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Aborto, o “antissacramento”
Sociedade

Aborto, o “antissacramento”

Aborto, o “antissacramento”

Se os sacramentos existem para trazer vida aos homens, o aborto é o “antissacramento” por excelência, pois impede o ser humano não nascido de vir à luz, tanto natural quanto sobrenaturalmente.

Peter Kwasniewski,  LifeSiteNews.comTradução:  Equipe Christo Nihil Praeponere10 de Agosto de 2018
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Em 1997, em uma livraria, deparei com uma obra que me impactou e deixou horrorizado. Uma teóloga feminista havia escrito um livro no qual argumentava que as duas grandes “cruzes” que as mulheres católicas tinham de carregar eram — você já pode suspeitar — a oposição da Igreja à ordenação de mulheres e ao aborto. Eu mal podia acreditar que o pecado de blasfêmia pudesse chegar a tal nível, mas aquilo estava ali, diante dos meus olhos, e não era um pesadelo.

Não muito tempo depois, alguém me falou de uma mulher no Canadá que se referia ao aborto como algo “sacramental”. O abuso linguístico não é nada menos que luciferino. Na verdade, não pode haver nada de sagrado ou santificante no pecado, na destruição da vida e na autodestruição, assim como não pode haver nada de belo no demônio depois de sua rebelião. Os sacramentos existem para trazer vida aos homens. O aborto, por sua vez, deve ser chamado mais propriamente de o “antissacramento” por excelência, já que priva o ser humano não nascido da oportunidade de vir à luz, tanto natural quanto sobrenaturalmente.

“O demônio é o macaco de Deus”, diz um provérbio antigo. O demônio realmente tem uma religião organizada — organizada pelo menos a ponto de trazer os inimigos de Cristo para dentro das mais rígidas e eficientes estruturas políticas, psicológicas e culturais que ele é capaz de inventar com sua inteligência sobre-humana. Tudo o que é feito pela Igreja Católica é parodiado pela “igreja” do diabo, e nessa paródia nós encontramos uma explicação para as blasfêmias das pessoas mencionadas acima, cujo uso das palavras “cruz” e “sacramento” constitui nada menos do que um ataque frontal à própria santidade e misericórdia divinas.

O único modo de se afastar da infinita misericórdia de Deus é afrontando-a diretamente: “Em verdade, vos digo: tudo será perdoado às pessoas, tanto os pecados como as blasfêmias que tiverem proferido. Aquele, porém, que blasfemar contra o Espírito Santo nunca será perdoado, mas será réu de um pecado eterno” (Mc 3, 28-29). Se as pessoas se arrependerem de seus pecados — quaisquer pecados! — e procurarem a misericórdia de Deus, Ele lhas dará, ainda que com uma justa punição, nesta vida ou na outra. Mas se as pessoas ofenderem diretamente a divina misericórdia, demonstrada ou comunicada na ordem da criação e na ordem superior da redenção, e forem para seus túmulos nesse estado de rebelião contra o Espírito Santo, como Ele poderá ajudá-las? É justamente esse o dom rejeitado por tais pessoas.

As pessoas escolhem o inferno para si mesmas, eis a dura verdade; e eu acrescentaria que esse inferno é sempre fruto do próprio pecador. Sua prisão é sua mente, e sua punição é ficar aprisionado eternamente em seu “ego” obscurecido e transtornado. Só isso já é um inferno suficiente, antes mesmo de falarmos de chamas de fogo ou quaisquer dos tormentos magistralmente descritos no “Inferno” de Dante.

Eu costumo pensar no que C. S. Lewis diz em seu livro “O Grande Abismo”: o inferno é como um subúrbio onde as casas vão se distanciando cada vez mais, com aqueles que moram nelas se isolando e se isolando, à medida que o tempo passa. E não poderíamos associar essa imagem com a convicção de Ratzinger de que o inferno já está irrompendo em nosso mundo moderno, penetrando em suas rachaduras? Os subúrbios da terra, “livres” de crianças, evacuados pela contracepção e o aborto, são precursores dos subúrbios do Hades, “livres” de Deus, habitados pelo vazio.

