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Por que as religiosas usam hábito?
Igreja Católica

Por que as religiosas usam hábito?

Por que as religiosas usam hábito?

O hábito religioso é uma roupa bela e distinta, mostrando que as irmãs consagradas são “noivas”, mas não num sentido mundano: elas são noivas de Cristo. Por isso mesmo, a beleza do hábito não é a mesma das vestes seculares; é, antes, uma beleza sobrenatural.

Uma monja anônimaTradução: Equipe Christo Nihil Praeponere20 de Agosto de 2021Tempo de leitura: 14 minutos
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Este texto surgiu como uma série de conferências capitulares proferidas por uma superiora religiosa a uma comunidade de irmãs. A superiora compartilhou o texto com o prof. Peter Kwasniewski e deu-lhe permissão para editá-lo e publicá-lo. (O texto original, em inglês, encontra-se disponível aqui; a tradução portuguesa a seguir foi feita por nossa equipe.)


O Concílio de Trento declarou: “Embora o hábito não faça o monge, é necessário que os clérigos sempre usem uma veste adequada à sua própria Ordem” [1]. Ainda que o hábito não seja a causa do ser de um monge, como diz Trento, não deixa de ser necessário para o monge usá-lo (oportet… semper), porque o hábito ajuda a fazê-lo ser quem ele é.

Tomado isoladamente, o ditado popular “o hábito não faz o monge” parece afirmar que a roupa, por ser externa, não importa. Mas isso está errado. Nossas roupas nos afetam e nos formam. A roupa é muito mais do que uma proteção contra as intempéries. Para os seres humanos, ela é simbólica: é um sinal de quem eu sou e de quem eu desejo ser. O que vestimos nos forma.

Nossa formação na vida religiosa se dá principalmente pelo fazer e pelo ser. Aprendemos a ser irmãs sendo irmãs. Nosso fazer inclui o que vestimos. Aprende-se a rezar rezando; aprende-se como ser uma irmã fazendo as coisas que as irmãs fazem e vestindo o que as irmãs vestem.

Nosso hábito é lindo. Convém que seja assim, pois somos noivas de Cristo. Uma noiva deve ter uma aparência adequada! Nosso hábito reflete a realidade de que não somos noivas num sentido mundano, mas noivas de Cristo. A beleza do hábito não é a mesma do vestido secular; é antes uma beleza sobrenatural.

Nosso hábito nos ajuda a saber como uma irmã deve agir. Não é necessário perguntar se ela pode escalar o pinheiro do quintal: o fato de usar o hábito deixa claro que esta atividade não é apropriada para uma irmã. Um hábito serve para que todos os que nos vêem lembrem de Deus (não podem deixar de fazê-lo) e nos lembra o que deve ser uma noiva de Cristo. Até a própria palavra “hábito” nos dá uma indicação da importância da veste. Aristóteles nos ensinou que virtudes são bons hábitos. Nós adquirimos virtude interior fazendo ações exteriores. Formamos nosso coração e alma por meios externos. Se desejamos ser generosas, começamos nos “obrigando” a fazer coisas generosas. Se persistirmos nelas, a generosidade começará a crescer em nosso coração. Nós nos tornaremos generosas e começaremos a amar a realização de atos generosos. O externo forma o interno. Tornamo-nos mais plenamente noivas de Cristo através do hábito de usar trajes religiosos. Muitas tentações são removidas quando usamos um hábito: não tendemos a pensar em roupas; não somos tão facilmente tentadas a ser vaidosas; nossas ações externas são restringidas pelo hábito. Se nos sentimos desconfortáveis por estar em algum lugar ou por fazer algo estando de hábito, é um sinal de que provavelmente não deveríamos estar neste lugar ou fazendo tal coisa. O hábito é uma ferramenta de discernimento!

Ascetismo receptivo. — Além disso, o uso do hábito habitua nosso corpo e nossa alma à vida ascética.

Afinal, o hábito é quente. Supondo que todas nos vestíssemos com recato antes de entrar no convento, não creio que nenhuma de nós sonharia em nos cobrir da cabeça aos pés, com várias camadas de roupa, no calor do verão! Como parte de nossa expressão particular de modéstia, mantemos nossas pernas totalmente cobertas, mesmo por baixo de nosso hábito comprido. Nossa cabeça está coberta não apenas por um véu, mas por uma touca, um véu e depois um véu superior: três camadas! Que alívio seria usar um pouco menos (por exemplo, na cabeça) — mas não sonhamos em fazer isso e não queremos fazê-lo. Nosso hábito é um instrumento ascético. Por meio dele nos “educamos” a não buscar o nosso próprio conforto.

A ascese do hábito é muito apropriada para nós, mulheres. A força das mulheres, mesmo fisicamente, reside não tanto em grandes feitos únicos, mas na perseverança silenciosa. A força da mulher é o sofrimento silencioso. A palavra latina para “sofrer” é passio, que significa “padecimento”. Notem como o “padecimento” é receptivo: dizemos “sim” ao que vem até nós. Poderíamos dizer que a ascese em nosso hábito é uma espécie de “ascetismo receptivo”: o hábito em si não é uma penitência, mas ele pode envolver penitência para nós. E nós a aceitamos do modo como ela se nos apresenta. A ascese do nosso hábito está precisamente na sua cotidianidade, em o usarmos dia e noite, seja qual for a estação do ano, seja qual for a nossa disposição. O hábito é uma expressão de nossa autodoação.

