CNP
Christo Nihil Præponere"A nada dar mais valor do que a Cristo"
Evangelize compartilhando!
Todos os direitos reservados a padrepauloricardo.org®
Sete orações dos santos aos Anjos da Guarda
Oração

Sete orações
dos santos aos Anjos da Guarda

Sete orações dos santos aos Anjos da Guarda

Embora mais conhecida, a oração do “Santo Anjo” não foi a única composta para invocar a intercessão de nossos Anjos custódios. Os santos da Igreja também rezavam aos seus Anjos da Guarda, e algumas das belas preces que eles faziam estão aqui.

Pe. Augusto Ferretti2 de Outubro de 2020Tempo de leitura: 7 minutos
imprimir

A oração do Santo Anjo, já amplamente conhecida, merece ser recomendada mais do que qualquer outra. Não obstante, será proveitoso conhecer também as principais orações em honra dos santos Anjos, para recitá-las em suas festividades.

1. Oração de S. Anselmo de Cantuária. — Ó Espírito angélico, a cujos próvidos cuidados entregou-me Deus, Nosso Senhor, rogo-vos que sempre queirais guardar-me e proteger-me, assistir-me e defender-me de todo assalto do demônio, quer eu esteja acordado, quer dormindo. Oh! sim, assisti-me noite e dia, a todo momento; estai sempre ao meu lado onde quer que eu me ache. Afastai para longe de mim todas as tentações de Satanás e obtende-me do misericordiosíssimo Juiz e Senhor nosso, que vos constituiu meu guarda e a vós me confiou, a graça, que de todo desmerecem os meus atos, de permanecer imune de toda culpa em minha vida. E se, por infelicidade, eu me encaminhar para a estrada do vício, reconduzi-me pela senda da virtude ao meu divino Redentor.

Quando me virdes oprimido pelo peso das angústias, fazei-me experimentar a ajuda de Deus onipotente. Peço-vos também que me reveleis, se for possível, o termo dos meus dias, e que não permitais que a minha alma, quando se desprender do corpo, seja aterrorizada pelos espíritos malignos, ou seja objeto de escárnio para eles, ou deles seja presa desesperada. Não, não me abandoneis jamais, até que me tenhais conduzido ao Céu, para gozar da vista do meu Criador e ser eternamente feliz em companhia de todos os santos. Que eu possa atingir tal felicidade mediante a vossa assistência e os merecimentos de Nosso Senhor Jesus Cristo.

2. Oração de S. Sofrônio, Patriarca de Jerusalém. — É a vossa benignidade que rogo e imploro, ó bons e imaculados Anjos e Arcanjos! A vosso poder recorro, ó intemeratos espíritos! Obtende-me que pura seja a minha vida; inabalável, a minha esperança; ilibados, os meus costumes; perfeito e livre de toda ofensa, o meu amor para com Deus e para com o próximo. Ah! tomai-me pela mão, conduzi-me, guiai-me por aqueles caminhos que são aceitos por Deus e salutares para mim.

3. Protesto de S. Carlos Borromeu ao santo Anjo da Guarda, em preparação para a morte. — Em nome da SS. Trindade, Pai, Filho e Espírito Santo, eu, infeliz e miserável pecador, protesto em vossa presença, ó Anjo Santo de Deus, que quero absolutamente morrer na Igreja Católica, Apostólica e Romana, na qual morreram todos os santos que até agora existiram e fora da qual não há salvação. Assisti-me na hora da morte e fazei-me vencer o demônio, inimigo meu e vosso.

Protesto ainda, ó santo Anjo, que estou sob a vossa guarda e proteção: que quero partir desta vida com grande confiança em vosso socorro e com firme esperança na misericórdia do meu Deus. Desbaratai naquele último momento os inimigos de minha salvação; recebei a minha alma quando ela se separar do meu corpo; e depois da minha morte fazei que me seja propício Jesus Cristo, meu Salvador.

Protesto igualmente, ó santíssimo protetor meu, que com o mais vivo afeto desejo participar dos merecimentos de Jesus Cristo, Nosso Senhor, e que espero obter a remissão dos meus pecados, por virtude de sua Morte e Paixão. Detesto todo o mal que cometi em pensamentos, em obras e em palavras. A todos os meus inimigos perdôo, e quero morrer no amplexo da santa Cruz, para mostrar que ponho toda a minha esperança na Paixão do Salvador.

Protesto outrossim, ó amigo meu fidelíssimo, que me abandono aos vossos cuidados e afetuosa caridade no grande passo de minha morte, e que, embora seja verdade que desejo ir logo para o Céu, estou entretanto pronto para apagar com o sofrimento a enormidade de meus pecados; estou pronto para suportar qualquer gênero de castigo que a divina justiça achar conveniente impor-me, ainda que sejam as mais atrozes penas do Purgatório. Assim, também estou pronto para abandonar os meus parentes, os meus amigos, o meu próprio corpo e tudo aquilo que tenho de mais caro, a fim de mais depressa poder ir gozar da presença do meu Deus e provar-lhe o quanto me pesa tê-lo ofendido.

Declaro finalmente, ó Anjo sapientíssimo e vigilantíssimo de minha alma, que vos constituo procurador da minha última vontade e executor deste meu ato testamentário. Dizei a Jesus, meu Salvador, no momento de minha morte, o que talvez já não poderei dizer: que creio em tudo aquilo que crê e ensina a Santa Igreja; que detesto os meus pecados, porque lhe desagradam; que os deposito todos no seu misericordiosíssimo Coração e que de sua infinita bondade espero o perdão deles; que de boa vontade morro, porque assim Ele o quer, e abandono minha alma e minha salvação em suas mãos; que o amo sobre todas as criaturas e por toda a eternidade o quero amar. Amém.

“Abraão e os três anjos”, de Juan Antonio de Frías y Escalante.

4. Oração de S. Luíz Gonzaga. — Ó santos e puros Anjos, ó vós, verdadeiramente bem-aventurados, que continuamente assistis na divina presença e com tão grande júbilo estais contemplando a face daquele celeste Salomão, por quem fostes cumulados de tanta sabedoria, feitos dignos de tanta glória e ornados de tantas prerrogativas! Vós, brilhantes estrelas, que com tal felicidade resplandeceis nesse bem-aventurado Céu, infundi, eu vos peço, em minha alma as vossas bem-aventuradas inspirações. Conservai sem máculas a minha vida; firme, a minha esperança; sem culpa, os meus costumes; inteiro, o meu amor para com Deus e para com o próximo.

