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Nada pode agradar a Deus mais do que a Santa Missa
Espiritualidade

Nada pode agradar a Deus
mais do que a Santa Missa

Nada pode agradar a Deus mais do que a Santa Missa

Assistir à Missa é um exercício da mais excelente de todas as virtudes morais: a virtude da religião. Por isso, tomar parte nela é sempre a melhor coisa que um católico pode fazer. E isso independentemente de ele comungar ou não.

Peter KwasniewskiTradução: e adaptação da Equipe Christo Nihil Praeponere4 de Março de 2020Tempo de leitura: 7 minutos
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Se alguém lhe perguntasse por que Nosso Senhor instituiu a Missa, o que você diria? Você seria capaz de explicar a essa pessoa por que a Missa é necessária para que tenhamos um relacionamento apropriado com Deus [1]?

Depois da tragédia cósmica de Adão e Eva, a espécie humana mergulhou nas trevas, na miséria e na culpa. Cada um de nós sofre dessa tragédia; porém, não podemos salvar a nós mesmos. É por isso que precisamos de um salvador. Jesus Cristo nos libertou do abismo do pecado e da morte por meio dos mistérios de sua vida e, acima de tudo, de sua morte na Cruz, quando se ofereceu ao Pai num ato de amor infinitamente agradável. Ele nos liberta do mal e nos dá acesso à eternidade nos sacramentos da Igreja.

Como Deus é nosso criador, redentor e santificador, nós devemos tudo a Ele. Temos uma dívida de justiça e amor para com Ele que jamais poderemos pagar de um modo que seja digno de sua imensa bondade e dos dons que Ele nos dá. Nós nunca poderemos adorá-lo ou agradecer-lhe o bastante. Acima de tudo, precisamos estar unidos a nosso Redentor em seu sacrifício na Cruz, de modo que a vitória obtida para a humanidade em geral possa ser aplicada a cada um de nós em particular. A vitória de Cristo sobre o pecado e a morte se torna nossa quando nos tornamos um com Ele.

Por isso a Missa é uma obra-prima da sabedoria e da misericórdia de Deus. Nela, Nosso Senhor torna presente seu sacrifício na Cruz pela oferta do mesmo Corpo e Sangue que foram oferecidos ao Pai pela nossa salvação. Ele anula os dois mil anos que nos separam do Calvário e nos leva até a sua Cruz, suas chagas sagradas, seu Sangue precioso, seu Coração trespassado.

Quando nos unimos livremente a essa oferta pelas mãos do sacerdote, rendemos a Deus a glória e a honra que Ele merece, o culto que lhe é devido e que jamais poderíamos oferecer por conta própria. O Pai olha para nós e diz: “Vós me destes aquilo que me agrada — meu único Filho, em quem ponho minha afeição”. É por isso que a Missa é a oração mais perfeita e a coisa mais excelente que nós podemos oferecer a Deus.

Assim sendo, é possível entender por que foi muito conveniente que surgisse na Igreja Católica a celebração diária da Missa por cada sacerdote: tais ofertas multiplicam e distribuem os efeitos dessa única e sagrada oblação continuamente, no tempo e no espaço, a todos nós que dela tão avidamente necessitamos.

Por que assistimos à Missa?

Ao abordar a questão a partir dessa perspectiva, podemos entender melhor uma característica das vidas dos santos que pareceria estranha aos católicos modernos — a saber, que muitos santos assistiam à Missa duas ou até mais vezes por dia, ainda que muitas vezes não recebessem a Comunhão (fossem leigos ou religiosos). O rei São Luís IX “ouvia Missa” (como se costumava dizer) duas vezes por dia. Até sacerdotes iam à Missa mais de uma vez ao dia: sabemos pelos relatos da vida de Santo Tomás de Aquino que ele celebrava sua Missa diária com seu secretário Reginaldo de acólito; em seguida, trocavam de lugar e Tomás acolitava para Reginaldo.  

Essa postura se torna perfeitamente compreensível quando a analisamos através das lentes do dogma católico. Já que a Missa é em si um sacrifício verdadeiro e conveniente, infinitamente agradável a Deus, assistir a ela, unindo nosso preito interior ao serviço do sacerdote, é um exercício perfeito da mais excelente de todas as virtudes morais: a virtude da religião, que honra a Deus tal como nos obriga o Primeiro Mandamento — e como o Senhor Jesus Cristo está real, verdadeira e substancialmente presente sob as formas do pão e do vinho, também somos levados até a sala do trono do Rei dos Reis e Senhor dos Senhores, para prestar-lhe o culto de adoração que Ele merece (e recompensa).

Contra o reducionismo sacramental

Sem o espírito de oração exemplificado pelos santos [2], a recepção da Comunhão pode se tornar um ritual quase sem sentido, algo que uma pessoa “faz” porque todas as outras o fazem. Na verdade, a Comunhão pode ser tornar uma ocasião para atrair sobre si a culpa do desprezo pela mais sagrada de todas as coisas sagradas

Hoje, se alguém procura na internet pela expressão “assistir à Missa duas vezes num dia”, os únicos resultados que aparecem dizem respeito à recepção da Comunhão duas vezes no mesmo dia. Tudo foi reduzido a essa questão apenas. É simplesmente inconcebível a ideia de que alguém possa assistir à Missa duas vezes e talvez não comungar em nenhuma delas. Na minha opinião, isso reflete uma falta de compreensão a respeito do que é a Missa, que caminha paralelamente com a falta de compreensão sobre a Presença Real. 

