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De avião ou a pé? Com ou sem sacramentos?
Doutrina

De avião ou a pé?
Com ou sem sacramentos?

De avião ou a pé? Com ou sem sacramentos?

Contra uma teologia moderna que praticamente “protestantiza” a Igreja, é preciso dizer que os sete sacramentos são necessários, sim, e a ausência deles, na vida diária, custa muito a todo coração que se queira chamar de católico.

Equipe Christo Nihil Praeponere7 de Maio de 2020Tempo de leitura: 5 minutos
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A situação atípica em que nos encontramos, devido à pandemia do novo coronavírus, nos deve fazer refletir sobre a importância e a necessidade dos sacramentos, quando tantos dentro da Igreja os relativizam, e não é de hoje. 

Referindo-se a Nosso Senhor, o Catecismo diz que “a obra salvífica de sua humanidade santa e santificante é o sacramento da salvação que se manifesta e age nos sacramentos da Igreja” (n. 774); isto é, depois de ter subido aos céus, Jesus Cristo, verdadeiro Deus e verdadeiro homem, “age agora pelos sacramentos, instituídos por Ele para comunicar sua graça” (n. 1084).

Isso significa bem concretamente que, onde quer que uma criança esteja sendo batizada, onde quer que um sacerdote esteja rezando Missa ou absolvendo alguém de seus pecados, ali está sendo fincada uma verdadeira “escada” que une o Céu à terra, por onde Jesus ressuscitado comunica individualmente a salvação que Ele operou dois mil anos atrás, por toda a humanidade. Os sacramentos são os meios de tomarmos parte na Redenção que Cristo realizou de uma vez por todas na Cruz, dois mil anos atrás. Não nos basta confessar, com o Credo niceno, que o Filho de Deus desceu dos céus propter nos homines (“por nós, homens”); é preciso que descubramos também, com o Prólogo de São João, que Ele é a luz que ilumina omnem hominem (“todo homem”, cf. Jo 1, 9). Noutras palavras, Jesus não morreu por uma massa amorfa de gente, mas por cada um de nós em particular.

Essas noções, que podem parecer óbvias a quem recebeu uma boa catequese, infelizmente estão “fora de moda” em muitos institutos de teologia. Ao invés de seguir as balizas do que a Igreja sempre ensinou nessa matéria, e de forma dogmática, muitos hoje em dia têm imitado os reformadores protestantes e ensinado um conceito bastante problemático de sacramento: este não passaria de um “ritual simbólico”, feito para evocar uma ideia religiosa, lembrar o que Jesus fez, avivar a nossa confiança em Deus, mas de modo algum ele produziria realmente a graça divina.

Isso explica, em parte, a crise de fé na presença real de Jesus na Eucaristia, a prática disseminada das comunhões sacrílegas e a dificuldade que tantos católicos já tinham de encontrar sacerdotes disponíveis para a Confissão (muito antes de o coronavírus nos visitar). Sem uma fé correta a respeito da ação própria dos sacramentos em nossa alma, fica realmente difícil dar-lhes a devida importância, e não surpreende que tantas vozes surjam, agora, chamando de “desnecessários” aquilo que dois mil anos de Igreja sempre ensinaram ser os meios ordinários de recebermos os favores do Céu.

Mas, contra essa teologia moderna que praticamente “protestantiza” a Igreja Católica, é preciso dizer que os sete sacramentos são necessários, sim, e a ausência deles, na vida diária, custa muito (ou pelo menos deveria custar) a todo coração que se queira chamar de católico. É claro que

os sacramentos não são necessários com necessidade absoluta, como é necessário que Deus exista, já que foram instituídos em razão da pura bondade divina; mas o são com necessidade hipotética, isto é, suposto o fim <para o qual foram instituídos>. Não porque Deus não possa, sem eles, salvar o homem, pois não fez depender dos sacramentos o seu poder, como se diz na Letra: “Como o alimento é necessário à vida”, mas porque pelos sacramentos se realiza de modo mais conveniente a salvação do homem, assim como o cavalo se diz necessário à viagem, quer dizer, porque a cavalo se viaja mais facilmente (Santo Tomás de Aquino, In IV Sent., d. 1, q. 1, a. 2, qc. 1, grifos nossos).

Ou seja, o Deus que instituiu os sacramentos evidentemente não tem a sua ação limitada por eles; Ele pode distribuir a sua graça salvadora aos homens como bem quiser. O Deus dos sacramentos é maior que os sacramentos de Deus, poderíamos dizer.

