CNP
Christo Nihil Præponere"A nada dar mais valor do que a Cristo"
Evangelize compartilhando!
Todos os direitos reservados a padrepauloricardo.org®
As vantagens de ser católico
Espiritualidade

As vantagens de ser católico

As vantagens de ser católico

De modo geral, todos tendemos a aceitar “o amor que imaginamos merecer”. Mas, na manjedoura de Belém, Deus se fez um de nós para que recebêssemos o seu amor, e não nos contentássemos com as mixarias deste mundo.

Equipe Christo Nihil Praeponere20 de Dezembro de 2019Tempo de leitura: 8 minutos
imprimir

Hoje está na moda falar de empatia. Num mundo tão tecnicista e cheio de distrações, as pessoas têm sentido falta de relações humanas verdadeiras, de olho no olho, de aperto de mãos, abraços, enfim, coisas que só um ser humano concreto pode oferecer. Chegamos a um ponto que não dá mais para esconder o profundo vazio e distanciamento que nossa sociedade está vivendo. Nas ruas, encontramos moças e rapazes oferecendo “abraços grátis”. Ora, empatia tem a ver com essa necessidade de conexão, com a atitude profundamente humana de colocar-se no lugar do outro e compartilhar dos mesmos sentimentos.

O ser humano não foi feito para ficar só. Está na sua natureza pessoal a busca por relações, nas quais ele possa reconhecer-se numa família; a descoberta do outro é, como salientava Gustavo Corção, uma das coisas mais fascinantes e admiráveis da existência, porque, estando “face a face com o outro, o homem está como diante de um espelho: inebriado, fascinado, enamorado numa espécie de narcisismo positivo que se abre para o louvor” [1]. O outro nos interroga e, ao mesmo tempo, nos consola, nos revela a nossa própria identidade pelo simples fato de nos estender a mão e, com isso, mostrar que somos feitos do mesmo barro.

Porém, quando essas relações não acontecem, o homem adoece e perde o elã da vida. Se falta empatia — ou seja, se falta amizade, compaixão, amor, companheirismo etc. —, nossas histórias acabam perdidas como cartas no baú, porque não temos com quem compartilhá-las; não há quem as escute, mesmo que seja para rir de nossas estrepolias. Tornamo-nos, de fato, uma mônada, uma bolha fechada em nossas próprias depressões. E aí surgem as máscaras de relações artificiais, de busca de alguma coisa que possa substituir os relacionamentos ausentes; as pessoas vão atrás de morfina para amenizarem a dor do tumor que lhes corrói a alma, submetendo-se a qualquer tipo de coisa para deixarem de ser invisíveis.

É isso o que notamos no romance As vantagens de ser invisível, de Stephen Chbosky, por exemplo. A história gira em torno do adolescente Charlie, um jovem bastante tímido, que, após algumas experiências traumáticas na infância, acaba bastante debilitado emocionalmente, sofrendo de fortes alucinações. Para aliviar seus sentimentos, ele escreve cartas em uma espécie de diário, no qual despeja todos os seus pensamentos sem qualquer medo de censura ou depreciação. Mas tudo começa a mudar na vida dele, quando Charlie ingressa no ensino médio e passa a ser “percebido” pela turma de “descolados” do colégio.

Nesse novo ambiente, Charlie tem a oportunidade de mostrar como ele se sente, porque encontra um ambiente de cumplicidade. Assim como ele, os seus amigos têm sede de viver algo em profundidade, não temendo os riscos do que suas atitudes podem acarretar. É emblemática a cena em que a jovem Sam, paixão secreta de Charlie, sobe na carroceria do carro de seu irmão, e abre os braços para experimentar o vento correndo sobre seu corpo e, desse modo, “sentir-se como o infinito”. De fato, eles têm desejo de um amor para além deste mundo, que os faça sair da bolha na qual estiveram aprisionados por tanto tempo.

Aos poucos, porém, Charlie vai descobrindo as feridas e os segredos de cada um de seus amigos, e como ainda estão vazios, mesmo com todas as suas festas, transgressões e rebeldias. Ele mesmo tem um encontro com suas “chagas” depois de ser privado da presença de seus companheiros, que o distraíam da sua interioridade bagunçada. Certo dia, vendo sua irmã ser agredida pelo próprio namorado, ele se intriga com aquilo e pergunta ao seu professor de inglês, com quem mantinha certa confiança: “Por que pessoas legais escolhem pessoas erradas para namorar?” E o seu professor responde: “Aceitamos o amor que imaginamos merecer”.

Na mosca. A maior parte dos personagens de As vantagens de ser invisível vive esse terrível drama de contentar-se com qualquer aparência de amor que sirva para retirá-los da fossa, por assim dizer. Eles sentem, sim, desejo do amor infinito (desiderium naturale videndi Deum, diriam os escolásticos), mas, por se julgarem tão antiquados e fora dos padrões, vão se entregando às aventuras da vida, porque, no fim das contas, acreditam ser a única coisa que lhes resta. E é assim que Charlie aparece, uma hora, na fila da Comunhão, junto com seus pais, para receber a Santíssima Eucaristia e, depois, na casa de seus amigos, para consumir drogas. Ele também aceita o amor que julga merecer.

