bom possuir o livro físico e rezar com ele, ao invés de simplesmente acessar um app digital em meio à miríade de outras coisas que acessamos com nossos smartphones e computadores. A razão é muito simples: assim como o livro litúrgico é consagrado para o culto a Deus, “é importante fazer desse tempo sagrado uma experiência que está, ao menos em alguma medida, ‘separada’ das coisas comuns”. 

Cada um deve proceder, no entanto, na medida de suas possibilidades. Evidentemente, é muito melhor rezar pelo celular do que não rezar de forma alguma.

A quem quiser, e puder

Permitam-nos, enfim, uma última palavra sobre o antigo Ofício Divino, que vigorou até 1971. Quem quiser fazer a experiência de conhecer um pouco mais a língua latina e rezar as Horas canônicas tal como a Igreja as rezou ao longo da maior parte de sua história, não hesite em acessar o site Divinum Officium e unir-se às comunidades tradicionais que adoram a Deus de acordo com as antigas prescrições litúrgicas, em conformidade com o que estabeleceu o Papa Bento XVI na Summorum Pontificum.

A experiência com o antigo Breviarium Romanum é frutuosa por várias razões, mas uma em particular é digna de menção: a disposição do Saltério ao longo de uma única semana (e não em um mês, como acontece hoje) ajuda-nos a ganhar uma familiaridade ainda maior com os Salmos, a ponto de quem os reza, em questão de pouco tempo, saber de cor o dia e até a hora da semana em que serão recitados. O famoso Salmo 22, por exemplo, é rezado toda quinta-feira, na hora Prima; o 42, com o qual começa a Missa antiga, está sempre nas Laudes da terça-feira; o 138 — “Senhor, vós me sondais e conheceis…” — nunca sai das Vésperas da sexta-feira; e assim por diante. Se no rito novo isso já acontece com alguns Salmos (como dissemos acima), no rito antigo isso se dá com todos eles [3].

Seja, porém, na forma ordinária, seja na forma extraordinária do rito romano, o que interessa mesmo é que rezemos mais, e que rezemos bem. A Liturgia das Horas nos ajuda a fazer as duas coisas: ao mesmo tempo que nos põe incessantemente na presença do Senhor, convocando-nos a cantar o seu louvor “do nascer do sol até o seu ocaso” (Sl 112 [113], 3), constitui uma verdadeira “escola de oração”

E não há notícia de que alguém tenha se arrependido de “fazer matrícula” nela.

Notas

  1. D. Estêvão Bettencourt, Para entender o Antigo Testamento. 4.ª ed. Aparecida: Santuário, 1990, p. 151.
  2. Vale a pena lembrar que, no antigo Ofício Divino, praticamente todas as Horas canônicas terminavam com a célebre oração pelos fiéis defuntos: Fidélium ánimae per misericórdiam Dei requiéscant in pace. Amen, “Que as almas dos fiéis defuntos pela misericórdia de Deus descansem em paz. Amém”.
  3. Outra coisa que salta aos olhos é o peso de determinadas orações antigas, em comparação com as reformadas. Na antiga festa de S. Nicolau, por exemplo, a Igreja pede expressamente a Deus que, eius méritis et précibus, a gehénnae incéndiis liberémur, isto é, “por seus méritos e preces, sejamos livres das chamas do inferno”. Nas Completas antigas, os sacerdotes traçam todas as noites sobre o peito o sinal-da-cruz enquanto dizem: Convérte nos, Deus, salutáris noster, et avérte iram tuam a nobis, “Convertei-nos, ó Deus da nossa salvação, e afastai para longe de nós a vossa ira”. Hoje em dia, palavras como esta raramente se vêem na liturgia, e até o célebre hino Dies irae deixou de ser cantado ao fim do ano litúrgico. (Ele tornou-se facultativo, mas, na prática, sabemos o que isso significa.) Como triste consequência de omissões assim, o que se percebe ao longo das últimas décadas é que certas verdades da fé católica, que deixaram de ser rezadas, também estão deixando de ser cridas — especialmente pelo clero e pelos religiosos, que sempre foram os que mais contato tiveram com a divina liturgia. Um antídoto para esse mal (ou uma “vacina”, se preferirem) talvez seja voltar, senão à letra, pelo menos ao espírito das orações antigas, que refletem, com mais solidez e integridade, o que a Igreja sempre creu e ensinou, em seu Magistério e na vida de seus santos e santas. Os fiéis católicos leigos preservaram a fé, em grande medida, graças às devoções particulares antiquíssimas que conservaram em suas casas, não obstante a desorientação geral que invadiu os templos católicos nos anos seguintes à reforma litúrgica pós-conciliar.

