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Salvem os leões, matem os bebês!
Sociedade

Salvem os leões, matem os bebês!

Salvem os leões, matem os bebês!

Eles produziram “O Rei Leão”, mas, pelo visto, não aprenderam nada: saiba como é possível que a Disney, ao mesmo tempo que defenda a preservação dos leões africanos, esteja numa guerra feroz pelo “aborto legal” nos EUA.

Equipe Christo Nihil Praeponere8 de Julho de 2019
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A Disney lançará nos próximos dias a tão aguardada versão live action do clássico infantil “O Rei Leão”. Para alavancar a empolgação (ou o hype) da turma, o estúdio encampou recentemente uma campanha pela proteção dos leões africanos, em vista da queda no número desses felinos. Segundo relatórios, hoje no mundo existem cerca de 20 mil leões selvagens, metade do que havia quando a história de Simba, Timão e Pumba foi vista pela primeira vez nos cinemas, 25 anos atrás. Com a campanha Protect the Pride (Proteja os Leões), a Disney pretende reverter esse quadro e conscientizar as pessoas a preservarem mais o meio ambiente.

Nada contra. O cuidado com os animais é uma causa nobre e merece nossa atenção, sobretudo quando alguma espécie se acha em risco. A Criação não é — atenção — um objeto qualquer sobre o qual o homem pode exercer um domínio arbitrário e irresponsável. Como “obra boa de Deus” (Gn 1, 4), o meio ambiente deve ser acolhido como um dom, pois dele os homens retiram seu sustento, nele trabalham e edificam a sua “casa comum”.

A variedade das espécies, a beleza dos biomas e a vida que brota desses lugares refletem a onipotência divina, que livremente se dispôs a criar tudo isso. Daí que Santo Agostinho apontasse a Criação como uma das provas da existência de Deus: “Essas belezas sujeitas à mudança, quem as fez senão o Belo, que não está sujeito à mudança?” [1]

A reflexão da Igreja dedica, por isso mesmo, todo um capítulo da doutrina social ao cuidado com o ambiente. Baseado no testemunho das Escrituras, o Magistério afirma que “a natureza, obra da criação divina, não é uma perigosa concorrente” [2] ou uma ameaça ao ser humano, como postulam algumas ideologias modernas. Em vez disso, a Providência divina criou “tudo com medida, quantidade e peso” (Sb 11, 20), a fim de que cada organismo desempenhasse o seu papel, segundo a sua própria natureza dentro do cosmos. 

E, no meio desse cosmos, o homem foi especialmente desejado por Deus, que o criou “à sua imagem e semelhança” para governar sabiamente todas as coisas, como um verdadeiro rei (cf. Gn 1, 26-27). A dignidade do homem sobre a natureza, portanto, não se fundamenta em uma ideologia especista, mas corresponde à lei natural, que rege as coisas deste mundo. Sendo uma criatura “semelhante” a Deus, o homem precisa agir com sabedoria, usar sua inteligência e vontade para o bem, para a realização do projeto divino. Disso depende, em grande parte, a harmonia da Criação.

O filme do “Rei Leão” defende a mesma coisa, através da metáfora. Durante um passeio pelo reino, o pai de Simba ensina-lhe que um rei, no exercício de sua tarefa, nunca deve fazer simplesmente o que quiser, nunca pode realizar “o que lhe dá na telha”. Ao contrário, um verdadeiro rei deve reinar sabiamente, preservando a ordem das coisas, que fazem parte de um “delicado equilíbrio”. Isso significa que todos estamos ligados ao “ciclo da vida”.

Mas há um rei, e ele precisa exercer esse reinado justamente para manter o equilíbrio do mundo. “O Rei Leão” deixa bem claro que, quando um rei não exerce a sua vocação, não assume a sua dignidade a pretexto de uma vida mansa e hippie — esquecendo-se, assim, de sua própria identidade —, então tudo se perde, tudo se corrompe, tudo vira anarquia.

Sem dúvida, a iniciativa da Disney tem o seu mérito. Mas há um problema, um enorme problema. É que o estúdio, o mesmíssimo estúdio que já fez a cabeça de milhões de crianças e agora luta pela preservação dos leões africanos, está, ao mesmo tempo, numa guerra feroz pelo “aborto legal” nos Estados Unidos.

Sim, é isso mesmo. A Walt Disney Pictures, cujo público é majoritariamente formado por crianças, decidiu advogar o pseudodireito de matar bebês no ventre das mães, depois que o governador da Geórgia assinou a chamada “lei do batimento cardíaco”, proibindo abortos quando forem reconhecidos os sinais vitais do feto. Numa entrevista, o CEO da Disney, Bob Iger, ameaçou deixar de filmar nesse estado americano enquanto a lei estiver em vigor.

Não é estranho? Não é escandaloso? Não é absurdo? 

Disney, Netflix, Warner e tantas outras empresas que embarcaram nessa “barca furada” pelo direito ao aborto apenas estão servindo, mesmo que inconscientemente, a um projeto macabro de desconstrução da natureza humana. Após cederem ao lobby de ONGs e outras organizações, esses estúdios agora precisam formar a mentalidade de seu público para o ecocentrismo, segundo o qual a vida de um leão na selva tem mais valor que a de um bebê no ventre de suas mães. Afinal de contas, no dizer de alguns teólogos, o homem seria uma “célula cancerígena”, da qual a “Mãe Terra” deveria necessariamente se livrar.

Numa perspectiva ecológica sadia, o ventre materno é o mais indefeso dos ecossistemas e, portanto, o mais necessitado de proteção. No feto está a esperança para as futuras gerações, um pequeno irmão da nossa sociedade. Os ecoideólogos, porém, nivelam por baixo a natureza humana como se nela não houvesse uma dignidade singular, advinda de sua “imagem e semelhança” com Deus. Para os defensores dessa ideia, aliás, o Deus cristão não passa de uma invenção medieval que deve ser superada por um novo tipo de religião naturalista, que não reconhece a dignidade humana. Não haveria, pois, Deus algum acima dos céus, tampouco um homem à sua “imagem e semelhança” na terra. Em vez disso, devemos buscá-los na Gaia “Mãe Terra”, nos espíritos das florestas e em outras entidades pagãs.

