Padre Paulo Ricardo
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Uma carta do Padre Pio sobre os nossos anjos da guarda
Espiritualidade

Uma carta do Padre Pio
sobre os nossos anjos da guarda

Uma carta do Padre Pio sobre os nossos anjos da guarda

“Nunca digas que estás sozinha na batalha contra os teus inimigos. Nunca digas que não tens ninguém com quem te possas abrir e confiar. Isso seria uma grande ofensa que se faria a este mensageiro celestial”, o teu anjo da guarda.

Padre Pio de Pietrelcina29 de Setembro de 2021Tempo de leitura: 4 minutos
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Esta carta, escrita pelo Padre Pio a Annita Rodote, sua dirigida espiritual, contém preciosas orientações aos católicos, para que cultivem um relacionamento de devoção com seus anjos da guarda. Data do dia 15 de julho de 1915 e foi comentada pelo Pe. Paulo Ricardo no curso Anjos e Demônios, mais especificamente na aula 13, “Como me relacionar com o meu anjo da guarda?”

Este documento encontra-se amplamente à disposição na internet, mas para esta publicação foi devida e cuidadosamente corrigida, adequando-se à língua portuguesa a fim de facilitar a compreensão dos leitores.


Querida filha de Jesus:

Que o teu coração sempre seja o templo da Santíssima Trindade, que Jesus aumente em teu espírito o ardor do seu amor e que Ele sempre te sorria como a todas as almas a quem Ele ama. Que Maria Santíssima te sorria durante todos os acontecimentos da tua vida, e abundantemente substitua a mãe terrena que te falta.

Que teu bom anjo da guarda vele sempre sobre ti, que possa ser teu guia no áspero caminho da vida. Que sempre te mantenha na graça de Jesus e te sustente com suas mãos, para que tu não tropeces em nenhuma pedra. Que te proteja sob suas asas de todas as armadilhas do mundo, do demônio e da carne.

Esforça-te, Annita, por ter uma grande devoção a esse anjo tão benéfico. Que consolador é saber que perto de nós há um espírito que, do berço ao túmulo, nunca nos abandona, nem mesmo quando nos atrevemos a pecar! E este espírito celestial nos guia e protege como um amigo, um irmão.

É mais consolador ainda saber que esse anjo ora sem cessar por nós, oferece a Deus todas as nossas boas ações, nossos pensamentos, nossos desejos, se são puros.

Por caridade, não te esqueças desse companheiro invisível, sempre presente, sempre pronto a nos escutar e mais ainda a nos consolar. Ó deliciosa intimidade! Ó feliz companhia! Se soubéssemos pelo menos compreendê-la…!

São Pio de Pietrelcina, autor destas linhas.

Mantém sempre [teu anjo] diante dos olhos da alma, recorda-te com frequência da presença desse anjo. Agradece, ora, nutre sempre para com ele uma boa companhia. Abre-te e confia a ele teus sofrimentos. Toma sempre cuidado para não ofenderes a pureza do seu olhar: toma conhecimento e fixa bem esta verdade em tua alma. Ele é muito delicado, muito sensível. Dirige-te a ele em momentos de suprema angústia e experimentarás os seus benéficos efeitos.

Nunca digas que estás sozinha na batalha contra os teus inimigos. Nunca digas que não tens ninguém com quem te possas abrir e confiar. Isso seria uma grande ofensa que se faria a este mensageiro celestial.

No que diz respeito às locuções interiores, não te preocupes, fica tranquila. O que sim deves evitar é prender o teu coração a estas locuções. Não dês muita importância a elas, mostra-te indiferente. Não a desprezes; porém não ames nem desejes tais coisas. Deves sempre responder a estas vozes assim: “Jesus, se sois vós quem me falais, fazei-me ver concretamente os efeitos da tua palavra, ou seja, as santas virtudes em mim.”

Humilha-te diante do Senhor e confia nele. Gasta tuas melhores energias com a graça divina praticando as virtudes, e deixa então que a graça opere em ti conforme a vontade de Deus. São as virtudes que santificam a alma, e não os fenômenos sobrenaturais.