Na realidade, nós todos experimentamos essa sensação terrível de querer algo infinitamente superior às nossas próprias forças e capacidades, e, ao mesmo tempo, julgarmo-nos dignos apenas das mixarias que a história nos oferece, porque não encontramos quem possa se conectar a nós mesmos, de maneira tão profunda como gostaríamos. Temos sede de absoluta empatia, mas nós não nos amamos o suficiente para renunciar àquilo que nos destrói a alma. Esse é um daqueles muitos paradoxos da humanidade, sobre os quais tanto escrevia G. K. Chesterton.

Chesterton também precisou passar pelo fio da navalha, até finalmente encontrar-se com a resposta que tanto procurava para seus dilemas. No seu livro Ortodoxia, ele afirma que sua vida pode ser definida como a viagem de um homem que sai à procura do infinito, da verdade mais profunda de seu ser, e a acaba encontrando no lugar mais improvável: a sua própria casa, de onde saíra

Durante toda a sua juventude, ele viveu tormentos profundos e grandes dúvidas espirituais, que o fizeram passar do ateísmo ao agnosticismo, de modo que ele chegou a pensar no suicídio. Mas ao abrir-se ao mistério do cristianismo, que ele havia ignorado por tanto tempo, Chesterton descobriu novamente a alegria da religião verdadeira, que nos conecta com o amor infinito que tanto procuramos. E as coisas que estavam invisíveis ao seus olhos tornaram-se claras, sobretudo o Homem Deus que veio se colocar no lugar da humanidade, num admirável intercâmbio.

Em sua obra mais vigorosa, O Homem Eterno, Chesterton observa como Jesus realiza, com sua misteriosa Encarnação, o mais perfeito gesto de empatia que homem algum jamais imaginou. Esse gesto, diz Chesterton, começa justamente onde tudo começou para o ser humano: na caverna. Ele escreve assim:

A segunda metade da história humana, que foi como uma nova criação do mundo, também começa numa caverna. Até se constata um detalhe dessa fantasia no fato de animais estarem mais uma vez presentes pois se deu numa caverna usada pelos montanheses das regiões altas de Belém, que ainda hoje conduzem seu gado para essas grutas e cavernas para o pernoite. Foi num lugar assim que um casal sem teto se refugiou junto com o gado quando as portas da apinhada estalagem haviam sido fechadas na cara deles; e foi num lugar assim, exatamente debaixo dos pés dos passantes, num subterrâneo sobre o próprio chão do mundo, que Jesus Cristo nasceu. Mas nessa segunda criação houve algo realmente simbólico nas raízes da rocha primeva ou nos chifres da pré-histórica manada. Deus era também um homem das cavernas e também havia desenhado estranhas formas de criaturas, curiosamente coloridas, sobre a parede do mundo; mas as pinturas do mundo feitas por ele ganharam vida [2].

No mais humilde dos berços, e na mais discreta de todas as maternidades, repousava o menino Jesus, em quem Chesterton descobriu não apenas outra pessoa, mas o Totalmente Outro que não se contentou em ser consubstancial ao Pai, e quis também ser consubstancial ao homem, para dar-lhe uma nova filiação. E, assim, Chesterton pôde experimentar a mesma alegria dos pastores de Belém, porque também lhe nascera na Cidade de Davi um Salvador. E ele poderia encontrar esse menino sempre que quisesse, poderia debruçar-se sobre o seu peito e confessar-lhe todos os tormentos, poderia comungar na sua mesma mesa eucarística, poderia alegrar-se com suas parábolas e também chorar suas feridas; poderia, afinal, ser um e todos ao mesmo tempo, numa autêntica família, porque, de fato, a Igreja, Corpo Místico do menino Deus, “não é um movimento e sim um lugar de encontro, um lugar de encontro para todas as verdades do mundo”.

Com o mistério do Natal, Jesus veio merecer para todos os homens o amor que tanto desejamos, mas que, por nossos próprios méritos, não somos dignos de receber. Em suas andanças e pregações, Ele olhou nos olhos de muitos, deu abraços, chorou e compadeceu-se, acolheu doentes, ladrões e prostitutas, e todos paravam para ouvir as suas Palavras de Vida Eterna, “porque o Filho do Homem veio procurar e salvar o que estava perdido” (Lc 19, 10). Mais ainda: Cristo não só se recusou a condenar a adúltera, que aceitava qualquer amor por imaginar-se indigna de coisa melhor; Ele a fez enxergar um horizonte maior, para além da vida medíocre que ela levava. Jesus a redimiu e ajudou a buscar um novo sentido para sua existência.

Todos nós, seja Charlie, seja Chesterton, temos dentro de nossas almas uma mulher adúltera, que precisa ser urgentemente redimida. Por medo, podemos nos esconder do apedrejamento do mundo, buscando uma vida invisível, escondida na escuridão, onde talvez nos sintamos aparentemente mais seguros. Mas os fantasmas permanecem lá, no mesmo lugar, apenas esperando a oportunidade para nos atormentarem outra vez. E é então que deve nascer o Menino Deus, para nos trazer alegria e exorcizar de nossos corpos todos os falsos ídolos e reis, todo e qualquer fantasma de uma existência sombria e amarga. Porque Ele, diz o salmista, “não nos trata segundo os nossos pecados, nem nos castiga em proporção de nossas faltas”; “porque tanto os céus distam da terra quanto sua misericórdia é grande para os que o temem” (Sl 102, 10-11).