Nosso Senhor se faz presente na Santíssima Eucaristia por diversas razões: primeiro, para que possamos fazer uma oferta digna à Majestade divina; segundo, para que não sejamos privados da força e da consolação de sua amizade entre nós; terceiro, para que possamos tomar parte nele pelo bem de nossas almas. Sem subestimar ou denegrir a Comunhão frequente, ainda vale a pena nos perguntarmos até que ponto entendemos que a Missa é um ato de adoração necessário, valioso e frutífero em si mesmo.  

Bastam essas duas razões — que possamos exercer a virtude da religião e adorar Nosso Senhor com uma intimidade privilegiada — para mostrar que assistir à Missa é o melhor que um católico pode fazer, mesmo sem considerar a questão de se ele deve ou não receber a Comunhão [3]. São Pedro Julião Eymard (1811–1868) disse: “Sabe, ó cristão, que a Missa é o ato mais sagrado da religião. Não há nada mais agradável a Deus, nem mais benéfico para tua alma do que assistir à Missa com devoção e sempre que possível.”   

Estamos preparados para mais? 

É verdade que temos de equilibrar nossas obrigações religiosas com os outros deveres da vida, mas se Santo Tomás de Aquino, que escreveu 50 volumes in-fólio da mais refinada teologia escolástica, e São Luís IX, que governou um reino e lutou nas Cruzadas, puderam dispor de tempo para duas Missas por dia, será difícil encontrar uma boa desculpa para não assistir à Missa sempre que pudermos — naturalmente, desde que uma Missa celebrada de forma piedosa e reverente esteja disponível em nossa vizinhança.

É verdade que monges, religiosas e frades possuem algumas vantagens claras: por serem celibatários e consagrados a Deus, sua vida inteira pode ser estruturada em torno da liturgia da Igreja — o Ofício Divino e o Santo Sacrifício da Missa. Eles não têm nenhuma desculpa para não mergulhar na adoração litúrgica a Deus. Do mesmo modo, santos monarcas têm servos para cuidar de suas necessidades básicas, e eles não têm de se preocupar com o próprio ganha-pão. Também possuem muito tempo à sua disposição. 

Mesmo assim, ainda é verdade que nós — que, não por mérito próprio, recebemos o dom da fé, e que pela fé reconhecemos a santidade e a justiça transcendentes de Deus, bem como suas legítimas exigências em relação a toda a Criação — exercemos um papel especial na restauração e renovação dessa Criação quando pela oração nos unimos à oblação do Mediador entre o Céu e a terra. Quando assistimos à Missa com devoção, promovemos o Reino de Deus: somos agentes da cura e da elevação do mundo

Tudo isso já era verdade antes mesmo de considerarmos o mais admirável de todos os dons do Senhor, por meio do qual Ele permite — aliás, convida-nos, quando estamos bem preparados — que nos aproximemos com temor e tremor do altar do “sacrifício pleno e definitivo” e participemos dos mistérios sagrados e vivificantes de Cristo.  

Qual o seu plano para a Quaresma?

No Rito Romano tradicional, o único período do ano que possui uma Missa especial para cada dia, com antífonas, leituras e orações próprias é a Quaresma, que foi considerada um “tempo de salvação” e nos convida a observar com muito mais seriedade nossas orações (públicas e privadas), jejum e abstinência, esmola e obras de misericórdia espirituais e corporais. 

Sempre que possível, deveríamos fazer da Missa diária o eixo em torno do qual gira nossa Quaresma. Trata-se de uma forma muito prática de dar a Nosso Senhor uma renovada primazia em nossas vidas.

Na Quaresma, aqueles que já assistem à Missa diária poderiam tentar chegar alguns minutos antes do usual, permanecer mais alguns minutos depois ou acrescentar — seja nessa ocasião ou em outro momento do dia — um trecho do Ofício Divino, que prepara e prolonga os frutos da Missa.    

A regra de vida do católico é simples, mas profunda: viver da Missa e para a Missa.