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Sacrifício, o grande apelo de Fátima, da Quaresma e do Evangelho
Espiritualidade

Sacrifício, o grande apelo
de Fátima, da Quaresma e do Evangelho

Sacrifício, o grande apelo de Fátima, da Quaresma e do Evangelho

Se o próprio Senhor, Deus feito homem, viveu uma vida de oração e sacrifício, nós, que somos tão pobres e pecadores, não podemos escolher outro caminho. Eis o que a mensagem de Fátima veio nos reforçar.

Equipe Christo Nihil Praeponere15 de Fevereiro de 2021Tempo de leitura: 6 minutos
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No seu livro Apelos da Mensagem de Fátima, a Irmã Lúcia de Jesus e do Coração Imaculado, uma das videntes de Fátima, apresenta o sacrifício como um dos apelos urgentes de Deus à humanidade. 

Em primeiro lugar, Lúcia esclarece que o sacrifício não é um apelo desvinculado das Sagradas Escrituras, dos Mandamentos de Deus e da Igreja. São Paulo já dizia que devemos completar em nossa carne o que falta aos sofrimentos de Nosso Senhor Jesus Cristo (cf. Cl 1, 24). Todos nós somos enfermos, temos muitos defeitos e pecamos. Por isso, em união com a Vítima inocente, que é Cristo, nós, católicos, devemos nos sacrificar pelos nossos pecados e pelos dos nossos irmãos, pois somos todos membros do mesmo Corpo místico.

A Irmã Lúcia, vidente da Virgem de Fátima.

Na mensagem de Fátima, o Anjo da Guarda de Portugal dá o seguinte mandato aos pastorinhos e a cada um de nós: “De tudo o que puderdes, oferecei um sacrifício em ato de reparação pelos pecados com que Ele (Deus) é ofendido e de súplica pela conversão dos pecadores” [1]. Segundo Lúcia, os sacrifícios podem ser de bens espirituais, intelectuais, morais, físicos e materiais. O que importa é aproveitar as ocasiões de oferecer algum sacrifício, principalmente quando se trata de uma exigência para o cumprimento de nossos deveres para com Deus, com o próximo ou com nós mesmos.

Em muitos casos, o sacrifício é uma obrigação, como a renúncia aos prazeres ilícitos: a luxúria, a fornicação e o adultério; o abuso no consumo de bebidas alcoólicas ou de alimentos. Tais renúncias, apesar de serem obrigações, podem ser oferecidas a Deus como ato de reparação e súplica. Quantas famílias tornam-se insensíveis e infelizes por causa do pecado da gula, do excesso na comida e na bebida! Ademais, os caprichos do orgulho, da vaidade, da cobiça, da avareza, das comodidades exageradas podem tornar-se faltas graves se nos levam a faltar com a caridade e a justiça para com o próximo. 

Mas, além de fazer o estritamente obrigatório, por que não ir além, com ânimo generoso? Quando Deus nos pede para fazer renúncias e sacrifícios, não se trata somente de não fazer o mal, mas também de exercitar as virtudes, de fazer o bem ao próximo. Por exemplo: com o que temos, devemos socorrer aquelas pessoas que não têm o necessário para viver, que estão morrendo de fome e de frio. No juízo final, seremos julgados não somente pelo mal que praticamos, mas também pelo bem que deixamos de fazer (cf. Mt 25, 41ss), pois todas as vezes que deixamos de praticar a caridade para com os mais necessitados, foi ao Senhor que o deixamos de fazer.