Que belo é esse amor, que belo é esse Deus que vem ao nosso encontro, e coloca-se no nosso lugar, como dizia São Gregório Nazianzeno, aceitando a pobreza de nossa condição humana para que nós recebamos os tesouros de sua divindade. No desfecho do diálogo de Charlie com seu professor, o jovem pergunta-lhe se é possível mostrar às pessoas que elas merecem um amor maior. “Nós podemos tentar”, responde-lhe o mestre. Mas Jesus não só tentou; ao contrário, aquele que possuía tudo em plenitude, aniquilou-se a si mesmo, despojou-se de sua glória por algum tempo, para que nós participássemos de sua plenitude. 

Para recebermos esses dons, basta que façamos como Chesterton e abramos os nossos olhos ao pequenino na manjedoura, que está ali quase invisível, enquanto nos distraímos com o mundo… Assim descobriremos as vantagens de ser católico.

Referências

  1. Gustavo Corção. Dois amores, duas cidades. Rio de Janeiro: Agir, 1967, v. 1, p. 33.
  2. G. K. Chesterton. O homem eterno. Cajamar: Mundo Cristão, 2010, p. 220.

Comentários

Os comentários são de responsabilidade exclusiva de seus autores e não representam a opinião deste site. Se achar algo que viole os termos de uso, denuncie. Leia as perguntas mais frequentes para saber o que é impróprio ou ilegal.

Quando será o dia do Juízo?
Espiritualidade

Quando será o dia do Juízo?

Quando será o dia do Juízo?

O conceito que ordinariamente fazemos do dia do Juízo é muito enganoso e muito errado. Consideramos o dia do Juízo como uma coisa medonha e espantosa, mas que está lá muito longe, e por isso nos não faz medo. Não é assim…

Pe. António Vieira17 de Dezembro de 2019Tempo de leitura: 8 minutos
imprimir

Cristo, Senhor nosso, disse a seus discípulos que o segredo daquele dia é reservado só ao Padre, e que nem os anjos do céu o sabem, nem ele o sabia em foro que o pudesse revelar: “De die autem illa et hora nemo scit, neque angeli in caelo, neque Filius, nisi Pater — Daquele dia e da hora, ninguém sabe, nem os anjos dos céus, nem o Filho, mas só o Pai” (Mt 24, 36). Contudo, eu me não arrependo, nem me desdigo do que prometi. Prometi de vos dizer com certeza quando há de ser o dia do Juízo. E quando cuidais que há de ser? 

Não vos quero ter suspensos. É hoje, foi ontem, há de ser amanhã, e não amanhece nem anoitece dia, que não seja certamente o dia do Juízo. Que coisa é o dia do Juízo? É um dia em que se há de acabar o mundo, é um dia em que Cristo nos há de vir julgar, é um dia em que havemos de dar conta de toda a nossa vida, e em que os bons hão de ir para o céu e os maus para o inferno. Não é esta a essência e substância do dia do Juízo? Sim. Pois isto é o que se faz hoje, o que se fez ontem, o que se há de fazer amanhã e todos os dias. Acaba-se o mundo todos os dias, porque para quem morreu acabou-se o mundo. Vem Cristo a julgar todos os dias, porque no ponto em que cada um expira, logo o vem julgar, e julga, não outrem, senão o mesmo Cristo. Toma-se conta, e estreitíssima conta de toda a vida, todos os dias, porque no dia da morte, e no mesmo instante dela, se toma e se dá esta conta. Finalmente, vão os bons para o céu e os maus para o inferno todos os dias, porque todos os dias os que morrem, ou são absoltos e vão para o céu, ou condenados, e vão para o inferno. Vamos agora ao Evangelho, e vejamos como este mesmo Juízo, e na mesma forma em que o tenho declarado, é o que hoje nos prega Cristo.

Tinha Cristo, Senhor nosso, pregado o mesmo Evangelho que ouvistes, tinha anunciado a seus discípulos os sinais tremendos que hão de preceder ao Juízo, e o poder e majestade com que o mesmo Senhor há de vir em pessoa a julgar o mundo, e conclui com as palavras que tomei por tema: “Amen dico vobis, quia non praeteribit generatio haec, donec omnia fiant — De verdade vos prometo e afirmo que não há de passar a presente geração, sem que tudo o que vos tenha dito se cumpra”. Este é um dos dificultosos lugares de toda a história evangélica. Uma geração, em frase da Escritura, quer dizer uma idade ou um século, porque o mais que chega a durar a vida humana são cem anos [...]. 

Aqui está a dificuldade. Daquele tempo para cá, tem passado mais de mil e seiscentos anos, e já temos contado dezesseis séculos, e estamos no século dezessete, e o dia do Juízo ainda não chegou. Além desta demonstração, segundo as opiniões que acima referimos, o mundo provavelmente ainda há de durar, ou muitos ou alguns séculos, antes do dia do Juízo, pois, como diz o Senhor, e com tão particular asseveração, que tudo se havia de cumprir dentro do mesmo século que então corria, e que se não havia de acabar aquele século sem que viesse o dia do Juízo: Non praeteribit generatio haec donec omnia fiant

Assim o disse e afirmou a verdade eterna, e assim se cumpriu naquele século, e cumprirá nos seguintes, porque nenhum homem houve naquele século, que dentro do mesmo século não tivesse o seu dia do Juízo. Como as vidas e as idades geralmente não passam de cem anos, nenhum homem há que não acabe a vida dentro do mesmo século a que pertence, e nenhum há que não seja julgado no tribunal de Cristo, e tenha o seu dia do Juízo no mesmo século. Os que morrem hoje têm o seu dia do Juízo hoje; os que morreram ontem, tiveram o seu dia do Juízo ontem; os que morrerem amanhã, e daqui a vinte anos, amanhã e daqui a vinte anos terão o seu dia do Juízo, mas sempre dentro do mesmo século e da mesma idade ou geração: Non praeteribit generation haec, donec, omnia fiant [...].

