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A milagrosa escadaria de São José
Santos & Mártires

A milagrosa escadaria de São José

A milagrosa escadaria de São José

Em 1878, um carpinteiro anônimo construiu uma engenhosa escadaria num convento dos EUA. Sua identidade nunca foi descoberta por ninguém, nem pelas Irmãs de Loreto. Mas as religiosas, que têm fé, atribuem a obra de arte a ninguém menos que São José.

Pe. Donald CallowayTradução: Equipe Christo Nihil Praeponere8 de Janeiro de 2021Tempo de leitura: 3 minutos
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São José pegou as mãozinhas do Menino Jesus e, elevando-as para o Céu, disse: ‘Estrelas do Céu, contemplai as mãos que vos criaram; ó Sol, contemplai o braço que vos tirou do nada. — Bem-aventurado Guilherme José Chaminade

S. José é o Guardião das Virgens. E, como um bom pai, ele cuida das necessidades de cada uma delas. Um exemplo evidente dessa sua proteção paternal é o que ele fez por um grupo de irmãs religiosas no Novo México, Estados Unidos, em 1878.

Em 1873, as Irmãs de Loreto administravam uma escola secundária para meninas, em Santa Fé, no estado norte-americano do Novo México. A escola era muito bem-sucedida, de modo que as irmãs quiseram construir uma nova capela. Assim, elas contrataram um arquiteto conceituado para realizar a tarefa. A construção do prédio levou cinco anos para ser concluída. No entanto, quando a capela estava finalizada, as irmãs perceberam que não havia outro jeito de subir até a galeria do coral, que estava a seis metros de altura, senão pelo uso de uma longa escadaria. E subir por uma escada como aquela seria bastante difícil para as irmãs, cujo hábito descia até o chão. Elas também perceberam que não havia sobrado espaço suficiente para construir uma escada na área principal da capela por conta dos seus numerosos bancos; e as irmãs não poderiam contratar novamente o homem que construiu a capela, porque ele havia morrido um pouco depois de finalizá-la. O que elas fariam?

Ora, as irmãs rezaram a S. José, pedindo-lhe ajuda. Elas começaram uma novena a S. José, pedindo-lhe que enviasse um carpinteiro para ajudá-las. Extraordinariamente, no último dia da novena, um homem misterioso chegou ao convento e declarou estar interessado em construir uma escada até a galeria do coral para as irmãs. O cavalheiro tinha apenas um pedido: ele gostaria de trabalhar sozinho e a portas fechadas. As irmãs rapidamente aceitaram a proposta e o contrataram.

O homem levou três meses para construir a escada. Mas quando o projeto estava concluído, não puderam encontrar o homem. Ele simplesmente havia desaparecido da cidade. Ninguém o tinha visto partir nem sabia quem ele era. As irmãs o procuraram em todos os lugares, mas não conseguiram encontrá-lo. Elas até puseram um informativo no jornal local para tentar encontrá-lo. Mas não funcionou.

Sem sucesso, as irmãs foram até a madeireira para se informar sobre quem havia comprado a madeira para a escada, como também para pagar pelo material. Quando questionados, nenhum dos funcionários da madeireira sabia do que as irmãs estavam falando. As irmãs, então, ficaram sabendo que a madeireira nunca havia vendido material a um homem que estava construindo uma escada para uma capela.

Perplexas, as irmãs se lembraram do quanto era estranho o fato de o homem ter apenas uma régua em T, uma serra, um martelo e outras ferramentas básicas. Ainda pensando sobre isso, nenhuma das irmãs viu como a madeira havia chegado até a capela. Intrigadas, as irmãs e outros da cidade inspecionaram a escada e perceberam que o homem misterioso havia construído algo bastante único. Era uma escada em espiral que não interferia de maneira alguma nos bancos do andar principal. Ela tinha trinta degraus, nenhum suporte central ou coluna de sustentação, e parecia estar flutuando no ar. Ela também não tinha nenhum prego! A escada era uma maravilha arquitetônica. Era uma obra de arte da carpintaria!

Mas de onde veio a madeira? Bem, em 1996, foi feito um estudo por Forrest N. Easlay, um silvicultor e tecnólogo de madeira do Serviço Florestal dos Estados Unidos e do Laboratório de Pesquisa Naval dos Estados Unidos. Seu vasto estudo descobriu que a madeira da escada era abeto, mas diferente de qualquer outro abeto no mundo. Estudos adicionais foram realizados, e concluiu-se que o abeto que mais se assemelhava ao tipo utilizado na escada espiral só se encontra em Israel.

Quem era o homem misterioso que construiu a escada? As Irmãs de Loreto acreditam que era S. José. Após rezar e pedir ao seu pai espiritual que mandasse alguém para construir a escada para elas, S. José veio pessoalmente e a construiu para as virgens consagradas. A escada permanece intacta até hoje.

Notas

  • Texto extraído de: Pe. Donald H. Calloway, Consecration to St. Joseph: The Wonders of Our Spiritual Father. Stockbridge: Marian Press, 2020, p. 189s.

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Religião, simbolismo e verdade
Doutrina

Religião, simbolismo e verdade

Religião, simbolismo e verdade

Não existem símbolos religiosos simplesmente suspensos sobre o nada. Toda religião tem um credo, uma doutrina definida que seus símbolos representam e preservam. A questão, portanto, é precisamente outra: qual religião é verdadeira?

Peter KwasniewskiTradução: Equipe Christo Nihil Praeponere8 de Janeiro de 2021Tempo de leitura: 6 minutos
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Foi moda durante um tempo, particularmente nos ambientes acadêmicos, defender que doutrinas e rituais religiosos podem, em última instância, reduzir-se a um conjunto de símbolos e ações simbólicas fundamentais de alcance universal e intercambiáveis entre todas as religiões — uma linguagem divina implícita.

De acordo com esse sofisticado reducionismo, todas as religiões e seus escritos sagrados representam, no fundo, o esforço (mais ou menos bem-sucedido) da imaginação humana por entender mistérios cósmicos incompreensíveis. De acordo com essa forma de pensamento, a religião é um produto da mente humana e expressa seus próprios pensamentos e desejos. Portanto, não podemos considerar uma religião verdadeira ou falsa, ou dizer que esta religião é verdadeira ou mais verdadeira do que aquela: todas seriam apenas diferentes sistemas simbólicos.  