A vidente de Fátima indica uma série de pequenos sacrifícios que podemos oferecer. Por serem pequenos, não deixam de ser agradáveis a Deus e, além disso, muito meritórios e proveitosos espiritualmente. Com eles, provamos nossa fidelidade e amor a Deus e ao próximo. Essas práticas enriquecem-nos na graça, fortificam-nos na fé, na esperança e na caridade, dignificam-nos diante de Deus e do próximo e libertam-nos das tentações, do egoísmo, da cobiça, da inveja, do comodismo... Alguns dos pequenos sacrifícios indicados pela Irmã Lúcia são:

  1. Rezar com fé e atenção, evitando, o quanto for possível, as distrações; com respeito, dando-nos conta que falamos com Deus; com confiança e amor, porque tratamos com quem nos ama e quer o nosso bem; com humildade, pois somos débeis, fracos na prática da virtude, tropeçamos e caímos a cada instante, e precisamos do auxílio de Deus para trilhar o caminho da santidade. Muitas vezes, será necessário sacrificar um pouco do nosso descanso, levantar um pouco mais cedo ou dormir um pouco mais tarde; desligar o rádio e a televisão (hoje podemos acrescentar o celular e o computador), para participar da Santa Missa, fazer nossa oração pessoal ou rezar o Santo Rosário;
  2. Deixar de comer algo de que gostamos muito, de modo que não prejudiquemos a nossa saúde e não nos faltem as forças físicas necessárias para o trabalho. Podemos trocar uma fruta de que gostamos por outra da qual não nos agradamos; suportar a sede por algum espaço de tempo; tomar uma bebida que não nos é agradável ao paladar; abster-nos do álcool ou, pelo menos, não beber em excesso; à mesa, não escolher o melhor, mas deixá-lo aos outros;
  3. No vestuário, suportar um pouco de frio ou de calor, sem nos queixar; vestir com decência e modéstia, sem nos deixar levar pelas modas e recusá-las quando não estiverem de acordo com essas duas virtudes, lembrando-nos que somos responsáveis diante de Deus pelos pecados que outros cometem por nossa causa. Sendo assim, devemos nos vestir em conformidade com a moral cristã, a dignidade pessoal e a solidariedade com o próximo, oferecendo o sacrifício do exagero da vaidade. Neste ponto, podemos oferecer o sacrifício dos adornos, das jóias, relógios e acessórios caros e, com seu valor, socorrer as necessidades dos que vivem na pobreza ou até mesmo na miséria;
  4. Suportar com serenidade as contrariedades: uma palavra desagradável ou irritante, um sorriso irônico, um desprezo, uma falta de consideração, uma ingratidão, uma incompreensão, uma censura, uma falta de atenção, um esquecimento, uma rejeição… Suportar com paciência os sofrimentos da vida: um acidente, uma separação, uma doença ou até mesmo a perda de um ente querido. Todo sacrifício, grande ou pequeno, tem um imenso valor, desde que oferecido por amor a Deus e ao próximo. Suportar de boa vontade a companhia das pessoas com quem não simpatizamos, que nos desagradam, que nos contradizem, chateiam e fazem perguntas indiscretas ou até mal-intencionadas; responder-lhes com um sorriso, um serviço, um favor, perdoando e amando, com o nosso olhar voltado para Deus. Esta renúncia de nós mesmos é talvez o sacrifício mais difícil para a nossa pobre natureza humana, mas é também o mais agradável a Deus e o mais meritório;
  5. Fazer sacrifícios e penitências voluntários. Há sacrifícios que são obrigatórios, como a abstinência de carne, que devemos observar em toda sexta-feira, exceto nas solenidades. Mas o apelo de Deus ao sacrifício nos conscientiza da necessidade de sermos generosos, de não nos limitarmos aos sacrifícios obrigatórios e fazer também sacrifícios voluntários. Os instrumentos de penitência, usados por muitos santos que, com o uso das disciplinas e dos cilícios, uniam-se a Cristo flagelado, amarrado com cordas e coroado de espinhos, infelizmente caíram em desuso. Mas, em espírito de penitência, podemos rezar com os braços abertos em cruz, unindo-nos a Cristo crucificado, ajoelhados ou prostrados com o rosto em terra, humilhando-nos na presença de Deus, a quem nos atrevemos a ofender. Podemos ainda fazer muitos outros sacrifícios voluntários, como jejuns e abstinências; falar menos e ouvir mais; realizar obras de misericórdia, como visitar os idosos e os doentes; rezar mais, especialmente diante do Santíssimo Sacramento.