O Magistério da Igreja tem rejeitado esse tipo de ecologia porque, na verdade, o que ela propõe é “eliminar a diferença ontológica e axiológica entre o homem e os outros seres vivos, considerando a biosfera como uma unidade biótica de valor indiferenciado”, onde se chega a “eliminar a superior responsabilidade do homem, em favor de uma consideração igualitária da ‘dignidade’ de todos os seres vivos” [3].

O que a Disney e as outras fundações não percebem é que a violação da natureza humana, com o propósito de fazer um controle populacional — que visa a construção de uma “nova era”, de uma “nova religião” e de uma sociedade onde os homens vivam simbioticamente com o planeta — em nada contribui com a preservação de leões, baleias e outras espécies em extinção.

Se não podemos fechar os ouvidos à linguagem do meio ambiente, existe, por outro lado, “uma ecologia do homem”, e ele também “possui uma natureza, que deve respeitar e não pode manipular como lhe apetece” [4]. Porque se o homem é privado da sua eminente dignidade, e se isso acontece já desde a concepção, então é assim que sua ação no mundo perderá o sentido, perderá o respeito pelo “delicado equilíbrio” da natureza. O rei precisa reinar.

Parece incrível que a Disney despreze as lições do próprio filme que produziu. Em “O Rei Leão”, o vilão Scar não só assassina seu irmão, o rei Mufasa, mas também planeja a morte de Simba, seu sobrinho. Depois, ele usurpa a Pedra do Reino com a promessa de uma “nova era”, onde leões e hienas estariam juntos, num “grande e glorioso futuro”. Scar dispensa os conselhos do “sacerdote” Rafki, rompe com a natureza e a tradição, instaurando uma nova ideologia igualitária e progressista. 

Mas Scar é tão falso quanto sua própria ideologia. E o resultado de seu governo é o total desequilíbrio, de modo que todas as espécies padecem: as manadas se retiram para outras savanas, as fontes e os rios secam, faltam alimentos para os leões e as hienas. É o caos.

Apenas quando Simba retorna e recupera a sua dignidade real é que a natureza toda retoma o equilíbrio. E esse despertar de Simba veio pela intervenção de Rafki, que lhe desferiu um golpe na fronte, fazendo-o recordar-se do que havia aprendido com seu pai. Ele era o verdadeiro rei e deveria assumir essa dignidade para que as outras criaturas também tivessem a sua redenção.

Ao militar pelo aborto e a política do controle populacional, ao defender essa “nova era” de uma política igualitária e de uma religião naturalista, a Disney se coloca ao lado de Scar e seus sequazes, ou seja, ao lado dos falsos líderes da história humana, passando do rei do Egito até chegar a Herodes, Nero e os ditadores do último século, todos sanguinários que não respeitaram a lei natural das coisas, impondo falsos deuses e matando os primogênitos, seja nas águas do rio Nilo, seja nos campos de concentração, seja nas clínicas da Planned Parenthood.

O vilão Scar, na nova produção da Disney.

Vale a pena recordar o que dizia o então Cardeal Ratzinger a respeito de sua infância à sombra do Terceiro Reich, na Alemanha dos anos 1930. Naquela época, a família Ratzinger já notava como o cristianismo era substituído por um novo culto à “santa natureza”, com festejos aos solstícios e outros fenômenos naturais. O propósito do governo era, afinal, abandonar a “estranha religião judaico-cristã”, com suas ideias sobre pecado e redenção, e no lugar colocar a cultura germânica natural. Na sua cidade, os símbolos do ano litúrgico foram trocados por uma “Árvore de Maio”, que simbolizava a vida. O resto todos conhecem. Todos sabem como esse culto pagão, essa falsa defesa da natureza, essa ideia equivocada sobre vida, levou milhões à morte, num dos crimes mais bárbaros da história.

Hoje em dia, diz Ratzinger, “quando ouço as críticas ao cristianismo pela destruição da identidade cultural de um local, invadido por valores europeus, percebo como as argumentações são semelhantes, e muitas frases floreadas me soam familiares” [5]. E soam familiares porque se trata das mesmas ideias, embora estejam com um novo verniz. 

Por trás de todo esse ecologismo, esse igualitarismo, esse neopaganismo, existe um desprezo diabólico por Deus e pelo homem. Existe, no fundo, um desejo de poder, de dominação irresponsável, incrédula, que precisa destronar o verdadeiro Deus para colocar-se a si mesmo no lugar, como Scar fez no filme “O Rei Leão”. E precisa matar os herdeiros, e matá-los já no ventre. Aliás, a cena em que Scar planeja o assassinato de Mufasa e de Simba foi toda inspirada nas marchas nazifascistas. Ele queria a “nova era”.

Mas o rei verdadeiro deve regressar. E aqui está o papel profético dos católicos, de todos os cristãos. Nós, como o “sacerdote” Rafki, devemos despertar as consciências dos homens, trazendo-os de volta à dignidade de batizados, de filhos de Deus, e, ao mesmo tempo, denunciando toda essa artimanha contra a vida, toda essa cultura da morte, que tolhe a existência humana desde a sua base. “Reconhece, ó cristão, a tua dignidade”, dizia São Leão Magno [6]. Somente desse modo o “delicado equilíbrio” da natureza pode ser verdadeiramente salvo, somente assim os leões africanos terão seu habitat protegido.

Somente quando o homem, filho de Deus, assumir a sua vocação e respeitar a dignidade de todos os seus irmãos homens, desde o feto até o ancião, é que haverá uma verdadeira ecologia.

