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“Memento mori” em tempos de pânico
Espiritualidade

“Memento mori” em tempos de pânico

“Memento mori” em tempos de pânico

O coronavírus alterou a realidade. À medida que se espalha pelo mundo, a morte entra, de certa maneira, na vida de todos ao mesmo tempo. Estamos experimentando um memento mori comunitário, uma lembrança constante e sempre presente da morte.

Irmã Theresa Aletheia NobleTradução: Equipe Christo Nihil Praeponere14 de Abril de 2020Tempo de leitura: 5 minutos
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Nossas vidas se paralisam quando a morte ameaça a quem amamos. A dor da tristeza muitas vezes se amplia pelo fato de o mundo seguir seu curso enquanto nós permanecemos imóveis. Quando a morte aparece na vida diária, podemos ir ao banco ou ao mercado e sentir-nos ofendidos por um momento ao ouvir as pessoas rirem alto. Depois, porém, recordamos que a morte não as atingiu. O coronavírus alterou a realidade. À medida que se espalha pelo mundo, a morte entra, de certa maneira, na vida de todos ao mesmo tempo. Estamos experimentando um memento mori comunitário, uma lembrança constante e sempre presente da morte.

Hoje, vejo a providência de Deus no fato de, três anos antes do início dessa crise, ter colocado sobre a minha mesa uma pequena caveira de cerâmica e começado a meditar sobre a minha morte, imitando o fundador da minha ordem religiosa, o Beato Tiago Alberione. Naquela ocasião, depois de sete anos no convento, o mal-estar da mediocridade e da falta de fervor medrava em minha vida espiritual. Eu protestava a Jesus na oração, dizendo-lhe: “Ajuda-me! Enche-me novamente com teu fogo e teu fervor”. Ele respondeu a minhas orações com a graça da meditação sobre a morte. De uma hora para a outra, tudo ficou claro; senti como se tivesse ido ao oftalmologista e saído de lá com a prescrição certa. Meditar sobre a morte mudou minha vida.

Um dos benefícios do memento mori, a prática da meditação sobre a morte, é ser uma oportunidade para a graça divina trazer à tona e à nossa atenção o fato de agirmos e pensarmos muitas vezes como gente sem fé. Ex-ateia que sou, Deus me ajuda constantemente a ver quando ainda me comporto como se Ele não existisse e Jesus não tivesse me salvado. Católicos de berço e convertidos de outros credos e religiões também não estão imunes a esse tipo de comportamento. Muitos de nós vivemos o dia-a-dia de modos que revelam uma incompreensão básica da vida e da morte sob a perspectiva cristã. Podemos recorrer aos ensinamentos da Igreja nessas matérias para, em alguma medida, remediar o problema, mas a prática da meditação sobre a morte ajuda-nos a ver de verdade como nossas vidas ainda estão muito enredadas nos fios dessa mentalidade venenosa.

Enquanto os católicos respondem à crise da COVID-19 na internet, vêm à tona algumas manifestações de incredulidade na atitude de alguns perante a vida e a morte. Num dos extremos estão os que se esconderam em casa e só pensam em si. Finalmente forçados a encarar a morte, ficam dominados pelo terror e o medo que prevalecem. É claro que todos o estamos sentindo em certa medida, mas para a maioria de nós é fácil reconhecer que o medo exagerado e egoísta não é a resposta cristã ideal a esta situação. O outro extremo é um pouco mais complicado. Algumas pessoas estão declarando de forma descarada que não têm medo da morte nem estão tomando os cuidados rigorosos exigidos pelas circunstâncias. À primeira vista, uma tal atitude pode até parecer santidade. Afinal, os mártires demonstraram coragem diante da morte. Esquecemo-nos, porém, que eles tampouco encaravam a vida e a morte com leviandade.