A túnica. — A parte principal do nosso hábito é o “vestido” que chamamos de “túnica”. Por que não o chamamos de vestido? Não seria uma forma mais feminina de se referir a essa parte do nosso hábito? “Túnica” é uma “palavra unissex” que parece bem pouco feminina. No entanto, optamos por usar palavras distintas das do mundo, a fim de deixar claro que nossas roupas são diferentes das roupas do mundo. Fazemos a mesma coisa em outros aspectos da nossa vida: chamamos a sala em que comemos de “refeitório” e não de “sala de jantar”. Por quê? Porque não jantamos como os leigos jantam. Os leigos não comem em silêncio, sentados em fila, enquanto ouvem uma leitura. Fazemos as refeições de uma forma diferente e, portanto, é adequado ter um nome distinto para a sala na qual nós, religiosos, fazemos as refeições. Palavras como “cela”, ao invés de “quarto”, ou “colação”, ao invés de “ceia”, são similares.

Uma noviça e uma irmã professa, em seus hábitos.

Portanto, não chamamos a parte principal do nosso hábito de “vestido” porque ele não é uma veste mundana. Todas as manhãs, quando vestimos a túnica, a oração que fazemos nos lembra que esta não é uma veste mundana, mas um vestido particularmente cristão. Nós dizemos: “Que o Senhor me revista do homem novo, criado à imagem de Deus, em verdadeira justiça e santidade” (cf. Ef 4, 24). Colocamos uma “nova” forma de veste, não como a roupa mundana que usávamos. 

A palavra “túnica” era usada para descrever a vestimenta dos antigos gregos e romanos. Era uma peça de roupa exterior simples, com ou sem mangas, na altura dos joelhos ou dos tornozelos, usada com um cinto. Os primeiros monges usavam túnicas e se referiam a elas com este termo. Encontramos a palavra “túnica” nos ditos dos Padres do Deserto e na Regra de São Bento. Visto que, na vida religiosa, queremos nos inserir na tradição iniciada pelos Padres do deserto, usamos o mesmo nome para designar esta parte da roupa. 

O escapulário. — Por cima da túnica, usamos um escapulário. Por que o fazemos? Parece uma peça de roupa um tanto inútil, e esta é certamente uma das razões pelas quais ele desapareceu dos hábitos de muitos religiosos com as mudanças após o Concílio Vaticano II. O escapulário não só é inútil, como constitui também um obstáculo positivo: ele atrapalha quando você se inclina, bate no rosto do próximo quando há um vento forte etc.

O escapulário é um pedaço de tecido que fica pendurado nas scapulae, “escápulas”, ou seja, sobre os ombros. O escapulário faz parte do hábito religioso desde os tempos de São Bento (cf. Regra de São Bento, c. 55). Usamos o escapulário pela mesma razão que vestimos a túnica, ou seja, como um sinal externo de nossa união interna com a tradição da vida religiosa. O escapulário passou a ter um significado simbólico, como um jugo que carregamos sobre nossos ombros, e isso se reflete na oração que fazemos ao colocar o escapulário em nossos ombros: “Ó Senhor Jesus Cristo, que disseste ser suave o teu jugo e leve o peso de teu fardo, concede-me paciência em todas as adversidades e fidelidade às inspirações da tua graça”.

A touca. — A touca se tornou moda durante a Idade Média, por volta do século XIII em diante. Todas as mulheres de boa criação usavam touca, a qual mais tarde foi reservada, por algum tempo (ao longo do século XV), para as mulheres casadas. A touca sempre foi usada com um véu. Sua ideia é que o rosto da mulher fique visível, mas o pescoço e a cabeça estejam cobertos. Embora parecesse que as mulheres leigas às vezes mostravam parte de seus cabelos quando usavam uma touca ou véu, o cabelo era visto penteado ou trançado, e não solto (o que é uma diferença importante no que diz respeito à sua atratividade).

Uma razão para o uso da touca é a mesma para o uso do véu: a de reservar a própria beleza para o seu cônjuge. É por isso que sobretudo as mulheres casadas usavam a touca (e o véu). Como lemos no Cântico dos Cânticos, até o pescoço de uma mulher pode ser belo para um homem: “O teu pescoço é como a torre de Davi, que foi edificada com seus baluartes; dela estão pendentes mil escudos, todos os escudos dos heróis” (4, 4). Uma mulher que não está “disponível”, isto é, aquela que é casada ou religiosa, não deseja, de forma alguma, chamar atenção para sua beleza física, por isso tornou-se costume que essas mulheres usassem toucas e véus. A moda mudou, mas as religiosas mantiveram o mesmo costume.

A touca sempre deixa o rosto descoberto. O que significa deixar o rosto descoberto? Primeiro, significa que uma mulher que usa uma touca não está tentando se esconder totalmente; ela não está tentando se excluir ou se separar dos outros. Ela não está excluindo a comunicação com outras pessoas. Seu rosto fica livre; na verdade, o uso da touca chama mais a atenção para o rosto, já que não há mais nada para atrair o olhar.

A touca “força” quem nos encontra a focar em nosso rosto, não em nosso corpo. Em um sentido real, nosso rosto expressa mais plenamente quem somos. Nosso rosto revela quem somos mais do que nosso corpo. Considerem que aprendemos muito mais sobre uma pessoa olhando para seu rosto do que olhando para suas mãos ou pés. Os olhos são chamados de “janelas da alma”, e esses olhos são como que realçados pela touca. A touca, então, nos ajuda a nos relacionarmos com as outras pessoas de uma forma que se harmoniza muito bem com nossa vocação. A touca chama a atenção para o “homem interior”, que encontra expressão em nossa face. Nossa touca ajuda os outros a nos olharem dessa maneira.