Rogo-vos, Anjos bem-aventurados, que com vossa ajuda vos digneis conduzir-me na estrada real da humildade, pela qual vós caminhastes primeiro, para que, depois desta vida, eu mereça ver juntamente convosco a bem-aventurada face do Pai eterno, e ser contado em vosso número também, no lugar de uma daquelas estrelas que, por sua soberba, caíram do Céu.

5. Orações de S. Afonso Maria de Ligório

I. — Ó santo Anjo de minha guarda, quantas vezes com os meus pecados não vos obriguei a cobrir a face! Rogo-vos que me perdoeis e que por eles obtenhais o perdão junto de Deus, enquanto, de minha parte, proponho jamais desgostar a Deus ou a vós com as minhas faltas. Santo Anjo do Senhor, meu zeloso guardador, se a ti me confiou a piedade divina, sempre me rege, me guarda, me governa, me ilumina. Amém

II. — Quanto vos agradeço, ó Anjo de minha guarda, pelas luzes que me haveis concedido! Quem me dera vos houvesse sempre obedecido! Ai, continuai a iluminar-me, repreendei-me em minhas quedas e não me abandoneis até o último momento de minha vida. Santo Anjo do Senhor...

III. — Agradeço-vos, ó príncipe do Paraíso, Anjo meu, pois por tantos anos me assististes! Tenho-me esquecido de vós, mas não vos esquecestes de mim. Quem sabe o quanto me resta de viagem para entrar na eternidade. Ah, anjo de minha guarda, guiai-me pelo caminho do Céu e não deixeis de me assistir enquanto não me virdes eterno companheiro vosso no Reino bem-aventurado. Santo Anjo do Senhor

6. Oração de S. Pedro Canísio. — À vossa tutela me recomendo, ó santo Anjo, pois à vossa guarda me confiou a divina bondade. Sou cego, guiai-me; sou ignorante, instruí-me; sou fraco, confortai-me; sou pequeno, protegei-me; sou um caminhante extraviado, reconduzi-me à estrada real; sou preguiçoso, despertai-me; sou lento, estimulai-me a progredir no bem. E, sobretudo, fazei que aquela extrema e perigosa luta, que eu terei de sustentar contra os demônios em minha morte, tenha termo feliz, para que, passando a ser companheiro vosso no Céu, possa cantar alegremente o hino da vitória: “Laqueus contritus est, et nos liberati sumus — Rompeu-se-nos o laço e livres dali nos fomos”.

7. Oração de S. João Berchmans. — Anjo santo, amado de Deus, que por divina disposição tomastes-me sob a vossa bem-aventurada guarda desde o primeiro instante de minha vida, jamais cesseis de defender-me, de iluminar-me, de reger-me. Venero-vos como padroeiro, amo-vos como guarda, submeto-me à vossa direção e todo me dou a vós, para ser por vós governado. Peço-vos, portanto, e vos suplico pelo amor de Jesus Cristo, que, por mais que eu tenha sido ingrato para convosco e surdo a vossos avisos, não me queirais por isso abandonar; mas que vos digneis reconduzir-me ao reto caminho quando eu estiver transviado; ensinar-me na ignorância; levantar-me quando caído; consolar-me quando aflito; sustentar-me no perigo, até que me introduzais no Céu a gozar convosco a eterna felicidade. Assim seja.

Referências

  • Orações extraídas de: Pe. Augusto Ferretti, Os Santos Anjos da Guarda (trad. e adapt. de R. Vellozo). Taubaté: SCJ, 1945, pp. 187-193. Nas páginas em questão, o autor também indica as fontes de onde extraiu algumas dessas belas orações.

Comentários

Os comentários são de responsabilidade exclusiva de seus autores e não representam a opinião deste site. Se achar algo que viole os termos de uso, denuncie. Leia as perguntas mais frequentes para saber o que é impróprio ou ilegal.

Vida e obra de São Jerônimo
Santos & Mártires

Vida e obra de São Jerônimo

Vida e obra de São Jerônimo

“Não há nada que eu tenha evitado com tanto cuidado desde minha infância quanto o espírito de orgulho e a altivez de caráter que atraem a cólera de Deus”: é o testemunho de São Jerônimo, presbítero e Doutor da Igreja, coletado na Legenda Áurea.

Beato Tiago de VarazzeTradução: Hilário Franco Jr.30 de Setembro de 2020Tempo de leitura: 12 minutos
imprimir

Jerônimo deriva de gerar, “santo”, e nemus, “bosque”, significando “bosque santo”, ou então vem de noma, que quer dizer “lei”. É por isso que sua legenda diz que Jerônimo significa “lei sagrada”. Com efeito, ele foi santo, isto é, firme, puro, coberto de sangue ou destinado às funções sagradas, como se diz dos vasos do templo, destinados a usos santos. Ele foi santo, isto é, firme em boas obras por causa de sua perseverante generosidade; limpo por causa da pureza de seu espírito; coberto de sangue por causa de sua meditação sobre a Paixão do Senhor; destinado a uso sagrado por causa de sua exposição e interpretação da Sagrada Escritura. Seu nome significa “bosque” porque ele habitou algum tempo um bosque; significa “lei” devido à disciplina regular que ensinou a seus monges ou porque explicou e interpretou a Lei sagrada.

Jerônimo significa ainda “visão de beleza” ou “selecionador de palavras”. A beleza é múltipla: a primeira é espiritual, que reside na alma; a segunda é moral, que consiste na honestidade dos costumes; a terceira é intelectual, que é a beleza dos anjos; a quarta é sobrenatural, que pertence a Deus; a quinta é celeste, que têm os santos na pátria. Jerônimo vivenciou e possuiu essa quíntupla beleza. Possuiu a espiritual nas suas diferentes virtudes; a moral na sua vida honesta; a intelectual na sua excelente pureza; a sobrenatural na sua ardente caridade; a celeste na sua caridade excelente e eterna. Foi selecionador de palavras, tanto das ditas por ele quanto pelos outros, em um caso publicando [1] e, em outro, confirmando as verdadeiras, refutando as falsas e esclarecendo as duvidosas.