Embora nossa fé exija que aceitemos a morte, ela também nos chama a compreender o valor e a fragilidade surpreendentes de nossa vida e da vida do próximo. A vida humana é valiosa em qualquer circunstância, em qualquer estágio de desenvolvimento e em qualquer idade. Como disse o Papa São João Paulo II na Evangelium Vitae: “O sangue de Cristo, ao mesmo tempo que revela a grandeza do amor do Pai, manifesta também como o homem é precioso aos olhos de Deus e quão inestimável é o valor de sua vida” (n. 25). Muitos de nós professamos crer nisso, mas outra coisa que essa pandemia trouxe à tona foi o desprezo pela vida dos idosos

Infelizmente, algumas pessoas têm afirmado que, como os idosos morrerão em breve de qualquer jeito, não há motivo para maiores preocupações. No entanto, não há nada em nossa fé que diga que a vida perde valor com o tempo. Toda vida merece ser preservada como um tesouro precioso até sermos chamados por Deus para abrir mão dela. A meditação sobre a morte pode nos ajudar a confrontar alguns aspectos da vida que, por medo da morte, não valorizamos. Memento mori nos auxilia a ter a coragem necessária diante da morte, mas também nos leva a cuidar de nossa própria vida e da vida dos outros. Quando pensamos em nossa morte com frequência durante a oração, aprendemos que nossa vida são preciosas e que podemos confiá-las a Deus. 

Geralmente, os católicos têm liberdade para meditar sobre a morte quando se sentem preparados para fazê-lo. Hoje, no entanto, cada dia nos apresenta um convite doloroso e manifesto para meditarmos sobre a morte. Se não o aceitarmos agora, daremos uma brecha para que esse estado constante de memento mori nos leve à tentação e ao desespero. Deus sempre tira o bem do mal, e Ele pode usar essa pandemia para nossa santidade, ainda que isso nos leve à morte. Mas devemos também convidá-lo a entrar em nossas vidas, a fim de que possamos nos preparar. Podemos fazer isso começando a meditar sobre a morte com regularidade ou dedicando-nos com maior intensidade a essa prática. Só precisamos abrir nosso coração para Deus a fim apresentar a Ele o medo que sentimos da morte. Ele pode, com certeza, iluminar a escuridão em nosso coração e em nosso mundo.

Algumas destas perguntas podem servir de estímulo para os católicos que nunca meditaram sobre a morte no contexto da oração:

  • Como Deus está me chamando a contactar a comunidade mais ampla nesta época de medo, doença e instabilidade financeira? Que riscos Deus quer que eu corra para servir o seu povo?
  • Como Deus me chama a ter um cuidado rigoroso a fim de evitar a disseminação do vírus entre os vulneráveis e os fracos? Como posso valorizar a vida e me preparar para a morte?
  • Como Deus está me pedindo que escute as ansiedades e medos dos que estão ao meu redor e como pede que eu expresse os meus?
  • Dedique um momento da oração para refletir sobre a fragilidade e a beleza da vida humana em geral e de sua vida em particular. Em seguida, dedique um tempo para refletir sobre a inevitabilidade de sua morte. Imagine-se aos pés da cruz e converse com Jesus sobre tudo o que está acontecendo.
  • Reflita sobre a pergunta: “Estou preparado(a) para morrer?” Faça um exame de consciência e procure a confissão, se possível; se não puder ir, faça um propósito de ir tão logo seja possível e manifeste a Deus seu arrependimento e contrição. 

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O choro da salmista e a beleza da liturgia
Liturgia

O choro da salmista e a beleza da liturgia

O choro da salmista e a beleza da liturgia

“Meu Deus, meu Deus, por que me abandonastes?”, cantou entre lágrimas a salmista Carolina Andrade, que emocionou os católicos neste Domingo de Ramos. O ocorrido nos ajuda a redescobrir a beleza da liturgia e sua importância para nossas vidas.

