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Você picha Vieira, mas seu herói é o Che Guevara
Sociedade

Você picha Vieira,
mas seu herói é o Che Guevara

Você picha Vieira, mas seu herói é o Che Guevara

Se sobra spray para pichar o termo “descoloniza” na base da estátua do Padre Antônio Vieira, em Portugal, à colonização ideológica anticristã, à doutrinação comunista, nossas hordas pós-iluministas se rendem sem maiores problemas.

Equipe Christo Nihil Praeponere18 de Junho de 2020Tempo de leitura: 10 minutos
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Até parece que o confinamento acabou. As ruas em muitos lugares do mundo ficaram cheias, e os veículos de comunicação, que antes não paravam de alardear a importância do distanciamento social (e de “ficar em casa”), de repente passaram a incentivar aglomerações sem pudor algum. 

Não que o coronavírus tenha deixado de circular e fazer vítimas. O que a mídia e as manifestações dos últimos dias dão a entender é que há ameaças maiores: são os fantasmas dos mortos, ou melhor, as estátuas deles

Nos Estados Unidos, os alvos foram monumentos dedicados a personalidades supostamente escravocratas, como Cristóvão Colombo; mas em Portugal foi uma estátua do Padre Antônio Vieira e, na Espanha, nada menos que uma escultura do Sagrado Coração de Jesus.

Estátua do Pe. Vieira, vandalizada em Lisboa.

Pegando emprestada essa triste imagem de demolição — sem dúvida, a mais lamentável de todas as noticiadas —, ousamos dizer o que está em xeque aqui é o próprio coração da civilização cristã, do que se costumava chamar “cristandade” — ou o que quer que dela tenha restado.

Como chegamos a esse triste estado de coisas, é uma pergunta para a qual várias respostas já foram elaboradas, passadas ao papel e até transformadas em livros. Está muito longe de nossa pretensão, evidentemente, esgotar essa discussão. Mas, se pudéssemos encurtar uma história que já leva séculos, poderíamos dizer, com muita simplicidade, que só estamos colhendo os frutos de nossa educação secular anticristã.

Sim, muitos dos manifestantes que saíram às ruas nos últimos dias denominam-se “antifascistas”. Mas, na falta de um Mussolini, alguém imagina que é a esmo que eles derrubam um colonizador europeu, picham um evangelizador católico e chegam a decapitar o próprio Jesus Cristo? 

Ninguém se engane, nada disso é aleatório. Anos de doutrinação ideológica geraram o que estamos vendo agora: um ódio visceral à fé cristã e a tudo o que ela construiu ao longo de dois milênios. Quem já não ouviu, por exemplo, que “o evolucionismo desbancou Deus”, que “a Igreja matou milhares na Inquisição e nas Cruzadas” e que “os europeus só vieram à América para saquear e escravizar”? Essas são, grosso modo, as mentiras maiores que nossas crianças e adolescentes aprendem nas escolas, mas no meio delas há muitas outras, menores, desde “pedacinhos no céu” que a Igreja vendia com as indulgências, passando por uma tal de Joana que teria sido eleita “papisa”, até gatos esfolados e mortos, com selo pontifício e tudo.

Os agentes de desinformação que passam essas histórias adiante são, eles mesmos, as primeiras vítimas da ignorância, mas nem por isso deixam de ter sua parcela de responsabilidade. A diferença é que esse tipo de fake news e “discurso de ódio” (para usar duas expressões correntes) o establishment não tem interesse algum em coibir. Muito pelo contrário.

A ideia de que a Igreja Católica aprovou e incentivou a escravidão dos negros, v.g., voltou a ser repetida nesses dias, como explicação para o vandalismo contra a estátua de Vieira em Portugal. Fomos atrás dos sermões a que seus detratores costumam se referir para o acusar de “racismo escravagista”, e deparamos, ao contrário, com o seguinte.