Referências

  1. Serm. 241, 2: PL 38, 1134.
  2. Compêndio da Doutrina Social da Igreja, n. 451.
  3. Ibid., 463.
  4. Papa Bento XVI, Discurso, 22 de setembro de 2011.
  5. Joseph Ratzinger. Lembranças da minha vida. 2.ª ed., São Paulo: Paulinas, 2007, p. 17.
  6. Serm. 21, 3: CCL 138, 88; PL 54, 192-193.

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Desânimo, a tentação mais perigosa de Satanás
Espiritualidade

Desânimo,
a tentação mais perigosa de Satanás

Desânimo, a tentação mais perigosa de Satanás

Embora nem sempre se lhe dê a devida atenção, o desânimo deve ser encarado como uma tentação, e até como uma tentação das mais perigosas, visto que expõe a alma cristã a abandonar toda obra de piedade.

Padre J. Michel5 de Julho de 2019
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Perigos e efeitos funestos do desânimo. — O desânimo é a tentação mais perigosa que o inimigo da salvação dos homens possa pôr em obra. Nas outras tentações, ele só ataca uma virtude em particular e mostra-se a descoberto; no desânimo, ataca-as todas, e esconde-se.

Nas outras tentações, vê-se facilmente a cilada: na Religião, não raro na própria razão, e numa educação cristã, achamos sentimentos que as condenam: a vista do mal que não podemos disfarçar, a consciência, os princípios de Religião que despertam, servem de apoio para nos sustentarmos. No desânimo não achamos socorro algum; sentimos que a razão não basta para praticar todo o bem que Deus pede; por outro lado, não esperamos achar junto a Deus a proteção de que havemos mister para resistirmos às paixões. Achamo-nos, pois, sem coragem, prontos a tudo abandonar; e é até aí que o demônio quer conduzir a alma desanimada.

Nas outras tentações, vemos claramente que seria mal aderirmos a elas por um sentimento refletido: no desânimo, disfarçado sob mil formas, acreditamos ter razões as mais sólidas para nos deixarmos guiar por esse sentimento, que não consideramos como uma tentação. Entretanto, esse sentimento faz considerar como impossível a prática constante das virtudes, e expõe a alma a se deixar vencer por todas as paixões. É, pois, importante evitar essa cilada.

O efeito mais funesto do desânimo é que a alma que nele cai não o considera uma tentação. A esperança e a confiança em Deus é tão mandada quanto a Fé e as outras virtudes. — O que faz o grande mal de uma alma desanimada é que, iludida por um temor excessivo que lhe disfarça os verdadeiros princípios, abatida pela vista das dificuldades contra as quais não acha em si mesma recurso algum, ela não considera esse estado como uma tentação. Se o encarasse sob este ponto de vista, desconfiaria das razões que o alimentam: e, assim, sairia dele bem mais cedo e mais facilmente.

Bem certo é, entretanto, que se trata de uma tentação bem definida; porquanto todo sentimento que é oposto à lei de Deus, ou em si mesmo ou pelas consequências que pode ter, evidentemente é uma tentação. É assim que julgamos de todas as que podemos experimentar. Se nos vem um pensamento contra a Fé, um sentimento contra a Caridade, ou contra alguma outra virtude, consideramo-lo como uma tentação, desviamo-nos dele, e aplicamo-nos a produzir atos opostos a esse pensamento, a esse sentimento, que nos põe em perigo de ofender a Deus.

Ora, a Esperança e a confiança em Deus é tão mandada quanto a Fé e as outras virtudes. O sentimento que vai contra a Esperança é, pois, tão proibido quanto o que vai contra a Fé, e contra qualquer outra virtude: é, pois, uma tentação bem caracterizada. A lei prescreve-nos fazer amiúdes Atos de Fé, de Esperança e de Caridade: proíbe-nos, por isso mesmo, todo ato, todo sentimento refletido contrário a essas virtudes tão preciosas e tão salutares. Deve-se, pois, considerar o desânimo como uma tentação, e mesmo como uma tentação das mais perigosas, visto que expõe a alma cristã a abandonar toda obra de piedade.

Para tornardes sensível a vós mesmos esse perigo, examinai a conduta ordinária dos homens. A esperança de ser bem sucedido, de se proporcionar um bem, de evitar um mal, numa palavra, de satisfazer algum desejo ou alguma paixão, é que os faz agir, é que os sustenta nas penas que eles têm de suportar, é que os anima nos obstáculos que eles têm a vencer. Tirai-lhes toda esperança, e logo eles cairão na inação. Só um homem no delírio pode dar-se movimentos por um objeto que ele desespera de poder adquirir. O mesmo efeito o desânimo produz na prática das virtudes; funda-se no mesmo princípio, a falta dos meios para chegar ao fim que nos propomos.

A alma cristã que não espera vencer-se na prática de alguma virtude, nada ou quase nada empreende para se fortificar. Os esforços insuficientes que ela faz aumentam-lhe a fraqueza; e, mais do que meio vencida pelo seu desânimo, ela se deixa facilmente arrastar à paixão que a domina. A vista da sua fraqueza lança-a primeiramente na irresolução, na perturbação. Neste estado, todo ocupada da dificuldade que sente em combater, ela já não vê os princípios que devem guiá-la. O temor de não ser bem sucedida impede-a de enxergar os meios que deve adotar para vencer, e que Deus lhe apresenta: ela se entrega, pois, ao inimigo sem defesa. É como uma criança a quem a vista de um gigante que avança contra ela faz tremer, e que não pensa em que uma pedra basta para derrubá-lo, se ela se servir dessa pedra em nome do Senhor. Essa alma, assim, desanimada, tem um socorro poderoso na bondade do Pai mais terno; e que é só reclamar esse socorro, para sair vitoriosa do combate.

