CNP
Christo Nihil Præponere"A nada dar mais valor do que a Cristo"
Evangelize compartilhando!
Todos os direitos reservados a padrepauloricardo.org®
Distorcendo o primeiro mandamento
Espiritualidade

Distorcendo o primeiro mandamento

Distorcendo o primeiro mandamento

O diabo pavimenta a estrada para o inferno "maquiando" o primeiro mandamento. Eis o grande perigo da idolatria.

Equipe Christo Nihil Praeponere5 de Dezembro de 2013Tempo de leitura: 3 minutos
imprimir

Quando se repete, nas aulas de catequese, que o primeiro mandamento é "Amar a Deus sobre todas as coisas", seria bom que se sublinhasse a palavra todas. Desde as menores — nossos bens e propriedades — às mais valiosas — a família que temos e a nossa própria vida —, nada deve figurar acima de Deus — já que é d'Ele tudo o que somos e recebemos.

De fato, diz o Catecismo que "Deus amou primeiro". Seguir os mandamentos é simplesmente "a resposta de amor que o homem é chamado a dar a seu Deus" (§ 2083). Quando o homem decide se entregar totalmente a Ele, adorando-O e sendo fiel à Sua vontade, não faz mais do que agir com generosidade diante de um amor muito maior que o que oferece. É o que testemunha São João Evangelista, quando escreve: "De tal modo Deus amou o mundo que lhe deu o seu Filho único, para que todo o que nele crer não pereça, mas tenha a vida eterna" (Jo 3, 16). E ainda: "Amamos, porque Deus nos amou primeiro" (1 Jo 4, 19).

No entanto, o risco que se corre é o de esquecer com que grande amor o homem foi amado e com que preço foi comprado — com o próprio sangue de Deus derramado no Calvário.

Pior: se há quem ignore tamanha prova de amor, há quem a conheça e, ainda assim, resista em tributar honra, glória e adoração ao Senhor. Neste ponto, os cristãos precisamos bater no peito — dizendo as palavras do Confiteor, "mea culpa, mea culpa, mea maxima culpa" — e reconhecer a nossa grande dívida, pois não temos vivido de acordo com as máximas do Evangelho; não temos nos ocupado "em primeiro lugar com o Reino de Deus e a sua justiça" (Mt 6, 33). Ao contrário, preocupando-nos demasiadamente com o dia de amanhã, temos nos esquecido do Amanhã Eterno ao qual todos um dia chegaremos.

A tolice de ajuntar "tesouros na terra", conduta contra a qual Jesus advertiu severamente — "Não ajunteis para vós tesouros na terra, onde a ferrugem e as traças corroem, onde os ladrões furtam e roubam" ( Mt 6, 19) —, é uma tentação atraente. Porém, é o que é todo pecado: uma mentira, uma distorção das dimensões da realidade.

Quem preferisse os bens terrestres às riquezas celestiais cometeria a sandice de uma noiva que ganha um anel de seu esposo, mas, apaixonando-se pelo presente, esquece-se do noivo. É a comparação que usa Santo Agostinho:

"Irmãos, suponhamos que um esposo fizesse um anel para sua esposa e esta tivesse mais amor pelo anel recebido que pelo esposo que lho fabricou; não é verdade que com aquele presente se revelaria que a esposa tem um coração adúltero, embora ela ame algo que é presente do esposo? É claro que ela ama algo que foi feito pelo seu esposo, mas se ela dissesse: 'Basta-me o seu anel, e não me interessa ver o seu rosto', que tipo de esposa seria esta? Quem não abominaria esta loucura? Quem não condenaria este sentimento de adúltera?" [1]

É "este sentimento de adúltera" o pecado que se concebe como idolatria. Na leitura de todo o Antigo Testamento é possível notar como o povo de Israel precisa muitas vezes batalhar consigo mesmo para resistir à tentação de adorar deuses fabricados pelos homens ao invés de cultuar o próprio Deus.

Hoje, a situação não é diferente. O cristão permanecerá toda a sua vida neste mundo lutando consigo mesmo para colocar em ordem a sua natureza corrompida e manchada pelo pecado. A luta contra a carne é a guerra contra o pior inimigo da alma, já que a concupiscência se trata de um "inimigo interno", que habita em nossa própria casa. A vitória definitiva sobre esta realidade só acontecerá na ressurreição dos mortos, quando todos os santos reinarão diante de Deus em corpo glorioso.

