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A Igreja é como a Arca de Noé
Doutrina

A Igreja é como a Arca de Noé

A Igreja é como a Arca de Noé

É promessa de Nosso Senhor, a Igreja não perecerá. Seu destino, fixado por seu divino Fundador, é ser “Arca de Noé”, segura, firme e inabalável como uma rocha. Ainda que muitos trabalhem por sua destruição.

Equipe Christo Nihil Praeponere6 de Maio de 2020Tempo de leitura: 7 minutos
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Em tempos de confusão como os nossos, o trabalho dos católicos é difícil, sim, mas é ao mesmo tempo muito simples: se permanecermos aferrados àquilo que a Igreja sempre ensinou, se permanecermos fiéis à doutrina católica de dois mil anos, então ficaremos de pé, resistiremos ao relativismo reinante, nos salvaremos do “tsunami” que arrasta e leva à morte.

A meta é sobrevivermos e, também, fazer sobreviver conosco o maior número de pessoas possível. Não sem razão a imagem que o próprio Catecismo (n. 845) evoca para simbolizar a Igreja é a da Arca de Noé: dentro dela se acha a salvação, e dentro dela; fora, só o que há é a devastação. 

Mas, será que ainda cremos nisso? 

Nossos leitores terão de nos perdoar a insistência nesse tema da , mas ele não pode passar batido, porque foi o próprio Senhor quem manifestou a sua necessidade e imprescindibilidade: “Quem crer será salvo, quem não crer está condenado” (cf. Mc 16, 16; Jo 3, 18). A falta de fé é, já neste mundo, um sinal de reprovação eterna! Quem o diz é Jesus Cristo, manso e humilde de Coração, a própria Misericórdia que se fez carne, o mesmo que curou pobres e enfermos e passou por este mundo fazendo o bem… O Evangelho não fala de “dois Cristos”. É um só o que fala da salvação e da condenação; um só o que fala do Céu e do Inferno; um só o que fala de Deus, e do demônio.

E, no entanto, que visão temos mantido em nosso modo de pensar e de agir? Tratamos a salvação, a graça e a vida eterna como um “presente barato”, que em qualquer fundo de quintal se pode achar, que em qualquer religião se pode ganhar, que com qualquer tipo de vida se pode alcançar… 

Sim, os tempos são maus, e as pessoas estão perdidas num indiferentismo religioso assustador. Mas a nós cabe remar contra a correnteza. Não nos conformarmos com este mundo (cf. Rm 12, 2). Não aceitar que a fé católica seja tratada como mais uma entre tantas outras. Permanecer na segurança da fé perene da Igreja. E por quê? Porque:

O mundo foi criado em vista da Igreja”, diziam os cristãos dos primeiros tempos. Deus criou o mundo em vista da comunhão com sua vida divina, comunhão esta que se realiza pela “convocação” dos homens em Cristo, e esta “convocação” é a Igreja. A Igreja é a finalidade de todas as coisas, e as próprias vicissitudes dolorosas, como a queda dos anjos e o pecado do homem, só foram permitidas por Deus como ocasião e meio para desdobrar toda a força de seu braço, toda a medida de amor que Ele queria dar ao mundo: “Assim como a vontade de Deus é um ato e se chama mundo, assim também sua intenção é a salvação dos homens e se chama Igreja” (Catecismo da Igreja Católica, n. 760).

Atentemo-nos bem ao que vai escrito no Catecismo e respondamos com muita sinceridade se muitos hoje (muitos de nós até!) não teriam vergonha de proclamar frases como estas: “O mundo foi criado em vista da Igreja”, ou: “A Igreja é a finalidade de todas as coisas” (ou, ainda, o velho axioma de que “fora da Igreja não há salvação”), quando o que está na moda é justamente abraçar o mundo, adotar a linguagem e os modos do mundo, diluir a Igreja no mundo. Fica a impressão, na verdade, de que é a Igreja que “foi criada em vista do mundo”, e que “todas as coisas são a finalidade da Igreja”, menos aquilo para o que ela realmente foi fundada: converter os homens e levá-los ao Céu.

