CNP
Christo Nihil Præponere"A nada dar mais valor do que a Cristo"
Evangelize compartilhando!
Todos os direitos reservados a padrepauloricardo.org®
Sangue de Cristo, “salva-nos, pois estamos perecendo!”
Liturgia

Sangue de Cristo,
“salva-nos, pois estamos perecendo!”

Sangue de Cristo, “salva-nos, pois estamos perecendo!”

Infelizmente, já há muito tempo que se tem tentado transformar a liturgia num “produto humano”. Como se fossem os nossos esforços, os nossos miseráveis esforços, o que viria a salvar a barca da Igreja.

Equipe Christo Nihil Praeponere3 de Julho de 2019
imprimir

Na liturgia antiga, o 1.º de julho era o dia de uma festa de 1.ª classe em honra ao Preciosíssimo Sangue de Cristo. (Na liturgia nova, abolida a festa, ainda assim é possível celebrar uma Missa votiva dedicada a esse mistério.)

Com tal celebração, todo o mês de julho ganha um tom diferente. Estamos no tempo depois de Pentecostes (o tempo per annum), mas a Igreja não quer que percamos de vista a humanidade santíssima de Nosso Senhor, pois é através dela que são derramadas sobre nós todas as graças do Espírito Santo. A Ladainha do Preciosíssimo Sangue, que todos podemos rezar especialmente neste mês, fala do Sangue de Jesus “correndo pela terra na agonia”, “manando abundante na flagelação”, “gotejando na coroação de espinhos”, com o que nós somos imediatamente transportados às mais cruéis e sanguinolentas cenas da Paixão de Nosso Senhor, na qual Ele demonstrou o seu grande amor por nós. 

Unido a esse mistério, porém, o trecho do Evangelho proclamado ontem na liturgia reformada (terça-feira da 13.ª Semana do Tempo Comum, ano ímpar) deveria fazer-nos meditar de modo particular acerca do papel de Cristo como mediador entre Deus e os homens, e especialmente na Igreja Católica. 

A passagem em questão (cf. Mt 8, 23-27) é a do Cristo que dorme enquanto “a barca estava sendo coberta pelas ondas” durante “uma grande tempestade no mar”. Junto com Ele estavam os Apóstolos. Agitados com a possibilidade de que a barca afundasse, os discípulos acordam Jesus e pedem-lhe que intervenha. Nosso Senhor, então, atende-lhes aos rogos, ordena aos ventos e ao mar que cessem sua fúria e, prontamente, advém-lhes “uma grande calmaria”.

O brilho do poder de Nosso Senhor contrasta aqui com a grande impotência dos discípulos. Eles entraram na barca justamente por causa de Cristo, como se lê no início dessa perícope: “Jesus entrou na barca, e seus discípulos o acompanharam”. Se eles entrassem sozinhos, no entanto, por conta própria e sem o Senhor, é certo que veriam soçobrar a embarcação. O Evangelho cala-se aqui a respeito do que teriam feito os discípulos quando começou a tempestade, mas o trecho paralelo de S. Marcos detalha que a tormenta “lançava as ondas dentro da barca, de modo que ela já se enchia de água” (Mc 4, 37) e S. Lucas completa dizendo que “eles se achavam em perigo” (Lc 8, 23). 

Talvez, à vista de tudo aquilo, alguns dos discípulos já tivessem até lançado algumas coisas ao mar, a fim de tornar o barco menos pesado; talvez, um ou outro deles, mais dado à navegação, houvesse lançado mão de alguma técnica para evitar que eles afundassem. O fato é que nada do que fizeram (ou do que pensavam ser possível fazer) foi capaz de deter o mar tempestuoso.

A barca em questão é símbolo da Igreja, evidentemente; mas também pode simbolizar a alma que procura lutar contra a força das más paixões e resistir às tribulações e dificuldades da vida presente. De uma forma ou de outra, prestemos atenção ao que fazem os discípulos (pois é também isso o que devemos fazer, a Igreja como um todo e cada um de nós, se quisermos experimentar a “grande calmaria” que se seguiu àquele episódio): o Evangelho diz expressamente que eles “aproximaram-se [de Cristo] e o acordaram, dizendo: ‘Senhor, salva-nos, pois estamos perecendo!’”.

Ora, que os Apóstolos, entre os quais se contavam alguns pescadores, recorressem a um carpinteiro para resolver um problema no mar… não parece surreal? 

Não, se nos atentarmos à palavra com que eles chamam Jesus: “Senhor” (Κύριε, Kyrie). Os discípulos, mesmo com a fé fraca que tinham, não viam em Cristo um homem comum. Aquele ser humano de carne e osso que dormia na popa da barca não era só verdadeiro homem, mas também verdadeiro Deus. Eles recorreram a Cristo porque viam nEle aquele único mediador de que fala o Apóstolo (cf. 1Tm 2, 5), o qual, tendo assumido a nossa carne, é capaz de interceder a nosso favor e que, sendo Deus, é capaz de ter misericórdia e nos salvar. 

Assim como a comunidade dos primeiros discípulos, a Igreja através dos séculos é esse povo reunido em torno da humanidade santíssima de Nosso Senhor e que implora, dia e noite, clemência ao Sumo e eterno sacerdote — pois “o ofício próprio do sacerdote é ser mediador entre Deus e o povo” (STh III 22, 1 c.). E de que modo especial Cristo cumpre essa missão senão na Cruz? E como a Igreja recebe as graças desse sacrifício, senão através do santo sacrifício da Missa, renovação incruenta do sacrifício do Calvário?

A Missa é, pois, o centro da vida da Igreja e deve ser o centro de toda a nossa vida. Nela, assim como os Apóstolos clamam pelo Senhor: Kyrie, o povo reunido clama Kyrie eleison, e implora à santíssima humanidade de Cristo que interceda mais uma vez por toda a Igreja e por todos os seus. Não nos voltamos uns aos outros, como numa assembleia autorreferencial, que se salva a si mesma. Não temos meios de nos livrar da tempestade do mundo. Não somos mais poderosos que os primeiros cristãos, os Apóstolos. Não somos diferentes dos primeiros homens que seguiram a Nosso Senhor, e que se viam profundamente necessitados dEle. Também nós todos, sem exceção, precisamos da sua intervenção e do seu socorro. 