Essa verdade é uma fonte de grande consolação para nós, especialmente nesses dias em que nos encontramos privados da Missa e afastados, mais ou menos, dos demais sacramentos. Não existe apenas a graça ex opere operato; há também a graça ex opere operantis. Ou seja, além da graça que nos visita nesses sinais sensíveis da Igreja, há também o Deus que nos visita no silêncio de nossa oração íntima, em nossos atos de fé, de esperança e de caridade, nas mortificações que fazemos por amor a Ele. Agora é o momento de redescobrir e colocar em prática tudo isso. Muitos santos se santificaram assim, em situações em que o acesso aos sacramentos era muito mais difícil que agora.

Só que, também, não podemos cair no risco de subestimar o poder desses sete auxílios que Deus nos deu. A comparação que Santo Tomás de Aquino faz com um cavalo “necessário à viagem” deveria fazer-nos pensar. Qual foi a viagem mais longa que já fizemos? Talvez já tenhamos visitado o exterior, de avião. Talvez tenhamos percorrido longas distâncias dentro de nosso próprio país, de carro ou de ônibus. Seja como for, uma rápida pesquisa no Google Maps poderia dar-nos uma ideia de quão demorada seria a viagem que fizemos com esses meios de transportes caso decidíssemos fazê-la a pé, correndo ou até nadando.

E então, o que separa este mundo e o Céu? O que nos separa da eternidade? A jornada rumo à vida eterna não só é mais longa como muito mais árdua, e seria loucura, sem dúvida, prescindir dos instrumentos ordinários que Deus colocou à nossa disposição para que nos aproximássemos dele. Assim como certamente morreríamos insolados subindo do sul do Brasil ao nordeste, ou afogados tentando chegar a nado na Europa, é um perigo tremendo percorrer as vias tortuosas dessa vida sem o auxílio dos sacramentos.

Além disso, a Igreja ensina que há sacramentos mais necessários que outros para a salvação. É o caso do Batismo e da Penitência. Nosso Senhor mesmo incutiu a necessidade de que renascêssemos da água e do Espírito (cf. Jo 3, 5); e também falou do ramo que, separado da videira, só servia para ser lançado ao fogo (cf. Jo 15, 6) — ou seja, se nos apartamos de Cristo pelo pecado mortal, precisamos ser de novo “enxertados” por Ele.

Essa é a fé da Igreja. E é por isso que ela manda aos pais que procurem o quanto antes batizar os filhos recém-nascidos; e aos que estão no pecado que procurem o quanto antes um confessor, para se acusarem e receberem a absolvição de seus pecados. É certo que Deus pode muito bem salvar de outro modo, seja os infantes não batizados, seja os pecadores arrependidos “não confessados”; todavia, se está em nossas mãos salvar a estes com um ou dois minutos para ouvir-lhes os pecados [1] e àqueles com um simples copo d’água (que inclusive, em situações extremas, qualquer um pode derramar), seremos cobrados se não o fizermos

Afinal, Deus quis precisar” dos homens para salvá-los! E é precisamente esse o mistério por trás não só dos sacramentos, mas de toda a missão da Igreja.

Notas

  1. É tal a importância desses sacramentos que alguns moralistas chegam a defender que, “ainda que com perigo para a própria vida ou sob outros grandes incômodos temporais, o pastor de almas deve administrar os sacramentos aos fiéis que se encontram em extrema necessidade espiritual. Deve, por exemplo, em tempo de peste ou de outra doença contagiosa, administrar os sacramentos do Batismo e da Penitência mesmo com risco de vida, de acordo com o que diz Jo 10, 11: ‘O bom pastor dá a vida por suas ovelhas’. O mesmo se aplica ao sacramento da Extrema Unção, quando há a certeza de que o enfermo não é capaz de receber o sacramento da Penitência (Pe. Dominic M. Prümmer, Manual de Teologia Moral, v. III, n. 72ss).

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Dez maneiras de não se preocupar durante a pandemia
Espiritualidade

Dez maneiras
de não se preocupar durante a pandemia

Dez maneiras de não se preocupar durante a pandemia

Nós e os que amamos ficaremos doentes? O sistema de saúde entrará em colapso? Como ficará a economia? É natural que essas e outras inquietações nos atinjam. O que podemos fazer, então, para não nos preocuparmos além da medida?

