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Quem são os “irmãos do Senhor”?
Doutrina

Quem são os “irmãos do Senhor”?

Quem são os “irmãos do Senhor”?

No Novo Testamento se fala muitas vezes dos irmãos e das irmãs do Senhor. Sobre esse assunto, um aparente problema para a virgindade de Maria, há três soluções possíveis: uma herética, outra infundada e uma comum e certa...

Equipe Christo Nihil Praeponere21 de Julho de 2021Tempo de leitura: 9 minutos
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No Novo Testamento se fala muitas vezes dos irmãos e das irmãs do Senhor (cf. Mt 12, 46s; 13, 55ss; Mc 3, 31s; 6, 3; Lc 8, 19s; Jo 2, 12; 7, 3.5.10; 20, 17; At 1, 14; 1Cor 9, 5; Gl 1, 19). Não sabemos quem eram as irmãs; dos irmãos, quatro são expressamente nomeados: Tiago, José, Judas e Simão. 

Sobre esse assunto, um aparente problema para a virgindade de Maria, há três soluções possíveis: uma herética, outra infundada e uma comum e certa. Vejamos primeiro cada uma delas; em seguida, oito razões em prol da doutrina católica; por último, algumas objeções frequentes entre protestantes e as respostas que lhes podemos dar.

I. Irmãos do Senhor?

1.ª solução, heterodoxa. — Alguns antigos hereges (por exemplo, Helvídio, Bonoso Sardenho, Celso, Joviniano etc.) e, mais tarde, os socinianos, muitos protestantes e racionalistas ousaram afirmar que São José e a bem-aventurada Virgem Maria tiveram outros filhos além de Jesus. Essa proposição é dogmaticamente inaceitável em virtude da solene declaração da Igreja e da tradição constante e unânime dos Padres, além de ser historicamente inadmissível pelas razões que daremos abaixo, quando expusermos a doutrina verdadeira.

2.ª solução, infundada. — Alguns Padres e autores antigos (por exemplo, Orígenes, Santo Hilário, São Gregório de Nissa, Santo Ambrósio, Santo Epifânio, São Cirilo de Alexandria, Eusébio, e também Crisóstomo e Santo Agostinho, que depois mudaram de opinião), influenciados talvez por invenções apócrifas [1], pensavam que os irmãos do Senhor eram filhos de São José nascidos de algum matrimônio anterior, antes de ele se casar com a bem-aventurada Virgem Maria. Essa proposição não pode ser sustentada pelos católicos, uma vez que, segundo o sentir comum da Igreja ao longo dos séculos, São José guardou sempre a virgindade nem teve outra esposa além da Virgem Santíssima.

Mas há ainda outra razão para rejeitá-la. A própria Escritura diz expressamente quem era a mãe de dois dos irmãos do Senhor, Tiago e José. Trata-se de Maria, irmã da Mãe do Senhor (cf. Mt 27, 56; Mc 15, 40; 16, 1; Jo 19, 25). Ora, como é possível que São José, chamado justo pelo Espírito Santo (cf. Mt 1, 19), tenha atentado outro matrimônio, enquanto ainda era viva a primeira (e legítima) esposa?

3.ª solução, comum e certa. — No Evangelho, a expressão “irmãos do Senhor” (o mesmo vale para “irmãs”, naturalmente) não significa irmãos germanos, ou uterinos, mas apenas consanguíneos em diferentes graus de parentesco. Assim pensa São Jerônimo e a maioria maciça dos católicos. E há várias razões para isso.

II. A doutrina católica

1) Antes de tudo, é consequência do dogma da virgindade perpétua de Maria [2], doutrina atestada por vários documentos, desde o início do cristianismo (por exemplo, o símbolo apostólico, o símbolo de Epifânio, a profissão de fé de Dâmaso, a carta de Santo Inácio aos efésios, a apologia de Aristides a Adriano, a apologia de São Justino a Antônio, a carta de Sirício Accepi litteras vestras etc.).

2) Está em conformidade com o uso bíblico da palavra “irmão” (hebr. ’ach, gr. ἀδελφός). De fato, vários exemplos tanto do Antigo como do Novo Testamento demonstram que a expressão significa não apenas irmãos germanos, mas quaisquer parentes. Ló, por exemplo, é chamado irmão de Abraão (cf. Gn 13, 8; 14, 12) e Jacó de Labão (cf. Gn 29, 15), embora nenhum dos dois fosse irmão, mas sobrinho. A mulher e a esposa são chamadas irmãs (cf. Ct 4, 9), e também aos amigos e membros da mesma cidade ou tribo se dá o nome de irmãos (cf. Ex 2, 11; 2Rs 2, 26; Mt 25, 40; At 11, 29 etc.) [3].

3) Em terceiro lugar, ainda que se fale muitas vezes dos irmãos do Senhor, ninguém além de Jesus é chamado filho de Maria, assim como Maria não é chamada mãe de ninguém a não ser de Jesus.

4) Além disso, se a bem-aventurada Virgem tivesse outros filhos, o Senhor, pouco antes de morrer na cruz, não poderia ter dito: “Mulher, eis aí o teu filho” (ὁ υἱός σου); João, com efeito, não era ὁ υἱός, o filho (com artigo definido), muito menos o primeiro entre os filhos. Além do que, os outros filhos dela, entre os quais estaria o Apóstolo Tiago Menor, irmão do Senhor (cf. Gl 1, 19), veriam o gesto quase como uma afronta, isto é, uma acusação de que tinham pouco cuidado pela mãe, confiada por isso a um dos caçulas… 

Tampouco faltam razões para pensar que os chamados irmãos do Senhor eram, na verdade, primos maternos ou paternos dele.

5) De fato, a Maria que é chamada mãe de dois deles, Tiago e José (cf. Mt 27, 56; Mc 15, 40.47; Lc 24, 10), é chamada também irmã de Maria, Mãe de Jesus (cf. Jo 19, 25), como já foi dito antes.

Ora, a palavra “irmã” pode ser entendida aqui de dois modos: a) em sentido estrito, enquanto significa que a primeira Maria era filha dos pais de Nossa Senhora, Joaquim e Ana; b) ou em sentido amplo, na medida em que o marido dela, Cléofas (cf. Jo 19, 26), seria irmão de São José, o que já foi atestado por Hegesipo (cf. Eusébio, HE IV 22), palestino do séc. II. Nada impede, aliás, que admitamos ambas as hipóteses.