De fato, como repetirá essas sentenças dos primeiros cristãos (o Catecismo atribui algumas delas a Hermas e a São Clemente de Alexandria) um bando de católicos apóstatas, que substituiu a religião sobrenatural fundada por Nosso Senhor Jesus Cristo por uma religião natural qualquer, sem Batismo, sem missão, sem conversão? Como falaremos das belezas da Igreja estando tão preocupados, entusiasmados ou até hipnotizados com as coisas do mundo

Tomando a imagem da Arca do Antigo Testamento, é como se Noé e os demais tripulantes da embarcação decidissem pôr abaixo o instrumento que os está salvando para se afogarem todos juntos no dilúvio. Ora, se cremos (mas nós cremos?) que a salvação está dentro da Igreja, na fé em Cristo e na recepção assídua dos sacramentos, não seria o caso de salvarmos as pessoas do caos, “pescando-as” das águas turbulentas em que se encontram para trazê-las à segurança da Arca? 

Note-se bem que não estamos falando de simplesmente “fechar-nos” na Arca e deixar, literalmente, que os outros se danem. Essa postura não tem nada a ver com o cristianismo e com o mandato de Nosso Senhor de evangelizar todos os povos. Tampouco se trata de querer separar o joio e o trigo antes do tempo previsto pelo único e verdadeiro Juiz… É claro que também dos que foram pescados Nosso Senhor fará uma separação dos bons e dos maus. Mas não é por isso que deixaremos de lançar as redes e pescar! O que não significa, também, entregar-se ao mundo, tornar-se “amigo do mundo” (à custa de nossa amizade com Deus, inclusive, cf. Tg 4, 4), pois querer salvar os que estão no mundo não é ser suicida, tampouco menosprezar a segurança do barco em que, por graça de Deus, nos encontramos.

Nesse sentido, outro Catecismo, o de São Pio X, começa com uma pergunta sobre a qual faríamos bem em refletir nesses dias. Ele pergunta: “Sois cristão?”, e responde: “Sim, sou cristão pela graça de Deus!” (n. 1). Ou seja, ser de Cristo, pertencer ao seu Corpo místico, que é a Igreja por Ele fundada, é uma grande graça, “um dom de Deus, que nós não podemos merecer” (n. 2). Mas, se é assim, se ser cristão é uma graça, não sê-lo é uma desgraça; e por isso todos deveríamos trabalhar com afinco para que nossos irmãos, familiares e amigos deixassem a desgraça de sua condição para se fazerem cristãos, membros da Igreja, tripulantes da Arca mais salutífera que a de Noé. 

Isso, porém, é o que deveria acontecer logicamente dentro de uma comunidade que crê, que ama a Arca na qual Deus a colocou, que é capaz de cantar com o coração o Salmo 83: “Quão amável, ó Senhor, é vossa casa, quanto a amo, Senhor Deus do universo! Minha alma desfalece de saudades e anseia pelos átrios do Senhor! [...] Na verdade, um só dia em vosso templo vale mais do que milhares fora dele! Prefiro estar no limiar de vossa casa, a hospedar-me na mansão dos pecadores!” Mas onde está essa alegria visível de pertencer à Igreja, de estar nos átrios do Senhor? Os arquitetos, no interior, parecem ter-se esquecido quem é o Senhor da Arca. Talvez eles a considerem até “antiquada” demais. Seria preciso deixar entrar um pouco de água aqui e acolá… até nos tornarmos, talvez, um Titanic.

Esse é o projeto que alguns, soberbamente, gostariam de pôr em prática. Mas os corações que crêem e amam a casa de Deus existem, e eles sustentam a barca da Igreja com suas orações e penitências. Além do mais, “as portas do inferno não prevalecerão” (Mt 16, 18). É promessa de Nosso Senhor, a Igreja não perecerá. Seu destino, fixado por seu divino Fundador, é ser Arca segura, firme e inabalável como uma rocha — ainda que muitos nela trabalhem, conscientemente ou não, para que ela soçobre.

Por isso, permaneçamos firmes na esperança. Os tempos são difíceis, é verdade, o mar tempestuoso ameaça cobrir a barca da Igreja e o Senhor parece dormir (cf. Mt 8, 24); as notícias não são nada alvissareiras e a tentação é desesperar. No meio de tudo isso, porém, não nos esqueçamos: a Igreja Católica não é um Titanic, idealizado e construído por um simples homem. Não. Ela é objeto de nossa fé, pois foi querida e moldada pelo próprio Jesus Cristo. Não só isso: o mundo foi criado em vista dela, ela é a finalidade de todas as coisas

Se tivermos isso em mente, nosso coração pulsará de modo diferente ao nos levantarmos domingo e declararmos, com voz forte: “Creio na santa Igreja Católica”. Sim, nós cremos na Igreja una, santa, católica e apostólica (in unam, sanctam, catholicam et apostolicam Ecclesiam), e nessa fé queremos viver, morrer… e viver para sempre.