Conversão de Jerônimo. — Jerônimo, filho de um nobre chamado Eusébio, era originário da cidade de Estridônia, nos confins da Dalmácia e da Panônia [2]. Ainda jovem foi para Roma, onde estudou letras gregas, latinas e hebraicas. Seu mestre de gramática foi Donato e o de retórica, o orador Vitorino. Ele se dedicava noite e dia ao estudo das Sagradas Escrituras. Delas tirou com avidez os conhecimentos que, mais tarde, abundantemente divulgou. Em certa época, ele conta em carta a Eustáquio como passava o dia a ler Cícero e a noite a ler Platão, porque o estilo descuidado dos livros dos profetas não lhe agradava, quando, por volta de meados da Quaresma, foi tomado por uma febre tão súbita e violenta, que seu corpo esfriou e o calor vital mal palpitava no seu peito. 

Já se preparava seu funeral quando, de repente, foi levado ao tribunal do Juiz, que lhe perguntou qual era sua condição, e ele respondeu abertamente ser cristão. Disse-lhe o Juiz: “Tu mentes: tu és ciceroniano, não cristão. Pois onde está o teu tesouro, ali está o teu coração”. Jerônimo calou-se, e imediatamente o Juiz mandou chicoteá-lo com rigor. Ele se pôs então a gritar: “Tende piedade de mim, Senhor, tende piedade de mim!” Os que estavam presentes rogaram ao Juiz que perdoasse àquele jovem. Este fez um juramento: “Senhor, se eu alguma vez tiver livros profanos e os ler, é porque vos terei negado”. Feito o juramento, foi mandado embora e, repentinamente, voltou à vida, descobrindo que estava banhado em lágrimas e que seus ombros estavam horrivelmente lívidos dos golpes recebidos diante daquele tribunal.

Depois disso, ele leu os livros divinos com o mesmo zelo com que antes lera os livros pagãos. Tinha 29 anos quando foi ordenado cardeal-presbítero na Igreja romana. Com a morte do Papa Libério, Jerônimo foi aclamado por todos como digno do sumo sacerdócio; mas, como havia repreendido a conduta lasciva de alguns clérigos e monges, estes, muito indignados, armaram-lhe ciladas. Conta João Beleth que colocaram uma roupa de mulher no lugar da sua, para zombar dele vergonhosamente. De fato, quando Jerônimo se levantou como de costume para as Matinas, encontrou ao lado da cama um traje que pensou ser o seu, mar era de mulher, ali colocado pelos invejosos. E vestido assim foi à igreja. Os rivais haviam feito isso para que se acreditasse que havia uma mulher no quarto dele. Vendo até onde chegava a loucura deles, retirou-se Jerônimo para a casa de Gregório de Nazianzo, bispo da cidade de Constantinopla.

Depois de ter aprendido com ele a literatura sagrada, correu para o deserto e ali sofreu por Cristo tudo o que ele mesmo relata a Eustáquio:

Todo o tempo que fiquei no deserto, naquela vasta solidão abrasada pelo calor do Sol, a qual mesmo para os monges é um lugar horrível para morar, eu acreditava estar no meio das delícias de Roma. Meus membros deformados estavam cobertos por um cilício que os tornava horrendos; minha pele ressecada adquirira a cor da carne dos etíopes. Todos os dias se passavam em lágrimas, em gemidos, e se algumas vezes um sono repugnante me prostrava, era a terra nua que servia de leito aos meus ossos secos. Nem falo de beber e de comer, pois considerava a água fria e a comida cozida dos doentes um pecado de luxúria. Embora tivesse por companheiros apenas escorpiões e feras, muitas vezes, em espírito, encontrava-me no meio de moças, e naquele corpo frio, naquela carne já morta, pululavam os incêndios dos desejos. Isso provocava choros contínuos, e eu submetia minha carne rebelde a jejuns de semanas inteiras. De dia e de noite era sempre a mesma coisa. Eu só parava de golpear o peito quando o Senhor me devolvia a tranquilidade. Mesmo minha cela me dava medo, como se fosse testemunha de meus pensamentos. Irritava-me contra mim, e sozinho embrenhava nos mais ríspidos desertos. Então — Deus é minha testemunha —, depois de lágrimas abundantes, às vezes me parecia estar entre os coros dos anjos.

Ele assim fez penitência durante 4 anos, depois voltou a Belém, onde se ofereceu para permanecer como um animal doméstico junto da manjedoura do Senhor. Relia as obras de sua biblioteca, que reunira com o maior cuidado, assim como outros livros, e jejuava até o fim do dia. Reuniu à sua volta grande número de discípulos e consagrou 55 anos e 6 meses a traduzir as Escrituras [3]. Permaneceu virgem até o fim da vida. Ainda que essa legenda diga que sempre foi virgem, ele escreveu a Pamáquio: “Prefiro a virgindade no Céu, já que não tenho a daqui”. No final estava tão esgotado que, para se levantar da cama a fim de acompanhar como podia os Ofícios do mosteiro, precisava segurar-se com as mãos em uma corda presa a um pilar. 

“São Jerônimo e o leão”, de Hans Memling.

O leão e o asno. — Certa vez, ao cair do dia, quando Jerônimo estava sentado com seus irmãos para escutar a leitura sagrada, de repente entrou no mosteiro um leão que mancava. Vendo-o, todos os irmãos fugiram, mas Jerônimo foi ao seu encontro como se ele fosse um hóspede. O leão mostrou que estava ferido na pata, e Jerônimo chamou os irmãos, ordenando-lhes que lavassem a pata dele e procurassem atentamente o lugar da ferida. Assim fazendo, descobriram que os espinhos haviam machucado a planta da pata. Todo cuidado foi dedicado ao leão, que, uma vez curado, passou a morar com eles quase como um animal doméstico. Então Jerônimo percebeu que não era tanto para curar a pata do leão quanto pela utilidade que disso se poderia tirar que o Senhor o enviara. A conselho dos irmãos, decidiu confiar-lhe a tarefa de conduzir o pasto e proteger o asno que a comunidade empregava para trazer lenha da floresta. Assim foi feito. O leão cuidava do asno como um hábil pastor, servia de companheiro que todos os dias ia aos campos com ele e era seu vigilante defensor enquanto ele pastava. Só o deixava um pouco para procurar seu próprio alimento, e todos os dias, na mesma hora, voltava com ele para casa.

