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Santa Sofia e a Sabedoria que perdemos
Sociedade

Santa Sofia
e a Sabedoria que perdemos

Santa Sofia e a Sabedoria que perdemos

Sem a fé dos que as construíram, de nada adianta ter igrejas belíssimas. É triste dizê-lo, mas, com a transformação de Santa Sofia em mesquita, os muçulmanos só tomaram o que, já há muito tempo, nem nosso era.

Equipe Christo Nihil Praeponere30 de Julho de 2020Tempo de leitura: 8 minutos
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Calma! 

Ninguém aqui quer convocar uma “cruzada” ou algo do tipo pela retomada de Santa Sofia, a antiga igreja recém-convertida em mesquita (de novo!) pelo sr. Erdogan, presidente da Turquia… 

Esse texto é, antes, sobre a Άγια Σοφία (Hagia Sophia) propriamente dita, isto é, a Santa Sabedoria, a quem foi dedicada essa igreja. 

Interior de Santa Sofia, hoje.

Ao contrário do que poderia pensar alguém que lê a expressão pela primeira vez, não, não se trata de um “ente abstrato” e fantasioso, nem de uma mulher chamada Sofia, nem mesmo do dom do Espírito Santo: a basílica da antiga Constantinopla, então capital do Império Bizantino, foi dedicada no dia 25 de dezembro de 537 à Sabedoria que “se fez carne e habitou entre nós”, Jesus Cristo. É o templo cristão por excelência, poderíamos dizer, pois que consagrado não a este ou àquele santo, mas ao Santo dos Santos, por assim dizer, a fonte da própria santidade, a Segunda Pessoa da divina Trindade. Colocando de forma mais simples: estamos falando de um templo antiquíssimo, originalmente dedicado ao Deus verdadeiro.

Foi a Ele que perdemos em primeiríssimo lugar, muito antes de perder um mero templo religioso, por mais significativo que seja o seu valor histórico, artístico e cultural. Sim, nós perdemos a Santa Sabedoria. E isso significa que deixamos de ser sábios, tornamo-nos (com o perdão da palavra) burros, de modo que a palavra da Escritura nunca pareceu tão apropriada quanto à nossa época: Stultorum infinitus est numerus, “O número dos estultos é infinito” (Ecl 1, 15).

Emburrecemos já faz um tempo, e poderíamos trazer muitos fatos para ilustrá-lo. (Os jornais e noticiários estão cheios deles.) Mas resumamos o desastre identificando a sua causa: segundo S. Tomás (cf. STh II-II 15, 3), a cegueira da mente está intimamente associada aos vícios carnais, que são a gula e, ainda mais, a luxúria. Ou seja, é por ter-se rendido desenfreadamente aos prazeres do sexo, chegando a fazer uma “revolução” em maio de 1968, que a humanidade experimenta hoje um anestesiamento geral das consciências. Hipnotizadas, as pessoas se tornaram incapazes de elevar-se acima do que podem ver, tocar, sentir. Em consequência, a sua capacidade de compreender a verdade ficou comprometida. Nunca antes as ideologias floresceram com tanta força e ganharam tanta adesão, graças também aos modernos meios de comunicação. Os homens deixam-se seduzir pela primeira filosofia barata que aparece, estão alienados em relação à completude da realidade que os rodeia.

A própria perda de Santa Sofia (agora, do templo) é interpretada por nossos “especialistas” em termos meramente materialistas: segundo um portal de notícias, “ao mudar o status de museu histórico, o presidente Erdogan distrai atenção de eleitores dos graves efeitos econômicos da pandemia do novo coronavírus”. É o velho vício marxista de sempre: seja qual for a notícia, nossos intelectuais só sabem interpretá-las sob a lente do dinheiro. Na cabeça da elite ateia que detém os meios de comunicação, nada mais há além de jogos políticos de interesses e poder. E é até compreensível que eles pensem assim, porque é mais ou menos isto mesmo: por não haver Deus (na cabeça deles, é claro), todos querem ser deuses. (Eles, inclusive, são os primeiros: basta pensar no sr. Xi Jinping, presidente da China, que tem obrigado famílias cristãs que recebem auxílio do governo a trocar, em suas casas, Jesus por uma imagem ou dele mesmo ou de Mao Tsé-Tung.)

Trata-se de uma deformação da realidade, sim, mas só o enxerga, só o pode enxergar, quem olha para o mundo com os olhos da fé. Mesmo a luz natural da razão, devido ao pecado original, só consegue iluminar um pouco o homem; se ele está dominado pelos vícios, então, sobra bem pouca esperança.

Por isso, a reconstrução da civilização, muito antes da retomada de uma igreja em particular, como Santa Sofia, é obra daqueles que já têm esta, viva e ardente, habitando em seus corações. São os cristãos, os discípulos da Sabedoria encarnada; sem eles, que são o sal da terra e a luz do mundo, não há esperança alguma neste vale de lágrimas.

É evidente que os cristãos não são, por si mesmos, a salvação, mas apenas na medida em que se configuram a Cristo salvador, que é a divina Sabedoria. Por isso, o que nos resta é:

1. Rezar. Por muitos séculos os cristãos cantaram, no hino Adoro te devote, composto por S. Tomás de Aquino, os seguintes versos:

O memoriále mortis Dómini,
Panis vivus, vitam praestans hómini,
Praesta meae menti de te vívere,
Et te illi semper dulce sápere.

“Ó memorial da morte do Senhor,
Pão vivo, que dás vida ao homem,
Dá à minha alma de ti viver
E de ti ter sempre um doce saber.”