Aqui vereis qual é o tudo do dia do Juízo, e que é o que Cristo chama tudo. O tudo do dia do Juízo é a conta da vida que o mesmo Cristo há de tomar; é a sentença que há de dar, segundo os merecimentos dela; é o céu ou inferno para sempre, a que cada um há de ser julgado; o demais são acidentes e aparatos do Juízo universal, e não a substância do mesmo Juízo, a qual se não distingue dos juízos particulares. Desta substância e deste tudo do Juízo universal é que falou o Senhor na sua conclusão, e porque esta substância e este tudo se não distingue dos juízos particulares que se fazem na morte, por isso disse que tudo se havia de cumprir dentro daquele século, como verdadeiramente se cumpriu. 

E se quisermos reparar na propriedade das palavras donec omnia fiant, ainda acharemos nelas mais particular energia, porque no dia do Juízo final, não se há de fazer coisa alguma de novo, senão declarar-se somente o que já está feito. Os juízos particulares, que se fizeram na morte, esses mesmos são os que se hão de publicar no Juízo universal, e o juízo não se faz quando se publica a sentença, senão quando se dá: logo no dia da morte é que propriamente se faz o Juízo, e tudo isto, que faz agora, e não depois, é o que o Senhor disse que se havia de fazer dentro daquele século: Non praeteribit generatio haec, donec omnia fiant

Para tirar toda a dúvida, ouçamos ao mesmo Cristo em caso muito mais apertado, e que a podia fazer maior. No capítulo quinto de S. João, fala o Senhor do dia do Juízo final com maiores e mais intrínsecas circunstâncias, porque faz menção da ressurreição universal dos mortos, e da sentença, também universal, dos bons e dos maus, segundo o merecimento de suas obras: “Omnes qui in monumentis sunt, audient vocem Filii Dei: et procedent qui bona fecerunt, in resurrectionem vitae; qui vero mala egerunt, in resurrectionem judicii — Todos os que repousam nos sepulcros ouvirão a voz do Filho de Deus e sairão: os que tiverem feito o bem, para uma ressurreição de vida; os que tiverem praticado o mal, para uma ressurreição de julgamento” (Jo 5, 29-30). E declarando o mesmo Senhor quando há de ser este tempo, diz que há de vir, e que agora é: Venit hora, et nunc est (Jo 5, 25). 

Pode haver proposição mais encontrada? Há de vir o dia do Juízo, e já agora é? Se o dia do Juízo estava tão longe, se há mil e seiscentos anos que ainda não veio, e se ainda não sabemos quando há de ser aquele dia ou aquela hora, como diz o oráculo de Cristo que já é: Venit hora, et nunc est? Admirável e literalmente S. Jerônimo, e se eu lhe pedira o comento, não o pudera escrever com mais ajustadas palavras: “Quia quod in die judicii futurum est omnibus, singulis in die mortis completur — Aquilo que a todos acontecerá no dia do juízo cumpre-se em cada um no dia da sua morte”.

Diz o Senhor que o dia do Juízo há de vir, e que já é, porque, ainda que o dia do Juízo há de ser depois, e muito depois, o dia da morte é já agora; e o que se há de cumprir em todos no dia do Juízo, cumpre-se em cada um no dia da morte: Singulis in die mortis completur. Notai o completur. As outras profecias cumprem-se a seu tempo, esta do dia do Juízo tem o seu cumprimento antes de tempo, porque aquilo mesmo que se faz agora, é o que se diz que há de ser então. Então hão-se de examinar as obras, então há-se de pronunciar a sentença, então hão de sair uns absoltos, outros condenados, e tudo isto que então se há de fazer no dia do Juízo é o que se faz ou está já feito agora no dia da morte. Por isso diz o Senhor que aquele dia está por vir e já é: Venit hora, et nunc est. Nunc: agora. Estes dois advérbios de tempo, então e agora, sempre são opostos; mas no dia do Juízo, comparado com o da morte, ainda que a morte seja dois mil anos antes que o Juízo, não tem oposição. O agora é então, e o então é agora. No nosso Evangelho diz o mesmo Senhor: Tunc videbunt: então verão, e aquele então é agora, aquele tunc é nunc: Tunc videbut, et nunc est [...]. 

De maneira, senhores, que o conceito que ordinariamente fazemos do dia do Juízo é muito enganoso e muito errado. Consideramos o dia do Juízo como uma coisa medonha e espantosa, mas que está lá muito longe, como as serpes nas areias da Líbia, ou os crocodilos no Nilo, e por isso nos não faz medo. Não é assim; o dia do Juízo não está longe; está tão perto como o dia de amanhã, e como o dia de hoje, e como esta mesma hora em que estamos: Venit hora, et nunc est. O vale de Josafá não está só em Jerusalém, nem entre o Monte Sião e o Olivete; está em Lisboa, está neste mesmo lugar, e em todos os do mundo. Se vos tomar a morte no mar, ou na campanha, ou na vossa cama, o mar, a campanha, a vossa cama é o vale de Josafá, e esse dia, qualquer que for, é o vosso dia do Juízo, ou mais cedo, ou mais tarde, mas dentro deste mesmo século em que nascemos: Non praeteribit generatio haec, donec omnia fiant.