Um dia, porém, o asno estava pastando e o leão adormeceu profundamente, quando passaram por ali mercadores com camelos, que viram o asno sozinho e o raptaram. Ao acordar, não achando seu companheiro, o leão pôs-se a correr daqui para lá, rugindo. Enfim, não o encontrando, voltou muito triste para as portas do mosteiros, e cheio de vergonha não teve coragem de entrar como fazia habitualmente. Os irmãos, vendo-o voltar mais tarde que de costume e sem o asno, acharam que, levado pela fome, ele comera o animal e não quiseram dar-lhe sua razão costumeira, dizendo-lhe: “Vá comer o que sobrou do burrico! Vá saciar sua gula!” Entretanto, como não estavam certos de que ele tivesse cometido essa má ação, foram ao pasto ver se encontravam um indício de que o asno estava morto. Como não encontrassem nada, foram relatar tudo a Jerônimo, que impôs ao leão a função do asno: trazer nas costas a lenha cortada. O leão suportou isso com paciência.

“São Jerônimo como Cardeal”, do Museo Thyssen-Bornemisza, de Madri.

Um dia, depois de ter cumprido sua tarefa, foi ao campo e pôs-se a correr daqui para lá, desejando saber o que fora feito de seu companheiro, quando viu ao longe chegarem negociantes, que conduziam camelos carregados, tendo um asno à frente. É hábito nessa região que, quando se vai a longa distância com camelos, estes, para seguir um caminho mais direto, são precedidos por um asno que os conduz por meio de uma corda presa ao pescoço. O leão reconheceu o asno, lançou-se com terríveis rugidos sobre eles e pôs todos os homens em fuga. Com pavorosos rugidos, batendo a cauda com força no chão, forçou os assustados e carregados camelos a ir na frente dele para o estábulo do mosteiro. Quando os irmãos viram aquilo, informaram Jerônimo, que disse: “Lavai, caríssimos irmãos, as patas de nossos hóspedes, dai-lhes de comer e aguardai sobre este assunto a vontade do Senhor”. O leão começou a correr pelo mosteiro, cheio de alegria, como fazia antigamente, prostrando-se aos pés de cada irmão. Parecia, brincando com a cauda, pedir perdão por uma falta que não cometera.

Jerônimo, que sabia o que ia acontecer, disse: “Irmãos, ide preparar o necessário para os hóspedes que vêm aqui!” Ainda falava, quando um mensageiro anunciou que estavam à porta hóspedes que queriam ver o abade. Ele foi encontrá-los. Os negociantes lançaram-se imediatamente a seus pés pedindo perdão pela falta. O abade mandou com bondade que se erguessem, retomassem seus bens e não roubassem os dos outros. Eles rogaram que o bem-aventurado Jerônimo aceitasse metade de seu azeite e os abençoasse. Depois de muita insistência, obrigaram-no a aceitar a oferenda. Prometeram ainda dar aos irmãos todo ano uma quantidade igual de azeite e impor a mesma obrigação a seus herdeiros.

“São Jerônimo penitente”, de Anthony van Dyck.

Últimos trabalhos. — Antigamente, cada um cantava na igreja o que queria, mas o imperador Teodósio, segundo João Beleth, pediu ao Papa Dâmaso que confiasse a alguém douto a tarefa de organizar o Ofício eclesiástico. Sabendo que Jerônimo conhecia perfeitamente as línguas grega e hebraica e todas as ciências, encarregou-o desta tarefa. Então, Jerônimo dividiu o saltério entre os dias da semana, atribuiu a cada um deles um noturno próprio [4] e instituiu que se cantasse no fim de cada salmo o Glória, segundo relata Sigeberto. Depois, organizou as epístolas e os evangelhos que se devem cantar ao longo de todo o ano, e de Belém enviou tudo isso ao Sumo Pontífice e aos cardeais, que o aprovaram e determinaram sua autenticidade perpétua. Depois disso, Jerônimo mandou construir um túmulo na entrada da gruta onde o Senhor fora sepultado, e foi lá que, aos 98 anos e 6 meses, ele mesmo foi sepultado.

Legado. — Vê-se o profundo respeito que Agostinho teve por ele pelas cartas que lhe dirigiu. Em uma delas, escreve desse modo: “A Jerônimo, senhor caríssimo, com sinceríssimo afeto, o respeitoso abraço de Agostinho” etc. Em outro lugar, escreve assim sobre ele: “O santo padre Jerônimo, muito versado em grego, latim e hebraico, viveu até idade avançada nos lugares santos, dedicando-se ao estudo das letras sagradas. A celebridade de seus textos resplandece do Oriente ao Ocidente como a luz do Sol”. O bem-aventurado Próspero fala assim dele em suas crônicas: “Jerônimo, padre ilustre no mundo inteiro, habitava Belém, onde prestou serviços à Igreja por seu gênio eminente e por seus estudos”. Escrevendo a Albigense, ele fala assim de si mesmo: “Não há nada que eu tenha evitado com tanto cuidado desde minha infância quanto o espírito de orgulho e a altivez de caráter que atraem a cólera de Deus”. Diz ainda: “Tenho medo também das coisas certas”. Mais adiante: “No mosteiro, exercemos a hospitalidade de todo o coração, recebemos de rosto alegre e lavamos os pés de todos os que vêm até nós, exceto aos hereges”. 

Isidoro, no seu livro Etimologias, diz que “Jerônimo era perito em três línguas, por isso sua interpretação é preferível à dos outros: ele apreende melhor o sentido das palavras e suas expressões são claras e transparentes. Além do que, sendo cristão, sua interpretação é verdadeira”. Em um de seus diálogos, Sulpício Severo, discípulo de S. Martinho, fala assim de Jerônimo, seu contemporâneo: 

Independentemente do mérito de sua fé e de suas virtudes, Jerônimo era instruído no latim, no grego e mesmo no hebraico, e em todas as ciências, de forma que ninguém ousaria comparar-se a ele, cujos combates e lutas contra os maus eram incessantes. Os hereges o odiaram porque ele sempre os atacou; os clérigos, porque sempre lhes repreendeu os crimes e a maneira de viver. Mas todas as pessoas de bem o admiravam e amavam. Os que o consideram herege são loucos. Ele está sempre lendo, sempre no meio dos livros, sempre lendo ou escrevendo, não repousa nem de dia nem de noite.

Isso disse Severo.

Conforme suas próprias palavras, teve de suportar muitos perseguidores e detratores. Mas suportou de bom grado essas perseguições, como escreveu a Asela: “Dou graças a Deus de ser digno do ódio do mundo. Falam de mim como de um malfeitor, mas sei que, para chegar ao Céu, é preciso suportar tanto a boa quanto a má reputação”. Mais adiante, continua:

Queira Deus que, em nome de meu Senhor e da justiça, toda a multidão dos infiéis me persiga! Queira Deus que o mundo se erga com dureza para me ofender! Espero apenas uma recompensa: merecer os elogios de Cristo e a realização de suas promessas. É agradável e mesmo desejável ser posto à prova quando se pode esperar o prêmio de Cristo no Céu. As graves maldições são compensadas pelos louvores divinos.