O verbo latino sapio, aqui no infinitivo, significa “saborear”, mas também é a palavra donde proveio a nossa “sabedoria”. Ou seja, aquilo que conhecemos através da fé, também precisamos saboreá-lo, e isso é feito através da oração contínua, frequente e perseverante. Precisamos rezar tanto quanto precisamos comer. Sem um trabalho de consideração, meditação, ruminação das verdades divinas, teremos sempre o horizonte limitado, estaremos sempre presos às nossas sensações, àquilo que esse mundo efêmero nos oferece… E, assim, passaremos também nós com as coisas do mundo.

2. Aceitar com alegria os sofrimentos que se nos apresentam. Que devamos conhecer e saborear o memorial da morte do Senhor, sabia-o também o Apóstolo São Paulo:

Também eu, quando fui ter convosco, irmãos, não fui com o prestígio da eloquência nem da sabedoria anunciar-vos o testemunho de Deus. Julguei não dever saber coisa alguma entre vós, senão Jesus Cristo, e Jesus Cristo crucificado (1Cor 2, 1–2).

Esse último acréscimo do Apóstolo, aqui, não é ocioso: é preciso conhecer Cristo, mas Ele crucificado; isto é, o caminho para chegar a Ele nesta vida, o caminho para nos unirmos a Ele, é a cruz, o sofrimento, a provação. 

E não é que precisemos sair à procura de cruzes a carregar: as próprias circunstâncias da vida, cuidadosamente ordenadas por Deus, encarregam-se de nos trazer dificuldades muitas vezes suficientes. Talvez seja uma doença que descobrimos, que nos provoca dor, nos desconforta e debilita; talvez seja uma tragédia que se abateu sobre nossa família e que precisamos suportar com coragem; talvez seja a necessidade econômica, que nos priva do básico e quebra o orgulho. 

Colocando todas essas coisas na oração, como dissemos acima, vamos saber que Deus está por trás de tudo o que nos acontece; que, como diz o Beato Carlos da Áustria, “estamos nas mãos da divina Providência”e, portanto, “tudo o que nos acontece está bem”; que, de fato, “tudo concorre para o bem dos que amam a Deus” (Rm 8, 28); que só o que nos resta é confiar e saborear o zelo de Deus para conosco, que nos permite o mal para crescermos no bem. Assim, também estaremos testemunhando aos mais próximos como Deus nos governa com santa sabedoria.

3. Ter filhos. Se há uma sabedoria que precisamos resgatar com urgência — e está nas nossas mãos fazê-lo —, é aquela que Deus escreveu no próprio ser do homem e da mulher. Quando eles se unem, naturalmente nascem filhos! Redescobrir essa verdade óbvia, tão óbvia quanto o fato de a grama ser verde, é não só o remédio para os vícios da carne, de que nossa época padece de modo especial, mas também a receita para fortalecer a sociedade e a Igreja. (Os muçulmanos já estão fazendo a sua parte nesse sentido; se seus numerosos filhos seguirem a religião paterna, os átrios de suas mesquitas dificilmente ficarão vazios.)

4. Ensinar a fé. É claro que não basta ter filhos; importa sobretudo educá-los, e fazê-lo bem. O Papa Pio XI, na Encíclica “Casti Connubii” (que completa seu 90.º aniversário em dezembro próximo), ensina que os pais devem ser fecundos não apenas para, segundo a ordem divina, propagar e conservar na terra a família humana, tampouco para “educar quaisquer adoradores do verdadeiro Deus”, mas principalmente para “subministrar filhos à Igreja” e “propiciar concidadãos santos e familiares de Deus” (n. 14). Ou seja, uma vez instruídos pela divina Sabedoria, na vida de oração, na aceitação contínua e perseverante da vontade de Deus em nossas vidas, é preciso que passemos adiante o que recebemos.

Se fizermos esse quádruplo “dever de casa”, retomando em nossas próprias vidas a Santa Sabedoria que perdemos por nosso egoísmo e incredulidade, quem sabe em alguns anos não possamos retomar, também, o templo que há tanto tempo nos foi tirado pelos muçulmanos. Sem o primeiro passo, no entanto, qualquer conjectura de “reconquista” não passará de inútil esforço humano. 

A frase parecerá clichê, mas é verdadeira: a Santa Sabedoria que por tanto tempo habitou o templo de Constantinopla precisa voltar a habitar, primeiro, em nossos corações e nos de nossas famílias. Só poderemos pensar em retomar as igrejas que a Igreja tem perdido, não só na Turquia, mas na Europa inteira, no dia em que nos convencermos de que há um Deus verdadeiro pelo qual vale a pena dar não só uma hora dos nossos domingos, um bocado de dízimo ou uma novena em tempos de crise… Por Ele vale a pena gastar a nossa vida inteira, transformar os nossos maus hábitos, desfazer-nos de nossos apegos infantis e enfrentar com coragem a aventura desta breve vida.

Hoje, se os cristãos retomassem Santa Sofia, a única coisa que eles conseguiriam fazer seria transformá-la no que ela vinha sendo desde 1930: um museu, um “patrimônio histórico”. E nada mais. E também isso é de se lamentar. Não tanto quanto nos lamentamos, agora, pela islamização de Santa Sofia, é claro. Mas se o máximo que o Ocidente pode oferecer ao Deus verdadeiro é um museu; ou melhor, se o ente máximo de que devemos esperar algum reconhecimento é a UNESCO (que considerou Santa Sofia um “patrimônio histórico” da humanidade); se a máxima expressão da religiosidade moderna é um templo cristão dessacralizado, é porque já há muito perdemos a de nossos pais, que construíram a Basílica de Santa Sofia. 

E, sem a fé deles, de nada adianta ter igreja alguma. Só nos restarão ruínas e devastação.