Antes de responder a essa alegação, parece necessário insistir num ponto que já foi óbvio: a fé católica não é hostil a símbolos e ações simbólicas; ao contrário, sempre fez uso amplo e constante deles. Até as questionáveis reformas litúrgicas do século XX, que tenderam a ser acompanhadas por uma estética modernista e minimalista que enalteceu o conteúdo verbal e cerebral em detrimento de expressões mais intuitivas, subconscientes e viscerais do sagrado, o culto católico sempre foi um verdadeiro desfile de símbolos, que se alastravam pela vida cotidiana. Felizmente, boa parte dessa dimensão perdida está sendo redescoberta por jovens sedentos do sentido que só podemos acessar por meio dessa rica panóplia de sinais repletos de espiritualidade. 

Exemplos de símbolos católicos estão facilmente disponíveis em qualquer lugar: a água e o óleo do Batismo, o pão e o vinho da Eucaristia, as velas e as flores sobre o altar, o óleo usado para as unções, os anéis trocados na realização das promessas matrimoniais, as sempre verdes guirlanda de Advento e árvore de Natal, ovos de páscoa coloridos. Sempre e onde quer que floresça, a cultura cristã fica repleta de símbolos físicos de realidades celestes, sinais externos da graça e da verdade invisíveis. No coração mesmo de nosso culto estão os sete sacramentos, que são sinais perceptíveis instituídos por Deus e que têm o incrível poder de conferir a quem os recebe a graça que significam.

Consequentemente, a Igreja Católica não apenas não é inimiga do simbolismo, como ela mesma é um jardim exuberante no qual símbolos se desenvolvem com mais riqueza e variedade do que na maior parte da deslumbrante poesia da imaginação humana ou nos mais desenvolvidos ritos das religiões pagãs. Se algum dia já houve uma religião que tenha falado tanto à imaginação como ao intelecto — ou, antes, que fale ao intelecto por meio da imaginação —, com certeza esta é a fé católica. Aqueles que têm sede do sagrado, que desejam ver e escutar os sublimes mistérios do cosmos e do mundo sobrenatural, não poderiam fazer melhor escolha senão assistir a uma Missa solene em latim (a chamada forma extraordinária ou usus antiquior). Lá eles verão a Criação reunida e oferecida em sacrifício de louvor ao Pai, ao Filho e ao Espírito Santo, o Deus transcendente cuja Palavra criou os céus e a terra e tudo o que há neles.

Retornemos porém à alegação de que a religião é puro simbolismo. Quando alguém explica o “sentido interior” dos “símbolos externos”, ele demonstra (segundo essa perspectiva) o que o catolicismo tem em comum com outras religiões e assim refuta a alegação de que ela é o único caminho de salvação. 

Um importante defensor dessa linha argumentativa, ou ao menos alguém cujas ideias são muitas vezes apresentadas para reforçá-la, é o pioneiro da psicanálise, C. G. Jung, que desenvolveu uma escola de análise dos símbolos religiosos e dos conteúdos dos sonhos como arquétipos pré-existentes com os quais a mente humana está naturalmente equipada e por meio dos quais ela compreende a realidade — uma espécie de linguagem religiosa natural que pode ser acessada, direcionada e moldada em prol da saúde psíquica do organismo. 

algo de verdadeiro na abordagem de Jung. A linguagem religiosa é natural ao homem, no sentido de que a pessoa humana busca a Deus naturalmente; está plantado no coração de cada pessoa um desejo natural pelo conhecimento da deidade e uma atitude natural de reverência àquilo que é percebido como santo ou sagrado. Ao menos em seu estado de pureza, a consciência expressa a lei moral implantada no coração por Deus. Além disso, a saúde psicológica realmente depende da tomada de consciência a respeito dessa orientação fundamental para o divino, não apenas aceitando-a, mas cultivando-a e seguindo-a para onde ela levar; jamais aceitando meias-verdades e sempre buscando a plenitude da verdade. Qualquer coisa aquém da verdade plena é indigna do homem e será uma fonte de vazio, confusão e frustração.  

Não obstante, é necessário afirmar de modo incansável que as religiões não podem ser todas igualmente verdadeiras, nem mesmo as mais antigas e mais difundidas, pois apresentam descrições das realidades definitivas incompatíveis umas com as outras — por exemplo, a natureza de Deus, a fonte e a finalidade da vida humana, o pecado e a salvação do homem, o valor (e até a realidade) do corpo, o sentido do sofrimento e da morte e outras coisas semelhantes. Nosso coração não está em paz enquanto não descobrimos um conjunto de respostas coerentes e satisfatórias para as questões mais fundamentais e não confirmamos que outras respostas possíveis são falsas ou deficientes. Não existe uma coisa genérica chamada “religião”; existe esta ou aquela determinada religião. Nós temos de escolher uma delas.

A fé católica apresenta fatos da revelação, da vida de Jesus Cristo e de seus santos — fatos que devem ser aceitos ou rejeitados. Não é uma religião baseada em símbolos genéricos ou universais, mas em intervenções de Deus na história, específicas e decisivas, intervenções que dão às coisas não somente um significado simbólico exterior, mas um poder transformador interior. 

Semelhanças no nível simbólico (às vezes notáveis) indicam que é impossível que todas as religiões sejam completamente falsas; todas elas “selecionaram” um ou outro aspecto da realidade e expressam seus insights. A questão, então, é precisamente esta: qual religião é verdadeira, isto é, qual delas oferece a verdadeira explicação da realidade como um todo — do homem, de Deus e da relação entre eles?

Não surpreende que os símbolos dessa religião também sejam os mais verdadeiros, os mais precisos, os mais profundos e os mais abrangentes; mas isso acontece porque eles expressam algo ainda mais elementar e mais fundamental do que os símbolos, a saber: as realidades das quais os símbolos são símbolos. Em última análise, não é possível que haja símbolos suspensos sobre o nada. Deve haver uma doutrina, um ensinamento definido que os símbolos representam e preservam; deve haver, em suma, um credo.