Fonte e causa das impressões que o desânimo produz numa alma cristã. — Por que é que o desânimo produz tão fortes e tão funestas impressões numa alma cristã? Ei-lo aqui. A alma está bem convencida da sua fraqueza, que amiudadas vezes ela experimenta: sente vivamente a dificuldade que tem em se vencer, coisa que lhe sucede raramente. Todo ocupada dessas ideias tristes e desalentadoras, de que tem pouca coragem, de que não faz nada para agradar a Deus, ela considera como coisa inútil recorrer ao Senhor, que, nesse estado, não deve escutá-la. Estranho efeito do orgulho do homem, que quereria dever a si mesmo o bem que faz e a felicidade a que aspira, contra esta palavra do Espírito Santo: Quid autem habes quod non accepisti? — “Que tendes que não tenhais recebido?” (1Cor 4, 7). 

Essa alma, pois, não reflete, nem parece contar senão com as suas obras e com as suas próprias forças; de sorte que o seu desânimo diminui, cessa, volta ou aumenta, conforme ela age bem ou mal. Ela não pensa em que só e exclusivamente da misericórdia de Deus é que deve esperar socorro, e não dos seus próprios méritos; que, quando ela faz o bem, é pela graça de Deus que o faz, graça que ela não pôde merecer; e que, em qualquer estado, essa misericórdia lhe está aberta para obter essa graça. 

Quando fazemos sentir a essas almas desanimadas que, a exemplo dos Santos, devem pôr toda a sua confiança em Deus, sem hesitar elas respondem não ser surpreendente que os Santos tivessem confiança em Deus, visto serem Santos, e servirem a Deus com fidelidade; mas que eles não têm as mesmas razões que os Santos para ter essa confiança perfeita. Não vêem que esse raciocínio é contra os princípios da Religião. 

A Esperança é uma virtude teologal; o motivo dela só em Deus pode achar-se: essas almas fazem dela uma virtude humana, cujo motivo se acha no homem e nos seus costumes. Não; os Santos nunca esperaram em Deus porque eram fiéis a Deus; foram fiéis a Deus por haverem esperado n’Ele. Do contrário, o pecador jamais poderia formular um ato de Esperança; e, no entanto, é esse ato de esperança que o dispõe a voltar a Deus. 

Notai bem que S. Paulo não diz: Obtive misericórdia porque fui fiel; mas diz: Quanquam misericordiam consecutus a Domino, ut sim fidelis — “Obtive misericórdia a fim de ser fiel” (1Cor 7, 15). A misericórdia precede sempre o bem que fazemos: é ela que nos dá as graças que no-lo fazem praticar. Os santos nunca contaram com as suas obras para apoiarem a sua confiança em Deus: estavam por demais compenetrados desta lição que Jesus Cristo nos dá: “Quando tiverdes feito tudo o que vos é mandado, dizei: Servi inutiles sumus: quod debuimus facere, fecimus — Somos servos inúteis” (Lc 17, 10). Quanto mais Santos eles eram, tanto mais humildes eram. A sua humildade não lhes deixava enxergar senão a perfeição a que ainda não haviam chegado. Bem distanciados dos sentimentos do Fariseu do Evangelho, eles não achavam nada em si que pudesse assegurar a sua confiança; mas procuravam e achavam no seio de Deus os fundamentos inabaláveis dela. Tais são os motivos que os sustentaram; tais devem ser os que vos animarão e que reanimarão a vossa fraqueza abatida. É importante que sejais instruídos sobre este ponto, para que não caiais novamente na armadilha que o demônio vos tem tantas vezes lançado. 

Do verdadeiro motivo da esperança cristã. Esse motivo é o mesmo para todos os homens. — Consoante a Religião, o motivo da Esperança cristã, ou da confiança em Deus, é o mesmo para todos os homens, santos ou pecadores. 

A Esperança, como já dissemos, é uma virtude teologal, como a Fé e a Caridade. O seu motivo não pode, pois, ser achado senão em Deus, não pode apoiar-se senão nas perfeições divinas. Assim sendo, excluímos desse motivo os nossos méritos. Não esperamos em Deus por lhe havermos sido fiéis: esperamos n’Ele para obtermos a graça de lhe sermos fiéis. 

Em que é que se funda, pois, a Esperança cristã? e qual é o motivo dela segundo a Religião? O Papa Bento XIV, no modelo do “Ato de Esperança”, exprimiu as perfeições divinas que formam esse motivo. Esse ato é assim: “Meu Deus, espero em vós porque sois fiel às vossas promessas, sois todo-poderoso, e porque infinitas são as vossas misericórdias”. Nesse motivo, não há nada do homem; tudo é tomado em Deus mesmo. E pode haver motivo mais forte para nos firmar na Esperança, na confiança em Deus? 

Achamos aí a misericórdia de Deus, que é mais solícita em derramar os seus dons sobre os homens do que estes são em recebê-las; que quer o verdadeiro bem deles, a sua salvação, muito mais sinceramente do que o querem eles próprios, visto que Ele os previne pela sua graça, graça que eles não podem merecer; visto que lhes prepara socorros proporcionados às provações em que os coloca, socorros que eles podem obter por suas preces, e de que podem fazer uso para resistir ao inimigo da salvação: misericórdia infinita, por conseguinte superior a toda a malícia dos homens; e que, depois de se haver manifestado de maneira tão evidente e tão admirável pelo dom que Deus nos fez de seu Filho único para nos remir, não nos recusará os socorros que Ele tem em vista proporcionar-nos por meio desse benefício extraordinário. 

Os efeitos dessa divina misericórdia são-nos assegurados pelas promessas que Deus nos fez de vir em nosso socorro quando o reclamássemos, para operar a nossa salvação. Essencialmente verdadeiro, Deus não pode enganar-nos; e Ele é essencialmente fiel às promessas que faz às suas criaturas. Ora, nos Livros Santos achamos as exortações mais tocantes para recorrermos a Ele nas nossas necessidades, com promessa de que Ele será o nosso sustentáculo e a nossa força. Podemos, então, ter a menor desconfiança, o menor temor refletido de que Ele nos rejeite, de que nos abandone, quando o invocarmos com confiança? Não seria isto acusar Deus de faltar à sua promessa? Ora, isto seria uma blasfêmia. 