Pe. Dwight LongeneckerTradução: Equipe Christo Nihil Praeponere6 de Maio de 2020Tempo de leitura: 6 minutos
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Este texto não foi escrito pelo Pe. Paulo Ricardo; trata-se de uma tradução, feita por nossa equipe, de um texto do Pe. Dwight Longenecker, sacerdote americano. Portanto, os sentimentos e preocupações expressas no início deste texto são pessoais e não necessariamente manifestam o sentir e o parecer do padre e de nossa equipe.

De todo modo, os dez conselhos oferecidos abaixo por esse sacerdote, para que enfrentemos esse tempo de pandemia, são muitíssimo apropriados. Daí a oportunidade da tradução. 

Para conferir as reflexões do próprio Pe. Paulo Ricardo a respeito da atual crise do coronavírus, recomendamos a nossos leitores que assistam a todos os episódios do programa COVID-19 e aos últimos dos programas Ao vivo com Pe. Paulo e Homilia Dominical.


A vida da maioria das pessoas se tornou uma confusão por causa da pandemia. Não foi diferente com a minha. A suspensão completa dos sacramentos me deixou muito preocupado. Consigo entender a interrupção dos serviços públicos oferecidos pela Igreja, mas a suspensão de todos os sacramentos — inclusive das visitas aos lares e das confissões individuais — parece-me algo draconiano. No entanto, com tanta incerteza em relação ao vírus, entendo que todos os líderes prefiram pecar por excesso de cuidado. Inicialmente, a maioria das pessoas negaram que houvesse um problema sério. Isso é natural. Também reagi assim. Ainda temos de verificar qual é a exata dimensão do problema, mas é melhor prevenir do que remediar.

O fato de o mundo ter virado do avesso por causa da pandemia deixa muitas pessoas preocupadas. Preocupamo-nos com nossa saúde. Ficaremos doentes? Será grave? Morreremos? A preocupação aumenta no caso dos idosos ou daqueles que já possuem outras doenças. Também nos preocupamos com aqueles que amamos. Se temos amigos ou parentes mais velhos, preocupamo-nos com eles. Além disso, existe uma preocupação numa dimensão mais abrangente. O sistema de saúde entrará em colapso? E se a situação durar mais do que o esperado e provocar um colapso social? O que acontecerá se a infraestrutura e os sistemas começarem a ruir? E se a economia colapsar integralmente?    

É natural que essas e outras inquietações nos atinjam. Então, o que podemos fazer para não nos preocupar? Eis algumas ideias:

1. Pare de ver notícias ruins. — Quando há uma colisão entre veículos, todos nós gostamos de xeretar. É difícil não parar e ficar observando. Pelo amor de Deus, não verifique o noticiário a cada cinco minutos. As notícias ruins estão lá. O mundo inteiro está confinado por causa de uma pandemia. As pessoas estão preocupadas e doentes; algumas estão morrendo. Sabemos disso, e não há muito o que fazer em relação aos grandes problemas. Portanto, veja o noticiário de manhã e de noite. Compense as notícias ruins com as boas. A situação é ruim, mas muitas pessoas estão trabalhando para cuidar dos enfermos e encontrar novas formas de combater a doença. Não estou dizendo que você deva ignorar a realidade e adotar algum tipo de otimismo artificial. Seja realista, mas não fique refém da agitação causada por notícias negativas.   

2. Ponha as notícias nas intenções de suas orações. — Depois de se atualizar com as notícias, apresente-as ao Senhor na oração. Depois de verificar as notícias da manhã, faça as orações da manhã. Faça o mesmo com as orações da noite. De que modo a oração pode ajudar? Ela desencadeia o poder de Deus no mundo. Suas orações ajudarão a fortalecer aqueles que estão trabalhando no combate à doença. Fortalecerão e ajudarão as pessoas que a contraíram. Auxiliarão os que estão de luto, os que sofrem de ansiedade e de depressão. Também ajudarão você ficar em paz, a se concentrar e a confiar em Deus.

3. Desenvolva um novo hobby. — Se estiver em confinamento, dedique algum tempo para ler os livros que sempre quis ler ou invista nos estudos ou interesses específicos aos quais sempre quis se dedicar. Faça mais exercícios físicos. Leia novos livros. Pinte ou desenhe. Pegue um livro de receitas e faça refeições magníficas. Faça pães. Isso não é somente uma coisa boa em si, mas ajudará você a não se preocupar.