Não te perturbes procurando saber entender quais locuções vêm de Deus. Um dos principais sinais de que estas locuções vêm de Deus é que, tão logo ouvimos estas vozes, nossa alma se enche de temor e perturbação, mas logo em seguida deixam a alma numa paz divina. Por outro lado, quando as locuções interiores provêm do inimigo, no início provocam uma falsa segurança, mas logo em seguida vêm uma perturbação e um mal-estar indescritíveis.

Não duvido em absoluto de que Deus seja o autor de tais locuções; mas é preciso que sejas cautelosa, porque muitas vezes o inimigo pode misturar ali coisas que são dele.

Mas isso não te deve assustar: esta é uma provação à qual foram também submetidos os maiores santos e as almas mais iluminadas que, não obstante tudo isso, foram agradáveis ao olhar de Deus.

Deves somente prestar atenção a nunca crer facilmente nestas locuções, e de forma especial quando se trata daquelas que exigem que faças algo ou indicam o modo de agir. E cuida de, ao recebê-las, submeter tudo ao juízo de quem te dirige espiritualmente, obedecendo às suas decisões.

Recebe, portanto, tais locuções com muita cautela e com humilde e constante indiferença. Comporta-te dessa maneira e tudo fará crescer teus méritos diante do Senhor. Põe teu espírito em paz: Jesus te ama e muito. Quanto a ti, procura corresponder a este amor, sempre progredindo em santidade diante de Deus e dos homens.

Faze também orações vocais, pois ainda não chegou a hora de deixá-las e suporta com humildade e paciência as dificuldades que experimentas ao fazer isto. Prontifica-te também a sofrer as distrações e a aridez, mas nunca abandones a oração e a meditação. É obra do Senhor que assim deseja tratar-te para teu proveito espiritual.

Perdoa-me se termino por aqui. Só Deus sabe o muito que me custou escrever esta carta. Estou muito doente; reza bastante para que o Senhor queira logo me livrar deste corpo.

Eu te abençoo, e também à querida Francisca. Desejo que vivais e morrais nos braços de Jesus.

Frei Pio

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Santa Hildegarda: uma visionária para todas as eras
Santos & Mártires

Santa Hildegarda:
uma visionária para todas as eras

Santa Hildegarda: uma visionária para todas as eras

A vida e os escritos de Santa Hildegarda de Bingen colocam-nos uma dura pergunta: teria Deus falado por meio dessa mulher, não apenas para os contemporâneos dela, mas a toda a humanidade, em todas as épocas, ou ela não passou de uma mulher muito doente?

Brennan PurselTradução: Equipe Christo Nihil Praeponere17 de Setembro de 2021Tempo de leitura: 9 minutos
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Santa Hildegarda de Bingen (1098–1179) é uma maravilha do passado, um fenômeno histórico por direito próprio, e um questionamento direto a todos que se preocupam em aprender sobre ela e com ela hoje, no século XXI. Em suma, a vida e os escritos dela colocam uma dura pergunta: teria Deus falado por meio dessa mulher, não apenas para os contemporâneos dela, mas a toda a humanidade, em todas as épocas, ou ela não passou de uma mulher muito doente?

Hildegarda passou quase toda a vida no vale do Reno, perto de onde o rio Meno nele deságua. O vale central da Renânia é uma das regiões mais férteis da Alemanha; possui um clima suave e temperado, onde pessoas viveram em comunidades por milênios. Desde suas origens, o Reno forma uma via rápida natural nas terras alpinas até sua foz no Canal da Mancha e no Mar do Norte. O paradoxo da vida de Hildegarda é que ela foi uma alma solitária e contemplativa que viveu numa importante via, por assim dizer, onde ela se tornou o centro das atenções.  