Jesus Cristo, sendo Deus, não podia pecar. No entanto, deu-nos o exemplo de vida de oração, penitência e sacrifício. Antes de começar sua vida pública, passou quarenta dias em jejum e foi tentado pelo demônio. Na sua vida pública, a austeridade do Mestre era extrema, tanto que disse não ter onde reclinar a cabeça (cf. Lc 9, 58). Por vezes, Jesus e seus discípulos não tinham tempo nem para comer (cf. Mc 6, 31). Ainda assim, Jesus procurava retirar-se em lugares desertos para rezar (passagens nesse sentido abundam nos Evangelhos) e, pouco antes de sua Paixão, conforme o seu costume, Cristo dirigiu-se para o monte das Oliveiras para rezar (cf. Lc 22, 39). Se o próprio Senhor, Deus feito homem, viveu uma vida de oração e sacrifício, nós, que somos tão pobres e pecadores, não podemos escolher outro caminho

Quando Jesus Cristo nos pede para entrar pela porta estreita (cf. Mt 7, 13s), indica-nos a grande necessidade que temos de nos sacrificar. Pois sem sacrificar a nossa vida por amor a Cristo e ao seu Evangelho, não nos santificaremos nem alcançaremos a salvação (cf. Mc 8, 35). 

Ouçamos, pois, o premente apelo da mensagem de Fátima e façamos sacrifícios, em reparação dos pecados com que Deus é ofendido e pela conversão dos pobres pecadores.

Referências

  1. Irmã Lúcia de Jesus e do Coração Imaculado. Apelos da Mensagem de Fátima. 4.ª ed., Fátima: Secretariado dos Pastorinhos, 2007, p. 101.

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A Besta que vem do Oriente
Sociedade

A Besta que vem do Oriente

A Besta que vem do Oriente

Desde a queda do Muro de Berlim, 25 anos atrás, um animal monstruoso e aterrorizante começou a avançar em nossa direção, “com dentes afiados e sangue escorrendo”. Seu nome é “espírito do ateísmo” e suas formas são múltiplas: eis a Besta do Oriente.

Pe. Dwight LongeneckerTradução: Equipe Christo Nihil Praeponere10 de Fevereiro de 2021Tempo de leitura: 6 minutos
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[Este texto é de autoria do Pe. Dwight Longenecker. Foi vertido à língua portuguesa por nossa equipe.]

Vou-lhe contar uma visão que tive.

Fico hesitante em chamá-la de visão porque posso soar como uma espécie de místico mariano. Provavelmente, é melhor chamá-la de “imagem mental” ou “imagem onírica”. 

Seja como for, ela veio à minha mente quando estava num estado em que não sabia ao certo se estava rezando ou cochilando. Mas isso realmente não importa. O que importa é o conteúdo e o contexto da visão

Ela ocorreu em novembro de 1989, quando o mundo estava entusiasmado com a queda do Muro de Berlim. Para aqueles que não se lembram, o Muro de Berlim foi a barreira construída ao longo da cidade de Berlim para separar a parte comunista da cidade (oriental) da parte democrática e livre (ocidental).