6) Ademais, como também afirma Hegesipo, Tiago e Simão eram primos paternos do Senhor, e ao menos Simão era filho de Cléofas. Eis as palavras dele referidas por Eusébio: “Depois que Tiago, chamado o Justo, padeceu o martírio assim como o Senhor, pela mesma razão um outro filho do tio dele [de Cristo ou de Tiago?], Simão de Cléofas, foi constituído bispo, a quem todos indicaram por ser o segundo primo do Senhor”.

7) Some-se a isto que Judas era irmão de Tiago (cf. Lc 6, 16; Jd 1), como atesta ainda Hegesipo (cf. Eusébio, HE iii 20): “Naqueles tempos [a saber: de Domiciano], ainda viviam alguns da família do Senhor, sobrinhos daquele Judas que era chamado irmão dele [de Tiago] segundo a carne. Estes eram acusados de ser da estirpe de Davi” [4].

Tudo isso, no entanto, parece ir de encontro ao fato de o Apóstolo Tiago, que é chamado irmão do Senhor (cf. Gl 1, 19), ser chamado também filho de Alfeu em Mt 10, 3. 

8) Mas isso se pode explicar também de dois modos: a) ou consideramos que Cléofas, ou Clopas, é a mesma pessoa que Alfeu, o qual, como era costume, teria dois nomes (por exemplo, João Marcos, Tomás Dídimo, Mateus Levi etc.); de fato, é possível que Alfeu e Cléofas (ou Clopas, Κλωπᾶς) equivalham ao mesmo nome, Chalpai (חֲלפי), pronunciado com maior ou menor suavidade. — b) Ou se trata de duas pessoas distintas, de forma que Alfeu seria casado com Maria, irmã de Cléofas e de São José, da qual nasceram Tiago e José, enquanto Cléofas seria pai de Simão e Judas, todos eles, portanto, primos de Cristo [5].

III. Objeções e respostas

1.ª objeção: No Evangelho (cf. Mt 1, 25; Lc 2, 7), Cristo é chamado primogênito (gr. πρωτότοκος) de Maria. Logo, Maria, depois do parto de Cristo, teve outros filhos.

Resposta: Segundo a Lei (cf. Ex 13, 2ss; 34, 19s; Nm 3, 47ss; 18, 15), considera-se primogênito todo o que primeiro sai da vulva (lt. quidquid primum erumpit e vulva, gr. πᾶν διανοῖγον μήτραν), quer se lhe sigam outros filhos ou não. A razão é que sobre o primeiro filho recaíam alguns preceitos da Lei que os pais estavam obrigados a cumprir, para o que não deviam esperar até o nascimento de outro filho, obviamente [6]. Logo, o vocábulo “primogênito” designa não só o filho depois do qual vieram outros, mas também aquele antes do qual não veio nenhum. Noutras palavras, todo unigênito é primogênito, embora nem todo primogênito seja unigênito [7].

Vale ainda recordar uma inscrição funerária judaica descoberta no início do século passado e publicada por C. C. Edgar nos Annales des Antiquités de l’Egypte (cf. vol. 22, 1922, pp. 7–16). Nessa inscrição, pertencente à época de Augusto (provavelmente ao séc. V a.C., ou seja, pouco antes do nascimento de Cristo), lê-se que certa jovem morreu em meio às dores do parto de seu primogênito. Logo, para ela o primogênito foi também o unigênito [8].

“A Adoração dos Reis Magos” por Carlo Dolci.

2.ª objeção: No Evangelho, diz-se explicitamente de José e Maria: “Estando Maria, sua mãe, desposada com José, achou-se ter concebido por obra do Espírito Santo, antes de coabitarem” (Mt 1, 18). Logo, depois de coabitar e consumar o casamento, tiveram outros filhos. E de José se diz igualmente: “E não a conhecia até que ela pariu o seu filho primogênito” (Mt 1, 25). Logo, depois do parto a conheceu carnalmente.

Resposta: a) O verbo “coabitar” (lt. convenire, gr. συνελθεῖν) não significa “consumar matrimônio”, mas apenas que Maria e José, no tempo da Encarnação, não viviam juntos na mesma casa, o que fizeram só mais tarde (cf. Mt 1, 20.25). Com efeito, as mulheres desposadas, entre os hebreus, não eram levadas de imediato para a casa do esposo e, por esse motivo, não costumavam viver com ele sob o mesmo teto antes de celebrar solenemente as núpcias.

b) Além disso, a locução “até que” (lt. donec, gr. ἔως), assim como “antes que” e outras similares, é utilizada na Escritura para exprimir muitas vezes o que não aconteceu até um determinado tempo, sem que se possa inferir daí que tenha acontecido depois [9]. Assim, por exemplo, lê-se em 2Sm 6, 23: “E Micol, filha de Saul, não teve mais filhos até o dia da sua morte”, o que não significa que os teve depois de morta, e em Sl 109, 2: “Senta-te à minha direita, até que ponha os teus inimigos por escabelo de teus pés”, o que não significa que, feito isso, não se sentará mais à direita de Deus etc. (cf. Gn 8, 7; 49, 10.26; Sl 122, 2 e muitos outros lugares).

Ora, a finalidade do evangelista era mostrar que Cristo não foi concebido de José (= o que não aconteceu), mas virginalmente, conforme o vaticínio de Isaías a que explicitamente se refere, e não a de narrar o restante da vida de Maria, sobre a qual não pretende afirmar ou negar nada. Por isso, ainda que se interprete “coabitar” como “consumar matrimônio”, das palavras do evangelista não se segue de modo algum que Maria e José tenham-se unido depois, só porque não o tinham feito até então.

3.ª objeção: Embora nas línguas hebraica e aramaica, de fato, não haja um termo técnico e específico para designar os primos (tinham de dizer, com algum incômodo, filho do irmão do pai…), daí não se segue que os irmãos do Senhor fossem primos dele. A razão é que o grego do Novo Testamento, sim, possui um termo técnico e específico para designar os primos (ἀνεψιοί), que os hagiógrafos deveriam ter utilizado no lugar de ἀδελφοί, para não induzir o leitor em erro. Logo, se falam de ἀδελφοί, é porque se trata realmente de irmãos de sangue, não de primos ou parentes em outro grau.