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A epidemia do ódio à paternidade
Sociedade

A epidemia do ódio à paternidade

A epidemia do ódio à paternidade

A epidemia de odium patrum abala não somente a civilização ocidental, por atacar seus fundamentos, mas também a relação entre a sociedade e Deus, pois Ele é visto ceticamente como mais um exemplo do patriarcado maligno a ser combatido.

Casey ChalkTradução: e adaptação da Equipe CNP4 de Maio de 2020Tempo de leitura: 7 minutos
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Há uma crise “sistêmica” em nossa cultura: uma aversão crescente não apenas ao patriarcado, mas a todos os elementos da sociedade influenciados pela masculinidade e pela paternidade. Trata-se de um odium patrumum ódio aos pais hostil e canceroso para a sociedade ocidental.

Não precisamos ir longe para encontrar exemplos de parricídio na cultura americana. Um artigo de julho de 2019 publicado no Washington Post culpou os homens pelo aumento do alcoolismo entre mães, e citou uma que alegou: “O problema de fundo é nossa sociedade patriarcal que não apoia os genitores, especialmente as mães”. 

Supostamente, o “patriarcado” é responsável por todo tipo de maldade: diferença salarial entre homens e mulheres, restrições ao aborto e até mesmo taxas de mortalidade entre os homens e dietas de suco detox. Essa aversão vai muito além de quaisquer resíduos de estruturas sociais predominantemente masculinas. Ela abrange não apenas tudo o que cheira a “velhos homens brancos” e “masculinidade tóxica”, mas também a tradição, o conservadorismo, a religião institucional e até figuras paternas — inclusive sacerdotes e o próprio Deus.

Basta ler atentamente os artigos de opinião do Washington Post ou do New York Times para ver manifestações quase diárias de odium patrum. A colunista do Washington Post Monica Hesse, por exemplo, cobre o bordão “gênero e seu impacto na sociedade” com manchetes provocativas como estas: “Por que tantos pais acham que têm a obrigação de monitorar a virgindade de suas filhas?”, “Precisamos falar sobre o motivo por que atiradores em massa quase sempre são homens” e “Caminhei ‘como um homem’ durante uma semana e eis o que eu percebi”. Comerciais e programas de televisão, por sua vez, acusam os homens de perpetuar a masculinidade tóxica e os retratam como incompetentes e desastrados dignos do nosso desprezo.

O que está por trás dessa aversão a quase metade da sociedade? 

Em seu livro recente Primal Screams: How the Sexual Revolution Created Identity Politics [“Gritos Primitivos: Como a Revolução Sexual Criou a Política Identitária”, sem tradução portuguesa], Mary Eberstadt cataloga algumas respostas. Ela cita o “Manifesto do Coletivo Combahee River”, de 1970, como sintomático do paradigma do odium patrum em sua perspectiva de antagonismo frente aos homens [1]. Estes seriam responsáveis pelos “modos de interação habitualmente sexistas com mulheres negras, bem como pela opressão delas”.

Marcha feminista em Washington, janeiro de 2017.

Uma geração depois, isso se tornou, de acordo de Eberstadt, “tema de conversas diárias e realidade para todos: um mundo no qual os homens se tornaram cada vez menos honestos e confiáveis, as relações entre os sexos se tornaram cronicamente distantes e consumistas, e o matrimônio se tornou algo incomum”. 

Desde a década de 1970, disparou o número de gravidezes fora do casamento nos EUA, particularmente entre os negros, fazendo com que mais de uma geração ficasse marcada pela ausência da figura paterna. “Lares desestruturados tornam distante a figura do pai, às vezes rompendo de vez o vínculo paterno”, diz Eberstadt. De forma mais ampla, a decadência da família resultou numa redução do número de homens que “oferecem afeto e companheirismo sem conotação sexual — menos irmãos, primos, tios e outros”, pessoas que em gerações passadas costumavam proteger as mulheres de homens agressivos e indesejados.

Em vez de serem vistos como protetores e provedores, os homens hoje são tratados como competidores, ou mesmo canalhas. Surgiu um novo paradigma cultural no qual as mulheres aprendem que devem competir com os homens e agir como eles. “Os homens são o padrão pelo qual as mulheres devem ser medidas”, observa Eberstadt. Além disso, como mostra a estatística sobre lares desestruturados mencionada acima — segundo a qual a figura paterna muitas vezes está ausente —, cada vez mais a sociedade tem visto os homens como pessoas não confiáveis, ou até como agressores e manipuladores. Assim, os garotos são criados “num hábitat humano em que seu próprio DNA é visto como um problema desde o nascimento”.

