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Uma oração de Santo Tomás para fazer todos os dias
Oração

Uma oração de Santo Tomás
para fazer todos os dias

Uma oração de Santo Tomás para fazer todos os dias

O Doutor Angélico compôs certa vez uma oração para pedir a Deus as virtudes necessárias para a nossa vida, e tinha o costume de recitá-la diariamente e com grande devoção.

Santo Tomás de AquinoTradução:  Equipe Christo Nihil Praeponere1 de Junho de 2018
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De acordo com frei Guilherme de Tocco (c. 1250 – c. 1323), seu primeiro e mais importante biógrafo, além de peça-chave em seu processo de canonização, Santo Tomás de Aquino tinha o costume de recitar diariamente e com grande devoção a seguinte oração, composta por ele mesmo e da qual oferecemos abaixo uma versão em português.

O texto latino desta prece foi preservado e transmitido por Tocco na quarta e última edição de sua obra “Ystoria sancti Thome”, de meados de 1323, e encontra-se disponível aqui.


Concedei-me, ó Deus onipotente e misericordioso, ardentemente desejar, prudentemente descobrir, verazmente conhecer e perfeitamente realizar o que for do vosso agrado.

Para louvor e glória do vosso nome, ordenai meu estado de vida e dai-me saber, poder e querer o que me pedis que faça. E dai-me levá-lo a cabo como convém à salvação de minha alma.

Santo Tomás. Detalhe em vitral na igreja de São Patrício, Columbus, Ohio.

Que o meu caminho até vós seja reto e seguro. Que eu não sucumba na prosperidade nem na adversidade, a fim de não me ensoberbecer na primeira nem desesperar na segunda. Que na fortuna eu vos renda graças e na dificuldade mantenha a paciência. Que eu de nada me alegre ou entristeça senão do que me leve a vós ou afaste de vós. Que a ninguém deseje agradar nem tema aborrecer senão somente a vós.

Dai-me tudo fazer com caridade e o que não diz respeito ao vosso culto, reputá-lo como morto. Dai-me praticar minhas ações, não por costume, mas referindo-as a vós com devoção.

Que por vós eu não dê valor às coisas transitórias, e me seja caro tudo o que vos diz respeito. Que me compraza, mais do que tudo, todo trabalho que for para vós e me aborreça todo descanso que não seja em vós.

Dai-me, dulcíssimo Senhor, dirigir-vos meu coração frequente e ferventemente e, de alma contrita, emendar com firme propósito a minha fraqueza.

Fazei-me, ó Deus, humilde sem fingimento; alegre sem dissipação; grave sem depressão; maduro sem severidade; vivaz sem leviandade; veraz sem duplicidade; temente sem desespero; confiante sem presunção; casto sem corrupção; corrigir ao próximo sem indignação e edificá-lo por exemplo e palavra sem exageração; obediente sem contradição; paciente sem murmuração.

Dai-me, dulcíssimo Jesus, um coração desperto, para que nenhuma vã curiosidade o afaste de vós; imóvel, para que não ceda a nenhum afeto indigno; infatigável, para que não sucumba em nenhuma tribulação; livre, para que dele não se apodere nenhum prazer violento; e reto, para que não o faça desviar-se nenhuma má intenção.

Concedei-me, dulcíssimo Deus, inteligência para conhecer-vos; diligência para buscar-vos; sabedoria para encontrar-vos; bondade para agradar-vos; perseverança para esperar-vos doce e fielmente; confiança para alcançar-vos felizmente. Fazei-me, pela penitência, suportar vossas penas; utilizar vossos benefícios nesta vida pela graça; e por fim, na pátria eterna, desfrutar de vossos gozos pela glória.

Vós, que com o Pai e o Espírito Santo viveis e reinais pelos séculos dos séculos. Amém.

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Uma visão e um milagre: a origem de “Corpus Christi”
Liturgia

Uma visão e um milagre:
a origem de “Corpus Christi”

Uma visão e um milagre: a origem de “Corpus Christi”

Foi o próprio Jesus Cristo quem pediu à Igreja, quase um milênio atrás, que fosse instituída uma festa litúrgica em honra de seu Santíssimo Corpo e de seu Preciosíssimo Sangue.