Comentários

Os comentários são de responsabilidade exclusiva de seus autores e não representam a opinião deste site. Se achar algo que viole os termos de uso, denuncie. Leia as perguntas mais frequentes para saber o que é impróprio ou ilegal.

Ainda é possível uma educação de fato católica?
Sociedade

Ainda é possível
uma educação de fato católica?

Ainda é possível uma educação de fato católica?

A educação verdadeiramente católica consiste em iniciar uma vida de aprendizado com o único e verdadeiro Mestre, Jesus Cristo, libertando a mente e o coração dos escombros de uma civilização em colapso, porque escrava de suas paixões.

Peter KwasniewskiTradução: Equipe Christo Nihil Praeponere17 de Dezembro de 2019Tempo de leitura: 7 minutos
imprimir

Todo o mundo diz que “a educação é a chave para o futuro, a solução para os nossos problemas, a única maneira de formar o destino da nação”. Mas quem realmente entende o que é a educação?

Para os burocratas do governo, muitas vezes é uma palavra da moda que significa: gastar muito dinheiro com profissionais que buscam interesses próprios, mesmo que muitas pesquisas demonstrem que os estudantes estão ficando cada vez mais imbecilizados, sem capacidade de raciocínio e conhecimento cultural — de fato, nem mesmo caligrafia legível, grafia correta ou gramática básica. Sem falar na imoralidade desenfreada que é promovida por “educadores” e legisladores, que evidentemente querem que a sociedade seja tomada por hordas de homens e mulheres escravos de suas paixões.

Educação, do latim ex ducere, significa “liderar” [1] — então, a questão lógica é: liderar a partir de quê e para quê? Da ignorância, do erro e do pecado, ao conhecimento, à verdade e à santidade. A educação deve refletir a trajetória do povo de Israel, conduzido da escravidão, no Egito, à liberdade em Canaã. A verdadeira educação pressupõe a revelação cristã da situação decaída do ser humano e da sabedoria do alto que pode curá-lo e elevá-lo.

Este é, de fato, o significado mais básico do tempo do Advento, com o qual a Igreja Católica, em seus ritos ocidentais, começa cada novo ano litúrgico: recomeçamos repetidas vezes a partir do desejo de libertação da escravidão, que perdura há muitos séculos e é também o nosso desejo. Como afirma São Paulo: “Sabemos que toda a Criação geme e sofre como que dores de parto até o presente dia. Não só ela, mas também nós, que temos as primícias do Espírito, gememos em nós mesmos, aguardando a adoção, a redenção do nosso corpo” (Rm 8, 22-23).

É necessário admitir que entre os seres humanos não existe um mestre que esteja completamente livre de ignorância, erro e pecado, por mais inteligente ou bem-intencionado que seja. Entretanto, alguns pecados são qualitativamente piores que outros; alguns erros são mais densos e nocivos que outros; e alguns tipos de ignorância são muito mais terríveis que outras. Os professores não precisam ser perfeitos para serem instrumentos eficazes da Sabedoria Eterna e Encarnada, que está além de todos nós. Basta que estejam atrelados à verdade que nos liberta; que indiquem a beleza da santidade; e que demonstrem a aspiração constante por descobrir a realidade das coisas. Se assim for, bem-aventurados serão os seus alunos, que compreenderão o que significa viver plenamente em Cristo.

Em 15 de dezembro de 2011, o Papa Bento XVI fez uma homilia, durante a oração das Vésperas com universitários de Roma, partindo da Carta de São Tiago (5, 7): “Tende, pois, paciência, meus irmãos, até a vinda do Senhor. Vede o agricultor: ele aguarda o precioso fruto da terra e tem paciência até receber a chuva do outono e a da primavera” (5, 7). Aí ele falou da “atitude interior de nos prepararmos para ouvir e acolher novamente o anúncio do nascimento do Redentor na gruta de Belém, um mistério inefável de luz, amor e graça”. Como professor, muitas vezes fico impressionado com quanta paciência, dedicação e atenção são necessárias, tanto por parte dos alunos quanto por parte das instituições de ensino, para se acolher a espantosa verdade de que a Palavra Eterna do Pai — a Sabedoria Divina em que e para quem todas as coisas existem — tornou-se homem, a fim de que possamos nos tornar como Deus, sendo “divinizados” através de sua graça.

Esta é a verdade determinante para a nossa salvação, é a premissa fundamental do cristianismo. Cada Advento nos recorda a necessidade que temos do auxílio de outrem — não apenas de outras pessoas, mas, de forma mais precisa, de outra fonte que não seja a humanidade decaída ou qualquer elemento da ordem natural. Cada Natal nos lembra da bondade inefável de Deus para conosco, não porque merecemos, mas porque necessitamos. Essa é uma verdade que qualquer pessoa — até a mais simples, pobre ou iletrada — é capaz de a ouvir e acolher, nela crer e se alegrar.

Infelizmente, também se trata de uma verdade que o mundo, a carne e o diabo odeiam ouvir e se esforçam incessantemente para suprimir com uma variedade de ferramentas: programas governamentais progressistas, doutrinação secularista compulsória, descrédito social, desprezo profissional, refutações sofísticas, alternativas ilusórias, ameaças violentas ou o velho silêncio. É por isso que, em todas as épocas, houve a necessidade e, sempre haverá, de que os católicos se formem como professores, pregadores, apologistas, escritores, testemunhas e líderes de referência. Porém, não haverá formação de católicos sem o mesmo tipo de trabalho árduo e persistência paciente que caracteriza o agricultor mencionado na Carta de São Tiago.