Notas

  1. Essa necessidade remonta ao início da história e ao período da antiga Lei de Moisés: toda a humanidade já estava ordenada à adoração ao Pai no e pelo Filho, mesmo antes da revelação plena desse mistério. O pecado original introduziu uma nova dimensão: o rompimento do vínculo de amizade exigia cura e aplacamento. Podemos dizer, sem exagero, que em última instância o homem foi criado para assistir à Santa Missa e entrar no santuário celeste por meio dela. Aqueles que, como Noé, Abraão, Moisés e Davi, não tiveram acesso a ela, não obstante desejaram-na implicitamente com a mesma fé com a qual desejaram a intervenção do Salvador de Israel, o Cristo (n.d.a.).
  2. Omitimos nesta tradução um trecho em que o autor fala de sua experiência pessoal com os monges beneditinos de Nórcia, que rezam a Santa Missa na Forma Extraordinária do Rito Romano. Já falamos sobre esses religiosos aqui no site; só omitimos a menção a eles por causa do tom mais íntimo do relato e por entendermos que o excerto era prescindível para o desenvolvimento da ideia que o autor pretendia transmitir. Aqui, em “Sem o espírito de oração exemplificado pelos santos”, a fim de apresentar aos leitores um texto contínuo, tomamos a liberdade de substituir “monges” (do original) por “santos”, pois, no fundo, a prática de assistir à Missa sem necessariamente comungar é comum a ambos os grupos (n.d.t.).
  3. Se as normas de jejum fossem mais exigentes, por exemplo, haveria dezenas de vezes em que, mesmo não nos encontrando em estado de pecado mortal, ainda assim estaríamos impedidos de aproximar-nos do altar. E isso é bom para nos humilharmos e considerarmos a grandeza do que estamos fazendo. Se soubéssemos que as pessoas permanecem em seus bancos por outras razões que não o pecado grave, o sentimento de pressão social para ir à Comunhão seria muito menor (n.d.a.).

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Padre oferece o próprio câncer pelas vítimas de pedofilia do clero
Testemunhos

Padre oferece o próprio câncer
pelas vítimas de pedofilia do clero

Padre oferece o próprio câncer pelas vítimas de pedofilia do clero

Este padre pediu a Deus uma forma de reparar os crimes de pedofilia na Igreja e agora ele está oferecendo o próprio câncer como uma cruz pelas crianças abusadas. Conheça a história dele e entenda o significado da “expiação vicária” em Cristo.

Equipe Christo Nihil Praeponere4 de Março de 2020Tempo de leitura: 11 minutos
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E se nesta Quaresma você resolvesse oferecer a Deus uma mortificação pelas vítimas de abuso sexual na Igreja? A ideia parece ousada, mas foi exatamente o que fez o padre John Hollowell, da diocese de Indianápolis, nos Estados Unidos.

Os escândalos de pedofilia, que causaram tanto sofrimento dentro e fora da Igreja nos últimos anos, também perturbaram a alma sacerdotal do padre Hollowell. Em 2001, quando ele ingressou no seminário, faltava pouco tempo para a primeira bomba estourar. Depois de a reportagem de The Boston Globe sobre a rede de abusos sexuais praticados por padres católicos vir a público, outros casos semelhantes apareceram em todo o mundo, como uma epidemia. E o jovem seminarista Hollowell assistiu àquilo tudo atônito, como se estivesse dentro de um prédio em chamas prestes a ruir.

O pe. John Hollowell, da diocese de Indianápolis (EUA).

Ainda assim, ele decidiu seguir em frente com a sua vocação. Em 2005, quando se encontrava em Roma para completar os estudos teológicos, Hollowell teve a chance de ouvir umas palavras de um sacerdote mais velho que residia no mesmo seminário, durante um “ano sabático”. Esse sacerdote lhe disse: “Quando entrei no seminário, eu era respeitado por minha família e todos estavam felizes por minha decisão. A Igreja dos Estados Unidos vivia a sua melhor época. Mas agora ela está na sua pior crise, e mesmo assim você escolheu ser padre. Obrigado”.

Hollowell foi então ordenado sacerdote com a convicção de que entraria num campo de batalha, onde a Igreja já não desfrutava do mesmo prestígio de antes. Em 2018, o escândalo de pedofilia envolvendo o ex-cardeal Theodore McCarrick voltou a assombrá-lo. Hollowell pôde testemunhar a dor de algumas vítimas de abuso, que lhe diziam: “Quando você for rezar por mim, por favor, reze também pelo padre que abusou de mim. Ele precisa de orações mais do que eu”. Cada história afetou-o profundamente, de modo que Hollowell decidiu pedir a Deus uma forma de expiar todo aquele sofrimento. Ele queria assumir uma parte da cruz pelas vítimas dos abusos sexuais praticados por sacerdotes.

E então veio a notícia: “Amigos, fui diagnosticado com um tumor cerebral. O prognóstico é muito bom”, comunicou recentemente o sacerdote em sua rede social, pegando todos de surpresa. Para padre Hollowell, a doença seria a oportunidade que havia pedido a Deus de sofrer pelas vítimas de pedofilia na Igreja. Em entrevista ao dr. Taylor Marshall, ele afirmou que viveria cada parte do tratamento (cirurgia, rádio e quimioterapia) como um ato de expiação pelos pecados dos padres contra tantos inocentes. “Eu adoraria ter uma lista de vítimas de abuso por padres para que pudesse rezar todo dia. E gostaria, se possível, de escrever-lhes uma nota para que saibam que estou rezando por eles”, acrescentou.