Morreu por volta do ano do Senhor de 398 [5].

Referências

  • Este texto foi publicado a partir da tradução brasileira da Legenda Áurea (trad. de Hilário Franco Jr. São Paulo: Companhia das Letras, 2003, pp. 825ss).

Notas

  1. Um dos grandes Padres da Igreja, célebre por sua tradução bíblica conhecida por Vulgata, autor de uma extensa obra, Jerônimo (c. 347-420) é uma das autoridades mais citadas pela Legenda áurea, em que aparece 48 vezes, em 28 diferentes capítulos.
  2. Isto é, em uma região entre as atuais Croácia e Hungria.
  3. Na verdade, o projeto bíblico que o Papa Dâmaso confia a Jerônimo começa em 383, em Roma, e se conclui entre 404 e 406, em Belém. Um trabalho, portanto, de no máximo 23 anos. Mas, ao contrário do que se costuma pensar, a versão Vulgata (lt. “comum”, “corrente”, “divulgada” etc.) das SS. Escrituras não é uma tradução integral de S. Jerônimo. Com efeito, 1) o texto do Novo Testamento foi somente revisado com base em uma versão latina já em uso (a chamada Vetus latina), cotejada com os melhores códices gregos de que se dispunha (essa revisão, no entanto, parece ter-se limitado aos evangelhos, enquanto a dos demais livros não foi, ao que tudo indica, obra de Jerônimo, mas de algum discípulo seu, identificado por alguns como Rufino, o Sírio); 2) por sua vez, o texto do Antigo Testamento foi em parte traduzido, em parte corrigido ou apenas revisado: a) os protocanônicos foram todos traduzidos diretamente do hebraico, com exceção dos Salmos, que correspondem a uma simples correção do chamado Saltério galicano; b) dos deuterocanônicos, apenas os livros de Tobias e Judite são tradução de Jerônimo, a partir de um texto aramaico, enquanto os restantes “procedem da Vetus latina, salvo alguns fragmentos de Daniel, que S. Jerônimo traduziu a partir do texto de Teodócio, na falta de um texto semítico” (Miguel A. Tábet, Introducción general a la Biblia. 4.ª ed., Madrid: Palabra, 2003, p. 276). Desses mais ou menos 23 anos de pesquisa, nada menos do que 15 foram dedicados ao Antigo Testamento, de 390 até a conclusão dos trabalhos no primeiro lustro do séc. V. (Nota da Equipe CNP.)
  4. Na Liturgia (até as reformas de 1969), noturno era uma parte do Ofício da noite: consistia, basicamente, de alguns salmos, leituras e responsórios (cantos de vozes alternadas). No Ofício monástico, havia dois noturnos nos dias comuns e três nos dias festivos.
  5. Na verdade, por volta de 420 d.C. (Nota da Equipe CNP).

Comentários

Os comentários são de responsabilidade exclusiva de seus autores e não representam a opinião deste site. Se achar algo que viole os termos de uso, denuncie. Leia as perguntas mais frequentes para saber o que é impróprio ou ilegal.

Um defensor inflexível das Escrituras
Doutrina

Um defensor inflexível das Escrituras

Um defensor inflexível das Escrituras

São Jerônimo foi inflexível na adesão ao dogma da Igreja de que as Escrituras são inspiradas por Deus e livres de quaisquer erros humanos. É o que recordava, cem anos atrás, uma encíclica de Bento XV, cuja leitura nunca foi tão necessária como agora.

Peter KwasniewskiTradução: Equipe Christo Nihil Praeponere30 de Setembro de 2020Tempo de leitura: 8 minutos
imprimir

Há pouco mais de cem anos, no dia 15 de setembro de 1920, o Papa Bento XV promulgou a encíclica Spiritus Paraclitus, dedicada a celebrar a vida e a obra de S. Jerônimo por ocasião do 15.º centenário de sua morte. Embora seja pouco lembrada hoje (como a maioria dos aspectos do pontificado de Bento XV), para o nosso próprio benefício ela merece ser abordada com um novo olhar, particularmente por causa de alguns elementos que podem nos surpreender.

Bento XV nos lembra que Jerônimo foi inflexível na adesão ao dogma da Igreja da inspiração e inerrância da Sagrada Escritura. Com isso, longe de negar os autores humanos como causas verdadeiras (embora secundárias), Jerônimo enfatiza que Deus age nesses autores de uma maneira única, que não pode ser equiparada a nenhuma outra atividade das criaturas:

Se nós procuramos compreender como é preciso interpretar esta influência de Deus sobre o escritor dos livros sagrados e a ação que como causa principal exercitou, veremos que a opinião de São Jerônimo está em perfeita harmonia com a doutrina comum da Igreja Católica. Deus, afirma ele, com um dom da sua graça ilumina o espírito do escritor, no que se refere à verdade que este deve transmitir aos homens por ordem divina (ex persona Dei). Deus suscita nele a vontade e o constrange a escrever, conferindo-lhe assistência especial até o livro completar-se. É principalmente sobre esse ponto do concurso divino que o nosso santo funda a excelência e a dignidade incomparável das Escrituras, cuja ciência compara ao tesouro precioso e à esplêndida pérola, onde, assegura, encontra-se a riqueza de Cristo, “preciosidades que ornam a casa de Deus” (n. 5).

Desse modo, S. Jerônimo não se identifica de modo algum com os acadêmicos contemporâneos que alegam haver “erros” dos mais variados tipos na Sagrada Escritura:   

Por outro lado, S. Jerônimo ensina que a inspiração divina dos livros sagrados e sua soberana autoridade comportam, como consequência necessária, a imunidade e a ausência de todo tipo de erro e engano. Tal princípio ele aprendera nas mais célebres escolas do Oriente e do Ocidente, como fora transmitido pelos Padres e aceito pela opinião comum. Na verdade, depois que ele retomou, por ordem do Papa Dâmaso, a revisão do Novo Testamento, alguns espíritos mesquinhos criticaram-no asperamente de tentar, contra a autoridade dos antigos e a opinião de todos, fazer alguns retoques aos evangelhos. S. Jerônimo contentou-se com responder que não era simplório de espírito nem tão ingênuo para pensar que a menor parte das palavras do Senhor tivesse necessidade de ser corrigida, ou de considerar que não fosse divinamente inspirada. […] Nisso estava perfeitamente de acordo com S. Agostinho. Esse — lemos numa de suas cartas a S. Jerônimo — tinha pelos livros sagrados uma veneração tão repleta de respeito, que acreditava firmemente não haver erro que não tivesse escapado da pena sequer de um de tais autores; por isso, caso encontrasse nos escritos sagrados um ponto que parecia contrastar com a verdade, longe de crer numa mentira, atribuía a culpa à alteração do manuscrito, a erro de tradução, ou à total incompreensão de sua parte (n. 7s).