No fundo, é possível encontrar as raízes do odium patrum na narração bíblica da Criação. 

No capítulo III do Gênesis, a serpente, representando Satanás, faz a primeira acusação contra a bondade patriarcal de Deus. A fim de tentar a mulher a comer o fruto da árvore do conhecimento do bem e do mal, o diabo lhe diz: “Não morrereis! Mas Deus bem sabe que, no dia em que dele comerdes, vossos olhos se abrirão, e sereis como deuses, conhecedores do bem e do mal”. Portanto, numa reviravolta cruel, o pai da mentira faz do Pai celestial da humanidade um mentiroso que procura dominar e oprimir suas criaturas

Essa mentira abala a compreensão que o homem tem de Deus como Pai amoroso. O Salmista escreve: “Como um pai tem piedade de seus filhos, assim o Senhor tem compaixão dos que o temem” (Sl 102, 13). A imagem do pai benevolente atinge seu clímax na parábola do filho pródigo, onde o pai (representando Deus) vê seu filho desobediente de longe, corre em sua direção, abraça-o e restitui seu lugar na família (cf. Lc 15).

Na cosmovisão judaico-cristã, os homens devem imitar o modelo do pai sábio e benevolente. Em outra passagem da Sagrada Escritura, Deus fala de sua relação com o filho do rei Davi: “Eu serei para ele um pai e ele será para mim um filho. Se ele cometer alguma falta, eu o castigarei com vara de homens e com açoites de homens, mas não lhe tirarei a minha graça” (2Sm 7, 14-15). Essa imagem está no coração da tradição ocidental, desde a paternidade espiritual representada perfeitamente pelos maiores santos da Igreja até os Pais Fundadores de nação americana. Não é de admirar que as nossas grandes obras literárias ou apresentem figuras paternais exemplares (O Sol é Para Todos, de Harper Lee) ou chorem sua ausência (Absalão, Absalão!, de William Faulkner).

Detalhe da “Reprovação de Adão e Eva”, por Domenico Zampieri.

A epidemia de odium patrum, portanto, abala não somente a civilização ocidental, por atacar seus fundamentos, mas também a relação entre a sociedade e Deus, pois Ele é visto ceticamente como mais um exemplo do patriarcado maligno a ser combatido. Essa epidemia presume, de modo autodestrutivo, que não devemos confiar em Deus e que Ele é mau, egoísta, sedento de poder e manipulador, que procura preservar seu domínio terrível sobre os oprimidos. 

Mas, se não podemos confiar em Deus Pai, que esperança há para o pai comum? Afinal, a figura paterna é, por extensão, portadora das mesmas características malignas.

Indivíduos atomizados, separados de famílias estáveis e criados em comunidades carentes de figuras masculinas respeitadas e honradas, são incitados a fazer guerra contra “os pais” a fim de preservarem sua autonomia e se autorrealizarem. No entanto, ao se esforçarem para destruir seu patrimônio por meio de ataques à literatura clássica, à história e à religião do Ocidente, cometem suicídio social e até pessoal por eliminarem as estruturas essenciais à compreensão de si mesmos e do seu mundo. Eles ridicularizam e cospem nos homens que lhes legaram sua tradição intelectual e as próprias categorias de liberdade, moralidade e individualismo, que agora são usadas como armas contra seus pais. Era o que a serpente tinha em mente no jardim do Éden, e é por isso mesmo que talvez não devamos nos surpreender.   

Por mais que a sociedade combata nossos pais, o divino e os humanos, não podemos extinguir a verdadeira e natural necessidade que todos temos do vínculo paterno. Somos todos filhos de pais, sejam eles bons ou maus. Tal como nos recordam até a literatura e o cinema contemporâneos, todos estamos desesperados para dar sentido e nos reconciliarmos com nossa origem natural e espiritual. 

Como a ciência social já bem demonstrou, precisamos de pais que dêem estabilidade e segurança aos anos conturbados da nossa infância e adolescência. Precisamos que os pais da cultura e da sociedade nos ensinem o que é bom, verdadeiro e belo, para que não nos percamos com coisas que nos deixarão doentes ou nos matarão. Precisamos que os pais espirituais nos ensinem, guiem e ofereçam os sacramentos da vida. E, em última instância, precisamos de um relacionamento com um Pai amoroso e divino, que compreende um mundo desestruturado e nos promete redenção e esperança eterna. 