É por isso que na Santa Missa, sacerdote e povo, ministro consagrado e leigos batizados, todos nos voltamos para a mesma direção: ad orientem, rumo ao Sol de justiça que é Nosso Senhor. A Ele nós clamamos, como os Apóstolos naquela tempestade: Salva nos (curiosamente, a mesma invocação que fazemos ao rezar a Ladainha do Preciosíssimo Sangue). 

Infelizmente, porém, já há muito tempo que se tem tentado transformar a liturgia num “produto humano”, como se fossem os nossos esforços, os nossos miseráveis esforços, o que viria a salvar a barca da Igreja. É como se estivéssemos insatisfeitos com Cristo em nosso meio; é como se a humanidade de Nosso Senhor, real e substancialmente presente nas espécies eucarísticas, não nos fosse suficiente. Ou pior: é como se tivéssemos perdido por completo a fé, e pensássemos que Jesus, no fundo, é apenas o “carpinteiro de Nazaré”, e que por isso não seria capaz de lidar com os nossos problemas de navegação

Como resultado disso, o que fazemos? Caímos na tentação da autossuficiência. Procuramos de todos os modos “adaptar” o culto instituído pelo próprio Deus humanado aos nossos gostos e caprichos. Não nos bastam as orações que a Igreja sempre rezou; não nos basta o Evangelho que os cristãos em todos os lugares proclamaram; não nos bastam as palavras do Cânon que os sacerdotes de todos os tempos pronunciaram; não nos basta a fórmula de consagração que Jesus nos deixou ao instituir a Eucaristia… É preciso “inventar”, é preciso “inovar”, é uma sanha incontrolável que ninguém consegue curar.

E ai de quem ouse alertar para a presença de Cristo no barco! “Pouco importa”, alguém poderia responder, “deixai-o dormir, que nos viramos nós!”

Como consequência dessa soberba, acontece aquilo que alertou o Cardeal Joseph Ratzinger em sua Introdução ao espírito da liturgia

O Homem sozinho não consegue mesmo “criar” um culto fácil porque, sem Deus se revelar, ele será sempre insignificante. As palavras de Moisés ao Faraó: “Não sabemos quais serão as vítimas que ofereceremos ao Senhor” (Ex 10, 26), expõem, sem dúvida, um princípio fundamental de toda a Liturgia. No pressentimento de Deus que lhe é inerente, o homem pode, certamente, sem Deus se revelar, edificar altares “ao Deus desconhecido” (cf. At 17, 23); nos seus pensamentos, ele pode elevar-se para Deus, na tentativa de o alcançar, mas a verdadeira Liturgia pressupõe que Deus responde e expõe o modo de ser venerado. Ela inclui, duma certa maneira, algo como “nomeação”. Ela não pode ser fruto da nossa fantasia e criatividade — pois assim, seria apenas um grito na escuridão ou simplesmente a afirmação de nós próprios. A Liturgia pressupõe algo de concreto diante de nós, algo que se nos revela, indicando o percurso da nossa existência [...].

A história do bezerro de ouro alerta para um culto autocrático e egoísta em que, no fundo, não se faz questão de Deus, mas sim em criar um pequeno mundo alternativo por conta própria. Aí, então, é que a Liturgia se torna em mera brincadeira. Ou pior: ela significa o abandono do Deus verdadeiro, disfarçado debaixo de um tampo sacro. Mas, assim, o que resta no fim é a frustração, a sensação do vazio. Já não se faz sentir aquela experiência de liberdade, que acontece em todo o lado onde haja encontro com Deus vivo [1].

Ora, que haja essa “frustração” e “sensação do vazio” entre os pagãos e nas religiões naturais, que não conhecem a revelação cristã, é coisa perfeitamente compreensível. Agora, que um “culto autocrático e egoísta” substitua o “encontro com Deus vivo” dentro da Igreja Católica, como entender?

A pergunta que precisa ser feita, portanto, é se ainda cremos que Deus se revelou em Jesus Cristo. Cremos que o homem Jesus, que viveu em Nazaré, que salvou os discípulos da tempestade em Tiberíades, que instituiu a Eucaristia para permanecer em nosso meio, que morreu na Cruz para instituir um sacrifício perpétuo pela nossa salvação… nós cremos que esse homem era Deus? Ou, ao contrário, já nos parece que tanto faz estar na barca de Pedro, com Cristo; ou na “barca” de Alá, com Maomé; ou na de Allan Kardec, com Chico Xavier; ou na “barca” dos inúmeros deuses das outras religiões? Ainda acreditamos que a humanidade de Nosso Senhor é o único caminho para a salvação ou já nos vendemos a um projeto de religião universal que tudo iguala e nivela por baixo?

O Evangelho de ontem não mencionava quantos e quais dos Apóstolos foram atrás de Nosso Senhor em busca da salvação. Talvez fossem todos. Talvez apenas alguns. Talvez fosse apenas um deles. Sabemos todavia que, no momento mais importante de toda a obra da Redenção, um deles o traiu; um deles, e o chefe, o negou; e outros tantos, covardemente, fugiram. Se ficaremos nós, pobres de nós, miseráveis nós, aos pés da Cruz, e até o fim, só Deus o sabe. Se acontecer de resistirmos e ficarmos, no entanto, saibamos desde já: não será por nossas forças, não será por nossos esforços, não será por nossos méritos, mas unicamente pela força e pelo poder do Preciosíssimo Sangue de Cristo. 

Por isso, e porque a fé não nos foi tirada, não deixemos de subir ao altar de Deus, alegria da nossa juventude, e clamar: Sangue de Cristo, “salva-nos, pois estamos perecendo!” Foi o que fizeram os discípulos no mar de Tiberíades e é também o que devemos fazer, a Igreja como um todo e cada um de nós, se quisermos experimentar hoje a “grande calmaria” que se seguiu àquela tremenda tempestade. 

Referências

  • Joseph Ratzinger. Introdução ao espírito da liturgia. 5. ed. São Paulo: Paulinas, 2012, pp. 15-16.

Comentários

Os comentários são de responsabilidade exclusiva de seus autores e não representam a opinião deste site. Se achar algo que viole os termos de uso, denuncie. Leia as perguntas mais frequentes para saber o que é impróprio ou ilegal.