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A história de São Cristóvão
Santos & Mártires

A história de São Cristóvão

A história de São Cristóvão

Conheça a história do santo que traz nas costas o Menino Jesus, desde sua conversão à fé cristã, passando pelos milagres que Deus realizou por suas mãos, um mais extraordinário que o outro, até a hora derradeira de seu martírio, na Lícia (atual Turquia).

Beato Tiago de VarazzeTradução: Hilário Franco Jr./Equipe CNP25 de Julho de 2020Tempo de leitura: 11 minutos
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A história abaixo, assim como muitas outras extraídas da Legenda Áurea, não constitui um “artigo de fé católica”. É preciso saber colher, em meio aos floreios do autor medieval, as lições espirituais que também os católicos de gerações passadas colheram ao ler linhas como essas. É válido notar, de qualquer modo, que o livro chama-se “legenda” não por ser uma coleção de mitos ou contos de fantasia; a expressão vem do verbo latino lego, “ler”, e significa simplesmente “coisas a serem lidas”. 

E porque é para serem lidas que as divulgamos, convencidos de que não é justo sonegar aos católicos de agora esses piedosos relatos da vida dos santos, só porque não se adequam aos critérios atuais de historiografia. É claro, ninguém precisa crer com fé católica que São Cristóvão tinha 5m de altura nem que as flechas lançadas contra ele se voltavam contra os seus algozes. Mas não nos esqueçamos também que o primeiro a realizar milagres foi Jesus de Nazaré; os Evangelhos, que contam inúmeros de seus prodígios, foram escritos muito tempo antes da Legenda Áurea; e nenhum dos seus milagres têm algo a temer ante a moderna “crítica científica”. Além do mais, Ele mesmo disse, de seus discípulos, que fariam obras muito maiores que as que Ele realizou (cf. Jo 14, 12). 

Por isso, ao mesmo tempo que não parece razoável dar crédito a tudo o que abaixo vai escrito, não é atitude sadia descartar tudo como se fosse lenda. Se o Padre Pio, em nossa época cética, realizou tantos milagres, para perplexidade de todos, por que não poderiam ter feito o mesmo, em seu tempo, S. Antônio de Pádua, S. Francisco de Paula e, com eles, S. Cristóvão?


Cristóvão, antes do batismo, chamava-se Réprobo, mas depois passou a ser “Cristóvão”, que quer dizer Christum ferens, “aquele que carrega Cristo”, pois o carregou de quatro maneiras: sobre as costas para transportá-lo; em seu corpo, por meio dos tormentos; em sua mente, por meio da devoção; em sua boca, por meio da confissão ou da pregação.

Cristóvão, cananeu de berço, gigante em estatura e terrível de aspecto, tinha mais de cinco metros de altura. O qual, como se lê em seus feitos, ao se apresentar um dia ao rei dos cananeus, teve a ideia de procurar o maior rei do mundo, com ânimo de o servir. Apresentou-se pois a um certo rei, do qual corria a fama de não haver no mundo outro maior. O rei, vendo Cristóvão, recebeu-o de bom grado em sua corte. 

“São Cristóvão da Lícia”, de Lucas Cranach, o Velho.

Certa feita, um jogral cantava diante dele uma canção em que frequentemente mencionava o diabo. O rei, como fosse cristão, sempre que ouvia alguém falar do diabo, benzia-se logo com o sinal da cruz. Admirado com o gesto, perguntou-se Cristóvão o que significaria aquele sinal. O rei, porém, negou-se a responder. Cristóvão atalhou: “Se não mo disseres, não permanecerei mais em tua corte”. Assim pressionado, disse-lhe o rei: “Traço este sinal sempre que ouço alguém mencionar o diabo, com medo de que ele se apodere de mim e me faça mal”. Cristóvão disse: “Ora, se temes que te faça mal o diabo, é porque ele, por quem mostras ter tanto medo, é maior e mais forte do que tu. Enganei-me, portanto, julgando ter encontrado em ti o maior e mais poderoso senhor do mundo. Adeus! Quero agora encontrar o diabo, para tê-lo como senhor e tornar-me seu escravo”. 

Cristóvão deixou o rei com o fito de achar o quanto antes o diabo. Como passasse por um ermo, viu uma grande multidão de soldados, um dos quais, feroz e terrível, lhe veio ao encalço e perguntou aonde se dirigia. Respondeu-lhe Cristóvão: “Procuro o diabo, para tê-lo como meu senhor”. Respondeu o soldado: “Eu sou aquele a quem procuras”. Satisfeito, Cristóvão entregou-se-lhe como servo perpétuo, tomando-o como seu senhor. 

Andando juntos pelo mesmo caminho, toparam com uma cruz erguida na estrada. O diabo, assim que a viu, fugiu aterrorizado e, desviando-se do caminho, conduziu Cristóvão por um atalho acidentado, antes de voltar com ele para a estrada. Admirado de ver aquilo, Cristóvão perguntou ao diabo por que tivera tanto medo, a ponto de deixar uma estrada plana para seguir um desvio tão desolado. Como o diabo se recusasse a responder, disse-lhe Cristóvão: “Se não mo disseres, deixar-te-ei agora mesmo”. O diabo, pressionado, respondeu: “Um homem chamado Cristo foi pregado a uma cruz, cujo sinal, sempre que o vejo, causa-me pavor, e fujo aterrorizado”. Cristóvão disse: “Então este Cristo, cujo sinal tanto temes, é maior e mais poderoso do que tu! Em vão trabalhei, sem ter encontrado até agora o maior rei do mundo. Adeus! Quero deixar-te agora e procurar este Cristo”.

