CNP
Christo Nihil Præponere"A nada dar mais valor do que a Cristo"
Evangelize compartilhando!
Todos os direitos reservados a padrepauloricardo.org®
Como as indulgências ajudam as almas do Purgatório?
Doutrina

Como as indulgências
ajudam as almas do Purgatório?

Como as indulgências ajudam as almas do Purgatório?

As indulgências pro defunctis são como “uma mesa enorme, coberta de pilhas de prata, ouro, rubis, pérolas e diamantes”, à disposição de todos os fiéis, para aplicarem às almas de seus entes queridos que partiram na amizade de Deus.

Pe. François Xavier SchouppeTradução: Equipe Christo Nihil Praeponere1 de Novembro de 2019
imprimir

Falemos agora das indulgências aplicáveis aos defuntos. Aqui, a divina misericórdia revela-se em sua liberalidade. Sabemos já que a indulgência consiste na remissão, fora do sacramento da Penitência, da pena temporal devida ao pecado, por força do poder das chaves. Em virtude desse poder, recebido diretamente de Jesus Cristo, a Igreja é capaz de livrar os fiéis de todos os obstáculos à sua entrada na glória celeste. A Igreja exerce tal poder no sacramento da Penitência, no qual somos absolvidos dos nossos pecados; mas ela também o exerce fora desse sacramento, ao nos perdoar a dívida temporal que permanece mesmo depois da absolvição sacramental. E é pelas indulgências que a Igreja atua neste segundo caso. 

A remissão da pena temporal por meio das indulgências está ao alcance dos fiéis apenas nesta vida. No entanto, a Igreja pode permitir aos fiéis, enquanto ainda vivem neste mundo, que transfiram a algum de seus entes queridos a remissão que, por este meio, poderiam angariar para si. É isto que faz uma indulgência aplicável às almas do Purgatório

Aplicar uma indulgência aos defuntos é o mesmo que oferecê-la a Deus, em nome da Igreja, para que Ele se digne empregá-la em benefício das almas padecentes. Ora, as satisfações oferecidas à divina justiça em nome de Jesus Cristo são sempre aceitas, e Deus as pode aplicar a uma alma em particular, ou a certas almas que Ele mesmo deseja beneficiar, ou ainda a todas em geral. 

As indulgências, além disso, podem ser ou plenárias ou parciais. É plenária a indulgência pela qual se redime toda a pena temporal devida diante de Deus. Suponhamos, por exemplo, que para satisfazermos tamanha dívida tivéssemos que fazer penitência durante cem anos ou sofrer por muito tempo no Purgatório. Em virtude de uma indulgência plenária adequadamente lucrada, toda essa pena é perdoada, de maneira que a alma já não ostenta, aos olhos de Deus, nem sequer uma sombra de pecado, que é justamente o que a impede de contemplar-lhe o rosto no céu.

A indulgência parcial, por outro lado, consiste na remissão de certo número de dias ou anos. Esses dias e anos, porém, não representam de forma alguma dias e anos de sofrimento no Purgatório. Eles devem ser entendidos, na verdade, como dias e anos de penitência canônica e pública, que consistem sobretudo em jejuns, como os que eram impostos outrora aos pecadores, conforme a antiga disciplina da Igreja. Nesse sentido, uma indulgência de “quarenta dias” ou de “sete anos” nada mais é do que a remissão que mereceríamos diante de Deus após quarenta dias ou sete anos de penitência canônica. Mas que proporção existe, afinal, entre esses dias de penitência e o período que duram as penas do Purgatório? Trata-se de um segredo que a Deus não aprouve revelar-nos

Seja como for, as indulgências são um tesouro espiritual que a Igreja franqueia a todos os fiéis. Todos, com efeito, têm permissão para extrair daí quanto for necessário à plena satisfação de suas dívidas ou das de outros. De fato, foi com essa imagem ou comparação que Deus revelou um dia a Santa Mariana de Jesús de Paredes o que eram as indulgências [1]. Um dia, arrebatada em êxtase, ela viu no centro de um amplo espaço uma mesa enorme, coberta de pilhas de prata, ouro, rubis, pérolas e diamantes. Ao mesmo tempo, ela escutou uma voz que lhe dizia: “Essas riquezas são propriedade pública: que cada um se aproxime e tome o que quiser”. E Deus lhe deu a entender que aquela visão era um símbolo das indulgências.