Jesus quis que a sua Igreja tivesse um “Magistério”?
Doutrina

Jesus quis que a sua Igreja
tivesse um “Magistério”?

Jesus quis que a sua Igreja tivesse um “Magistério”?

A primeira geração cristã ouviu dos lábios dos próprios Apóstolos a verdade de Cristo. Mas os Apóstolos morreram, e as gerações seguintes… como seguiriam captando a palavra de Cristo em toda a sua pureza?

Ignacio Riudor, SJTradução: Equipe Christo Nihil Praeponere (adaptado)2 de Julho de 2019
imprimir

I. O problema. — A Revelação divina é uma mensagem de Deus. Deus falou aos homens, e lhes falou principalmente por meio de Jesus Cristo: “Muitas vezes e de diversos modos outrora falou Deus aos nossos pais pelos profetas. Ultimamente nos falou por seu Filho” (Hb 1, 1). Ao homem de todos os tempos e de todos os lugares lhe interessa, antes de tudo e sobretudo, captar em toda a sua pureza e em toda a sua integridade esta mensagem divina. Mas poderemos todos os homens conhecer assim a Palavra de Deus?

A experiência nos ensina o quanto influenciam no conhecimento de uma verdade as circunstâncias de tempo e lugar, as paixões, os sistemas ou preconceitos filosóficos, e tantos outros fatores humanos que podem obscurecer ou tergiversar as verdades que parecem mais evidentes a quem não se vê influenciado por semelhantes fatores. Por outro lado, não se trata aqui de verdades de ordem puramente histórica ou científica; são verdades muito mais transcendentais: Deus falou aos homens para lhes transmitir a sua mensagem de salvação. À Revelação de Deus há-de responder a fé do homem: “Quem crer […] será salvo, mas quem não crer será condenado” (Mc 16, 16). Mas não pode haver fé a não ser de verdades reveladas, e não de pseudo-verdades. Em outras palavras, para que eu creia, é necessário que capte a verdade de Cristo em toda a sua pureza.

A primeira geração cristã ouviu dos lábios dos próprios Apóstolos a verdade de Cristo, isto é, daqueles mesmos Apóstolos que receberam com o Espírito Santo o carisma da infalibilidade. Criam os primeiros cristãos na palavra de Cristo, que os Apóstolos lhes transmitiam fielmente. Mas os Apóstolos morreram, e as gerações seguintes, a dos séc. II, a do séc. XX e até a do XL (supondo que Deus conceda tão larga vida ao mundo), hão-de seguir captando a palavra de Cristo também em toda a sua pureza, porque Jesus Cristo é Mestre e Redentor de todas as épocas e de todos os homens. Como isto será possível?

II. Orientação histórica. — Duas soluções radicalmente opostas foram dadas a este problema. Em poucas palavras, podemos formulá-las assim:

  • Solução protestante: A verdade de Cristo se conserva em toda a sua pureza ao longo dos séculos na Sagrada Escritura, por ser ela a Palavra de Deus e, portanto, infalível. Ela nos dá “a tradição apostólica fixada por escrito” (Cullmann, La Tradition, Cahiers théologiques, 1953, p. 44).
  • Solução católica: A garantia segura da verdade de Cristo, nós a temos no Magistério autêntico da Igreja, que nos conserva fielmente e nos declara infalivelmente a doutrina que Deus revelou e que está contida na Sagrada Escritura e na Tradição divino-apostólica.

1. Solução protestante. — Ao menos em seus aspectos mais essenciais, pode-se dizer que esta solução já foi proposta no início do séc. III por aquele que, por tantos títulos, pode ser considerado o “pai” do futuro protestantismo: Tertuliano, que defendeu uma oposição irredutível entre a “Igreja do Espírito” e a “Igreja dos bispos”, chegando à conclusão de que só o Espírito Santo deve ser tido e reverenciado como Mestre (cf. De pudicitia, 21; De virginibus velandis, 1).

Na Idade Média, seguiram por este caminho todas as tendências espiritualistas de cátaros, valdenses e albigenses; o profetismo escatológico do abade Joaquim de Fiore e o ascetismo exagerado de begardos, beguinas e dos fraticelli. Todos estes preparam o terreno para os grandes “reformadores” do séc. XVI, Lutero e Calvino, que desejavam excluir todo intermediário humano entre Deus e o homem, tal como seria a hierarquia e o Magistério da Igreja.

No final do séc. XIX e no início do séc. XX, R. Sohm, fiel aos princípios de Lutero, propôs a teoria de que somente Cristo e o Espírito Santo, por meio dos “carismáticos”, devem dirigir a Igreja, se queremos ater-nos à vontade de Cristo (cf. R. Sohm, Kirchenrecht, I).

K. Barth, partindo do transcendentalismo calvinista, afirmou que a “Reforma” foi a restauração da verdadeira Igreja, porque foi certeira ao afirmar o Tu solus de Cristo. E assim como Cristo é o único Santo e o único Senhor, é também o único Mestre, o que exclui qualquer outro magistério como intermediário entre Cristo e o cristão (cf. Journet, L’Eglise du Verbe Incarné, I, pp. 1129-1171).

Seguindo por caminhos parecidos e com diversas modalidades acidentais, todos os outros protestantes, de hoje e de ontem, negam o Magistério eclesiástico, que consideram como um intermediário que tira a autoridade da Palavra de Deus ou a liberdade própria dos filhos de Deus. Assim escrevia R. Mehl: “A autoridade a que se faz alusão [entre os católicos] não é imediatamente a autoridade da Palavra de Deus […]. É necessário que elas [as igrejas] reconheçam como seu Rei a um só Cristo, seu Libertador, e que sejam governadas somente pela lei da liberdade, que é a palavra sagrada do Evangelho” (Du catholicisme romain, p. 42s).

Por fim, os racionalistas e modernistas, que não querem admitir como critério de verdade nada além do ditame da razão natural ou da consciência de cada indivíduo, e negam que Cristo tenha instituído a Igreja como sociedade, destroem as bases mais indispensáveis para se poder admitir o Magistério autêntico. 