4. Leia os Salmos. — São antigos poemas que muitas vezes foram compostos por pessoas em apuros. Os salmos 27 (26), 62 (61) e 91 (90) são bons para períodos de ansiedade. Eles enfatizam a necessidade de confiarmos em Deus.

5. Viva um dia de cada vez. — Lembre-se do ensinamento de Jesus: “Não vos preocupeis, pois, com o dia de amanhã: o dia de amanhã terá as suas preocupações próprias. A cada dia basta o seu cuidado” (Mt 6, 34). Agradeça a Deus se hoje você estiver bem e se tiver aquilo de que precisa. Se amanhã você ou as pessoas que ama adoecerem, Deus estará ao seu lado para ajudar a superar a situação. “Ainda que eu atravesse o vale escuro, nada temerei, pois estais comigo. Vosso bordão e vosso báculo são o meu amparo” (Sl 23 [22]). 

6. Entre em contato com outras pessoas. — Por telefone e e-mail, permaneça em contato com amigos, familiares e paroquianos que talvez estejam sozinhos ou com medo. Um breve telefonema tem muito significado para as pessoas e também ajudará a não se preocupar. 

7. Memorize frases que ajudem a minimizar a preocupação. — Decore algum versículo da Bíblia ou alguma citação memorável que auxilie a diminuir a preocupação. Por exemplo: “A preocupação não mudará as coisas ruins, mas fará com que você não enxergue as boas”, “Não se preocupe. Reze”, “O mundo inteiro está nas mãos dEle” ou “Não se preocupe com o dia de amanhã. A cada dia basta o seu cuidado.”

8. Lembre-se do panorama global. — A humanidade já passou por isso. Trabalhamos juntos para superar pragas, guerras, escassez de alimentos e todos os tipos de desastres terríveis. Nossos pais e avós enfrentaram crises econômicas e guerras nas quais todos os dias foram dominados por temores horríveis, preocupações e prejuízos reais. As pessoas se mobilizam. Nós sobreviveremos. 

9. Apoiemo-nos mutuamente. — Fale de forma aberta; manifeste seus medos e preocupações; escute outras pessoas. A preocupação fica pior quando se transforma em medo interior e passa a nos corroer. Exponha sua inquietação e fale sobre ela. Quando compartilhamos uma preocupação, ela é reduzida pela metade.

10. Faça um ato de abandono. — O ato de abandono é uma oração por meio da qual depositamos nossa confiança e fé apenas em Deus. É possível fazer este outro ato de fé simples: “Senhor Jesus Cristo, Filho do Deus vivo, em tuas mãos eu entrego o meu espírito”. É impressionante ver como a preocupação simplesmente desaparece quando nos entregamos a Deus de modo verdadeiro, integral e simples. Permanecemos em Cristo Jesus e reivindicamos a promessa de São Paulo aos Romanos (Rm 8, 35-39): 

Quem nos separará do amor de Cristo? A tribulação? A angústia? A perseguição? A fome? A nudez? O perigo? A espada? Realmente, está escrito: ‘Por amor de ti somos entregues à morte o dia inteiro; somos tratados como gado destinado ao matadouro’ (Sl 43,23). Mas, em todas essas coisas, somos mais que vencedores pela virtude daquele que nos amou. Pois estou persuadido de que nem a morte, nem a vida, nem os anjos, nem os principados, nem o presente, nem o futuro, nem as potestades, nem as alturas, nem os abismos, nem outra qualquer criatura nos poderá apartar do amor que Deus nos testemunha em Cristo Jesus, Nosso Senhor.

Finalmente, que o Senhor possa usar este período para fortalecer a fé, a esperança e a caridade em nossos corações. Que possamos dedicar um tempo para repensar nossas prioridades e compreender que a vida é breve e instável. Não estamos num ensaio geral. Agradeçamos a Deus pelo bem que temos e desfrutemos dessas bênçãos. Usemos o tempo com sabedoria e, antes que seja tarde, peçamos para o nosso coração a graça de amar a Deus e ao próximo como devemos.

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A Igreja é como a Arca de Noé
Doutrina

A Igreja é como a Arca de Noé

A Igreja é como a Arca de Noé

É promessa de Nosso Senhor, a Igreja não perecerá. Seu destino, fixado por seu divino Fundador, é ser “Arca de Noé”, segura, firme e inabalável como uma rocha. Ainda que muitos trabalhem por sua destruição.