Na modernidade, devemos lembrar às pessoas que não há, nunca houve e nunca haverá alguém que viva sem um credo. Todas as pessoas têm um credo, um sistema de crenças aceitas a partir da confiança, uma “filosofia de vida” que poderia, ao menos em teoria, ser articulada de modo proposicional. A religião é inerentemente doutrinal e moral; caso contrário, não poderá existir de modo algum. A única pergunta válida é: um homem tem um credo defensável ou um credo ridículo; uma trajetória de vida boa ou má? Os símbolos que ele toma por regra de vida são densos e profundos, ou dispersos e superficiais? 

É bom contornar a falácia racionalista segundo a qual existem pessoas sem religião, ou religiões sem doutrina. Afinal, todo homem é religioso (à sua maneira), assim como toda religião é doutrinal (à sua maneira). Só existem dois tipos de pessoa: a verdadeiramente religiosa e a supersticiosa ou idólatra. A posse e a valorização dos símbolos não desempenham o papel fundamental de distinguir uns dos outros.

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São José: jovem ou idoso?
Santos & Mártires

São José:
jovem ou idoso?

São José: jovem ou idoso?

A Igreja Católica não tem nenhum ensinamento oficial sobre a idade de São José. Mas alguns nomes de peso de nossa época têm bons motivos para acreditar que, quando se casou com a Virgem Maria, São José era jovem e estava no auge de seu vigor físico.

Pe. Donald CallowayTradução: Equipe Christo Nihil Praeponere8 de Janeiro de 2021Tempo de leitura: 14 minutos
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Não estou de acordo com a forma clássica de representar S. José como um ancião, ainda que com isso se tenha tido a boa intenção de ressaltar a perpétua virgindade de Maria. Eu o imagino jovem, forte, talvez com alguns anos mais do que a Virgem, mas na plenitude da vida e do vigor humano. — S. Josemaría Escrivá [1].

Você já tinha lido de algum santo uma afirmação como essa sobre a idade de S. José? Pois bem, S. Josemaría tem bons motivos para afirmar que S. José era, na verdade, jovem quando se casou com Nossa Senhora — e ele não é o único que pensa assim.

A Igreja Católica não tem nenhum ensinamento formal ou oficial sobre a idade de S. José. Por isso, você é livre para crer que ele era um ancião quando se casou com Maria, se assim desejar. Mas você também é livre para crer que ele era jovem. Pessoalmente, eu acho muito difícil de acreditar que S. José era idoso. As demandas físicas de sua missão reduzem essa possibilidade a praticamente zero.

Se você considerar os títulos que a Igreja atribui a S. José em sua ladainha (Guardião do Redentor; Casto guardião da Virgem; Guardião das virgens; Modelo dos trabalhadores; Terror dos demônios etc.), eles indicam antes um jovem e forte S. José. Esses títulos não são descrições de um homem velho. Um homem velho é capaz de proteger virgens? Pode um idoso servir como modelo de trabalhador? É preciso força para ser um guardião, e saúde para ser um trabalhador. Pode um idoso fazer essas coisas? Como disse uma vez a Madre Angélica: “Homens idosos não caminham até o Egito”. Tampouco guardam qualquer coisa cuja custódia exija mobilidade e força. Sem dúvida, nada disso implica uma deficiência moral para os mais velhos. O mundo está cheio de incontáveis anciãos virtuosos, sábios e santos. Todavia, os idosos não são reconhecidos pela capacidade física de fazer as coisas que S. José, por exemplo, foi chamado a fazer pela Sagrada Família.

Sendo assim, por que a maior parte das obras de arte, ao longo dos séculos, retratou S. José como um ancião? O Venerável Fulton Sheen foi quem deu a melhor resposta a essa questão. Ele escreve:

S. José era jovem ou idoso? A maioria das imagens e retratos que nós vemos de S. José, hoje em dia, o representa como um idoso com barba grisalha, alguém que assumiu a guarda de Maria e de seu voto, com mais ou menos o mesmo desprendimento com que um médico pegaria uma menina em um berçário. Seja como for, nós não temos absolutamente nenhuma evidência histórica da idade de S. José. Alguns relatos apócrifos o descrevem como um homem velho; e os Padres da Igreja, após o quarto século, seguiram essa lenda de forma bastante rígida [...].

Mas, quando procuramos os motivos pelos quais a arte cristã deveria ter representado José como um idoso, nós descobrimos que era para melhor proteger a virgindade de Maria. De algum modo, a suposição de que a senilidade era uma melhor protetora da virgindade do que a adolescência prevaleceu. Então, inconscientemente, a arte fez de José um esposo casto e puro não pela virtude, mas pela idade. Entretanto, isso é quase como assumir que a melhor maneira de mostrar um homem que nunca roubaria é retratá-lo sem mãos [...].

Mas, mais do que isso, descrever José como um idoso sugere, para nós, um homem com pouca energia vital, ao contrário de um que, tendo muita energia, a manteve sob domínio por amor a Deus e por santos propósitos. Fazer S. José parecer puro apenas porque seu corpo envelheceu é como glorificar um riacho que secou. Mas a Igreja não vai ordenar ao sacerdócio um homem sem força vital. Ela quer homens que tenham alguma coisa para mortificar, e não homens “dóceis” sem energia para ser selvagens. E isso não deveria ser diferente com Deus.

Ademais, é razoável crer que Nosso Senhor preferiria para pai adotivo não alguém que tivesse sido forçado a isso, mas um que tivesse feito um sacrifício. Há ainda o fato histórico de que os judeus desaprovavam casamentos desproporcionais entre o que Shakespeare chamou de “idade da rabugice e juventude”; o Talmude admite matrimônios desproporcionais apenas para viúvos e viúvas. Por fim, não parece possível que Deus tenha unido uma mãe jovem, com cerca de dezesseis ou dezessete anos de idade, provavelmente, a um homem idoso. Se, aos pés da Cruz, Ele não se importasse em dar à sua Mãe o jovem João, por que, então, no berço, lhe teria dado um idoso?

Ora, o amor de uma mulher sempre define o modo como um homem ama: ela é a educadora silenciosa da sua força viril. Uma vez que Maria deve ser chamada de a “virginizadora” das mulheres e dos jovens, sendo também a maior inspiração da pureza cristã, ela não deveria, logicamente, ter começado por inspirar e virginizar o primeiro jovem com quem provavelmente se encontrou — José, o Justo? Não seria, portanto, diminuindo o poder de ele amar, mas elevando-o, que Maria teria a sua primeira conquista: a do seu próprio esposo, o homem que era um homem, e não um mero vigia senil.