Cristóvão buscou por muito tempo quem o informasse sobre Cristo, até que finalmente encontrou um eremita, que lhe pregou Cristo e o instruiu na fé cristã. Disse o eremita a Cristóvão: “Este rei a quem desejas servir pede este obséquio: que jejues com frequência”. Atalhou Cristóvão: “Peça-me Ele outra coisa, porque esta, nunca serei capaz de a cumprir”. Prosseguiu o eremita: “Será necessário que ores muito”. Disse Cristóvão: “Não sei o que isso quer dizer nem sou capaz de o fazer”. O eremita: “Conheces o rio em que muitos transeuntes se arriscam e morrem?” Cristóvão: “Conheço”. E o eremita: “Como és homem forte e de grande estatura, se fizeres casa perto deste rio, ajudando todos a atravessá-lo, estou certo de que agradarás a Cristo, a quem desejas servir como rei, e espero que ali mesmo Ele se há de manifestar a ti”. Respondeu Cristóvão: “Isso, sim, sou capaz de fazer, e prometo dedicar-me a tal serviço”. Cristóvão foi até o rio, ergueu ali uma choupana e, utilizando como báculo um tronco de pinheiro, com o qual se mantinha em pé dentro d’água, não se cansava de passar todos de um lado para o outro.

Passados muitos dias, enquanto repousava em sua cabana, pareceu-lhe ouvir a voz de uma criança, que o chamava dizendo: “Cristóvão, vem cá fora! Leva-me para o outro lado!” Cristóvão saiu sem demora, mas não viu ninguém. De volta à choupana, ouviu novamente a voz que o chamava. Correu outra vez para fora, mas sem encontrar ninguém. Chamou-o a voz pela terceira vez, e Cristóvão saiu, encontrando às margens do rio uma criança a pedir insistentemente que lhe fizesse a travessia. Cristóvão a pôs sobre os ombros, pegou do báculo e entrou no rio para atravessá-lo. A água, porém, ia subindo a pouco e pouco, enquanto a criança pesava como se fôra chumbo. Quanto mais avançava, mais a água subia e mais a criança oprimia, com peso intolerável, os ombros de Cristóvão, que se assustou a ponto de temer afogar-se. Mas com grande esforço escapou, atravessou o rio, colocou a criança na margem e disse-lhe: “Pequeno, tu me puseste em grandes apuros! Pesaste-me tanto que, mesmo que tivera sobre mim o mundo inteiro, não poderia carregar peso maior”. “Não te espantes”, atalhou a criança, “tu tiveste sobre os ombros não só o mundo inteiro, mas também o Criador do mundo. Eu sou Cristo, teu Rei, a quem tens servido nesta obra. E para mostrar que digo a verdade, quando voltares, enfies na terra o teu bastão ao lado de teu casebre, e pela manhã o verás florescido e prenhe de frutos”. Dito isso, desapareceu. Ao retornar, Cristóvão meteu o bastão na terra e, ao levantar-se de manhã, o encontrou carregado de folhas e tâmaras, como se fôra uma palmeira.

Em seguida, partiu rumo a Samos, cidade da Lícia, cuja língua ignorava. Rezou por isso ao Senhor, pedindo lhe concedesse compreender aquele idioma. Obtida a graça, dirigiu-se Cristóvão ao lugar em que os cristãos costumavam ser torturados, para os confortar em nome do Senhor. Um dos juízes daquela terra, que o vira pouco antes em oração, julgando-o fora de si, feriu-lhe o rosto. Mas Cristóvão respondeu: “Se eu não fôra cristão, vingaria já esta afronta”. Cristóvão meteu o bastão na terra e rogou ao Senhor que o fizesse verdejar, a fim de converter aquele povo. Atendida a prece, converteram-se na mesma hora cerca de oito mil homens. 

O rei mandou duzentos soldados trazerem Cristóvão diante de si. Como o surpreendessem em oração, tiveram medo de o intimar. O rei porém enviou outros soldados, que, encontrando-o na mesma posição, juntaram-se às suas preces. Ao se levantar, Cristóvão perguntou: “Que procurais?”, ao que responderam: “O rei nos enviou para levar-te preso à sua presença”. Cristóvão disse: “Se eu quisesse, não poderíeis levar-me nem solto nem amarrado”. Eles então replicaram: “Se não queres acompanhar-nos, segue teu caminho. Quanto a nós, diremos ao rei que não te pudemos achar”. Cristóvão respondeu: “Não. Eu irei convosco”. Ele então os converteu à fé, mas insistiu que lhe atassem as mãos às costas e o levassem preso.

Ao vê-lo, o rei, muito perturbado, caiu do trono. Uma vez recomposto com a ajuda de seus escravos, perguntou pelo nome e a terra do recém-chegado. Cristóvão respondeu: “Antes de ser batizado, conheciam-me como Réprobo; mas, desde então, sou chamado de Cristóvão”. Disse-lhe o rei: “Por que te dás o nome deste Cristo crucificado, que não salvou nem a si mesmo nem pode salvar-te a ti? Maldito cananeu! Por que não sacrificas aos nossos deuses?” Cristóvão: “Com muita razão te chamas Dagnus [1], pois és a morte do mundo, o sócio do diabo. Teus deuses são obra de mãos humanas”. O rei: “Porque foste educado entre as feras, por isso não te portas senão como selvagem, ignorante da linguagem dos homens. No entanto, se sacrificares, receberás de mim grandes honrarias; do contrário, hás de morrer com suplícios!” Como Cristóvão se recusasse a sacrificar, Dagnus mandou lançá-lo no cárcere e arrancar a cabeça aos soldados que aceitaram o nome de Cristo.