Equipe Christo Nihil Praeponere9 de Abril de 2020Tempo de leitura: 7 minutos
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O cenário era desolador e, ao mesmo tempo, belo. Uma igreja praticamente vazia — o Santuário do Pai das Misericórdias, na Canção Nova —, em pleno Domingo de Ramos, dava o tom para que a salmista, Carolina Andrade, ecoasse o refrão do Salmo 21, com uma emoção cortante: “Meu Deus, meu Deus, por que me abandonastes?” As imagens logo foram espalhadas pelas redes sociais, ganhando o coração dos fiéis que, nestes dias de isolamento, se sentiram unidos àquela prece de dor e clemência.

As circunstâncias impostas pela pandemia da Covid-19 criaram a ocasião perfeita para refletirmos sobre o significado da liturgia católica e a sua influência em nossas vidas, especialmente no que se refere à Santa Missa. Apesar da dimensão fundamentalmente espiritual do culto cristão, há quem não admita a celebração privada da Eucaristia, como se o sacrifício só tivesse valor se celebrado em público. Para o teólogo liberal Massimo Faggioli, por exemplo, as Missas ditas privadamente seriam uma espécie de “onanismo litúrgico”. (Dada a natureza vulgar e, sobretudo, blasfema da comparação, nem nos atrevemos a pensar qual seria a concepção dele para a liturgia com o povo.)

É fato que, após o Concílio Vaticano II, por uma compreensão equivocada da liturgia, a Santa Missa foi reduzida à “celebração de um sinal que correspondesse a um vago sentimento de comunidade” [1]. Com isso se deu permissão a todo tipo de experiências que, no mais das vezes, só serviram para desfigurar a genuína beleza dos ritos e autorizar a arbitrariedade dos liturgistas, quando o próprio Concílio enfatizou que a liturgia deveria contribuir “em sumo grau” para os fiéis exprimirem na vida e manifestarem aos outros “o mistério de Cristo e a autêntica natureza da verdadeira Igreja” [2].

A beleza e a eficácia da liturgia têm sua origem justamente no fato de que ela não é uma invenção humana, mas já “existia antes de que nós tivéssemos participado dela, porque foi iniciada na Santíssima Trindade” [3]. Por isso, adverte o Catecismo, “nem mesmo a autoridade suprema da Igreja pode mudar a liturgia a seu bel-prazer, mas somente na obediência da fé e no respeito religioso do mistério da liturgia” (n. 1125). É apenas porque participamos da vida divina de Cristo que podemos interagir com o sacrifício de adoração, ação de graças, contrição e intercessão da Santa Missa. Ao longo dos séculos, a Igreja cuidou para que a essência desse culto fosse bem vivida através dos ritos de cada tradição litúrgica válida, num desenvolvimento orgânico e espiritual.

A participação na Missa é, por isso mesmo, uma ação pela qual o homem deve empenhar todo o seu ser, corpo e alma, na devoção ao Senhor. Esse empenho diz respeito não tanto à execução de gestos e tarefas aleatórias, mas à participação espiritual e afetiva no mistério celebrado. Afinal, “quem não sabe apreciar o valor gratuito (ou seja, da graça) da beleza, em especial da beleza litúrgica, dificilmente conseguirá realizar um ato adequado de culto divino” [4]. Portanto, o homem não precisa inventar nada de novo; ele só precisa abrir-se ao mistério, acolher amorosamente a Palavra de Deus, que, na liturgia santa, se traduz por meio de cada rito, símbolo, gesto ou palavra.

Entrementes, o que deixou o canto da salmista Carolina Andrade particularmente belo foi o fato de ela não ter usado nenhum recurso vocal ou gestual extravagante, típico de certa música gospel, para prender a atenção dos demais (também porque não havia gente para isso); o que ela fez foi simplesmente transmitir aquilo que ela recebeu da liturgia: a Palavra viva da Sagrada Escritura, que é palavra de vida eterna. Os câmeras da TV Canção Nova ainda tiveram a sensibilidade de não explorar a emoção da jovem, cortando a transmissão para o crucifixo no centro do altar. Porque a razão de ser da liturgia é Jesus; Ele é o protagonista; Ele, e somente Ele, portanto, deve ser o centro da nossa atenção.