Até lá, no entanto, a batalha é quotidiana, não pára um só minuto. Muitas vezes, as insídias perigosas do demônio soarão inofensivas… Não pense o homem que as tentações serão para que o homem traia explícita e diretamente a Deus, que serão sugestões de infidelidade aberta e escancarada. O diabo começa a pavimentar a estrada para o inferno "maquiando" o primeiro mandamento: se o homem cai na armadilha, continua "amando" a Deus, mas não sobre todas as coisas. E aqui começa a sua perdição.

Não se engane o homem: "Ninguém pode servir a dois senhores, porque ou odiará a um e amará o outro, ou se dedicará a um e desprezará o outro. Não podeis servir a Deus e à riqueza" (Mt 6, 24).

Referências

  1. Santo Agostinho, Tractatus in Epistulam Iohannis ad Parthos, II, 11 (PL 35, 1995).

Comentários

Os comentários são de responsabilidade exclusiva de seus autores e não representam a opinião deste site. Se achar algo que viole os termos de uso, denuncie. Leia as perguntas mais frequentes para saber o que é impróprio ou ilegal.

Preferir a morte para entrar na vida
Santos & MártiresEspiritualidade

Preferir a morte para entrar na vida

Preferir a morte para entrar na vida

Na batalha diária para fazer a vontade de Deus, os cristãos são chamados a imitar o testemunho dos mártires. Como aquela mãe judia de Macabeus, que entregou a si e aos sete filhos por amor a Deus.

Equipe Christo Nihil Praeponere28 de Novembro de 2013Tempo de leitura: 4 minutos
imprimir

Uma sentença do século III, de Orígenes, diz que "diante de uma tentação, um cristão sai mártir ou idólatra".

Todos os dias os homens são confrontados pela tentação demoníaca que oferece um caminho mais fácil, mais prazeroso. E não é diferente com os seguidores de Jesus: é-lhes comumente apresentada a sedutora proposta de abandonar a Deus e o caminho da Cruz, de adorar a criatura no lugar do Criador, de procurar a felicidade onde ela não se encontra: no dinheiro, na bebida, no sexo, na fama e em tantas outras coisas. Por outro lado, rejeitar essas criaturas que se arrogam o direito de tomar o lugar de Deus implica numa espécie de morte, de martírio.

Para fortalecer a coragem cristã, poucas coisas são tão importantes quanto a leitura e a meditação assídua do Evangelho e da vida dos santos. "A santidade na Igreja representa uma hermenêutica da Escritura da qual ninguém pode prescindir", indicava o Papa Bento XVI. "O Espírito Santo que inspirou os autores sagrados é o mesmo que anima os Santos a darem a vida pelo Evangelho. Entrar na sua escola constitui um caminho seguro para efetuar uma hermenêutica viva e eficaz da Palavra de Deus".

Pode acontecer que as pessoas, ao se debruçar sobre a riqueza misteriosa das Escrituras, imaginem a santidade como algo muito distante, seja no tempo, seja na própria dimensão das possibilidades de vida humana. Ao ler a vida dos santos, no entanto, o cristão depara-se com o Verbo que novamente se encarna na história. A santidade deixa de ser uma realidade "do século I", grafada em letras arcaicas ou "mortas": é uma verdade palpável, que toca também os homens dos nossos dias. É especialmente no esbarrar-se com aqueles que viveram verdadeiramente a Palavra de Deus que o ser humano se encontra com a "Beleza tão antiga e tão nova" da qual fala Santo Agostinho em suas Confissões.

A mensagem de Cristo nunca é velha, atrasada ou "inadequada" para os tempos modernos, como muitas leituras anticlericais sugerem; ao contrário, ela se rejuvenesce a cada testemunho vigoroso de amor, a cada mártir que se recusa a trair sua fé.

Neste contexto, um relato forte retirado da Bíblia, embora aborde uma perseguição ocorrida aos judeus, ajuda os cristãos a inflamar em si mesmos o espírito de fortaleza e de coragem. O trecho em questão narra o destemor de uma mãe e de seus sete filhos, todos mortos pelo rei Antíoco IV Epifânio, durante uma perseguição violenta ocorrida em Jerusalém, no século II a. C.

O Segundo Livro dos Macabeus afirma que os infantes "foram um dia presos com sua mãe" e instados a comer carne de porco, "por meio de golpes de azorrague e de nervos de boi" (7, 1). Um azorrague era uma espécie de açoite feito com tiras de couro e que possuía, em cada ponta, um instrumento cortante ou pedaços de articulações de carneiro. O espírito daquela família, no entanto, era resoluto. Nenhum dos terríveis golpes de azorrague diminuiu-lhes o fervor em cumprir a vontade de Deus: "Estamos prontos a morrer, antes de violar as leis de nossos pais" (v. 2), disse um deles, sem medo.