Hildegarda, talvez um dos dez filhos de um casal da nobreza local, provavelmente teve uma primeira infância bastante privilegiada e normal, exceto por sofrer de uma doença que a deixava acamada. Durante esses períodos de fraqueza e dor, ela começou a ver imagens incomuns, talvez a partir dos cinco anos de idade. Quando falou com as pessoas sobre suas visões, mandaram-na ficar calada. Quando tinha sete anos, seus pais decidiram que ela deveria entrar para vida religiosa, e assim a entregaram aos cuidados de Juta (Judite), uma anacoreta, enclausurada numa cela de pedra adjacente a um mosteiro beneditino. Lá Hildegarda viveu, estudou, trabalhou e rezou por trinta anos. Um número cada vez maior de moças foi viver com elas, até que Juta se tornou a superiora de um pequeno convento beneditino. Quando Juta morreu em 1136 (Hildegarda tinha 38 anos), a comunidade de mulheres religiosas a escolheu por unanimidade para liderá-las. Pouco se sabe dessas três décadas da vida de Hildegarda, com a exceção de que seus ataques de enfermidade e as visões continuaram. Ela só falou com Juta sobre as visões, mas esta informou a um monge, Volmar, cuja posição era supervisionar as religiosas e ministrar-lhes os sacramentos.

A vida de Hildegarda mudou radicalmente aos 42 anos. A essa altura, ela já tivera a sua visão mais poderosa, não apenas uma visão de luzes e imagens, mas de inspiração, de compreensão, uma infusão de conhecimento sobre o significado da Escritura e de todo o conteúdo da fé. Também recebeu a ordem de escrever o que havia aprendido. Sentindo-se aquém da tarefa, Hildegarda ficou gravemente doente. Volmar mandou que ela escrevesse, e o abade do mosteiro adjacente concordou. Sua doença arrefeceu, e ela começou a escrever o que vira em latim (que não aprendera muito bem), trabalhando com Volmar, que a ajudou durante os trinta anos seguintes. Sua primeira e maior obra, Scivias, discorre em três livros sobre Deus e toda a Criação, a Redenção, a Igreja, o demônio e, finalmente, sobre toda a história da salvação. O primeiro a ler trechos da obra foi o abade; depois, o arcebispo de Mainz; depois, São Bernardo de Claraval e o próprio Papa, Eugênio (1145–1153), que leu os escritos dela em voz alta aos participantes de um sínodo na cidade de Trier, na Alemanha. A notícia se espalhara. Uma verdadeira profetisa vivia no Reno. Ainda que limitada, chegara ao fim a solidão de Hildegarda.

Novas vocações afluíram ao convento dela. Talvez para separar as ovelhas dos bodes, ela transferiu sua comunidade para um vale inabitado e arborizado às margens do Reno, e começou a construir o novo convento. Mas o movimento não parou por aí. Em poucos anos, ela teve de fundar outro convento, desta vez na margem oposta do rio. Como abadessa, ela visitava aquele mosteiro uma ou duas vezes por semana. As pessoas afluíam para ouvi-la falar, para receber sua bênção e para obter tratamentos para suas enfermidades. Tempos depois, ela publicou um grande tratado sobre muitas doenças e o modo de curá-las com o uso de plantas, ervas, partes de animais e pedras preciosas. Trocou muitas correspondências com o mais alto escalão da sociedade medieval: imperadores, papas, reis, bispos e arcebispos, príncipes, abades e abadessas, além de muitos sacerdotes, religiosas e membros da nobreza. Existem hoje mais de trezentas cartas dela, e sem dúvida muitas outras foram escritas durante sua longeva vida.

Recorreram a ela para pedir conselhos, para saber o estado de alma das pessoas, para pedir explicações da Escritura, explicações teológicas dos mistérios divinos e conhecimento sobre o futuro. Ela foi convocada para se reunir com o sacro imperador romano e fazer previsões para ele, que depois as confirmou. Ela falava e escrevia sobre o que lhe chegava, fossem notícias boas ou ruins. Sua voz interior lhe disse muitas coisas de que se queixar. Ela não guardava nada para si quando se tratava de dilacerar clérigos e prelados corruptos por causa de seus abusos da Igreja, da venda de ofícios e por levarem vidas de pompa, luxo e repletas de prazeres sexuais. Quando um prior escreveu para ela, pedindo que rezasse por ele porque estava fazendo o mesmo por ela e porque queria um bom desfecho para seus negócios, ela o repreendeu sem rodeios por seu egoísmo e sua visão pagã de oração. Não temos como saber o número de pessoas que ficavam perplexas com ela.