Depois de resumir a claríssima reafirmação dessa verdade por Leão XIII, Bento XV diz o seguinte:

Mas, ai de mim, veneráveis irmãos, não faltaram os que, não só entre os estranhos, mas também entre os filhos da Igreja Católica e — angústia ainda maior ao nosso coração — até entre o clero e os mestres das ciências sagradas, espíritos que com orgulhosa fidelidade no próprio critério de julgar, repudiaram abertamente ou atacaram dissimuladamente o Magistério da Igreja (n. 9).

Ele descreve e repreende as opiniões dos modernistas, que separaram a verdade “primária ou religiosa” da Sagrada Escritura de suas referências “secundárias ou históricas”, alegando que a verdade inerrante só é aplicável à primeira categoria, e não à segunda. O Papa também rejeita a ideia de que basta dizer que a Sagrada Escritura está livre de erro no sentido de que as intenções dos autores eram boas, ou que descreveram o que era comumente aceito na época (mas na verdade era falso). Nada disso, diz Bento XV, é compatível com o fato de que a Sagrada Escritura é absolutamente livre de erro de qualquer tipo, quando entendida corretamente de acordo com os princípios da interpretação bíblica praticados pelos Padres e Doutores da Igreja. Bento XV previu que, se a Bíblia fosse tomada como um mero documento de opiniões e sentimentos religiosos, ela perderia completamente sua autoridade. O século transcorrido após a publicação de Spiritus Paraclitus mostrou o quanto ele estava certo.  

Então, Bento XV pergunta: quais virtudes deveríamos aprender de S. Jerônimo? Ele diz:

Antes de tudo, por se apresentar a nós antes de qualquer outro, ressaltamos o apaixonado amor pela Bíblia, testemunhado em S. Jerônimo em cada ato de sua vida e de suas obras, todas tomadas pelo espírito divino, amor que ele procurou despertar sempre mais nas almas dos fiéis: “Ama a Sagrada Escritura — parece querer dizer a todos quando se dirige à virgem Demétria —, e a sabedoria te amará; ama-a afetuosamente, e ela te protegerá; honra-a, e receberás seus afagos. Que ela seja para ti como os teus colares e os teus brincos”. […] Esse amor de S. Jerônimo pela Sagrada Escritura revela-se de modo particular em suas cartas, de tal modo que elas parecem ser um encadeamento de citações tomadas dos livros sagrados; assim como S. Bernardo achava insignificante cada página que não incluísse o dulcíssimo nome de Jesus, S. Jerônimo não gostava de nenhum escrito que não resplandecesse da luz das Sagradas Escrituras (n. 15).

O Papa exorta os bispos aos quais a carta foi dirigida a treinar bons professores da Sagrada Escritura para os seminários e outras escolas:

Veneráveis irmãos, se já foi necessário que o clero e os fiéis se embebessem do espírito do grande Doutor, muito mais agora, quando numerosos espíritos se insurgem com orgulhosa teimosia contra a autoridade soberana da revelação divina e do Magistério da Igreja. Afinal, vós sabeis — Leão XIII já nos havia admoestado — “que homens se debatem nessa luta e a que artifício ou a que armas eles recorrem”. Qual categórico dever se impõe, portanto, a vós de suscitar para esta sagrada causa defensores o mais numerosos e o mais competentes possível. Eles deverão combater não apenas os que, negando a ordem sobrenatural, não reconhecem a revelação nem a inspiração divina, mas também deverão medir-se com os que, sedentos de novidades profanas, ousam interpretar as Escrituras Sagradas como livro puramente humano (n. 19).

Vários parágrafos dessa encíclica são dedicados às inúmeras relações que S. Jerônimo teve com estudantes instruídos por ele na Sagrada Escritura e nas línguas bíblicas. Por exemplo: Jerônimo descreve como ensinou hebraico a Paula, língua que ela aprendeu muito bem, a ponto de ela conseguir cantar os salmos em hebraico sem sotaque latino; o mesmo vale para sua filha Eustóquia. Se essas matronas e virgens conseguiam aprender a Bíblia, muitas vezes memorizando partes inteiras dela, que desculpa têm os sacerdotes e os mestres da Lei? “Mas esses ignorantes não estão sozinhos, notava Jerônimo, a cometer o erro de não conhecer as Escrituras; esse é também o caso de alguns clérigos instruídos. Ele emprega os termos mais severos para recomendar aos presbíteros a prática assídua dos livros sagrados” (n. 25):

E como o sacerdote poderá indicar a outros o caminho da salvação se ele próprio descuida instruir-se através da meditação da Escritura? E com qual direito confiará no seu sagrado ministério “de ser o guia dos cegos, a luz dos que andam nas trevas, o educador dos ignorantes, o mestre dos que não sabem, possuindo na lei a expressão da ciência e da verdade” (Rm 2, 19s), recusar-se-á a escrutar essa ciência da lei e fechará a sua alma à luz que vem do alto? Infelizmente, quantos são os ministros consagrados que, por terem transcurado a leitura da Bíblia, morrem eles próprios de fome e deixam morrer grande número de almas, segundo quanto está escrito: “As crianças pedem pão: ninguém que lho parta! (Lm 4, 4); “Toda a terra está devastada e não há ninguém que ponha isso em seu coração!” (Jr 12, 11) (n. 25).

Bento XV, então, cita muitas passagens de S. Jerônimo nas quais esse respeitável Padre se queixa de discursos excessivamente longos, elaborados e floreados no clero, destituídos de convicção e poder por se afastarem muito da Palavra de Deus, ou tratarem dela superficialmente. É interessante refletir sobre os diferentes problemas que afetam as pregações em nossa própria época: elas (usualmente) não são tão longas, nem têm um estilo sofisticado, mas frequentemente carecem de quaisquer conteúdos doutrinais e morais relevantes. Podemos nos perguntar de que modo reagiria um talentoso polemista como S. Jerônimo!