Alguns podem odiar a figura paterna, mas ninguém pode fugir dela.

Notas

  1. Essa declaração pode ser lida em inglês, aqui, e em português, aqui. O Coletivo “Combahee River” foi um movimento social negro e feminista, ativo em Boston na década de 1970 (Nota da Equipe CNP).

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Por que uma festa a São José Operário?
Liturgia

Por que uma festa a São José Operário?

Por que uma festa a São José Operário?

No dia 1.º de maio de 1955, o Papa Pio XII instituiu a festa de São José Operário, presenteando os trabalhadores com um modelo e intercessor no Céu, e confirmando a condenação da Igreja ao comunismo ateu e anticristão.

Pe. Donald CallowayTradução: Equipe Christo Nihil Praeponere1 de Maio de 2020Tempo de leitura: 7 minutos
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Como todos os cristãos que viveram aquele momento, também eu recebi com emoção e alegria a decisão de celebrar a festa litúrgica de São José Operário. Essa festa, que é uma canonização do valor divino do trabalho, mostra como a Igreja, na sua vida coletiva e pública, se faz eco das verdades centrais do Evangelho, que Deus deseja ver especialmente meditadas nos nossos dias (É Cristo que passa, n. 52).

O autor dessas palavras é São Josemaria Escrivá, fundador do Opus Dei. “Aquele momento” ao qual o santo se referia era o ano de 1955, quando a Igreja recorreu ao seu grande protetor para vencer um grande inimigo: o comunismo.

Nos primeiros anos do século XX, o comunismo ganhou o apoio de muitos líderes ao redor do mundo, levando nações inteiras a sucumbir diante de suas ideias. Em razão do sério perigo que aquela ideologia nefasta representava para o bem comum, o Papa Pio XI, em 1937, recorreu a São José, a fim de que o pai terreno de Jesus livrasse a Igreja dos muitos erros do comunismo. Assim escreveu: “Pomos a grande ação da Igreja Católica contra o comunismo ateu mundial sob a égide do poderoso Protetor da Igreja, São José” (Divini Redemptoris, n. 81).

Em resposta às palavras do Santo Padre, os católicos começaram a pedir fervorosamente a intercessão de São José, especificamente sob o título de “Terror dos Demônios”, para que ele combatesse as ideias ateias do comunismo. Além disso, também suplicavam sua ajuda na causa dos direitos dos trabalhadores, pois ambos os assuntos eram temas de grande preocupação na primeira metade do século XX.

Algo relacionado a isso, mas pouquíssimo conhecido do público, é que até meados do século XIX se celebrava em muitos países um feriado secular no dia 1.º de maio. Era uma festa conhecida por “Dia de Maio”, e não tinha nenhuma conotação religiosa ou política. Mas, infelizmente, os comunistas se aproveitaram da data e a “rebatizaram” como “Dia dos Trabalhadores Comunistas”. Com isso, eles pretendiam enfatizar mais as ideias de Karl Marx e influenciar as massas.

Tal reviravolta preocupou muito a Igreja, porque uma celebração como aquela poderia, a longo prazo, ter um impacto muito negativo sobre os trabalhadores, a sociedade e a família. Não à toa, qualquer um sentia naquela época a ameaça de um comunismo mundial, incluindo o Papa. Em razão disso, o Vigário de Cristo, Venerável Pio XII, voltou-se para São José, como já havia feito o seu predecessor, e denunciou as falsidades do comunismo, elevando a dignidade do trabalho de um jeito bem específico. No dia 1.º de maio de 1955, o Papa declarou que, dali para frente, a data seria a festa litúrgica de São José Operário. Ele contou a novidade aos operários com estas palavras:

Estamos felizes por anunciar-vos nossa decisão de instituir — como, de fato, instituímos — a festa litúrgica de São José Operário, para o dia 1.º de maio. Estais satisfeitos com este nosso presente, operários? Estamos certos de que estais, porque o humilde operário de Nazaré não somente personifica diante de Deus e da Igreja a dignidade de um homem que trabalha com suas mãos, mas é também o guardião providente de vós e vossas famílias (Alocução à Associação Cristã de Trabalhadores Italianos, 1.º de maio de 1955).