2. Solução da Igreja Católica. — Poderíamos dizer que aquela fórmula: “Pareceu bem ao Espírito Santo e a nós” (At 15, 28), que indica a persuasão da Igreja apostólica, reunida no Concílio de Jerusalém, de possuir a assistência infalível de Deus em suas decisões, segue viva no Magistério da Igreja em todos os tempos.

Limitando-nos agora aos textos mais recentes, que mostram a consciência da Igreja de ser ela a garantia infalível da verdade revelada, podemos citar em primeiro lugar os textos do Concílio Vaticano I. Sobre esta matéria, propõe o Concílio diversos aspectos:

  1. Cristo quis que o Magistério se perpetuasse nos sucessores dos Apóstolos até o fim dos tempos: “Ora, como Ele [Cristo] enviou os Apóstolos que tinha escolhido […], da mesma forma quis que até a consumação dos séculos houvesse na Igreja pastores e doutores” (DH 3050). “Foi, portanto, este carisma da verdade e da fé indefectível concedido divinamente a Pedro e a seus sucessores nesta cátedra, a fim de que desempenhassem seu sublime encargo para a salvação de todos” (DH 3071).
  2. Este Magistério é autêntico, quer dizer, tem plena autoridade para impor que se aceitem os seus ensinamentos. Esta autoridade, o Concílio a expressa sobretudo na interpretação da Sagrada Escritura, quando afirma que “se tenha por sentido verdadeiro da Sagrada Escritura aquele que sustentou e sustenta a Santa Mãe Igreja, à qual compete decidir do verdadeiro sentido e da interpretação das Sagradas Escrituras” (DH 3007). São palavras que escandalizaram, sem razão, os protestantes, como se a Igreja Católica estivesse pondo-se acima da Sagrada Escritura, Palavra de Deus. Ao contrário: não se põe acima, mas a seu serviço, já que foi precisamente para conservar íntegra a verdade da Sagrada Escritura e precaver os fiéis contra os erros de interpretações puramente subjetivas da Palavra de Deus que Cristo concedeu à sua Igreja o carisma da infalibilidade. O mesmo sentido têm as palavras seguintes, também do Vaticano I: “Deve-se, pois, crer com fé divina e católica tudo o que está contido na Palavra de Deus escrita ou transmitida, e que pela Igreja […] nos é proposto a ser crido como revelado por Deus” (DH 3011). 
  3. É um Magistério infalível, já que, ao definir a infalibilidade do Papa, o Concílio a define precisamente por comparação com aquela “infalibilidade com a qual o Redentor quis estivesse munida a sua Igreja” (DH 3074).
  4. Finalmente, ensina o Vaticano I que este Magistério autêntico da Igreja tem como finalidade que a doutrina da fé que Deus revelou seja transmitida fielmente e guardada e declarada infalivelmente pela Esposa de Cristo (cf. DH 3070).

Pio XII, na Encíclica “Humani generis”, em 1950, por ocasião de alguns erros dos nossos tempos, recorda que não somente “este sagrado Magistério, em questões de fé moral, deve ser para todo teólogo a norma próxima e universal da verdade”, senão que, além disso, todos os fiéis têm a obrigação de “observar também as constituições e decretos em que a Santa Sé proscreveu e proibiu opiniões perversas” (DH 3884). Ou seja, como explica o próprio Papa um pouco antes, todos devem aceitar as indicações do Magistério, não só quando ele define que doutrinas são heréticas, mas também em todas as outras decisões em que proscreve erros, ainda que não sejam heresias.

Em último lugar, a propósito de alguns exageros sobre o valor de um magistério dos leigos na Igreja, afirmou rotundamente o mesmo Papa em 1954 que todo magistério dos leigos deve estar sujeito à autoridade do Magistério sagrado da hierarquia (cf. Alocução “Si diligis”, de 31 mai. 1954: AAS 46 [1954] 317).

III. O que ensina a Igreja. — Pelos documentos do Concílio Vaticano I mencionados antes, podemos dizer que é de fé divina e católica que a verdade de Cristo nos vem garantida pelo Magistério autêntico e infalível da Igreja. Em concreto, a infalibilidade do Magistério está incluída na definição da infalibilidade do Romano Pontífice (cf. DH 3073s).

IV. O que diz a Bíblia. — Um dos títulos de Cristo que com frequência aparecem no Evangelho é, sem dúvida, o título de Mestre. 41 vezes usam os evangelistas a palavra grega διδάσκαλος, e 12 a equivalente em hebraico, Rabbi: no total, 53 vezes. Jesus mesmo se atribuiu de um modo especial este título: “Vós me chamais Mestre e Senhor, e dizeis bem, porque eu o sou” (Jo 13, 13). Ora, este título de Mestre é algo exclusivo de Jesus? Assim poderia parecer, se considerássemos um pouco superficialmente as seguintes palavras: “Nem vos façais chamar de mestres, porque só tendes um Mestre, o Cristo” (Mt 23, 13). No entanto, o contexto mostra claramente qual é o verdadeiro sentido destas palavras: aconselhar a humildade aos seus discípulos, exortando-os a não imitarem os escribas e fariseus, que queriam ser chamados com o título de mestre por pura soberba e vanglória. Além disso, a consideração do significado que têm no Evangelho frases semelhantes, como aquela: “Por que me chamas bom? Só Deus é bom” (Mc 10, 18), mostra que elas apenas significam que Cristo é o Mestre por antonomásia e que todos os outros mestres o são somente na medida em que participam do seu poder.

Com efeito, temos outros textos claros no Evangelho em que Cristo afirma a participação de seu poder magisterial aos Apóstolos. Em primeiro lugar, a comunicação do poder de ensinar está incluída naquela fórmula geral, que devemos supor valer também para todos os poderes messiânicos de Cristo que sejam por natureza comunicáveis: “Como o Pai me enviou, assim também eu vos envio a vós” (Jo 20, 21; cf. também 17, 18). E aquela outra fórmula, na qual Cristo expressou tão claramente que os ensinamentos dos enviados por Ele eram ensinamentos seus: “Quem vos ouve a mim ouve” (Lc 10, 16). Recordemos, ademais, aquele texto de São Mateus tantas vezes citado: “Toda autoridade me foi dada no céu e na terra. Ide, pois, e ensinai a todas as nações […]. Ensinai-as a observar tudo o que vos prescrevi” (Mt 28, 18ss).