Equipe Christo Nihil Praeponere6 de Maio de 2020Tempo de leitura: 7 minutos
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Em tempos de confusão como os nossos, o trabalho dos católicos é difícil, sim, mas é ao mesmo tempo muito simples: se permanecermos aferrados àquilo que a Igreja sempre ensinou, se permanecermos fiéis à doutrina católica de dois mil anos, então ficaremos de pé, resistiremos ao relativismo reinante, nos salvaremos do “tsunami” que arrasta e leva à morte.

A meta é sobrevivermos e, também, fazer sobreviver conosco o maior número de pessoas possível. Não sem razão a imagem que o próprio Catecismo (n. 845) evoca para simbolizar a Igreja é a da Arca de Noé: dentro dela se acha a salvação, e dentro dela; fora, só o que há é a devastação. 

Mas, será que ainda cremos nisso? 

Nossos leitores terão de nos perdoar a insistência nesse tema da , mas ele não pode passar batido, porque foi o próprio Senhor quem manifestou a sua necessidade e imprescindibilidade: “Quem crer será salvo, quem não crer está condenado” (cf. Mc 16, 16; Jo 3, 18). A falta de fé é, já neste mundo, um sinal de reprovação eterna! Quem o diz é Jesus Cristo, manso e humilde de Coração, a própria Misericórdia que se fez carne, o mesmo que curou pobres e enfermos e passou por este mundo fazendo o bem… O Evangelho não fala de “dois Cristos”. É um só o que fala da salvação e da condenação; um só o que fala do Céu e do Inferno; um só o que fala de Deus, e do demônio.

E, no entanto, que visão temos mantido em nosso modo de pensar e de agir? Tratamos a salvação, a graça e a vida eterna como um “presente barato”, que em qualquer fundo de quintal se pode achar, que em qualquer religião se pode ganhar, que com qualquer tipo de vida se pode alcançar… 

Sim, os tempos são maus, e as pessoas estão perdidas num indiferentismo religioso assustador. Mas a nós cabe remar contra a correnteza. Não nos conformarmos com este mundo (cf. Rm 12, 2). Não aceitar que a fé católica seja tratada como mais uma entre tantas outras. Permanecer na segurança da fé perene da Igreja. E por quê? Porque:

O mundo foi criado em vista da Igreja”, diziam os cristãos dos primeiros tempos. Deus criou o mundo em vista da comunhão com sua vida divina, comunhão esta que se realiza pela “convocação” dos homens em Cristo, e esta “convocação” é a Igreja. A Igreja é a finalidade de todas as coisas, e as próprias vicissitudes dolorosas, como a queda dos anjos e o pecado do homem, só foram permitidas por Deus como ocasião e meio para desdobrar toda a força de seu braço, toda a medida de amor que Ele queria dar ao mundo: “Assim como a vontade de Deus é um ato e se chama mundo, assim também sua intenção é a salvação dos homens e se chama Igreja” (Catecismo da Igreja Católica, n. 760).

Atentemo-nos bem ao que vai escrito no Catecismo e respondamos com muita sinceridade se muitos hoje (muitos de nós até!) não teriam vergonha de proclamar frases como estas: “O mundo foi criado em vista da Igreja”, ou: “A Igreja é a finalidade de todas as coisas” (ou, ainda, o velho axioma de que “fora da Igreja não há salvação”), quando o que está na moda é justamente abraçar o mundo, adotar a linguagem e os modos do mundo, diluir a Igreja no mundo. Fica a impressão, na verdade, de que é a Igreja que “foi criada em vista do mundo”, e que “todas as coisas são a finalidade da Igreja”, menos aquilo para o que ela realmente foi fundada: converter os homens e levá-los ao Céu.

De fato, como repetirá essas sentenças dos primeiros cristãos (o Catecismo atribui algumas delas a Hermas e a São Clemente de Alexandria) um bando de católicos apóstatas, que substituiu a religião sobrenatural fundada por Nosso Senhor Jesus Cristo por uma religião natural qualquer, sem Batismo, sem missão, sem conversão? Como falaremos das belezas da Igreja estando tão preocupados, entusiasmados ou até hipnotizados com as coisas do mundo

Tomando a imagem da Arca do Antigo Testamento, é como se Noé e os demais tripulantes da embarcação decidissem pôr abaixo o instrumento que os está salvando para se afogarem todos juntos no dilúvio. Ora, se cremos (mas nós cremos?) que a salvação está dentro da Igreja, na fé em Cristo e na recepção assídua dos sacramentos, não seria o caso de salvarmos as pessoas do caos, “pescando-as” das águas turbulentas em que se encontram para trazê-las à segurança da Arca? 