Primeiro, Nosso Senhor morreu para salvar a todos, inclusive os negros; eles são, portanto, filhos da Cruz e de Nossa Senhora:

Vós os Pretos, que tão humilde figura fazeis no mundo, e na estimação dos homens; por vosso próprio nome, e por vossa própria nação, estais escritos, e matriculados nos livros de Deus, e nas Sagradas Escrituras; e não com menos título, nem com menos foro, que de filhos da Mãe do mesmo Deus [...]. “Aos etíopes não enjeita a formosa Virgem, mas abraça-os como a pequeninos amando-os como filhos. Saibam pois que não desdenha ser chamada mãe pelos etíopes aquela que é Mãe do Altíssimo” (Sermões de Nossa Senhora do Rosário, XIV, 5).

Segundo, a escravidão é um fato deplorável: 

Os Israelitas atravessaram o Mar Vermelho, e passaram da África à Ásia, fugindo do cativeiro: estes atravessaram o Mar Oceano na sua maior largura, e passam da mesma África à América para viver, e morrer cativos. Infelix genus hominum (disse bem deles Mafeu) et ad servitutem natum, “Infeliz raça de homens, nascida para a servidão”. Os outros nascem para viver, estes para servir. Nas outras terras, do que aram os homens, e do que fiam, e tecem as mulheres, se fazem os comércios; naquela o que geram os pais, e o que criam a seus peitos as mães, é o que se vende, e se compra. Oh trato desumano, em que a mercancia são os homens! Oh mercancia diabólica, em que os interesses se tiram das Almas alheias, e os riscos são das próprias (Sermões de Nossa Senhora do Rosário, XXVII, 1)!

Terceiro, os escravos devem desobedecer a seus senhores, se eles lhes mandarem que façam coisas injustas:

Se o Senhor mandasse ao Escravo, ou quisesse da Escrava, coisa que ofenda gravemente a Alma, e a consciência; assim como ele o não pode querer, nem mandar, assim o Escravo é obrigado a não obedecer (Sermões de Nossa Senhora do Rosário, XXVII, 3).

Quarto, os senhores e feitores que forem cruéis com seus escravos estão sujeitos à ira divina:

Qui in captivitatem duxerit, in captivitatem vadet (Ap 13, 10), “Todo aquele que cativar será Cativo”. Olhai para os dois polos do Brasil, o do Norte, e o do Sul, e vede se houve jamais Babilónia, nem Egito no mundo, em que tantos milhares de Cativeiros se fizessem, cativando-se os que fez livres a Natureza, sem mais Direito, que a violência, nem mais causa, que a cobiça, e vendendo-se por Escravos. Um só homem livre cativaram os Irmãos de José, quando o venderam aos Ismaelitas para o Egito; e em pena deste só cativeiro, cativou Deus no mesmo Egito a toda a geração, e descendentes dos que o cativaram, em número de Seiscentos mil, e por espaço de quatrocentos anos [...].

Estão açoutando cruelmente o miserável Escravo, e ele gritando a cada açoite, “Jesu, Maria, Jesu, Maria”, sem bastar a reverência destes dois nomes, para moverem à piedade um homem, que se chama Cristão. E como queres que te ouçam na hora da morte estes dois nomes, quando chamares por eles? Mas estes clamores, que vós não ouvis, sabei que Deus os ouve; e já que não têm valia para com o vosso coração, a terão sem dúvida sem remédio para vosso castigo (Sermões de Nossa Senhora do Rosário, XXVII, 8).

Obviamente, o Pe. Antônio Vieira não era ativista social; como sacerdote católico, suas preocupações não eram meramente políticas, mas morais e espirituais. Além disso, quase 400 anos nos separam, e seria grande anacronismo julgar uma personagem tão distante no passado com as lentes do presente.

Mas o problema aqui é muito maior do que uma simples descontextualização da história. No fundo, não importa se a Igreja (e Vieira com ela) tivesse ou não favorecido a escravidão. (Para remediar essa ignorância, bastaria ler um artigo esclarecedor na internet ou a carta In Supremo, do Papa Gregório XVI — que não só reitera a condenação da Igreja ao escravagismo, como mostra, ao longo da história, que esse instituto desapareceu entre nós com o florescer da cristandade, e só tornou a ganhar força com o renascer do paganismo.)

Estátua do S. Coração vandalizada em La Roda de Andalucía, província espanhola de Sevilha.