Resposta: A tradução dos LXX sempre verte o vocábulo hebraico ’ach como ἀδελφοί, e não como ἀνεψιοί, mesmo quando é evidente que ele está sendo usado em sentido lato para significar “primos”. A expressão οἱ ἀδελφοὶ τοῦ Κυρίου surgiu no contexto da catequese grega à imitação da versão grega dos LXX e por isso tornou-se como um “termo técnico”, sem perigo algum de erro, já que todos sabiam por tradição o que ela queria dizer. Além do mais, até o final do séc. II não houve qualquer discussão acerca do sentido das palavras “irmãos do Senhor”; esse modo de dizer, por conseguinte, não era visto como contrário ao dogma da virgindade perpétua de Nossa Senhora [10]. 

Referências

  • Este artigo é uma tradução levemente adaptada, com acréscimos e omissões, de H. Simón, Prælectiones Biblicæ. Novum Testamentum. 4.ª ed., iterum recognita a J. Prado. Marietti, 1930, vol. 1, p. 248s, n. 162; p. 344, n. 236, e de Gabriel M.ª Roschini, Mariologia. 2.ª ed., Roma: A. Belardetti (ed.), 1948, vol. 3, p. 262s.

Notas

  1. Concretamente, o Protoevangelho de Tiago (séc. II), o Evangelho da Natividade da Bem-aventurada Virgem Maria, a História de José, o Carpinteiro (séc. IV) e o Evangelho de Pedro (séc. II).
  2. É de fé divina e católica definida que a bem-aventurada Mãe de Deus Maria Santíssima foi e permaneceu sempre e perfeitamente virgem, antes, durante e depois do parto, com virginidade de corpo (integridade física inviolada) e de mente (disposição perpétua de abster-se de toda e qualquer prática venérea, inclusive por simples desejo). Cf., por exemplo, a definição solene do Concílio de Latrão, de 649, no cânon 3 (DH 503): “Se alguém não professa… que depois do parto permaneceu inviolada a sua [de Maria] virgindade, seja condenado”, e a declaração de Paulo IV, ao condenar na bula “Cum quorumdam hominum” (DH 1880), de 1555, a seita dos unitários, que afirmavam que “a beatíssima Virgem Maria não… permaneceu sempre na integridade virginal, a saber: antes do parto, no parto e perpetuamente depois do parto” (ante partum scilicet, in partu et perpetuo post partum). Uma explicação ao mesmo tempo sucinta e detalhada dessa doutrina encontra-se disponível nesta resposta católica.
  3. Cf. F. Lucas Brugensis, In Sacrosancta IV Iesu Christi Evangelia Commentarius. Antuerpiæ, 1606, p. 190: “Tornou-se uso nas línguas hebraica e síria que o nome de irmãos significasse os parentes e todos aqueles que são de uma mesma família”. — É evidente, de resto, que a palavra “irmão”, no plural, serve muitas vezes, não só nos evangelhos como em outros livros do Novo Testamento, para designar genericamente o conjunto dos fiéis cristãos. Assim, por exemplo, se lê em Jo 21, 23: “Correu esta voz entre os irmãos (τοὺς ἀδελφοὺς) que aquele discípulo não morreria”, e em At 1, 15: “Naqueles dias, levantando-se Pedro no meio dos irmãos (τῶν ἀδελφῶν)” etc., entre os quais se incluem as santas mulheres, Maria, Mãe de Jesus, e também os irmãos dele (cf. At, 1, 14: τοῖς ἀδελφοῖς αὐτοῦ), isto é, seus parentes e discípulos. Cf. F. X. Patrizi, De Evangeliis Libri Tres. Friburgi Brisgoviæ, Herder, 1853, p. 104, n. 42 (= l. I, c. 3, q. 5, §1).
  4. Cf. J. Knabenbauer, Commentarius in Evangelium secundum Matthæum. 3.ª ed., Paris: P. Lethielleux (ed.), 1922, p. 565s: “É coisa conhecidíssima que, entre os hebreus, o nome ‘irmão’ designa não somente o irmão germano e uterino, mas também qualquer parente ou consanguíneo (cf. Gn 14, 16; 13, 9; 24, 48; 29, 12; 2Sm 10, 13 etc.). Ora, os irmãos do Senhor, Tiago, José, Simão e Judas, eram filhos de Maria, irmã da Mãe do Senhor, isto é, de Maria esposa de Cléofas (cf. Mt 27, 56; Mc 15, 40.47; 16, 1; Jo 19, 25). E São Jerônimo escreve: ‘Nós, como está no livro que escrevemos contra Helvídio [De virginitate perpetua B. Mariæ], entendemos que os irmãos do Senhor são primos do Salvador, filhos de Maria, tia de Cristo, a qual é chamada mãe de Tiago Menor, de José e de Judas, que em outro evangelho são chamados irmãos do Senhor. Ora, que os primos sejam chamados irmãos, toda a Escritura o demonstra’. — Hegesipo (cf. Eusébio, HE IV 30.4) diz que Cléofas era irmão de José. Segundo Orígenes (cf. PG 13, 876), no evangelho [apócrifo] de Pedro se dizia que eles eram filhos de José e sua primeira esposa, opinião que Jerônimo rejeita como delírio dos apócrifos, e Santo Tomás também observa contra ela: ‘Cremos que, assim como a Mãe de Jesus foi virgem, também José o foi, porque [Deus] confiou a Virgem a um virgem tanto no fim como no princípio’. Que eles não possam de modo algum, contra os racionalistas e muitos outros, ser considerados irmãos germanos e uterinos de Jesus, é evidente com base nas passagens citadas e também em Lc 1, 34: ‘Porque não conheço varão’”.
  5. Para outros, a Maria dita esposa de Alfeu seria filha de Cléofas, de sorte que o genitivo de Cléofas seria de origem, não de posse (cf. Van Hasteren, Studien, vol. 65, p. 187).
  6. Cf. C. Pesch, Compendium Theologiæ Dogmaticæ. Friburgi Brisgoviæ, Herder, 1913, vol. 3, p. 104: “A Lei se aplica a Maria tal como soa e foi dada a todos, não para este [e aquele] caso particular. Jesus, que viera cumprir a Lei, quis também que este preceito fosse cumprido em si e em sua Mãe porque não poderia ser omitido sem escândalo para outros, e porque Ele mesmo era aquele a quem a Lei tipicamente prefigurava”.
  7. Cf. Santo Tomás de Aquino, STh III 28, 3c., onde dá quatro razões teológicas de conveniência para a virgindade de Maria após o parto: “1) Por parte de Cristo, que, do mesmo modo que o Unigênito do Pai segundo a divindade é perfeito Filho dele em tudo, assim convinha que fosse o Unigênito da Mãe, como fruto perfeitíssimo dela. — 2) Por parte do Espírito Santo, cujo sacrário foi o útero virginal no qual formou a carne de Cristo; donde, não convinha que fosse depois violado pela comistão viril. — 3) Por parte de Maria, Mãe de Deus, que pareceria ingratíssima se não se contentara com tão grande Filho, e se voluntariamente quisesse perder pelo concúbito da carne a virgindade que nela fora milagrosamente conservada. — 4) Por parte de São José, a quem se haveria de imputar a máxima presunção, se atentasse poluir aquela que, por revelação do anjo, soubera ter concebido a Deus. E por isso se deve afirmar absolutamente que a Mãe de Deus, assim como concebeu virgem e pariu virgem, assim também permaneceu virgem após o parto para sempre [in sempiternum]”.
  8. Cf. J.-B. Frey, La signification du terme πρωτότοκος d’aprés un inscription juive, em: Biblica, vol. 11, n.º 4 (1930), p. 386, ll. 5–6: “… ὠδεῖνι δὲ Μοῖρα / πρωτοτόκου με τέκνου πρὸς τέλος ἦγε βίου”.
  9. Já Helvídio pretendera impugnar a virgindade post partum nessa linha, interpretando “antes de coabitarem” (lt. priusquam convenirent) como “antes de se conhecerem”. São Jerônimo respondeu-lhe com seu habitual e cáustico bom humor (cf. De virg. perp. 4: PL 23, 195): Helvídio, antes de fazer penitência, morreu. Quer dizer então que se arrependeu depois de morto, embora diga a Escritura que “na morte não há quem se lembre de ti” (Sl 6, 6)? V. também J. Corluy, Commentarius in Evangelium S. Joannis. Gandavi, C. Poelman (ed.), 1878, p. 168.
  10. Cf. Dom Estevão Bettencourt, Pergunte e Responderemos, n.º 472 (2001), p. 432: “Não se pode esquecer que a língua grega dos evangelhos supõe um fundo semita, pois o Evangelho é a redação escrita da pregação oral dos Apóstolos feita em aramaico. Ora, em aramaico o vocábulo ’ach significa parente ou familiar, e é com este sentido amplo que ele é traduzido para o grego pelo termo ἀδελφός. Deve-se, pois, entender ἀδελφός no sentido de ’ach aramaico”.