Mas estas palavras não se dirigem exclusivamente aos Apóstolos: ao acrescentar “Eis que estou convosco todos os dias, até o fim do mundo”, Jesus Cristo estabelece a perpetuidade do Magistério, com uma assistência eficaz para conseguir o fim pretendido de ensinarem a verdade; ou, em outras palavras, lhes concede o carisma da infalibilidade. Tal é o significado que tem a frase: “Eis que estou convosco”, como aparece sempre no Antigo Testamento.

Fazendo-se eco deste significado bíblico da frase de Cristo, “Eis que estou convosco”, o Papa Leão XIII escreveu: “Se pudesse ser de alguma maneira falso o que, amparado por tal auxílio, ensina o Magistério, o mesmo Deus seria autor do erro do homem, coisa evidentemente absurda” (Encíclica “Satis cognitum”, de 29 jun. 1896: AAS 28 [1896] 721).

Deve-se dizer o mesmo dos diferentes textos do sermão de Jesus na Última Ceia registrados por São João (cf. Jo 14, 16s.26; 15, 26; 16, 12s), onde o divino Mestre promete aos Apóstolos a assistência perpétua do Espírito Santo em seu ofício de ensinar.

Todo o livro dos Atos e as epístolas de São Paulo são um testemunho do magistério dos Apóstolos como missão principal de sua vida, missão que eles vão transmitindo àqueles discípulos escolhidos como colaboradores no ministério da palavra, e implicitamente se atribuem a infalibilidade em seus ensinamentos. Recordemos pelos menos alguns casos. A autoridade suprema dos judeus, o sinédrio, quer impor-lhes que não preguem Jesus Cristo. Pedro e os outros replicam: “Importa obedecer antes a Deus do que aos homens. O Deus de nossos pais ressuscitou Jesus, que vós matastes, suspendendo-o num madeiro […]. Nós somos testemunhas, nós e o Espírito Santo, que Deus deu a todos aqueles que lhe obedecem” (At 5, 29-32). Eis aí uma segurança absoluta de que estão na verdade e de que os assiste o Espírito Santo ao darem testemunho de Cristo.

Os decretos do Concílio de Jerusalém, por sua vez, os Apóstolos os emitem como parecer “nosso e do Espírito Santo” (At 15, 28).

São Paulo assegura, no epílogo de sua carta aos romanos: “Não ousaria mencionar ação alguma que Cristo não houvesse rea­lizado por meu ministério, para levar os pagãos a aceitar o Evangelho, pela palavra e pela ação” (Rm 15, 18).

Na primeira carta aos Tessalonicenses, alegra-se o Apóstolo de terem acolhido a palavra que lhes havia pregado, “não como palavra de homens, mas como aquilo que realmente é, como Palavra de Deus” (1Ts 2, 13).

Outro testemunho claro de que a verdade de Cristo está garantida pelo Magistério da Igreja encontra-se na carta de São Paulo a Timóteo, que merece ser considerada mais em particular: “Estas coisas te escrevo, mas espero ir visitar-te muito em breve. Todavia, se eu tardar, quero que saibas como deves portar-te na casa de Deus, que é a Igreja de Deus vivo, coluna e sustentáculo da verdade” (1Tm 3, 14s).

Recordemos que as cartas chamadas pastorais (1 e 2Tm e Tt) foram escritas pelo Apóstolo ao final de sua vida e podem ser consideradas, portanto, como o testamento de São Paulo. Assim, ele tem diante dos olhos a Igreja, na qual os seus discípulos serão os continuadores da obra cujos fundamentos foram postos pelo Apóstolos. E desta Igreja São Paulo diz que é “coluna e sustentáculo da verdade”. É claro, pois, que isto só pode ser assim se a Igreja garante sempre, sem medo de equivocar-se, a verdade de Cristo, isto é, se pode ensinar com o carisma da infalibilidade.

Notas

  • Este artigo é uma tradução levemente adaptada de F. de Vizmanos e I. Riudor, Teología fundamental para seglares. Madrid: BAC, 1963, pp. 676-681, nn. 335-347.

Comentários

Os comentários são de responsabilidade exclusiva de seus autores e não representam a opinião deste site. Se achar algo que viole os termos de uso, denuncie. Leia as perguntas mais frequentes para saber o que é impróprio ou ilegal.

Um bebê nunca é “conveniente”
Família

Um bebê nunca é “conveniente”

Um bebê nunca é “conveniente”

Ter um filho certamente fará com que você perca um pouco do controle sobre suas finanças, sobre seu tempo e, em última instância, sobre toda a sua vida. Mas também pode ser uma grande oportunidade para experimentar a ação da divina Providência.

Julie MachadoTradução: Equipe Christo Nihil Praeponere28 de Junho de 2019
imprimir

Meu marido e eu estamos esperando o quarto filho e, quando chegou a temida hora de contar a todos, percebi que fazê-lo nunca fica mais fácil. Esperamos o maior tempo possível para dar a notícia, e é difícil receber perguntas, críticas e conselhos indesejados quando se está em uma posição tão vulnerável…

Vulnerabilidades. — Há, primeiro, uma evidente vulnerabilidade física quando você está esperando um bebê. Por só ter ficado doente nos últimos anos em períodos gestacionais (pois a gravidez afeta seu sistema imunológico), eu fiquei sabendo que estava grávida justamente por conta de uma gripe. Tive os sintomas habituais de náusea e sonolência. Tentei ser mais cuidadosa porque tive perda de sangue durante o primeiro trimestre de gestações anteriores. Procurei pegar menos meus outros filhos no colo. Durante o nascimento e depois dele, ficarei fisicamente ainda mais vulnerável e todos precisaremos contar com ajuda de fora, especialmente de nossos irmãos mais velhos.