Verdade é que, para nos atender, Deus exige que o invoquemos com confiança. Mas também mereceríamos obter os seus benefícios se os pedíssemos com um coração vacilante sobre a sua bondade, bondade cujos efeitos experimentamos a cada instante e de tantas maneiras? Não, diz-nos o Apóstolo S. Tiago (1, 6), um coração que reza com essa disposição de desconfiança não obterá nada. E vemos que Jesus Cristo, na sua vida mortal (cf. Mt 9, 22), só concedia milagres à confiança. 

A onipotência de Deus dá o último traço a este motivo de Esperança cristã, fazendo-nos considerar-nos superiores a todas as nossas necessidades. Muitas vezes, os homens prometem o que não está no poder deles dar: assim não sucede com Deus onipotente. Ele não pode achar obstáculo insuperável à sua vontade nos dons que quer fazer-nos. Nos tesouros infinitos das suas graças Ele tem meios infalíveis para nos conduzir à santidade. Nunca devemos, pois, recear pedir-lhe ou coisas demasiadas ou coisas demasiadamente difíceis. 

Infinitamente rico, Deus possui todos os bens, na ordem da graça, como na ordem da natureza. Infinitamente poderoso, não há nenhum dos seus bens de que Ele não nos possa dar parte. Infinitamente bom, Ele está disposto, segundo as suas promessas, a nos conceder tudo o que nos é necessário para a nossa salvação. É nestes motivos essenciais, hauridos nas perfeições de Deus, que todos os homens devem fundar a sua esperança. Só eles podem dar à nossa confiança essa firmeza inabalável que ela deve ter.

Referências

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Cinco encíclicas sociais que você precisa ler do Papa Leão XIII
Doutrina

Cinco encíclicas sociais que
você precisa ler do Papa Leão XIII

Cinco encíclicas sociais que você precisa ler do Papa Leão XIII

As intervenções de Leão XIII em matéria política e econômica deram origem a um corpo completo, consistente e muito bem articulado de doutrina social, com o qual nossa época tem necessidade urgente de aprender.

Peter KwasniewskiTradução: Equipe Christo Nihil Praeponere4 de Julho de 2019
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Um dos muitos benefícios de estudar história da Igreja é que, em tempos difíceis, isto pode nos proporcionar modelos inspiradores e motivos para manter viva a esperança.

Antes de Leão XIII (Gioacchino Vincenzo Raffaele Luigi Pecci, 1810-1903, que reinou de 1878 a 1903), a Igreja Católica no séc. XIX estava sitiada e na defensiva. Ela era marginalizada e desprezada de muitas maneiras; os liberais “ilustrados” que estavam à frente da Europa (tal como hoje) menosprezavam-lhe as palavras e atitudes “medievais” e previam-lhe o desaparecimento como coisa mais do que certa. Ao líder supremo da Igreja, aparentemente, não cabia outra coisa a fazer senão protestar e lançar anátemas contra um mundo que já não lhe dava ouvidos. Os laicistas de então não podiam sequer imaginar que a Igreja conseguiria responder corajosamente aos desafios da época, conquistando um grande prestígio moral onde ela havia perdido territórios e apoio político.

E no entanto foi justamente isso que aconteceu, graças ao surpreendente pontificado de Leão XIII, que durou 25 anos e meio, um dos mais longos da história, perdendo apenas para o pontificado de Pio IX (que durou 31 anos e meio) e de João Paulo II (que durou 26 anos e meio).

As principais intervenções de Leão XIII em matéria política e econômica deram origem a um corpo completo, consistente e muito bem articulado de doutrina social, unindo, em uma ética social consistente, o que dizem as Escrituras, os Padres e Doutores da Igreja, além das intervenções anteriores do Magistério. Se levarmos em conta que Leão XIII escreveu quase 100 encíclicas, endereçadas a diferentes públicos e abordando uma variedade enorme de assuntos, pode ser um pouco intimidador recomendar um número, modesto que seja, de “leituras obrigatórias”. Mas, felizmente, não se trata de uma tarefa nada difícil, porque ninguém menos do que o próprio Leão XIII declarou, no fim do seu pontificado, em sua carta retrospectiva Annum Ingressi Sumus, de 1902, quais de suas tantas encíclicas sociais eram para ele as mais importantes.

São cinco as encíclicas que, tomadas em conjunto, compõem como que um “minicurso” sobre os fundamentos da Doutrina Social Católica: 

  1. Diuturnum Illud, de 1881, sobre a origem da autoridade civil; 
  2. Immortale Dei, de 1885, sobre a constituição cristã dos Estados;
  3. Libertas Praestantissimum, de 1888, sobre a verdadeira e a falsa noção de liberdade;
  4. Sapientiae Christianae, de 1890, sobre os deveres dos cidadãos cristãos para com os seus Estados; e 
  5. Rerum Novarum, de 1891, sobre o trabalho e o capital, isto é, os direitos e deveres de empresários e trabalhadores.

1) Em Diuturnum Illud, Leão XIII demonstra por que Deus é e deve ser a fonte de toda sociedade política, assim como de todas as formas de autoridade que os governantes exercem. De fato, os homens que são eleitos para o governo não são a fonte de seus próprios poderes, nem estão sujeitos ao povo do mesmo modo como o estão a Deus, que os irá julgar a todos mais severamente, por causa do peso da responsabilidade que assumiram. Corrigindo incontáveis erros de origem iluminista sobre a origem e a finalidade do poder político, típicos dos ocidentais modernos, esta encíclica apresenta também uma excelente explicação sobre o que se costuma chamar “desobediência civil”, mas que, em verdade, nada mais é do que uma obediência firme às leis supremas de Deus.