“A visão da Igreja de Santa Hildegarda de Bingen”, por Giovani Gasparro.

Além das centenas de cartas, ela escreveu outro livro sobre a vida moral e seus méritos, uma obra visionária como Scivias, sobre como temos de viver para participar da paz e da glória celestes. Outro livro é dedicado à descrição das obras divinas. Além do tratado médico, ela escreveu livros para explicar como a natureza funciona de acordo com os preceitos misteriosos de Deus. Ela recebeu a revelação da ordem divina em todas as coisas e se esforçou por transmitir essa ordem a outras pessoas. Também compôs setenta canções e uma peça musical de moralidade sobre as virtudes. Seu estilo, em prosa e em verso, é sempre vívido, persuasivo e repleto de imagens proféticas; é o oposto da escrita acadêmica árida e técnica. Contudo, não é fácil diferenciar precisamente entre o que ela recebeu numa visão, o que aprendeu em outros livros e na tradição local e oral, e o que ela observava e pensava por si.           

Obviamente, tal proeminência (destituída de quaisquer credenciais formais ou poder bruto que lhe servisse de apoio) fez com que ela se metesse em alguns problemas. Foi necessário muito esforço para convencer o abade (sob cuja autoridade ela vivera com Juta) a permitir que ela transferisse suas monjas e seus dotes para a nova localidade no Reno. Suas exortações aos clérigos e leigos poderosos e pecaminosos aumentaram a sua lista de potenciais detratores e inimigos. Algumas pessoas disseram que ela era uma impostora egoísta, ou simplesmente louca. O conflito com seu bispo para impedir que sua protegida, a irmã Richardis, fosse liderar outro convento foi uma causa perdida, já que afinal o Papa interveio para a apoiar o bispo. O caso não fez com que ninguém mostrasse suas melhores qualidades. Por volta do fim de sua vida, Hildegarda permitiu que um homem excomungado fosse enterrado no solo sagrado de seu convento; ela disse que ele se havia reconciliado verdadeiramente com Deus logo antes de morrer. O bispo discordou e pôs seu convento sob interdito, negando a Hildegarda e suas freiras o acesso aos sacramentos, mas ela o cansou com orações e súplicas. Em poucos meses, o interdito foi suspenso, e o túmulo permaneceu intacto. Porém, esses conflitos foram antes a exceção do que a regra.

O fato de ela ter sido uma mulher vivendo no século XII não representou um obstáculo sério à sua missão de disseminar a palavra da revelação de Deus até o fim de sua vida. Começando com cerca de sessenta anos, ela realizou quatro longas viagens pela área rural local, pregando tanto para o clero como para os leigos, com a aprovação de ninguém menos que o Papa. Suas canções eram cantadas em locais tão distantes quanto Paris, e a palavra de sua sabedoria se espalhou por toda a cristandade. Depois de sua morte na idade venerável de 81 anos, iniciou-se imediatamente um culto dedicado a ela. Embora não haja nenhum registro de sua canonização oficial nos séculos XII e XIII, ela foi listada entre os santos do Martirológio Romano ainda no século XVI. Foi só recentemente que o Papa Bento XVI a inscreveu no catálogo dos santos (uma ação chamada de “canonização equivalente”), no dia 10 de maio de 2012; e em 7 de outubro do mesmo ano deu a ela o título de Doutor da Igreja, um reconhecimento concedido a somente 33 pessoas até então, três delas mulheres [1].

Mas, por estarmos no século XXI, muitas pessoas simplesmente não aceitam que Deus tenha comunicado nada, muito menos a verdade, por meio de Hildegarda. Alguns historiadores diagnosticaram seus sofrimentos contínuos como enxaquecas, mas todos falharam completamente em explicar a origem de suas visões em termos médicos. Não podemos negar que alguns de seus sintomas se assemelham aos da enxaqueca, mas o poder e a riqueza de suas visões, bem como a profundidade da compreensão que ela mesma tinha delas, têm uma fonte muito diferente.