A comunicação é muito mais do que a troca de palavras. Falamos com o nosso rosto, com as nossas expressões. Embora as pessoas possam considerar “desumano” que nós, irmãs, usemos todas essas camadas de roupa como parte do nosso hábito religioso, a verdade é que essas camadas que usamos podem ajudar a tornar “mais humanos” e pessoais o nosso relacionamento e comunicação com as outras pessoas.

O véu. — Ao usar um véu, nós, irmãs, nos colocamos dentro de uma tradição muito longa, uma tradição anterior ao cristianismo. Na cultura grega antiga, as mulheres casadas de respeito usavam véu. Ainda está preservada uma lei assíria, de 1400–1100 a.C., que afirma que as mulheres casadas e as viúvas nunca deveriam sair em público sem véu. Na Grécia antiga, não se considerava oportuno que uma mulher casada revelasse seu cabelo aos olhos de outros homens que não o seu marido. Em Roma, um véu chamado flammeum era a peça mais proeminente do traje usado pela noiva no dia de seu casamento.

Ao longo da maior parte da história, as mulheres casadas usaram coberturas para a cabeça. Era típico das mulheres protestantes cobrir a cabeça durante os cultos religiosos (um véu, lenço ou chapéu). Podemos pensar hoje nos menonitas ou nos amish, que ainda seguem essa tradição. Até o século XX, as pessoas comuns compreendiam facilmente o simbolismo do véu. Ainda hoje, mantemos alguns resquícios da tradição do véu na cultura secular, ao menos na forma do véu de casamento.

A primeira forma de vida consagrada a surgir na história — a consagração das virgens dentro de uma diocese, pelo bispo — foi simbolizada pela recepção do véu. Infelizmente, no rito reformado da consagração de uma virgem, a recepção do véu se tornou opcional (como tantas outras coisas na nova liturgia). O véu usado pela virgem consagrada é um véu de noiva, mostrando que a virgem é uma noiva de Cristo. Visto que a virgem consagrada e a irmã religiosa são noivas de Cristo, faz sentido que elas, como as mulheres casadas, devam usar véus para significar a mesma coisa.

Mesmo que, aparentemente, o nosso mundo contemporâneo tenha se esquecido disto, o cabelo de uma mulher é a sua maior glória (cf. 1Cor 11, 15), o símbolo de sua beleza feminina natural. O corte cerimonial do cabelo é um sinal da doação total que a religiosa faz de si mesma; um sinal da entrega de toda a sua beleza natural, a fim de que a sua vida esteja escondida em Cristo. A oração de bênção do véu branco diz: “Que seja bendito, imaculado e santificado o véu desta vossa escrava, a fim de que a sua vida esteja escondida com Cristo em Deus” [2]. Nós velamos a nós mesmas por um motivo semelhante ao do uso da touca: escondemos o que pode atrair outras pessoas ao nosso corpo, de modo a enfatizar a importância do “homem interior”. O véu serve para nos proteger: ele nos protege de chamar uma atenção indevida sobre nós mesmas e serve como um sinal para indicar que “não estamos disponíveis” — ainda que o véu não seja mais um símbolo comum a indicar que uma mulher é casada.

É importante que nem nosso hábito nem nosso véu sejam uma capa informe. Não estamos tentando esconder que somos mulheres, mas também não queremos chamar uma atenção inadequada para os nossos corpos. O véu não é feio ou impróprio. Ele é belo, mas não chama atenção para nós como indivíduos. A beleza de nosso hábito não é a beleza de nosso corpo. A beleza que podem ter os nossos véus não é a nossa beleza. Procuramos atrair os outros não para nós mesmas, nem para qualquer coisa que possamos ter, mas para nosso divino Esposo. Todas as nossas vestimentas têm como objetivo transmitir essa mensagem... e elas transmitem! Sem exceção, ver-nos faz as pessoas pensarem em Deus [3].

Nosso véu também tem um uso prático, a saber, ele nos livra de ter de cuidar de nossos cabelos. Queremos empregar nosso tempo e energia de outras maneiras, e o hábito é uma fonte de grande libertação nessa matéria. Não precisamos perder tempo comprando e selecionando roupas; não precisamos gastar energia mental na pergunta diária: “O que devo vestir?”; não precisamos perder tempo arrumando nossos cabelos. Nós nos arrumamos em questão de minutos.

As postulantes já usam um véu reduzido para indicar a sua intenção de se doarem a Deus como irmãs. Elas já estão separadas para Deus e estão sendo formadas pelo uso do véu. Quando se tornam noviças, recebem o véu completo da irmã religiosa. Seu véu é branco, para simbolizar pureza e castidade. A noiva postulante, no dia de sua investidura, substitui o vestido e o véu nupciais pelo véu branco da noviça. Ao entrar no santuário no início da investidura, ela é enfeitada com a beleza terrena de um vestido branco e cabelos longos. Com o coração alegre, ela oferece a Deus toda a beleza terrena e a troca pela beleza espiritual do hábito e do véu desejados.

Uma religiosa das Irmãs Adoradoras do Coração Real de Jesus em oração (Imagem de Christian Gooden).