São José é, de fato, uma luz na escuridão e modelo de trabalhador. Ele revela a malícia dos inimigos da família e ilumina a escuridão dos movimentos errôneos que, por vários ardis, procuram despir as pessoas de sua dignidade e apagar Deus das mentes e dos corações das famílias e nações. Afinal, se São José confronta o comunismo, o fascismo ou qualquer outro tipo de ideologia política, é por ser o protetor da dignidade humana e, sobretudo, o “Terror dos Demônios”.

O diabo odeia São José por seu trabalho honesto e diligente. Logo no começo da história humana, a serpente perversa iniciou seu ataque ao gênero humano precisamente onde nossos pais trabalhavam: o jardim que Deus concedeu a Adão e Eva para cultivarem e preservarem. Lúcifer odeia o trabalho. Ele particularmente desdenha o fato de que, por amor, Deus tenha se humilhado para tornar-se homem, fazendo-se capaz de trabalhos manuais. Jesus passou muitos anos na carpintaria de São José trabalhando diligentemente. E foi essa a sua preparação para voltar ao primitivo local de trabalho do homem — o jardim, o Jardim do Getsêmani, especificamente — e realizar a tarefa árdua da nossa redenção.

Pois bem, a festa litúrgica de São José Operário foi instituída pela Igreja justamente para incutir nos trabalhadores o mesmo ímpeto salvífico que Jesus tinha no Coração durante suas horas de trabalho ao lado de seu pai. Fazendo-se carne, Jesus santificou o trabalho humano e o elevou a um nível de grandeza que não existia antes da sua Encarnação. Sendo de condição divina, Deus se humilhou a si mesmo, fez-se um homem e trabalhou como homem; em sua humanidade, aprendeu a trabalhar como homem, imitando o seu pai na terra, São José.

Com esse mesmo espírito de oração e labor — ora et labora —, os operários cristãos devem expulsar os demônios da acídia, da concupiscência e do orgulho que tanto destroem as famílias, infiltrando-se nos ambientes por meio de ideologias desumanas. E é de São José, nosso patrono, que os trabalhadores devem herdar tal espírito. Eis aqui algumas razões teológicas que nos levam a crer nisso.

São José é o modelo de trabalhador. — Se São José ensinou o Homem-Deus a trabalhar, ele também é mais do que capaz de nos servir como modelo. O trabalho duro beneficia a pessoa, a família e a sociedade. Por isso, o Papa Pio XI recordava a respeito de São José: “Ele pertence à classe operária e experimentou o peso da pobreza, em si e na Sagrada Família, da qual era chefe vigilante e afetuoso” (Divini Redemptoris, n. 81).

O trabalho não é sempre fácil e prazeroso. Um dia duro de trabalho pode ser um peso para a mente, o corpo e a alma. E, como um carpinteiro, São José sabia disso em primeira mão. Desse modo, Nosso Senhor e ele oferecem conforto a todos os que vivem do próprio suor, como nos atestam as Escrituras: “Vinde a mim, todos os que estais cansados e carregados de fardos, e eu vos darei descanso. Tomai sobre vós o meu jugo e aprendei de mim, porque sou manso e humilde de coração, e encontrareis descanso para vós, pois meu jugo é suave e o meu fardo é leve”.

São José ensinará você a ser um trabalhador diligente. — Nosso Senhor desejou fazer trabalhos manuais por longos anos antes de iniciar seu ministério público. Por que Ele fez isso? Porque queria santificar o trabalho e, assim, nos mostrar como nossas tarefas podem ser dignas e agradáveis aos olhos de Deus. Por outro lado, é bom destacar que nem Jesus nem São José eram viciados em trabalhar, porque algo assim não traz benefício algum nem ao trabalhador, nem à família, nem à sociedade. Deus não se agrada de tais pessoas.

Jesus aprendeu o lugar certo do trabalho em sua vida por meio do exemplo apaixonante de São José. O pai de Nosso Senhor tinha tempo para Deus, para a família, para recreações e para o descanso. E do mesmo modo que ele apresentou estes aspectos da vida humana a Jesus, também nos pode ensinar as mesmas lições.

Por último, mas não menos importante, São José também serve como modelo de operário para aqueles que trabalham pela salvação das almas, especialmente os diáconos, padres, bispos e religiosos. Almas consagradas têm de trabalhar diligente e fielmente na vinha de Deus. E esse trabalho também pode ser duro e oneroso. Padres, diáconos e almas consagradas são seres humanos, que precisam descansar e entreter-se como qualquer um. Em raras ocasiões, Deus dá graças extraordinárias para que se realizem penitências heróicas, jejuns e mortificações. Entretanto, Deus nunca deseja que seus obreiros se esgotem até o limite. Quer que aproveitem também os riachos das montanhas, as florestas e o pôr do sol. Quer padres e religiosas que sejam como São José: apaixonados, orantes, bons trabalhadores e que não tenham medo de descansar.