Ela não é uma desconhecida na Alemanha contemporânea, mas a maioria das pessoas conhece seu nome pelo motivo errado. Há uma linha de produtos e um site de internet que levam seu nome e vendem elixires feitos de plantas, poções, cremes, pós, rochas e corantes, todos comercializados para a felicidade, o sentimento de liberdade e a independência das pessoas. Porém, a prioridade de Hildegarda era a santificação e a salvação dos outros. Alega-se que os produtos são baseados nos escritos dela, mas eles estão mais alinhados com o comercialismo da Nova Era. Mais séria e mais digna é a associação (Bund der Freunde Hildegards) que publica um periódico trimestral e possui uma rede de médicos, quiropráticos e pesquisadores da área médica, os quais realizam um verdadeiro esforço para aplicar seus remédios e metodologias aos problemas que as pessoas enfrentam hoje. Mas esse grupo quase não entende a mensagem religiosa de Hildegarda. Num nível mais popular, cineastas alemães lançaram um longa-metragem sobre ela em 2009: Vision: From the Life of Hildegard von Bingen (“Visão: Da Vida de Hildegarda de Bingen”). O filme a apresenta como religiosa, abadessa, escritora, compositora e médica, terminando com seus preparativos para uma viagem de pregação. Infelizmente, porém, a produção se concentra nos esforços dela para ser reconhecida pelos homens da Igreja, bem como para conseguir a independência em relação ao controle deles. O roteiro conta a história da luta de uma mulher pobre e oprimida do século XII para se tornar plenamente ela mesma diante de uma hierarquia eclesiástica medíocre, invejosa, sexista e masculina.       

Hildegard foi e é muito mais que isso. Dizendo de modo bem simples, ela foi uma grande santa. Sofreu e lutou terrivelmente. Amou a Deus acima de todas as coisas e sacrificou tudo para agradá-lo. Perseverou até o fim. Inspirou inúmeras pessoas. Disse a elas que deveriam parar de pecar e abraçar a santidade. Para chegar a conhecê-la, leia os seus escritos. Algumas imagens lhe parecerão exóticas ou bizarras, mas a sabedoria de seus preceitos morais e insights religiosos merece um sério exame e um grande respeito.

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A fada-madrinha “sem gênero” de Cinderela
Família

A fada-madrinha
“sem gênero” de Cinderela

A fada-madrinha “sem gênero” de Cinderela

Na nova Cinderela da Amazon, em vez da fada-madrinha idosa do clássico original da Disney, as crianças são apresentadas a um jovem gay com um vestido de baile, salto alto e uma varinha mágica na mão.

Anne HendershottTradução: Equipe Christo Nihil Praeponere17 de Setembro de 2021Tempo de leitura: 7 minutos
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O texto a seguir não foi escrito pelo Padre Paulo Ricardo; é antes a tradução, feita por nossa equipe, de uma matéria a respeito do novo filme Cinderela, presente na plataforma Amazon Prime

Em vários trechos do artigo, a autora Anne Hendershott faz referência a fatos específicos dos Estados Unidos, mas não é novidade para ninguém que a agenda LGBT avança também em nosso país, e com a mesma estratégia do exterior — começando pelas crianças, para que se acostumem desde cedo à desnaturação da família.


Para a criança — e até para o adulto que sabe haver uma criança em todos nós —, os contos de fadas revelam verdades sobre nós mesmos e sobre o mundo. Como o psicólogo Bruno Bettelheim afirmou em seu extraordinário estudo The Uses of Enchantment (1976) [1], “as fantásticas, às vezes cruéis mas sempre profundamente significativas vertentes narrativas dos contos de fadas clássicos, podem ajudar na maior tarefa humana: encontrar um sentido para a vida”. As crianças familiarizadas com os contos de fadas compreendem que essas histórias usam a linguagem dos símbolos — não a da realidade da vida cotidiana.

As crianças sabem que as histórias de fadas não são “reais”, mas os acontecimentos reais de suas vidas tornam-se importantes graças ao sentido simbólico que se lhes atribui. Elas sabem que os eventos descritos nessas histórias aconteceram “muito tempo atrás”, num “reino muito distante daqui”. Os antigos castelos, as fadas mágicas e as florestas encantadas existem numa época única dos contos de fadas, descrita nas linhas iniciais de O Rei Sapo, dos irmãos Grimm, como um tempo muito, muito distante, “quando os desejos ainda podiam ser realizados”.