2) Em Immortale Dei, Leão XIII esmiúça em detalhes como seria a constituição cristã ideal para um Estado e explica por que é impossível sustentar que um Estado não tem obrigação alguma para com Deus e a Igreja nem o dever de formar seus cidadãos na virtude moral. Como já fizera antes, Leão XIII argumenta contra “os princípios e fundamentos de uma nova concepção de lei”. O que ele tem em mente é a teoria do “contrato social”, que, em aberta contradição com a lei tanto divina como natural, compromete a estabilidade do Estado, que depende em grande medida da profissão eficaz da religião, quer dizer, do cumprimento dos deveres primários de cada cidadão para com Deus. Esta encíclica contém ainda uma das melhores explicações já feitas sobre as semelhanças e diferenças entre a sociedade civil e a sociedade constituída pela Igreja Católica: ela ilustra com clareza excepcional quais são as esferas de autoridade próprias de cada uma e como elas podem, ocasionalmente, sobrepor-se ou entrar em conflito.

3) Intimamente relacionada com tudo isso, temos a encíclica Libertas Praestantissimum, que é até hoje a análise mais compreensiva e aguda sobre o sentido da liberdade humana que já nos foi presenteada pela cátedra de Pedro. Isso explica por que ela é um dos documentos citados com mais frequência pelos sucessores de Leão XIII. Esta encíclica fala sobre a dependência da vontade humana da lei, da verdade e da graça; sobre a escravidão a que conduz a liberdade, quando usada de forma abusiva; sobre a interconexão entre as leis eterna, natural e humana; sobre a corrupção universal a que nos leva o liberalismo político, entendendo por esse nome a doutrina de filósofos do séc. XVIII como John Locke; sobre o evidente absurdo que é a separação entre Igreja e Estado [1]; e sobre os casos em que pode ser permitido tolerar falsas religiões, a fim de evitar assim maiores males.

4) Dando um passo a mais, Leão XIII publicou a encíclica Sapientiae Christianae, acerca dos direitos e responsabilidade dos cristãos como membros das sociedades modernas. Como era de se esperar, o Papa fala com sabedoria e prudência sobre o mar de dúvidas que tem o cidadão católico: o que é o verdadeiro patriotismo ou piedade nacional, e como ele se relaciona com a devoção à Igreja? Qual é a missão dos leigos e da família católica no mundo, quais são as regras que hão-de guiar as escolhas políticas de um católico e que tipo de comportamento em âmbito público pode ser considerado uma ofensa a Deus? Como a Providência divina quer que a Igreja e o Estado trabalhem juntos para que os cidadãos possam alcançar sua perfeição natural e sobrenatural? Além disso, Leão XIII aborda uma série de outras questões como, por exemplo, a atitude que deve ter um leigo diante dos erros de um Bispo e por que os cristãos que fracassam em viver a fé são culpados de um pecado mais grave que o dos judeus que rejeitaram o Messias.

O Papa também fala, com uma clareza muito maior que a dos líderes dos movimentos dos direitos civis que surgiram anos depois, sobre os porquês de seguir a própria consciência contra os ditames imorais de um governo.

5) Rerum Novarum, por fim, é a encíclica mais conhecida de Leão XIII. Infelizmente, muitos caíram na tentação de buscar nela um sumário completo da Doutrina Social Católica, algo que ela obviamente não contém nem pretende oferecer. O Papa fez questão de salientar, no próprio documento, que ele já havia escrito outras encíclicas (como as mencionadas acima) que deveriam ser lidas antes, a fim de compreender de forma adequada o contexto das considerações predominantemente econômicas de Rerum Novarum. Tais considerações incluem, entre outras coisas, 

  • o porquê de o socialismo ser totalmente injusto e estar fadado a tornar piores as situações que ele promete melhorar
  • o porquê de a instituição da propriedade privada (ou seja, a posse individual de bens próprios) ser benéfica ao indivíduo, à família e ao Estado; 
  • o porquê de a família ser, em certo sentido, anterior ao mesmo Estado; o porquê de ser útil e necessário o dever do Estado de promover o bem comum do maior número possível de pessoas; e, enfim, 
  • o porquê de o Estado ter a obrigação de proteger e fazer cumprir os direitos e responsabilidades das várias classes sociais. 

Fala-se também claramente dos deveres tanto de patrões como de empregados; explica-se qual é a regra principal e mais perfeita para o uso correto do dinheiro (isso por si só não nos deveria dar vontade de ler o documento todo?); define-se e defende-se contra possíveis objeções a ideia de “salário justo” e de “salário familiar”; e defendem-se com vigor as uniões ou “guildas” de trabalhadores e, portanto, o “direito de associação”. Sempre que leio esta encíclica, fico maravilhado ao ver como os grandes problemas e sofrimentos econômicos do séc. XX (e, certamente, do séc. XXI) já tinham sido previstos; as suas causas, expostas; e as suas soluções, propostas.

No magistério de Leão XIII, encontramos um projeto sistemático de engajar o mundo moderno, projeto que ele buscou levar à prática com todas as forças e sem desvios ao longo de um quarto de século. Apesar de ter sido profundamente crítico e pessimista quanto à direção em que estava caminhando o Ocidente, e mesmo sabendo que os filósofos secularistas eram um veneno mortal, Leão XIII manteve-se animado por um visão marcadamente positiva sobre o que Cristo e a Igreja podiam fazer pelo homem moderno, que necessita ser salvo dos ídolos que suas próprias mãos fabricaram.

Notas

  1. A esse respeito, consulte-se o excelente artigo “Relações entre a Igreja e o Estado”, da pena do Pe. Leonel Franca (in: Obras completas do Pe. Leonel Franca, SJ, v. 5: Alocuções e artigos, t. 1. Rio de Janeiro: Agir, 1954, pp. 11-54).

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Sangue de Cristo, “salva-nos, pois estamos perecendo!”
Liturgia

Sangue de Cristo,
“salva-nos, pois estamos perecendo!”

Sangue de Cristo, “salva-nos, pois estamos perecendo!”