Ato contínuo, mandou à prisão duas belas moças, uma chamada Nicéia e outra, Aquilínia, prometendo-lhes muitos presentes se lograssem fazer Cristóvão pecar com elas. Assim que as viu, Cristóvão pôs-se em oração. Como porém as moças o perseguissem com afagos e abraços, levantou-se e disse: “Que quereis e por que motivo fostes introduzidas aqui?” Espantadas com o brilho de seu rosto, disseram-lhe: “Tem piedade de nós, santo de Deus, pois queremos crer no Deus que tu pregas!” Ao saber disso, o rei as trouxe de volta e disse: “Acaso vos deixastes seduzir? Juro pelos deuses que, se não sacrificáreis a eles, haveis de morrer uma péssima morte!” Elas responderam: “Se queres que sacrifiquemos, manda limpar as praças e reunir todos no templo”. Feito isso, as duas entraram no templo, desataram os cintos, puseram-nos em volta do pescoço dos deuses, que caíram despedaçados, enquanto diziam elas aos assistentes: “Chamai agora os médicos para curar os vossos deuses!” Então, por ordem do rei, Aquilínia foi suspensa e a seus pés, atada uma pedra enorme, deslocando-lhe todos os membros. Depois de Aquilínia partir para o Senhor, foi a vez de sua irmã, Nicéia, ser lançada no fogo. Como porém dele saísse ilesa, foi prontamente decapitada.

Depois disso, Cristóvão foi levado à presença do rei, que mandou açoitá-lo com varas de ferro e lhe meter na cabeça um elmo incandescente. Em seguida, amarraram-no a um banco de ferro, sob o qual se acendeu um fogo alimentado por piche. O banco porém derreteu como cera, e Cristóvão saiu ileso. Depois, o rei mandou que o amarrassem a um poste, para servir de alvo às flechas dos soldados. Todas elas porém ficaram suspensas no ar, perto dele, sem o atingir. Ora, julgando o rei que Cristóvão fôra atingido pelas flechas, começou a insultá-lo quando, de repente, uma delas se voltou contra o próprio rei, acertando-lhe bem no olho. Cristóvão então disse: “Amanhã estarei morto, tirano. Tu porém faz lama com o meu sangue e esfrega com ele o teu olho. Assim hás de recuperar a luz”. O rei mandou decapitá-lo. Cristóvão perdeu a cabeça enquanto se mantinha em profunda oração. O rei, como ordenado, pegou um pouco de sangue e esfregou o olho com ele, dizendo: “Em nome de Deus e de São Cristóvão”, e ficou curado no mesmo instante. O rei converteu-se e publicou um édito pelo qual todo o que blasfemasse contra Deus e São Cristóvão seria imediatamente punido pela espada.

Ambrósio, em seu prefácio, refere-se a este mártir nos seguintes termos:

O Senhor cumulou Cristóvão de tanta virtude e graça na doutrina, que ele afastou 48 mil homens do erro do paganismo, trazendo-os para o dogma cristão, por meio de milagres que abalaram o culto anterior. Nicéia e Aquilínia, por muito tempo praticantes do meretrício em lupanar público, foram levadas da imundície à castidade por Cristóvão, que lhes ensinou ainda a receber a coroa do martírio. Mesmo amarrado a um banco de ferro no meio de uma fogueira, ele não sofreu com o calor e, mesmo alvejado por guerreiros durante um dia inteiro, não foi atingido pelas flechas. Depois que uma delas perfurou o olho de seu torturador, o sangue do bem-aventurado mártir, misturado à terra, devolveu-lhe a luz e, além de curar a cegueira corporal, iluminou a sua mente. Foi de vós, Senhor, que ele recebeu a graça de defender contra doenças e enfermidades os que suplicarem a ele

Referências

  • Texto retirado de Jacopo de Varazze, Legenda áurea: vidas de santos. Trad. de Hilário Franco Jr. São Paulo: Companhia das Letras, 2003, pp. 571–575, e adaptado passim para esta publicação.

Notas

  1. Dagnus resulta provavelmente de um jogo de palavras com damnose (“condenável”, “prejudicial”) ou damnum (“dano”, “perda”).

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Orações para uma novena a Santo Afonso
Oração

Orações para
uma novena a Santo Afonso

Orações para uma novena a Santo Afonso

Apresentamos nestas linhas uma oração e uma ladainha, a ser rezadas por nove dias em honra a Santo Afonso, Bispo e Doutor da Igreja, e em preparação para a sua memória litúrgica, a celebrar-se no início do mês de agosto.

Catholic Harbor of Faith and MoralsTradução: Equipe Christo Nihil Praeponere24 de Julho de 2020Tempo de leitura: 5 minutos
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O mês de agosto começa com a memória de Santo Afonso de Ligório, Bispo e Doutor da Igreja. No novo calendário, sua festa litúrgica se celebra no mesmo dia de seu nascimento para o Céu, 1.º de agosto; mas, no calendário antigo, sua vida é lembrada no dia seguinte, de modo que ainda é possível rezar uma novena ao Doctor Zelantissimus, começando no dia de hoje (24) e terminando no primeiro dia de agosto. (No calendário litúrgico atual, seria necessário começar a novena no dia 23 de julho.)

De todo modo, a qualquer tempo é possível invocar a intercessão de Santo Afonso. Ele, que se dedicou com tanto afinco à instrução dos fiéis, escrevendo excelentes obras de teologia e espiritualidade, já nos presta um auxílio incomparável fazendo ecoar sua doutrina através dos séculos. Que também nos proteja, pois, da glória, rogando a Deus por nossas causas, em especial a de nossa salvação eterna, que é a mais importante de todas.

A oração e a ladainha abaixo foram retiradas de um site em inglês, devidamente referenciado acima, e traduzidas por nossa equipe. Trata-se de uma sugestão para quem deseja fazer uma novena a esse santo Doutor, já que não é tarefa muito fácil encontrar uma boa novena, em português, a ele dedicada. Esperamos que todos façam bom proveito dessas linhas, agora e em qualquer época do ano em que o auxílio de Santo Afonso se nos fizer necessário.