Os contos de fadas originais dos irmãos Grimm sempre tiveram uma lição moral, um aviso de que devemos ser virtuosos, ou então coisas horríveis acontecerão conosco. Os contos de fadas clássicos sempre terminavam com os ímpios punidos e o bem vencedor do mal. Embora a Disney já tenha distorcido alguns de nossos contos de fadas mais queridos — como em sua produção mais recente de A Bela Adormecida, marcada por uma personagem moralmente ambígua: Malévola —, a versão mais recente de Cinderela, da Sony, promete criar ainda mais caos na mente das crianças. Assim como num conto de fadas não deveria haver tons de cinza numa figura verdadeiramente maligna (como Malévola), será ainda mais difícil para as crianças entender como é possível que a fada-madrinha da nova Cinderela da Sony seja um homem “feroz e fabuloso” de vestido (assim o descrevem algumas resenhas).

Lançado na plataforma da Amazon Prime em 3 de setembro de 2021, o filme Cinderela da Sony apresenta Billy Porter como a fada-madrinha mágica e querida de Cinderela. Em vez da fada-madrinha idosa do clássico original da Disney, as crianças são apresentadas a um jovem gay com um vestido de baile, salto alto e uma varinha mágica na mão.

Alegando que “a magia não tem gênero”, o ator Billy Porter disse, em declaração à revista Out, que sua personagem também não tem gênero. Para os criadores da produção, chamada pelos críticos de Cinderela queer, “a próxima geração já está mais do que pronta para ver esse tipo de representação em sua mídia favorita”. “Você sabe que este é um conto de fadas clássico para uma nova geração, e eu acho que a nova geração está realmente pronta. Sabe, as crianças estão prontas. São os adultos que estão atrasando as coisas”, declarou Porter.

A parte mais triste de tudo isso é que Billy Porter está certo: muitas crianças estão realmente prontas. Para as que estão matriculadas em escolas públicas progressistas de todo o país, a fluidez de gênero vem sendo ensinada desde os primeiros dias no jardim de infância. Elas podem ter participado de uma Drag Queen Story Time [2] na biblioteca local, ou até mesmo recebido visitas de drag queens na escola.

A agenda LGBTQ faz parte do currículo das escolas públicas há quase uma década e, em alguns distritos escolares, os pais não podem mais optar por preservar os filhos da exposição a essa ideologia. Elas já leram que Heather has Two Mommies [3] e foram apresentadas à ideia de que também elas podem mudar de “gênero” a qualquer momento. Existem em muitos distritos escolares Gay-Straight Alliances para crianças, mesmo nos anos iniciais  do ensino fundamental [4], já que elas são incentivadas a abraçar qualquer “gênero” e “orientação sexual” que desejarem.

A partir de agora, a Sony tornará mais fácil para a comunidade LGBTQ alcançar um público ainda mais jovem — as crianças em idade pré-escolar. Embora Billy Porter tenha respondido bruscamente a um repórter de Page Six dizendo: “Se você não gosta, não assista!”, ao ser criticado por usar vestido em sua aparição no programa norte-americano Sesame Street, da PBS, é difícil ignorar o bombardeio constante da mídia contra crianças muito pequenas, até mesmo em idade pré-escolar [5]. Agora que a ideologia atingiu programas infantis e nossos contos de fadas mais queridos, é quase impossível evitá-la.

Isso é triste porque os contos de fadas são importantes. Eles falam diretamente à criança num momento em que o maior desafio dela é trazer alguma ordem ao caos interior de sua mente. Essas histórias ajudam as crianças a se entender melhor, condição necessária para alcançar alguma coerência entre suas percepções e o mundo externo. Confirmando suas experiências e pensamentos íntimos, os contos de fadas ajudam as crianças a se sentir aprovadas.