A “expiação vicária” de Cristo

A atitude heroica do padre John Hollowell recorda uma prática muito presente na história da Igreja, mas que acabou esquecida nas décadas mais recentes, por influência de uma teologia mais liberal. Trata-se da expiação vicária, pela qual Nosso Senhor assumiu nossos pecados e pagou o preço de seu sangue (cf. 1Pd 1, 18) pela libertação da humanidade. Do mesmo modo, os membros da Igreja, Corpo Místico de Cristo, são convidados a repetir esse gesto, oferecendo-se como sacrifício pela salvação dos pecadores. Foi o que fizeram grandes santos como Teresinha do Menino Jesus, Bernadette Soubirous, Pio de Pietrelcina, Verônica Giuliani, os pastorinhos Francisco e Jacinta Marto e, mais recentemente, o jovem Carlo Acutis. Todos completaram na própria carne, como diz São Paulo, o que faltava “aos sofrimentos de Cristo pelo seu Corpo, que é a Igreja” (Cl 1, 24).

Os teólogos da Igreja procuraram desenvolver esse tema de vários modos, mas sempre preservando a realidade da cruz e do sofrimento assumido por Cristo como uma oferta de amor pela redenção dos homens, os quais deveriam seguir o mesmo caminho para a própria santificação. A partir da Reforma Protestante, todavia, a interpretação que Lutero deu à justificação cristã aboliu toda possibilidade de os fiéis participarem ativamente no mistério da Redenção. A eles estaria reservado apenas o acolhimento do sacrifício pela fé, sem a necessidade de qualquer esforço ou penitência pela santificação e salvação das almas. Em outras palavras, o homem poderia pecar tanto quanto quisesse, desde que tivesse uma fé ainda mais intensa em Cristo.

Um estudo da Comissão Teológica Internacional apresenta um resumo bem elaborado das consequências da teologia de Lutero para a doutrina da Redenção. O documento mostra que, para Lutero, a Encarnação seria como uma assimilação do pecado em si mesmo, pelo que Jesus se tornou o pior de todos os adúlteros, ladrões, blasfemadores e assassinos. Nesse sentido, a crucificação nada mais foi que um castigo divino. Os reformadores protestantes seguiram com a mesma ideia, embora com perspectivas diferentes. Em todo caso, esse tipo de teologia acabou apresentando uma face de Deus bem pouco misericordiosa e atraente. Afinal de contas, que tipo de pai derramaria uma ira tão violenta sobre o próprio filho?

Para desfazer essa imagem cruel de Deus Pai, os teólogos modernos desviaram o olhar da cruz para a ressurreição. Tal virada teológica pode ser observada, hoje, nas arquiteturas das igrejas pós-conciliares, que retiraram os crucifixos e, no lugar, puseram imagens do Cristo Ressuscitado ou do Bom Pastor. A reforma litúrgica também foi influenciada por esse movimento, na medida em que já não exige o crucifixo no centro do altar. Entre os teólogos que contribuíram para essa mudança de perspectiva está Karl Rahner, que em seu Curso Fundamental da Fé considera o “sacrifício expiatório” de Cristo como uma ideia válida para a Igreja primitiva, mas que “não oferece muita ajuda hoje para a compreensão daquilo que estamos procurando” [1].

Atualmente, chega-se ao ponto de negar a íntima relação entre a crucificação de Cristo e o sacrifício pascal. É o que advoga a teóloga Elizabeth Johnson, para quem a doutrina da satisfação seria apenas um exagero de Santo Anselmo, que teria interpretado a morte de Cristo a partir de seu contexto medieval. “Ninguém precisava morrer pelos nossos pecados”, afirma. Desse modo, ela faz sua própria contextualização do Evangelho, a fim de ampliar a redenção de Cristo para além do evento da cruz: trocando em miúdos, a cruz seria algo periférico, mera consequência de uma vida inteira que serviu para a redenção dos homens oprimidos e de toda a Criação. Com isso, Elizabeth Johnson põe abaixo a doutrina da satisfação e da expiação vicária.

Mas o resultado prático dessas teologias modernas, por mais bem intencionadas que sejam, é a covardia diante do sofrimento e a negação da gravidade do pecado. Porque se Deus não pode ser ofendido por nossas faltas, nem precisa de nossa reparação, então estão abertas as portas a todo tipo de malícias e blasfêmias. O aumento significativo dos ultrajes à religião, à imagem de Nosso Senhor Jesus Cristo e à Virgem Maria não é algo fortuito. Trata-se de uma consequência lógica da forma como os próprios cristãos lidam com os princípios do depósito da fé. Se eles mesmos não se importam com a honra pública de Deus — porque, segundo dizem, “Deus não precisa de advogado” —, o que podemos esperar das almas incrédulas?

Por conta dessa teologia que nega a necessidade da cruz, a doutrina dos méritos e da satisfação, muitos católicos deixaram de crer no Purgatório, de oferecer Missas pelos fiéis defuntos e de reparar suas próprias ofensas contra Deus.

