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A mulher que foi profetizada do Gênesis ao Apocalipse
Virgem Maria

A mulher que foi
profetizada do Gênesis ao Apocalipse

A mulher que foi profetizada do Gênesis ao Apocalipse

O nascimento de Cristo foi profetizado em muitas e variadas passagens do Antigo Testamento, assim como o de São João Batista. Mas eles não foram os únicos. Também a Santíssima Virgem teve seu nascimento e existência preditos nas Escrituras.

Mons. Charles PopeTradução: Equipe Christo Nihil Praeponere12 de Setembro de 2020Tempo de leitura: 7 minutos
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O nascimento de Jesus foi profetizado em muitas e variadas passagens do Antigo Testamento; o nascimento de João Batista também o foi (cf. Ml 4, 5s; Mt 11, 14). Mas Maria, a mãe de Jesus, Nosso Senhor, também teve seu nascimento e existência profetizados. Por ocasião da recente festa de sua natividade, procuremos olhar para alguns desses textos, seguidos de alguns comentários de minha autoria.

1. Começamos bem no início do livro do Gênesis. O pecado original acabara de ser cometido por Adão e Eva, que disse ter sido enganada pela serpente. Deus amaldiçoou Satanás e então apontou para uma nova Eva que diria “sim”, enquanto Eva havia dito “não”. Deus disse a Satanás: “Porei ódio entre ti e a mulher, entre a tua descendência (semente) e a dela. Esta te ferirá a cabeça, e tu lhe ferirás o calcanhar” (3, 15).

Deus, portanto, aponta para Maria e para a qualidade única de sua maternidade. Somente ela deu à luz nosso Salvador, que, por seu poder divino e obediência humana, esmagou a cabeça de Satanás. Ora, como não se diz que as mulheres têm “semente”, esta frase incomum atribuída a Maria aponta para ela como fonte única da humanidade de Cristo (pelo poder de Deus) e para o Pai celeste como verdadeiro pai de Jesus.

2. Uma segunda profecia sobre Nossa Senhora está em Isaías. O rei Acaz está resistindo à mensagem de Isaías, que lhe diz para não temer Aram e Efraim, prestes a invadir Judá. Mesmo instruído a pedir um sinal, Acaz recusou. Isaías responde-lhe com impaciência: “Por isso, o próprio Senhor vos dará um sinal: uma virgem conceberá e dará à luz um filho, e o chamará Deus conosco” (7, 14).

Muitos estudiosos modernos das Escrituras rejeitam essa passagem como referência a Maria, argumentando que não poderia tratar-se de um sinal para Acaz, morto centenas de anos antes de seu cumprimento. Também argumentam que “virgem” poderia significar apenas “donzela” (ou jovem esposa), sem referência a uma verdadeira concepção virginal. Mas, ao que tudo indica, nem o Espírito Santo nem S. Mateus pensavam assim, já que aplicaram esta profecia a Maria (cf. Mt 1, 23).

Isaías também aponta para Maria no texto a seguir. Embora, pelo contexto, o profeta esteja alegoricamente falando de Jerusalém como uma mãe ao dar à luz, os detalhes só se cumpriram em Maria:

Eis o que diz o Senhor: “O céu é meu trono, e a terra meu escabelo. Que casa poderíeis construir-me, que lugar poderíeis indicar-me para moradia? Fui eu quem fez o universo, e tudo me pertence”, declara o Senhor. “É o angustiado que atrai meus olhares, o coração contrito que teme minha palavra. […] Escutai esse tumulto que se levanta da cidade, esse barulho que vem do templo. […] Antes da hora, ela deu à luz, antes de sentir as dores, deu à luz um filho. Quem jamais ouviu tal coisa, quem jamais viu coisa semelhante?” (66 1s.6a-8a).

É com base nesse texto que muitos dos Padres da Igreja ensinam que Maria deu Jesus à luz milagrosamente e sem as dores do parto. Embora o povo da época de Isaías não tivesse visto nem ouvido falar tais coisas, o da época de Cristo ouviu e viu isso se cumprir.

3. O profeta Miquéias também aponta para Maria no seguinte texto:

Mas tu, Belém de Éfrata, tão pequena entre os clãs de Judá, é de ti que sairá para mim aquele que é chamado a governar Israel. Suas origens remontam aos tempos antigos, aos dias do longínquo passado. Por isso, Deus os deixará, até o tempo em que der à luz aquela que há de dar à luz. Então, o resto de seus irmãos voltará para junto dos filhos de Israel (5, 1s).