O aborto é o crime de quem odeia radicalmente a si próprio e desesperou de um sentido para sua vida. Se as pessoas amassem quem são e enxergassem sentido em suas existências, acolheriam cada nova vida como uma continuação do que elas amam, uma confirmação do grande sentido que tem a vida, um prenúncio de esperança, um investimento no futuro.

O crime de extinguir e descartar um filho é o fundo do poço, o declínio completo da vida e da existência; é a morte do instinto social e do próprio coração humano, o suicídio do senso comum, o assassinato brutal da compaixão e da misericórdia, uma paródia doentia do verdadeiro amor. Visto dessa forma, é o pior ato possível, pois é como matar a inocência, a vida, Deus e o futuro, tudo de uma vez só. O aborto é, tanto literal quanto simbolicamente, o estágio final de decadência metafísica e perda de sentido.

Nós sabemos, a partir da teologia moral, que há alguns pecados piores em espécie do que o aborto — por exemplo, profanar a Santa Eucaristia ou cometer suicídio. Mas, como Santo Tomás costuma dizer, nada impede que um pecado seja o pior em certo sentido, ainda que não seja o pior absolutamente falando. Nenhum crime pode ser mais abominável do que o aborto em pelo menos um sentido: ele é totalmente contrário ao bem natural e fundamental da vida, bem como à afeição profundamente enraizada que os seres humanos nutrem para consigo, especialmente os inocentes e indefesos.

Não pode haver nenhuma desculpa satisfatória para esse crime; todo o mundo sabe que uma mulher grávida é uma mulher com um filho; que o seu abdômen está arredondado porque uma criança está em seu ventre crescendo e se mexendo; que desde o momento da concepção está presente ali um novo ser humano, além da mulher. É impossível que uma pessoa em pleno uso de suas faculdades mentais não o saiba.

Tudo isso leva a uma conclusão assustadora: a “onipresença” do aborto no mundo moderno é um sinal das trevas espirituais extremas que se abateram sobre a humanidade, uma escuridão diferente de todas que a história jamais experimentou. Para o aborto ser “aceito” por uma pessoa (antes mesmo de ser escolhido), sua inteligência — sua alma inteira, na verdade — precisa se afastar da realidade, do autoconhecimento, do amor à vida, da humanidade básica — até mesmo do princípio da não-contradição e, com ele, da possibilidade do pensamento lógico.

Conflitos entre os homens são uma coisa: enquanto continuarmos sendo presas da avareza, da libido dominandi e do nacionalismo exacerbado, guerras serão incentivadas e alimentadas. Mas uma guerra tecnologicamente refinada e lucrativa contra crianças não nascidas? Não há nada mais depravado, nada mais profundamente contrário à própria natureza do homem. O aborto mina aquele amor aos filhos inscritos no coração humano e coloca em seu lugar uma negação vazia, uma negação assassina do ser; ele transforma um coração de carne em um coração de pedra.

É por isso que o Cardeal George Pell pôde dizer: “O aborto corrompe tudo em que ele toca: a lei, a medicina e todo o conceito de direitos humanos.” Isso ele faz por corromper primeiro o coração humano. É por isso que aqueles que realizam, aconselham ou passam por abortos precisam desesperadamente das nossas orações e penitências: não há nada de que eles tenham mais necessidade do que os sacramentos e a vida da graça, o perdão e a paz do Senhor.

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Este é o motivo da “mudança” do Padre Paulo Ricardo!
Cursos

Este é o motivo da
“mudança” do Padre Paulo Ricardo!

Este é o motivo da “mudança” do Padre Paulo Ricardo!

A vida do Padre Paulo Ricardo mudou quando ele descobriu a “engenharia da santidade”. Agora é a sua vez de mudar também!

Equipe Christo Nihil Praeponere8 de Agosto de 2018
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Durante muitos anos de seu sacerdócio, mesmo pregando sobre a santidade, Padre Paulo Ricardo desconhecia quais eram, de fato, os meios para alcançar essa meta.

Como consequência disso, seu ensinamento tendia a soar, muitas vezes, como uma espécie de “moralismo”. Afinal de contas, de nada adiantava dizer às pessoas para buscarem a perfeição, se não lhes era ensinado, ao mesmo tempo, a “engenharia da santidade”, ou seja, o processo por meio do qual elas podiam chegar a ser santas.