Equipe Christo Nihil Praeponere31 de Maio de 2018
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A solenidade de Corpus Christi, que os católicos celebramos todos os anos na primeira quinta-feira após a Oitava de Pentecostes, não existiu na Igreja desde sempre. O marco de sua instituição é a bula Transiturus de hoc mundo, do Papa Urbano IV, publicada a 11 de agosto de 1264, e que pode ser lida com grande interesse no site do Vaticano.

Mais notável que esse decreto do Papa, no entanto, são seus antecedentes espirituais. A literatura normalmente aponta dois eventos principais que culminaram com a instituição da Solenidade do Santíssimo Corpo e Sangue de Cristo:

  1. uma visão de Santa Juliana de Liège, religiosa agostiniana belga, e
  2. um milagre eucarístico ocorrido na cidade de Bolsena, na Itália.

As ligações não são fruto de especulação histórica. O Papa que instituiu Corpus Christi conheceu pessoalmente ambos os acontecimentos. Daí a importância de os repassarmos, para entendermos qual o sentido da festa que ora celebramos e, ao mesmo tempo, colhermos disso abundantes frutos espirituais.

Primeiramente, Santa Juliana. O que viu essa mística para ensejar a instituição de uma festa litúrgica para a Igreja universal? O Papa Bento XVI, em uma catequese sobre essa santa, explica:

Com a idade de 16 anos [n.d.t.: por volta de 1209, portanto, ela] teve uma primeira visão, que depois se repetiu várias vezes nas suas adorações eucarísticas. A visão apresentava a lua no seu mais completo esplendor, com uma faixa escura que a atravessava diametralmente. O Senhor levou-a a compreender o significado daquilo que lhe tinha aparecido. A lua simbolizava a vida da Igreja na terra, a linha opaca representava, ao contrário, a ausência de uma festa litúrgica, para cuja instituição se pedia a Juliana que trabalhasse de maneira eficaz: ou seja, uma festa em que os fiéis pudessem adorar a Eucaristia para aumentar a fé, prosperar na prática das virtudes e reparar as ofensas ao Santíssimo Sacramento. […]

Pela boa causa da festa do Corpus Christi foi conquistado […] Tiago Pantaleão de Troyes, que conhecera a santa durante o seu ministério de arquidiácono em Liège. Foi precisamente ele que, tendo-se tornado Papa com o nome de Urbano IV, em 1264, instituiu a solenidade do Corpus Christi como festa de preceito para a Igreja universal […]. [1]

O chamado “Milagre de Bolsena-Orvieto”, por sua vez, foi realizado por Deus com um sentido bem particular: firmar a fé vacilante de um sacerdote.

Detalhe de “A Missa em Bolsena”, por Rafael.

Em 1263 — um ano antes, portanto, da instituição de Corpus Christi —, um padre alemão, chamado Pedro de Praga, parou na cidade de Bolsena depois de uma peregrinação à Cidade Eterna. A crônica geralmente o descreve como um padre piedoso, mas que tinha dificuldades para acreditar que Cristo estivesse realmente presente na Hóstia consagrada. Eis então o que lhe aconteceu:

Enquanto celebrava a Santa Missa sobre o túmulo de Santa Cristina, mal havia ele pronunciado as palavras da consagração, quando sangue começou a escorrer da Hóstia consagrada, gotejando em suas mãos e descendo sobre o altar e o corporal. O padre ficou imediatamente perplexo. A princípio, ele tentou esconder o sangue, mas então interrompeu a Missa e pediu para ser levado à cidade vizinha de Orvieto, onde o Papa Urbano IV então residia.