Novena de Santo Afonso de Ligório
(A ser rezada por nove dias seguidos, junto com a ladainha)

Ó meu glorioso e tão amado padroeiro, Santo Afonso! Vós, que trabalhastes e sofrestes tanto para levar aos homens os frutos da Redenção, vinde em socorro às misérias de minha pobre alma e tende piedade de mim. Pela poderosa intercessão de Jesus e de Maria, alcançai-me uma verdadeira contrição de meus pecados, além do perdão e remissão deles; um profundo horror ao pecado; e cada vez mais força para resistir às tentações. Dai-me ao menos parte, eu vo-lo peço, daquele fogo de amor que deixou sempre em chamas o vosso coração; e assegurai-me que, seguindo o vosso exemplo, eu faça da vontade de Deus a regra única de minha vida. Alcançai-me também um amor fervoroso e imperecível a Jesus e uma terna e inocente devoção a Maria, além da graça de rezar sem cessar e de perseverar no serviço de Deus até o último dia de minha vida, de tal modo que eu possa unir-me aos vossos louvores a Deus e a Santa Maria por toda a eternidade. Amém.

“A glória de Santo Afonso”, por Manno F.

Ladainha de Santo Afonso de Ligório
(Apenas para uso privado)

Senhor, tende piedade de nós.
Cristo, tende piedade de nós.
Senhor, tende piedade de nós.

Jesus Cristo, ouvi-nos.
Jesus Cristo, atendei-nos.

Deus Pai dos céus, tende piedade de nós.
Deus Filho, Redentor do mundo, tende piedade de nós.
Deus Espírito Santo, tende piedade de nós.
Santíssima Trindade, que sois um só Deus, tende piedade de nós.

Santa Maria, Virgem Imaculada, rogai por nós.
Santo Afonso, modelo de piedade para os jovens, rogai por nós.
Santo Afonso, preservado até a morte do pecado mortal, rogai por nós.
Avesso às riquezas e vaidades do mundo, rogai por nós.
Sempre sujeito à voz da divina Providência, rogai por nós.
Rico nos tesouros da pobreza cristã,  rogai por nós.
Modelo de paciência na dor e na aflição, rogai por nós.
Modelo de docilidade e resignação nas contradições, rogai por nós.
Ardente de santo zelo pela salvação das almas, rogai por nós.
Flagelo das heresias, rogai por nós.
Defensor da fé católica, rogai por nós.
Sempre entregue à evangelização dos pobres, rogai por nós.
Doce conforto dos aflitos, rogai por nós.
Instruído na divina arte de converter pecadores, rogai por nós.
Guia iluminado no caminho de perfeição, rogai por nós.
Que vos fizestes tudo para todos, a fim de lucrá-los para Cristo, rogai por nós.
Joia nova da religião, rogai por nós.
Valente protetor da disciplina eclesiástica, rogai por nós.
Modelo de submissão e devoção ao Sumo Pontífice, rogai por nós.
Que velastes sem cessar pelo rebanho que vos foi confiado, rogai por nós.
Cheio de zelo pelo bem comum da Igreja, rogai por nós.
Glória do sacerdócio e do episcopado, rogai por nós.
Espelho radiante de todas as virtudes, rogai por nós.
Cheio de terno amor pelo Menino Jesus, rogai por nós.
Inflamado de ardor divino ao oferecer o Santo Sacrifício, rogai por nós.
Fervente adorador de Jesus Cristo na Santa Eucaristia, rogai por nós.
Tomado de viva dor ao meditar os sofrimentos do nosso divino Salvador, rogai por nós.
Grandíssimo devoto de Maria, rogai por nós.
Honrado com a aparição da Virgem bendita ao pregar as suas glórias, rogai por nós.
De vida e pureza angélicas, rogai por nós.
Verdadeiro Patriarca por vossa paternal dedicação ao povo de Deus, rogai por nós.
Enriquecido com o dom de profecia e milagres, rogai por nós.
Apóstolo pela grandeza e frutos de vossos trabalhos, rogai por nós.
Mártir por vossas inauditas austeridades, rogai por nós.
Confessor por vossos escritos cheios do Espírito de Deus, rogai por nós.
Virgem pela pureza de corpo e de alma, rogai por nós.
Fundador da Ordem dos Redentoristas, rogai por nós.
Modelo dos missionários, rogai por nós.
Nosso pai amável e poderoso protetor, rogai por nós.

Cordeiro de Deus, que tirais o pecado do mundo, perdoai-nos, Senhor.
Cordeiro de Deus, que tirais o pecado do mundo, ouvi-nos, Senhor.
Cordeiro de Deus, que tirais o pecado do mundo, tende piedade de nós.

Jesus Cristo, ouvi-nos.
Jesus Cristo, atendei-nos.

Rogai por nós, Santo Afonso de Ligório,
Para que sejamos dignos das promessas de Cristo.

Oremos:
Eis-me aqui, ó Santo Afonso, diante de vós, que tivestes tão inflamado amor ao próximo e tão ardente zelo pela conversão dos pecadores! Humildemente prostrado aos vossos pés, imploro vossa poderosa proteção. Alcançai-me, eu vo-lo peço, uma verdadeira contrição dos meus pecados e uma perfeita emenda de vida. Uma vez mais, fazei meu coração acender-se, e assim permanecer sempre, de amor a Deus e à Santíssima Virgem Maria, por quem tivestes tão terna devoção. Alcançai-me a graça de trilhar o caminho da santidade e da justiça, a fim de merecer um dia gozar a Deus convosco no céu. Amém.

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“Porque abandonastes a Deus, também Ele vos abandonará”
Sociedade

“Porque
abandonastes a Deus,
também Ele vos abandonará”

“Porque abandonastes a Deus, também Ele vos abandonará”

Há uma causa central e comum para a decadência das culturas e das civilizações: o abandono das leis de Deus. Afastando-se da verdade que por si mesma liberta, os homens se voltam para mentiras e pecados, que os escravizam e enfraquecem. É o começo do fim.