Foi de cinco anos pra cá, depois de muito rezar e estudar, que Padre Paulo Ricardo foi finalmente, nas suas próprias palavras, “tirado da ignorância”.

Hoje, assim como ele tem sido transformado por Deus, é a sua hora de receber também essa graça e entrar de vez na dinâmica da santidade cristã. Se você é católico e tem sede de aprender as coisas de Deus, fique atento ao curso que estamos prestes a lançar!

“Engenharia da Santidade” foi gravado em um retiro espiritual no início deste ano e, a princípio, não seria publicado. Recentemente, porém, vendo o bem que suas aulas têm feito aos que assistiram ao retiro, Pe. Paulo decidiu tornar disponível esse material a todos os alunos de nosso site.

Por isso, anote desde agora em sua agenda! “Engenharia da Santidade” será lançado no próximo dia 20 de agosto, às 21h, com uma transmissão ao vivo e exclusiva para assinantes. Assim,

  • se você ainda não é nosso aluno, faça hoje mesmo a sua inscrição em nosso site! Com uma única assinatura, você ganha acesso irrestrito não só a este curso, mas a todo o nosso conteúdo. 
  • se você já é nosso aluno, repasse esta mensagem a seus amigos e ajude-nos a divulgar esse material!

Ainda que o mundo diga o contrário, e que você mesmo talvez esteja com a fé fraca e abalada, não se esqueça: você tem jeito!

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Possuído por 15 mil demônios, libertado pelo Santo Rosário
Santos & Mártires

Possuído por 15 mil demônios,
libertado pelo Santo Rosário

Possuído por 15 mil demônios, libertado pelo Santo Rosário

“A cada Ave-Maria que São Domingos e o povo rezavam, um grande número de demônios saía do corpo do possesso, em forma de brasas acesas.”

S. Luís M.ª Grignion de Montfort8 de Agosto de 2018
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Quando São Domingos estava pregando o Rosário perto de Carcassona, trouxeram à sua presença um albigense possesso pelo demônio. São Domingos o exorcizou na presença de uma grande multidão de pessoas; parece que mais de doze mil pessoas tinham vindo ouvi-lo pregar. Os demônios que possuíam este infeliz foram obrigados a responder às perguntas de São Domingos, com muito constrangimento.

Primeiro eles disseram que havia quinze mil deles no corpo deste pobre homem, porque ele atacou os quinze mistérios do Rosário. Continuaram a testemunhar que, quando São Domingos pregava o Rosário, ele impunha medo e horror nas profundezas do inferno; e que ele era o homem que eles mais odiavam em todo o mundo, por causa das almas que arrancou dos demônios através da devoção ao Santo Rosário. Eles depois revelaram várias outras coisas.

São Domingos colocou seu Rosário em volta do pescoço do albigense e pediu que os demônios lhe dissessem quem, de todos os santos nos céus, eles mais temiam, e quem deveria ser, portanto, mais amado e reverenciado pelos homens. Neste momento, eles soltaram um gemido inexprimível, com o qual a maioria das pessoas caiu por terra, desmaiando de medo.

Então, usando de esperteza, a fim de não responder, os demônios começaram a chorar e prantear de uma maneira tão deprimente que muitos da multidão começaram a chorar também, movidos por compaixão natural. Os demônios falaram através da boca do albigense, com uma voz dolorida:

— Domingos! Domingos! Tem piedade de nós, nós prometemos que nunca te machucaremos. Tu sempre tiveste compaixão dos pecadores e daqueles que estão na miséria; tem piedade de nós, pois estamos padecendo. Já estamos sofrendo tanto, por que te comprazes em aumentar as nossas penas? Não te dás por satisfeito com o nosso sofrimento? Tens de aumentá-lo? Tem piedade de nós! Tem piedade de nós!

São Domingos, Escola Veneziana, século XVIII.

São Domingos não se mostrou nem um pouco movido de compaixão por estes espíritos, e disse-lhes que não os deixaria a sós até que respondessem à pergunta que lhes havia feito. Eles disseram, então, que lhe sussurrariam a resposta de tal forma que apenas São Domingos seria capaz de ouvi-los. Ele retorquiu que eles deveriam responder claramente e em alta voz.