O Papa ouviu o relato do padre e o absolveu. Mandou então emissários para uma investigação imediata. Quando todos os fatos foram confirmados, ele ordenou ao bispo da diocese que trouxesse a Orvieto a Hóstia e o pano de linho contendo as manchas de sangue. Juntamente com arcebispos, cardeais e outros dignatários da Igreja, o Papa realizou uma procissão e, com grande pompa, introduziu as relíquias na catedral. O corporal de linho contendo as marcas de sangue ainda está reverentemente conservado e exposto na Catedral de Orvieto. [2]

Como se sabe, depois disso, o Papa pediu a ninguém menos que Santo Tomás de Aquino para compor os textos litúrgicos referentes a Corpus Christi, de cuja pena nasceram os mais belos hinos já escritos ao Santíssimo Sacramento, e que todos cantamos ainda hoje.

Mas o que tudo isso tem a ver conosco?

Em primeiro lugar, lembremo-nos dos três fins com que Jesus pediu essa festa a Santa Juliana: “aumentar a fé, prosperar na prática das virtudes e reparar as ofensas ao Santíssimo Sacramento”. Todos atualíssimos. Pois a católica no sacramento da Eucaristia parece perder-se cada vez mais. Como consequência disso, multiplicam-se as profanações e os sacrilégios. O que deveria ser, então, alimento para fortalecer as almas, transforma-se em causa de sua própria condenação, para usar as palavras de São Paulo (cf. 1Cor 11, 29); e as pessoas, ao invés de melhorar, de crescer nas virtudes, só vão de mal a pior.

Por tudo isso, Corpus Christi é um dia de reparação. Reparação pela falta de fé generalizada em que se encontram nossos católicos, participando da Missa de qualquer modo e recebendo a Comunhão como se fosse um pedacinho qualquer de pão. Reparação porque, apesar de tantos milagres eucarísticos, como o de Bolsena, em que Deus parece gritar aos nossos ouvidos a verdade de sua presença real na Eucaristia, nós, ingratos, teimamos em não crer, não adorar, não esperar e não O amar. Reparação porque, a um Deus que deseja ardentemente se unir a nós, a nossa resposta tantas vezes é a frouxidão, a frieza, a indiferença.

Reparemos, portanto, o Coração Eucarístico de Nosso Senhor, mas com um coração alegre e agradecido de nossa parte, porque é Ele mesmo quem nos torna possível essa graça. Foi o próprio Jesus Cristo quem pediu à Igreja, quase um milênio atrás, que fosse instituída a solenidade que hoje comemoramos, a festa litúrgica que faltava à “vida da Igreja na terra”.

E não nos espantemos que tenha demorado tanto tempo — 1200 anos! — para que os fiéis católicos começássemos a celebrá-la. A cada nova geração de cristãos, Deus suscita coisas novas em sua Igreja. Do mesmo modo, a cada Santa Missa de que participamos, Ele quer fazer coisas novas em nossa alma. Estejamos sempre atentos!

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Como um casal católico e um terço fizeram este médico voltar à Igreja
Testemunhos

Como um casal católico e um terço
fizeram este médico voltar à Igreja

Como um casal católico e um terço fizeram este médico voltar à Igreja

“Quando cheguei à quinta dezena de Ave-Marias, comecei a chorar. Forte, compulsivamente, como uma criança desamparada.”

Equipe Christo Nihil Praeponere29 de Maio de 2018
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Este testemunho é de um aluno do nosso site, chamado Tiago, e foi enviado ao nosso suporte há pouco mais de dois anos, no dia 16 de maio de 2016, segunda-feira depois de Pentecostes. Na ocasião, ele acabara de receber o sacramento da Confirmação e estava prestes a se unir em santo Matrimônio.

Mesmo com a distância no tempo, achamos muito oportuna a publicação deste depoimento, não só porque pode ajudar muitas pessoas que se encontram no mesmo caminho, mas também porque ele ajuda a ilustrar muitas coisas que o próprio Padre Paulo Ricardo explica ao falar de como acontece uma conversão e como Deus se serve dos mais variados instrumentos para nos chamar à vida da graça.


Esta é a história da minha reconversão a Deus e volta à Igreja. Falo “reconversão” porque já acreditei em Deus fielmente durante a minha infância. Fui criado em uma família católica, batizado enquanto bebê. Aos 11 e 12 anos fiz catequese na Igreja e recebi o sacramento da Eucaristia.