Eis por que é grande a nossa culpa se, diante de tanta abundância de bens, permanecemos pobres, privando-nos a nós mesmos e recusando-nos a ajudar a outros. Não! As almas do Purgatório padecem extrema necessidade, elas nos suplicam com lágrimas no meio de seus tormentos. E se temos meios para satisfazer, com indulgências, as dívidas que contraíram, por que nos esforçamos tão pouco para pagá-las?

Abrir esse tesouro por acaso é custoso ou exige dolorosíssimos esforços, como jejuns e privações insuportáveis à natureza? Ora, “ainda que fosse assim”, diz com razão o eloquente Pe. Segneri, “deveríamos estar dispostos a suportá-lo. De fato, não vemos como os homens, por amor ao ouro perecível, a fim de preservar uma obra de arte, para salvar parte de sua fortuna ou propriedade, se expõem às chamas e ao fogo? Não devíamos nós, portanto, esforçar-nos igualmente para salvar do fogo expiatório aquelas almas resgatadas pelo Sangue de Jesus Cristo?

A bondade divina não nos pede nada extremamente doloroso: o único que exige de nós são obras tão ordinárias e simples como um Terço, uma comunhão, uma visita ao SS. Sacramento, uma esmola ou uma aula de catequese sobre os rudimentos da fé aos órfãos. E no entanto descuidamos de lucrar bens tão preciosos, e por meios tão fáceis, que poderíamos facilmente aplicar, quem sabe, a um pobre parente falecido que geme hoje nas chamas do Purgatório!…

Notas

  1. Referida no original inglês simplesmente como Blessed Mary of Quito, Santa Mariana de Jesús de Paredes é a primeira equatoriana canonizada pela Igreja e sua festa litúrgica se celebra no dia 26 de maio (Nota da Equipe CNP).

Comentários

Os comentários são de responsabilidade exclusiva de seus autores e não representam a opinião deste site. Se achar algo que viole os termos de uso, denuncie. Leia as perguntas mais frequentes para saber o que é impróprio ou ilegal.

Como surgiu a Comemoração dos Fiéis Defuntos?
Liturgia

Como surgiu a
Comemoração dos Fiéis Defuntos?

Como surgiu a Comemoração dos Fiéis Defuntos?

A Igreja sempre rezou por seus filhos falecidos, mas foi apenas no século X que, sempre guiada pelo Espírito Santo, ela instituiu a Comemoração de Todos os Fiéis Defuntos, como forma de estimular-nos a cumprir o grande dever que é rezar pelo mortos.

Pe. François Xavier SchouppeTradução: Equipe Christo Nihil Praeponere1 de Novembro de 2019
imprimir

A Santa Igreja tem uma liturgia especialmente dedicada aos defuntos. Dela faz parte o ofício de Vésperas, Matinas e Laudes, além de uma Missa própria, comumente chamada “Missa de Requiem” [1]. Essa liturgia, tão tocante como sublime, por meio de prantos e lágrimas desvela aos olhos dos fiéis a luz consoladora da eternidade. A Igreja reza essa liturgia por ocasião do funeral de seus filhos e, de modo particular, no dia em que se celebra solenemente a Comemoração de Todos os Fiéis Defuntos. 

A Santa Missa ocupa aqui o lugar principal, como se fôra o centro divino ao redor do qual orbitam todas as outras orações e cerimônias. No dia seguinte à Festa de Todos os Santos, na grande solenidade de todas as almas benditas, todos os sacerdotes devem oferecer aos mortos o Santo Sacrifício, ao qual os fiéis, por sua vez, consideram um dever assistir [2], além de oferecer comunhões, orações e esmolas em sufrágio dos irmãos que sofrem no Purgatório. 

A celebração dos fiéis defuntos, porém, é de origem relativamente recente. A Igreja, desde as suas origens, sempre rezou por seus filhos falecidos, entoando salmos, recitando orações e oferecendo a Santa Missa pelo repouso de suas almas. Contudo, não houve no passado nenhuma celebração destinada particularmente a pedir a Deus o descanso dos fiéis defuntos em geral. Com efeito, foi apenas no séc. X que, sempre guiada pelo Espírito Santo, a Igreja instituiu a Comemoração de Todos os Fiéis Defuntos, como forma de estimular-nos a cumprir o grande dever que é rezar pelo mortos, dever prescrito pela caridade cristã.