Então os demônios se mantiveram quietos e se negaram a dizer uma só palavra, desconsiderando completamente as ordens de São Domingos. Este, então, ajoelhou-se e rezou a Nossa Senhora:

— Ó, toda poderosa e maravilhosa Virgem Maria, eu vos imploro: pelo poder do Santíssimo Rosário, ordene a estes inimigos da raça humana que me respondam.

Mal acabara de orar, uma chama ardente foi vista saindo dos ouvidos, das narinas e da boca do albigense. Todos tremeram de medo, mas o fogo não machucou ninguém. Então os demônios disseram:

— Domingos, nós te imploramos, pela paixão de Jesus Cristo e pelos méritos de sua santa Mãe e de todos os santos, deixa-nos sair deste corpo sem que falemos mais, pois os anjos responderão a tua pergunta a qualquer momento. E, além do mais, não somos nós mentirosos? Por que haveríeis de nos dar crédito? Não nos tortures mais, tem piedade de nós.

Pior para vocês, espíritos desgraçados e indignos de serem ouvidos — respondeu o santo servo de Deus aos demônios.

Ajoelhando-se diante de Nossa Senhora, então, São Domingos assim rezou:

— Ó, digníssima Mãe da Sabedoria, oro pelas pessoas aqui reunidas, que já haviam aprendido como rezar devotamente a Saudação Angélica (i.e., a Ave-Maria). Por favor, eu vos imploro, forçai vossos inimigos a proclamar a verdade completa e nada mais que a verdade sobre isto, aqui e agora, diante desta multidão.

São Domingos mal havia concluído esta oração quando viu a Santíssima Virgem perto de si, rodeada por uma multidão de anjos. Ela bateu no homem possesso com um cajado de ouro que segurava e disse:

— Responde ao meu servo Domingos imediatamente. (Lembre-se o leitor que as pessoas não viram nem ouviram Nossa Senhora, mas somente São Domingos.)

Então os demônios começaram a gritar:

Ó, vós, que sois nossa inimiga, nossa ruína e nossa destruição, por que descestes do Céu para nos torturar tão cruelmente? Ó, advogada dos pecadores, vós que os tirais das presas do inferno, vós que sois o caminho certeiro para os céus, devemos nós, para nosso próprio pesar, dizer toda a verdade e confessar diante de todos quem é a causa de nossa vergonha e de nossa ruína? Ó, pobre de nós, príncipes da escuridão!

Ouvi bem, pois, vós, cristãos: a Mãe de Jesus Cristo é todo-poderosa junto de Deus e capaz de salvar seus servos do inferno. Ela é o sol que destrói a escuridão de nossa astúcia e sutileza. É ela que descobre nossos planos ocultos, quebra nossas armadilhas e torna nossas tentações inúteis e sem efeito.

Mesmo relutando, confessamos que nem sequer uma alma que realmente perseverou no seu serviço foi condenada conosco; um simples suspiro que ela oferece à Santíssima Trindade é mais precioso que todas as orações, desejos e aspirações de todos os santos.

Nós a tememos mais que todos os santos nos céus juntos e não temos nenhum sucesso com seus servos fiéis. Muitos cristãos que a invocam na hora da morte e que seriam condenados, de acordo com nossos padrões ordinários, são salvos por sua intercessão.

Ó, se pelo menos essa Maria (era assim que eles a chamavam na sua fúria) não tivesse se oposto aos nossos desígnios e esforços, teríamos conquistado a Igreja e a teríamos destruído há muito tempo atrás; teríamos feito todas as Ordens da Igreja caírem no erro e na desordem.

Agora, que somos obrigados a falar, também vos diremos isto: ninguém que persevera na oração do Rosário será condenado, porque a Mãe de Jesus Cristo obtém para seus servos a graça da verdadeira contrição de seus pecados e, por meio desse instrumento, eles obtêm o perdão e a misericórdia de Deus.

São Domingos fez, então, com que todos rezassem o Rosário bem devagar e com grande devoção. Enquanto isso, algo maravilhoso acontecia: a cada Ave-Maria que ele e o povo rezavam, um grande número de demônios saía do corpo do infeliz, em forma de brasas acesas.

Quando os demônios foram todos expulsos e o herege se viu inteiramente livre deles, Nossa Senhora (que permanecia invisível) deu sua bênção ao povo reunido, e eles se encheram de alegria por isso.