O que precisa ser reparado

É verdade que o homem não pode ferir essencialmente a glória divina. Todavia, o pecado ataca a glória exterior de Deus, a sua influência e reino sobre nós, como explica o padre Garrigou-Lagrange. Em outras palavras, a imagem e semelhança de Deus em nós é desfigurada e, por isso, precisa ser reconstituída a partir da graça. E uma vez que o homem não pode, por si mesmo, restituir a vida trinitária em sua alma, então ele precisa de um Redentor, alguém capaz de fazer a mediação entre o Céu e a terra, um vigário para lutar em seu lugar contra as consequências do pecado.

É nesta dinâmica que a cruz se torna fundamental. Ela não é necessária em termos absolutos (simpliciter), porque Deus tem poder para salvar o homem com o estalar dos dedos. Mas diante da condição pós-lapsária da humanidade, que foi tomada pelo vírus do ódio a Deus, a cruz é necessária para revelar o supremo amor do Pai pelos seus filhos. A Paixão de Cristo é o supremo gesto de empatia, de solidariedade por aqueles que sofrem. Por isso, Jesus sempre deixou claro “que precisava ir a Jerusalém, sofrer muito da parte dos anciãos, sumos sacerdotes e escribas, e ser morto; e, ao terceiro dia, ressuscitar” (Mt 16, 21). E quando Pedro quis repreendê-lo, Jesus respondeu-lhe com palavras duríssimas: “Vá para trás de mim, satanás! Tu és para mim uma pedra de tropeço, pois não pensas de acordo com Deus, mas de acordo com os homens” (Mt 16, 23).

Essas mesmas palavras de Cristo bem se aplicariam a algumas teologias modernas que pensam mais de acordo com os homens do que com Deus. Elas simplesmente ignoraram o fato de que “ninguém tem maior amor do que aquele que dá a vida por seus amigos” (Jo 15, 13). São João Paulo II explica magistralmente o significado da satisfação de Cristo por nós nesta passagem de uma de suas catequeses:

O sacrifício expiatório da Cruz faz-nos compreender a gravidade do pecado. Aos olhos de Deus o pecado não é nunca um fato sem importância. O Pai ama os homens e é profundamente ofendido pelas suas transgressões ou rebeliões. Embora estando disposto a perdoar, Ele, para o bem e a honra do homem mesmo, pede uma reparação. Mas é precisamente aqui que a generosidade divina se mostra do modo mais surpreendente. O Pai dá à humanidade o próprio Filho, para que ofereça esta reparação. Com isto mostra toda a gravidade abissal do pecado, pois requer a reparação mais alta possível, a que vem do seu próprio Filho. Ao mesmo tempo revela a grandeza infinita do seu amor, porque é o primeiro, com o dom do Filho, a trazer o peso da reparação.

Então Deus castiga o Filho inocente? Não há nisto manifesta violação da justiça? Procuremos compreender. É verdade que Cristo se substitui, de certo modo, à humanidade pecadora: Ele, de fato, toma sobre si as consequências do pecado, que são o sofrimento e a morte. Mas o que seria castigo, se este sofrimento e esta morte tivessem sido infligidos aos culpados, reveste um significado diverso quando são livremente assumidos pelo Filho de Deus: tornam-se oferta expiatória pelos pecados do mundo. Cristo assume, inocente, o lugar dos culpados. O olhar, que o Pai lhe dirige quando sofre na Cruz, não é um olhar colérico, nem de justiça punitiva; é um olhar de total complacência, que acolhe o seu sacrifício heroico (grifos nossos).

A redenção objetiva de Jesus precisa, por outro lado, ser acolhida pessoalmente, como livre disposição e oferta a Deus. Por isso, a Comissão Teológica Internacional explica que “o processo de redenção continua até o fim dos tempos, com novos indivíduos sendo, por assim dizer, ‘enxertados’ no Corpo de Cristo” (Algumas questões sobre a teologia da redenção, n. 40). Esses membros do Corpo de Cristo devem assumir a vida do Senhor, tornando-se vítimas de amor pela salvação da humanidade, ou seja, “os fiéis não devem fugir do sofrimento, mas encontrar nele um meio eficiente de união com a cruz de Cristo” (Id.). 

Para os sacerdotes, a identificação com o Cordeiro Imolado é um “imperativo categórico”. Eles, mais do que qualquer fiel, devem ser vítimas de amor. Até porque, como indica o padre Hollowell em sua entrevista ao dr. Taylor Marshall, foi justamente o afrouxamento na disciplina, a fuga das penitências e mortificações, por um medo freudiano de formar padres recalcados, que fez a Igreja mergulhar nos escândalos de pedofilia, com sacerdotes doentes de narcisismo, que se serviram da Ordem de Cristo para abusar de crianças. 

Em 1846, Nossa Senhora apareceu na cidade de La Salette, na França, para chorar sobre os crimes dos sacerdotes, pela falta de almas generosas que oferecessem um justo sacrifício pela eterna salvação das almas. Nas aparições seguintes, tanto em Lourdes como em Fátima, ela procurou por essas almas, pedindo aos pobres videntes — todos crianças — que oferecessem seus sacrifícios em reparação das ofensas contra o Coração de Jesus. Se, por um lado, essas aparições pertencem ao gênero das revelações privadas, elas têm, por outro, o imprimatur da Igreja, que as considera idôneas justamente por repetirem aquilo que é a mais tradicional expressão da fé católica. 