Na conclusão da encíclica, o Papa despende sua própria eloquência para cantar os louvores desse grande erudito e santo:

Ele proclama a excelência, a integridade e a veracidade histórica das Escrituras, e os doces frutos que a sua meditação e leitura oferecem. Proclama a todos os filhos da Igreja a necessidade de retornarem a uma vida digna do nome cristão e de protegerem-se do contágio dos costumes pagãos, que no presente parecem ter sido restabelecidos. […] Se Deus não interrompe hoje esse flagelo, não estão ameaçadas de destruição todas as instituições humanas? O que pode continuar a existir separado de Cristo, fonte de vida? Mas aquele que no passado, ao apelo dos seus discípulos, acalmou o mar bravio, pode ainda conceder à sociedade humana desorientada o preciosíssimo benefício da paz (n. 36).

O documento inteiro vale uma nova leitura. Que Nossa Senhora das Dores, que permaneceu fiel junto à Cruz de seu divino Filho, se digne obter-nos toda a graça da fidelidade inflexível a Ele, e que S. Jerônimo possa ser nosso exemplo e intercessor ao penetrarmos a profundidade da Palavra de Deus.

Notas

  • Os trechos da encíclica Spiritus Paraclitus foram citados aqui de acordo com a tradução portuguesa presente em: Documentos de Pio X e de Bento XV (trad. de Darci L. Marin), São Paulo: Paulus, 2002, pp. 375-425.

Comentários

Os comentários são de responsabilidade exclusiva de seus autores e não representam a opinião deste site. Se achar algo que viole os termos de uso, denuncie. Leia as perguntas mais frequentes para saber o que é impróprio ou ilegal.

O sacrilégio mais grave é o seu!
Espiritualidade

O sacrilégio mais grave é o seu!

O sacrilégio mais grave é o seu!

O pecado de sacrilégio é grave e, das coisas sagradas, o que é cometido “contra a Eucaristia é o mais grave de todos”. Mas tudo se torna ainda mais sério quando os profanadores são justamente os que mais deveriam amar a Nosso Senhor.

Equipe Christo Nihil Praeponere24 de Setembro de 2020Tempo de leitura: 8 minutos
imprimir

Foi profanada, no último dia 22 de setembro, na comuna de Caltanissetta, ilha italiana da Sicília, a igreja de Santa Águeda, virgem e mártir dos primeiros séculos da era cristã. Os autores do crime, dois rapazes, já foram presos e, segundo informação do site Messa in latino, o ato se deu da seguinte forma: depois de roubarem coisas de valor na biblioteca,

eles entraram na igreja, onde começaram a furtar objetos sagrados e cometer atos de vandalismo. Em particular, violaram a urna de vidro onde repousa uma imagem de Nossa Senhora dormindo (Madonna dormiente), da qual arrancaram um braço e roubaram o broche de ouro que lhe fecha o manto. Danificaram o altar, retirando o cibório com hóstias consagradas e o vaso com os santos óleos, arrancaram e ajuntaram todos os candelabros da igreja, escondendo-os atrás de uma porta, provavelmente para voltar e levá-las em um segundo momento. 

As pessoas que não crêem em Deus, em Cristo e na sua Igreja, lêem relatos assim e concluem, dando de ombros: “Mais um caso de furto”. Os mais revoltados talvez digam: “Restitua-se o que foi furtado, punam-se os culpados, e ‘vida que segue’”. 

Fotografia da profanação em Caltanissetta.

Mas a nos diz que há algo mais. Alguns sites católicos italianos notaram com acerto que vândalos de igrejas não são ladrões convencionais. Não se pode ignorar, é claro, que em certos aspectos uma igreja é muito mais fácil de roubar que outros edifícios, onde as coisas de valor são guardadas a sete chaves ou ficam completamente escondidas de olhos curiosos. Na igreja, ao contrário, tudo o que há, embora destinado ao culto de Deus, é também de utilidade do homem: é diante das belas imagens sagradas que os fiéis católicos fazem suas orações, e quanto mais belas e valiosas são, mais elas movem a piedade e convidam à meditação. É preciso investir em segurança, é claro, mas certas medidas, cabíveis em qualquer estabelecimento bancário ou comercial, são completamente inviáveis numa igreja. Além disso, os objetos consagrados ao culto divino têm, geralmente, um valor pecuniário muito alto — e isso certamente atrai os bandidos. 

Ainda assim, é preciso perguntar: por que, entre tantos alvos, escolher justamente uma igreja para saquear? Para levar a cabo um empreendimento desse gênero, é preciso ter perdido, no mínimo, o senso de respeito ao sagrado. Dizemos “no mínimo” porque é sabido que muitos roubos desse tipo acontecem com intenções sacrílegas ainda mais perversas, como usar as espécies eucarísticas para cultos satânicos, por exemplo (sim, há pessoas que realmente cultuam Satanás). E o ponto é que as pessoas que procedem com essa intenção não são movidas simplesmente pela cobiça, mas por um impulso realmente demoníaco. 

Sim, o que aconteceu nessa igreja foi um furto, mas não foi um furto. Até o Estado costuma reconhecer e punir delitos contra o sentimento religioso em geral. Tanto no Brasil quanto na Itália há artigos do Código Penal prevendo isso.

Mas esta não é uma reflexão jurídica. Trata-se, antes, de um texto para que tomemos consciência do peso que têm os sacrilégios — e de que eles são piores quanto mais elevados os objetos profanados, e também (ai de nós!) quanto mais importantes os sujeitos que os cometem.

Comecemos pelos objetos. Com a palavra, S. Tomás, explicando como “as espécies de sacrilégio se distinguem conforme as coisas sagradas”: 

Quanto às coisas sagradas, há diversos graus correspondentes às diferenças dessas coisas. No grau supremo estão os sacramentos, que santificam os homens, dos quais o principal é a Eucaristia, já que nela está o próprio Cristo. Por esse motivo, o sacrilégio contra a Eucaristia é o mais grave de todos. Depois dos sacramentos, vêm os vasos sagrados, que se usam na administração dos sacramentos, as imagens dos santos e as suas relíquias nas quais se honram ou desonram os próprios santos. Em seguida, o que pertence aos ornatos das igrejas e seus ministros. Finalmente, os bens móveis ou imóveis destinados ao sustento dos ministros. Quem quer que viole o que está aqui enumerado, peca e incorre no crime de sacrilégio (STh II-II 99, 3 c.).