Infelizmente, já há muito tempo que se tem tentado transformar a liturgia num “produto humano”. Como se fossem os nossos esforços, os nossos miseráveis esforços, o que viria a salvar a barca da Igreja.

Equipe Christo Nihil Praeponere3 de Julho de 2019
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Na liturgia antiga, o 1.º de julho era o dia de uma festa de 1.ª classe em honra ao Preciosíssimo Sangue de Cristo. (Na liturgia nova, abolida a festa, ainda assim é possível celebrar uma Missa votiva dedicada a esse mistério.)

Com tal celebração, todo o mês de julho ganha um tom diferente. Estamos no tempo depois de Pentecostes (o tempo per annum), mas a Igreja não quer que percamos de vista a humanidade santíssima de Nosso Senhor, pois é através dela que são derramadas sobre nós todas as graças do Espírito Santo. A Ladainha do Preciosíssimo Sangue, que todos podemos rezar especialmente neste mês, fala do Sangue de Jesus “correndo pela terra na agonia”, “manando abundante na flagelação”, “gotejando na coroação de espinhos”, com o que nós somos imediatamente transportados às mais cruéis e sanguinolentas cenas da Paixão de Nosso Senhor, na qual Ele demonstrou o seu grande amor por nós. 

Unido a esse mistério, porém, o trecho do Evangelho proclamado ontem na liturgia reformada (terça-feira da 13.ª Semana do Tempo Comum, ano ímpar) deveria fazer-nos meditar de modo particular acerca do papel de Cristo como mediador entre Deus e os homens, e especialmente na Igreja Católica. 

A passagem em questão (cf. Mt 8, 23-27) é a do Cristo que dorme enquanto “a barca estava sendo coberta pelas ondas” durante “uma grande tempestade no mar”. Junto com Ele estavam os Apóstolos. Agitados com a possibilidade de que a barca afundasse, os discípulos acordam Jesus e pedem-lhe que intervenha. Nosso Senhor, então, atende-lhes aos rogos, ordena aos ventos e ao mar que cessem sua fúria e, prontamente, advém-lhes “uma grande calmaria”.

O brilho do poder de Nosso Senhor contrasta aqui com a grande impotência dos discípulos. Eles entraram na barca justamente por causa de Cristo, como se lê no início dessa perícope: “Jesus entrou na barca, e seus discípulos o acompanharam”. Se eles entrassem sozinhos, no entanto, por conta própria e sem o Senhor, é certo que veriam soçobrar a embarcação. O Evangelho cala-se aqui a respeito do que teriam feito os discípulos quando começou a tempestade, mas o trecho paralelo de S. Marcos detalha que a tormenta “lançava as ondas dentro da barca, de modo que ela já se enchia de água” (Mc 4, 37) e S. Lucas completa dizendo que “eles se achavam em perigo” (Lc 8, 23). 

Talvez, à vista de tudo aquilo, alguns dos discípulos já tivessem até lançado algumas coisas ao mar, a fim de tornar o barco menos pesado; talvez, um ou outro deles, mais dado à navegação, houvesse lançado mão de alguma técnica para evitar que eles afundassem. O fato é que nada do que fizeram (ou do que pensavam ser possível fazer) foi capaz de deter o mar tempestuoso.

A barca em questão é símbolo da Igreja, evidentemente; mas também pode simbolizar a alma que procura lutar contra a força das más paixões e resistir às tribulações e dificuldades da vida presente. De uma forma ou de outra, prestemos atenção ao que fazem os discípulos (pois é também isso o que devemos fazer, a Igreja como um todo e cada um de nós, se quisermos experimentar a “grande calmaria” que se seguiu àquele episódio): o Evangelho diz expressamente que eles “aproximaram-se [de Cristo] e o acordaram, dizendo: ‘Senhor, salva-nos, pois estamos perecendo!’”.

Ora, que os Apóstolos, entre os quais se contavam alguns pescadores, recorressem a um carpinteiro para resolver um problema no mar… não parece surreal? 

Não, se nos atentarmos à palavra com que eles chamam Jesus: “Senhor” (Κύριε, Kyrie). Os discípulos, mesmo com a fé fraca que tinham, não viam em Cristo um homem comum. Aquele ser humano de carne e osso que dormia na popa da barca não era só verdadeiro homem, mas também verdadeiro Deus. Eles recorreram a Cristo porque viam nEle aquele único mediador de que fala o Apóstolo (cf. 1Tm 2, 5), o qual, tendo assumido a nossa carne, é capaz de interceder a nosso favor e que, sendo Deus, é capaz de ter misericórdia e nos salvar. 

Assim como a comunidade dos primeiros discípulos, a Igreja através dos séculos é esse povo reunido em torno da humanidade santíssima de Nosso Senhor e que implora, dia e noite, clemência ao Sumo e eterno sacerdote — pois “o ofício próprio do sacerdote é ser mediador entre Deus e o povo” (STh III 22, 1 c.). E de que modo especial Cristo cumpre essa missão senão na Cruz? E como a Igreja recebe as graças desse sacrifício, senão através do santo sacrifício da Missa, renovação incruenta do sacrifício do Calvário?

A Missa é, pois, o centro da vida da Igreja e deve ser o centro de toda a nossa vida. Nela, assim como os Apóstolos clamam pelo Senhor: Kyrie, o povo reunido clama Kyrie eleison, e implora à santíssima humanidade de Cristo que interceda mais uma vez por toda a Igreja e por todos os seus. Não nos voltamos uns aos outros, como numa assembleia autorreferencial, que se salva a si mesma. Não temos meios de nos livrar da tempestade do mundo. Não somos mais poderosos que os primeiros cristãos, os Apóstolos. Não somos diferentes dos primeiros homens que seguiram a Nosso Senhor, e que se viam profundamente necessitados dEle. Também nós todos, sem exceção, precisamos da sua intervenção e do seu socorro. 