O véu preto ou escuro de uma irmã professa, por outro lado, reflete o estilo de uma viúva. Isso também é adequado. Embora sejamos realmente noivas de Cristo, estamos no exílio. Nossa união com Cristo é espiritual, nas trevas, escondida sob o véu da fé. Nossa vocação é escatológica: pobres, castas e obedientes, entregues inteiramente a Deus, vivemos já agora o que todos viverão no céu. A esse respeito, diz o Padre Sean Kopczynski: “Os religiosos ‘brincam’ de estar no céu”. Não estamos no céu, mas estamos nos preparando para isso.

Nossa tradição católica tem o costume de velar tudo o que seja um mistério sagrado. O velamento do sagrado não é uma mera tradição humana; é algo desejado por Deus. Pois, foi Ele quem dirigiu detalhadamente a construção do tabernáculo, dizendo a Moisés: “Construireis o taber­náculo e todo o seu mobiliário exatamente segundo o modelo que vou mostrar-vos” (Ex 25, 9). As especificações incluíam: “Farás um véu de púrpura violeta, de púrpura escarlate, de carmesim e de linho retorcido, sobre o qual serão artisticamente bordados querubins… Colocarás o véu debaixo dos colchetes, e é ali, atrás do véu, que colocarás a arca da aliança. Esse véu servirá para separar o ‘santo’ do ‘santo dos santos’” (Ex 26, 31.33).

Nós velamos um mistério sagrado. O véu é o presente da Igreja para nós. O véu é um sinal do mistério da nossa vocação; o sinal da sacralidade do nosso ser entregue a Cristo.

Notas

  1. Quia vero etsi habitus non facit monachum, oportet tamen clericos vestes proprio congruentes ordini semper deferre (Conc. Trid., s. XIV, Decretum de reformatione, c. 6).
  2. Ut sit velum benedíctum, imaculátum, et sanctificátum huic ancíllae Tuae, quátenus eius vita sit abscóndita cum Christo in Deo. [N.T.: A oração completa diz: “Suplicantes vos rogamos, Senhor, que por vossa benignidade desça uma bênção copiosa sobre este véu branco, a ser imposto sobre a cabeça de vossa escrava: a fim de que seja um véu bento, imaculado e santificado para a vossa escrava. Por Cristo, Senhor Nosso. Amém.”]
  3. Mesmo que nos confundam com muçulmanas, podemos argumentar que é para um Deus diferente que apontamos quando somos confundidas com mulheres muçulmanas. Além disso, parece que as mulheres muçulmanas conservadoras, ao contrário de nós, procuram sim esconder-se sob uma capa disforme.

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A morte prematura de São José
Santos & Mártires

A morte prematura de São José

A morte prematura de São José

São José certamente não estava mais vivo quando Jesus começou seu ministério público. Esse dado não consta de modo claro nas Escrituras, mas é uma piedosa tradição, partilhada e transmitida por muitos que contemplaram a vida de Cristo com os olhos da fé.

Michael PakalukTradução: Equipe Christo Nihil Praeponere19 de Agosto de 2021Tempo de leitura: 4 minutos
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São José certamente não estava vivo quando Jesus começou seu ministério público. Isso sempre foi sustentado pela tradição, e por quatro razões.

Primeiro, depois que o ministério público começa, José nunca mais é mencionado nos Evangelhos em conexão com Jesus ou Maria, ou mesmo com a família mais ampla dos “irmãos” (ou, mais propriamente, primos do Senhor). Há inclusive certa sugestão na maneira como as pessoas se referem a José de que ele não estaria mais vivo: “Não é este o filho do carpinteiro?” (Mt 13, 55).

Segundo, por que Jesus teria confiado os cuidados de Maria a João (cf. Jo 19, 27), se José ainda estivesse vivo?

Terceiro, a profecia de Simeão sobre um sofrimento futuro (Lc 2, 35: “E uma espada transpassará a tua alma”, diz respeito apenas a Maria (“Quanto a ti…”), não a José.

Quarto, era conveniente que José saísse de cena antes de começar o ministério público do Senhor, para que, quando Jesus ensinasse sobre seu Pai, ficasse sempre claro de quem ele estava falando.

“A morte de São José”, por Miguel Cabrera.

Considero essa lista de razões fascinante. Já fui protestante e, como tal, estava convencido de que o Evangelho poderia ter a clareza necessária para confrontar “o mundo” apenas se os cristãos baseassem suas crenças somente nas Escrituras, e não em “meras tradições humanas”.

E no entanto qual é o status desta verdade: que “José não estava vivo quando Jesus começou seu ministério público”? Não se baseia total e exclusivamente nas Escrituras, mas ainda assim tem fundamento nelas. Além disso, não é uma “mera tradição humana”. É, no mínimo e com certeza, uma tradição piedosa, isto é, algo partilhado e transmitido por quem contempla a vida do Senhor com os olhos da fé.

Quando protestante, tampouco tinha uma noção coerente de autoridade na Igreja. Assim, eu não podia fazer nenhuma distinção entre o que os cristãos são obrigados a crer como verdade de fé (de fide), e o que somos livres para crer por estar fundamentado e ser amplamente defendido por cristãos piedosos e criteriosos.

Agora, como católico, posso dizer que essa verdade — a de que José morreu antes do ministério público — não é de fide. Isso me dá liberdade para o afirmar com a seguinte força: posso defendê-la como verdadeira e afirmar que é bom crer nela, embora isso não implique que os outros estejam obrigados a acreditar, se não forem persuadidos por minhas razões.