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Um dos artigos mais obscuros da nossa fé
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A descida de Jesus à chamada “mansão dos mortos” talvez seja um dos artigos mais obscuros e incompreendidos de nossa fé. Fala-se muitíssimo pouco a seu respeito, embora ele conste expressamente no Credo, que rezamos todos os domingos.

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A descida de Jesus à chamada “mansão dos mortos” talvez seja um dos artigos mais obscuros e incompreendidos de nossa fé. Fala-se muitíssimo pouco a seu respeito, e no entanto ele consta expressamente no Credo Apostólico, que rezamos todos os domingos na Santa Missa. 

A fim de sanar essa ignorância — e também para combater certos erros modernos —, tratemos brevemente do assunto. 

Jesus desceu “aos infernos”

No latim, a expressão que se usa no Credo para resumir esse acontecimento é descendit ad ínferos (lit. “desceu aos infernos”). Mas, justamente para não confundir nossa cabeça — e não pensarmos que Jesus desceu ao inferno dos condenados —, é até melhor que usemos a expressão “mansão dos mortos” (com a qual estamos acostumados por causa de nossa tradução litúrgica). 

De fato, os judeus acreditavam, desde o Antigo Testamento, que, quando uma pessoa morria, a sua alma imortal ia para junto de seus pais, num lugar chamado sheol (cf., v.g., Gn 37, 35, Nm 16, 30-33; Jn 2, 3). Nosso Senhor mesmo aludiu a isso quando profetizou acerca de si mesmo: “Do mesmo modo que Jonas esteve três dias e três noites no ventre do peixe, assim o Filho do Homem ficará três dias e três noites no seio da terra” (Mt 12, 40). Essa expressão (gr. καρδίᾳ τῆς γῆς, lit. “coração da terra”) não é o sepulcro, mas as “regiões inferiores” ou “infernais”, por assim dizer (o prefixo latino infer designa simplesmente algo que está embaixo). 

As almas dos mortos, porém, não se misturavam indistintamente nesse lugar. A parábola do pobre Lázaro e do rico epulão (cf. Lc 16, 19-31) nos recorda a separação que, mesmo antes de Cristo, havia entre bons e maus: enquanto estes se condenavam para um lugar de fogo e tormentos eternos, aqueles iam para o “seio de Abraão”. E foi para este último lugar, especificamente, que desceu Nosso Senhor Jesus Cristo: 

Há quatro infernos: o inferno dos condenados, o purgatório, o limbo das crianças e o limbo dos justos ou seio de Abraão. O inferno ao qual desceu Cristo não é o dos condenados, mas o lugar onde moravam as almas dos justos que morriam antes de ter-se realizado a redenção — e que recebe o nome de limbo dos justos (limbus Patrum) [1].

Se falamos dos efeitos que produziu, Cristo baixou a todos os infernos que se conhecem, mas com diferente finalidade a cada um. E assim, baixou ao inferno dos condenados para convencê-los de sua incredulidade e malícia; ao purgatório, para dar-lhes a esperança de alcançar a glória, e ao limbo dos patriarcas, para infundir a luz da glória eterna nos justos que ali estavam retidos unicamente pelo pecado original da natureza humana. Mas por sua própria presença real Ele desceu unicamente ao limbo dos patriarcas, a fim de visitar em sua morada, com a alma, aqueles que pela graça havia visitado interiormente com sua divindade. E desde ali estendeu aos demais infernos sua influência da forma como dizemos, de modo semelhante a como, padecendo em um só lugar da terra, libertou com sua Paixão o mundo inteiro [2].

Quando professamos que Jesus “desceu à mansão dos mortos”, então, estamos falando do que aconteceu à alma de Cristo durante o tempo entre sua morte e ressurreição. Enquanto o seu divino corpo estava no sepulcro, sua alma santíssima foi para junto dos mortos, a fim de resgatar os que entre eles eram justos e abrir-lhes as portas do Céu, até então fechadas a todos, como consequência do primeiro pecado.

Muitos artistas procuraram representar esse momento da história da salvação (que permaneceu oculto, evidentemente, aos olhos de todos): nesses retratos, Jesus Cristo é visto, ressuscitado, inclinando-se para resgatar os patriarcas, à frente dos quais estão ninguém menos que Adão e Eva. 