A questão de fato é cultural: nossos ideólogos não podem aceitar que os pregadores católicos, ao invés de deixar os indígenas americanos e os negros africanos em suas religiões, procurassem batizá-los e ensinar-lhes a fé cristã. O chilique não é com a escravidão; é com a colonização católica. Muito antes de Vieira e Anchieta, o problema são os Apóstolos. Vendo a estátua do Sagrado Coração sem cabeça, em Sevilha, podemos dizer ainda mais: o problema começa quando o próprio Deus cruza os abismos para fazer-se homem em Jesus Cristo. A modernidade até se dispõe a aceitar um Jesus “paz e amor”, um Jesus “iluminado”, um Jesus light; mas um Jesus que ensina, e que manda os seus discípulos saírem pelo mundo inteiro convertendo e batizando as pessoas (cf. Mt 28, 19–20), mudando-lhes a cabeça e transformando-lhes os costumes, esse Jesus é tudo o que a nossa sociedade relativista não pode tolerar.

Com a Igreja hoje acontece a mesmíssima coisa. O mundo está disposto a aceitar padres, missionários e leigos que façam uma obra filantrópica e social por onde passem… Mas ai de quem ensinar que a homossexualidade é pecado, ou ousar batizar um índio (ainda que com o consentimento dele): poderá ser denunciado pelo Ministério Público!

A regra é que os cristãos de verdade se sintam acuados e intimidados. O vandalismo a monumentos de figuras importantes da cristandade não é sem causa: eles atingem a “democracia dos mortos” para ameaçar os representantes vivos dela. Por isso, se um cristão estiver alinhado às ideias da moda, se empunhar a bandeira dos movimentos do momento — em outras palavras, se ele for um “cristão vendido” —, não há o que temer. Mas se ele ousar ler e aceitar os escritos dos santos antigos, os Sermões de Vieira ou os Evangelhos de Cristo (sem aquelas notas de rodapé que distorcem tudo), ele está em risco.

Pois o alvo, como já dito, é a colonização católica, a Igreja docente tradicional, os cristãos que ensinam. É inclusive com certa carga pejorativa que se usa, a esse respeito, os termos doutrinar e doutrinação. Contra ela, as hordas pós-iluministas se insurgem autodenominando-se “críticas” e “questionadoras”. Mas enquanto sobra spray para pichar o termo “descoloniza” na base da estátua de um célebre padre católico, à colonização ideológica anticristã, à doutrinação comunista, elas se rendem sem maiores problemas. São os jovens que picham Vieira sem nunca o haver lido, ao mesmo tempo que ostentam, orgulhosos, faixas socialistas e camisetas do Che Guevara.

É como dizia Chesterton: quem deixa de acreditar no Deus verdadeiro passa a acreditar em qualquer coisa. A consequência de termos substituído a velha instrução no seio da família e da Igreja pela educação secularista do Anticristo foi que, agora, temos um punhado de ateus que acreditam piamente nas mais estapafúrdias mentiras que lhes contam. Assim: 

  • numa sociedade que deixou de acreditar em Deus, Pai comum de todos os homens, não surpreende que ressurja com força o culto ridículo à própria “raça”: daí os supremacistas brancos e os movimentos negros radicais; 
  • numa sociedade que deixou de cultuar o Cristo, Deus feito homem, e a Virgem Maria, mulher e mãe de Deus, não surpreende que as dificuldades entre os sexos sejam potencializadas e transformadas em uma verdadeira guerra, com feminismos e feminicídios; 
  • numa sociedade que abandonou a fé na vida eterna, não surpreende que a meta tenha se tornado construir um paraíso aqui na terra: o comunismo, ou simplesmente um “mundo melhor”, uma “sociedade sem classes”, uma “terra sem males” etc;
  • numa sociedade que abandonou a sadia antropologia cristã, não surpreende que surjam aberrações como a ideologia de gênero, segundo a qual não passamos de pessoas aprisionadas num invólucro sexuado aleatório.

Em suma, ao lado do trabalho de desconstrução da verdade católica, caminha sempre a adesão às mentiras desse mundo. É uma filiação que tem preço, e nós infelizmente já o estamos pagando.