Na obra Ortodoxia, G. K. Chesterton escreve: “Minha primeira e última filosofia, aquela em que acredito com certeza inquebrantável, eu a aprendi na creche… As coisas em que mais acreditava naquela época, as coisas em que mais acredito agora, são as coisas chamadas de contos de fadas”. Chesterton está falando sobre a moralidade dos contos de fadas:

Há a lição cavalheiresca de Jack, o matador de Gigantes, segundo a qual os gigantes deveriam ser mortos porque são gigantescos. É uma revolta viril contra o orgulho… Há a lição de Cinderela, que é a mesma do Magnificatexaltavit humiles (Exaltou os humildes). Há a grande lição de A Bela e a Fera de que uma coisa deve ser amada antes de ser amável... Estou me referindo a certa maneira de ver a vida que foi criada em mim pelos contos de fadas.

Quando Chesterton diz que os contos de fadas são “coisas inteiramente razoáveis”, Bettelheim afirma que ele “está falando deles como experiências, como espelhos da experiência interior, não da realidade; e é assim que a criança os compreende”.

Embora sejam contos morais, os contos de fadas são mais do que “fábulas”. As fábulas nos dizem o que devemos fazer e, embora possam ser divertidas, exigem muito de nós. Elas são um apelo à ação. Em contrapartida, a mensagem do conto de fadas opera no inconsciente, oferecendo às crianças soluções para problemas que elas nem conseguem reconhecer por si mesmas. Os melhores deles — incluindo os clássicos dos irmãos Grimm ou de Hans Christian Andersen — abordam a situação existencial. Em The Uses of Enchantment, Bettelheim afirma: “O conto de fadas tranquiliza, dá esperança para o futuro e traz a promessa de um final feliz… É por isso que Lewis Carroll chamou ao conto de fadas um presente de amor”.

Essas histórias ainda são importantes hoje. Na verdade, são provavelmente mais importantes do que nunca, à medida que tentamos encontrar um significado em nossas vidas cada vez mais desoladas. É cada vez maior o número de crianças que não são criadas numa comunidade amorosa, na qual a Igreja ofereça uma fonte de significado. Os contos de fadas são “totalmente morais” porque o seu ouvinte compreende que a verdadeira felicidade e a paz dependem de certos preceitos ou condições morais. Quando estes são quebrados, não pode haver paz nem felicidade. 

Como disse um escritor: “A condição pode variar de acordo com o conto, mas os contos imitam o grande ensinamento do Gênesis ao declarar que Deus mesmo fez depender toda a felicidade futura de uma, e apenas uma, condição: tu podes comer de todas as outras árvores, mas desta não”. Quando Eva desprezou a condição, a morte entrou no mundo. Como nos lembra Chesterton, os melhores contos de fadas — como todas as grandes histórias — “documentam o imperativo moral de que existe uma condição e que, se a condição for quebrada, então o inferno pode muito bem acontecer”.

A Cinderela de Billy Porter está longe de ser o “presente de amor” de que fala Lewis Carroll. Porter e a comunidade LGBTQ sabem do poder do conto de fadas e é por isso que estão tentando remodelá-lo à sua própria imagem. Eles não podem permitir que as crianças aceitem a ideia de amor entre um homem e uma mulher como algo natural; não podem deixar as crianças verem que se apaixonar e se casar é “normal”. Billy Porter e a comunidade LGBTQ — entre os maiores apoiadores da Sony — sabem que é preciso distorcer um belo conto de fadas como Cinderela para promover a ideologia depravada e destrutiva segundo a qual é possível escolher um “gênero”, já que a sexualidade não seria um presente de Deus [6].