O berço em que nasceu esta comovedora solenidade foi a Abadia de Cluny. Santo Odilo, abade de finais do séc. X, com o exemplo de sua caridade fraterna edificou toda a França. Compadecido até mesmo dos mortos, ele não cessava de rezar pelas almas do Purgatório. Foi esta doce caridade que o inspirou a instituir, tanto na abadia como nos mosteiros dela dependentes, uma festa em comemoração das almas de todos os falecidos.

É de crer, escreve o historiador Berault, que Santo Odilo tenha sido levado a isso por uma revelação privada, já que Deus lhe manifestou milagrosamente como lhe era grata a sua devoção às almas do Purgatório.

Eis o que nos contam alguns biógrafos. Enquanto o santo abade governava o mosteiro francês, um piedoso eremita vivia numa pequenina ilha, na costa da Sicília. Um peregrino francês, devido a uma forte tempestade, se viu obrigado a desembarcar ali. Encontrando-se com o eremita, este lhe perguntou se conhecia o abade Odilo. “É claro”, respondeu o peregrino, “eu o conheço, e muito me alegro por isso. Mas como tu o conheces, e por que me perguntas isso?” “Já ouvi muitas vezes”, disse o eremita, “os espíritos malignos se queixarem de homens piedosos que, com preces e esmolas, aliviam a dor que têm de suportar na outra vida as almas santas; mas eles se queixam especialmente de Odilo, abade de Cluny, e de sua Ordem. Quando voltares ao teu país, eu te imploro, em nome de Deus, que exortes este santo abade e seus monges a redobrarem suas boas obras, em benefício das pobres almas do Purgatório”.

O peregrino, então, se recolheu no mosteiro de Cluny e fez o que lhe havia pedido o eremita. Logo em seguida, Santo Odilo ordenou que em todos os mosteiros da Ordem, após o Dia de Todos os Santos, se comemorassem todos os fiéis defuntos, com a récita das Vésperas no dia anterior. Na manhã da festa, durante as Matinas, deveriam soar todos os hinos, e uma Missa seria rezada pelo descanso eterno das almas benditas.

Esse decreto, válido para a abadia de Cluny e outros mosteiros, é observado até hoje. Uma prática tão piedosa, naturalmente, logo se estendeu a mais igrejas e, com o passar do tempo, tornou-se de observância universal em todo o orbe católico.

Notas

  1. A liturgia da Missa de Requiem foi sensivelmente alterada pela reforma litúrgica do Papa Paulo VI, mas ainda é possível ler como antífona de entrada a oração que lhe dá esse nome: “Requiem aeternam dona eis, Domine: et lux perpetua luceat eis. — Dai-lhes, Senhor, o descanso eterno, e a luz perpétua os ilumine” (Nota da Equipe CNP).
  2. Os fiéis católicos “make it their duty”, isto é, “tomam como um dever” assistir à Missa de Comemoração dos Fiéis Defuntos, ainda que não se trate de um dia de preceito (Nota da Equipe CNP).

Comentários

Os comentários são de responsabilidade exclusiva de seus autores e não representam a opinião deste site. Se achar algo que viole os termos de uso, denuncie. Leia as perguntas mais frequentes para saber o que é impróprio ou ilegal.

A falta de fé, profetizada por São John Henry Newman
Igreja Católica

A falta de fé, profetizada
por São John Henry Newman

A falta de fé, profetizada por São John Henry Newman

O perigo especial de nossa época é a difusão da praga da falta de fé, que os Apóstolos e Nosso Senhor mesmo predisseram como a pior calamidade dos últimos tempos da Igreja.

São John Henry NewmanTradução: Equipe Christo Nihil Praeponere1 de Novembro de 2019
imprimir

A transmissão da verdade de uma geração à outra é, obviamente, a principal razão por que se instituem seminários destinados à educação do clero. 