Uma descida salvadora

“Descida de Cristo ao Limbo”, por Andrea Mantegna.

Uma boa forma de explicar esse artigo de fé é inserindo-o no grande quadro da nossa salvação. 

De fato, a história humana é uma longa linha do tempo, no centro da qual se encontra ninguém menos que Nosso Senhor Jesus Cristo. Se estamos no ano 2021, é porque se passaram 2021 anos desde o nascimento de Cristo. Todas as vezes que escrevemos a data, estão implícitas as abreviações d.C. (“depois de Cristo”) ou A.D. (anno Domini). Ainda que nossos contemporâneos tentem eliminar essa referência, chamando a nossa época simplesmente de “Era Comum” (E.C.), a luz de Cristo refulge através dos séculos, e é debalde qualquer esforço por escondê-la ou apagá-la.

Só que Jesus não está no centro da história como um simples “ponto de referência” do passado, que nada tem a ver com nossas vidas. Como sabemos pela fé, Ele é o próprio Deus que salva. O significado do seu nome é o que Ele fez (e faz) por todos os homens. Há uma diferença, porém, no modo como Ele salvou os que vieram antes dele e como Ele salva a nós, que viemos depois. É o que nos explica Santo Tomás de Aquino:

A paixão de Cristo foi uma espécie de causa universal da salvação dos homens, tanto dos vivos como dos mortos. Ora, a causa universal se aplica aos efeitos particulares segundo algo especial. Portanto, assim como o poder da paixão de Cristo se aplica aos vivos por meio dos sacramentos, que nos configuram com a paixão de Cristo, também é aplicada aos mortos por meio de sua descida aos infernos. Por isso, diz claramente Zc 9, 11: “Vou libertar teus cativos desta cisterna sem água por causa da aliança que contigo fiz, selada com sangue”, isto é, pelo poder de sua paixão (STh III 52, 1 ad 2).

Os sacramentos são para nós, portanto, o que foi o descensus para os justos do Antigo Testamento. Jesus nos resgata da “cisterna sem água” dos nossos pecados pelo Batismo; aos nossos pais, porém, Ele salvou indo-lhes ao encontro na região dos mortos. 

Uma verdade de fé

Como não estamos acostumados com a catequese sobre esse acontecimento, podemos nos perguntar: é realmente “de fé” — ou seja, é obrigatório acreditar — que Jesus de fato desceu com sua alma para salvar os mortos antes dele, ou isso é apenas uma “especulação teológica”?

“Descida de Cristo ao Limbo”, por Sebastiano del Piombo.

Ao que devemos responder que sim, essa é uma verdade de fé, sobre a qual falam todos os bons catecismos e livros de teologia dogmática (cf., v.g., as citações acima, cujas referências se encontram abaixo), e isso com base em inúmeros registros das Escrituras [3], da Tradição e do próprio Magistério da Igreja.

O silêncio de nossa época a respeito desse artigo de fé se deve, em primeiro lugar, como já dissemos, à singularidade do fato: a descida de Jesus à mansão dos mortos não aconteceu na frente de todos, não foi atestada por inúmeras testemunhas oculares — como foram, por exemplo, seus milagres — e, até por isso, não foi narrada meticulosamente por nenhum evangelista. Por falta de detalhes, é um assunto sobre o qual, naturalmente, pouco se fala

Mas, em nossa época, há também um fator que não devemos subestimar. Seu nome é incredulidade. É uma infeliz tendência da teologia moderna depreciar, ignorar ou até mesmo negar os acontecimentos mais extraordinários da vida de Cristo. As reflexões de nossos “eruditos” estão cheias de espírito cético, racionalista e antissobrenatural. É muito comum ver os teólogos contemporâneos qualificando, inclusive, as várias descrições da descida de Cristo aos infernos como resquícios de uma “mitologia pagã”. Quando a própria existência da alma humana é questionada por um sem-número de teólogos, não impressiona que a descida da alma de Cristo à mansão dos mortos seja igualmente posta em questão e distorcida, quando não negada de todo. 

Agora, que os incrédulos não creiam, não é novidade alguma. A nós cabe preservar o que nós mesmos recebemos de outrem. Como disse o Apóstolo: Ego accepi a Domino quod et tradidi vobis, “Eu recebi do Senhor o que vos transmiti” (1Cor 11, 23). Só assim seremos católicos de fato: preservando o depósito da Revelação, a Tradição de nossos pais na fé. 

Notas

  1. Ludwig Ott, Manual de Teología Dogmática. Barcelona: Herder, 1966, p. 301. 
  2. Antonio Royo Marín, Jesucristo y la vida cristiana. Madrid: BAC, 1961, p. 348.
  3. Em 1Pd 3, 19, v.g., se afirma claramente que, uma vez morto segundo o corpo, Cristo desceu em espírito ao cárcere (gr. ἐν φυλακῇ, lt. in carcere), isto é, ao sheol (cf. At 2, 27.31) para pregar às almas (gr. τοῖς πνεύμασιν, lt. spiritibus, pt. “aos espíritos”) aí detidas. No entanto, os intérpretes divergem quanto à finalidade da descida e à qualidade das almas: a) para uns, este cárcere seria o limbo dos patriarcas, aos quais o Senhor foi anunciar a libertação que tanto aguardavam (cf. J.-A. van Steenkiste, Epistolæ Catholicæ Breviter Explicatæ. 2.ª ed., Brugis, 1887, p. 82); b) para outros, este cárcere designaria genericamente a mansão dos mortos, de maneira que aos ímpios Cristo confirmou a condenação e aos justos anunciou a redenção (J. Frings, “Zu I Petr. 3, 19 und 4, 6”, in: Bibl. Zeits. 17 [1925], pp. 75–88); c) para outros, enfim, Cristo teria descido ao lugar em que se achavam os que, incrédulos, desprezaram os avisos de Noé, mas se arrependeram assim que rebentou o dilúvio (cf. v. 20; H. Simón, Prælectiones Biblicæ. Novum Testamentum. Taurini: Marietti, 1942, vol. 2, p. 448, n. 925).

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Uma epidemia oculta
Sociedade

Uma epidemia oculta

Uma epidemia oculta

Embora vivamos na época mais tecnologicamente conectada da história, os índices deste problema dobraram nas últimas décadas — como uma “epidemia oculta”, que ameaça jovens e velhos, ricos e pobres, homens e mulheres. Saiba do que se trata.