O comunismo desmoronava por toda a Europa, e o meu sonho-visão foi muito simples. Vi um urso pardo gigante e pesado a certa distância, movendo-se rapidamente e de forma desajeitada. Era aterrorizante, tinha olhos vermelhos e uma boca cheia de baba com dentes afiados e sangue escorrendo. Dirigiu-se a um muro que desmoronava e escalou nele. Então entendi que o urso — a Besta do Oriente — era o espírito do ateísmo e que, enquanto o comunismo desmoronava, essa besta avançava em direção a um novo território: do Oriente para o Ocidente.    

Ao longo dos últimos 25 anos, refleti muito sobre esse sonho-visão, e tenho a impressão de que minha visão foi profética.  

Nesse período, vimos no Ocidente aquilo que só poderia ser descrito como a nossa própria forma de ateísmo violento e virulento.

Ao longo desses anos, apareceu não somente o “neoateísmo”. Muitas outras formas implícitas de ateísmo (ainda mais potentes e venenosas por causa de sua aparente invisibilidade) têm-nos assombrado.  

O que vimos nesses 25 anos? Pergunte a si mesmo. Vimos um declínio ainda mais rápido em direção ao relativismo niilista. Mas o que é o relativismo senão uma forma de ateísmo? Por que o relativismo é uma forma de ateísmo? Porque nega a existência de um sentido ou verdade objetiva. Não é possível ser relativista e teísta ao mesmo tempo, pois quem crê em Deus deve crer na Verdade objetiva. Quem não crê na Verdade objetiva é ateu, ainda que não saiba disso.  

E esse relativismo também contaminou a Igreja de Cristo. 

Eis uma segunda forma de ateísmo implícito: religiões orientais. As técnicas de meditação orientais levam seus seguidores para o hinduísmo ou o budismo, que em suas formas  “superiores” ensinam que não existe um Deus pessoal e objetivo. Em vez disso, a verdadeira “iluminação” é a compreensão de que nada existe, e a paz é a aceitação de que não há nada fora de nós mesmos. 

E essas religiões também contaminaram a Igreja de Cristo. 

Eis uma terceira forma de ateísmo implícito: o materialismo, uma filosofia que não se reduz apenas ao “vá ao shopping e gaste à vontade”. A prodigalidade e a cobiça são apenas os sintomas exteriores de uma filosofia que ensina que as coisas materiais não somente causam satisfação, mas são as únicas coisas que fazem isso, e são as únicas coisas que satisfazem porque são as únicas coisas que existem realmente.  

O materialismo diz: “Só existe aquilo que vemos.” Não há vida após a morte, anjos, demônios, céu nem inferno. O que os materialistas não conseguem fazer é levar seu argumento às últimas consequências, pois eles também devem crer que Deus não existe. O materialismo é a posição padrão em nossas escolas, faculdades e universidades laicas. É a posição padrão da maioria dos nossos jovens hoje. Portanto, eles são ateus ainda que não o saibam

Essa cobiça, que tem raízes no materialismo, também contaminou a Igreja de Cristo. Também assumiu nova forma na Igreja porque muitos que se dizem cristãos se preocupam mais com a salvação do planeta do que com a salvação da própria alma. Importam-se mais com boas ações do que com a fé em Cristo e se preocupam mais com política e com a criação de uma utopia na terra do que com a espera do lar celestial.

Isso também é uma forma de ateísmo, e ela se veste com as batinas de cardeais.

Uma quarta forma de ateísmo implícito é o cientificismo. Trata-se de outra forma de materialismo que ensina que a única forma legítima de conhecimento é a que obtemos por meio do método científico e que fornece evidências físicas. Esta é uma forma de ateísmo.

Isso também contaminou a Igreja de Cristo por meio daqueles que rejeitam o sobrenatural, desprezam a oração e negam a realidade dos milagres.