Sim, a salvação esperaria até que nascesse Maria e ela dissesse “sim”, ao invés do “não” de Eva, e, pelo poder de Deus, trouxesse Jesus, nosso eterno Salvador e Senhor.

4. O texto a seguir é do livro do Apocalipse, o qual, por ter sido escrito após o nascimento e a vida de Cristo nesta terra, não é, em sentido estrito, uma profecia a esse propósito. Mas o é enquanto uma meta-história, e, como tal, descreve de forma poética e abrangente os grandes choques entre o bem e o mal, Deus e Satanás, que ocorreram antes de Cristo e, em menor grau, depois. Aqui, reorganizei um pouco o texto para unir os versículos sobre a batalha no Céu:

Apareceu em seguida um grande sinal no céu: uma Mulher revestida do sol, a lua debaixo dos seus pés e na cabeça uma coroa de doze estrelas. Estava grávida e gritava de dores, sentindo as angústias de dar à luz. Depois apareceu outro sinal no céu: um grande Dragão vermelho, com sete cabeças e dez chifres, e nas cabeças sete coroas. Varria com sua cauda uma terça parte das estrelas do céu, e as atirou à terra. […] Houve uma batalha no céu. Miguel e seus anjos tiveram de combater o Dragão. O Dragão e seus anjos travaram combate, mas não prevaleceram. E já não houve lugar no céu para eles. Foi então precipitado o grande Dragão, a primitiva Serpente, chamado Demônio e Satanás, o sedutor do mundo inteiro. Foi precipitado na terra, e com ele os seus anjos (12, 1-4a.7ss).

Vemos aqui uma espécie de profecia celeste de Maria no sinal da mulher vestida de Sol, que estava grávida e prestes a dar à luz. Tradições antigas afirmam que, quando Deus revelou seus planos de salvar a humanidade unindo-se a ela, Lúcifer, um anjo de alto escalão, recusou o plano e, orgulhoso, resistiu-lhe. Os anjos eram muito mais dignos das graças de Deus do que os homens, feitos do barro (cf. Gn 2, 7). Lúcifer encabeçou uma rebelião e houve guerra no Céu:

Esse Dragão deteve-se diante da Mulher que estava para dar à luz, a fim de que, quando ela desse à luz, lhe devorasse o filho. Ela deu à luz um Filho, um menino, aquele que deve reger todas as nações pagãs com cetro de ferro. Mas seu Filho foi arrebatado para junto de Deus e do seu trono. A Mulher fugiu então para o deserto, onde Deus lhe tinha preparado um retiro para aí ser sustentada por mil duzentos e sessenta dias (12, 4b-6).

Existem aqui muitas camadas de sentido. Historicamente, a mulher só pode ser Maria, pois o Filho que ela deu à luz só pode ser Cristo. Alegoricamente, a mulher também pode representar Israel e a Igreja. Embora Satanás tenha buscado e ido ao encalço de Cristo durante toda a sua vida terrena, depois da vitória visível na Cruz, o texto nos diz que Jesus foi arrebatado ao Céu, onde está entronizado. A mulher, fugindo para o deserto, pode nos remeter à fuga para o Egito; mas os 1260 dias (ou seja, três meses [sic] e meio) é, mais provavelmente, uma referência a uma terceira camada deste texto, em que Maria representa a Igreja primitiva. Em 70 d.C., a Igreja primitiva em Jerusalém fugiu para o deserto, para a cidade de Pella, enquanto os romanos sitiavam a cidade, o que durou três meses (sic) e meio.

A representação angustiante do cap. 12 do Apocalipse termina com uma nota sinistra: “Este [o Dragão], então, se irritou contra a Mulher e foi fazer guerra ao resto de sua descendência, aos que guardam os mandamentos de Deus e têm o testemunho de Jesus. E ele se estabeleceu na praia” (12, 17-18).