Notas

  1. Este livro foi traduzido no Brasil sob o título “A psicanálise dos contos de fadas” (N.T.).
  2. Drag Queen Story Time é uma iniciativa da agenda de gênero norte-americana travestida de programa de incentivo à leitura para crianças. Segundo a Wikipedia, “os eventos, geralmente preparados para crianças entre 3 e 11 anos de idade, são conduzidos por drag queens que leem livros infantis e participam de outras atividades de ensino em bibliotecas públicas” (N.T.).
  3. Em língua portuguesa, há um título muito parecido com este, produzido com a mesma finalidade e também vendido para o público infantil: Olívia tem dois papais (N.T.).
  4. Gay-Straight Alliances (GSAs), lit. “Alianças de Gays e Heterossexuais”, são clubes escolares liderados ou organizados por estudantes supostamente tendo em vista “criar um ambiente escolar seguro, acolhedor e aceitável para todos os jovens, independentemente de orientação sexual ou identidade de gênero” (N.T.).
  5. O programa Vila Sésamo, do Brasil, é uma coprodução do programa norte-americano Sesame Street. Salvo engano, não nos consta que a aparição de Billy Porter tenha chegado à versão brasileira do programa (N.T.).
  6. No original: to promote the deviant and destructive ideology that gender is a choice—not a gift from God. Assim como na língua inglesa, também no português o termo “gênero” é usado como sinônimo de “sexo”. Para evitar que os nossos leitores se confundam, no entanto, modificamos a frase, de modo a deixar bem clara a distinção entre a realidade e a ideologia (N.T.).

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O que eles tinham que está nos faltando?
Santos & Mártires

O que eles tinham
que está nos faltando?

O que eles tinham que está nos faltando?

“Os mártires olhavam as fogueiras, os ferros em brasa, as rodas e as espadas como flores e perfumes, porque eram devotos”. Mas como foi possível que eles amassem com tanta generosidade? O que tinham eles, e os santos de modo geral, que está nos faltando?

Equipe Christo Nihil Praeponere16 de Setembro de 2021Tempo de leitura: 1 minutos
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São Francisco de Sales diz em sua Filoteia que “os mártires olhavam as fogueiras, os ferros em brasa, as rodas e as espadas como flores e perfumes, porque eram devotos”.

Tudo bem, mas… devotos? Fogueiras e ferros em brasa parecem combinar muito mais com coragem e fortaleza do que com devoção.

Calma, sua surpresa é perfeitamente compreensível. Em geral, usamos a palavra “devoção” num sentido genérico, para designar ou uma prática religiosa qualquer: “Eu faço a devoção dos cinco primeiros sábados…”, ou a nossa afeição a um santo determinado: “Eu tenho devoção a São José...”. 

São Francisco de Sales, porém, faz referência, aqui, a uma disposição interior bem específica: a de querer cumprir a vontade de Deus de modo imediato. Sem hesitar, reclamar ou procrastinar. Devoção, para ele, é sinônimo de “prontidão”.

Para ilustrar a ideia, talvez seja melhor recorrer a uma antítese, isto é, a um exemplo do contrário. Quando sua mãe, em casa, pede de você alguma tarefa, qual é sua reação? Se o seu normal é espreguiçar, demorar para levantar, caminhar como um “boi manso” e fazer tudo no seu tempo... devoção é uma coisa que, definitivamente, está faltando em sua vida.

Como sair disso, no entanto, para o grande testemunho que deram os mártires?

A resposta está no que vai dentro de nós, o nosso “homem interior”. Os mártires só deixavam seus corpos serem lançados às fogueiras por causa da “fogueira” ardente de caridade que já traziam em suas almas. Só aceitavam que os ferros em brasa marcassem suas peles porque seus próprios corações já estavam abrasados no amor a Deus.

No dia a dia, também temos as nossas “fogueiras” e “ferros”, “rodas” e “espadas”: são as nossas práticas de oração, os membros de nossa família, a quem devemos servir, e também os nossos instrumentos de trabalho. Porém, só seremos capazes de enxergar em tudo isso “flores e perfumes”, como fizeram os mártires, se os imitarmos no amor — se nos tornarmos, como eles, devotos, prontos, rápidos para servir.

Se você está inerte, dormente ou “morto” por dentro — é hora de acordar, “ressuscitar”, fazer queimar em seu interior uma chama que consome e faz agir. 

Comece pedindo a Deus esse fogo, e depois trabalhe incessantemente para não perdê-lo. Nisto consiste, em poucas palavras, a jornada da nossa vida

E é também este o objetivo de nosso curso “Direção Espiritual: a Jornada”. Conheça-o e inscreva-se!

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