O cristianismo é uma ideia religiosa. Sobre-humana em sua origem, ela difere de todas as outras religiões. Como o homem difere do quadrúpede, da ave ou do réptil, assim o cristianismo difere das superstições, heresias e filosofias ao seu redor. Ele possui uma teologia e um sistema ético próprios, que constituem sua indestrutível identidade. Como assegurar e perpetuar no mundo esse dom do alto? Como preservar para o povo cristão esse dom, tão especial, tão divino, e que tão facilmente se perde ou se esconde em meio às falsidades que se impõem e abundam no mundo? 

A providência divina é a seguinte. Cada círculo de cristãos tem o seu próprio sacerdote, que é o representante da mensagem divina para esse círculo, em seus aspectos teológicos e éticos. Ele ensina o povo, catequiza seus filhos, trazendo todos e cada um deles àquela forma de doutrina, que é a sua própria. 

Mas a Igreja é formada por vários desses círculos. Como assegurar que todos eles professem uma única e mesma doutrina? E que ela seja a dos Apóstolos? 

Da seguinte forma: pela regra de que seus respectivos sacerdotes devem todos ser ensinados por um único e mesmo centro, ou seja, por seu pai comum, o bispo da diocese. Eles são educados em uma escola, isto é, em um seminário; sob a regra, pela voz e o exemplo do único pastor de todos esses grupos ou círculos de cristãos, dos quais eles todos no futuro serão os professores. A doutrina católica, a moral católica, o culto e a disciplina católicas, o caráter, a vida e a conduta cristãs, tudo o que é necessário para ser um bom sacerdote, todos e cada um deles o aprendem nessa escola religiosa, que é a preparação designada para os ofícios ministeriais. 

Assim como os jovens são preparados para sua vocação secular por escolas e professores que lhes ensinem o que ela requer, como as escolas clássicas e as comerciais, os professores de cada profissão e os de várias artes e ciências, assim também os ministros sagrados da Igreja se tornam verdadeiros representantes de seu bispo quando são designados ao cuidado do povo cristão, porque eles provêm de um único centro de educação e da tutela de uma cabeça.

É por isso que Santo Inácio, o bispo mártir de Antioquia, no primeiro século da Igreja, falando da hierarquia eclesiástica e comparando a união das Ordens sacras com o bispo, refere-se a uma cítara em perfeita sintonia. Ele escreve em sua Epístola aos Efésios (n. 4): 

Segue daí, que vos convém avançar junto, de acordo com o pensamento do bispo, como aliás fazeis. Pois vosso presbitério digno de tão boa reputação, digno que é de Deus, sintoniza com o bispo como cordas com a cítara. Por isso, no acorde de vossos sentimentos e em vossa caridade harmoniosa, Jesus Cristo é que é cantado. Mas também, um por um, chegais a formar um coro, para cantardes juntos em harmonia; acertando o tom de Deus na unidade, cantais em uníssono por Jesus ao Pai, a fim de que vos escute.

E se, em todos os tempos, essa simples unidade, esse entendimento perfeito dos membros com a cabeça, é necessário para a ação salutar da Igreja, nestes tempos perigosos ela é especialmente necessária. Sei que todos os tempos são perigosos, e que, em cada época, mentes sérias e aflitas, vivamente atentas à honra de Deus e às necessidades do homem, são capazes de considerar que nenhuma época é tão perigosa quanto a sua. Em todos os tempos o inimigo das almas ataca com fúria a Igreja, que é verdadeira mãe delas, e, se não consegue lhe causar prejuízo, ao menos a ameaça e aterroriza. E todos os tempos têm suas provações especiais, que outros não têm. Vou ao ponto de admitir que havia certos perigos, específicos aos cristãos de outras épocas, que hoje não mais existem. 

Mesmo assim, considero que as provações que se nos afiguram são tais que assustariam e deixariam atordoados até mesmo corações corajosos como Santo Atanásio, São Gregório Magno ou São Gregório VII. E eles confessariam que, por mais obscura que várias vezes lhes parecesse a perspectiva de seu tempo, o nosso tem uma escuridão de um tipo diferente de qualquer outra que tenha existido antes.