Também aqui podemos notar que a mulher é Maria e, ao mesmo tempo, a Igreja: Maria, enquanto mãe de Cristo, é também nossa mãe, uma vez que somos membros do Corpo de Cristo. Ora, se Maria deu à luz a Cabeça da Igreja, Cristo, deu à luz também o Corpo de Cristo, isto é, todos os seus membros. A Igreja também é mãe para nós, pois é ela a noiva de Cristo, de cuja casta união fomos gerados. Vemos aqui outra profecia: a de que nós, filhos de Maria e da Igreja, sofreremos perseguições neste “paraíso perdido”. Devemos, pois, apegar-nos à nossa mãe Igreja e a Maria; devemos apegar-nos também ao Senhor e a seus sacramentos, porque temos um inimigo, Satanás, que perambula pela orla do mar (símbolo do caos) à procura de oportunidades.

Que Nossa Senhora nos cubra com seu manto e que Nosso Senhor e seus anjos nos deem todas as suas graças. Que Nossa Senhora seja grandemente venerada nestes dias em que celebramos seu nascimento (8 set.) e seu santíssimo nome (12 set.).

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Ladainha para pedir a graça de uma boa morte
Oração

Ladainha para pedir
a graça de uma boa morte

Ladainha para pedir a graça de uma boa morte

Esta ladainha de preparação para a morte foi aprovada por dois Papas. Mas sua composição é atribuída a uma moça que, convertida da heresia protestante à religião católica aos 15, morreu em odor de santidade com apenas 18 anos de idade.

Equipe Christo Nihil Praeponere9 de Setembro de 2020Tempo de leitura: 4 minutos
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Estas preces em forma de ladainha para pedir uma santa morte foram compostas, pelo que consta, por uma moça convertida da heresia protestante à religião católica com 15 anos e morta, em odor de santidade, aos 18 anos de idade. Pio VII as aprovou com um rescriptum de 12 mai. 1802 e Leão XII, com o decreto confirmativo “Urbis et Orbis”, de 11 ago. 1824.


Ato de abandono. — Senhor Jesus, Deus de bondade, pai de misericórdia, eis-me aqui, diante de Vós, de coração humilhado, contrito e confuso; encomendo-Vos a minha hora suprema e tudo o que depois dela vier.

1. Quando os meus pés imóveis me indicarem já estar consumada a minha passagem neste mundo, benigníssimo Jesus: tende piedade de mim

2. Quando as minhas mãos, cansadas e trêmulas, não puderem mais segurar Vossa imagem, ó Jesus crucificado, e quando, à minha revelia, elas caírem com a cruz sobre o meu leito de morte, benigníssimo Jesus: tende piedade de mim.

3. Quando os meus olhos, escurecidos e aterrorizados com o rosto da morte que se avizinha, se dirigem a Vós, tristes e a ponto de cerrar-se, benigníssimo Jesus: tende piedade de mim.

4. Quando os meus lábios, frios e trêmulos, pronunciarem pela última vez o Vosso santo nome, benigníssimo Jesus: tende piedade de mim.

5. Quando o meu rosto, pálido e lívido, inspirar compaixão e horror aos circunstantes, e quando os meus cabelos, eretos e a suarem o suor letal, anunciarem a proximidade do meu fim, benigníssimo Jesus: tende piedade de mim.

6. Quando as minhas orelhas, incapazes de atender à voz dos homens, se alçarem para escutar a sentença irrevogável, que irá determinar o que será de mim para sempre, benigníssimo Jesus: tende piedade de mim.

7. Quando a minha mente, agitada por tristes e horrendos pensamentos, estiver prostrada de abatimento; quando o meu espírito, turbado pela consideração de minhas iniquidades e pelo medo de Vossa justiça, lutar contra o príncipe das trevas, que, ocultando-me Vossas misericórdias, tentará levar-me ao desespero, benigníssimo Jesus: tende piedade de mim.

8. Quando o meu coração, débil, oprimido pela doença, trespassado pelos horrores da morte, se enfraquecer na luta contra os inimigos de minha salvação, benigníssimo Jesus: tende piedade de mim.

9. Quando receberdes, em sacrifício expiatório, minhas últimas lágrimas, a anunciarem a chegada da morte, a fim de que eu expire como vítima de penitência; neste momento terrível, benigníssimo Jesus: tende piedade de mim.

10. Quando os meus pais e amigos se puserem à minha volta, chorando pela minha sorte, e Vos invocarem em meu favor, benigníssimo Jesus: tende piedade de mim.