Embora menos óbvia que a primeira, existe também uma vulnerabilidade emocional para ambos os cônjuges quando se está esperando um bebê. Nossa gravidez não foi planejada e, de imediato, eu senti que seria vista como uma irresponsável. A coisa “responsável” em nossa sociedade é ser autossuficiente e não depender da ajuda de ninguém. Fiquei com medo do julgamento dos outros, de como eles nos veriam e das coisas que eles diriam. Eu gostaria de poder manter isso em segredo, pelo menos por um tempo, mas aquilo era como um trem já em movimento e com uma rota irreversível. Minha barriga cresceria e todos descobririam. O bebê nasceria e demandaria seus cuidados. A criança cresceria e continuaria a exigir cuidados. Uma vez adulto, seria mais uma pessoa no mundo, independente de mim, mas em constante relação comigo. Esse era definitivamente um trem em movimento do qual, até aquele momento, só eu tinha conhecimento.

Sem controle. — Eu descrevo a gravidez como entrar em uma montanha russa. Você não tem ideia do que vai acontecer. Tudo pode transcorrer perfeitamente bem, de acordo com seus desejos ideais, ou você e seu filho podem morrer, e entre esses dois extremos tudo é possível. Foi na minha primeira gravidez que eu descobri que a gestação e o parto são como uma montanha russa. Tivemos uma perda de sangue no primeiro trimestre que nos assustou muito; nossa filha tinha apenas uma artéria umbilical; ela ficou na posição pélvica (“sentada”); tivemos uma versão cefálica externa (que a virou para a posição correta), mas ainda assim tivemos uma cesariana, que era a única coisa que nós absolutamente não queríamos ter.

Também gosto de dizer que ninguém tem alguns milhares em sua conta para, sem saber o que fazer com o próprio dinheiro, chegar e dizer: “Ah, vamos ter outro filho”. As pessoas em geral não sentem que simplesmente têm dinheiro sobrando por aí. Há estudos mostrando que as pessoas, em média, sentem que precisam ter 20% a mais do que já possuem. Nossa gravidez coincidiu com a descoberta de que estávamos apertados financeiramente e precisávamos reduzir substancialmente nossos gastos. Não são exatamente duas notícias que alguém gostaria de receber ao mesmo tempo. Tenho certeza de que essa é uma preocupação de todo casal. 

Mas há um ditado segundo o qual cada criança que nasce vem com um pão debaixo do braço. E Belém significa “casa do pão”. Ter um filho certamente fará com que você perca um pouco do controle sobre suas finanças, mas também pode ser uma grande oportunidade para experimentar a Providência.

Uma gestação e um parto também afetam, sem dúvida, suas emoções e saúde psicológica. Maria Montessori dizia que o nascimento de uma criança é o renascimento de uma família. É algo que “sacode” você e toda a dinâmica familiar.

Abertura à graça. — A abertura à vida é uma boa analogia para a abertura à graça. Nosso principal modelo para ambas é a santíssima Virgem Maria, pois, nela, ficar grávida e receber a Cristo foram literalmente a mesma coisa. Ficar grávida também foi uma experiência de vulnerabilidade, de algo que estava fora de seu controle. Ficar grávida, para ela, naquela ocasião, também não parecia ser conveniente, humanamente falando. Na pior das hipóteses, ela corria o risco de ser apedrejada até a morte; na melhor delas, corria o risco de ver rompido seu noivado com São José. Humanamente falando, também não parecia conveniente que Jesus nascesse em um estábulo, em meio aos animais, na estrada. Não teria sido, naturalmente, o “plano de parto” que Maria e José tinham em mente. Tudo transcorreu, todavia, em conformidade com as Escrituras e de acordo com o “plano de parto” de Deus.

Sendo de ordem sobrenatural, a graça escapa à nossa experiência e só pode ser conhecida pela fé. Não podemos, portanto, nos basear em nossos sentimentos ou em nossas obras para daí deduzir que estamos justificados e salvos. No entanto, segundo a palavra do Senhor: “É pelos seus frutos que os reconhecereis” (Mt 7, 20), a consideração dos benefícios de Deus em nossa vida e na dos santos nos oferece uma garantia de que a graça está operando em nós e nos incita a uma fé sempre maior e a uma atitude de pobreza confiante (Catecismo da Igreja Católica, § 2005).

Mesmo que a sua gestação e parto se dêem de acordo com os seus planos e tudo transcorra bem, trata-se sempre de uma experiência dramática que “sacudirá” a sua vida, se você assim permitir. A graça de Deus também se destina a “sacudir” a sua vida, se você deixá-la entrar. Ela irá abalar você, desarmar você; colocará você em uma aventura inesperada. Mas também irá curar você e fazê-lo crescer.

Comentários

Os comentários são de responsabilidade exclusiva de seus autores e não representam a opinião deste site. Se achar algo que viole os termos de uso, denuncie. Leia as perguntas mais frequentes para saber o que é impróprio ou ilegal.

Jesus tinha a intenção de fundar uma Igreja?
Doutrina

Jesus tinha
a intenção de fundar uma Igreja?

Jesus tinha a intenção de fundar uma Igreja?

Se há uma ideia que parece impor-se com toda evidência ao lermos todo o Evangelho é a de que Jesus Cristo quis fundar na terra uma obra estável, duradoura e de caráter social: a Igreja.

Ignacio Riudor, SJTradução: Equipe Christo Nihil Praeponere (adaptado)25 de Junho de 2019
imprimir

I. O problema. — Se há uma ideia que parece impor-se com toda evidência ao lermos o Evangelho e que depois se confirma plenamente nos Atos dos Apóstolos e nas cartas de São Paulo é a de que Jesus Cristo quis fundar na terra uma obra estável, duradoura, de caráter social. É todo o Evangelho, e não somente um conjunto de textos mais ou menos numerosos, que nos fala de uma obra desta natureza.

Contra esta maneira de conceber a obra de Jesus levantaram-se, nos séculos passados, tanto racionalistas como modernistas. Assim afirmou Loisy: “Cristo anunciou a vinda do Reino, e eis aqui o que acabou surgindo: a Igreja” (L’Evangile et l’Eglise, 1902, p. 111). Se isto fosse assim, a Igreja de que nos falam tantas vezes os Atos dos Apóstolos, a Igreja de que com tanta frequência fala São Paulo, teria surgido contra a vontade de Jesus; seria obra dos primeiros cristãos, e não obra de Jesus. Qual destas duas concepções é a verdadeira? Tal é o problema eclesiológico fundamental que devemos resolver antes de qualquer outro. Para isso, será necessário explicar previamente o significado exato da palavra Igreja nas Sagradas Escrituras.