Do Sagrado Coração de Jesus, dois mil anos atrás, jorrou um rio de sangue e água, que por muito tempo saciou a humanidade e transformou a terra num lugar muito melhor de se viver. Homens e mulheres de todas as tribos, línguas e nações, unidos num só batismo, no ato de trabalhar por sua salvação eterna construíram uma civilização de que os antigos povos pagãos jamais foram capazes

Hoje, por obra de inúmeros anticristos que se levantam aqui e acolá, esse edifício está abalado e ameaça ruir. Mas, se as portas do inferno não prevalecerão contra a Igreja, como disse o Senhor; se Ele é fiel às suas promessas, como sabemos que é; e se “tudo concorre para o bem dos que amam a Deus”, a única coisa que os católicos devemos temer é a nossa própria covardia

Andemos, pois, sempre desconfiados de nós mesmos, voltemos a empunhar as armas espirituais que a Igreja desde sempre nos inculcou e mantenhamo-nos unidos a Cristo. Assim como Pedro foi instado a guardar sua espada na bainha, não caiamos na tentação de usar, na guerra em que estamos, as mesmas armas sujas de que se servem os inimigos: se eles trapaceiam, sejamos honestos; se eles mentem e difamam, sejamos verdadeiros; se eles odeiam, amemos. “O nosso dever não é vencer o mundo, ainda que seja por Cristo: o nosso dever é salvar a própria alma”, disse Henri de Lubac. “A nossa missão não é fazer a verdade triunfar, mas dar testemunho dela”.

Foi o que fizeram os santos, foi o que fizeram os mortos cuja memória temos a honra de venerar. E isso nos basta.

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Todo trabalho é essencial: uma reflexão para tempos de pandemia
Sociedade

Todo trabalho é essencial:
uma reflexão para tempos de pandemia

Todo trabalho é essencial: uma reflexão para tempos de pandemia

Ainda que a distinção entre serviços “essenciais” e “não essenciais” deva ser aceita para frear a disseminação do coronavírus, não podemos nos esquecer que, no fundo, todo trabalho é essencial, pois é ele que dá dignidade a nós, homens, e propósito às nossas vidas.

Francis LeeTradução: Equipe Christo Nihil Praeponere17 de Junho de 2020Tempo de leitura: 5 minutos
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A crescente taxa de desemprego nos EUA, consequência natural da paralisação econômica, pôs a classe média americana de joelhos [1]. Dez milhões de americanos foram demitidos em apenas duas semanas, e o número segue crescendo. Às pessoas cadastradas para receber seguro desemprego foi informado que deveriam esperar algumas semanas até receberem o primeiro pagamento. Os números foram exibidos todas as manhãs no noticiário, e na minha opinião o sofrimento dos desempregados foi tratado, em grande medida, apenas em termos numéricos, como um valor destituído de qualquer significado humano.

Minha intuição e formação religiosa me diziam que eu deveria sentir compaixão e empatia pelos menos afortunados, mas eu não conseguia invocar esses sentimentos humanos fundamentais. Seguia com minha vida ordinária, ignorando essa realidade distante; talvez fosse uma maneira de preservar minha tranquilidade. Foi preciso que a fantasia autoinduzida se transformasse em realidade cotidiana e batesse à porta da minha própria família para que eu entendesse a magnitude da destruição causada por ela na alma humana.  

“Um homem trabalhando no campo”, por Laurits Andersen Ring.

Meu pai trabalha como autônomo na manutenção de máquinas de lavagem a seco. Por isso, só tem serviço quando o dono de uma lavanderia entra em contato para solicitar reparos urgentes em alguma máquina da empresa. Os pedidos variavam em quantidade ao longo da semana, mas a regularidade do serviço permitia que a hipoteca e outras despesas fossem pagas em dia. Com o fechamento obrigatório de quase todas as empresas, a indústria de lavagem a seco entrou em colapso porque diminuiu bastante o número de profissionais que precisam prensar e passar o próprio uniforme de trabalho.

Embora neste período alguns ainda continuem a vestir-se formalmente em casa quando estão em teletrabalho (para manter certo grau de dignidade ou, pelo menos, passar a impressão de que estão trabalhando no escritório), a verdade é que meu pai não recebe demanda de trabalho há quase três semanas. Todas as manhãs, ele costuma acordar e realizar as atividades que faziam parte de sua rotina antes de sair para trabalhar: tomar café da manhã, ler o jornal e fumar um cigarro no jardim. Na hora do almoço, sai de casa com o seu uniforme de trabalho e as ferramentas, voltando apenas na hora do jantar. É óbvio que não há nenhuma demanda de trabalho, mas ele tem cumprido perfeitamente essa rotina todos os dias. Eu me perguntei: por que ele mantém esse hábito? Por que finge trabalhar quando não há trabalho a ser feito?  