Mons. Charles PopeTradução: Equipe Christo Nihil Praeponere24 de Julho de 2020Tempo de leitura: 9 minutos
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No século IV, S. Agostinho lamentou o declínio de Roma e da cultura romana. Como qualquer bom cidadão, ele amava seu país e sua cultura. Mas as coisas estavam caindo aos pedaços, a decadência estava por toda parte. Ele lutou para entender e aceitá-lo. Triste, ele escreveu A Cidade de Deus, que contém suas próprias observações e explicações sobre uma época muito parecida com a nossa, em que uma civilização estava em colapso.

Existe um ciclo em que impérios, nações, culturas e civilizações passam. Eles se erguem, às vezes heroicamente em uma grande batalha, e prosperam; mas depois veem a decadência e a desordem, à medida que sua grandeza se transforma em ganância e, depois, em preguiça. Sua força diminui e um inimigo os domina com facilidade, ou simplesmente os substitui. Esse ciclo é inevitável? Não, mas há uma causa central e comum de declínio: o abandono das leis de Deus, conhecidas pela Lei natural ou pela verdade revelada. Afastando-se da verdade que por si mesma liberta, eles se voltam para mentiras e pecados, que os escravizam e enfraquecem.

Muito antes de Agostinho ou de nós, houve desastres que aconteceram com o povo de Deus. Uma história do Segundo Livro das Crônicas fala ao nosso tempo e faz uma pergunta central. Vejamos primeiro o texto e depois o apliquemos:

Depois da morte de Joiada, os chefes de Judá [...] abandonaram o Templo do Senhor, o Deus de seus pais e se puseram a adorar as imagens de asserá e outros ídolos. Tamanhas faltas atraíram a ira divina contra Judá e Jerusalém. Enviou-lhes o Senhor profetas para os converter ao Senhor. Porém, pregaram em vão e não foram ouvidos. Então, o espírito de Deus apossou-se de Zacarias, filho do sacerdote Joiada, o qual se apresentou diante do povo: “Eis — disse ele — o que diz o Senhor: Por que transgredis as ordens do Senhor? Nada conseguireis. Porque abandonastes o Senhor, por isso ele também vos abandonará”.

Mas eles se revoltaram contra ele e o apedrejaram por ordem do rei, no átrio do Templo do Senhor.

Ao fim de um ano, o exército dos sírios atacou Joás. Invadiu Judá e Jerusalém [...]. Embora os sírios tivessem vindo em pequeno número, o Senhor lhes entregou um enorme exército, porque Judá tinha abandonado o Senhor, o Deus de seus pais (2Cr 24, 17–24).

Os contornos da história são claros o suficiente. Israel abandonou o Senhor e prostituiu-se adorando o deus dos cananeus. Isso causou muitos males, como a discórdia e o declínio econômico. O pecado também enfraqueceu os laços familiares, a unidade nacional e a força de caráter. Por isso, mesmo um pequeno grupo de arameus os derrotou facilmente.

O profeta Zacarias de Michelangelo.

Em um momento crítico, o profeta Zacarias fez uma pergunta central: “Por que transgredis as ordens do Senhor? Nada conseguireis. Porque abandonastes o Senhor, por isso Ele também vos abandonará” (2Cr 24, 20). Em outras palavras: por que você está sendo tão tolo a ponto de abandonar o Senhor e rejeitar suas bênçãos? Invoque o Senhor que você abandonou! Ele é a única fonte de verdadeira bênção para você!

Mas o povo e os príncipes consideraram odiosas as palavras do profeta e o apedrejaram até a morte no pórtico do Templo. Esse assassinato foi tão repugnante que Jesus, mais tarde, o apontaria como particularmente mau, juntando-lhe uma advertência muito grave para o povo de seu tempo: “Caia sobre vós todos o sangue inocente derramado sobre a terra, desde o sangue de Abel, o justo, até o sangue de Zacarias, filho de Baraquias, a quem matastes entre o Templo e o altar. Em verdade vos digo: todos esses crimes pesam sobre esta raça” (Mt 23, 35–36).

E esse grande castigo realmente aconteceu. Em 70 d.C., Jerusalém e o Templo foram destruídos pelos romanos. Embora a cidade tenha sido reconstruída, desde então o Templo, a civilização e a cultura que ela representa nunca foram reconstruídos. Uma era terminou em abril do ano 70. A pergunta assustadora de Zacarias ficou sem resposta para eles: “Por que transgredis as ordens do Senhor?” A recusa deles em dar uma resposta e fazer as pazes tornou real a grande advertência: porque abandonastes o Senhor, Ele também vos abandonou. Tanto Zacarias quanto Jesus advertiram épocas diferentes, mas a advertência chega agora a nós que, transgredindo coletivamente a Lei de Deus, derramamos sangue inocente e o abandonamos por falta de fé e, pior ainda, por indiferentismo.

Sim, em nosso próprio tempo, somos indiferentes a Deus. Um grande número de secularistas militantes abandonou a adoração ao verdadeiro Deus e, agora, presta culto ao deus desta época, que cegou a mente dos incrédulos para que eles não possam ver a luz do Evangelho da glória de Cristo, que é a imagem de Deus (cf. 2Cor 4, 4). Por odiarem a verdade, eles a chamam de odiosa; por preferirem a escuridão, a luz da verdade os horroriza. Deus e a santa fé que Ele inspirou são detestáveis para eles; por isso, eles exigem a remoção de todas as imagens religiosas, sua palavra e influência, dos lugares públicos. Muitos outros também, ainda que menos militantes, não têm lugar para Deus ou para a fé em suas vidas. Deus é simplesmente irrelevante para eles, e a fé, da qual Ele é autor, está desatualizada e fora de sintonia com as falsas “virtudes” do nosso tempo.