Note-se bem que não estamos falando de simplesmente “fechar-nos” na Arca e deixar, literalmente, que os outros se danem. Essa postura não tem nada a ver com o cristianismo e com o mandato de Nosso Senhor de evangelizar todos os povos. Tampouco se trata de querer separar o joio e o trigo antes do tempo previsto pelo único e verdadeiro Juiz… É claro que também dos que foram pescados Nosso Senhor fará uma separação dos bons e dos maus. Mas não é por isso que deixaremos de lançar as redes e pescar! O que não significa, também, entregar-se ao mundo, tornar-se “amigo do mundo” (à custa de nossa amizade com Deus, inclusive, cf. Tg 4, 4), pois querer salvar os que estão no mundo não é ser suicida, tampouco menosprezar a segurança do barco em que, por graça de Deus, nos encontramos.

Nesse sentido, outro Catecismo, o de São Pio X, começa com uma pergunta sobre a qual faríamos bem em refletir nesses dias. Ele pergunta: “Sois cristão?”, e responde: “Sim, sou cristão pela graça de Deus!” (n. 1). Ou seja, ser de Cristo, pertencer ao seu Corpo místico, que é a Igreja por Ele fundada, é uma grande graça, “um dom de Deus, que nós não podemos merecer” (n. 2). Mas, se é assim, se ser cristão é uma graça, não sê-lo é uma desgraça; e por isso todos deveríamos trabalhar com afinco para que nossos irmãos, familiares e amigos deixassem a desgraça de sua condição para se fazerem cristãos, membros da Igreja, tripulantes da Arca mais salutífera que a de Noé. 

Isso, porém, é o que deveria acontecer logicamente dentro de uma comunidade que crê, que ama a Arca na qual Deus a colocou, que é capaz de cantar com o coração o Salmo 83: “Quão amável, ó Senhor, é vossa casa, quanto a amo, Senhor Deus do universo! Minha alma desfalece de saudades e anseia pelos átrios do Senhor! [...] Na verdade, um só dia em vosso templo vale mais do que milhares fora dele! Prefiro estar no limiar de vossa casa, a hospedar-me na mansão dos pecadores!” Mas onde está essa alegria visível de pertencer à Igreja, de estar nos átrios do Senhor? Os arquitetos, no interior, parecem ter-se esquecido quem é o Senhor da Arca. Talvez eles a considerem até “antiquada” demais. Seria preciso deixar entrar um pouco de água aqui e acolá… até nos tornarmos, talvez, um Titanic.

Esse é o projeto que alguns, soberbamente, gostariam de pôr em prática. Mas os corações que crêem e amam a casa de Deus existem, e eles sustentam a barca da Igreja com suas orações e penitências. Além do mais, “as portas do inferno não prevalecerão” (Mt 16, 18). É promessa de Nosso Senhor, a Igreja não perecerá. Seu destino, fixado por seu divino Fundador, é ser Arca segura, firme e inabalável como uma rocha — ainda que muitos nela trabalhem, conscientemente ou não, para que ela soçobre.

Por isso, permaneçamos firmes na esperança. Os tempos são difíceis, é verdade, o mar tempestuoso ameaça cobrir a barca da Igreja e o Senhor parece dormir (cf. Mt 8, 24); as notícias não são nada alvissareiras e a tentação é desesperar. No meio de tudo isso, porém, não nos esqueçamos: a Igreja Católica não é um Titanic, idealizado e construído por um simples homem. Não. Ela é objeto de nossa fé, pois foi querida e moldada pelo próprio Jesus Cristo. Não só isso: o mundo foi criado em vista dela, ela é a finalidade de todas as coisas

Se tivermos isso em mente, nosso coração pulsará de modo diferente ao nos levantarmos domingo e declararmos, com voz forte: “Creio na santa Igreja Católica”. Sim, nós cremos na Igreja una, santa, católica e apostólica (in unam, sanctam, catholicam et apostolicam Ecclesiam), e nessa fé queremos viver, morrer… e viver para sempre.

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A epidemia do ódio à paternidade
Sociedade

A epidemia do ódio à paternidade

A epidemia do ódio à paternidade

A epidemia de odium patrum abala não somente a civilização ocidental, por atacar seus fundamentos, mas também a relação entre a sociedade e Deus, pois Ele é visto ceticamente como mais um exemplo do patriarcado maligno a ser combatido.