Para muitas pessoas, o trabalho é apenas um meio de obter os recursos necessários para pagar a hipoteca, comprar comida e dar aos filhos uma boa educação. Alguns descobrem que a sua vocação terrena lhes dá um incrível senso de propósito que nenhum tipo de lazer poderia dar. O sangue que jorra das mãos por causa do trabalho duro com uma ferramenta, o suor que escorre pelo corpo por causa do trabalho intenso e do calor ao ar livre e as lágrimas salgadas que caem do rosto por causa da dor do trabalho árduo proporcionam uma satisfação única.

À luz dos hábitos do meu pai, comecei a analisar a relação entre o homem e o seu trabalho: o homem trabalha apenas para encontrar meios de sobrevivência para a sua família ou realiza o trabalho pelo trabalho?

Na encíclica Rerum novarum, o Papa Leão XIII diz o seguinte: “Trabalhar é exercer a atividade com o fim de procurar o que requerem as diversas necessidades do homem, mas principalmente a sustentação da própria vida” (n. 27). Ele explica que o homem, como agente ativo da economia, trabalha antes de mais nada para fornecer alimento e moradia à sua família e para receber o salário necessário à sobrevivência. Trata-se de uma “lei incontestável da natureza”.

Na encíclica Laborem exercens, o Papa João Paulo II responde à segunda parte da minha pergunta: 

Desde o princípio [o homem] é chamado ao trabalho. O trabalho é uma das características que distinguem o homem do resto das criaturas, cuja atividade, relacionada com a manutenção da própria vida, não se pode chamar trabalho; somente o homem tem capacidade para o trabalho e somente o homem o realiza preenchendo com ele, ao mesmo tempo, a sua existência sobre a terra. Assim, o trabalho comporta em si uma marca particular do homem e da humanidade, a marca de uma pessoa que opera numa comunidade de pessoas; e uma tal marca determina a qualificação interior do mesmo trabalho e, em certo sentido, constitui a sua própria natureza (n. 1).

Aqui, o grande João Paulo II estabelece a diferença entre o reino animal e a espécie humana. Ele esclarece o seguinte: não podemos chamar de trabalho, tal como o definem os seres humanos, a busca animal de comida e abrigo para si ou para o grupo a que pertence. Por que motivo? Quando “Deus criou o homem à sua imagem, à imagem de Deus o criou”, Ele deu à espécie humana a missão específica de dar continuidade à história da sua Criação através dos trabalhos de nossas mãos, que primeiro começaram com Deus criando “os céus e a terra”. Quando o homem inventa uma máquina, conserta algo ou gera uma nova vida, está participando ativamente da economia divina. Como disse anteriormente, ignorar a nossa natureza propensa ao trabalho significa violar a própria lei natural. Pode-se concluir que trabalhar é algo que está em nosso DNA.

Ao determinar a interrupção da atividade econômica, os governos impuseram a sua interpretação do que são “serviços essenciais”, interpretação que, apesar de variável até certo ponto, não deixa de ter certa uniformidade: negócios vitais para o funcionamento básico da economia (finanças, mercados de produtos alimentícios, serviços de saúde, governo etc.) e dignos de permanecerem abertos durante uma crise de saúde pública. Essa decisão, porém, determinou uma injustificada sentença de morte para uma imensa variedade de trabalhos considerados “não essenciais”. O barbeiro que você frequenta duas vezes por mês, o garçom que você vê muitas vezes em seu restaurante predileto e o barman que faz aquele coquetel perfeito entram nessa categoria.

Embora a população tenha de aceitar essa distinção para minimizar a disseminação do coronavírus, não devemos nos esquecer da verdade fundamental de que todo trabalho é essencial, pois confere dignidade à nossa humanidade e propósito às nossas vidas, além de satisfazer a nossa natureza dada por Deus, que nos leva a encontrar alegria nos frutos do nosso trabalho (cf. Ecl 5, 18).