E o que tudo isso nos deu? Indiscutivelmente, o colapso de uma outrora grande civilização. Nossos pilares estão abalados e as coisas estão decaindo rapidamente.

O primeiro pilar de qualquer civilização é uma família forte, na qual nascem os vínculos e as lealdades duradouras. Nossa unidade básica não é o indivíduo, é a família. O que o átomo (com seus prótons, nêutrons e elétrons) é para o mundo físico, a família (com pai, mãe e filhos) é para a civilização. Divida o átomo, e tremendas forças destrutivas serão liberadas, que, se não forem controladas, porão tudo a perder. Divida a família, como fizemos, e tremendas forças destrutivas se espalharão; se não forem controladas, tudo desvanecerá e serão criadas situações absolutamente perigosas. 

Não é apenas a taxa de divórcio que aumentou sete vezes no século XX. Também a coabitação, a má conduta sexual, a maternidade solteira e, agora, as uniões entre pessoas do mesmo sexo, que minaram a definição bíblica de casamento, entre um homem e uma mulher, até que a morte os separe, dando como frutos os filhos. Como sempre, são as crianças que pagam o preço pelo mau comportamento dos adultos. Quando os pais jogam a cruz no chão, são os filhos que devem retomá-la. Esse caos familiar raramente produz crescimento. A maioria das crianças que emergem do caldeirão da família desfeita é enfraquecida, traumatizada, carente do que realmente contribui para uma boa formação humana.

Devido à má conduta sexual, muitas crianças nunca veem a luz do dia. 85% dos abortos são realizados em mulheres solteiras. Portanto, a fornicação leva ao aborto, que mata mais de 60 milhões dos nossos próprios filhos desde 1973 nos EUA. Esse sangue clama por vingança, como Jesus recordou acima. Nós iremos pagar e já estamos pagando pelo que fizemos ao colapsar nossas famílias e matar nossos próprios filhos. É o assassinato de uma civilização.

Outro pilar de qualquer civilização é uma cultura forte. E no cerne de qualquer cultura há um “culto” ou devoção a Deus. Atualmente, estamos envolvidos em um experimento insensato para ver se podemos ter uma cultura sem um culto comum. Não podemos. Enquanto a América teve inúmeras diferenças sectárias ao longo dos séculos, ainda havia uma visão de mundo bíblica, judaico-cristã, básica e comum. A visão moral das Escrituras, apesar de não ser vivida perfeitamente, era uma referência fundamental. Normas sobre casamento, sexualidade, direitos humanos e justiça foram traçadas a partir dessa visão comum. Mesmo com relação à escravidão, embora os pais fundadores não pudessem acabar com ela, o movimento abolicionista enraizado nas igrejas e denominações lhe deu fim, e o movimento dos direitos civis, também enraizado nas igrejas, lutou para acabar com a segregação e a discriminação.

Mas, nas últimas décadas, optamos cada vez mais por abandonar essa visão comum em favor do subjetivismo e de uma diversidade insípida, divisiva e rebelde que não pode nos unir, em vez da diversidade frutífera, unida por uma visão moral básica e enriquecida por forças e tradições diversas. Deus e tradições religiosas, observâncias e normas são rejeitadas com crescente hostilidade. A fé é marginalizada, e até, às vezes, legalmente excluída do debate público.

Isso levou, por sua vez, a um terceiro e significativo problema: a ascensão do subjetivismo e do relativismo. No subjetivismo, o locus (ou lugar) da verdade se move do objeto para o sujeito. O que uma coisa realmente é ou o que está claramente acontecendo em uma situação é suprimido em favor da opinião subjetiva sobre o que é uma coisa ou o que está acontecendo. Com efeito, passamos de uma fonte comum e externa de verdade para uma fonte cada vez mais subjetiva de “verdade”. É rotina ouvir um argumento bem fundamentado ser descartado por alguém dizendo: “Isso pode ser verdade para você, mas não é verdade para mim”. O que, é claro, parte de uma compreensão equivocada do que é a verdade. A verdade não é opinião; é antes uma declaração, baseada em evidências e testemunhos, do que está de acordo com a realidade. O que essa mudança do objeto para o sujeito significa é que não se pode mais discutir racionalmente. O apelo a um conjunto de ideias em comum, extraídas de uma visão de mundo bíblica e da própria realidade, já proporcionou uma base para pensar, discutir e decidir. Isso, uma vez removido, implica em que, num debate ou discussão, prevalece quem tem mais poder, dinheiro, influência, ou simplesmente quem é mais “exótico” e crítico.

Por essas e outras razões, não pode haver uma cultura sem um culto comum: alguém (Deus) ou algo (um corpo de crenças) acima de todos nós, a quem ou a que devemos nos conformar e no qual devemos basear nosso raciocínio. O que resta é um vácuo e uma luta pelo poder entre indivíduos ou grupos que não têm uma base comum para raciocinar. E assim é travada uma batalha, a tirania do relativismo; uma cultura entra em colapso e, com ela, toda uma civilização.

Dito isso, voltemos à pergunta e ao aviso.

Pergunta: “Por que transgredis as ordens do Senhor? Nada conseguireis.” 

Aviso: “Porque abandonastes o Senhor, por isso ele também vos abandonará.”

Existe um caminho de volta? Sim, mas apenas de uma maneira: “Se meu povo, sobre o qual foi invocado o meu nome, se humilhar, se procurar minha face para orar, se renunciar ao seu mau procedimento, escutarei do alto do céu e sanarei sua terra” (2Cr 7, 14).

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