Aproveitemos, pois, o tempo oportuno da Quaresma para reparar tantas ofensas contra o Sagrado Coração de Jesus. A Igreja é um prédio em chamas, falava o padre John Hollowell numa homilia, e nós não podemos esperar que esse incêndio se apague sem a nossa ajuda. Todo membro do Corpo de Nosso Senhor pode contribuir para a restauração desse edifício se seguir o caminho de Jesus e acolher com amor a cruz de cada dia.

Referências

  1. Karl Rahner. Curso Fundamental da Fé. São Paulo: Paulus, 1989, p. 334.

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O jejum das Quatro Têmporas
EspiritualidadeLiturgia

O jejum das Quatro Têmporas

O jejum das Quatro Têmporas

Quem já faz sua abstinência de carne às sextas-feiras, observando o mandamento da Igreja, tem agora mais um sacrifício para oferecer a Deus, de estação a estação. Saiba em que consiste essa piedosa prática litúrgica, hoje esquecida, mas jamais abolida.

Equipe Christo Nihil Praeponere3 de Março de 2020Tempo de leitura: 6 minutos
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As Quatro Têmporas (Quatuor Tempora, em latim) são celebrações litúrgicas da Igreja, ligadas às mudanças das quatro estações e instituídas para a santificação do ano civil. Eram consideradas tempos especiais de vigília e oração, durante os quais a Igreja procedia à ordenação de novos sacerdotes e recomendava aos católicos o jejum e a abstinência de carne.

Olhando-as a partir do hemisfério sul, temos:

  • as Têmporas da Quaresma, na primeira semana deste tempo litúrgico, marcando o início do outono;
  • as Têmporas de Pentecostes, celebradas na Oitava desta solenidade, marcando o início do inverno;
  • as Têmporas de São Miguel, na terceira semana de setembro, entre a Exaltação da Santa Cruz (14 de setembro) e o dia de São Miguel Arcanjo (29 de setembro), que indicam a passagem da primavera; e
  • as Têmporas do Advento, na terceira semana deste tempo litúrgico, anunciando a chegada do verão.

Sobre essas últimas, a propósito, o Pe. Paulo Ricardo gravou uma aula, à qual vale a pena assistir:

Segundo a Legenda Áurea, do bem-aventurado Tiago de Varazze, teria sido o Papa São Leão Magno a estabelecer, no século V, essas comemorações. O Liber Pontificalis faz referência ao Papa Calisto, nos anos 200, mas sua origem, provavelmente, é ainda anterior a isso, datando da época dos Apóstolos.

Havia nelas, em primeiro lugar, uma relação de continuidade com o Antigo Testamento (cf. Zc 8, 19), pois os judeus costumavam jejuar quatro vezes por ano: uma por ocasião da Páscoa; uma antes de Pentecostes; outra antes da Festa dos Tabernáculos, em setembro; e uma última, por fim, antes da Dedicação, que se dava em dezembro. Desde o começo, também, essa instituição serviu como uma forma de “cristianizar” os festivais pagãos que aconteciam em Roma, em torno da agricultura e das estações.

Os dias em que se faziam esses jejuns sazonais eram a quarta, a sexta-feira e o sábado: 

  • a quarta, por ser o dia em que o Senhor foi traído por Judas Iscariotes; 
  • a sexta, por ser o dia de sua crucificação; e 
  • o sábado, por ser o dia em que ele passou no túmulo e no qual os Apóstolos ficaram de luto por sua morte. 

Também essa é uma prática imemorial, mencionada, por exemplo, pelo Didaquê, um dos mais antigos escritos cristãos de que se tem notícia.

Da Cidade Eterna a observância das Quatro Têmporas se difundiu por todo o Ocidente ainda na Alta Idade Média, sendo confirmada mais tarde pela autoridade de vários pontífices romanos — dentre eles, o Papa São Gregório VII, que reinou na Igreja de 1073 a 1085. 

O alcance desse costume foi tão amplo a ponto de influenciar a culinária do Extremo Oriente: o tempurá, prato feito à base de mariscos e vegetais, nasceu no Japão do século XVI graças à atuação de missionários espanhóis e portugueses.

As Têmporas hoje

Uma celebração assim tão importante não poderia simplesmente ser abolida, sem mais nem menos. E de fato não foi, ainda que a sua influência tenha diminuído a olhos vistos.

No Missal de 1962, as Têmporas eram observadas como “férias de segunda classe”, dias feriais de especial importância, que se sobrepunham inclusive a certas festas de santos. Cada dia tinha a sua Missa própria. Hoje, no entanto, ficou sob o encargo das conferências episcopais e das dioceses determinar o tempo e o modo de celebração das Quatro Têmporas, de acordo com prescrição da Sagrada Congregação para o Culto Divino. Em 1966, a Constituição Apostólica Paenitemini, do Papa Paulo VI, confirmou todas as sextas-feiras do ano como dias penitenciais, mas, ao mesmo tempo, os jejuns das Têmporas deixaram de ser obrigatórios.