José provavelmente foi um homem jovem, forte, viril, atlético, belo, casto e disciplinado. Em vez de um homem incapaz de amar, ele deve ter sido alguém ardendo em chamas de amor. Assim como daríamos pouquíssimo crédito à Mãe bendita se ela tivesse feito o seu voto de virgindade após cinquenta anos como uma solteirona, também não poderíamos dar muito crédito a José, se ele tivesse se tornado esposo de Maria apenas porque já era de idade avançada. As moças daqueles dias, do mesmo modo que Maria, faziam votos de amar somente a Deus; e assim o faziam também os rapazes, dentre os quais José era o mais proeminente, pelo que foi chamado o “justo”. Então, por exemplo, em vez de frutas secas para serem servidas à mesa do rei, ele foi antes uma flor cheia de promessa e vigor. Ele não estava no entardecer da vida, mas na manhã, fervendo de energia, força e paixão ordenada. Maria e José levaram para suas núpcias não apenas o voto de virgindade, mas também os dois corações com as maiores torrentes de amor que jamais percorreram entranhas humanas.

Quão mais belos Maria e José se tornam quando vemos em suas vidas o que pode ser chamado de o primeiro Romance Divino! Nenhum coração humano é tocado pelo amor de um velho por uma jovem; mas quem não é tocado pelo amor de um jovem por outra jovem? Em ambos, Maria e José, havia juventude, beleza e compromisso. Deus ama a vazão das cataratas e o barulho das cachoeiras, mas as ama mais ainda, não quando transbordam e afogam suas flores, mas quando são domadas e represadas para encantarem as cidades e matarem a sede de uma criança. Em Maria e José, por sua vez, nós não encontramos uma cachoeira represada e um lago seco respectivamente; mas, em vez disso, dois jovens que, antes de conhecer a beleza um do outro, desejaram submetê-la a Jesus. Portanto, inclinados sobre a manjedoura do Menino Jesus, não estão um idoso e uma jovem, mas dois jovens: a consagração da beleza na donzela e a entrega da fascinante fortaleza no homem [2].

Uau! Fulton Sheen é mesmo brilhante. Até onde sabemos, nenhuma outra pessoa, em toda a história da Igreja, formulou um argumento tão convincente sobre a juventude de S. José quanto Fulton Sheen. Como ele afirmou claramente, a teologia e a arte só descreveram S. José como um ancião para proteger a virgindade de Maria.

Agora, sejamos justos, a decisão de descrever José como um idoso a fim de resguardar a virgindade e a pureza de Maria, seja na pregação, nos escritos ou na arte, realmente funcionou. Como um exemplo extremo disso, um antigo texto copta sobre a vida de S. José o apresenta com 91 anos quando se casou com Maria. Todavia, todos os historiadores e teólogos reconhecem que as fontes que apresentam José como um idoso vêm de documentos apócrifos, isto é, não canônicos. E, além disso, basear-se em escritos apócrifos para sugerir uma idade a S. José leva à ideia de um sujeito velho, diminuindo sua virtude, importância e grandeza no pensamento dos cristãos. Não é de admirar, portanto, que tão poucas pessoas tenham prestado atenção em José ao longo dos séculos.

Quão drástica foi essa abordagem para S. José? Hoje em dia, ele raramente é incluído na formação sacerdotal sobre Cristologia, Mariologia, soteriologia ou eclesiologia. Logo o homem universalmente aclamado como o mais amoroso, justo, casto, prudente, corajoso, obediente e fiel de todos os homens não é mencionado nem mesmo nas aulas de teologia moral. Isso precisa mudar. Demos graças a Deus pela sabedoria e intuição de pessoas como S. Josemaría Escrivá, Madre Angélica e Fulton Sheen. A Igreja precisa re-apresentar aos seus filhos uma imagem de S. José que o descreva como forte, viril e jovem. Porque a apresentação constante dele como um homem velho deformou profundamente o nosso entendimento a respeito do maior de todos os santos (depois de Maria) que já caminhou sobre esta terra. É hora de recuperar S. José.

Agora, não leve isso a mal. O Senhor ama os idosos. Deus ama os anos de trabalho duro, serviço, dedicação pessoal e amoroso sacrifício de um homem. Sociedades calmas, justas e pacíficas repousam sobre os fundamentos estabelecidos por homens veteranos. Entretanto, aqueles homens construíram os fundamentos e os pilares da civilização quando eram jovens, não idosos. Provavelmente, os anos formativos de Jesus Cristo foram amorosamente dirigidos por um forte e jovem pai chamado José. Foi esse pai trabalhador, atencioso e virtuoso que lançou as bases para o crescimento e o desenvolvimento humano de Jesus Cristo. Se, por um lado, não há dúvida de que um idoso é tão capaz de ser santo quanto qualquer jovem, por outro, é necessário um pai forte e jovem para ensinar a um filho como brandir o machado, trabalhar com madeira, carregar lenha, caminhar grandes distâncias e ganhar a vida com o suor da testa.

Se mesmo os príncipes deste mundo consideram uma questão de suma importância escolher cuidadosamente um tutor adequado para seus filhos, pensem como o Deus Eterno, com toda a sua onipotência e sabedoria, não escolheria, dentre as suas criaturas, o homem vivente mais perfeito para ser o guardião de seu divino e glorioso Filho, o príncipe do Céu e da Terra? — S. Francisco de Sales [3].

O Bem-aventurado Guilherme José Chaminade defende uma ideia semelhante, mas ele olha para a masculinidade de S. José da perspectiva do matrimônio com Nossa Senhora. Ele escreve:

Se Deus tivesse encarregado você da honrosa tarefa de escolher, dentre os reis, um marido para a Bem-aventurada Virgem, você não teria dado a ela o que tivesse a maior inteligência do mundo? E se Ele tivesse mandado você escolher um dos santos, você não teria dado a ela o maior santo que já pisou a terra? Agora, você acha que o Espírito Santo, que é o autor deste matrimônio divino, se importa menos do que você em proporcionar a Maria um marido apropriado aos méritos dela? [4]

Isto faz muito sentido, certo? Claro que faz. S. José foi o marido amoroso de Maria, não um marido “aposentado”, incapaz de trabalhos manuais e de longas jornadas a pé. S. José era conhecido em Nazaré como o pai de Jesus, não como o avô de Jesus.