1. A palavra “igreja” no Antigo Testamento. — No Antigo Testamento, Israel é o povo de Deus, o reino de Deus. Destas duas denominações, a primeira tem um significado solene, especial: Israel é o povo convocado ou congregado por Deus: em hebraico, é o Qahal Yahvé, que a versão chamada dos Setenta (concluída no final do séc. II a.C.) traduz pela palavra grega εκκλησία. O termo hebraico Qahal significa qualquer reunião de homens, e só se traduz por εκκλησία na versão dos Setenta quando indica a reunião ou assembleia de todo o povo de Israel. Nos outros casos (por exemplo, assembleias de uma cidade particular), Qahal se traduz por ὄχλος ou συναγωγή.

Citemos alguns exemplos do Antigo Testamento em que aparece esta expressão. No Deuteronômio, chama-se “dia da assembleia” ou “da igreja” ao dia em que o povo de Israel, congregado no monte Sinai, recebeu a aliança de Javé, prometeu observar a Lei e assim foi constituído “povo de Javé” (cf. Dt 9, 10; 18, 16). Em outras passagens do mesmo livro, indicam-se as condições que há-de reunir quem quiser formar parte da “igreja” ou comunidade de Javé (cf. Dt 23, 1-3.8). Moisés proferiu diante de toda a comunidade de Israel ou “igreja” as palavras do seu cântico (cf. Dt 31, 30). No Livro de Josué se diz: “De tudo o que Moisés havia prescrito não se omitiu uma palavra sequer nessa leitura feita por Josué diante de toda a assembleia [igreja] de Israel” (Js 8, 35). No primeiro Livro dos Reis — terceiro, na nomenclatura da Vulgata —, a “igreja de Israel” é todo o povo congregado para a dedicação do templo de Salomão (cf. 1Rs 8, 14; 22, 55). Assim poderíamos multiplicar os exemplos até chegar às oitocentas vezes em que se fala da palavra “igreja” na tradução grega dos Setenta.

Os judeus do tempo de Jesus, como nos dizem os especialistas na matéria, usavam a palavra “igreja” para indicar a assembleia escolhida por Deus do povo de Israel, para o culto do Deus verdadeiro (cf. Salaverri, De Ecclesia, em Sacrae Theologiae Summa, vol. 1, n. 145). Por conseguinte, esta palavra será a mais adequada para designar a assembleia do novo Israel de Deus, se Cristo quis verdadeiramente fundar uma sociedade religiosa.

“Cristo apresentando as chaves a S. Pedro”, de Carlo Giuseppe Ratti.

2. A palavra “igreja” no Novo Testamento. — No Evangelho, esta palavra só aparece em duas passagens muito próximas entre si do evangelho de São Mateus: no capítulo 16 (v. 18): “Sobre esta pedra edificarei a minha Igreja”; e no capítulo 18 (v. 17), onde Cristo, ao falar da correção fraterna, depois da correção privada e ante testemunhas, em caso de não se conseguir o resultado esperado, diz a seus discípulos: “Se recusa ouvi-los, dize-o à Igreja. E se recusar ouvir também a Igreja, seja ele para ti como um pagão e um publicano”. 

No entanto, em outros livros do Novo Testamento se encontra muitas vezes a palavra “igreja”: 23 nos Atos dos Apóstolos, 63 em São Paulo, 5 nas outras epístolas dos Apóstolos e 20 no Apocalipse.

Mas, afinal, esta desproporção tão surpreendente entre os evangelhos e os demais livros do Novo Testamento em que se narra a vida da comunidade primitiva não parece corroborar a opinião dos que afirmam que os textos de São Mateus refletem o sentir da comunidade primitiva, mas não a intenção de Jesus de fundar uma Igreja?

II. Orientação histórica. 1. Opiniões errôneas. — De fato, assim creem todos os racionalistas e modernistas, sejam os que afirmam que Jesus Cristo julgava iminente o fim do mundo e que, portanto, não poderia falar de uma “Igreja” como sociedade futura e duradoura (escatologistas); sejam aqueles que sustentam que Jesus Cristo pregou um reino apenas para Israel e continuava acreditando na permanência da sinagoga, sem pretender formar uma sociedade nova (particularistas); sejam enfim os que defendem que Jesus pretendia unicamente nos ensinar nossas relações filiais com Deus Pai, sem nenhuma organização de caráter externo e social (espiritualistas).

Como concebem, pois, estes autores que a ideia de uma Igreja como sociedade aparecesse nos tempos apostólicos, coisa que não podem negar, por encontrar-se tão claramente no livro dos Atos e nas epístolas de São Paulo? As respostas a esta pergunta são numerosas e bastante distintas entre si, mas podemos reduzi-la a estas três principais: 

a) Teoria evolucionista. — Os discípulos de Cristo, pensam alguns, chegaram a organizar-se em sociedade graças à tendência natural e inata ao homem de agrupar-se quando vários indivíduos buscam um mesmo ideal. Assim se formaram as inúmeras sociedades comerciais, literárias, deportivas etc. que surgem em todos os lugares. Desta maneira, foram aparecendo pouco a pouco, já no tempo do Apóstolos, sociedades locais formadas pelos discípulos de Jesus. Por uma evolução também natural, as diversas sociedades de uma nação, província etc. foram, por sua vez, agrupando-se em outras sociedades maiores. A paixão do mundo ou a ambição de alguns chefes influenciou muito nestas uniões parciais, que chegaram de modo mais ou menos rápido, ainda que imperceptível, a formar uma sociedade única sob o mando do chefe daquela igreja que, logicamente, tinha de absorver as demais: a da cidade em que residia a suprema autoridade civil, Roma. Nos tempos dos Apóstolos, não se tinha chegado ainda a esta unidade total de organização, embora em São Paulo apareça já este desejo de uniformizar as diversas comunidades, e o manifesta principalmente ao comparar a Igreja com um corpo único, dentro de uma pluralidade de membros. Aparece, assim, já em São Paulo uma unidade interna e mística, embora ainda não uma unidade jurídica.

b) Teoria eclética. — Sabemos, pensam outros, que se chama “eclético” todo sistema formado por uma seleção de outros vários. Assim, a sociedade judaica, com sua organização presbiteral e religiosa, e a sociedade romana, com sua organização monárquica e civil, determinou a constituição da Igreja como sociedade ao mesmo tempo religiosa e jurídica; esta constituição, porém, foi completamente alheia à vontade de Cristo.

c) Teoria modernista. — Para outros ainda, a constituição da Igreja como sociedade foi uma consequência natural, mas contrária à mente e à vontade de Cristo, do movimento religioso que a pregação do Mestre acabou suscitando. Surgiu quando a crença de Jesus Cristo, compartilhada por seus discípulos, de que o fim do mundo chegaria logo, começou a ser posta em dúvida. Passavam os anos, e a parusia simplesmente não vinha… Foi natural que, então, todo os que aceitavam a doutrina de Jesus se sentissem unidos por uma mesma doutrina e um mesmo fracasso, e pensaram assim em dar consistência e duração a sua ideias religiosas.