Notas

  1. Esse texto foi originalmente publicado no dia 23 de abril de 2020. Desde então, a situação nos Estados Unidos com relação à infecção por coronavírus e ao desemprego certamente só piorou. Como o Brasil vive drama semelhante, as considerações feitas há quase dois meses têm perfeita validade para nós (Nota da Equipe CNP).

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Por que a cultura do sexo inconsequente está acabando com os jovens?
Sociedade

Por que a cultura
do sexo inconsequente
está acabando com os jovens?

Por que a cultura do sexo inconsequente está acabando com os jovens?

As pessoas estão se casando cada vez mais tarde, mas começam a se relacionar cada vez mais cedo. O que antes acontecia dentro de um compromisso sério agora se reduz a uma malfadada “diversão”, e com uma série de inconvenientes, para o corpo e para a alma.

Joseph ShawTradução: Equipe Christo Nihil Praeponere13 de Junho de 2020Tempo de leitura: 4 minutos
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O mundo para o qual mandamos os nossos jovens é diferente do mundo dos nossos antepassados em muitos aspectos. Ele é organizado a partir de princípios de recompensa e punição que se associam de modo incoerente e, por isso, emitem sinais confusos. Em determinados aspectos, tornou-se difícil combinar virtude e felicidade natural com sucesso terreno, e isso dá origem a escolhas difíceis.

A modernidade gosta de afirmar o contrário: foram os nossos antepassados que sofreram esse dilema por causa de suas convenções sociais “artificiais”. Particularmente, eles tornaram a atividade sexual fora do matrimônio menos atraente, algo que muitas pessoas, em todas as épocas, tiveram a tentação de fazer. Portanto, prossegue o argumento moderno, isso foi artificial, e depois que aquelas convenções deixaram de existir (para quase todo o mundo e por razões práticas) todos estão numa situação melhor agora. As pessoas podem fazer o que quiserem, e obviamente isso é bom, não é?

Não é, porém, uma conclusão evidente que a satisfação dos nossos desejos sexuais imediatos e naturais seja compatível com os nossos mais estimados objetivos a longo prazo. O assunto requer uma reflexão séria.

É altamente provável que as pessoas que entram na vida adulta queiram, em algum momento, se casar e ter filhos. Excluída a possibilidade de uma vocação religiosa, a maioria das pessoas se casa, e muitas das que ficam solteiras gostariam de ter se casado. Isso inclui muitos que desprezaram a ideia quando eram mais novos; não se trata, pois, de uma possibilidade que deva ser descartada irrefletidamente de antemão. Para as mulheres, com o tempo, o desejo de ter filhos tem uma tendência particular a crescer.

As exigências da educação em tempo integral e da convenção social moderna fizeram a média de idade do primeiro casamento subir. Em 2018, a média feminina nos Estados Unidos era de 27,8 anos e a masculina era de 29,8. Isso faz com que homens e mulheres jovens tenham uma fase adulta de mais ou menos dez anos antes do casamento. Que tipo de relação romântica você poderia ou deveria ter durante esse longo intervalo?

A resposta normal é “diversão” e, em essência, a alegação moderna é que esse estilo de vida não tem um lado negativo. Em muitos ambientes sociais, ao contrário, quem resiste a esse modo de agir é tido não tanto como um rebelde, mas como uma aberração antissocial. Só que o estilo de vida padrão da monogamia periódica, que progressivamente se transforma em promiscuidade, de fato tem inconvenientes.

A primeira e mais óbvia consideração é de ordem física. Uma década de atividade sexual durante o próprio pico de fertilidade é algo que naturalmente terá como consequência a gravidez. Ela geralmente não faz parte do plano; portanto, esse estilo de vida pressupõe um compromisso de longo prazo com a contracepção. Por causa do uso prolongado de contracepção nesse período, aquilo que teoricamente poderia corresponder a níveis insignificantes de falha na contracepção está longe de ser insignificante, e o mesmo vale para doenças sexualmente transmissíveis. No caso da gravidez, isso significa que a cultura do sexo inconsequente também é, necessariamente, uma cultura de aborto.