Sendo pai de Jesus, S. José foi um zeloso defensor e um forte protetor de seu Filho amado. S. José sacrificou tudo — inclusive o prazer do amor conjugal — para cumprir totalmente a sua missão de “Guardião da Virgem” e “Guardião do Redentor”. Aliás, quando papas e santos usam a palavra “guardião” em referência a S. José, eles o fazem de um modo mais do que simplesmente jurídico. Eles falam em um sentido de “proteção”, “paternidade” e “virilidade”. Um guardião é alguém forte não apenas na mente e no coração, mas também no físico. S. John Henry Newman fala da tutela de S. José da seguinte maneira: “Ele foi o querubim, colocado para proteger o novo paraíso terrestre da invasão de todos os inimigos” [5].

Um homem com a missão de guardar um território contra a invasão de qualquer inimigo precisa ser fisicamente forte, não um idoso de bengala. E como um poderoso querubim, dedicado à proteção e ao serviço da Rainha dos Anjos, José recebeu a tarefa de guardar o templo do corpo de Maria e, em particular, a sua virgindade. Por isso, o guardião de Maria tinha de ser jovem e forte, a fim de cumprir com sucesso a sua missão. Um idoso provavelmente não teria força para proteger a sua jovem esposa nem a resistência necessária para criar um filho bebê.

A masculinidade de S. José era um escudo protetor, uma capa protetora, para a Virgem Bendita. Nenhum homem ou fera podia causar qualquer dano à Virgem porque S. José mantinha-se atento e pronto para defendê-la, mesmo até a morte.

A nuvem que no Antigo Testamento cobria o tabernáculo é uma figura do casamento de José com a Virgem Bendita. “Então a nuvem cobriu a tenda de reunião e a glória do Senhor encheu o tabernáculo” (Ex 40, 34). O casamento de José é um véu sagrado que cobre o mistério da Encarnação. Todo o mundo vê que Maria é uma mãe, mas apenas José sabe que ela é uma virgem. — Bem-aventurado Guilherme José Chaminade [6].

Como um jovem marido e pai, S. José modelou a masculinidade de seu Filho, Jesus. Todo garoto deveria ser capaz de olhar para seu pai a fim de entender o que significa ser um homem. Se S. José tivesse sido um idoso, acaso Jesus teria visto em seu pai qualquer força física ou verdadeiro amor, postos em prática por meio de uma castidade heroica, de trabalho duro e gestos corporais de piedade — ajoelhar-se, por exemplo? Se S. José fosse duas ou três vezes mais velho do que sua esposa, o que Jesus teria observado nele: cochilos da tarde e esquecimentos? De novo, não há nada de errado com a velhice. Envelhecer faz parte da vida humana. S. José mesmo envelheceu como acontece com todos os homens. Mas Deus Pai teria confiado a disciplina e a educação de seu Filho — o Leão de Judá e Rei dos Reis — a um velho e frágil homem? Provavelmente não.

O que, então, a Igreja e o mundo podem aprender da descrição de um S. José mais jovem — especialmente na teologia, na pregação, na literatura e na arte — é que homens jovens podem ser castos, heroicos e santos. De fato, a Igreja tem incontáveis exemplos de homens jovens que se mantiveram castos e puros por amor ao Reino dos Céus. E S. José foi o maior de todos eles. S. Josemaría Escrivá nos diz:

Para viver a virtude da castidade, não é preciso esperar pela velhice ou pelo termo das energias. A castidade nasce do amor e, para um amor limpo, nem a robustez nem a alegria da juventude representam qualquer obstáculo. Jovem era o coração e o corpo de S. José quando contraiu matrimônio com Maria, quando soube do mistério da sua Maternidade divina, quando viveu junto dela respeitando a integridade que Deus queria oferecer ao mundo, como um sinal mais da sua vinda às criaturas. Quem não for capaz de entender um amor assim, é porque conhece muito mal o verdadeiro amor e desconhece por completo o sentido cristão da castidade [7].

Na minha opinião, S. José foi um jovem marido, terno e amoroso com sua esposa, mas sempre casto, modesto e puro. Maria amava seu José. E o amor viril dele por ela era forte e sempre ordenado pela razão e pela fé. Suas forças viris, sempre mantidas sob controle e a serviço da vontade de Deus, fizeram dele o pai e o marido mais virtuoso que já caminhou sobre esta terra. Nenhuma mulher jamais teve um homem maior do que S. José.

Deus não teria dado a Santíssima Virgem como esposa a José, a menos que ele fosse santo e justo. Que pai sensato daria sua mais amada filha em casamento a um homem que não fosse moral e irrepreensível em sua posição e estado de vida? — S. Lourenço de Brindisi [8].

Então, o que você tem a ganhar com esta maravilha de S. José? Você é obrigado a acreditar que S. José era jovem? Não, não é. Mas você entende, ao menos com base nas exigências físicas que a missão teria inevitavelmente colocado sobre ele, por que faz mais sentido pensar que S. José era jovem, e não velho, quando se casou com Nossa Senhora? Seja como for, independentemente da representação de José que você preferir, saiba que José é seu amoroso, forte e destemido pai espiritual. Agradeça-lhe tudo o que ele fez, de forma amorosa e abnegada, por Jesus e nossa Mãe espiritual, Maria. Agradeça-lhe tudo o que ele faz por amor a você.

Eu te agradeço, ó santo patriarca José, porque nós, que não somos capazes de amar a Jesus e nossa Mãe Imaculada, sabemos e nos regozijamos pelo fato de que ao menos tu a amaste como ela merecia ser amada, a digna e verdadeira Mãe de Jesus. — Bem-aventurado Gabriele Allegra [9].

