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Recordações de martírio em uma era de terrorismo
Santos & Mártires

Recordações de martírio
em uma era de terrorismo

Recordações de martírio em uma era de terrorismo

Pode até não acontecer que venhamos a testemunhar Cristo com nosso sangue, como fizeram São Maximiliano Kolbe e os mártires de Otranto, mas todos, sem exceção, somos chamados a ser suas testemunhas.

Matthew B. RoseTradução: Equipe Christo Nihil Praeponere16 de Agosto de 2016Tempo de leitura: 6 minutos
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A parte mais dramática de ser católico reside na vocação de estarmos sempre preparados para o martírio. Ainda que nem todos estejamos marcados para realmente morrer por ódio à Fé, manchetes anunciando a ação mortal do Estado Islâmico e de outros grupos que odeiam a Igreja lembram-nos que também nós podemos receber esse chamado. As quatro Missionárias da Caridade mortas no Iêmen e o padre Jacques Hamel, morto na França enquanto rezava Missa há menos de um mês, recordam-nos que martírios não são alguma história do passado distante da Igreja, mas uma parte verdadeiramente real de nossa história hoje — em todos os tempos, na verdade.

No último dia 14 de agosto, a Igreja celebrou duas diferentes expressões de martírio, separadas por mais de 450 anos: os mártires de Otranto, na Itália, e São Maximiliano Kolbe, na Polônia. Embora suas histórias façam parte de nosso passado, o exemplo deles pode iluminar nosso presente, ajudando-nos a ver o que podemos enfrentar em nossas próprias vidas e o que devemos fazer para cumprir nossa vocação cristã.

Os turcos do Império Otomano aterrorizaram durante muito tempo o mundo cristão. Eles pareciam imbatíveis. Saquearam a cidade de Constantinopla em 1453, penetrando os muros da famosa capital bizantina graças a um canhão pesado e capaz de atirar projéteis de até 540 quilos a mais de 1 milha de distância. Eram liderados pelo feroz sultão Maomé II, o Conquistador, que começou a varrer territórios com apenas 19 anos de idade. Sua meta era dominar todo o mundo cristão mediterrâneo, incluindo Roma, em cujas basílicas ele impiedosamente pretendia fazer entrar as suas cavalarias. Assim começou a conquista otomana da Europa. Maomé II conduziu bem os turcos, mas eles encontraram um exército equivalente na ilha de Rodes, em 1480, onde um pequeno exército liderado pelos Hospitalários (uma ordem cruzada de monges também conhecida como "Ordem de Malta") derrotou-os contra todas as previsões.

Imagem da Virgem Maria na Catedral de Otranto. Ao fundo, as relíquias dos mártires.

Furioso, Maomé mandou seu almirante Gedik Ahmed Paxá fazer um ataque surpresa no sul da Itália, começando com a cidade de Otranto, em 28 de julho. Tão repentino foi o ataque que não houve nenhuma resposta europeia organizada ao sítio, mesmo depois que a cidade havia sido tomada. Por mais de duas semanas os cidadãos de Otranto resistiram à entrada dos otomanos, rejeitando os seus termos de rendição. Como a cidade possuía uma frágil reserva de 50 soldados, os civis entraram na batalha. Suas defesas porém não durariam para sempre e, no dia 11 de agosto de 1480, os muros da cidade cederam.

No interior da cidade ingressaram cerca de 20 mil turcos e aqueles que permaneciam em seu caminho eram simplesmente degolados pelas espadas otomanas. Os invasores correram à catedral, onde encontraram o arcebispo Stefano Agricoli, velho e débil, vestido com paramentos litúrgicos, rezando a Missa, juntamente com todo o clero e o povo da cidade, pela salvação de Otranto. À vista dos invasores, o arcebispo instou seu rebanho a permanecer fiel à Fé, enquanto ele mesmo era capturado e morto no local (alguns relatos mantêm que ele foi cortado em dois, esquartejado, decapitado, e depois os muçulmanos fizeram desfiles com sua cabeça ao redor da cidade). Os padres do lugar, todos reunidos na catedral em torno de seu bispo, foram martirizados do mesmo modo. Foi a vez, então, do resto dos sobreviventes da cidade: todos os homens com mais de 50 anos foram mortos; mulheres e crianças abaixo de 15 anos foram levados como escravos.