Essa verdade precisa ser particularmente lembrada agora, que nos encontramos privados do Santíssimo Sacramento. A celebração litúrgica não é um ato isolado, de uma comunidade local que se reúne narcisisticamente, mas uma realidade transcendente, mística, espiritual, que une o Céu e a terra, o visível e o invisível, e é capaz de alimentar mesmo os que estão lá fora. Quem se emocionou com o que viu na TV, por exemplo, pôde tomar parte no ato de fé da salmista, entrando em comunhão com a pessoa de Jesus, para além da recepção da Eucaristia. Pois quando rezamos liturgicamente, com o empenho do nosso coração, somos capazes de adentrar no mistério de Nosso Senhor e realizar uma verdadeira refeição espiritual — que às vezes, não sempre, pode reverberar em nossas emoções.

Note-se que de modo algum estamos negando a importância do culto público a Deus ou da Comunhão sacramental pelos fiéis. As Missas televisionadas mesmo não servem para os fiéis cumprirem o preceito dominical. O que queremos mostrar é que a Missa, antes de ser um encontro social, é um sacrifício místico, oferecido pelos sacerdotes em favor de seu povo, ainda que ele não esteja fisicamente presente. E esse mesmo povo pode unir-se “em espírito e em verdade” (Jo 4, 23) aos seus sacerdotes, sobretudo nesta ocasião particular de pandemia, oferecendo o sofrimento de não poderem estar na igreja. Uma comunhão espiritual vivida com tal intensidade tem um poder santificador que não podemos menosprezar; sem dúvida, nem se compara ao que significa receber sacramentalmente o Corpo e o Sangue do Senhor, mas deve servir para repararmos as inúmeras comunhões distraídas que já fizemos, bem como as incontáveis irreverências e abusos litúrgicos com que tantas vezes colaboramos em nossa ânsia por “inculturar” o santo sacrifício do Calvário. 

As últimas Semanas Santas, no Brasil, foram marcadas por abusos litúrgicos tão escandalosos que chocariam até o mais liberal dos liturgistas. Neste ano, porém, a maioria dos sacerdotes não terá à sua frente uma plateia a entreter, mas terá de se voltar sozinha ao crucifixo, a fim de oferecer o sacrifício propter nos, homines. Num desafio de fé à teologia mambembe que lhes ensinou a celebrar a Missa como se fosse um concerto, muitos finalmente terão a oportunidade de descobrir a beleza de uma importante verdade da liturgia católica: por mais que se voltem ao povo, é a Deus que eles sempre oferecem o sacrifício do altar (versus Deum, isto é, voltados para Deus). Eis a ocasião oportuna, um verdadeiro kairós, para “redescobrir e valorizar a obediência às normas litúrgicas”, como expressão da beleza da “Igreja, una e universal que preside na caridade” [5].

Sem as desculpas comuns, eles terão tempo suficiente para se paramentar com as devidas vestes litúrgicas (alva, cíngulo, estola e casula), observando as piedosas orações. Nem precisarão recorrer à Oração Eucarística II para terminar mais rápido a celebração. E que bela oportunidade será para purificar devidamente os vasos sagrados, sem a pressa habitual que faz com que tantas partículas sagradas se percam. A Comunhão eucarística, enfim, poderá ser feita com grande generosidade, num verdadeiro ato de ação de graças. Os sacerdotes que souberem aproveitar espiritualmente tudo isso certamente colherão graças abundantes.

Mas também os fiéis somos desafiados a redescobrir a verdadeira natureza da Missa, agora precisamente que sentimos como se Deus nos houvesse abandonado. Temos diante de nós a situação dos israelitas no deserto: podemos manter a fé piedosamente, enquanto Moisés (ou seja, o sacerdote) sobe sozinho o monte para interceder por nós, ou podemos construir um bezerro de ouro, esquecendo-nos de todas as graças com as quais Ele nos cumulou por tanto tempo, apesar de nosso desprezo. No entanto, para que essa última opção não seja realidade, temos de viver a Missa em nossos corações, como povo sacerdotal, fazendo repetidos atos de fé no culto que nossos sacerdotes estão oferecendo a Deus pela Igreja.