Por que continuar jejuando, afinal, nessas épocas específicas do ano, é novamente o beato Tiago de Varazze que nos explica. O escritor medieval apresenta em sua Legenda Áurea pelo menos oito razões para mantermos essa piedosa tradição, ainda que ela tenha caído no esquecimento em nossos dias. A mais significativa dessas razões está ligada aos quatro temperamentos, pois

o sangue aumenta na primavera, a bílis no verão, a melancolia no outono e a fleuma no inverno. Consequentemente, jejua-se na primavera para debilitar o sangue da concupiscência e da louca alegria, pois o sanguíneo é libidinoso e alegre. No verão, para enfraquecer a bílis do arrebatamento e da falsidade, pois o bilioso é por natureza colérico e falso. No outono, para acalmar a melancolia da cupidez e da tristeza, pois o melancólico é por natureza invejoso e triste. No inverno, para diminuir a fleuma da estupidez e da preguiça, pois o fleumático é por natureza estúpido e preguiçoso.

Sob essa perspectiva, o jejum das Quatro Têmporas converte-se em uma forma de atenuarmos as tendências desordenadas de nossos temperamentos.

Mas, além de estar relacionada às estações do ano, a prática das Têmporas também se relaciona intimamente com o sacerdócio católico, pois era costume da Igreja de Roma (que depois se estendeu a toda a cristandade) ordenar os seus padres justamente nesses dias de jejum, mais especificamente na vigília de sábado para domingo. A ideia que transparecia era muito clara: o povo obter de Deus, com suas orações e penitências, a graça de um clero digno e santo.

O rol de motivos por que devemos fazer penitência não se esgota, evidentemente, nestas linhas. Assim como as quatro estações vão se substituindo ano após ano, e sem nenhuma trégua, assim também nós, conscientes da fragilidade de nossa carne e desejosos de reparar os Corações Imaculados de Jesus e de Maria pelos tantos pecados contra eles cometidos, devemos viver em atitude permanente de mortificação.

É verdade, o termo “morte” pode soar mal aos ouvidos modernos. Muitos gostariam, na verdade, se pudessem, de apagá-lo de quaisquer pregações, homilias ou documentos da Igreja. Nos Evangelhos, entretanto, as palavras de Nosso Senhor não podiam ser mais claras: 

Se alguém quer vir após mim, renegue-se a si mesmo, tome cada dia a sua cruz e siga-me (Lc 9, 23).

Se o grão de trigo não cai na terra e não morre, fica sozinho. Mas, se morre, produz muito fruto. Quem tem apego à sua vida vai perdê-la; quem despreza a sua vida neste mundo vai conservá-la para a vida eterna (Jo 12, 24-25).

Por isso, a quem nos vier perguntar, em tom de zombaria, por que queremos morrer observando jejuns e abstinências, respondamos com caridade, mas convictos: nós não somos “masoquistas”, só o que queremos é amar a Jesus Cristo, que nos amou primeiro e se entregou por cada um de nós (cf. Gl 2, 20).

É nesse contexto que se insere o jejum das Quatro Têmporas. Fiquemos de olho, pois, no calendário litúrgico antigo e atentemo-nos aos dias em que a Igreja convida seus filhos a mais esse ato de generosidade (ainda que vivido de forma privada). Viver em família essa tradição pode ser tanto uma forma de testemunho para o mundo moderno, tão dado aos prazeres da carne, quanto uma oportunidade para formar os próprios filhos na escola da santidade. Quem já faz sua abstinência de carne às sextas, portanto, observando o mandamento da Igreja, tem agora mais um sacrifício para oferecer a Deus — lembrando sempre que quem ama, longe de contentar-se com o “mínimo” das obrigações, o que mais deseja, na verdade, é dar o “máximo” de si próprio. 

Mesmo que doa, portanto, não deixemos de nos doar! Sirva-nos de modelo Santa Jacinta Marto, vidente de Fátima, que tinha o comer alimentos amargos como um de seus “sacrifícios habituais” e que, um dia, interpelada por sua prima para que deixasse de comer as bolotas dos carvalhos, porque amargavam muito, deu-lhe, em sua simplicidade, esta bela lição: “Pois é por amargar que o como, para converter os pecadores.”

Referências

  • Jacopo de Varazze, Legenda áurea: vidas de santos. Trad. de Hilário Franco Jr. São Paulo: Companhia das Letras, 2003, pp. 236-238.
  • Francis Mershman, Ember Days. The Catholic Encyclopedia, v. 5. New York: Robert Appleton Company, 1909.
  • Michael P. Foley, The glow of the Ember Days. The Latin Mass Magazine, vol. 17:4. Disponível em inglês no Rorate Caeli e em português no Salvem a Liturgia!.

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Quarta-feira de Cinzas: liturgia de morte
Liturgia

Quarta-feira de Cinzas: liturgia de morte

Quarta-feira de Cinzas: liturgia de morte

A celebração com a qual se dá início à Quaresma pode ser considerada, de certa forma, como uma “liturgia de morte”, pois assim como Cristo passou pela Cruz, “também nós devemos morrer para nós mesmos, a fim de renascermos para a vida eterna”.