Ao fim do massacre, restaram vivos ainda em torno de 800 homens. O almirante Paxá falou com eles, oferecendo-lhes a escolha de converterem-se ao Islã ou morrerem. Consigo o almirante trazia inclusive um padre apóstata, chamado João, usado para chamar os homens a unirem-se a eles, ao invés de morrerem na mão dos turcos. Antonio Primaldi, um velho alfaiate, manifestou-se rejeitando a oferta e encorajando seus companheiros a fazerem o mesmo, morrendo como mártires pela Fé. Todos os 800 homens concordaram e, no dia 14 de agosto, depois de receberem uma última chance de salvarem as suas vidas convertendo-se ao Islã (proposta novamente recusada por todos os 800), todos eles foram mortos, tendo seus corpos sido depositados em uma cova profunda.

Os turcos foram eventualmente expulsos de Otranto por uma coalizão de poderes da Europa reunidos pelo Papa e enviados por monarcas notáveis, como Isabel e Fernando da Espanha. Os turcos atacariam a Europa novamente, e mais uma vez seriam barrados. Os mártires de Otranto se tornariam heróis locais, seus restos mortais seriam encontrados e colocados na catedral da cidade, e eles terminariam venerados ao longo dos séculos. Beatificados em 1771, pouco mais de três anos atrás, eles foram canonizados pelo Papa Francisco.

Como os católicos de Otranto, os mártires cristãos de semanas recentes morreram na mão de militantes islâmicos. Como aqueles católicos assassinados no século 15, o mártir moderno enfrenta a escolha de abandonar a Fé para salvar a própria vida. Como aqueles bravos homens em Otranto, também o mártir de hoje permanece firme, diz não, e enfrenta a espada do inimigo da Fé com fortaleza e caridade.

São Maximiliano Maria Kolbe.

Maximiliano Kolbe morreu muito mais recentemente que os mártires de Otranto. Sua história é bem conhecida. Nascido em uma humilde família na Polônia, o jovem Raimundo (Maximiliano foi o nome religioso que ele tomou depois) recebeu uma visão da Virgem Maria, oferecendo-lhe a escolha de duas coroas, uma branca, da pureza, e uma vermelha, do martírio. O garoto pediu pelas duas e as receberia. Como adulto, juntou-se aos Franciscanos e terminou fundando sua própria ordem, a Milícia da Imaculada. Ele e seus irmãos religiosos logo entraram em conflito com os nazistas, que tinham tomado a Polônia. Como os turcos otomanos, os nazistas tentaram tomar a Europa e eliminar o Cristianismo. Como os muçulmanos, os nazistas começaram perseguindo padres e religiosos. Kolbe e sua Milícia tomaram uma posição vigorosa contra os nazistas, que levou à prisão de Kolbe em fevereiro de 1941, quando ele foi levado a Auschwitz.

Ali, São Maximiliano servia os prisioneiros, enquanto sofria o abuso de seus sequestradores. Os oficiais em Auschwitz tinham um particular desprezo pelos sacerdotes católicos, motivo pelo qual Kolbe sofreu severamente. Veio então o dia fatal. Três prisioneiros haviam escapado, e o comandante nazista reuniu todos os prisioneiros do quarteirão, forçando-os a permanecerem a postos até que os fugitivos fossem encontrados. Como voltassem das buscas de mãos vazias, o comandante selecionou dez homens para serem executados no lugar dos fugitivos. Um dos selecionados desabou a soluçar, lamentando por sua mulher e filhos. Kolbe deu um passo à frente para tomar o seu lugar e oferecer a sua vida, a fim de que aquele homem sobrevivesse. O comandante aprovou, e Kolbe e outros nove homens foram levados a uma câmara de gás. O padre deixou o outro homem com cânticos e orações, e no dia 14 de agosto de 1941, cerca de duas semanas depois, os prisioneiros sobreviventes, incluindo Maximiliano Kolbe, foram mortos por injeção letal.