No fim das contas, é a fé católica que está em jogo. A Semana Santa nos convida a viver a Paixão de Cristo não apenas como recordação de algo passado, mas como atualização da doação gratuita de Jesus pela nossa salvação. E isso exige de nós um empenho do coração, pelo qual nossos afetos estejam todos voltados para o Senhor. Do contrário, Ele olhará para nossas lágrimas externas e dirá: “Chorai por vós mesmos e por vossos filhos… Se, de fato, fazem isto ao lenho verde, que não acontecerá ao seco?” (Lc 23, 29-30).

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Lições da Semana Santa em tempos de pandemia
Liturgia

Lições da Semana Santa
em tempos de pandemia

Lições da Semana Santa em tempos de pandemia

Pessoas em todo o mundo estão sofrendo — com a doença, o cuidado dos que estão doentes, a solidão ou a separação da família e de amigos. De repente, não estamos mais apenas lembrando os eventos da Semana Santa. Estamos vivendo-os.

Michele ChronisterTradução: Equipe Christo Nihil Praeponere7 de Abril de 2020Tempo de leitura: 4 minutos
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Eu vivo para a Semana Santa.

Sei que não estou só em meu amor pela Semana Santa e pelo Tríduo Pascal. Quando estudava na Universidade de Notre Dame, eu era um dos muitos estudantes que faziam fila às portas da Basílica do Sagrado Coração por horas antes de elas serem abertas para as liturgias do Tríduo. Eu não era a única que corria para garantir um lugar. E não era a única que tinha de se virar com qualquer espaço disponível — mesmo que esse lugar fosse no chão.

Assisti às liturgias do Tríduo em diferentes estados e dioceses, e embora poucas pessoas fossem tão extremas em seu entusiasmo quanto meus colegas de graduação da Notre Dame, em todas as paróquias das quais participei eu encontrava pessoas devotas das liturgias mais sagradas do ano. Desde que cheguei à idade da razão, perdi alguns dias específicos do Tríduo, mas jamais ele inteiro. Mesmo grávida e sofrendo de hiperêmese gravídica, não suportava a ideia de perder o Tríduo. 

Mas neste ano vejo-me na mesma situação de muitos leigos espalhados pelos Estados Unidos e pelo mundo — numa diocese em que as Missas públicas foram suspensas como parte de um esforço por “achatar a curva” e retardar a disseminação de uma pandemia. Este ano só poderei assistir às liturgias do Tríduo em meu laptop escorado num altar doméstico provisório na sala de estar

Porém, mesmo que a região onde moro não tivesse de seguir a política de confinamento e eu pudesse participar do Tríduo Pascal, não veria exatamente as mesmas belas práticas litúrgicas que havia memorizado no coração. Até as liturgias do Tríduo foram alteradas por causa da estranha época em que estamos vivendo.    

Não sou a única a lamentar por isso. As redes sociais estão cheias de leigos desolados por não poderem participar das liturgias do Domingo de Ramos, do Tríduo e até do Domingo de Páscoa.

Esse certamente não será o Tríduo que desejávamos; apesar disso, poderá ser o mais autêntico que vivemos até agora.

Um mistério re-presentado

O mistério pascal não é apenas um evento histórico que recordamos todos os anos. O propósito da Semana Santa e do Tríduo não é somente relembrar coisas que aconteceram dois mil anos atrás. Ao contrário, a Semana Santa torna presente outra vez aqueles mistérios sagrados. De fato, é isso que acontece toda vez que vamos à Missa. Quando o sacerdote eleva a hóstia na consagração, não é simplesmente como se estivéssemos ao pé da cruz — nós realmente estamos ao pé da cruz. O sacrifício de Cristo não ocorre várias vezes. Seu sacrifício único e perfeito foi suficiente. O dom da Missa está precisamente no fato de aquele sacrifício tornar-se presente outra vez para nós (“re-presentado”). Isso também faz parte do dom da Semana Santa. Por meio da celebração daquelas liturgias e Missas, compreendemos que somos uma parte do mistério pascal — uma realidade viva que ainda está se desvelando.