É por isso que na Santa Missa, sacerdote e povo, ministro consagrado e leigos batizados, todos nos voltamos para a mesma direção: ad orientem, rumo ao Sol de justiça que é Nosso Senhor. A Ele nós clamamos, como os Apóstolos naquela tempestade: Salva nos (curiosamente, a mesma invocação que fazemos ao rezar a Ladainha do Preciosíssimo Sangue). 

Infelizmente, porém, já há muito tempo que se tem tentado transformar a liturgia num “produto humano”, como se fossem os nossos esforços, os nossos miseráveis esforços, o que viria a salvar a barca da Igreja. É como se estivéssemos insatisfeitos com Cristo em nosso meio; é como se a humanidade de Nosso Senhor, real e substancialmente presente nas espécies eucarísticas, não nos fosse suficiente. Ou pior: é como se tivéssemos perdido por completo a fé, e pensássemos que Jesus, no fundo, é apenas o “carpinteiro de Nazaré”, e que por isso não seria capaz de lidar com os nossos problemas de navegação

Como resultado disso, o que fazemos? Caímos na tentação da autossuficiência. Procuramos de todos os modos “adaptar” o culto instituído pelo próprio Deus humanado aos nossos gostos e caprichos. Não nos bastam as orações que a Igreja sempre rezou; não nos basta o Evangelho que os cristãos em todos os lugares proclamaram; não nos bastam as palavras do Cânon que os sacerdotes de todos os tempos pronunciaram; não nos basta a fórmula de consagração que Jesus nos deixou ao instituir a Eucaristia… É preciso “inventar”, é preciso “inovar”, é uma sanha incontrolável que ninguém consegue curar.

E ai de quem ouse alertar para a presença de Cristo no barco! “Pouco importa”, alguém poderia responder, “deixai-o dormir, que nos viramos nós!”

Como consequência dessa soberba, acontece aquilo que alertou o Cardeal Joseph Ratzinger em sua Introdução ao espírito da liturgia

O Homem sozinho não consegue mesmo “criar” um culto fácil porque, sem Deus se revelar, ele será sempre insignificante. As palavras de Moisés ao Faraó: “Não sabemos quais serão as vítimas que ofereceremos ao Senhor” (Ex 10, 26), expõem, sem dúvida, um princípio fundamental de toda a Liturgia. No pressentimento de Deus que lhe é inerente, o homem pode, certamente, sem Deus se revelar, edificar altares “ao Deus desconhecido” (cf. At 17, 23); nos seus pensamentos, ele pode elevar-se para Deus, na tentativa de o alcançar, mas a verdadeira Liturgia pressupõe que Deus responde e expõe o modo de ser venerado. Ela inclui, duma certa maneira, algo como “nomeação”. Ela não pode ser fruto da nossa fantasia e criatividade — pois assim, seria apenas um grito na escuridão ou simplesmente a afirmação de nós próprios. A Liturgia pressupõe algo de concreto diante de nós, algo que se nos revela, indicando o percurso da nossa existência [...].

A história do bezerro de ouro alerta para um culto autocrático e egoísta em que, no fundo, não se faz questão de Deus, mas sim em criar um pequeno mundo alternativo por conta própria. Aí, então, é que a Liturgia se torna em mera brincadeira. Ou pior: ela significa o abandono do Deus verdadeiro, disfarçado debaixo de um tampo sacro. Mas, assim, o que resta no fim é a frustração, a sensação do vazio. Já não se faz sentir aquela experiência de liberdade, que acontece em todo o lado onde haja encontro com Deus vivo [1].

Ora, que haja essa “frustração” e “sensação do vazio” entre os pagãos e nas religiões naturais, que não conhecem a revelação cristã, é coisa perfeitamente compreensível. Agora, que um “culto autocrático e egoísta” substitua o “encontro com Deus vivo” dentro da Igreja Católica, como entender?

A pergunta que precisa ser feita, portanto, é se ainda cremos que Deus se revelou em Jesus Cristo. Cremos que o homem Jesus, que viveu em Nazaré, que salvou os discípulos da tempestade em Tiberíades, que instituiu a Eucaristia para permanecer em nosso meio, que morreu na Cruz para instituir um sacrifício perpétuo pela nossa salvação… nós cremos que esse homem era Deus? Ou, ao contrário, já nos parece que tanto faz estar na barca de Pedro, com Cristo; ou na “barca” de Alá, com Maomé; ou na de Allan Kardec, com Chico Xavier; ou na “barca” dos inúmeros deuses das outras religiões? Ainda acreditamos que a humanidade de Nosso Senhor é o único caminho para a salvação ou já nos vendemos a um projeto de religião universal que tudo iguala e nivela por baixo?

O Evangelho de ontem não mencionava quantos e quais dos Apóstolos foram atrás de Nosso Senhor em busca da salvação. Talvez fossem todos. Talvez apenas alguns. Talvez fosse apenas um deles. Sabemos todavia que, no momento mais importante de toda a obra da Redenção, um deles o traiu; um deles, e o chefe, o negou; e outros tantos, covardemente, fugiram. Se ficaremos nós, pobres de nós, miseráveis nós, aos pés da Cruz, e até o fim, só Deus o sabe. Se acontecer de resistirmos e ficarmos, no entanto, saibamos desde já: não será por nossas forças, não será por nossos esforços, não será por nossos méritos, mas unicamente pela força e pelo poder do Preciosíssimo Sangue de Cristo. 

Por isso, e porque a fé não nos foi tirada, não deixemos de subir ao altar de Deus, alegria da nossa juventude, e clamar: Sangue de Cristo, “salva-nos, pois estamos perecendo!” Foi o que fizeram os discípulos no mar de Tiberíades e é também o que devemos fazer, a Igreja como um todo e cada um de nós, se quisermos experimentar hoje a “grande calmaria” que se seguiu àquela tremenda tempestade. 

Referências

  • Joseph Ratzinger. Introdução ao espírito da liturgia. 5. ed. São Paulo: Paulinas, 2012, pp. 15-16.

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