Referências

  1. S. Josemaría Escrivá. É Cristo que passa, cap. 5, n. 40.
  2. Venerável Fulton Sheen. The World’s First Love: Mary, Mother of God. San Francisco, CA: Ignatius Press, 1996, pp. 91-96.
  3. S. Francisco de Sales, apud Rosalie Marie Levy. Joseph the Just Man. Derby, NY: Daughters of St. Paul, 1955, p. 130.
  4. Bem-aventurado Guilherme José Chaminade. Marian Writings. Vol. 1, ed. J.B. Armbruster, SM. Dayton, OH: Marianist Press, 1980, p. 228.
  5. S. John Henry Newman, apud Maria Cecilia Baij, OSB. The life of St. Joseph .Asbury, NJ: 101 Foundation, Inc., 1996, p. 422.
  6. Bem-aventurado Guilherme José Chaminade. The Chaminade Legacy, Monograph Series, Document n. 53, vol. 2, Joseph Stefanelli, SM .Dayton, OH: NACMS, 2008, p. 411.
  7. S. Josemaría Escrivá. op. cit., cap. 5, n. 40.
  8. S. Lourenço de Brindisi. Opera Omnia: Feastday Sermons, trans. Vernon Wagner, OFM Cap. Delhi, India: Media House, 2007, p. 539.
  9. Bem-aventurado Gabriele Allegra. Mary's Immaculate Heart: A way to God .Chicago, IL: Franciscan Herald Press, 1983, p. 56.

Notas

  • Texto extraído de: Pe. Donald H. Calloway. Consecration to St. Joseph: The Wonders of Our Spiritual Father. Stockbridge: Marian Press, 2020, pp. 115-121.

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Sexo e corporeidade na teologia católica

Sexo e corporeidade na teologia católica

O que um católico crê a respeito da importância da masculinidade e da feminilidade? À luz da fé, como devemos reagir às atuais ideias de “gênero”? E como nos dirigir a um mundo secular cada vez mais desorientado em relação à sexualidade?

Peter KwasniewskiTradução: Equipe Christo Nihil Praeponere6 de Janeiro de 2021Tempo de leitura: 12 minutos
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No dia 6 de janeiro, a Igreja celebra a grande festa da Epifania do Senhor (ou Teofania, como a chamam os nossos irmãos bizantinos [1]): a revelação de Deus às nações e povos do mundo, representados pelos três sábios que, guiados pela divina Providência, caminharam das trevas do paganismo para a Luz do único Salvador da humanidade. Na cena da Epifania, vemos o núcleo da diversidade da Igreja: mãe, pai, bebê e sua família estendida; rainha, guardião, rei e cortesãos; judeus e gentios, pobres e príncipes, pequenos e grandes. No nível mais básico, vemos seres humanos, homens e mulheres cujas identidades e funções não foram atribuídas de forma aleatória e não podem ser trocadas livremente. 

Quando olhamos para a cena da Sagrada Família, podemos fazer uma pergunta inesperada: como Deus se revela para nós na masculinidade e na feminilidade?

“Adoração dos Magos”, de Carlo Dolci.

Recentemente, escolas católicas e seculares acolheram inúmeras discussões sobre a “expressão de gênero” e o chamado “gênero binário”. Não estamos falando de instituições obscuras, mas de locais famosos como Notre Dame, Villanova e a Universidade de San Diego. O pressuposto desses debates é a ideia de que “gênero” é algo fluido, capaz de assumir muitas formas diferentes, permitindo inclusive que uma pessoa mude de uma forma para outra. Como o conceito de “gênero fluido” é novo, até os fiéis católicos podem não saber como responder a essa situação. O que um católico crê a respeito da importância da masculinidade e da feminilidade? Como nos dirigimos a um mundo secular que está desorientado em relação à sexualidade [2]?  

A Igreja Católica fundamenta sua visão sobre a masculinidade e a feminilidade na Sagrada Escritura, que põe homem e mulher no centro de cada etapa da história da Salvação. Um breve tour por essa história, partindo de seu início, tornará manifestas a consistência e a profundidade de sua mensagem e também a razão pela qual seus protagonistas jamais poderiam ser redefinidos sem que sua mensagem fosse completamente subvertida — algo de que estão perfeitamente conscientes os mais inteligentes adversários do cristianismo, creio eu. Depois disso, analisarei o motivo pelo qual a cultura que nos circunda dificulta a compreensão dos ensinamentos contidos na Sagrada Escritura. Em seguida, apresentarei algumas reflexões sobre como podemos nos dirigir de modo eficaz a um mundo secularizado. Mas, antes, voltemo-nos para a história da Salvação.  

Criação. — No relato da Criação, o corpo humano torna visíveis coisas invisíveis. Quando Deus criou o primeiro homem, disse o seguinte: “Não é bom que o homem esteja só. Vou dar-lhe uma auxiliar que lhe seja adequada” (Gn 2, 18). O Criador sabe que fez os seres humanos para viver uns com os outros; como diz o Catecismo, fomos criados para ser uma “comunidade de pessoas” (§372). Mas, como relata o Gênesis, essa “comunidade de pessoas” foi inscrita diretamente em nossos corpos por meio da masculinidade e da feminilidade. A mulher foi feita do homem como uma “auxiliar que lhe seja adequada”, e o homem alegra-se quando a vê: “Eis agora aqui — disse o homem — o osso de meus ossos e a carne de minha carne!” (Gn 2, 23). Masculino e feminino são “adequados” um ao outro. Seus corpos, que são complementares, tornam exteriormente visível o que é verdadeiro em relação àquilo que lhes é mais íntimo.

Juntos, homem e mulher recebem a seguinte ordem: “Frutificai e multiplicai-vos, enchei a terra e submetei-a” (Gn 1, 28). Assim como seus corpos masculino e feminino mostram que são feitos um para o outro, também mostram que são feitos para servir outras pessoas — os filhos em primeiro lugar e, em última instância, a sociedade espalhada pelo mundo e fundada no amor procriador. O chamado ao espírito humano para viver em comunidade torna-se visível por meio do corpo sexuado [3]. 

Mas esse é apenas o início. Em última análise, temos um chamado para a vida em comunidade porque somos feitos à imagem da Trindade, a comunhão na unidade entre o Pai, o Filho e o Espírito Santo. O Gênesis pode inclusive aludir a isso quando diz: “Deus criou o homem à sua imagem; criou-o à imagem de Deus, criou o homem e a mulher” (Gn 1, 27). No final das contas, o que o corpo humano torna visível (em seu dimorfismo essencial) é uma realidade divina que transcende o corpo, mas é capaz de ecoar nele. É uma obra-prima da arte de Deus.