Dessa lista de motivos, o quarto é para mim o mais fascinante. Teria José entendido isso? Saberia ele que lhe era melhor partir do mundo antes de Jesus começar seu ministério público? Pe. Gasnier, em seu grande livro de meditações José, o Silencioso, pensa assim: “[José] pressentia que sua presença ao lado de Jesus não só não era necessária como podia agora se tornar um estorvo. Não convinha que o mundo pensasse que ele era o verdadeiro pai desse jovem” [1].

Neste caso, a morte de José assume um significado interessante.

Escultura da morte de São José na Catedral de Nossa Senhora de Loreto, em Mendoza, Argentina.

Para entender por quê, consideremos outra pergunta: quantos anos tinha José quando morreu? Se ele era velho quando se casou, já estaria muito velho quando morreu. Algumas tradições antigas, enraizadas em escritos apócrifos, afirmam que José já era velho e fora casado antes por mais de quarenta anos quando desposou Maria. Santo Epifânio lhe atribui 90 anos! Mas essa opinião foi veementemente rejeitada por São Jerônimo, e é seguro dizer que uma reflexão mais completa na Igreja ao longo dos séculos ficou do lado de São Jerônimo.

A melhor opinião, que é a que eu aceito, afirma que ele seria jovem quando se casou com Maria. De fato, era costume que os homens pretendessem casar-se no final da adolescência. Sua devoção à virgindade, à sua e à de Maria, estava enraizada no idealismo dos jovens. Ninguém teria apoiado o casamento de um homem de 90 anos com uma adolescente. E é errado atribuir seu respeito pela virgindade de Maria à senilidade, ao invés da virtude.

Portanto, suponhamos que ele tinha 20 anos quando se casou com Maria: provavelmente tinha 40 quando morreu, quer dizer, São José teve uma “morte prematura”, mesmo para aquela época. Ele não morreu de velhice nem de fraqueza generalizada (excluímos uma morte violenta), mas de alguma debilidade particular que o levou embora.

Unamos agora os dois pensamentos: José percebeu que lhe era melhor sair de cena e morreu relativamente jovem, aceitando a morte, precisamente naquela época, como enviada por Deus.

Creio que chegamos assim a algumas conclusões interessantes. Em primeiro lugar, podemos entender a morte de José como, de maneira misteriosa, uma participação na Paixão do Senhor na forma de um prenúncio, como a morte de João Batista e o martírio dos Santos Inocentes.

Em segundo, ele ofereceu sua vida sem ainda ver consumada a vida de Jesus. Assim, sua morte foi marcada por uma fé tremenda. Ele não ouviu o Sermão da Montanha. Ele não viu Jesus transformar água em vinho, curar leprosos ou ressuscitar Lázaro. Ele não viu a Paixão ou a Ressurreição.

Em terceiro lugar, a nova vida em Cristo da qual ele, por eleição especial, deu testemunho foi precisamente uma vida de trabalho ao lado de Jesus como amigo, e de família com Maria. Não admira que, onde quer que tenha florescido com normalidade a vida familiar cristã, ali se tenha invocado a São José com fervor!

Por último, podemos entender por que os Papas nomearam São José patrono dos moribundos: porque ele é especialmente sensível ao fato de a morte muitas vezes nos assaltar desprevenidos. “De bom grado morrerei, Senhor, no momento, no lugar e do modo que Vós quiserdes” [2].

“Deixai-me morrer como o glorioso São José, acompanhado por Jesus e Maria, pronunciando aqueles nomes mais doces, que espero exaltar por toda a eternidade!”

Referências

  1. Michel Gasnier. José, o Silencioso. Quadrante: São Paulo, 1995, p. 140.
  2. Seleta de Orações. São Paulo: Cultor de Livros, 2011, p. 209.

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Deixar o beijo para o casamento: sim ou não?
Testemunhos

Deixar o beijo
para o casamento: sim ou não?

Deixar o beijo para o casamento: sim ou não?

Você provavelmente vai achar isso ridículo e absurdo. Foi a reação que tive quando me deparei com essa ideia pela primeira vez. Mas passei a pensar seriamente sobre o assunto quando soube de um casal que a punha em prática...

Anna HitchingsTradução: Equipe Christo Nihil Praeponere13 de Agosto de 2021Tempo de leitura: 7 minutos
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Nós, jovens cristãos, sabemos bem como são rigorosas, difíceis e muitas vezes claramente inconvenientes as exigências de uma vida de castidade. “Não passe a noite na casa dele sozinha”. “Discuta os limites desde o início”. “Procure fazer da oração uma parte ativa do relacionamento”.

Mas fazemos tudo isso porque cremos que o sexo possui uma realidade mais profunda do que a perspectiva reducionista e mundana que o enxerga como simples atividade recreativa. Sabemos que o sexo é uma união entre homem e mulher ordenada por Deus, singularmente unitiva e reprodutiva, projetada para ser praticada apenas no matrimônio.

Também sabemos que o sexo cria entre o casal um profundo elo que pode durar anos, senão a vida inteira. Sabemos também que, com frequência, o sexo fora do casamento é diretamente (embora não exclusivamente) responsável por muitos males que vemos na sociedade: aborto, lares órfãos de pai, disseminação de doenças, decepções profundas e feridas emocionais duradouras. 

Embora a doutrina da Igreja sobre a intimidade sexual fora do casamento seja clara, as regras para outras formas de intimidade não são tão claras assim, particularmente quando se trata do beijo.   