John Horvat IITradução: Equipe Christo Nihil Praeponere14 de Julho de 2021Tempo de leitura: 6 minutos
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Um amigo trabalha numa clínica médica em uma cidade de médio porte no meio-oeste [N.T.: dos Estados Unidos, de onde fala o autor do texto]. Ele me falou sobre um tipo peculiar de paciente que aparece em busca de tratamento. São jovens e velhos, ricos e pobres, homens e mulheres. Pode-se dizer com segurança que são um grupo representativo da América.

O curioso é que esses pacientes não estão doentes.

Eles estão solitários. Ele me informou que médicos da equipe lhe disseram que é cada vez maior o número de pacientes que vão à clínica sem ter doença alguma. Embora tentem disfarçar, querem apenas conversar com alguém. Querem a atenção de alguém que se importe com eles. E os médicos frequentemente percebem que, nesses casos, o melhor remédio é uma boa conversa. Depois da consulta, eles saem do consultório felizes com alguma recomendação geral e ansiosos pelo próximo encontro.

O mundo lá fora é solitário e depressivo. No entanto, tudo leva a crer que essa história é um indício de que algo mais profundo está acontecendo. Isso tem origem no fato de que as relações sociais e a prática da virtude estão em frangalhos, e está cada dia mais difícil resolver esse problema.

Solidão: uma epidemia oculta. — A solidão é um problema muito real. Tem-se chamado esse problema de “epidemia oculta”, que ameaça muitos americanos. Mais de 40% dos adultos nos EUA dizem sentir-se sozinhos. Embora vivamos na época mais tecnologicamente conectada da história, os índices de solidão dobraram desde os anos 1980

A solidão afeta a saúde física, a longevidade, os níveis de estresse e a saúde mental. Também leva as pessoas a buscar refúgio nas drogas, nos opiáceos, na comida em excesso, na bebida e… nas conversas.

A solidão tem muitas causas. Uma delas é o fato de que muito mais pessoas vivem sozinhas hoje. O órgão norte-americano responsável pelo censo (U.S. Census Bureau) relata que um terço dos americanos com mais de 65 e a metade daqueles acima de 85 vivem sozinhos. A queda nas taxas de casamento e de fertilidade também contribui para a solidão. Com estilos de vida mais inconstantes, ficou mais fácil manter amigos e familiares mais distantes do que nas gerações passadas.

Juntos a sós. — Estar sozinho não é a única causa de solidão. Talvez não seja nem mesmo a causa mais comum. A solidão também pode afetar alguém que está cercado de gente. Nesse caso, o problema não está na falta de relacionamentos, mas no fato de que esses relacionamentos carecem de profundidade e sentido

Sociólogos como Sherry Turkle usaram expressões fortes como “estar juntos a sós” para descrever essa nova solidão. Ela descobriu que há um número crescente de pessoas que vivem com outras, mas usam aparelhos eletrônicos como mediadores da realidade. Esses aparelhos definitivamente não aumentam a conectividade. O que fazem é criar uma distância entre as pessoas, com sua velocidade, brevidade e distanciamento. Ao contrário do contato cara a cara, no contato virtual as pessoas podem facilmente se esconder umas das outras.

O autor Robert Putnam declara em seu livro Bowling Alone, referência no assunto, que a perda de envolvimento civil está destruindo a comunidade, apesar de viver em seu seio. Desde os anos 1960, houve um afastamento voluntário da comunidade que deixou as pessoas desorientadas e sozinhas.

Para piorar as coisas, os lugares em que as pessoas se reúnem hoje são estéreis e pouco convidativos. Lugares como centros comerciais, shoppings e aeroportos tornaram-se meros lugares de reuniões sociais, onde as pessoas ficam juntas (muitas vezes atadas a seus aparelhos celulares), mas não falam umas com as outras. Consequentemente, as pessoas se sentem sozinhas.

Desfazendo os laços comunitários. — Há ainda um terceiro tipo de solidão, o mais prevalente e profundo de todos. Consiste na solidão causada pelo rompimento dos velhos laços comunitários. Esse isolamento sempre assombrou a modernidade, e agora está assumindo formas mais radicais.

Os fortes laços morais da família, do trabalho, da comunidade e da igreja são aqueles que ligam uma pessoa a uma identidade firmemente enraizada na realidade da vida cotidiana. Eles envolvem a pessoa em uma vida comum dentro da virtude. Esses laços são os melhores remédios contra a solidão.

A modernidade está focada em indivíduos que constroem identidades a partir de seus entornos. As pessoas só cuidam de si mesmas. Assim, são encorajadas a engajar-se naquilo que Thomas Hobbes chamou de “guerra de todo homem contra todo homem”, que cria tensão, uma vez que todos são vistos como supostos competidores.

Com o enfraquecimento dos laços comunitários, os indivíduos modernos construíram alguma identidade em associações vagas, em grupos abstratos e impessoais, sejam eles partidos políticos, times esportivos, grupos empresariais ou movimentos sociais. 

Mas esses vínculos rasos não substituem nossa apaixonada necessidade de uma comunidade. Pelo contrário, promovem o individualismo e deixam as pessoas solitárias.

Criando uma identidade. — Essa situação ajuda a explicar a solidão atual. Agora, até mesmo essas estruturas sociais mais rasas da sociedade liberal estão abaladas e destruídas. Nosso problema, tanto à esquerda quanto à direita, é a inabilidade de encontrar uma identidade fora da comunidade e da virtude. Quando não conseguimos encontrar uma identidade, nós a “criamos”.

Assim, o estilhaçamento de todo gênero de comunidade deu origem à ascensão de políticas identitárias, de modo que as pessoas se identificam com um mundo como elas imaginam que deveria ser. A frenética intemperança do nosso tempo levou à derrocada de todo freio moral, o que permitiu que as pessoas se identificassem com o que quisessem. Ideias e sistemas ideológicos podem ser facilmente distorcidos para se conformar a uma realidade imaginária quando não há âncoras sociais.

O resultado é que as pessoas não sabem quem são. Estão despedaçadas e solitárias.

A busca pela vida em comunidade não será negada. — Qual é a solução para essa terrível solidão que assombra nossa sociedade em ruínas? A maioria dos especialistas aponta para os governos. Eles irão encarregar assistentes sociais de visitar ou ligar para as pessoas solitárias. Eles tentarão mobilizar redes de voluntários para manter os solitários ocupados. Eles buscarão maneiras de forjar relacionamentos mecânicos entre as pessoas. Eles farão montanhas de estudos sobre a solidão. No Reino Unido, já nomearam até um Ministro para a Solidão.