O que aconteceu na Sicília, portanto, à luz da fé, é de suma gravidade. A punição dos culpados segundo as leis civis é importante, sem dúvida, mas não é o suficiente para consertar a ofensa que ali se fez a Deus. É por isso que, sempre que acontece um sacrilégio contra o Santíssimo Sacramento, a primeira coisa que os padres fazem é convocar os fiéis para fazer atos de desagravo. Essa mobilização nasce da consciência de que Deus merece o nosso respeito e amor; mas quando, ao invés, os homens o ultrajam, é dever dos que o amam consolá-lo… Como os anjos consolaram Nosso Senhor no Horto, como a Verônica enxugou a face de Cristo na Via Crucis

É pelos contínuos pecados dos homens que Jesus teria dito ao Padre Pio: “Estarei em agonia até o fim do mundo”. Não porque Cristo, no Céu, ainda sofra; o que acontece é que os pecados que cometemos hic et nunc, aqui e agora, estavam na mente de Nosso Senhor quando Ele viveu a sua dolorosa Paixão. As Hóstias consagradas que foram profanadas em Caltanissetta parecem não dizer respeito a nós, porque nunca ouvimos falar desta cidade, porque ela está muito distante, porque temos mais com que nos preocupar… Mas não, elas foram vistas por Jesus quando Ele ofereceu o seu sacrifício no Calvário.

E se esse sacrilégio foi visto, também o foram todos os outros que acontecem em nossas igrejas, tão perto de nós, e às vezes até por nossa culpa, por nossa negligência, por nossa indiferença. Nosso Senhor viu as nossas comunhões mal feitas e distraídas, viu as comunhões que tomamos em pecado mortal, viu as partículas eucarísticas que caíram de nossas mãos quando as esfregamos em nossa roupa. O mesmo santíssimo Corpo que Ele deitou no madeiro para ser crucificado, o mesmo preciosíssimo Sangue que Ele derramou por nossa salvação, Ele viu cair e derramar-se no chão de nossas igrejas, pelo descuido, pela falta de zelo e pela impiedade de seus ministros. E tudo isso, atenção, certamente pesou muito mais em seu Coração do que o sacrilégio desses dois jovens de Caltanissetta.

Não, não se trata de minimizar a gravidade do que esses rapazes fizeram. Mas é que existe uma outra dimensão do sacrilégio que precisamos considerar: ele é tanto pior quanto maior a dignidade do sujeito que a comete. Por isso, é muitíssimo mais grave a profanação cometida por um cristão batizado que a feita por um pagão; muitíssimo mais pesado o sacrilégio perpetrado por um sacerdote que o realizado por um leigo; muitíssimo mais séria a infidelidade de um pai de família que a de uma criança etc. O porquê disso é S. Tomás, novamente, quem o explica: 

Primeiro, porque há nos grandes mais facilidades para resistir ao mal, por exemplo, naqueles que se distinguem pela ciência e pela virtude. Por isso, fala o Senhor: “O servo que conhece a vontade de seu senhor e nada faz, será castigado mais rudemente” (Lc 12, 47). Segundo, porque há ingratidão. Com efeito, tudo o que traz grandeza ao homem é um benefício de Deus, ao qual o homem, pecando, torna-se ingrato. A este respeito, qualquer grandeza, mesmo a que está nos bens temporais, agrava o pecado: “Os poderosos serão poderosamente castigados” (Sb 6, 7). Terceiro, porque há particular repugnância entre o ato do pecado e a grandeza da pessoa: por exemplo, quando um príncipe se põe a violar a justiça, ele que é seu guardião, ou quando um sacerdote entrega-se à fornicação, ele que fez voto de castidade. Quarto, porque há o exemplo, ou o escândalo, como diz Gregório, quando um pecador está constituído em honra por causa do lugar respeitável que ocupa, seu pecado é um exemplo mais extenso. Com efeito, o pecado dos grandes chega ao conhecimento de maior número de pessoas que com ele ficam mais indignadas (STh I-II 73, 10 c.).

Isso quer dizer que, pelas graças maiores que foram dadas a nós, católicos, pelas numerosas bênçãos de que Deus nos cumulou, pela dignidade a que fomos elevados pelo Batismo, pela responsabilidade que temos, enfim, com as almas dos outros, nossos “esquecimentos, friezas e desprezos” — como diz o Ato de Reparação ao Sagrado Coração de Jesus — são muito mais ofensivos a Nosso Senhor.

Por isso, antes mesmo de começarmos a rezar em reparação pelo sacrilégio de Caltanissetta, ponhamos a mão na consciência, por assim dizer, e façamos cessar os meus sacrilégios, os sacrilégios da minha família, os sacrilégios da minha paróquia, os sacrilégios da minha diocese, os sacrilégios do meu país — tudo na medida das possibilidades de cada um, é claro. Os pecados dos outros devem servir para nós de lição primeiro, para que não os repitamos

Mas esses pecados — especialmente os sacrilégios, especialmente as profanações do Santíssimo Sacramento — também precisam ser reparados! 

Alguém pode perguntar: se Cristo já pagou por esse sacrilégio terrível que foi cometido, por que precisamos nós tomar os nossos Terços, dobrar os nossos joelhos, gastar a nossa saliva rezando, sacrificando-nos e procurando aplacar a Deus? Ao que responderemos assim: Deus, sendo todo-poderoso, evidentemente não precisa de nós para salvar o mundo, e no entanto Ele quis precisar de nossas mãos, de nossas bocas e de nossos joelhos para fazê-lo. Isso significa que, assim como S. Paulo, todos nós podemos completar em nossa carne aquilo que “falta” à Paixão do Senhor (cf. Cl 1, 24). 

O que poderia ter faltado à Paixão de nosso Redentor? 

Nada, poderíamos dizer, por um lado. Mas tudo, devemos dizer, por outro. Porque, se a minha união à Paixão de Cristo não acontecer; se eu não beber o cálice do Sangue que Ele derramou pela minha salvação, todos os sofrimentos que Ele suportou, todas as injúrias que Ele sofreu, todos os ultrajes que recebeu, tudo isso terá sido, para mim, em vão.

Comentários

Os comentários são de responsabilidade exclusiva de seus autores e não representam a opinião deste site. Se achar algo que viole os termos de uso, denuncie. Leia as perguntas mais frequentes para saber o que é impróprio ou ilegal.