Muitos hereges se converteram por causa deste milagre e ingressaram na Confraria do Santíssimo Rosário.

Referências

  • Extraído e adaptado do livro de S. Luís M.ª Grignion de Montfort, “O Segredo do Rosário”, trad. de Geraldo Pinto Faria Jr., edição em .pdf, pp. 59-61.

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O que pensaria Jesus da nossa música litúrgica?
Liturgia

O que pensaria Jesus
da nossa música litúrgica?

O que pensaria Jesus da nossa música litúrgica?

Será que a nossa música litúrgica é mesmo adequada à sacralidade da liturgia e pode servir como hino de louvor agradável a Deus? Não está na hora de fazermos um sincero “exame de consciência musical”?

Peter Kwasniewski,  LifeSiteNews.comTradução:  Equipe Christo Nihil Praeponere8 de Agosto de 2018
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Ao comentar o rito romano da Missa, Santo Tomás faz notar o seguinte:

Neste sacramento [a Eucaristia], é necessária uma devoção maior do que nos outros sacramentos, uma vez que Cristo inteiro está nele contido, e também mais extensa, porque neste sacramento se requer a devoção não só de quem o recebe, como acontece nos outros sacramentos, mas de todo o povo pelo qual é oferecido o sacrifício. Por isso, diz Cipriano (Sobre a Oração do Senhor, XXXI): “O sacerdote, ao rezar o Prefácio, dispõe o espírito dos irmãos, dizendo: ‘Corações ao alto’, para que eles, quando responderem: ‘O nosso coração está em Deus’, possam recordar que não devem pensar em mais nada além de Deus”.

Que texto memorável! O Doutor Angélico nos diz aqui que a liturgia da Missa deve suscitar em nós uma profunda e extensa devoção, conforme a grandeza de tamanho sacrifício, de modo que a nossa mente não pense em nada mais do que em Deus. Também a Divina Liturgia bizantina testemunha essa ideia: “Que nós, que representamos misticamente os querubins e entoamos o hino três vezes santo à vivificadora Trindade, deixemos agora de lado todos os cuidados terrenos”.

Nesta vida não podemos imitar perfeitamente os querubins, como se estivéssemos o tempo todo arrebatados, participando da liturgia celeste; estaremos sempre agarrados a alguns pensamentos e emoções terrenas. No entanto, a Igreja levantou a voz contra os músicos e compositores que pretendiam introduzir esses mesmos pensamentos e emoções em nossos templos, fazendo-os dominar a cena.

Inspirados nos ensinamentos de Jesus e alimentados com seu Corpo e Sangue vivificantes, nós, como cristãos, estamos chamados a levar ao mundo a santidade do altar e, na medida do possível, a transformar o mundo, renovando-o e  santificando-o pelo poder dos sagrados mistérios. Os cristãos nunca assumiram como um dever apropriar-se de elementos externos deste mundo decaído para introduzi-los nas igrejas, recriando a liturgia, a oração e as artes como “reflexos” deste mundo. Porque, ainda que sejam reflexos mais “suaves”, eles continuam tendo origem, não em Deus, mas no mundo, e levam consigo a marca da mundanidade.

Não haverá talvez alguma relação entre, de um lado, as tentativas pós-conciliares de substituir a natureza hierárquica da Igreja por modelos democráticos tomados de empréstimo ao humanismo ilustrado e, de outro, o declínio da qualidade da música sacra e religiosa, que agora exalta o homem em vez de Deus e só tem êxito em mostrar a banalidade e a pobreza de um homem sem Deus?

Se quisermos saber como devem ser cantados os Salmos ou outros textos das Sagradas Escrituras, temos de ouvir os “sucessores” dos israelitas cantando os “cantos de Sião”, ou seja, os monges e monjas fiéis que dedicaram a vida a “entoar um hino” (Sl 46, 8) ao Rei do universo. Um ouvido atento pode, de fato, captar as semelhanças entre as cantilenas judaicas e a salmodia cristã, quer latina ou bizantina. Se você ouvir alguma gravação dos monges de Le Barroux, Fontgombault, Norcia ou Silverstream, descobrirá como é que soa uma oração cantada: reverente, piedosa e contemplativa; as palavras sagradas são saboreadas como mel (cf. Sl 118, 103), com as paixões em paz e a mente elevada até ao céu e à Santíssima Trindade.