Contudo, essas soluções só tratam os sintomas, não as causas. Como os pacientes que vão ao médico sem ter qualquer doença, as pessoas solitárias não estão em busca de qualquer relacionamento. Elas buscam relacionamentos profundos que expressem uma preocupação verdadeira e lhes confiram uma identidade. Estão procurando uma vida comunitária.

“A busca pela vida em comunidade não será negada”, escreve o sociólogo Robert Nisbet, “pois surge de algumas das poderosas necessidades da natureza humana — necessidades de um claro senso de propósito cultural, associação, posição e continuidade”.

Essa busca vigorosa por uma verdadeira vida comunitária é o que está faltando aos esforços para superar a epidemia de solidão. Os esforços atuais não fazem nada para minar a presente cultura hedonista e individualista, que produz uma multidão de pessoas solitárias.

Laços comunitários. — Alguém poderia objetar que não é fácil restabelecer laços comunitários. Isso é verdade, uma vez que todas as coisas de valor exigem esforço e sacrifício. Porém, esses laços, sendo naturais, são acessíveis.

O vínculo familiar é o primeiro e mais fundamental de todos. Quando as pessoas mantêm e fortalecem esse vínculo, ele é um meio excelente de evitar a solidão. 

O vínculo mais vigoroso e acessível é aquele que se dá entre o indivíduo e Deus por meio da Igreja. Qualquer um, por mais solitário que esteja, pode recorrer a Deus e ser atendido. Quando esse vínculo vai bem, todos os outros também podem ir. 

A única solução real para a solidão é um retorno à ordem moral. Até lá, seremos como pacientes que pedem um tratamento para doenças indeterminadas que contaminam nossa sociedade solitária e em ruínas.

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O primeiro genocídio moderno ocorreu na Revolução Francesa
História da Igreja

O primeiro genocídio moderno
ocorreu na Revolução Francesa

O primeiro genocídio moderno ocorreu na Revolução Francesa

O primeiro genocídio moderno ocorreu na França, em 1793. Foi levado a cabo por apóstolos do Iluminismo, modernos e progressistas, e teve por alvo camponeses católicos da região francesa da Vendeia. Conheça esta história, infelizmente desconhecida de muitos.

John ZmirakTradução: Equipe Christo Nihil Praeponere13 de Julho de 2021Tempo de leitura: 7 minutos
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O dia 14 de julho, provavelmente, passa sem muita festa em sua casa, mas a data — celebração da Queda da Bastilha — marca o início da maior perseguição organizada contra os cristãos desde a época do imperador Diocleciano. Esse dia, começo da Revolução Francesa, também plantou as sementes das ideologias assassinas do socialismo e do nacionalismo que envenenariam os dois séculos seguintes, ceifando a vida de milhões de fiéis e outros civis inocentes. Nesse ínterim, os dois movimentos políticos acumularam um número expressivo de cadáveres. 

Em Death by Government [“Morte pelo Governo”, sem tradução para o português], o pesquisador R. J. Rummel afirmou que: 

durante os primeiros 88 anos deste século, quase 170 milhões de homens, mulheres e crianças foram baleados, espancados, torturados, esfaqueados, queimados, desnutridos, congelados, esmagados, forçados a trabalhar até a morte, enterrados vivos, afogados, enforcados, bombardeados ou mortos de inúmeros modos por governos que mataram cidadãos ou estrangeiros desarmados e indefesos.

Mas o primeiro genocídio moderno desse tipo ocorreu na França, com início em 1793. Foi levado a cabo por apóstolos do Iluminismo, modernos e progressistas, e teve por alvo camponeses piedosos da região da Vendeia, na França. Quando chegou ao fim, cerca de 300 mil pessoas haviam sido mortas pelos exércitos da República.

“Henri du Vergier na Batalha de Cholet, em 1793”, por Paul-Émile Boutigny.

Essa história é pouco debatida na França. Na verdade, um dedicado historiador que leciona numa universidade francesa me disse: “Não devemos mencionar a Vendeia. Qualquer um que fale sobre o que ocorreu lá não tem nenhuma perspectiva de carreira acadêmica. Portanto, ficamos em silêncio sobre o assunto”.

É sobretudo na própria região da Vendeia que as lembranças são preservadas, o que possivelmente explica por que essa parte da França até hoje é mais religiosa e conservadora do que qualquer outra do país. Em 1993, no 200.º aniversário dessas atrocidades, o governo local inaugurou um museu para lembrá-las — com direito a uma visita de Alexander Soljenítsin, que em seu eloquente discurso observou que o assassinato em massa de cristãos na Rússia foi diretamente inspirado pelo que ocorrera na Vendeia. Os bolcheviques, disse ele, se espelharam nos revolucionários franceses, e o próprio Lênin considerava os massacres da Vendeia o modo correto de lidar com a resistência cristã.

Foram fazendeiros comuns das regiões da Vendeia e da Bretanha que, em 1793, se insurgiram contra os radicais de classe média em Paris que controlavam o país. Os ideólogos da Revolução já haviam:

  • executado o rei e a rainha e deixado seu jovem filho morrer doente na prisão;
  • tomado a Catedral de Notre-Dame, removido seus símbolos cristãos e consagrado no altar uma prostituta como “Deusa da Razão”;
  • declarado uma “guerra de libertação” revolucionária contra a maioria dos outros países na Europa;
  • suspendido todas as celebrações protestantes, em honra ao culto estatal da Razão;
  • confiscado todas as propriedades eclesiásticas dos católicos, expulsando milhares de monges, sacerdotes e freiras, abandonados aos próprios cuidados; depois, venderam a propriedade aos seus amigos a fim de angariar fundos para suas guerras;
  • determinado que todo o clero jurasse lealdade ao governo, ao invés de à Igreja; e
  • implementado o primeiro alistamento militar universal da história, recrutando pessoas comuns — em sua maioria, camponeses piedosos, mas confusos por causa dos slogans que imperavam em Paris — para lutar pela Revolução. 

Quando os parisienses foram buscar os filhos dos vendeianos para levá-los ao exército, estes finalmente reagiram e lançaram uma contrarrevolução em nome de “Deus e do rei”. Ela se espalhou rapidamente pelo noroeste da França, restringindo a ação dos exércitos profissionais do governo, que combatia grupos destreinados de guerrilheiros, muitos deles armados apenas com mosquetes de caça.