Ao me tornar adolescente, aos poucos fui entrando na chamada “idade da razão”. Chamo assim por ser um período em que moldamos nossa personalidade, o que é comum a todos os adolescentes. É um tempo no qual buscamos nossa identidade, nos identificamos com certos grupos sociais e clamamos por reconhecimento da nossa individualidade. Para muitos é a idade da rebeldia, de contrariar os pais, a escola e as regras definidas pela sociedade. Onde todos os outros são quadrados e você é o legal da história. Não tive muito dessa fase. Ou seja, não fui um adolescente particularmente rebelde.

Por outro lado, conforme ia me moldando e buscando razões para as coisas, fui me distanciando de Deus. Afinal, estamos imersos em um mundo pautado por pautas equivocadas, nas quais a razão e ciência, teoricamente, entrariam em conflito com a religião. Na verdade, essa é uma das maiores mentiras que já me contaram, e ainda contam para a maioria das pessoas. Mas o porquê de isso ser uma mentira é papo para outra conversa. Junte-se a isso aquela busca por individualidade, racionalismo, prazeres recentemente descobertos e um total despreparo — por parte da maioria de nossos educadores, até mesmo dentro da Igreja — e você terá a fórmula perfeita para a gênese de um ateu, alguém que se distancia da Igreja, ou pior: as duas coisas.

No meu caso, inicialmente foi somente a distância da Igreja. Aos poucos fui me afastando, deixando de rezar, enxergando cada vez mais aquilo como errado, ultrapassado. Já mais próximo da idade adulta, a doutrinação de amigos mais velhos, da televisão, internet, e professores esquerdizados, me mostraram o óbvio naquele momento: somente sendo muito pouco inteligente para acreditar nas “ladainhas” da Igreja. Por certo deveria existir um Deus, onipotente, mas não seria o mesmo Deus da Igreja: retrógrada, dogmática, rígida.

Logo que entrei na faculdade, fui conhecendo pessoas e fazendo alguns amigos. Muitos deles, pessoas inteligentíssimas, que me ensinaram coisas pelas quais sou grato até hoje. Fiz faculdade de medicina, em universidade federal, o que, na época, era garantia de que você conviveria com algumas das mentes mais brilhantes (no sentido acadêmico), tendo em vista a dificuldade do vestibular. Minhas noções morais foram se adaptando e se moldando aos novos ensinamentos.

Graças a Deus, a maioria dos meus amigos eram pessoas retas e com padrões morais corretos. Porém, foi durante os primeiros anos da faculdade que comecei a questionar a existência de Deus. Como poderia um Deus todo-amor e onipotente ser conivente com tantas desgraças no mundo? Crianças de dois anos de idade com câncer no cérebro, malformações, pais de família morrendo enfermos com dois ou três filhos ainda a criar, guerras, assaltos, estupros, enfim…  Uma infinidade de tragédias que acontecem todos os dias. E a Igreja? Via muitos ditos “fiéis” saindo da missa ou culto (no caso dos protestantes) e no dia seguinte cometendo os mais variados pecados, variando desde uma mentira descarada até a traição da esposa. Portanto, seguiram-se vários anos de negação da fé.

Eu me bastava. Era o meu senhor. Médico, formado, com ótimo salário, desfrutando das coisas boas da vida. Tinha começado a namorar uma mulher incrível: linda, inteligentíssima e com princípios sólidos. Por sorte, estamos juntos até hoje, sendo que é minha noiva. Ela é católica, e sempre foi praticante. Em alguns momentos mais, noutros menos.

Lembro com pesar do quanto tentei dissuadi-la de sua fé. Durante uma conversa, cheguei a dizer claramente que não queria batizar meus filhos quando os tivesse. Que preferiria que eles atingissem a idade da razão para decidirem por eles mesmos. Afinal, eu era o senhor-razão, o cara que se bastava. Ela discordou frontalmente da minha argumentação, dizendo que fazia questão de batizar seus futuros filhos na Igreja Católica. Discordamos por mais algum tempo e, quando ambos cansaram de conflito, sem chegar num acordo, encerramos o assunto. Não conversamos mais sobre isso.