Santo Agostinho, um dos maiores pregadores e mestres de todos os tempos, compreendeu muito claramente que, para alcançar um entendimento básico dos mistérios da Revelação divina, é preciso dedicar-se a todo um grupo de discípulos com constância, energia e concentração. O trabalho é gratificante e desgastante para a nossa natureza humana; geralmente não vemos o que está por vir, de onde viemos ou como teremos sucesso. Nesse sentido, o Papa Bento XVI afirmou aos estudantes universitários na homilia supramencionada:

A exortação do Apóstolo à constância paciente, que no nosso tempo poderia deixar-nos um pouco perplexos, é na realidade o caminho para acolher profundamente a questão de Deus, o sentido que Ele tem na vida e na história, porque precisamente na paciência, na fidelidade e na constância da busca de Deus, da abertura a Deus, Ele revela a sua Face. Não temos necessidade de um deus genérico, indefinido, mas do Deus vivo e verdadeiro, que abra o horizonte do futuro do homem a uma perspectiva de esperança firme e segura, uma esperança rica de eternidade e que permita enfrentar com coragem o presente em todos os seus aspectos. 

Certamente é disso que a nossa época precisa: a revelação do rosto de Deus, para que possamos ter esperança. O mundo, tão amado por Deus e tão contrário a Ele, não conseguirá aquilo de que necessita sem homens e mulheres sedentos de Deus, que desejem ver sua face, e viver unidos a Ele, confiantes nas suas promessas  — e que, ao mesmo tempo, estejam capacitados para “responder em vossa defesa a todo aquele que vos pedir a razão de vossa esperança” (1Pd 3, 15).

As palavras do Papa emérito são fundamentais para prosseguirmos com o “cultivo” da vida intelectual, onde os resultados não são instantâneos e onde a tecnologia não pode substituir o caráter e a sabedoria:

A paciência é a virtude daqueles que confiam nesta presença na história, que não se deixam vencer pela tentação de depositar toda a esperança no imediato, em perspectivas puramente horizontais, em programas tecnicamente perfeitos, mas distantes da realidade mais profunda, aquela que confere a dignidade mais excelsa à pessoa humana: a dimensão transcendente, ser criatura à imagem e semelhança de Deus, trazer no coração o desejo de se elevar a Ele.

O objetivo da educação liberal não é formar seres perfeitos a partir da instrução de seres que já são perfeitos; mas iniciar uma vida de aprendizado com o único e verdadeiro Mestre, Jesus Cristo, libertando a mente e o coração dos escombros de uma civilização que está em colapso, porque é escrava de suas paixões. Os estudantes que recebem essa educação têm a oportunidade de encontrar uma liberdade espiritual mais preciosa do que todas as riquezas deste mundo.

Hoje, são as escolas católicas mais novas e geralmente muito pequenas e independentes que oferecem a seus alunos um ambiente católico propício à oração e ao discernimento, um currículo relevante, com professores dedicados, a oportunidade de amizades honrosas e a inspiração para buscar as verdades perenes sobre Deus, o homem e o mundo, sem as quais perecemos na miséria de nossos confortos materiais e em nosso desespero existencial.

Quando Natanael, de forma cética, pergunta: “Pode, porventura, vir coisa boa de Nazaré?” (Jo 1, 46), Filipe, ao responder, não inicia uma discussão, mas lhe faz um convite, e até um desafio: “Venha e veja”. Sim, precisamos ir e ver o que essas escolas estão fazendo a crianças, adolescentes e jovens adultos, futuros cônjuges, padres e religiosos. Elas estão atendendo a um chamado que é semelhante ao do Advento: praticar um cultivo paciente, fiel e inabalável dos corações e das mentes, para o bem das almas e a glória de Deus. 

Notas

  1. Aqui o autor dá uma etimologia parcial à palavra “educação”, partindo do verbo ducere, quando o mais comum seria partir dos verbos educare (“alimentar”) e educere (“tirar de dentro”). Apesar disso, as lições que ele extrai dessa definição um tanto quanto incomum são perfeitamente válidas e úteis (Nota da Equipe CNP).

Comentários

Os comentários são de responsabilidade exclusiva de seus autores e não representam a opinião deste site. Se achar algo que viole os termos de uso, denuncie. Leia as perguntas mais frequentes para saber o que é impróprio ou ilegal.

Um pecado que passa pela “porta dos fundos”
Sociedade

Um pecado
que passa pela “porta dos fundos”

Um pecado que passa pela “porta dos fundos”

Por que sequer as coisas que realmente precisam ser levadas a sério são tratadas por nós com irreverência e com “gracinhas”? Seremos um povo incapaz de cultivar um mínimo que seja de temor a Deus?

Equipe Christo Nihil Praeponere13 de Dezembro de 2019Tempo de leitura: 7 minutos
imprimir

“A Primeira Tentação de Cristo”, o infame “Especial de Natal” produzido este ano pelo canal de “humor” Porta dos Fundos em parceria com a Netflix, e no qual Nosso Senhor Jesus Cristo é retratado como homossexual, é ocasião oportuníssima para falarmos de um destes pecados esquecidos em nossa época, que passam pela “porta dos fundos” da vida de muita gente e quase nunca são enfrentados com a devida energia: trata-se da irreverência com o nome de Deus.