Uma quinta forma de ateísmo é o utilitarismo, segundo o qual as escolhas morais devem ser feitas com base na conveniência, na eficiência e na economia. Nada é superior ao resultado final, e isso também é uma forma de ateísmo.

Isso também contaminou a Igreja de Cristo, nos casos em que paróquias, escolas e dioceses são gerenciadas como negócios que sempre se preocupam com o resultado final, com financiamento mundano e com burocracias cada vez maiores.

Detalhe da “Queda dos Anjos Rebeldes”, por Luca Giordano.

Uma sexta forma de ateísmo é o historicismo, segundo o qual a história não possui uma narrativa abrangente, sendo apenas uma sucessão de eventos aleatórios e de disputas de poder. É uma forma de ateísmo porque diz, essencialmente, que não pode haver história porque não há um contador de histórias. Não pode existir um plano divino porque Deus não existe. 

Isso também contaminou a Igreja de Cristo, porque há membros da hierarquia que creem que devem dirigir o curso da história por meio do envolvimento com a política, em vez de confiar na divina Providência e viver pela fé, e não pela visão. 

A sétima forma de ateísmo em nossa sociedade é o sentimentalismo: a realização de escolhas morais principalmente a partir dos sentimentos, emoções e reações subjetivas. Por que isso é uma forma de ateísmo? Porque nega qualquer conjunto objetivo de regras para guiar o comportamento. Só existem instintos, impulsos, emoções e reações porque não há um conjunto de regras e não pode haver, porque não existe alguém que estabeleça essas regras. Isso também é o urso escravizador do ateísmo, ainda que tenha a aparência de um credo agradável e adorável.  

Isso também contaminou a Igreja, na medida em que as regras que governam a moral muitas vezes são substituídas por uma ética sentimentalista e casuística.

A forma final de ateísmo dominante em nossa sociedade é o individualismo, não aquele que propõe o desenvolvimento de uma personalidade forte e de uma mente criativa, mas o que põe o ego no centro do universo porque não existe um Deus para ocupar o “meu” lugar.

Isso também contaminou a Igreja de Cristo, na medida em que muitos cristãos se determinam a seguir em tudo apenas a sua própria vontade e justificam sua rebelião com o discurso da “autoexpressão”.

Por que afirmo que esse ateísmo que se moveu rapidamente do Oriente para o Ocidente é sanguinário e cruel? Porque ele é tão cruel e assassino quanto o comunismo no Oriente. Por que milhões de nascituros são assassinados? Porque somos tiranos tão utilitaristas e materialistas quanto os comunistas. Por que vendemos membros dos corpos de bebês abortados? Porque é algo lucrativo e porque somos ateus.

Por que fazemos guerras e nossos jovens são enviados para a realização de matanças? Por que há uma epidemia de vício em drogas, de suicídio e de crimes? Porque somos ateus e niilistas insanos que creem que não há nada além daquilo que vemos. E, se realmente não há, por que não, então, rumar para o nada?

E qual é a resposta para essa ausência? A transcendência.

O que preencherá esse vazio? Deus.

O que iluminará nossa escuridão? Somente a Luz do Mundo.

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Uma ladainha para rezar nesta Quaresma
Oração

Uma ladainha
para rezar nesta Quaresma

Uma ladainha para rezar nesta Quaresma

A litania a seguir foi composta especialmente para o período quaresmal. Com passagens penitenciais tanto do Antigo quanto do Novo Testamento, pode ser uma ótima oração para aumentar em nós o espírito de arrependimento e compunção por nossos pecados.

Preces LatinaeTradução: Equipe Christo Nihil Praeponere10 de Fevereiro de 2021Tempo de leitura: 5 minutos
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Esta ladainha foi composta como meditação para o período quaresmal. Seu foco está em passagens penitenciais tanto do Antigo quanto do Novo Testamento. 

A versão latina desta oração, de uso privado, pode ser encontrada e rezada aqui. A sua tradução portuguesa foi realizada por nossa equipe e consta a seguir.