Conversei com muitos casais católicos, e está claro que quase ninguém tem plena certeza do que é ou não apropriado. Embora todos aceitemos, creio eu, que beijos menos íntimos (por exemplo, no rosto ou na testa) sejam um tanto inócuos, qual seria o limite em relação ao beijo na boca

Bem, e se você escolhesse não beijar seu namorado ou namorada na boca ao invés de tentar encontrar esse limite?

Provavelmente você pensaria: “Isso é ridículo! Absurdo!” Foi minha reação quando me deparei com essa ideia pela primeira vez, mas passei a pensar seriamente sobre o assunto quando soube de um casal que a punha em prática.

A experiência de João e Catarina

João e Catarina eram um casal católico como outro qualquer, mas, depois de um ano e meio de namoro, eles tomaram a decisão de não se beijar mais nos lábios. Mantiveram a promessa até o dia do casamento, que aconteceu mais de dois anos depois. 

Quando lhes perguntei se estavam felizes por terem parado de trocar beijos apaixonados, eles disseram que foi a melhor decisão que tomaram em todo o seu relacionamento

“Os dois primeiros meses foram difíceis, mas, depois, com os sentimentos ordenados, ficamos livres para desenvolver uma verdadeira afeição mútua, bem como para servir um ao outro e nos sacrificarmos um pelo outro”, disse João. “Como tenho consciência — por ser católico — do que é necessário para ficar livre do pecado mortal e lutar pela mais elevada perfeição, sei que é meu dever fazer o mesmo pela mulher com quem tenho a intenção de me casar”. 

Catarina disse: “Como demos um passo atrás na intimidade física, avançamos muito na intimidade emocional. O relacionamento passou a ter um novo foco, porque um já não pensava apenas em fazer com que o outro se sentisse bem”. 

A tentação de avançar mais

Muito bem, isso pode funcionar para o João e a Catarina, mas isso não serve para todo o mundo. E se seus beijos fossem reduzidos a simples “selinhos”?

Seria possível fazer isso. Conheço muitos católicos que, antes de se casar, trocavam beijos sem comprometer a castidade no relacionamento. O problema com isso é que sempre haverá a tentação de avançar mais.

Veja que deixar o sexo para depois do casamento não é algo tão difícil. O difícil é ficar longe das ocasiões de pecado.

Você pode perguntar: “O que são ocasiões de pecado?” Bem, o Catecismo de Baltimore as define como “todas as pessoas, lugares ou coisas que podem facilmente nos levar a pecar” (n. 771).

Basicamente, já é pecado grave colocar-se numa situação em que você sabe que terá a tentação de cometer um pecado grave. Por exemplo, quando um alcoólatra em recuperação de seu vício vai a uma festa onde haverá bebedeira, sabendo que poderá ser tentado a ir além do que pode suportar, ou quando um viciado em pornografia passa um tempo ilimitado na internet.

É, de fato, apenas senso comum. Se você prevê que será fortemente tentado a pecar, a ponto de pôr a sua alma em risco, e puder evitar essa situação, faça isso! 

No entanto, como acontece com a maioria dos católicos de berço, sempre achei que não havia problema algum em trocar beijos no namoro, contanto que esse limite não fosse ultrapassado. Na verdade, beijos apaixonados ou “amassos” entre pessoas não casadas não são nada menos que pecado mortal.

Talvez isso pareça um exagero. Foi a minha impressão inicial, mas depois entendi o motivo: o beijo apaixonado é em si uma ocasião de pecado; ainda por cima, uma ocasião grave. Todos sabemos que esse tipo de intimidade excita as paixões. É algo previsível, pois trata-se da ação preliminar para o ato sexual e sua finalidade é deixar-nos preparados para isso.

Aprendendo o que a Igreja ensina

E, se você não acredita em mim, consulte o célebre Doutor da Igreja, Santo Tomás de Aquino: 

Beijos, abraços e toques não implicam, por sua razão, pecado mortal, pois podem ser praticados sem lascívia [...]. [Mas,] sendo os beijos, os abraços e outros atos parecidos praticados em vista do prazer sexual, constituem pecados mortais. E somente nesse sentido são libidinosos e, como tais, pecados graves (STh II-II 154 4c.).

“Mas, mas…”, você balbucia, “todo o mundo faz isso! Está nos filmes antigos e nos desenhos da Disney. Poxa vida, está na série When Calls the Heart!” 

Confie em mim, eu entendo você. Creio que esse tipo de debate muitas vezes gera resistência nos católicos porque temos a sensação de que o beijo é a única coisa que nos resta! Não realizamos atos pré-conjugais, e masturbação e pornografia estão fora de questão.

Quando ouvi pela primeira vez um sacerdote dizer que namorados ou noivos só podiam compartilhar carícias próprias de irmãos, como um beijo no rosto, achei aquilo ridículo e pensei: “Isso é um completo absurdo! Em que planeta esse sacerdote vive?” 

Porém, com o passar do tempo, comecei a mudar de opinião. Sempre senti certo desconforto com minha determinação particular de manter meu direito a um beijo (casto). Na prática, você descobrirá — como aconteceu com João e Catarina — que essa abordagem simplesmente não funciona.

Na verdade, foi mais fácil não beijar de forma alguma”, disse João. “Pode parecer algo de menor importância, mas o beijo pode se tornar uma porta de entrada para outros pequenos atos de impureza, como abraços muito longos ou toques muito íntimos. O beijo também faz com que você adquira uma propensão habitual a fazer concessões a respeito de Deus e suas leis, bem como a fazer o possível para eximir-se das consequências dos próprios atos”.