Redenção. — Masculinidade e feminilidade tornam-se ainda mais importantes depois da queda de nossos primeiros pais. Já no Antigo Testamento os profetas falam de Deus como esposo de Israel e do povo escolhido como noiva dele: “Eu a desposarei para sempre, conforme a justiça e o direito, com benevolência e ternura. Eu a desposarei com fidelidade e conhecerás o Senhor” (Os 2, 21-22). No Novo Testamento, esse “casamento” entre Deus e o homem adquire um sentido muito mais profundo porque “o Verbo se fez carne” (Jo 1, 14), fazendo com que Deus e a humanidade se unam literalmente numa só carne. No Gênesis, os corpos masculino e feminino tornaram a pessoa humana visível externamente, mas nos Evangelhos o corpo de Jesus torna externamente visível a própria pessoa de Deus [Filho]! 

Para os católicos, a Encarnação dá pleno sentido ao corpo humano. Sentimos a importância de nossa união com o próprio corpo de Deus sempre que nos aproximamos da Sagrada Eucaristia, sobre a qual Jesus disse: “Isto é o meu corpo, que é dado por vós” (Lc 22, 19). O corpo de Cristo, crucificado no Calvário e glorificado no Céu, é a maior obra de arte feita por Deus. Esse corpo é o seu autorretrato definitivo! E a Encarnação também nos traz Maria, Mãe de Deus, a pessoa humana mais venerada em todo o universo e que recebeu sua elevada vocação precisamente por ser mulher.

A vida em Cristo. — Após a ascensão de Cristo ao Céu, a Encarnação continua a dar sentido aos nossos corpos. O Batismo santifica a nossa alma e o nosso corpo pelo poder de sua Cruz. O casamento místico de Cristo com a Igreja significa que os nossos corpos são membros dele. Dirigindo-se a cristãos viciados em fornicação, S. Paulo lhes pergunta: “Não sabeis que vossos corpos são membros de Cristo?” (1Cor 6, 15). Ele prossegue e os confronta: “Ou não sabeis que o vosso corpo é templo do Espírito Santo, que habi­ta em vós, o qual recebes­tes de Deus e que, por isso mesmo, já não vos pertenceis?” (1Cor 6, 19). É desafiador viver à altura da santidade do corpo cristão!

Do mesmo modo, as ações corporais dos cristãos são poderosas. Como seus corpos são membros de Cristo e templos do Espírito, a união física no matrimônio cristão é inclusive um sacramento, sinal e fonte de graça sobrenatural. S. Paulo diz aos romanos: “Eu vos exorto, pois, irmãos, pelas misericórdias de Deus, a ofere­cerdes vossos corpos em sacri­fício vivo, santo, agradável a Deus: é este o vosso culto espiritual” (Rm 12, 1). Este é o motivo fundamental pelo qual somos seres litúrgicos: Deus não nos deu apenas uma mente com a qual devemos pensar nele, mas um corpo no qual e pelo qual devemos adorá-lo e louvá-lo. A liturgia está completamente envolta pela corporeidade, particularmente pela comunhão numa só carne entre Cristo, o esposo, e a Igreja, sua esposa [4].  

Consumação. — O relato da história da Salvação terminará com uma forte ênfase no corpo humano quando todos os mortos ressuscitarem para o Juízo. A ressurreição demonstra de uma vez por todas a importância eterna do corpo no plano de Deus, porque a vitória de Cristo seria incompleta sem a salvação do corpo. O livro do Apocalipse descreve aquele último dia como as “as núpcias do Cordeiro”, quando Cristo finalmente desposará para sempre sua “noiva”, a Igreja (Ap 19, 7).

Essa maneira de descrever o fim resolve um enigma. Homens e mulheres ressuscitarão com seus respectivos corpos masculinos e femininos; apesar disso, Jesus diz que “não terão mulher nem marido” (Lc 20, 35). Isso quer dizer que masculinidade e feminilidade não serão mais importantes? Não, isso mostra que o significado natural do corpo humano se tornará pleno quando virmos Deus “face a face” (1Cor 13, 2), num “matrimônio” com nosso Criador. O fato de que fomos feitos para a comunhão significa não apenas que fomos criados à imagem da comunhão trinitária, mas que, em última instância, fomos feitos para a comunhão com o Pai, o Filho e o Espírito Santo. Mesmo agora, neste mundo, vemos esse significado definitivo do corpo humano naqueles que escolheram a virgindade “por amor ao Reino dos Céus” (Mt 19, 12).  

Uma visão de mundo secular. — Portanto, vemos que a história da nossa salvação não diz respeito apenas à salvação das almas, mas também à do corpo — do início ao fim! Mas, embora a fé católica tenha muito a dizer sobre o corpo humano, falar para um mundo secularizado não é tão fácil quanto citar muitos trechos da Sagrada Escritura. A má filosofia permeou nossa cultura, criando uma barricada que impede que até pessoas de boa vontade compreendam o que a Igreja tem a oferecer. Isso está relacionado com o modo de o mundo moderno enxergar o corpo humano. 

De acordo com o Catecismo

a unidade da alma e do corpo é tão profunda que se deve considerar a alma como a ‘forma’ do corpo; quer dizer, é graças à alma espiritual que o corpo, constituído de matéria, é um corpo humano e vivo. No homem, o espírito e a matéria não são duas naturezas unidas, mas a sua união forma uma única natureza (§365). 

Em geral, os ocidentais entendem que os seres humanos são livres e têm direitos apenas por serem humanos; não podemos simplesmente fazer o que desejamos com um ser humano. A Igreja Católica ensina que os corpos humanos são também humanos e que, portanto, não podemos fazer o que bem entendermos com eles.

No entanto, a modernidade passou a enxergar o mundo de uma perspectiva mecanicista. Tendemos a imaginar que há tanta “natureza” num corpo humano quanto num automóvel. As pessoas se revoltam com a ideia de que a “mera” biologia possa decidir como deveríamos viver, porque não percebem que o mundo biológico possui em si mesmo um sentido. Por que ter um corpo feminino supõe uma vocação para a maternidade? Por que ter um corpo masculino implica ser responsável por uma família?