Senhor, tende piedade de nós.
Cristo, tende piedade de nós.
Senhor, tende piedade de nós.

Pai santo, ouvi-nos.
Pai justo, atendei-nos.

Deus Pai dos céus, tende piedade de nós.
Deus Filho, Redentor do mundo, tende piedade de nós.
Deus Espírito Santo, tende piedade de nós.
Santíssima Trindade, que sois um só Deus, tende piedade de nós.

Deus, que não quereis a morte do pecador, mas que se converta e viva, tende piedade de nós.
Que destes a Lei no monte a Moisés, após quarenta dias de jejum,
Que, pelas preces de Moisés em jejum, perdoastes os pecados ao povo,
Que protegestes Daniel em jejum na cova dos leões,
Que perdoastes os ninivitas, que jejuaram e a vós clamaram,
Que livrastes da destruição da cidade os ninivitas, por fazerem penitência cobertos de sacos, cinzas e cilícios,
Que perdoastes o pecado a Davi, que se confessou e mortificou no cilício,
Que atendestes e confortastes Judite coberta de cilício e prostrada nas cinzas diante de vós,
Que salvastes Jonas, que a vós clamava, do ventre da baleia,
Que livrastes do exército do assírios a Ezequias, que, coberto de sacos, cinzas e jejuns, junto com o povo vos invocava,
Que fizestes Ester em jejum encontrar graça aos olhos do rei,
Que libertastes do patíbulo a Mardoqueu, que em sacos e cinzas vos invocava,
Que viestes em socorro dos macabeus, que jejuavam e, cobertos de sacos e cinzas, vos invocavam,
Que vos manifestastes no Templo a Ana, perseverante em jejuns e orações,
Que revelastes muitos mistérios aos profetas, que jejuavam e se mortificavam,
Que atendestes os sacerdotes que, em cilícios, rogavam pelo povo e ofereciam sacrifícios,
Que por quarenta dias e quarenta noites jejuastes no deserto,
Que, por vossos Apóstolos, instituístes o jejum quaresmal,
Que iluminastes a Paulo, após três dias de jejum e oração,
Que perdoais os pecados aos homens pela penitência,
Que nos escolhestes e temperastes no caminho da humilhação,
Que dais lugar e tempo para o perdão dos pecados,
Que castigais todo filho que acolheis e amais,
Que não quereis que alguns pereçam, mas que todos se convertam e arrependam,
Que alcançastes por vossa graça a Mateus, ainda sentado na coletoria,
Que fizestes sair justificado o publicano que batia na peito,
Que recebestes paternalmente o filho pródigo que a vós retornara,
Que fizestes manar uma fonte de água viva para a mulher samaritana,
Que acolhestes os publicanos e pecadores e com eles comestes,
Que a Maria Madalena, porque muito amara, muitos pecados perdoastes,
Que olhastes benignamente para Pedro, que três vezes vos negara,
Que recebestes no Paraíso o ladrão arrependido,
Que tirais a iniquidade, os crimes e os nossos pecados,
Que, para afastar a vossa ira, nos mandastes chorar, vestir-nos de cilícios e cobrir-nos de cinzas,
Que vos apiedais de todos os que, em jejuns, choros e lágrimas, se convertem a vós,
Que, após a penitência, não mais vos recordais de nenhum de nossos pecados,
Deus misericordioso e pronto para nos perdoar nossas malícias, tende piedade de nós.

Sede propício, perdoai-nos, Senhor.
Sede propício, ouvi-nos, Senhor

De todo mal, livrai-nos, Senhor.
De todo pecado,
De todo perigo de mente e corpo,
De bebedeiras e intemperanças,
De toda impureza e torpeza,
De iras, rixas e discórdias,
De toda negligência e indolência,
De toda impenitência e dureza de coração,
De uma morte súbita e desprevenida,
Da condenação eterna,
Por vosso batismo e santo jejum,
Por vossas três tentações,
Por vossa sede e fome,
Por vossos trabalhos e dores,
Pela tríplice sentença de morte contra vós proferida,
Por vosso tremendo e cruento sacrifício na cruz,
No dia da ira e da calamidade, livrai-nos, Senhor.