Em algumas ocasiões, fomos a casamentos de amigos. Tinha uma aversão cada vez maior a casamentos. Todo aquele ritual “chato” e “retrógrado” para uma festa de ostentação depois. Via, algumas vezes, casais que se separavam em menos de um ano após o casamento. Assistia a este espetáculo num misto de afirmação do que sentia e satisfação irônica — afinal, isso corroborava minha tese de que Deus não existia e que o casamento é uma “besteira”. Não me entendam mal. Eu acreditava na união de um casal. Só não acreditava nos valores de Deus e da Igreja: para a vida toda, indissolubilidade, etc… Gostava muito da máxima: que seja eterno enquanto dure.

Muitas vezes sentia um vazio, uma solidão, mesmo estando rodeado por muitas coisas e pessoas. Sempre encontrava a resposta em alguma coisa mundana, como uma nova viagem, uma roupa, um filme. Porém a resposta nunca saciava de verdade. Fingia que estava tudo bem, que logo iria passar. E realmente, às vezes passa. Pois mesmo em uma existência vazia e sem muito sentido, temos lampejos de felicidade. No geral, a vida era boa.

Sempre tive um grupo bem variado de amigos. Pelo fato de ter saído de casa para morar sozinho em outra cidade ainda com 18 anos de idade, aprendi a conviver com vários grupos e a respeitar as diferenças. Quando conversava com algum amigo religioso, sempre evitava tocar em assuntos sobre Deus. Quando falavam algo a respeito disso, me fechava no meu mundinho, sem dar abertura a qualquer palavra sobre isso. Minha posição era certa e irredutível.

Após ter mudado de cidade mais uma vez, dessa vez para morar com a minha namorada (na época), conheci outras tantas pessoas. Em especial, um casal de amigos que fizemos. Os dois eram católicos praticantes e pessoas maravilhosas. Estudavam (e ainda estudam) bastante sobre assuntos religiosos, sempre buscando se aprofundar na fé. Ao mesmo tempo, são pessoas inteligentíssimas, cultas e sábias. A amizade deles nos fazia muito bem, e nossos laços foram se estreitando. Aos poucos, minha armadura foi caindo. Bem lentamente, fui começando a escutar algumas colocações, opiniões e conclusões a que eles chegavam, mesmo discordando. São um casal exemplar, que demonstram amor a todo momento, sem falsidade. A forma como se olham causa emoção até no mais duro dos corações. Enfim, são um casal-modelo.

Certo dia, em um de nossos jantares, fui surpreendido pela visão de casamento do meu amigo: “Vemos o casamento da forma como a Igreja vê: no dia em que nos casamos, nos tornamos uma só carne, uma só pessoa”. Aquilo me tocou profundamente. Que coisa mais linda! Ao mesmo tempo, via com certa estranheza, pois parecia papo de maluco! Uma só carne? Impossível. Como esse mesmo amigo meu fala, acertadamente: “Quando estamos de fora, é muito difícil enxergar como quem está dentro. É, na maioria das vezes, incompreensível”.

Há uns 6 meses atrás, marcamos a data do nosso casamento. Já havia concordado em casar na Igreja, para satisfazer a minha noiva. Poderia casar na Igreja, tendo em vista que era batizado, recebi o sacramento da Eucaristia e nossa paróquia não exige o sacramento da Confirmação (Crisma) para casar. Fomos à nossa paróquia certo dia, para uma entrevista com o padre. Neste dia, minha vida começou a mudar.

O padre começou um questionário, para ver se cumpríamos os requisitos para realizar o Matrimônio na Igreja. No momento da questão se eu tinha recebido o sacramento da Confirmação, respondi a verdade, como em todas as outras perguntas: “Não”. O Padre respondeu: “Sem problema, meu filho. Hoje a Igreja não exige mais este sacramento como condição necessária ao Matrimônio”. Mas logo lançou uma pergunta no ar: “Mas você gostaria de fazer catequese e receber este sacramento, mesmo que fosse depois do seu casamento?” Pensei um pouco e respondi: “Padre, não vou mentir para o senhor. Não responderei que sim só da boca pra fora. Mas lhe prometo algo: que pensarei no assunto”. A entrevista continuou, e na sequência, fomos jantar com aquele casal de amigos dos quais falei antes.