Saibamos, pois, neste dia especial, recorrer à intercessão do glorioso São José, a fim de que, com seu modelo, ele nos ajude a expulsar os demônios que nos impedem de cumprir nossa vocação.

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Esta crise mata muito mais do que o coronavírus!
Igreja Católica

Esta crise mata
muito mais do que o coronavírus!

Esta crise mata muito mais do que o coronavírus!

Mal as quarentenas nos haviam sido impostas, todos sabiam o que fazer com luvas, máscaras e álcool em gel! Tornamo-nos peritíssimos em saúde do corpo, e bem rápido! Mas e na vida da alma? Alguém ainda ousará falar?

Equipe Christo Nihil Praeponere1 de Maio de 2020Tempo de leitura: 6 minutos
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Se há uma coisa que a crise do coronavírus tem escancarado é a nossa falta de fé.

Exemplo prático?

A partir do que estão enfrentando os Estados Unidos em particular e o mundo inteiro de modo geral, o professor Edward Feser contrapôs recentemente, em um artigo de seu site, duas narrativas com que estamos mais ou menos familiarizados. A diferença é que a primeira é tranquila e amplamente aceita, a segunda não.

A primeira diz, em suma, o seguinte:

É errado subestimar os perigos da Covid-19, indo na contramão do que dizem os especialistas. Embora os grupos de risco devido ao novo coronavírus se limitem aos mais velhos e enfermos, trata-se de um grande número de pessoas. Além disso, muitos que não morrerão do vírus mesmo assim sofrerão bastante, e quem apresentar sintomas mais leves da doença (ou mesmo nenhum) pode infectar outras pessoas. Medidas draconianas são necessárias, portanto, mesmo com a previsão de um colapso econômico. Antes prevenir do que remediar. Resistir a essas duras verdades é ser um “negacionista” do coronavírus.

Antes de falar da segunda narrativa: nós sabemos de todos os debates que existem em torno da atual crise e de suas consequências políticas e econômicas. Não é pretensão nossa fazer uma análise global da situação, em todas as suas variáveis. Mas, concorde você ou não com o texto acima, é o juízo prudencial feito por muitos para fechar o comércio e isolar as pessoas em geral. A oportunidade ou não das medidas adotadas não é o foco desse texto. O que queremos falar mesmo é desta segunda narrativa (também adaptada para esta publicação):

É errado subestimar o perigo de as pessoas irem para o Inferno, quando os especialistas nessa matéria — as Escrituras, os grandes teólogos da Igreja e o Magistério dos Papas e dos santos — vão no sentido contrário. Mesmo que, no fim, uma minoria de pessoas se condenasse, seria um preço muito alto a se pagar. Além disso, mesmo os que vão parar no Purgatório sofrem bastante, e quem ensina o erro ou leva uma vida imoral por ignorância invencível pode, ainda assim, levar outras pessoas à condenação eterna. O apelo à conversão e ao arrependimento pelos próprios pecados deve ser urgentemente espalhado, mesmo sob o risco de acarretar graves incômodos e perseguições. Resistir a essas duras verdades é ser um “negacionista” do Inferno.

Não é preciso muito para perceber que temos mais “negacionistas” do Inferno que do coronavírus. 

E, no entanto, se aceitamos facilmente as palavras dos especialistas a respeito dessa crise, se aceitamos tomar todas as medidas sanitárias que temos tomado nos últimos dias só para preservar da morte física a nós, a nossos entes queridos e à sociedade, com que facilidade não deveríamos dar ouvidos a Deus, que não se engana nem nos pode enganar, e seguir os seus Mandamentos, a fim de fugir da morte eterna, muito pior do que a física?

Pense bem: as pessoas têm praticado nos últimos dias uma reclusão sem precedentes, seguindo à risca preceitos de distanciamento social. Elas saem, em geral, só para ir ao mercado ou à farmácia, e são instadas pela mídia a evitar bares, restaurantes e festas, a fim de não provocar aglomerações. Familiares pararam de se abraçar e beijar. Casais de namorados, idem. Ante a possibilidade de o vírus de Wuhan ser transmitido por via sexual, o departamento de saúde de Nova Iorque chegou a emitir um guia dizendo, entre outras coisas: “Você é o seu parceiro sexual mais seguro”. É o código moral da pandemia!