Nós tomamos parte no drama da Semana Santa todos os anos, mas é fácil cair no hábito de participar dele como espectador. É fácil enxergá-lo como mera comemoração do sofrimento, morte e ressurreição de Cristo, sem lembrar do papel que somos convidados a exercer nesse mistério.  

Uma pandemia e um convite

Nos outros anos, tínhamos de encontrar formas de mantermo-nos concentrados durante a Semana Santa. No domingo, levávamos para casa os ramos distribuídos na Missa e os colocávamos atrás das imagens e crucifixos em nossos lares. Íamos à Missa, jejuávamos na Sexta-feira Santa, pedíamos que um padre abençoasse a refeição de Páscoa… mas parmanecíamos distraídos. Na ausência de sofrimento, é fácil esquecer que também precisamos da cruz

Mas este ano é diferente.

Pessoas de todos os lugares do mundo estão sofrendo — com a doença, a enfermidade de um ente querido, o cuidado dos que estão doentes, a solidão ou separação da família e de amigos. De repente, não estamos mais apenas lembrando os eventos da Semana Santa. Estamos vivendo-os. Como os Apóstolos, estamos separados da presença de Cristo, nossas igrejas estão fechadas e a Eucaristia não se encontra à nossa disposição. Estamos no Cenáculo, assustados; não ousamos ter esperança. Como todos os que estão ao pé da cruz, tentamos permanecer firmes, ainda que à beira do colapso. De repente, deparamos com muito sofrimento. De repente, o sofrimento tornou-se inevitável. 

Mas, quando estivermos em nossos próprios cenáculos na manhã do Domingo de Páscoa, é nosso dever escutar e permanecer em silêncio, a fim de que possamos ouvir o Cristo ressuscitado dirigir também a nós aquelas palavras de esperança: “Deixo-vos a paz, dou-vos a minha paz. Não vo-la dou como o mundo a dá. Não se perturbe o vosso coração, nem se atemorize!” (Jo 14, 27).

Nesta Semana Santa, somos convidados a uma experiência muito real da cruz, abraçando seja qual for o sofrimento por que estejamos passando. Mas também somos convidados a lembrar que a cruz é, verdadeiramente, nossa única esperança. 

Cristo venceu a morte. E como fez com os Apóstolos, tomados pelo medo, Ele estende a mão para nós — aquela que porta suas chagas glorificadas — e nos diz: “Coragem! Eu venci o mundo” (Jo 16, 33).

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As profecias sobre o coronavírus
Sociedade

As profecias sobre o coronavírus

As profecias sobre o coronavírus

Com o surto do novo coronavírus no mundo, começam a surgir, aqui e ali, “profecias” apocalípticas, supostas “mensagens” de Nossa Senhora e outras formas de previsão sobre o futuro da humanidade. O que pensar a respeito de tudo isso?

Equipe Christo Nihil Praeponere7 de Abril de 2020Tempo de leitura: 6 minutos
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Com o surto do novo coronavírus no mundo, começam a surgir, aqui e ali, “profecias” apocalípticas, supostas “mensagens” de Nossa Senhora e outras formas de previsão sobre o futuro da humanidade. É natural que o ser humano se preocupe com o amanhã, sobretudo numa situação de calamidade pública. Mas é preciso critério para não nos deixarmos levar pelo pânico. A autenticidade dessas visões depende muito do quanto elas nos levam à verdadeira conversão do coração, provocada pelo temor de Deus, e não por um estado de desespero mundano.