A sementinha foi plantada. Aquilo não saía da minha cabeça. Parecia a coisa certa a ser feita. Durante o jantar, meus amigos me falaram sobre o site do Padre Paulo Ricardo, e sobre seus cursos. Quando cheguei em casa, prontamente acessei o site e vi os vários cursos lá presentes. Um deles me chamou a atenção: Catecismo da Igreja Católica. Me inscrevi, ganhei da minha noiva o livro do Catecismo e iniciei o curso.

Aos poucos, as aulas foram chamando minha atenção e dediquei cada vez mais tempo a elas. Estava admirado com tudo aquilo! Como esse padre falava bem, com uma oratória invejável e inteligência admirável. O que começou como uma aula ou duas por dia tomou conta de todo o meu tempo livre. Estava cativado por aqueles ensinamentos, apesar de ainda não estar totalmente aberto a aceitar Deus na minha vida.

Num belo dia, no quarto de repouso médico do hospital no qual trabalho, que nunca teve nenhum tipo de adereço religioso, apareceu um terço. Do nada. Até hoje não sei quem colocou ele lá. Como trabalho em emergência, e naquele momento estava sem pacientes para atender, decidi que rezaria o Terço. Mas um problema apareceu: além de não saber qual oração rezaria em qual tempo, muitas orações não conhecia de cor. Abri o celular e acessei um site que explicava o Terço. Me coloquei a rezar, de mente aberta.

Na quarta dezena de Ave-Marias, um fenômeno interessante se passou comigo: senti um calor muito forte nas mãos, e um formigamento que percorria meus braços. Continuei rezando, e aquela sensação se tornou mais e mais forte. Quando cheguei à quinta dezena de Ave-Marias, comecei a chorar. Forte, compulsivamente, como uma criança desamparada. Na verdade, era o que eu era, naquele momento: uma pessoa desamparada, certo da presença de Deus ali comigo, naquele momento. Envergonhado por todo esse tempo que eu tinha passado longe dEle e por todos os pecados cometidos sem reparação.

Tomei forças e terminei o terço. Depois disso, senti uma paz inexplicável, certo de que havia encontrado a resposta para minha vida dali em diante: Deus. Já não via mais o casamento como via anteriormente e, no curso de noivos que fizemos, passei a enxergá-lo como a Igreja vê e a desejar avidamente esse dia. Minha noiva estava muito satisfeita. Finalmente eu tinha me convertido. Que mulher paciente!

Continuei o estudo do Catecismo. As aulas do Padre Paulo já tinham terminado, tendo em vista que seu curso ainda não está completo: ia até os Sacramentos, faltando o Matrimônio e a terceira e quarta partes do livro do Catecismo. Teria que estudar sozinho o restante do livro. Enquanto fazia isso, fui tomado por uma vontade muito grande de receber o sacramento da Confirmação. Não me conformava com o fato de que receberia o sacramento do Matrimônio sem antes receber o belo e necessário sacramento da Confirmação do Batismo.

Certo dia, fui falar com o padre da minha paróquia. Expliquei a ele toda a minha história e falei que me sentia pronto e desejoso para o sacramento da Confirmação. O padre se comoveu, me parabenizou, deu as boas vindas e falou que consentiria em que eu recebesse este sacramento. Que dia feliz! Saí de lá muito emocionado. Marcamos a data para o próximo dia possível: um domingo de Pentecostes, 12 dias antes do meu casamento! Esse dia foi ontem. A cerimônia foi linda e emocionante. Neste dia percebi a missão que me aguarda daqui pra frente: a de estar ainda mais dentro da Igreja e mais próximo de Deus, assim como o meu dever de mostrar esse caminho a outras pessoas: evangelizar.