As torturas se seguiam, como em um conto de terror. "O rei (...) ordenou que aquecessem até a brasa assadeiras e caldeirões (...) [e] que cortassem a língua do que falara por todos e, depois, que lhe arrancassem a pele da cabeça e lhe cortassem também as extremidades, tudo isso à vista de seus irmãos e de sua mãe" (v. 3-4).

O que fizeram, então, aqueles rapazes, vendo seu irmão ser cruelmente torturado até o suplício? Não renunciavam a seu propósito, nem titubeavam, mas "exortavam-se mutuamente a morrer com coragem" (v. 6). Animados pela esperança na ressurreição dos mortos, eles entregavam bravamente sua vida a Deus, um por um.

Chegando o momento de infligir a morte ao filho mais novo, Antíoco recuou, por um instante. Ele insistia com ele, "prometendo-lhe com juramente torná-lo rico e feliz, se abandonasse as tradições de seus antepassados, tratá-lo como amigo e confiar-lhe cargos" (v. 24). Mas, nem assim o jovem cedia. Então, o rei tentou conversar com sua mãe. Narra o autor sagrado que ele "mandou que a mãe se aproximasse e o exortasse (...) para que o adolescente salvasse sua vida" (v. 25).

E o que fez aquela mulher, que tinha visto os outros seis filhos serem torturados e mortos diante de si? O que fez aquela mãe, cuja alma se encontrava dilacerada, à semelhança de Nossa Senhora, no Calvário? A Escritura diz que "ela consentiu em persuadir o filho" (v. 26), mas que, em seguida, exortou-lhe, falando na língua materna: "Meu filho, (...) não temas (...) este algoz, mas sê digno de teus irmãos e aceita a morte, para que no dia da misericórdia eu te encontre no meio deles" (v. 27.29).

Esta santa mulher, mesmo acabrunhada pela dor de perder todos os seus filhos, estava consciente de que havia algo muito pior que a morte do corpo: a perdição da alma. "Seguindo as pegadas de todos os seus filhos, a mãe pereceu por último" (v. 41). Naquele dia, uma família inteira entregava-se em sacrifício a Deus. Eles preferiram morrer a violar as leis de seus pais, a abandonar as tradições de seus antepassados.

Olhando para a história da Igreja, não é difícil encontrar dramas muito parecidos com este contado pelo Espírito Santo. De São Pedro a São Maximiliano Kolbe, de São Josafá aos mártires deste tempo, inúmeros são os exemplos de homens e mulheres que ofereceram a sua vida em holocausto, preferindo a morte a ofender a Deus. No dia a dia, todos os cristãos são chamados a testemunhar a mesma coragem destes grandes servos da fé, senão pelo sangue, pelo sacrifício quotidiano e pela prática da penitência. Este é o único caminho possível para o Céu. O outro é a idolatria – que, por sua vez, conduz à morte eterna.

Comentários

Os comentários são de responsabilidade exclusiva de seus autores e não representam a opinião deste site. Se achar algo que viole os termos de uso, denuncie. Leia as perguntas mais frequentes para saber o que é impróprio ou ilegal.

Sacrifício, o real significado do Matrimônio
Sociedade

Sacrifício, o real significado do Matrimônio

Sacrifício, o real significado do Matrimônio

Quem se une em matrimônio deve amar o outro “como Cristo amou a Igreja e se entregou por ela”.

Equipe Christo Nihil Praeponere25 de Novembro de 2013Tempo de leitura: 3 minutos
imprimir

O motivo de muitos casamentos não "funcionarem", por assim dizer, reside na esperança que os esposos não poucas vezes depositam no lugar errado. Muitas pessoas têm se unido com a finalidade de satisfazer a si mesmas. Assim, quando surgem as primeiras dificuldades, os primeiros desarranjos, o casal entra em crise e quer se separar. Trata-se, sem dúvida, de um problema de fé. A pessoa crê firmemente que se casou para "ser feliz". Assim, se o seu cônjuge não passa de um obstáculo no caminho rumo a esta "felicidade egoísta", nada resta senão descartar de modo definitivo esta pessoa – como se descarta um objeto mesmo.

Neste conflito, sequer os filhos constituem um empecilho para que os pais se divorciem. Afinal, se o que importa é a felicidade deles, o importante são eles, nada mais. Não é que os pais que se divorciam não se preocupem com seus filhos. É que eles estão muito preocupados consigo mesmos para pensar em outra coisa que não seja... eles mesmos.