No início dos anos 2000, falava-se muito sobre o fim do mundo, ou bug do milênio, que provocaria um verdadeiro caos na humanidade. Entre as tantas previsões “nostradâmicas” que havia, o Vaticano divulgou na mesma época o texto dos segredos de Fátima, “a mais profética das aparições modernas”, segundo o Cardeal Joseph Ratzinger. Pelo seu teor e contundência, a mensagem refletia “uma visão profética comparável às da Sagrada Escritura”, afirmou Ratzinger à época, uma vez que tratava da salvação da humanidade. Todavia, isso não a isentou de controvérsias dentro e fora da Igreja.

O reconhecimento de uma autêntica profecia é comprometido pelo contexto da falsa profecia. Como notou o Papa Paulo VI, o povo não está mais inclinado a acreditar na Igreja e em seu ensino, mas “no primeiro profeta profano que nos vem falar em algum jornal ou em algum movimento social, para recorrer a ele pedindo-lhe se tem a fórmula da verdadeira vida”. É o que estamos vendo acontecer hoje, quando muitos estão se aproveitando do momento para emplacar agendas ideológicas e controlar a população através da coação. Essa situação só demonstra como o tema do profetismo é atual e muitíssimo relevante para uma adequada compreensão da realidade.

De algum modo, há um paralelo muito interessante entre o tempo atual e o tempo do profetismo bíblico, do qual se podem obter luzes para os nossos problemas. Precisamos entender, em primeiro lugar, que lugar ocupa o profeta no âmbito da fé e da sociologia, para depois reconhecermos a voz do verdadeiro mensageiro de Deus no meio de tantos outros intermediários, sobretudo no contexto de ameaças distópicas.

A missão do profeta

Diante de um Ocidente tão paganizado, podemos pensar na aliança de Deus com o povo de Israel. Quando este se esqueceu do seu compromisso, o Senhor levantou profetas para reconduzi-lo de volta ao caminho seguro da Palavra. Os profetas enfrentaram autoridades e, pior ainda, tiveram de disputar violentamente o coração dos homens, constantemente assediado por falsos visionários. Nos dias de hoje, essa mesma dificuldade é vivida pela Igreja, no confronto com aquilo que Paulo VI chamou de “profetismo profano”.

Na tradição bíblica, o profeta vai além das visões sobre o futuro. Ele faz parte da dinâmica da Revelação e, em razão disso, a sua mensagem precisa ser acolhida no conjunto do “depósito da fé”. A marca distintiva do profeta de Deus é, então, a de não servir simplesmente a uma curiosidade humana sobre o futuro, mas a de revelar a própria face do Senhor e, do mesmo modo, “o caminho para o autêntico ‘êxodo’, o qual consiste em que, em todos os caminhos da história, deve ser procurado e encontrado o caminho para Deus como autêntica direção” [1].

Neste sentido, o critério da autenticidade profética na tradição bíblica é a “homogeneidade ou, melhor, continuidade” [2]. Isso quer dizer que o profeta não é o homem dos “pruridos de novidades”, como diz São Paulo, mas alguém que coloca o povo numa linha em conformidade com a fé de sempre, a Promessa dos pais. Essa homogeneidade é, portanto, a da fé, “na proclamação do único e verdadeiro Deus... Na história sobretudo; na concordância entre a Palavra e a realidade como o tempo a revela, aos poucos” [3].

Com efeito, uma profecia não é verdadeira simplesmente porque apresenta uma série de calamidades e destruições. Ao contrário, é o dogma da fé que realmente importa. Por isso, a dificuldade de reconhecermos o verdadeiro profeta “evoca uma crise particularmente dolorosa com a qual se chocou a fé bíblica” [4]. Então entra em cena aquilo que é próprio da fé, segundo a fórmula clássica da Carta aos Hebreus: não é uma certeza experimental, no sentido das ciências naturais, mas “é a substância das coisas que se esperam; a prova das coisas que não se veem” (11, 1).