III. Doutrina católica. 1. O que a Igreja diz de si mesma. — No entanto, o Magistério eclesiástico ensina como verdade de fé que Cristo fundou a Igreja. Assim diz o Concílio Vaticano I: “Para que pudéssemos cumprir o dever de abraçar a verdadeira fé e nela perseverar constantemente, Deus instituiu, por meio de seu Filho Unigênito, a Igreja” (DH 3012). E em outro lugar: “O eterno Pastor e guardião das nossas almas […] resolveu fundar a Santa Igreja” (DH 3050). Implicitamente afirma o mesmo Concílio que Jesus a fundou como sociedade, ao definir que Cristo constituiu a São Pedro cabeça visível de toda a Igreja militante e que lhe entregou um primado de verdadeira e própria jurisdição (cf. DH 3056s), já que tais atos pressupõem uma vontade plenamente consciente de fundar uma sociedade.

Contra a doutrina modernista, o Papa São Pio X condenou explicitamente a seguinte proposição: “Foi alheio à mente de Cristo constituir a Igreja como sociedade que devia durar sobre a terra por longo decurso de anos” (DH 3452). Veja-se também o juramento proposto pelo mesmo Papa contra os erros do modernismo (cf. DH 3540).

2. Valoração teológica. — Em consonância com os documentos do Magistério que acabamos de expor, podemos afirmar que é verdade de fé divina e católica que Cristo quis estabelecer a sua Igreja na terra como verdadeira sociedade.

3. Ensinamento bíblico. — Ora, já dissemos que a vontade de Cristo de querer estabelecer uma Igreja-sociedade, mais que de alguns textos concretos, flui de todo o Evangelho, no qual vai aparecendo como Ele escolhe os Apóstolos, como os instrui para um fim concreto, como os reveste de poderes especiais para a sua missão, como estabelece sobre os demais uma autoridade suprema e como promete sua assistência indefectível nos ofícios de que os encarrega.

Há porém um texto capital em toda a eclesiologia, que afirma taxativamente esta vontade de Cristo: “Tu és Pedro, e sobre esta pedra edificarei a minha Igreja” (Mt 16, 18).

a) A Igreja, o povo de Deus no Novo Testamento. — A frase de Jesus: “Edificarei a minha Igreja” deve ter produzido um sentimento de estupor nos discípulos, já que a palavra “igreja” sempre aparece no Antigo Testamento como obra, não de um homem, mas de Deus. O Mestre se punha no lugar de Deus! Mas pelo menos Pedro, que acabara de confessar que Jesus era “o Filho do Deus vivo”, por revelação do Pai, podia compreender muito bem a razão íntima desta substituição: Cristo era Deus e, como Deus, ia estabelecer uma Igreja que seria continuação e, simultaneamente, cumprimento cabal daquela igreja ou congregação do povo de Deus no Antigo Testamento. A palavra divina se cumpriria, não já no Israel da carne, mas no Israel do espírito, como diz São Paulo (cf. Rm 9, 6ss; 1Cor 10, 18).

Mas como unir o verbo “edificar” com o substantivo “igreja”, que significa, como vimos antes, povo sagrado, escolhido por Deus? Ora, é que “o povo de Deus” é também “a casa de Deus”, segundo uma imagem muito repetida no Antigo Testamento (cf., por exemplo, Nm 12, 7; Jr 12, 7; Os 8, 1.3.8.15). Daí que a metáfora “edificarei a minha Igreja” equivalha, evidentemente, a dizer: “Formarei o meu povo escolhido, à maneira de um arquiteto que constrói um edifício”. Eis a firme vontade de Cristo de fundar a sua Igreja, isto é, de instituir uma sociedade na terra sobre São Pedro.

b) A Igreja, Reino dos céus. — Em seguida, o Senhor promete ao mesmo Pedro: “Eu te darei as chaves do Reino dos céus” (Mt 16, 18). Não vamos nos deter aqui em estudar o alcance desta metáfora no que se refere a São Pedro; mas podemos, sim, adiantar que este Reino de Deus, expressão que pode ter um significado mais ou menos amplo segundo o contexto, neste lugar específico, em virtude do perfeito paralelismo com a frase anterior e a seguinte: “Tudo o que desligares na terra será desligado nos céus”, só pode significar o Reino de Deus existente na terra, já que Pedro, o Apóstolo que Jesus tem diante de si, será a autoridade suprema deste Reino.

Reino de Deus, Reino dos céus e Igreja não são, pois, realidades distintas, mas a mesma realidade sob dois aspectos distintos. E nisto o Novo Testamento corresponde harmonicamente ao Antigo: com efeito, assim como o povo escolhido era o Reino de Deus no Antigo Testamento, assim também, no Novo, a Igreja de Cristo é o Reino de Deus na terra. Portanto, quando Cristo fala do Reino de Deus na terra, fala em realidade de sua própria Igreja.

Notas

  • Este artigo é uma tradução levemente adaptada de F. de Vizmanos e I. Riudor, Teología fundamental para seglares. Madrid: BAC, 1963, pp. 560-565, nn. 67-77.

Comentários

Os comentários são de responsabilidade exclusiva de seus autores e não representam a opinião deste site. Se achar algo que viole os termos de uso, denuncie. Leia as perguntas mais frequentes para saber o que é impróprio ou ilegal.