O primeiro genocídio moderno. — Como escreveu Sophie Masson, descendente dos rebeldes que combateram na resistência vendeiana:

As atrocidades se multiplicaram, os extermínios eram sistemáticos; começaram do topo e eram executados com deleite na base. Ao menos 300 mil pessoas foram massacradas naquele período, e os intrusos que se negavam a fazer o serviço eram baleados ou completamente desacreditados. Mas, mesmo assim, o povo resistia. Ainda havia aqueles que se escondiam nas florestas e armavam emboscadas, que lutavam corajosamente como leões, mas eram abatidos como porcos quando capturados. Não havia misericórdia; todos os líderes eram fuzilados, decapitados ou enforcados. Muitos não podiam sequer descansar em paz: o corpo do último líder foi esquartejado e distribuído a cientistas; a cabeça dele foi conservada num pote, o cérebro foi examinado para verificar se a semente da rebelião se encontrava na mente de um selvagem...

“Ninguém deve ficar vivo”. “As mulheres são sulcos reprodutores que devem ser arados”. “Só devem restar lobos para vagar naquela região”. “Fogo, sangue e morte são necessários para preservar a liberdade”. “Seus instrumentos de fanatismo e superstição devem ser esmagados”. Essas foram algumas das palavras que a Convenção usou ao falar da Vendeia. Seus inofensivos cientistas sonharam com todos os tipos de novas ideias: o envenenamento dos suprimentos de farinha, álcool e água; a construção de um curtume em Angers, que se especializaria no tratamento de pele humana; a investigação de métodos para queimar pessoas em grandes fornos a fim de que a gordura dos corpos pudesse ser retirada com maior facilidade. Carrier, um dos generais republicanos, escarneceu essa pesquisa: esses métodos ‘modernos’ demorariam demais. Seria melhor usar métodos de massacre mais tradicionais: afogamento em massa de homens, mulheres e crianças (todos nus), muitas vezes amarrados juntos, de acordo com o que ele chamava de ‘matrimônios republicanos’; eles eram arremessados de barcos especialmente construídos, puxados até o meio do Loire e então eram afundados; perfuração em massa (com baionetas) de homens, mulheres e crianças; esmagamento das cabeças de bebês em paredes; massacre de prisioneiros com canhões; as torturas mais terríveis e hediondas; queima e pilhagem de vilas, cidades e igrejas. 

A perseguição só terminou de fato quando Napoleão chegou ao poder em 1799 — e precisava de paz na França para que pudesse iniciar suas guerras de conquista. Ele arranjou às pressas um acordo com o Papa, e a Vendeia se acalmou. 

Como a Revolução se tornou satânica. — Naturalmente, as coisas não deveriam sair dessa maneira. A Revolução começara com uma crise financeira e prometera acabar com uma monarquia absolutista, talvez junto com tropas britânicas. Luís XVI era um rei bondoso, ainda que não fosse muito competente. Ele havia retirado as prolongadas e vergonhosas penalidades legais que pesavam sobre os protestantes e judeus, impostas por seus ancestrais durante uma época de maior intolerância. Ele levou o reino à falência depois de financiar a Revolução Americana. (Por gratidão, o Congresso americano pendurou um retrato do monarca no Capitólio e deu o nome de Bourbon a um condado do sul. O uísque foi inventado lá.) Os legisladores franceses que se reuniram em 1789 pela primeira vez em mais de um século queriam, a princípio, reformar o governo, e não substituí-lo.

Algumas reformas eram realmente necessárias: como observaria Tocqueville, a centralização imposta por Luís XIV e por Luís XV havia abalado a vida política na França, concentrando nas mãos de tecnocratas o poder sobre as vidas de cidadãos quase integralmente em Paris. Como era esperado, arruinaram as coisas.

Diferentemente do reino irmão do outro lado do canal, a França não possuía um parlamento permanente e nenhuma lei comum que protegesse as pessoas de prisões arbitrárias; além disso, a economia era em grande medida dirigida pelo Estado, não por cidadãos livres. A Igreja na França, embora ainda estivesse em comunhão com Roma, era em grande parte controlada pelos reis, que nomeavam bispos e determinavam políticas. Na verdade, os reis de França, Espanha e Portugal se organizaram para obter a supressão dos jesuítas, cuja lealdade a Roma e rejeição do direito divino dos reis punha-os sob suspeita, e cuja defesa dos direitos dos índios atrapalhava o “progresso”.

O vácuo educacional criado pela destruição da Companhia de Jesus foi rápida e ironicamente preenchido pelos filósofos do Iluminismo. A primeira geração que cresceu sem a influência dos jesuítas atingiu a maioridade em 1789. Os abusos que viriam a marcar a Revolução — incluindo a execução em massa de sacerdotes e freiras — foram apoiados por intelectuais educados com os panfletos caluniadores de Diderot, repletos de mentiras pornográficas sobre as “vidas secretas” de monges e freiras.

Na verdade, há uma semelhança assustadora entre a literatura anticlerical que preparou o público para a pilhagem de mosteiros e as mentiras antissemitas espalhadas pelos nazistas. O eufemismo usado para descrever o roubo de propriedades eclesiásticas pelo Estado — “secularização” — encontrou eco, na década de 1930, no termo que o governo alemão usou para se referir ao roubo de propriedades dos judeus: “arianização”. Como os judeus são realmente um povo sacerdotal, não surpreende a existência de tais paralelos satânicos. Assim como os fascistas justificaram suas atrocidades ressaltando a proeminência dos judeus na economia e na imprensa, os esquerdistas ainda defendem a perseguição à Igreja destacando sua influência política. Eles não deveriam sair impunes por isso. Espero em vão pelo historiador que escreverá uma comparação completa entre antissemitismo e anticlericalismo.

Em 1989, ajudei a organizar a Missa fúnebre por todas as vítimas da Revolução. Convidamos o cônsul-geral francês, mas ele alegou que já tinha um compromisso. Na própria Vendeia, um amigo francês me contou que algumas pessoas ainda usam braçadeiras negras no feriado nacional e têm das três cores da Revolução a mesma opinião que os negros americanos têm da bandeira de batalha dos Confederados. 

Enquanto tememos pelo futuro da liberdade religiosa na América, lembremos aqueles que morreram pela liberdade e pela fé antes de nós. Deus não permita que tenhamos de seguir os passos deles.

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