O verdadeiro amor é totalmente o contrário deste anseio desordenado de autossatisfação. Ensina São Josemaría Escrivá:

"Às vezes, fala-se do amor como se fosse um impulso para a satisfação própria, ou um simples recurso para completarmos em moldes egoístas a nossa personalidade. E não é assim: amor verdadeiro é sair de si mesmo, entregar-se. O amor traz consigo a alegria, mas é uma alegria com as raízes em forma de cruz. Enquanto estivermos na terra e não tivermos chegado à plenitude da vida futura, não pode haver amor verdadeiro sem a experiência do sacrifício, da dor. Uma dor que se saboreia, que é amável, que é fonte de íntima alegria, mas que é dor real, porque supõe vencer o egoísmo e tomar o amor como regra de todas e cada uma de nossas ações."[1]

Uma das passagens divinamente inspiradas mais belas é aquela em que São Paulo compara o vínculo conjugal ao amor de Cristo pela Igreja. "As mulheres sejam submissas a seus maridos, como ao Senhor, pois o marido é o chefe da Igreja, seu corpo, da qual ele é o salvador" (Ef 5, 22-23), diz o Apóstolo. "Maridos, amai as vossas mulheres, como Cristo amou a Igreja e se entregou por ela" (5, 25).

"Como Cristo amou a Igreja e se entregou por ela". E como Cristo amou a Igreja? "Tendo amado os seus que estavam no mundo", diz São João, "amou-os até o fim" (Jo 13, 1): não só até o fim de sua vida, mas "até o cume de toda a possibilidade de amor (...), até à extrema exigência imposta pelo amor"[2]. No altar do Calvário, consuma-se o sacrifício de uma vida inteira doada por amor: a entrega de Jesus pelos Seus, pela Igreja. É, sem dúvida, um amor alegre, mas revela-se "em forma de cruz".

No altar do leito conjugal e da convivência diária, do mesmo modo, consuma-se outro sacrifício de amor: a entrega matrimonial. Esta também é uma bela oferta, que "traz consigo a alegria", mas, sem dúvida, não é fácil de ser feita. Assim como foi difícil para Jesus encarar o sofrimento da Cruz, nesta vida, os filhos de Deus que se unem em matrimônio também são chamados a entrar no Getsêmani. No horto das Oliveiras, há quase dois mil anos, Jesus "entrou em agonia (...) e seu suor tornou-se como gotas de sangue a escorrer pela terra" (Lc 22, 44). No vale de lágrimas que é o mundo, hoje, os casais são chamados a doar as suas vidas, renunciando a si mesmos em prol do outro e dos seus filhos.

O matrimônio não foi feito para que um indivíduo se faça feliz. Ele foi concebido para que o homem e a mulher, fazendo-se instrumentos do amor divino, daquele amor com que Cristo amou a Sua Igreja, façam-se felizes, um ao outro. O casamento cristão não foi instituído para o egoísmo, mas para a formação da família, pela qual os pais devem se gastar, dia após dia, como Jesus se gastou pelos Seus.

Que os casais não percam de mente estas palavras, que devem moldar a verdadeira paternidade: "Não pode haver amor verdadeiro sem a experiência do sacrifício".

Referências

  1. É Cristo que passa, n. 43
  2. Aos Sacerdotes, filhos prediletos de Nossa Senhora. Movimento Sacerdotal Mariano. 25ª ed. brasileira. p. 774.

Comentários

Os comentários são de responsabilidade exclusiva de seus autores e não representam a opinião deste site. Se achar algo que viole os termos de uso, denuncie. Leia as perguntas mais frequentes para saber o que é impróprio ou ilegal.

A tragédia no altar do hedonismo
Sociedade

A tragédia no altar do hedonismo

A tragédia no altar do hedonismo

A mentalidade contraceptiva transformou as mulheres em “estátuas de carne”.

Equipe Christo Nihil Praeponere25 de Novembro de 2013Tempo de leitura: 3 minutos
imprimir

Um dos perigos que o crescimento da mentalidade contraceptiva trazia consigo era o desgaste da figura feminina. A previsão não era de ninguém menos que do Papa Paulo VI. Em sua memorável encíclica Humanae Vitae, o Sumo Pontífice escrevia:

"É ainda de recear que o homem, habituando-se ao uso das práticas anticoncepcionais, acabe por perder o respeito pela mulher e, sem se preocupar mais com o equilíbrio físico e psicológico dela, chegue a considerá-la como simples instrumento de prazer egoísta e não mais como a sua companheira, respeitada e amada."