Ainda que pecadores, nós vos rogamos, ouvi-nos.
Para que nos perdoeis,
Para que vos digneis conduzir-nos à verdadeira penitência,
Para que possamos produzir dignos frutos de penitência,
Para que mereçamos chorar dignamente os nossos pecados e alcançar a vossa graça,
Para que vos digneis purificar por este sagrado jejum e livrar de toda iniquidade a vossa Igreja,
Para que vos ofereçamos sempre os nossos corpos como hóstia viva, santa e agradável,
Para que nos concedais entrar, pelas tribulações do tempo presente, na glória futura,
Para que vos digneis atender-nos,
Filho de Deus, nós vos rogamos, ouvi-nos

Cordeiro de Deus, que tirais o pecado do mundo, perdoai-nos, Senhor.
Cordeiro de Deus, que tirais o pecado do mundo, ouvi-nos, Senhor.
Cordeiro de Deus, que tirais o pecado do mundo, tende piedade de nós

Jesus Cristo, ouvi-nos.
Jesus Cristo, atendei-nos.

Senhor, tende piedade de nós.
Cristo, tende piedade de nós.
Senhor, tende piedade de nós.

Pai-nosso...
℣. E não nos deixeis cair em tentação,
℟. Mas livrai-nos do mal.

℣. Chorem os sacerdotes, servos do Senhor, entre o pórtico e o altar.
℟. Tende piedade, Senhor, tende piedade do vosso povo.

℣. Não nos trateis segundo os nossos pecados,
℟. Nem nos castigueis em proporção de nossas faltas.

℣. Ajudai-nos, ó Deus, nosso Salvador,
℟. E pela glória do vosso nome, Senhor, libertai-nos.

℣. Sede propício, Senhor, aos nossos pecados,
℟. Por vosso santo nome.

℣. Senhor, ouvi minha oração,
℟. E chegue até vós o meu clamor.

Oremos. — Deus eterno e todo-poderoso, tende piedade dos penitentes, sede propício aos suplicantes e concedei-nos os benefícios de vossas misericórdias: para que estes jejuns sejam remédio de mente e de corpo para todos os que invocam o vosso nome e deploram os próprios crimes perante a vossa clemência; a fim de que todos os que vos invocarem pedindo a remissão de seus pecados encontrem saúde de corpo e de alma e alcancem, na eterna bem-aventurança, o prêmio prometido aos que fielmente vos servem.

Deus, que criastes admiravelmente o homem e mais admiravelmente o redimistes: dai-nos resistir, com mente forte, às seduções do pecado e servir de coração sincero a vossa majestade.

Ouvi clemente, nós vos pedimos, Senhor, as preces do vosso povo; a fim de que os que justamente somos afligidos por nossos pecados, pela glória do vosso nome, sejamos piedosamente libertados.

Protegei, Senhor, nós vos pedimos, com piedade contínua a vossa família; a fim de que, sob a vossa proteção, se veja livre de todas as adversidades e, por boas obras, se mantenha devota ao vosso nome.

Deus, que não desejais a morte, mas a penitência dos pecadores: olhai benignamente para a fragilidade da condição humana e assisti com piedade benigna os nossos esforços; a fim de que, por vossa grande misericórdia, alcancemos felizmente o perdão de nossos pecados, a constância no vosso serviço e o prêmio prometido aos perseverantes. Por Nosso Senhor Jesus Cristo, vosso Filho, que convosco vive e reina na unidade do Espírito Santo. Amém.

℣. Senhor, ouvi minha oração,
℟. E chegue até vós o meu clamor.

℣. Bendigamos ao Senhor.
℟. Graças a Deus.

℣. E que as almas dos fiéis defuntos, pela misericórdia de Deus, descansem em paz.
℟. Amém.

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