O homem que sobreviveu graças ao sacrifício de Kolbe viveu por muitos anos. Ele e muitos outros em Auschwitz testificaram a santidade de Kolbe e pedidos por sua canonização ecoaram quase que imediatamente após o fim da Segunda Guerra Mundial. O religioso foi beatificado em 1971 e canonizado em 1982. Na canonização, o Papa São João Paulo II declarou-o mártir. Trata-se de um título apropriado, já que sua morte foi um sacrifício, de acordo com a doutrina do Salvador, de que "ninguém tem maior amor do que aquele que dá a vida por seus amigos".

Essas duas histórias de martírio oferecem-nos exemplos do sacrifício a que somos chamados por causa de nosso batismo. Hoje, o mesmo mal que dilacerou a Cristandade pela espada dos turcos otomanos e pela bota dos nazistas ameaça destruir nossa Igreja e a Fé. Mesmo contra esse mal, a força de mártires como aqueles de Otranto ou como São Maximiliano Kolbe, dão-nos um modelo de apostolado. Pode até não acontecer que venhamos a testemunhar Cristo com nosso sangue, mas todos, sem exceção, somos chamados a ser suas testemunhas.

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Já sou adulto, preciso obedecer aos meus pais?
Como Ser Família

Já sou adulto, preciso
obedecer aos meus pais?

Já sou adulto, preciso obedecer aos meus pais?

O que muda no relacionamento com aqueles que nos deram a vida, depois que entramos na vida adulta? É o que Padre Paulo Ricardo responde em mais este vídeo especial.

Padre Paulo Ricardo16 de Agosto de 2016Tempo de leitura: 0 minutos
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Dando continuidade ao nosso projeto especial para as famílias, falaremos, no conselho de hoje, sobre o respeito e a obediência devidos aos pais.

Logo abaixo dos primeiros mandamentos referentes ao amor de Deus, o quarto preceito do Decálogo nos manda "honrar pai e mãe". No texto que consta nas Sagradas Escrituras, esse imperativo é acompanhado de uma promessa: aquele que ama e reverencia os seus genitores será abençoado por Deus com uma longa vida sobre a terra.


Mas em que consiste, afinal, essa honra que devemos prestar aos nossos pais? Qual a medida da obediência que lhes devemos? Seria por acaso necessário que nos submetêssemos a eles em tudo? O que muda, por fim, em nossa relação com aqueles que nos deram a vida, quando entramos na vida adulta?

São as perguntas enviadas por Miguel, um de nossos leitores, e que Padre Paulo Ricardo se propõe a responder, de forma bem sintética, neste 3.º vídeo de nosso projeto #ComoSerFamilia.

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Luís Martin, o “pai incomparável” de Santa Teresinha
Como Ser Família

Luís Martin, o “pai
incomparável” de Santa Teresinha

Luís Martin, o “pai incomparável” de Santa Teresinha

O pai de Santa Teresinha do Menino Jesus bem sabia que aquelas meninas não eram suas. Deus só lhe tinha confiado o cuidado delas, e ele, por sua vez, aceitou generosamente a tarefa de educá-las para o Céu.

Maureen O'RiordanTradução: Equipe Christo Nihil Praeponere13 de Agosto de 2016Tempo de leitura: 6 minutos
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Durante a cerimônia de beatificação de São Luís e Santa Zélia Martin, pais de Santa Teresinha do Menino Jesus, o Cardeal Saraiva Martins, lendo a carta do Papa Francisco, descreveu os dois como "leigos, esposos e pais".

Luís, pai e esposo, sabia que o primeiro dever de um bom pai era ser um bom marido. "Sou sempre muito feliz com ele", escrevia Zélia sobre seu companheiro. "Ele preenche minha vida de ternura e delicadeza. Meu marido é um homem muito santo; quisera que toda mulher tivesse um marido como ele".