O fato de uma produção igualmente ofensiva, de mesma autoria, ter sido indicada ao prêmio de melhor comédia no Emmy 2018 (e ter ganhado) nos diz ainda mais: zombar da religião cristã não só se tornou comum, mas também motivo de reconhecimento e “merecidos” aplausos. A blasfêmia não só está na moda como há todo um aparato cultural para incentivá-la e servir-lhe de apoio.

A aposta dos blasfemos

Mas em que consiste mesmo esse pecado? O Catecismo da Igreja Católica (n. 2148) ensina que: 

A blasfêmia opõe-se diretamente ao segundo mandamento. Ela consiste em proferir contra Deus — interior ou exteriormente — palavras de ódio, de ofensa, de desafio, em falar mal de Deus, faltar-lhe deliberadamente com o respeito ao abusar do nome de Deus. São Tiago reprova “os que blasfemam contra o nome sublime (de Jesus) que foi invocado sobre eles” (Tg 2, 7). A proibição da blasfêmia se estende às palavras contra a Igreja de Cristo, os santos, as coisas sagradas. [...] A blasfêmia é contrária ao respeito devido a Deus e a seu santo nome. É em si um pecado grave.

O Pe. Antonio Royo Marín entra em mais detalhes em seu livro Teología moral para seglares (v. 1, n. 409), dividindo a blasfêmia em distintas espécies. No caso em questão, a irreverência de Porta dos Fundos poderia caracterizar-se muito bem como uma blasfêmia imediata, porque “vai diretamente contra Deus ou seus divinos atributos”, de obra, já que se trata de uma atuação artística antirreligiosa, e sobretudo diabólica, porque “tem a expressa intenção de injuriar a Deus” em si mesmo.

É claro que os diretores, produtores e atores dessa peça de evidente mau gosto contam com uma, digamos, “variável ateia”: pensam que nem Deus nem o diabo existem e, por isso, tudo o que estão fazendo não passa de simples “brincadeira”, destinada a ofender e ridicularizar apenas as pessoas que, sim, acreditam em Deus.

Mas, tomando emprestada a ideia de Blaise Pascal, essa é uma aposta que tem tudo para dar errado. De fato, se Deus não existisse, os porteiros-dos-fundos deveriam ganhar seu dinheiro de forma honesta, fazendo inclusive boa comédia [1], sem ultrajar a religião de milhões de brasileiros, ainda que não concordem com ela (será que eles seriam capazes de fazer isso?). Agora, se o Deus cristão de quem zombam realmente existe — como demonstra não só a Revelação divina, mas a própria razão natural —, então os piadistas blasfemos têm tudo a perder, principalmente a eternidade.

Que conste em nosso Código Penal um artigo tipificando o crime de ultraje a culto (art. 208), é um resquício, ainda que muito distante, desse pensamento que leva em conta o eterno, e não apenas o meramente material. É por isso que, no Brasil, ainda é crime “vilipendiar publicamente ato ou objeto de culto religioso”. Nem todo pecado deve, é verdade e a Igreja tem consciência disso, ser criminalizado, mas o desprezo explícito ao sagrado não pode, definitivamente, ficar impune. Por isso, os cristãos têm razão mais do que suficiente em procurar os meios legais a fim de reparar essa ofensa, que agride os sentimentos, não só religiosos, mas também culturais de boa parte do nosso povo.

Agora, que ateus e anticlericais zombem do nome de Deus, no fundo, não nos deveria impressionar tanto. Que em seu coração eles nutram ódio e desprezo por Alguém em quem nem sequer acreditam, é até, por assim dizer, compreensível. Afinal, quem é para eles Jesus Cristo senão um estraga-prazeres? E que são para eles os dogmas da fé, os Mandamentos, os sacramentos da Igreja, os símbolos cristãos, a vida dos santos todos, enfim, senão um apelo incômodo a suas consciências, um lembrete de que, por mais que tentem se enganar, os homens não podem viver como quiserem, mas devem arcar, já nesta vida, com as consequências inevitáveis de seus atos?

O conhecido filósofo Friedrich Nietzsche, por exemplo, podia até tentar anular seu inferno decretando a “morte de Deus”, mas, mais tarde, a verdade fatalmente lhe viria à tona, ainda que em forma de sífilis. O homem que num ato de sinceridade extrema escreveu: “Se houvesse deuses, como poderia eu suportar não ser um deus?”, no fim da vida depararia com a verdade que ele por tanto tempo procurou sufocar: não somos nós que decidimos como as coisas são ou deixam de ser, não é o homem o autor do bem e do mal; nós existimos por causa de Outro, e a Ele devemos obediência.

A irreverência dos católicos

Voltemos, porém, ao fio da meada e tiremos uma lição bem concreta do caso. Mais trágico e dramático que a blasfêmia dos descrentes é que nós, católicos, também façamos tão pouco caso do santíssimo nome de Deus. Sim, nós mesmos, que fomos batizados, vamos à Missa todos os domingos e talvez até tenhamos uma vida espiritual: como temos tratado o nome do Deus em quem dizemos crer? 