O perigo especial do tempo que temos diante de nós é a difusão desta praga da falta de fé [1], que os Apóstolos e Nosso Senhor mesmo predisseram como a pior calamidade dos últimos tempos da Igreja. E está sobrevindo ao mundo uma sombra, pelo menos, uma imagem típica dos últimos tempos. Eu não pretendo presumir que estes tempos são os últimos; eles têm a má prerrogativa, no entanto, de se parecerem com aquele período mais terrível, do qual se diz que os próprios eleitos correrão o risco de se perderem [...].

Estou falando de males que, em sua intensidade e extensão, são peculiares destes tempos. Mas não falei ainda da raiz de todas essas falsidades — que sempre esteve escondida, mas nesta época foi deixada à vista e desavergonhadamente confessada —, ou seja, desse mesmo espírito de falta de fé, ao qual me referi como ao grande mal dos nossos tempos e do qual as objeções que nós constantemente ouvimos e ouviremos serem feitas ao cristianismo ganham sua plausibilidade [2].

A proposição elementar dessa nova filosofia, agora tão ameaçadora, é a seguinte: que em todas as coisas nós devemos ir pela razão, e em nada pela fé; que as coisas são conhecidas e devem ser recebidas à medida que puderem ser provadas. Todos os outros conhecimentos têm provas, dizem seus defensores, por que a religião deveria ser uma exceção? E o modo de prova é avançar do que sabemos para o que não sabemos, de fatos sensíveis e tangíveis para conclusões seguras. O mundo perseguiu o caminho da fé no que diz respeito à natureza física, e o que adveio disso? Até trezentos anos atrás eles acreditavam, porque era essa a tradição, que os corpos celestes estavam fixos em esferas cristalinas sólidas e se moviam ao redor da terra no curso de 24 horas! Por que aquele método que tanto fez no campo da física não poderia beneficiar também esse conhecimento superior que o mundo acredita ter ganhado através da revelação? Não há revelação alguma de cima. Não há exercício de fé algum. Ver e provar são a única base para crer. Eles vão adiante dizendo que, como a prova admite graus, dificilmente se pode ter uma demonstração fora da matemática; nós não podemos ter jamais um simples conhecimento que seja; as verdades são apenas probabilidades. Assim, a fé se torna um erro de duas formas: primeiro, porque usurpa o lugar da razão e, segundo, porque implica um assentimento absoluto a doutrinas, e isso é dogmático, e assentimento absoluto é irracional. Do mesmo modo você encontrará, certamente no futuro, mas — que digo? — mesmo agora, mesmo agora, que os escritores e pensadores do momento sequer acreditam que Deus existe. Eles não acreditam tampouco no objeto — um Deus pessoal, uma Providência e um Governador moral; e, em segundo lugar, aquilo em que eles acreditam, isto é, que há alguma causa primeira ou outra, eles não o sustentam com fé, absolutamente, mas como uma probabilidade.

Vós me direis que suas teorias têm estado no mundo e não são coisa nova. Não. Indivíduos já a tinham trazido à luz, mas elas não eram ideias correntes e populares. O cristianismo não teve jamais a experiência de um mundo simplesmente irreligioso. Talvez a China seja uma exceção. Nós não a conhecemos o suficiente para dizer, mas considerai o que era o mundo greco-romano quando o cristianismo apareceu. Ele era repleto de superstição, não de infidelidade. Havia bastante descrença em todos, quanto à mitologia, e em cada homem instruído, quanto ao castigo eterno. Mas não havia um expurgo da ideia de religião, nem de poderes invisíveis que governavam o mundo. Quando eles falavam do fado (do destino), mesmo aqui eles consideravam que havia uma grande regência moral do mundo, governada por leis inexoráveis. Seus primeiros princípios eram os mesmos que os nossos. Mesmo em meio aos céticos de Atenas, São Paulo podia apelar ao Deus desconhecido. Mesmo à população ignorante de Listra, ele podia falar do Deus vivo que do céu lhes fazia o bem. E, então, quando mais tarde vieram os bárbaros do norte, eles, em meio a todas as suas superstições, acreditavam numa Providência invisível e na lei moral. Nós, porém, estamos nos aproximando de uma época em que o mundo não reconhece nossos primeiros princípios [...].