Mas, se sobram cuidados para se proteger de um vírus natural, as ameaças sobrenaturais são amplamente negligenciadas, quando não negadas de todo. 

Circula pelo mundo, por exemplo, e não é de hoje, a heresia do universalismo. Infelizmente, ela contaminou muitos ambientes eclesiais. Trata-se justamente do “negacionismo” do Inferno de que falamos acima. Na contramão do que pregou Nosso Senhor ao falar da porta estreita do Céu e do caminho largo do Inferno (cf. Mt 7, 13), a ideia dos universalistas é outra: a salvação é certa, e condenar-se é quase impossível.

Mas não nos importa que essa seja a palavra de um ou outro “gato pingado”, contra dois mil anos de Igreja e uma multidão de santos. Nossas precauções e indignações são seletivas.

Agora andam todos mascarados na rua, protegendo o rosto, passando álcool em gel a toda hora, desviando dos outros na calçada. Mas quando Nosso Senhor nos manda guardar o olhar, pois um só pensamento impuro consentido é o suficiente para acarretar-nos a condenação eterna (cf. Mt 5, 28), damos de ombros, fingimos não ouvir e talvez até procuremos o parecer de “especialistas” que digam justamente o que nos agrada (pois o que não falta hoje são teólogos morais dispostos a transformar o mal em bem), só para não deixarmos os nossos pecados.

Tantos louváveis cuidados para não se contaminar com um vírus, mas quanta complacência para com o egoísmo que envenena e destrói a alma

Evitar beijos e abraços de repente se tornou palavra de ordem. Se é para conservar a vida e a saúde físicas, tudo bem. Agora, falar que o sexo só é lícito no casamento, ou que as carícias dentro de um namoro cristão devem excluir abraços demorados ou beijos picantes, sob o risco de morte da alma, aí já é demais, aí já é “intromissão” da Igreja na intimidade dos casais, aí já é “obsessão católica” com os pecados da carne etc.

A essa acusação seria necessário responder perguntando onde está, afinal, essa bendita obsessão de que tanto falam os inimigos da moral católica, ao menos na pregação da Igreja atual. Que os pecados sexuais são cometidos a torto e a direito, não é novidade para ninguém. Nunca tanta pornografia foi vista como agora, em tempos de quarentena, e nunca as pessoas com problemas de masturbação estiveram tão vulneráveis às insídias do demônio, por exemplo. Denúncias sobre esses males, no entanto, quase não há. No mais das vezes, o que paira é um silêncio amedrontador. 

E isso deveria nos preocupar. Muito mais do que se, de repente, nossos especialistas parassem de alertar o modo de se proteger do vírus atual e as medidas a tomar para não passar aos outros a Covid-19. Quando foi a última vez que você ouviu seu pregador favorito ou o seu pároco falar, por exemplo, de “pecado mortal”, “condenação eterna” ou “confissão” (se é que ele já falou disso alguma vez)? E, no entanto, mal as quarentenas nos haviam sido impostas, todos sabiam o que fazer com luvas, máscaras e álcool em gel! Tornamo-nos peritíssimos em saúde do corpo!

Mas e na saúde da alma? Ninguém aguenta mais ouvir falar de coronavírus na TV, nos jornais e nos meios de comunicação em geral… E esse vírus só pode matar o corpo. Com que insistência, veemência, “chatice”, se quiserem, os pastores e homens de Igreja não deveriam falar dos perigos do pecado e da condenação eterna?

Eis o que a crise do coronavírus tem escancarado: acreditamos mais na palavra do último especialista que nas palavras de Deus; tomamos mais cuidado para combater um vírus que para combater o pecado; preocupamo-nos mais com a morte do corpo que com a da alma; damos mais ouvidos à TV e aos jornalistas que à doutrina católica de sempre; sentamo-nos entusiasmados diante do smartphone para buscar a verdade a respeito do novo coronavírus, mas damos de ombros e ridicularizamos o Magistério da Igreja, que nos quer ensinar a verdade sempre nova do Evangelho.

Essa descrença e inércia generalizadas são reais, e muito mais letais e danosas do que a pandemia da Covid-19. Se você não é capaz de compreender isso, talvez seja necessário abrir seu coração à boa-nova do Evangelho, que nos manda temer não a morte e a enfermidade físicas, mas a morte eterna e as doenças espirituais (cf. Mt 10, 28).

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