Deus levantou profetas ao longo da história para despertar o dom sobrenatural da fé no coração dos homens, uma vez que sem fé é impossível agradar a Deus. Na disputa atual entre “profetas de Deus” e “profetas profanos”, portanto, a fé dos Apóstolos é que deve ser o objeto principal. E, ainda que a Revelação já esteja encerrada e não se deva um assentimento necessário às revelações “privadas”, estas, quando verdadeiras, ajudam a Igreja a viver a Revelação de Cristo mais plenamente numa determinada época da história, de modo que “o sentir dos fiéis sabe discernir e guardar o que nestas revelações constitui um apelo autêntico de Cristo ou dos seus santos à Igreja” (Catecismo da Igreja Católica, n. 67).

Neste sentido é que o Magistério, repetindo a indicação dos profetas do Antigo Testamento, também ilumina a inteligência dos fiéis, dando critérios de como saber reconhecer uma autêntica mensagem de Deus nos “sinais dos tempos”. Esses critérios referem-se, obviamente, à coerência da mensagem com aquilo que é a fé verdadeira, às qualidades pessoais do mensageiro, à isenção de erros com relação ao dogma e, finalmente, à devoção sadia e à abundância de frutos espirituais. Em suma, todo o movimento profético católico serve para assegurar que aquela dramática pergunta de Cristo tenha, afinal, uma resposta positiva: “Quando vier o Filho do homem, encontrará fé sobre a terra?” (Lc 18, 8).

Os católicos diante do coronavírus

À luz do que aprendemos, a crise do coronavírus deve ser encarada como uma oportunidade de profunda conversão e retorno à fé de sempre. Se as profecias têm um sentido, ele não pode ser outro senão o do restabelecimento da verdadeira religião em nossos corações. Não é hora para especulações apocalípticas e desespero, mas para a oração, o jejum e a caridade. Em muitos lugares, temos notícias de igrejas fechadas, mortes de sacerdotes e Missas canceladas. Diante disso, restam-nos a penitência e a expiação vicária, pedindo perdão a Deus pelas inúmeras vezes que sujamos a Igreja com nossos pecados, abusos litúrgicos e irreverências para com a Eucaristia, agora que muitos já nos encontramos privados dela. Porque é para isso que servem esses momentos: para nos distanciar do mundo e voltar nossas almas a Deus.

Temos de reconhecer nossa infidelidade à aliança com Deus. A blasfêmia tornou-se direito em muitos lugares e a idolatria tomou conta das almas. Sem dúvida, a humanidade já foi longe demais no desrespeito à lei natural, à lei de Deus. Essa crise mundial que nos angustia é, nesse contexto, uma chance de revermos nossa finitude, nossa pequenez e necessidade de um Deus verdadeiro, vivo, pessoal, que se compadece de seus filhos. É hora de voltarmos a esse Deus, voltarmos à fé de nossos pais, à fé de Abraão, pela qual inúmeros cristãos, antes de nós, deram a vida a fim de conservá-la intacta.

A perseverança na verdadeira fé é necessária porque ela é o alimento dos “eleitos”, aqueles por cujo testemunho Deus promete o encurtamento da tribulação. Ela é fundamental para nos preservar dos falsos cristos e falsos profetas que surgirão nesses dias, fazendo “grandes prodígios e maravilhas para enganar, se possível, até os eleitos” (Mt 24, 24). Jesus dá-nos a seguinte orientação: “Quando virdes, pois, a abominação desoladora, de que falou o profeta Daniel, instalada no lugar santo, os que estiverem na Judeia, fujam para as montanhas” (Mt 24, 15). Nas Sagradas Escrituras, a “montanha” é o lugar para o encontro com Deus. Subamos, portanto, às montanhas de nossas almas, às moradas mais altas do castelo, a fim de que Deus envie logo seus anjos, “com forte som de trombeta, para reunir seus eleitos desde os quatro ventos, de uma extremidade dos céus à outra” (Mt 24, 31).

Referências

  1. Joseph Ratzinger, Jesus de Nazaré: do batismo à transfiguração. São Paulo: Planeta, 2007, p. 23.
  2. Louis Monloubou, Os profetas do Antigo Mandamento. São Paulo: Paulinas, 1986, p. 77.
  3. Id., ibid.
  4. Id., ibid.

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