Que a disciplina de um seminário seja exatamente o necessário para confrontar o atual estado das coisas, não é preciso que seja eu a sugeri-lo [...]. O seminário é a única verdadeira garantia da criação de um espírito eclesiástico. E é essa a primeira arma de verdade para confrontar a época, não a controvérsia. É claro que todo católico deve ter uma abordagem inteligente da própria religião, como diz São Pedro, mas ainda assim a controvérsia não é o instrumento por meio do qual se deve resistir ao mundo e vencê-lo. E isso nós podemos ver se estudarmos essa epístola, que traz consigo uma autoridade própria, por ter sido colocada pelo Espírito Santo na boca do chefe dos Apóstolos. O que ele diz a todos os cristãos, é especialmente conveniente aos sacerdotes. De fato, ele a escreveu em um tempo durante o qual os deveres tanto de uns quanto de outros, contra o mundo pagão, eram os mesmos. Em primeiro lugar, ele os recorda do que eles realmente eram enquanto cristãos, e com certeza nós devemos tomar essas palavras como especialmente dirigidas a nós, do clero. “Vós sois uma geração escolhida, um sacerdócio régio, uma nação santa, um povo adquirido para Deus…” (1Pd 2, 9). 

Nesse espírito eclesiástico, limitar-me-ei a mencionar um espírito de seriedade ou recolhimento. Nós devemos adquirir o hábito de sentir que estamos na presença de Deus, que Ele vê o que o estamos fazendo; e um gosto de que Ele o faça, um amor por esse conhecimento, um prazer nesta reflexão: “Vós, Senhor, me vedes”. Um sacerdote que sinta isso profundamente não se comportará mal em uma sociedade misturada. Isso o guardará da familiaridade excessiva com quaisquer do seu povo; o guardará das muitas palavras, do falatório néscio ou imprudente; o ensinará a ordenar os seus pensamentos. Será um princípio de desapego entre ele e até mesmo seu próprio povo; pois aquele que se habituou a confiar no Deus Invisível, jamais será capaz de se apegar realmente a qualquer de suas criaturas. E assim se criará uma elevação da mente, que é a verdadeira arma que ele deve empunhar contra a falta de fé do mundo (daí o que diz São Pedro em 1Pd 2, 12.15; 3, 16).

Eis o que eu considero ser a verdadeira arma com que a falta de fé do mundo deve ser combatida. 

E, por fim, mais importante na mesma guerra, e aqui também vereis como ela está ligada ao seminário, é um conhecimento sadio, correto e completo da teologia católica. Isso, ainda que não seja controverso, é a melhor arma (depois de uma vida santa) na controvérsia. Qualquer criança bem instruída no catecismo é, mesmo que não o pretenda, uma verdadeira missionária. E por quê? Porque o mundo está cheio de dúvidas e incertezas, e de doutrina inconsistente — e uma ideia claramente consistente da verdade revelada, pelo contrário, não pode ser encontrada fora da Igreja Católica. Consistência e plenitude são um ótimo argumento para persuadir da verdade de um sistema. Se não for consistente, ele não é verdadeiro. 

Referências

  • [São] John Henry Newman. The Infidelity of the Future (Opening of St. Bernard’s Seminary, 2nd October 1873). in: Faith and Prejudice and Other Unpublished Sermons. New York: Sheed & Ward, 1956, pp. 114-128.

Notas

  1. A expressão infidelity é central para este sermão, constando inclusive de seu título. Nesta tradução, achamos por bem vertê-la para “falta de fé”, ao invés de seu cognato “infidelidade”, porque a expressão traduz melhor a apostasia ilustrada por Newman (Nota da Equipe CNP).
  2. Aqui e em um outro trecho mais abaixo, fizemos algumas leves adaptações na tradução, com vistas à clareza e ao melhor entendimento do texto (Nota da Equipe CNP).

Comentários

Os comentários são de responsabilidade exclusiva de seus autores e não representam a opinião deste site. Se achar algo que viole os termos de uso, denuncie. Leia as perguntas mais frequentes para saber o que é impróprio ou ilegal.

“A esperança não engana”: remédios contra o desespero
Espiritualidade

“A esperança não engana”:
remédios contra o desespero

“A esperança não engana”: remédios contra o desespero

A fé nos ensina o quanto Deus fez e dispôs para que sejamos salvos. Por isso, é verdadeiramente possível e, não só isso, também fácil, com tantos e tão grandes meios, chegar ao porto da eterna bem-aventurança.