Casey ChalkTradução: e adaptação da Equipe CNP4 de Maio de 2020Tempo de leitura: 7 minutos
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Há uma crise “sistêmica” em nossa cultura: uma aversão crescente não apenas ao patriarcado, mas a todos os elementos da sociedade influenciados pela masculinidade e pela paternidade. Trata-se de um odium patrumum ódio aos pais hostil e canceroso para a sociedade ocidental.

Não precisamos ir longe para encontrar exemplos de parricídio na cultura americana. Um artigo de julho de 2019 publicado no Washington Post culpou os homens pelo aumento do alcoolismo entre mães, e citou uma que alegou: “O problema de fundo é nossa sociedade patriarcal que não apoia os genitores, especialmente as mães”. 

Supostamente, o “patriarcado” é responsável por todo tipo de maldade: diferença salarial entre homens e mulheres, restrições ao aborto e até mesmo taxas de mortalidade entre os homens e dietas de suco detox. Essa aversão vai muito além de quaisquer resíduos de estruturas sociais predominantemente masculinas. Ela abrange não apenas tudo o que cheira a “velhos homens brancos” e “masculinidade tóxica”, mas também a tradição, o conservadorismo, a religião institucional e até figuras paternas — inclusive sacerdotes e o próprio Deus.

Basta ler atentamente os artigos de opinião do Washington Post ou do New York Times para ver manifestações quase diárias de odium patrum. A colunista do Washington Post Monica Hesse, por exemplo, cobre o bordão “gênero e seu impacto na sociedade” com manchetes provocativas como estas: “Por que tantos pais acham que têm a obrigação de monitorar a virgindade de suas filhas?”, “Precisamos falar sobre o motivo por que atiradores em massa quase sempre são homens” e “Caminhei ‘como um homem’ durante uma semana e eis o que eu percebi”. Comerciais e programas de televisão, por sua vez, acusam os homens de perpetuar a masculinidade tóxica e os retratam como incompetentes e desastrados dignos do nosso desprezo.

O que está por trás dessa aversão a quase metade da sociedade? 

Em seu livro recente Primal Screams: How the Sexual Revolution Created Identity Politics [“Gritos Primitivos: Como a Revolução Sexual Criou a Política Identitária”, sem tradução portuguesa], Mary Eberstadt cataloga algumas respostas. Ela cita o “Manifesto do Coletivo Combahee River”, de 1970, como sintomático do paradigma do odium patrum em sua perspectiva de antagonismo frente aos homens [1]. Estes seriam responsáveis pelos “modos de interação habitualmente sexistas com mulheres negras, bem como pela opressão delas”.

Marcha feminista em Washington, janeiro de 2017.

Uma geração depois, isso se tornou, de acordo de Eberstadt, “tema de conversas diárias e realidade para todos: um mundo no qual os homens se tornaram cada vez menos honestos e confiáveis, as relações entre os sexos se tornaram cronicamente distantes e consumistas, e o matrimônio se tornou algo incomum”. 

Desde a década de 1970, disparou o número de gravidezes fora do casamento nos EUA, particularmente entre os negros, fazendo com que mais de uma geração ficasse marcada pela ausência da figura paterna. “Lares desestruturados tornam distante a figura do pai, às vezes rompendo de vez o vínculo paterno”, diz Eberstadt. De forma mais ampla, a decadência da família resultou numa redução do número de homens que “oferecem afeto e companheirismo sem conotação sexual — menos irmãos, primos, tios e outros”, pessoas que em gerações passadas costumavam proteger as mulheres de homens agressivos e indesejados.

Em vez de serem vistos como protetores e provedores, os homens hoje são tratados como competidores, ou mesmo canalhas. Surgiu um novo paradigma cultural no qual as mulheres aprendem que devem competir com os homens e agir como eles. “Os homens são o padrão pelo qual as mulheres devem ser medidas”, observa Eberstadt. Além disso, como mostra a estatística sobre lares desestruturados mencionada acima — segundo a qual a figura paterna muitas vezes está ausente —, cada vez mais a sociedade tem visto os homens como pessoas não confiáveis, ou até como agressores e manipuladores. Assim, os garotos são criados “num hábitat humano em que seu próprio DNA é visto como um problema desde o nascimento”.

No fundo, é possível encontrar as raízes do odium patrum na narração bíblica da Criação. 