11. Quando eu for privado de todos os sentidos e vir passar diante de mim a figura deste mundo e, assim oprimido, chegar à hora da agonia, benigníssimo Jesus: tende piedade de mim.

12. Quando os últimos suspiros do meu coração instarem minha alma a que abandone o corpo, sejam-Vos eles um sinal de que quero desprender-me para estar convosco; benigníssimo Jesus: tende piedade de mim.

13. Quando a minha alma, então a fluir-me pelos lábios, disser adeus ao mundo para sempre e deixar-me o corpo pálido, rígido e exânime, recebei a destruição deste corpo em reconhecimento do Vosso supremo domínio; benigníssimo Jesus: tende piedade de mim.

14. Enfim, quando a minha alma comparecer diante de Vós e, pela primeira vez, contemplar o esplendor de Vossa majestade, não a lanceis para longe de vossa face, mas acolhei-me no seio de Vossa misericórdia, para que eu cante os Vossos louvores para sempre; benigníssimo Jesus: tende piedade de mim.

Oração. — Ó Deus, que para o nosso bem nos sentenciastes à morte, mas não quisestes que soubéssemos o dia nem a hora, dai-me a graça de viver justa e piedosamente todos os dias de minha vida, para que eu morra na vossa paz e no vosso amor. Por Nosso Senhor Jesus, Vosso Filho, que convosco vive e reina na unidade do Espírito Santo. Amém.


Ao final, podem acrescentar-se também as seguintes orações:

Três oblações em honra da SS. Trindade para impetrar a graça de bem morrer. I. A Vós, SS. Trindade, oferecemos os méritos de Jesus Cristo, em ação de graças por Ele ter derramado o seu Preciosíssimo Sangue por nós no Horto das Oliveiras; e Vos pedimos, por seus méritos, que nos perdoeis os nossos pecados. Pai-Nosso, Ave-Maria, Glória. — II. A Vós, SS. Trindade, oferecemos os méritos de Jesus Cristo, em ação de graças por Ele ter-se entregado por nós à morte de Cruz; e Vos imploramos, por seus méritos, que nos perdoeis benignamente as penas devidas aos nossos pecados. Pai-Nosso, Ave-Maria, Glória. — III. A Vós, SS. Trindade, oferecemos os méritos de Jesus Cristo, em ação de graças pela inefável caridade com que Ele desceu dos céus à terra, para assumir nossa carne, padecer e morrer por nós na Cruz; e Vos pedimos, por seus méritos, que nos concedais a graça de morrer santamente e que conduzais nossas almas à glória celeste. Pai-Nosso, Ave-Maria, Glória.

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A religião que defende, praticamente sozinha, a razão
Sociedade

A religião que defende,
praticamente sozinha, a razão

A religião que defende, praticamente sozinha, a razão

O catolicismo defende praticamente sozinho a razão que é baseada na integridade da mente em relação ao que é. Somos os últimos a sustentar que o mundo nos foi dado, e não criado por nossa própria mente.

Pe. James V. SchallTradução: Equipe Christo Nihil Praeponere9 de Setembro de 2020Tempo de leitura: 4 minutos
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O ponto central da Revelação, no sentido católico, é que o mundo existe, em si mesmo, como uma arena na qual pessoas individuais — cada uma com um nome próprio, em suas relações umas com as outras, seja qual for o tempo ou o lugar — trabalham tendo em vista a sua salvação. A salvação não corresponde à preservação de apenas alguns homens ao longo das eras deste mundo. Cedo ou tarde, a raça humana desaparecerá deste planeta. A salvação reconhece que a espécie humana tem se reproduzido, geração após geração, desde o seu início. O atual número de pessoas, sete ou oito bilhões, é o maior de que temos notícia na história. Os bens naturais do mundo foram postos nele a fim de que o homem aprendesse o que são e como deve usá-los. Os bens sub-humanos só adquirem propósito definitivo por meio desse propósito do homem. 

Essa dependência permanente em relação à riqueza natural existente no planeta era, ela mesma, uma função da inteligência e da capacidade criadora do homem. Depois de sua criação, o homem não recebeu tudo pronto. Ele foi criado, no dizer de Aristóteles, não com garras ou couraça, mas com “uma mente e uma mão” para que pudesse aprender a se sustentar. Esse poder implícito da mente foi a confiança inicial que Deus teve ao criar no mundo um ser racional.