Pe. Santiago Ramírez, O.P.28 de Outubro de 2019
imprimir

O pecado do desespero se origina sobretudo por defeito de fé, como de sua causa primeira e universal, e por defeito de caridade ou de firme conversão, isto é, por uma vida voltada para os desejos da carne, o que dá lugar ao tédio dos bens espirituais chamado acídia

Ora, uma vez que os contrários se curam por seus contrários (similia similibus curantur), segue-se que o primeiro remédio contra a desesperança é fomentar o exercício da fé e da caridade, de modo que a fé sirva de fundamento à esperança e a caridade, por sua vez, a una com seu fundamento e termo, e assim a solidifique. É por isso que escreve S. João: “Se a nossa consciência nada nos censura, temos confiança diante de Deus, e tudo o que lhe pedirmos, receberemos dele porque guardamos os seus mandamentos e fazemos o que é agradável a seus olhos” (1Jo 2, 21-22). S. Agostinho o expõe com a beleza de sempre, ao escrever: 

Assim como a má consciência está toda no desespero, assim também a boa consciência está toda na esperança. Espera, com efeito, quem tem boa consciência; aquele, porém, a quem punge uma consciência má se afasta da esperança, e não espera senão a condenação. Para esperar o Reino, é preciso ter boa consciência, e para ter boa consciência, é preciso crer e obrar. O crer se deve à fé; a obra, à caridade. A esperança, pois, é o meio pelo qual se vai do início, que é o crer, ao fim, que é o obrar [1].

Deve-se fortalecer especialmente a, que é a substância ou base das coisas que se esperam (cf. Hb 11, 1), segundo aquilo: “Conservemo-nos firmemente ape­gados à nossa esperança” (Hb 10, 23). Deve-se alimentar acima de tudo a fé na Encarnação, que nos mostra que Deus, “por nós, homens, e pela nossa salvação desceu dos céus”, como se reza no Símbolo da fé, aplicando-a a si mesmo, junto com Paulo: “Vivo na fé no Filho de Deus, que me amou e se entregou por mim” (Gl 2, 20); “Basta-te minha graça, porque é na fraqueza que se revela totalmente a minha força” (2Cor 12, 9); “Tudo posso naquele que me conforta” (Fp 4, 13), e recordando as palavras de Cristo aos seus discípulos: “Coragem! Eu venci o mundo” (Jo 16, 33) e “Vou preparar-vos um lugar” na casa de meu Pai (Jo 14, 3), para que, “onde eu estou, estejais comigo vós também” (Jo 17, 24).

Assim, pois, escreve S. Agostinho: 

“Vós, Senhor, nos cobristes com o escudo da vossa benevolência” (Sl 5, 13). Com efeito, a benevolência de Deus precede a nossa boa-vontade, a fim de chamar os pecadores à penitência. Eis a arma com que é expugnado o inimigo, contra quem está dito: “Quem poderia acusar os escolhidos de Deus?” e “Se Deus é por nós, quem será contra nós? Aquele que não poupou seu próprio Filho, mas que por todos nós o entregou” (Rm 8, 31-33); “se, quando éramos ainda inimigos, fomos recon­ciliados com Deus pela morte de seu Filho, com muito mais razão, estando já reconciliados, seremos salvos por sua vida” (Rm 5, 10). Este é o escudo poderosíssimo que repele o inimigo, que induz ao desespero da salvação mediante incontáveis tribulações e tentações [2]. 

E em outro lugar:

Eis que garantias recebemos da promessa de Deus: temos a morte de Cristo, temos o Sangue de Cristo. Quem foi morto? O Unigênito? E por quem foi morto? Quiçá pelos bons, talvez pelo justos. Mas quê? Cristo, diz o Apóstolo, morreu pelos ímpios (cf. Rm 5, 6). Ora, o que entregou sua vida pelos ímpios, que outra coisa tem reservada aos justos senão a sua própria vida?