Dito e feito. As palavras de Paulo VI não só lançaram um olhar mais humano para o dilema da paternidade responsável, como se cumpriram, de modo profético. O uso desenfreado dos métodos anticoncepcionais fez com que, pouco a pouco, os aspectos procriativo e unitivo do ato sexual fossem se separando. A sexualidade deixava de ser algo sagrado pelo qual Deus dava ao homem o dom de participar de sua ação criadora. Agora, ela era apenas um instrumento nas mãos do homem e, como tal, poderia ser utilizada a seu bel-prazer.

À mulher, por sua vez, vista agora não mais como uma "companheira, respeitada e amada", cabia o papel de satisfazer os desejos do homem. Afinal, se o sexo serviria apenas para obter prazer, o que é a mulher senão um simples meio para se chegar a ele?

Assim, em meados do século XX, viu-se crescer no mundo o fenômeno dos "concursos de beleza". Hoje, as pessoas lidam rotineiramente com isto, mas, em um mundo de certa forma ainda moldado pela cultura cristã, não foram poucas as vozes a se levantarem contra o que foi chamado de "feiras da carne".

A crítica pode parecer absurda para este século hedonista, mas o seu conteúdo possui um sentido bem claro: se o que se exalta nestes concursos é a mera beleza exterior, material, as joias espirituais facilmente são relegadas ao desprezo ou à insignificância.

Dom Francisco de Aquino Corrêa, arcebispo de Cuiabá na primeira metade do século XX, não economizava palavras para condenar os concursos de beleza do seu tempo. "Não se condena, por certo, o culto da beleza física; o que não se pode admitir, é que seja ela arvorada, assim, em única ou suprema beleza da mulher", escrevia. "A mulher não é apenas uma formosa estátua de carne. Tem outras belezas muito mais excelentes e nobres: a beleza da sua inteligência, a beleza dos seus sentimentos e, sobretudo, a beleza da sua virtude e do seu caráter" [1].

É certo que, hoje, há uma veiculação massiva da imagem da mulher-objeto. Danças irreverentes alardeadas em programas de TV e em bailes mundanos, aliadas a uma cultura pornográfica que muito tem degradado a cultura, tornaram-se tristemente frequentes. Perto destas realidades, os concursos de beleza antigos – ou mesmo as suas edições mais recentes – chegam a parecer simples ou inofensivos. Em nossos dias, as mulheres não apenas desfilam como "estátua de carne", mas são vendidas como tais, sem pudor ou vergonha nenhumas.

Urge recordar as considerações de Dom Aquino Corrêa sobre os concursos de sua época, pois guardam valiosas lições para os dias hodiernos:

"A beleza física não passa de um dote da natureza, em que, pouco ou nada, colabora o esforço pessoal, não podendo, por conseguinte, fazer jus a recompensas, e muito menos a essas, que se lhe têm conferido, e raiam pelas culminâncias de uma verdadeira apoteose universal. Não é razoável se tome por base de concurso e critério de prêmio, um predicado, em que a mais virtuosa das mulheres pode ser derrotada pela barregã mais reles, só por ser esta mais formosa. E que falta de senso e de equidade deixar o silêncio e no esquecimento a beleza moral de tantas mães e donzelas, verdadeiras heroínas do dever e do trabalho, para entregar a coroa da realeza feminina à beleza de um corpo qualquer, beleza, a que, às mais das vezes, fazem cortejo a vaidade, a leviandade, a ignorância, a indolência, a irreligião, a imodéstia, o despudor e a lascívia!" [2]

Quando este grande prelado matogrossense escreveu estas linhas, ele pretendia evitar o terrível espetáculo que hoje se passa em tantos ambientes. Infelizmente, os seus alertas – bem como os do servo de Deus, o Papa Paulo VI – não foram ouvidos. Os frutos amargos da dissolução estão sendo colhidos: tem valido mais a exibição pornográfica de uma prostituta que o sacrifício de uma religiosa que se consagra inteiramente à vontade de Deus.

Não é de se admirar que uma sociedade que cultue os dotes físicos com espírito quase idolátrico tenha tantas dificuldades para enxergar beleza na vida de uma Santa Cecília ou de uma Santa Teresinha do Menino Jesus, que preferiram enfeitar com cuidado e amor suas almas a estamparem seus corpos no sacrílego altar do hedonismo.

Referências

  1. Dom Aquino Corrêa, 27 de dezembro de 1930. Discursos, vol. II, tomo II. Concursos de beleza. pp. 67-75. Brasília, 1985.
  2. Idem

Comentários

Os comentários são de responsabilidade exclusiva de seus autores e não representam a opinião deste site. Se achar algo que viole os termos de uso, denuncie. Leia as perguntas mais frequentes para saber o que é impróprio ou ilegal.