Por isso escrevi este texto. Já contei essa história a alguns amigos, e todos se emocionaram muito. Religiosos reforçaram sua fé, e os que não crêem talvez se abriram um pouco para a verdade. Nossa missão, como católicos, como cristãos, é difundir a palavra. Da forma falada e com exemplos — o mais importante. De nada adianta sermos cristãos e levarmos uma vida transviada, cheia de pecados graves.

Tenho plena consciência de que não estamos livres do pecado. Nossa condição humana, após o pecado original, nos torna pecadores por natureza. E é isso uma das bases do cristianismo: ter consciência dessa nossa natureza, olhar para o Céu e pedir a Deus Pai, todo-poderoso, que nos desvie do caminho do pecado. E quando inevitavelmente pecarmos, assumir nosso erro, repudiar o pecado do fundo do nosso coração, pedir um perdão sincero, suplicando a Deus — que na Igreja toma a forma do sacramento da Penitência — resolutos a não voltar a pecar. Fugir disso é o que nos torna como os animais: seres inconscientes, que só buscam o prazer, sem culpa.

Portanto, caros irmãos católicos, deixo um pedido aos que seguem uma vida reta e voltada para a verdade: não se furtem à sua missão. Não fujam da sua cruz. Nossa Igreja já está enfraquecida há algum tempo, tomada de fiéis que não vivem na plenitude a sua religiosidade. Vamos dar um basta nisso. Vamos mostrar, por atos e virtudes, que temos algo que vale a pena ser buscado e elevado à sua real posição de glória: Deus. Que mostremos, a todos que não crêem, os reais valores da Igreja Católica, e que consigamos restaurar a imagem deturpada que boa parte da sociedade, injustamente, tem da nossa Igreja.

Isso não se consegue em alguns meses, nem mesmo em alguns anos. É uma estrada longa e dolorosa. Mas cabe a nós tomar essa cruz, erguê-la e glorificá-la, para que sejamos ministros da palavra de Deus e da vida de Jesus Cristo, nosso Senhor!

Para encerrar, gostaria de agradecer profundamente o Padre Paulo Ricardo e toda a sua equipe, por terem tornado esse meu aprendizado o que ele foi: uma estrada fascinante, admirável e cativante!

Que Deus abençoe todos vocês!
Tiago.

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As garras do abortismo se apoderam da Irlanda
Pró-Vida

As garras do abortismo
se apoderam da Irlanda

As garras do abortismo se apoderam da Irlanda

O “sim” da Irlanda ao aborto não foi só “um duro golpe para a Igreja Católica”, como disse um jornal. Todo aborto é um golpe, no fundo, certeiro e mortífero, desferido contra um ser humano no ventre de sua mãe.

Equipe Christo Nihil Praeponere29 de Maio de 2018
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Quem assistiu neste fim de semana à população da Irlanda sair às ruas com faixas nas mãos, braços erguidos e lágrimas nos olhos (principalmente se assistiu pelas lentes deformadas dos noticiários da TV aberta ou dos sites de notícias liberais), talvez tenha ficado com a impressão de que alguma coisa boa estivesse acontecendo. Os irlandeses teriam avançado nos “direitos das mulheres”, assegurando-lhes plena “liberdade sexual e reprodutiva”, superando “décadas de preconceito” no país et cetera.

Tantos eufemismos, porém, eram para dizer uma só coisa: que a Irlanda derrubou a Oitava Emenda de sua Constituição e… legalizou o aborto.

O texto constitucional que 66,4% da população irlandesa pôs abaixo, por meio de um referendo, dizia expressamente o seguinte: “O Estado reconhece o direito à vida do não-nascido e, com a devida consideração ao igual direito à vida da mãe, garante em suas leis respeitar e, na medida do possível, defender e reivindicar esse direito”. Agora, ao invés, o que se lerá no mesmo lugar é: “Condições podem ser estabelecidas por lei para regular a terminação da gravidez.”

A nova mudança legal vem consolidar o afastamento definitivo da Irlanda de suas raízes cristãs. Um jornal brasileiro chegou a dizer que o “‘sim’ da Irlanda ao aborto” foi “um duro golpe para a Igreja Católica”.