Erga-se, pois, a fragilidade humana, não desespere, não se abale, não se extravie nem diga: ‘Não poderei’. É Deus quem nos promete, e Ele veio para deixar-nos a promessa: manifestou-se aos homens, veio suportar a nossa morte e prometer-nos a sua vida; veio à região da nossa peregrinação receber o que aqui abunda: ultrajes, flagelos, golpes, cusparadas, injúrias, uma coroa de espinhos, ser pregado à cruz, a morte. É disto que está cheio o nosso mundo, e foi para sofrê-lo que Ele aqui desceu.

O que Ele nos deu, e o que de nós recebeu em paga? Deu-nos conselho, deu-nos doutrina, deu-nos o perdão dos pecados; recebeu, porém, ofensas, morte, cruz. Trouxe-nos os bens da sua pátria, e provou dos males do nosso desterro. Prometeu-nos, contudo, que iremos um dia ao lugar donde Ele veio: “Pai, quero que, onde eu estou, estejam comigo” (Jo 17, 24). Tanto foi o amor com que nos precedeu, que Ele quis estar onde estávamos, a fim de estarmos nós um dia onde Ele agora se encontra.

O que te prometeu Deus, ó homem mortal? Que hás de reinar eternamente. Não o crês? Crê, tem fé. Pois é muito mais o que Ele já fez do aquilo que prometeu. Ora, o que fez Ele? Morreu por ti. E o que prometeu? Que hás de viver com Ele. E o que é mais incrível do que ter morrido Aquele que é eterno, a fim de que por toda a eternidade vivesse com Ele o que é mortal? Se por causa do homem Deus se entregou à morte, acaso não irá o homem viver com Deus? Acaso não há de viver para sempre o mortal por cuja causa morreu Aquele que vive eternamente? [3]

Temos a Deus como Pai; temos no céu a nossa pátria; temos a eterna felicidade por herança. E se em Cristo, que é a nossa Cabeça, já se cumpriu o que nos foi prometido, também nós, que somos membros dele, alcançaremos a mesma felicidade.

A fé nos ensina, pois, o quanto Deus fez e dispôs para que sejamos salvos. Entregou-se por nós; permanece conosco no Sacramento do altar; deixou-nos os sacramentos, donde podemos haurir a haustos plenos a graça que eles operam por virtude própria; destinou a cada um de nós um anjo da guarda, para defender-nos continuamente; deu-nos a Virgem SS. como Mãe e os santos dos céus como intercessores. Deve-se dizer, portanto, com toda verdade que não é só possível, mas também fácil, com tantos e tão grandes meios, chegar ao porto da eterna bem-aventurança.

É preciso também fortalecer a caridade, para que ela vivifique a esperança e a incremente. Graças à caridade, tornam-se saborosas as coisas celestes e tediosas as terrenas, e é por isso que, com ela, se evita tanto a luxúria como a acídia, dois pecados que por si mesmos provocam desesperança

Graças à caridade, “somos julgados tristes, nós que estamos sempre contentes” (2Cor 6, 10), porque — como nota S. Tomás —, “ainda que nos bens exteriores e que dizem respeito à carne padeçamos tristezas e amarguras, no entanto, gozamos internamente uma alegria contínua, que cresce em nós em virtude das consolações do Espírito Santo e pela esperança da recompensa eterna” [4]. Digamos, pois, com o Apóstolo: “Gloriamo-nos até das tribulações. Pois sabemos que a tribulação produz a paciência, a paciência prova a fidelidade e a fidelidade, comprovada, produz a esperança. E a esperança não engana” (Rm 5, 3-5).

Referências

  1. In Psalm. 31, enarrat. 2, n. 5 (PL 36, 265).
  2. In Psalm. 5, n. 17 (PL 36, 89).
  3. In Psalm. 148, n. 8 (PL 37, 1942).
  4. In II Cor. 6, l. 2.

Notas

  • Este artigo é uma tradução levemente adaptada da obra De spe theologica, do Pe. Santiago Ramírez, O.P. (1891-1967), publicada em Salamanca no ano de 1996 pela editora San Esteban, vol. 1, pp. 188-191.

Comentários

Os comentários são de responsabilidade exclusiva de seus autores e não representam a opinião deste site. Se achar algo que viole os termos de uso, denuncie. Leia as perguntas mais frequentes para saber o que é impróprio ou ilegal.