Pense bem a esse respeito

Tenho plena consciência de que este artigo não me tornará popular. Sei que aqueles que não querem abrir mão do beijo me chamarão de puritana e, provavelmente, de outras coisas pitorescas. Não vejo problema nisso, pois estou acostumada às críticas. Mas permita-me ser absolutamente clara: eu não estou dizendo que você não deve beijar a pessoa amada antes do casamento. Só estou dizendo que vocês deveriam pensar seriamente a respeito disso

Permita-me deixar outro ponto bastante claro: a comunicação é fundamental. João, que não conversou com Catarina antes de tomar a decisão de não beijá-la antes do casamento, me disse o seguinte: é importante que os rapazes compreendam que sua namorada ou noiva “não é inimiga deles”.  

“Percebi que tinha o dever de nos proteger daquilo que estava dentro de nós, e quando conversamos sobre isso, descobri que ela queria meu bem tanto quanto eu queria o dela; só precisei ser claro com ela”, disse.

Não posso mentir e dizer que é uma escolha fácil, particularmente se o beijo for um elemento habitual de seu relacionamento. Será difícil, mas todos os sinais mostram que essa decisão enriquece bastante o relacionamento. Ela também tornará o dia do seu casamento muito mais especial em razão do sacrifício feito. 

João disse que beijar sua esposa fora da igreja após o casamento foi um dos momentos mais felizes de sua vida.

“Ficamos cheios de alegria e paz por saber que havíamos lutado e nos sacrificado por mais de dois anos, e que aquele sacrifício estava dando frutos num gesto completamente puro e casto que glorificava a Deus”, disse ele.

Num mundo tão dominado pelo pecado, pode ser tentador fazer o mínimo absoluto, contanto que não cometamos algum pecado. Ainda assim, isso já seria melhor do que a média, não? Eu diria, porém, que esse tipo de decisão exige de nós ainda mais virtude. O pecado desmedido deve ser correspondido com a virtude num grau ainda maior, especialmente quando somos chamados a ter um padrão elevado de moralidade.    

Temos de ser faróis luminosos que levam a luz e a alegria de Cristo para o mundo, e não podemos fazer isso sendo simplesmente melhores do que a média. Só podemos fazer isso quando nos tornamos excepcionais.

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Homem e mulher Ele os criou, e por uma boa razão
Fé e Razão

Homem e mulher
Ele os criou, e por uma boa razão

Homem e mulher Ele os criou, e por uma boa razão

A relação entre homem e mulher não é como a amizade entre duas pessoas quaisquer. Ela não é uma relação de boa vizinhança, de associação num negócio, ou de interesses comuns em um clube. Homem e mulher são capazes de gerar vida nova. E só eles podem fazê-lo.

Anthony EsolenTradução: Equipe Christo Nihil Praeponere13 de Agosto de 2021Tempo de leitura: 6 minutos
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Faz apenas seis anos [1] que escrevi Defending Marriage: Twelve Arguments for Sanity [“Defendendo o Matrimônio: Doze Argumentos pela Sanidade”, sem tradução brasileira], para lançar um alerta contrário à fantasia de que dois membros do mesmo sexo podem contrair casamento, pois eles não conseguem ter relações sexuais, podendo apenas realizar um arremedo delas. Meus argumentos não tiveram como fundamento a Escritura ou a doutrina da Igreja — na verdade, não fiz nenhuma menção a elas —, mas a observação geral [da realidade], precedentes históricos e culturais, bem como a biologia masculina e a feminina. 

O principal adversário que eu tinha em mente não era a pessoa já comprometida com a fantasia, mas a indecisa, a “moderada”, que pode ser encontrada em todos nós e muitas vezes não por mérito nosso. O subsolo da terra se agita, mas ficamos indiferentes porque as nossas casas não estão tremendo, ao menos não muito. Não devemos nos preocupar com tudo. Ninguém tem energia para isso. Portanto, numa época de mudanças rápidas e de decadência das nossas instituições fundamentais, apoiamo-nos naquilo que, por enquanto, parece saudável o suficiente para os nossos propósitos. “As escolas públicas são terríveis, mas a nossa não é tão ruim”, dizemos. “Ao menos os nossos filhos terão um pai e uma mãe”. O céu não está desabando.  

Previsões de desastre costumam falhar. Isso ocorre seja porque elas extrapolam tendências, que são temporárias, ou o índice de mudança de uma tendência, que é ainda mais provisório; seja porque imaginam um fator vindouro que confirma e acelera a mudança. Mas as previsões se cumprem às vezes, e isso não se dá por acaso. Quando a previsão é baseada na aplicação de princípios, quando se apóia em precedentes históricos e numa sólida compreensão da natureza humana, é bem provável que ela se torne verdadeira, sobretudo porque não se trata tanto de uma previsão quanto de uma análise fria e incisiva do que já é realidade. Foi esse o caso quando o Papa Paulo VI previu que o uso generalizado da contracepção levaria a mais abortos e mais bebês nascidos fora do casamento, e o mundo riu-se, desatento e irresponsável. Mas o mundo estava errado e o Papa, certo.