Porém, este mundo não foi dado ao homem para que este dele cuidasse como seu fim último, senão para que, vivendo nele e tratando dele, ele pudesse alcançar a salvação pessoal de cada ser humano, que de modo concreto significa participar da vida trinitária interior de Deus. Isso sugere que não somente a existência de Deus é central para o que somos. Também as nossas mentes nos foram dadas, não apenas para que as possuíssemos, mas para que, por meio delas, pudéssemos conhecer a verdade das coisas. Ademais, esse Deus é trinitário, um único Deus com uma diversidade de pessoas, uma comunhão ou, se preferir, uma amizade.

O catolicismo alega ser verdadeiro, mas apenas com base na evidência, na razão e em testemunhos confiáveis. Essa alegação é, hoje, apenas uma cega veleidade. Se ele for apenas mais uma forma de humanitarismo inconclusivo que se dá bem com qualquer coisa por não se distinguir de nada, não vale a pena dar muita atenção a ele. Mas ele não é apenas mais uma forma de relativismo ou opinião sem fundamento. Por isso, não pode deixar de lidar com posicionamentos que o consideram falso. Escrevi um livro cujo título é justamente The Mind That Is Catholic [“A Mente Católica”, sem tradução portuguesa]. O catolicismo é uma religião intelectual. Se nenhum argumento puder ser feito em favor de sua validade, ele não será crível. Chesterton encerra seu livro Hereges, publicado em 1905, afirmando que os últimos defensores da razão no mundo moderno seriam os crentes naquela inconfundível Revelação que é a única que se dirige à razão.

Se a minha compreensão da mente moderna estiver correta, já atingimos o ponto que Chesterton anteviu há mais de cem anos. O catolicismo defende praticamente sozinho a razão que é baseada na integridade da mente em relação ao que é. Somos os últimos a sustentar que o mundo nos foi dado, e não criado por nossa própria mente. Porém, com essa mesma mente, nós descobrimos e articulamos o que é. Num mundo onde o relativismo é institucionalizado, qualquer reivindicação da verdade é repreendida como arrogante ou fanática. Os católicos parecem presunçosos metidos que duvidam dos preconceitos básicos da mente moderna — e de fato eles duvidam.

A reivindicação da verdade, tanto da razão como da Revelação, de fato enlouquece o mundo moderno. Como sugere o Evangelho de João, a verdade incita a perseguição que Cristo disse que seus discípulos deveriam esperar. As doutrinas mais razoáveis do catolicismo parecem loucura num mundo que nega qualquer ordem, na natureza ou no ser humano, que não tenha sido estabelecida pelo próprio homem. Também parece loucura para aqueles que se habituaram a considerar normais aberrações como o aborto, vícios oriundos da internet, divórcio e experimentos com fetos, só porque eles se tornaram frequentes. Mas até a palavra “loucura” perde o sentido quando não há nenhuma ordem ou nada normal que possa ser usado como termo de comparação.  

No Ofício Divino para o Domingo da Santíssima Trindade, Santo Atanásio (morto em 373) fala da vida interior da Divindade. Essa é a doutrina sobre a realidade que mais desafia nossa razão a ser, ela mesma, mais razoável. Atanásio nos aconselhou a estudar o antigo e tradicional ensinamento da Igreja Católica. Ele foi revelado pelo Senhor, proclamado pelos Apóstolos e protegido pelos Padres da Igreja. Se o abandonássemos (lapse from this teaching), não seríamos católicos “de fato nem de nome”. Sem dúvida, vivemos num mundo cheio de católicos não praticantes (lapsed Catholics), num mundo que costuma rejeitar qualquer proposição que inclusive alegue ser verdadeira.  

De algum modo, a rejeição da Revelação nos torna menos capazes de conhecer e enxergar o que é. Desde o início dos tempos foi-nos revelado o que precisávamos saber para a nossa salvação — em si mesmo, o propósito da Encarnação — a fim de que escutássemos, isto é, entendêssemos a Palavra que agora se tornou carne e assim pudéssemos aprender em nossa própria língua. Deus não foi negligente por não nos ter dito mais. Ele não revelou todos os outros detalhes para que não houvesse nada de que nos pudéssemos dar conta por nós mesmos. É difícil superestimar a importância desse fato. Ele nos deixou amplas lacunas a fim de que pudéssemos usar nossos próprios cérebros. Essa revelação sobre a vida interior de Deus foi dada a nós. Como consequência, nós também viemos a conhecer mais do que poderíamos saber sobre todo o resto.