No capítulo III do Gênesis, a serpente, representando Satanás, faz a primeira acusação contra a bondade patriarcal de Deus. A fim de tentar a mulher a comer o fruto da árvore do conhecimento do bem e do mal, o diabo lhe diz: “Não morrereis! Mas Deus bem sabe que, no dia em que dele comerdes, vossos olhos se abrirão, e sereis como deuses, conhecedores do bem e do mal”. Portanto, numa reviravolta cruel, o pai da mentira faz do Pai celestial da humanidade um mentiroso que procura dominar e oprimir suas criaturas

Essa mentira abala a compreensão que o homem tem de Deus como Pai amoroso. O Salmista escreve: “Como um pai tem piedade de seus filhos, assim o Senhor tem compaixão dos que o temem” (Sl 102, 13). A imagem do pai benevolente atinge seu clímax na parábola do filho pródigo, onde o pai (representando Deus) vê seu filho desobediente de longe, corre em sua direção, abraça-o e restitui seu lugar na família (cf. Lc 15).

Na cosmovisão judaico-cristã, os homens devem imitar o modelo do pai sábio e benevolente. Em outra passagem da Sagrada Escritura, Deus fala de sua relação com o filho do rei Davi: “Eu serei para ele um pai e ele será para mim um filho. Se ele cometer alguma falta, eu o castigarei com vara de homens e com açoites de homens, mas não lhe tirarei a minha graça” (2Sm 7, 14-15). Essa imagem está no coração da tradição ocidental, desde a paternidade espiritual representada perfeitamente pelos maiores santos da Igreja até os Pais Fundadores de nação americana. Não é de admirar que as nossas grandes obras literárias ou apresentem figuras paternais exemplares (O Sol é Para Todos, de Harper Lee) ou chorem sua ausência (Absalão, Absalão!, de William Faulkner).

Detalhe da “Reprovação de Adão e Eva”, por Domenico Zampieri.

A epidemia de odium patrum, portanto, abala não somente a civilização ocidental, por atacar seus fundamentos, mas também a relação entre a sociedade e Deus, pois Ele é visto ceticamente como mais um exemplo do patriarcado maligno a ser combatido. Essa epidemia presume, de modo autodestrutivo, que não devemos confiar em Deus e que Ele é mau, egoísta, sedento de poder e manipulador, que procura preservar seu domínio terrível sobre os oprimidos. 

Mas, se não podemos confiar em Deus Pai, que esperança há para o pai comum? Afinal, a figura paterna é, por extensão, portadora das mesmas características malignas.

Indivíduos atomizados, separados de famílias estáveis e criados em comunidades carentes de figuras masculinas respeitadas e honradas, são incitados a fazer guerra contra “os pais” a fim de preservarem sua autonomia e se autorrealizarem. No entanto, ao se esforçarem para destruir seu patrimônio por meio de ataques à literatura clássica, à história e à religião do Ocidente, cometem suicídio social e até pessoal por eliminarem as estruturas essenciais à compreensão de si mesmos e do seu mundo. Eles ridicularizam e cospem nos homens que lhes legaram sua tradição intelectual e as próprias categorias de liberdade, moralidade e individualismo, que agora são usadas como armas contra seus pais. Era o que a serpente tinha em mente no jardim do Éden, e é por isso mesmo que talvez não devamos nos surpreender.   

Por mais que a sociedade combata nossos pais, o divino e os humanos, não podemos extinguir a verdadeira e natural necessidade que todos temos do vínculo paterno. Somos todos filhos de pais, sejam eles bons ou maus. Tal como nos recordam até a literatura e o cinema contemporâneos, todos estamos desesperados para dar sentido e nos reconciliarmos com nossa origem natural e espiritual. 

Como a ciência social já bem demonstrou, precisamos de pais que dêem estabilidade e segurança aos anos conturbados da nossa infância e adolescência. Precisamos que os pais da cultura e da sociedade nos ensinem o que é bom, verdadeiro e belo, para que não nos percamos com coisas que nos deixarão doentes ou nos matarão. Precisamos que os pais espirituais nos ensinem, guiem e ofereçam os sacramentos da vida. E, em última instância, precisamos de um relacionamento com um Pai amoroso e divino, que compreende um mundo desestruturado e nos promete redenção e esperança eterna. 

Alguns podem odiar a figura paterna, mas ninguém pode fugir dela.

Notas

  1. Essa declaração pode ser lida em inglês, aqui, e em português, aqui. O Coletivo “Combahee River” foi um movimento social negro e feminista, ativo em Boston na década de 1970 (Nota da Equipe CNP).

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