Menos grave do que a blasfêmia, mas muito mais comum do que ela, está o pecado de “proferir sem motivo algum ou sem a devida reverência o nome santo de Deus”. O Pe. Royo Marín (op. cit., n. 405-407) explica que: 

Em si, esse emprego vão do nome santo de Deus é pecado (cf. Eclo 23, 9-11), ainda que não costume passar de venial, por tratar-se de uma irreverência leve. Mas poderia ser mortal se o emprego dessas fórmulas irreverentes fosse expressão de desprezo de Deus (pecado gravíssimo) ou de ira contra Ele (v.gr., pelos castigos divinos), ou fosse motivo de escândalo para os demais (v.gr., de irritá-los fazendo-os blasfemar etc.).

Nessa matéria, os católicos precisamos fazer um grande exame de consciência e um mea culpa: tomar cuidado, antes de tudo, com a nossa própria língua, pois muitas vezes, por impaciência, por admiração e até por rotina, nos acostumamos a proferir o nome de Deus de qualquer modo. 

“O Escarnecimento de Cristo”, por Leo Steel.

Mas não só isso. A mania do brasileiro de fazer troça de tudo precisa ter limites. (Sim, nessa matéria “a zoeira tem limites”, precisa tê-los.) Uma imagem muito ilustrativa do que muitos têm feito com as coisas santas está nas obras sacras que retratam o escarnecimento de Cristo. Retratos muito expressivos desse episódio da vida de Nosso Senhor foram pintados por Gerard van Honthorst, Trophime Bigot e Hendrick Terbrugghen. Procurem essas obras de arte no Google e reparem todos se os rostos de zombaria ao redor de Nosso Senhor não poderiam muito bem ser os nossos, quando nos divertimos com as piadas que vemos (e fazemos) das coisas santas; com os memes e figurinhas de WhatsApp que muitos (católicos!) compartilhamos com imagens de Jesus Cristo, de Nossa Senhora e dos santos. 

Ora, nós realmente cremos em tudo o que está no Credo? Cremos em Jesus Cristo, que virá a julgar a vivos e mortos? Se sim, por que insistimos em achar graça justamente do que ofende a Nosso Senhor? Por que até mesmo as coisas que realmente precisam ser levadas a sério são tratadas por nós com irreverência e “gracinhas”? Seremos um povo incapaz de cultivar um mínimo que seja de temor a Deus?

Um bom modo de começar é procurando cultivar um respeito básico pelas pessoas ao nosso redor. Afinal, se não respeitarmos o próximo [2], a quem vemos, como conseguiremos respeitar a Deus, a quem não vemos (cf. 1Jo 4, 20)? 

Outra prática muito salutar nesse sentido é fazer alguma espécie de reverência, nem que seja interna, sempre que ouvirmos ao nosso redor o nome de Deus (e também quando o proferirmos sem muita reflexão). A liturgia católica tradicional nos insere nessa pedagogia ao prescrever que os fiéis se inclinem sempre que forem mencionados os nomes de Jesus e de Maria; quando manda que nos ajoelhemos diante do mistério da Encarnação, na oração do Credo e na proclamação do prólogo de São João, no fim das Missas; e também quando celebra festas como a do Santíssimo Nome de Jesus (no domingo entre a Oitava do Natal e a Epifania, ou no dia 2 de janeiro) e de Maria (em 12 de setembro).

Todos esses são cuidados de amor que precisamos aprender a cultivar, sob pena de nos transformarmos justamente naquilo que tanto repudiamos no mundo. Evidentemente, ninguém está equiparando a blasfêmia diabólica do Porta dos Fundos às irreverências (em grande parte irrefletidas) dos que crêem. Ao contrário dos protestantes, nós sabemos bem que existem graus de gravidade nos pecados. Mas também não podemos dar de ombros para essas “pequenas” coisas, quando elas têm como alvo um Deus tão grande.

Façamos, portanto, a nossa lição de casa. Se queremos que o mundo respeite Nosso Senhor, se queremos que Ele reine não só nos corações, mas também nos lares, nos meios de comunicação, nos governos e no espaço público como um todo, sejamos nós os primeiros a honrá-lo de todo coração, a começar pela boca.

Notas

  1. Diz o Aquinate: “O divertimento (ludus) é necessário à vida humana. Ora, para tudo o que é útil à existência podem ser instituídos alguns ofícios honestos, entre os quais também o ofício dos comediantes. Destinada a distrair as pessoas, essa profissão nada tem, em si, de ilícito, nem vivem em pecado os comediantes, desde que atuem com moderação, ou seja, não usando palavras nem cometendo ações ilícitas, nem levando na brincadeira assuntos e situações inadequadas para isso. E, embora na sociedade não desempenhem outro ofício em comparação com os outros homens, contudo, no que diz respeito a eles próprios e a Deus, realizam também outras atividades sérias e virtuosas, quando, por exemplo, oram, quando tratam de conciliar suas paixões e atividades e também quando dão às vezes alguma esmola aos pobres. Por isso, os que razoavelmente os subsidiam não pecam, mas procedem com justiça, recompensando-lhes o serviço. No entanto, os que superfluamente despendem os seus bens com tais pessoas ou sustentam profissionais afeitos a divertimentos ilícitos, cometem pecado, porque, na prática, os estimulam a pecar” (S. Tomás de Aquino, STh II-II 168, 3 ad 3).
  2. Sem falar que a zombaria das outras pessoas é também um pecado especial, que pode tornar-se inclusive mortal, segundo S. Tomás de Aquino (cf. STh II-II 75, 2 c.).

Comentários

Os comentários são de responsabilidade exclusiva de seus autores e não representam a opinião deste site. Se achar algo que viole os termos de uso, denuncie. Leia as perguntas mais frequentes para saber o que é impróprio ou ilegal.