Como cristãos católicos, precisamos reconhecer: ver o aborto legalizado, onde quer que seja, é de fato um golpe, e dos mais pesados. Mas seria o caso de nos perguntarmos se esse é um golpe apenas para a Igreja Católica e para conservadores — como a mídia em geral parece dar a entender —, ou se estamos a falar de algo maior, que afeta, no fundo, muito mais do que uma religião ou um segmento político.

Uma manchete dizendo, por exemplo, que o “sim” da Irlanda ao aborto é um duro golpe para crianças que ainda não nasceram, seria por acaso menos realista? O que é, afinal, um aborto, senão um golpe, literalmente falando, certeiro e mortífero, desferido contra um ser humano no ventre de sua mãe? A emenda constitucional que acaba de cair na Irlanda reconhecia claramente “o direito à vida do não-nascido”. A partir de agora, cabe perguntar, o que será feito desse direito? Simplesmente desaparecerá?

Por isso, o “sim” da Irlanda ao aborto é também um duro golpe para os direitos do homem. (Embora a expressão esteja hoje um tanto quanto desgastada, manipulada politicamente por grupos nem sempre preocupados de fato com a dignidade do homem, a crítica é cabível porque não há nada que repugne tanto ao senso de justiça que todo ser humano leva dentro de si do que o assassinato de um ser humano inocente, como acontece no aborto.)

A Irlanda pode até ter derrubado a Oitava Emenda, mas talvez seja necessário lembrar, não só aos irlandeses, mas a todo o mundo, que a verdade não depende de maioria de votos. Nem se todas as nações da terra tornassem legal o aborto (por unanimidade!) ele deixaria de ser o que é. Uma lei que autoriza um homicídio não o torna menos indigno ou menos imoral. Muito pelo contrário, são os Estados que perdem crédito e autoridade quando fazem concessões desse tipo, promulgando leis positivas diretamente contrárias à lei natural, inscrita na natureza mesma do ser humano.

Pode parecer antiquado falar disso nos dias de hoje, mas reconhecer o direito natural, “uma justiça anterior e superior à lei escrita”, é a única forma de evitar que totalitarismos como o nazismo, por exemplo, voltem a florescer. É a única forma de impor um limite ao poder dos Estados e impedir que seus decretos sejam “elaborados arbitrariamente” [1]. Ou, no caso da Irlanda, é a única forma de dizer “não” à “ditadura da maioria”, como se algo errado em si pudesse tornar-se moralmente legítimo só porque um, dois ou três terços de uma comunidade assim o quiseram e determinaram.

Como pessoas e sociedades inteiras possam ficar tão cegas assim, a ponto de não compreenderem mais a maldade de uma prática como o aborto, não é muito difícil entender. Embora o ser humano seja capaz, sempre e em todos os lugares, de reconhecer os princípios mais básicos da lei natural, o conhecimento de suas aplicações, no entanto,

[…] não é o mesmo em todos os homens e pode ser prejudicado por causas acidentais, como a força das paixões, os maus costumes ou o diverso desenvolvimento da razão e da civilização. É o que explica o fato de alguns povos terem chegado a considerar lícitos o furto ou a antropofagia [2].

Estão corretos os jornais, portanto, ao associar o resultado do referendo deste fim de semana à queda da prática religiosa na Irlanda. Quando uma sociedade se afasta de Deus e de uma moral objetiva, como a que oferece a doutrina católica, seus próprios elementos de civilização vão se perdendo

Assim, não nos deveria assustar se, no futuro, alguns povos voltassem “a considerar lícitos o furto ou a antropofagia”. Se Deus não existe, afinal, tudo é permitido — até matar nossos próprios filhos. Quando deixam de acreditar em Deus, as pessoas passam a acreditar em qualquer coisa.

Referências

  1. José Pedro Galvão de Sousa, Direito natural, direito positivo e estado de direito. São Paulo: Revista dos Tribunais, 1977, p. 5.
  2. Ibid., p. 16.

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