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Por que me preocupar em voltar à Missa?
Igreja Católica

Por que me preocupar em voltar à Missa?

Por que me preocupar em voltar à Missa?

Após a pandemia, muitos cristãos que perderam o hábito de ir à igreja, tanto católicos como protestantes, provavelmente nem se darão ao trabalho de voltar. O fato não é muito difícil de prever, mas você… sabe dizer por que isso acontecerá?

Pe. Dwight LongeneckerTradução: Equipe Christo Nihil Praeponere8 de Setembro de 2020Tempo de leitura: 6 minutos
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Certa vez, quando eu trabalhava como capelão numa escola católica, os pais de um rapaz do nono ano marcaram uma reunião comigo. João era um aluno inteligente, de boa aparência e popular. Vinha de uma respeitável família presbiteriana. Os pais chegaram pontualmente, estavam bem vestidos e eram educados. Depois de falarmos sobre algumas trivialidades, a mãe de João manifestou suas preocupações.

— Padre, estamos preocupados com João… — Nesse momento, ela olha para o marido em busca de apoio moral. — Estamos preocupados, não estamos, querido?

Obediente, o marido assentiu. 

— Entendi. Qual seria o problema? — perguntei. 

— Estamos preocupados com a vida espiritual dele e achamos que você poderia ajudar. João gosta do sr. e talvez o escute.

— Tudo bem. Farei o que puder. Poderiam me contar um pouco mais?

João declarou que não irá mais à igreja. — A mãe começou a fungar. 

— Vocês são presbiterianos, certo?

Isso mesmo, padre.

— Ele disse por que não quer mais ir à igreja?

Ele disse que pode ler a Bíblia e rezar da mesma forma em seu quarto em casa — respondeu o pai.

—Entendo. — Reflito por um momento, e então respondo: — Bem, João está certo, não?

Essa não foi a resposta que a mãe esperava. De repente, demonstrando interesse, o pai se aproximou.

— O que quer dizer, padre? — diz a mãe, nervosa.

— Quero dizer que João está certo. Ele pode ficar em casa, ler a Bíblia e rezar. Deixem-me perguntar uma coisa: a Igreja ensina que devemos ir à igreja para chegar ao céu?

— Bem, não, não exatamente — disse a mãe, hesitante.

— Fui criado numa religião como a de vocês e, pelo que me lembro, tudo o que temos a fazer é nos salvar, certo? Não precisamos ir à igreja — acrescentei.

— Sim, acho que isso está certo. Mas João realmente deveria ir à igreja conosco, não?

— Não me interpretem mal. Realmente acho que seria melhor que João fosse à igreja do que ficar em casa. Mas ele é um garoto inteligente, e acho que entendeu algo que é verdade. Nós católicos temos uma visão diferente disso. Gostariam de saber mais?

Agora o pai fica realmente interessado e a mãe relaxada, embora um tanto apreensiva. O pai respondeu: — Sim. Qual é a sua visão sobre isso?

— Dizemos que um católico deve ir à igreja todo domingo porque ele deveria aceitar o Senhor Jesus pela participação no Santo Sacrifício da Missa, e não é possível fazer isso em casa ou por conta própria. É necessário ter um sacerdote. No capítulo seis do Evangelho de João, Jesus diz: “Se não comerdes a carne do Filho do Homem, e não beberdes o seu sangue, não tereis a vida em vós mesmos” (Jo 6, 53). Portanto, para chegar ao céu temos de ir à igreja. Por isso os católicos têm uma regra que diz que devem ir à igreja.

O pai se inclina para frente: — Isso é muito interessante, padre. Quero saber mais.

Naquele momento, a mãe interrompe a conversa, agradecendo-me educadamente pela ajuda. Se não me falha a memória, João saiu da escola pouco tempo depois.