Parece que o mundo hoje parou de afirmar: “Conceder o direito ao matrimônio a duplas do mesmo sexo não afetará mais ninguém”; agora, ele começa a dizer que não importa o efeito que isso terá, porque direito é direito, e isso basta. É bastante claro o paralelo com o que aconteceu em relação à contracepção e ao aborto. No caso norte-americano Griswold vs. Connecticut, que revogou a lei que proibia a venda de pílulas anticoncepcionais, o juiz William Douglas, da Suprema Corte, fundamentou seu raciocínio na sagrada privacidade do leito conjugal, ignorando qualquer argumento de que a pílula transformaria a santidade deste leito em algo do passado. E aquela foi a última vez que escutamos da Suprema Corte algo sobre esse assunto. Disseram-nos que a legalização do aborto resultaria não em mais abortos, mas na mesma quantia de abortos “seguros”; e nenhum terceiro, nem mesmo o pai, deveria ter permissão para entrar no ambiente sagrado da relação entre a mulher e o seu médico. Aparentemente, a santidade é substituível.

Não digo que o céu desabará sobre nós. Já desabou. Já passávamos por períodos muito ruins. Somente um pequeno número de pessoas que estão na flor da idade são casadas. Então, argumentei que não deveríamos aprofundar ainda mais a discórdia entre homem e mulher. Como a falsa união entre pessoas do mesmo sexo poderia fazer isso? Bem, um princípio, ou a anulação dele, entra no sistema social como alimento genérico ou veneno. O veneno aqui é o seguinte: a negação de que homem e mulher são feitos um para o outro. Falo do Gênesis. O argumento é tanto biológico quanto antropológico. Antes de abordarmos a questão política de como as pessoas podem se unir por meio de salários, profissões, divisões geográficas, credos e níveis de educação, devemos uni-las por meio do primeiro e tremendo abismo na humanidade: aquele que separa homem e mulher; caso contrário, tudo o que dissermos sobre unidade será em vão. Não é possível construir uma cidade com entulho. 

Há seis anos, eu não imaginava que as relações entre os sexos nas nações desenvolvidas do Ocidente — os países onde a doença do individualismo sexual está mais avançada — poderiam deteriorar-se de modo tão ruim e veloz. Quando as pessoas homenageiam a inocência, podem expressar a masculinidade e a feminilidade de várias maneiras saudáveis. Os terrenos são abertos e seguros. Mas o mal pressiona o inocente. Um homem pode perder seu emprego se disser a uma mulher que é bonito o vestido que ela está usando. Ele será igualado aos canalhas que o colapso da moral sexual de fato produz. Ela, por sua vez, estará sempre insatisfeita com o seu destino e porá a culpa das suas desilusões no “patriarcado” — na sociedade menos patriarcal que já existiu sobre a terra. Os rapazes estão enfadados em seu isolamento sexual, o qual está para a castidade como a prostituição está para o casamento. As moças dizem ter orgulho dos abortos que realizam. Ficam nuas em público para protestar contra qualquer coisa, pois a histeria sempre encontrará uma causa.

Deus nos fez homem e mulher, e eu tendo a aceitar a sugestão de que a imagem de Deus estava incompleta em Adão sem Eva. Mas a sugestão não faz sentido algum para o feminismo ou a sua forma mais recente, seja no arremedo de sexo, seja no arremedo de matrimônio. Creio que seja esse o pecado original do feminismo, dele surgindo a fonte e a origem (fons et origo) do caos sexual e social com uma inevitabilidade triste, mas repentina. Uma pessoa sensata observa a relação entre homem e mulher e percebe que ela é única. Não é como a amizade entre homem e mulher. Não é como a amizade entre duas mulheres. Não é uma relação de boa vizinhança, ou de obediência numa criança, ou a ajuda mútua num negócio, ou os interesses comuns que existem num clube. A relação entre o homem e a mulher, e só ela, pode gerar vida nova: das crianças que tão negligentemente matamos, cuja inocência tão negligentemente corrompemos e cuja segurança no lar tão negligentemente abandonamos. Uma mulher precisa de um homem como um peixe precisa de uma bicicleta, disseram as feministas, sem parar para refletir que, não fosse pelos homens, elas não teriam nem peixe, nem bicicletas, nem ciclovias onde colocá-las.

Mas, se antes nós negávamos que o mais recente ímpeto da decadência sexual causaria dano ao matrimônio, agora nós passamos a não nos importar mais se isso acontecerá. Não preciso dizer que essa negligência é incompatível com a doutrina social da Igreja, que se baseia na realidade criada do matrimônio e da família, e que prescinde não de desejos individuais, mas dos deveres que temos uns para com os outros como membros de um corpo. O corpo social mais próximo da mão criadora de Deus é a união entre homem e mulher, que foi feita para gerar filhos ou, em caso de infertilidade, para ser um exemplo radiante dessa união, uma causa que sirva de modelo. Em relação a toda proposta que diga respeito a homens e mulheres, meninos e meninas, moral sexual e criação e educação dos filhos, devemos nos perguntar se ela afirma ou nega a realidade do matrimônio; se promove ou frustra a compreensão e a cooperação entre os sexos; se ela surge da gratidão ou do ressentimento, da esperança ou desespero, do materialismo individual deste ou daquele tipo, ou da alegria de filiação a uma sociedade integrada.  

Houve uma época em que os católicos, tanto à esquerda quanto à direita econômicas, concordavam quanto à finalidade para a qual tínhamos quaisquer economias; eles discordavam quanto aos meios. Já é hora de nos lembrarmos daquela finalidade.

Notas

  1. O autor Anthony Esolen publicou esse texto, originalmente, em 19 de março de 2020. Já faz sete anos, portanto, desde a publicação de seu livro.

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