Consequentemente, nossa cultura não vê o corpo humano como obra-prima de Deus, mas como uma tela em branco na qual podemos pintar qualquer coisa. “O que farei do meu corpo? Será masculino, feminino ou algo diferente disso? Será fértil ou estéril? O que devo fazer?” Já se passou um bom tempo desde que nossa cultura começou a promover o controle de natalidade como uma forma de separar o corpo de sua vocação. O aborto tem sido promovido como sinônimo do controle que a mulher teria sobre seu corpo. Tudo isso nasce da mesma fonte: as pessoas falam em “expressar-se” por meio de seus corpos porque não acreditam mais que o corpo já as expresse naturalmente. No final das contas, temos o “gênero fluido” e a “expressão de gênero”. 

Como vimos acima, o significado natural do corpo é que a pessoa humana foi feita para a vida em comunidade. Mas quando nossa cultura abandonou a ideia de qualquer “natureza” do corpo, também abandonou a ideia de que a sociedade é “natural” [5]. Os indivíduos são vistos como absolutos e autônomos, ao passo que a sociedade é considerada algo artificial que construímos por conveniência. Até a família, a sociedade mais obviamente natural, vai para o ralo quando se perde o sentido natural do corpo. O resultado é uma noção de direitos humanos radicalmente individualista segundo a qual cada pessoa tem o “direito” de decidir qual será o seu significado espiritual e corpóreo, ainda que essa decisão seja ruim para a sociedade como um todo — e, de fato, ruim para o indivíduo que se rebela contra a personalidade humana.

Falando para um mundo secular. — Se quisermos ser bem-sucedidos em nossa comunicação com o mundo secular, teremos de remover da melhor maneira possível as barreiras filosóficas e emocionais. Não existe um jeito rápido e fácil de consertar uma visão de mundo deturpada, mas três regras práticas se mostrarão úteis. 

Primeiro, seja positivo e trabalhe com o que é fundamental. Antes de chegarmos ao “não…”, temos de repetir de todas as maneiras possíveis que o corpo humano é algo maravilhoso que merece respeito. Temos de insistir na verdade fundamental de que o corpo humano não é apenas algo mecânico: é algo que possui sentido. Tem uma natureza, um princípio de identidade e operação intrínseco, que é anterior a qualquer coisa que pensemos a respeito dele. Essa natureza não é o resultado de uma interação de átomos ou moléculas, mas é realmente anterior às partículas, e as utiliza para se fazer visível. Além disso, faz parte de um todo maior conhecido como pessoa, que é esse corpo (embora também mais do que somente esse corpo) e se comunica em e pelo corpo.  

Segundo, não faça da desaprovação retumbante seu principal modus operandi. Nossa natureza está caída e ferida por causa do pecado. Todos nós experimentamos tendências e desejos que contradizem o verdadeiro significado do corpo, independentemente de nossa “orientação” ou situação na vida. Muitas vezes um jovem herda dos pais ou de outros mentores uma condição fragmentada que gera ainda mais confusão. Às vezes, essa confusão leva a desvios sexuais “heterossexuais”, “gays” ou de outro tipo, mas o fato é que a confusão relacionada ao gênero faz parte de uma fragmentação generalizada da sexualidade, experimentada em maior ou menor grau por todos nós. “Se dizemos que não temos pecado, enganamo-nos a nós mesmos, e a verdade não está em nós” (1Jo 1, 8) — sem dúvida, isso é verdade em relação à concupiscência desordenada, que aflige a todos nós. Nossa própria experiência de tentação ou luta deveria nos tornar humildes, compassivos e capazes de oferecer bons conselhos que nós mesmos testamos antes de oferecer.  

Finalmente, enfatize a coragem. A santidade que Cristo deu ao corpo por meio de seu próprio corpo chagado e ressuscitado é para todos, independentemente das inclinações que possamos experimentar; mas é necessário ter coragem e convicção para viver à altura de nossa elevada vocação. A moralidade sexual não equivale ao cumprimento de um conjunto de regras; é, antes, o árduo caminho de nos tornarmos o que somos e quem somos chamados a ser em Cristo. Fingir que é algo fácil para pessoas “boas” não ajuda ninguém. Se nos concentrarmos na verdadeira natureza da castidade, que não implica ficar numa zona de conforto, mas vencer uma batalha para alcançar a integridade, o autodomínio e a capacidade de amar, creio que veremos uma resposta daquela pequena parcela do legado de nossa civilização que ainda anseia pela grandiosidade. 

Notas

  1. Neste outro artigo, encorajo a celebração da Epifania como ela merece ser celebrada: no décimo segundo dia depois do Natal, como sempre se fez na tradição cristã, tanto no Oriente como no Ocidente — e critico o fato de ela ter sido empurrada para o domingo mais próximo, algo um tanto incoerente com o próprio mistério que ela celebra.  
  2. Este artigo deve sua gênese e essência às sábias reflexões de um amigo próximo, que me encorajou a tomar essas ideias, desenvolvê-las e publicá-las. Fico muito satisfeito em fazê-lo, pois a verdade é a verdade e merece ser compartilhada. Não creio no mito iluminista de busca da originalidade a todo custo.
  3. É verdade que, hoje, a maioria das pessoas diria “corpo com gênero”, mas temos de ser muito claros a respeito disso: sexo é um fenômeno biológico e pessoal, ao passo que gênero é um fenômeno gramatical. Muitos idiomas têm os gêneros “masculino, feminino e neutro” para substantivos e adjetivos, mas os animais só possuem dois sexos: masculino e feminino.  
  4. Para ler mais sobre essa perspectiva, recomendo o meu artigo Incarnate Realism and the Catholic Priesthood.
  5. Aqui podemos ver a profunda conexão entre a revolta (ocorrida no início da modernidade) contra a filosofia natural aristotélica, com sua ênfase na forma e na finalidade, e o subsequente desenvolvimento da filosofia política do “contrato social”, que também rejeita a ideia de que a sociedade possui forma e finalidade inerentes. Ela seria, antes, um conglomerado material de partes sobre as quais alguma ordem é imposta de modo extrínseco, para servir aos objetivos particulares das partes que a compõem ou daquele que ordena.

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