Conto essa história porque tem circulado um bom número de artigos sobre a Igreja e o período pós-pandemia. A maioria dos escritores previram que muitos cristãos, tanto católicos como protestantes, que perderam o hábito de ir à igreja provavelmente não voltarão. Acho que esses autores têm razão quanto a isso. A Covid-19 por si só terá dado origem à Igreja mais reduzida, menor e mais comprometida que Cardeal Ratzinger previu há algumas décadas.

Embora essa previsão me pareça correta, muitos comentadores não perceberam a razão por que está correta. Muitos cristãos, católicos e protestantes, farão a si mesmos a mesma pergunta que João se fez e já terão a resposta: “Igreja? Por que deveríamos nos preocupar?” 

Esse monstro que está debaixo da cama é um deísmo moralista e terapêutico. Por toda a América, ao longo das últimas cinco ou seis décadas, os líderes cristãos substituíram de forma sorrateira a religião revelada, sobrenatural e vital, isto é, o cristianismo autêntico, por uma religião “placebo”. Como outros já observaram, o cristianismo falsificado se resume a regras de respeitabilidade, a um código moral brando e à transformação do mundo em um “lugar melhor”

Como o cristianismo do século XXI foi transformado nesse algodão doce, uma multidão de Joões concluiu que “não precisa” ir à Missa nesse tipo de religião. Podem muito bem aprender como ser legal e respeitável em um clube. Podem tornar o mundo um lugar melhor se sentirem vontade de trabalhar como voluntários distribuindo sopão comunitário, ou podem se sentir espiritualizados em relação ao “grande Espírito no Céu”, talvez depois de acenderem uma vela perfumada ou de assistirem a um belo amanhecer. Por que deveríamos acordar cedo aos domingos para nos deslocar até um auditório monótono, a fim de cantar umas melodias bregas e artificiais sobre Jesus e, então, escutar um discurso motivacional e medíocre, proferido por um pastor obeso e idoso?

Eu estou com o João.

Atrás do possível (e talvez inevitável) colapso de participação na igreja pós-pandemia está uma catastrófica perda de fé. Não se trata apenas de um caso de perda individual da fé, mas da apostasia de toda uma igreja cristã e de uma nação por terem se apaixonado por um sucedâneo sentimentalista: clichês e lugares-comuns racionalistas que não só não são o cristianismo, mas nem sequer constituem uma religião.

Em todas as suas formas, a religião sempre esteve relacionada ao encontro do homem com o divino (em todas as épocas, lugares e povos). Os astecas que decapitavam suas vítimas, os monges budistas que meditam numa montanha sagrada, uma testemunha de Jeová que faz seu apostolado ou um ritual amazônico oferecido à Pachamama, todas essas coisas dizem respeito a um encontro com o “outro lado”. Os americanos deixarão de ir à igreja porque o que lhes foi apresentado não é mais uma religião, e as pessoas não querem receber falsas promessas. Elas não vão a uma churrascaria para comer hambúrguer de soja.

O elemento mais perturbador dessa má notícia é, pelo que me parece, a aceitação dessa falsa versão do cristianismo por parte da maioria dos católicos americanos. Pelo que pude observar na vida eclesial dos católicos — desde o lamentável nível de catequese até o modernismo obstinado do clero e dos acadêmicos —, o mesmo deísmo moralista e terapêutico se espalhou como um câncer nocivo por toda a Igreja. Seria interessante perguntar aos católicos americanos por que, exatamente, eles deveriam ir à igreja. Quantos diriam: “Porque só lá eu posso receber o Corpo e o Sangue salvadores do meu Senhor Jesus Cristo”? 

O que sobreviverá a esse desastre? Estou convencido de que o catolicismo da segunda metade do século XXI será místico, milagroso, ou não será nada. Irá sobreviver a religião autêntica. O culto tradicional irá sobreviver, mas não porque o sacerdote usa casula romana e barrete, ou porque as mulheres se cobrem com véu na igreja. Irá sobreviver porque os tradicionalistas creem no místico, no milagroso. A religião carismática da África e da Ásia também sobreviverá, mas não porque eles cantam em línguas, dançam ao som dos tambores da selva e escutam longos sermões. Sobreviverá porque eles creem no místico, no mitológico e no milagroso.

O que irá perecer? A igreja da mãe de João, com sua branda respeitabilidade e sua mensagem farisaica de justiça social. É essa a forma de “cristianismo” — católico e protestante — que está nos estertores. Que descanse em paz.

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