Equipe Christo Nihil Praeponere25 de Fevereiro de 2020Tempo de leitura: 3 minutos
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A liturgia da Quarta-feira de Cinzas nos chama à verdadeira conversão: “Rasgai o coração, e não as vestes; e voltai para o Senhor, vosso Deus; ele é benigno e compassivo, paciente e cheio de misericórdia, inclinado a perdoar o castigo” (Jl 2, 13). 

A conversão do coração é a dimensão fundamental deste tempo singular de graça que nos preparamos para viver na Quaresma. Além disso, as palavras do profeta Joel sugerem-nos a motivação profunda que nos torna capazes de voltar a percorrer o caminho rumo a Deus, que é “a consciência de que o Senhor é misericordioso e que cada homem é seu filho muito amado, chamado à conversão” [1]. Pela Palavra, somos motivados a uma verdadeira transformação de vida, a morrer para o pecado e a viver para Deus por meio de Jesus Cristo (cf. Rm 6, 11).

Na antiga praxe da Igreja Católica, o sacramento da Penitência era público e o rito de imposição das cinzas dava início ao caminho penitencial dos fiéis que seriam absolvidos de seus pecados na celebração da manhã da Quinta-feira Santa. Por volta do século IX, o gesto da imposição das cinzas — obtidas com a queima dos ramos abençoados no Domingo de Ramos do ano anterior — associado ao sacramento da Penitência caiu em desuso. Porém, a imposição das cinzas estendeu-se a todos os fiéis e foi inserida na celebração da Santa Missa da Quarta-feira de Cinzas, depois da homilia. A fórmula que acompanhava a imposição foi alterada com o tempo. No início, usava-se somente a fórmula: “Recorda-te que tu és pó, e ao pó voltarás” (Gn 3, 19). Mais tarde, acrescentou-se a fórmula opcional: “Convertei-vos e crede no Evangelho” (Mc 1, 15).

Perceba-se portanto como, desde o Antigo Testamento, as cinzas já simbolizavam a brevidade da vida (cf. Gn 18, 27; 30, 19; Sb 2, 2s), a penitência e a conversão (cf. Est 4,1.3; Jr 6, 26; Jn 3, 6). No centro da celebração litúrgica da Quarta-feira de Cinzas, há justamente esse gesto simbólico, oportunamente explicado pelas palavras das Escrituras que o acompanham. A imposição das cinzas — cujo significado, fortemente evocativo da condição humana, é salientado pela primeira fórmula contemplada pelo rito penitencial: “Recorda-te que tu és pó, e ao pó voltarás” (Gn 3, 19) — lembra a caducidade da nossa existência e convida-nos a considerar a vaidade de nossos projetos, quando não fundamentamos a nossa esperança no Senhor. 

A segunda fórmula prevista pelo rito: “Convertei-vos e crede no Evangelho” (Mc 1, 15), ressalta, por sua vez, quais são as condições indispensáveis para percorrermos o caminho da vida em Cristo: “São necessárias uma concreta transformação interior e adesão à palavra de Cristo” [2].

Segundo o Papa S. João Paulo II, a liturgia da Quarta-feira de Cinzas pode ser considerada, de certa forma, como uma “liturgia de morte”, pois remete para as funções da Sexta-Feira da Paixão. Nesta celebração, o rito litúrgico da Quarta-feira de Cinzas encontra o seu pleno cumprimento. “Com efeito, é naquele que ‘se humilhou a si mesmo, tornando-se obediente até à morte, e morte de cruz’ (Fl 2, 8), que também nós devemos morrer para nós mesmos, a fim de renascermos para a vida eterna” [3].

Desde os seus primórdios, a Igreja indica alguns meios úteis para seguir este caminho de morte, de renúncia de nós mesmos. Em primeiro lugar, neste caminho, é necessária a adesão humilde e dócil à vontade de Deus, acompanhada pela oração incessante (cf. 2Ts 5, 17). Também são muito apropriadas as formas penitenciais típicas da tradição cristã, como a abstinência, o jejum, a mortificação e a renúncia mesmo aos bens que nos são legítimos. De modo particular, são importantíssimos os gestos concretos de solidariedade e de ajuda ao próximo, que o Evangelho segundo Mateus nos recorda com a palavra “esmola” (6, 2ss). 

Tudo isto, que deveria fazer parte da vida de todo cristão, “é reproposto com maior intensidade durante o período quaresmal, que representa, a este propósito, um ‘tempo forte’ de treinamento espiritual e de generoso serviço aos irmãos” [4].

Seguindo, pois, o caminho tradicional da Igreja, comecemos o tempo da Quaresma com verdadeiros propósitos de penitência e de ascese, para que, mortos para este mundo, vivamos uma vida nova e ressuscitemos com Nosso Senhor Jesus Cristo para a vida eterna (cf. Rm 6, 4s). Que Nossa Senhora das Dores, imagem da compaixão divina pela humanidade, nos ajude a viver bem esse tempo de morte para nós mesmos.

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