As únicas formas de contracepção que permitem à mulher um controle sobre o próprio corpo são as que possuem consequências potencialmente negativas para a sua saúde e particularmente para a sua fertilidade futura. Mais uma vez, isso parece uma questão insignificante, mas basta usar contraceptivos por dez anos para que as probabilidades aumentem. Os leitores podem buscar informações na internet por conta própria. 

De um ponto de vista psicológico, o sexo inconsequente não é de modo algum livre de consequências emocionais. A ideologia moderna afirma que o desgosto, a traição, o ciúme e a decepção que fazem parte desse estilo de vida são o preço a pagar para ter relacionamentos emocionalmente gratificantes. Trata-se de uma verdade pela metade. Sim, o envolvimento emocional com outro ser humano traz consigo a possibilidade de traição, mas essa probabilidade resulta da falta de verdadeiro compromisso. A única resposta possível a essa dificuldade é tentar evitar o envolvimento emocional tanto quanto possível. Isso é difícil, mas a prática leva à perfeição. Após mais ou menos uma década de esforço constante, divorciar a sexualidade do afeto pode tornar-se quase uma segunda natureza. Só que isso é não uma preparação para o matrimônio, mas um treinamento para o divórcio.

De um ponto de vista espiritual, esperemos e rezemos para que todos os nossos jovens se arrependam de suas indiscrições juvenis quando finalmente se casarem. Muitos dos maiores santos tiveram muito do que se arrepender; portanto, isso com certeza não é impossível. Mas o arrependimento de um pecado sério exige o reconhecimento de que o que se fez foi seriamente errado. Ninguém pode dizer que “nem importa tanto assim” porque é possível arrepender-se depois. Se não importa, nem há por que arrepender-se depois. Se alguém pensa que não importa, arrepender-se mais tarde torna-se impossível. A verdade é que uma grande quantidade de jovens católicos se casa sem purificar as próprias consciências; como resultado, eles deixam de ganhar em plenitude as graças do sacramento que recebem.

Um único pecado mortal nos faz perder a amizade de Deus e acaba com a vida da graça. Viver nesse estado por um período prolongado é ruim não apenas por causa da possibilidade remota da morte... É ruim porque equivale à morte, a morte da alma.

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Conheça Santo Antônio!
Cursos

Conheça Santo Antônio!

Conheça Santo Antônio!

Junho é o mês de Santo Antônio! Mas, mesmo sendo muito venerado, a vida desse santo é muito pouco conhecida. Por isso, Pe. Paulo Ricardo quer apresentar a você, na forma de um breve curso, a biografia desse grande Doutor da Igreja.

Equipe Christo Nihil Praeponere12 de Junho de 2020Tempo de leitura: 1 minutos
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Em 1220, isto é, 800 anos atrás, morriam no Marrocos os primeiros mártires franciscanos, acontecimento decisivo na história da Igreja e ponto de inflexão na vida de um cônego agostiniano português...

O nome de batismo desse sacerdote era Fernando de Bulhões, mas é com o nome de Santo Antônio de Lisboa (em referência ao lugar onde nasceu) e de Pádua (em referência ao lugar onde está sepultado) que sua fama viria a espalhar-se por todo o mundo.

A verdade, porém, é que, mesmo sendo muito venerado, a vida de Santo Antônio é muito pouco conhecida. Os brasileiros mesmos praticamente só o conhecemos como um “casamenteiro” e “fazedor de milagres” que traz o Menino Jesus nos braços.

Mas junho é o mês de Santo Antônio, cuja memória os católicos celebramos no dia 13, e o Pe. Paulo Ricardo quer aproveitar essa oportunidade para apresentar a você, na forma de um breve curso, a biografia desse grande Doutor da Igreja.

O que se esconde por trás dos inúmeros prodígios e favores que Santo Antônio faz aos homens? Por que ele foi chamado “Martelo dos Hereges” e “Arca do Testamento”? Qual é, em suma, a razão de sua grande santidade, que levou o Papa a canonizá-lo menos de um ano após a sua morte?

É o que você vai descobrir a partir do próximo dia 23 de junho, às 21h, aqui em nosso site! Faça sua pré-inscrição para esse curso clicando aqui e seja notificado quando nossas inscrições abrirem!

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