“Cristo expulsando os cambistas do Templo”, de Rembrandt.

Consumido de zelo (cf. Jo 2, 17), Jesus expulsou os vendilhões e cambistas do Templo, muito embora o que eles então faziam fosse até menos recriminável do que acontece hoje no coração de tantas igrejas católicas. Por que Nosso Senhor, sendo tão compreensivo com os pecadores, agiu daquela forma? Porque Cristo, mais do que qualquer fiel de qualquer tempo, sabe como é importante a pureza da oração, sabe da necessidade de manter separados o mundano e o sagrado. Só Ele sentia e sabia, no íntimo de seu ser incriado, o quão indignos de Deus eram os motivos, as maneiras e as mercadorias oferecidas por aqueles negociantes.

Ao entrarmos numa igreja, deixamos do lado de fora os assuntos e prazeres do mundo e buscamos adorar a Deus com todo o nosso coração, com toda a nossa inteligência, com toda a nossa alma. Essa dedicação e devoção deve, em toda a sua integridade, sair do templo e ir ao encontro do mundo, de forma que quanto mais adorarmos a Deus, mais conformes serão nossas vidas aos mistérios que celebramos, tornando-nos, por assim dizer, uma prolongação “física” dos ritos litúrgicos, inclusive em meio às nossas atividades seculares.

O objetivo não é secularizar o sagrado e fazê-lo mais “acessível” à mentalidade moderna (isso seria, na verdade, um sacrilégio), mas santificar as realidades seculares e fazê-las santas, tornando-as melhores. A igreja é o ambiente próprio do sagrado, e não o espaço de uma mundanidade adaptada e acomodada.

A Igreja deveria conquistar nossas mentes e corações para o sagrado, a fim de que essa vitória permeie todos os aspectos de nossa vida no mundo. O “rock cristão”, ou até mesmo o estilo popular de algumas bandas católicas, não passa de uma vitória da mentalidade mundana, um subproduto da cultura imperante, uma contaminação do silêncio e dos cânticos que deveriam ressoar na casa de Deus, onde o espírito pode respirar livremente e as emoções são docemente acalmadas.

Muitos livros e artigos já foram escritos sobre as orientações eclesiásticas a respeito da música litúrgica e sobre o nobre ideal de cantar a Missa — e não simplesmente na Missa —, e tudo isso em continuidade com a gloriosa herança musical que o Espírito do Senhor inspirou à Igreja no decorrer dos séculos.

Como conclusão, eu gostaria apenas de sugerir um bom ponto de partida para um “exame de consciência musical”, que poderá, quem sabe, levar-nos a uma mudança de coração, a novos propósitos e iniciativas concretas. O Concílio de Trento, na 22.ª sessão, desafia-nos a fazer tudo o que estiver ao nosso alcance para tornar nossa participação na liturgia digna de sua natureza mais íntima:

Quão grande cuidado se deve tomar para que o santo sacrifício da Missa se celebre com toda a devoção e reverência, qualquer um pode vê-lo facilmente se considerar que as Sagradas Escrituras chamam “maldito” àquele que faz com negligência a obra do Senhor (cf. Jr 48, 10). E dado que devemos confessar que nenhuma outra obra a ser realizada pelos fiéis é tão santa e divina como este grandiosíssimo mistério, no qual a Vítima doadora de vida, pela qual somos reconciliados com o Pai, é diariamente imolada no altar pelos sacerdotes, é também claro o bastante que todo empenho e atenção se hão de encaminhar a este fim, a saber: que a Missa seja celebrada com a maior pureza interior de coração possível e com as mostras mais evidentes de devoção e piedade.

Essas palavras nos convidam a reformular e aprofundar nossas ideias sobre a qualidade e a adequação da nossa música litúrgica. Depois disso tudo, continua a ecoar aquela exortação de S. Paulo, que atravessa os séculos com os Santos Padres da Igreja, com o Concílio de Trento, com S. Pio X, com João Paulo II e Bento XVI: “Não vos conformeis com este mundo, mas transformai-vos pela renovação do vosso espírito, para que possais discernir qual é a vontade de Deus, o que é bom, o que lhe agrada e o que é perfeito” (Rm 12, 2).

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