"Os nossos sentimentos estavam sempre de acordo", diria ela tempos depois, "e ele serviu-me constantemente de amparo e consolação" [1].

Nos anos de seu matrimônio, de 1858 a 1877, Luís foi um pai e um esposo muito generoso: vendo o sucesso do negócio de rendas de Zélia, ele abandonou a profissão de relojoeiro à qual se tinha dedicado por muitos anos, vendeu o negócio ao sobrinho por um preço modesto e tratou de gerenciar pessoalmente a compra de aviamento para a manufatura. Após a morte de Zélia, ele deixou os amigos em Alençon para dar às suas filhas a benéfica influência dos tios e primos maternos, em Lisieux. Numa época em que o pai era geralmente o "chefe da casa", ele deu às filhas mais velhas livre permissão tanto para cuidar das coisas da casa quanto para ensinar as irmãs mais novas. Não poupou esforços para desenvolver os talentos que elas tinham, provendo-lhes aulas de arte e dando-lhes toda ajuda que estava em suas possibilidades.

Luís Martin foi um homem valente. Na juventude, pertenceu ao clube militar. Por exercitar-se regularmente, acabou se tornando um homem alto e robusto. Nadava bem o bastante para salvar várias pessoas do afogamento, resgatava pessoas de incêndios, e era tão corajoso nas ruas que, se ficasse fora mais tarde que o normal, suas filhas já começavam a suspeitar que ele teria se machucado ao tentar separar alguma briga.

Como pai, Luís criou uma estrutura de disciplina para a vida diária de cada membro de sua família. Durante todas as estações eles assistiam juntos à Missa de manhã. As crianças tinham que comer o que lhes era preparado. Dificilmente perdiam algum dia na escola: em oito anos, Celine só teve duas faltas. Por não gostar de vê-las ociosas, Luís encorajava suas filhas a desenvolverem várias atividades.

Até mesmo seu lado feminino se tinha desenvolvido bem. Quando ficou viúvo, Luís se tornou um pai e uma mãe para suas filhas. Elas diziam: "O coração afetuoso de nosso pai foi enriquecido com um amor verdadeiramente maternal por nós". Muitas vezes ele acompanhava as filhas no caminho de ida e de volta para a escola, escutando pacientemente os relatos de como tinham sido os seus dias. Todas as noites, ele as reunia depois do jantar, confeccionava brinquedos, cantava, contava histórias, recitava poemas e fazia brincadeiras com elas, antes das orações em família. "Com minhas filhas eu sou um Bom-Papai", ele gostava de dizer [2].

Luís tinha um profundo respeito pela vida espiritual de suas filhas. Não apenas dava a elas toda a liberdade para que satisfizessem suas vocações, como ativamente as apoiava no que quer que elas descobrissem a respeito da vontade de Deus para suas vidas, "permitindo ao Criador que lidasse diretamente com a criatura". Empreendeu viagens e gastos para permitir que elas fizessem retiros e consultassem seus diretores espirituais. Num tempo em que muitos pais ficavam furiosos se suas filhas quisessem entrar para o convento, às vezes até impedindo que elas o fizessem, Luís deu livremente o seu consentimento e doou largas somas ao convento em que entraram suas filhas. Quando Maria, a mais velha e sua favorita, lhe confidenciou a sua vocação, ele disse: "Ah... mas... sem você!... Pensei que você nunca fosse me deixar" [3]. Ainda assim, ele lhe deu permissão imediatamente para ir.

Quando a família estava visitando Alençon, antes de Maria deixá-los e Leônia entrar para as Irmãs Clarissas, abruptamente e sem pedir permissão, ele permitiu que ela lá permanecesse e apoiou-a generosamente. Quando o vigário geral da diocese se furtou de ajudar Teresa a entrar no Carmelo, Luís, encontrando-o vários dias depois em Roma, disse com franqueza: "Você sabe muito bem que tinha prometido ajudar-me". Mais tarde, ficou tão impressionado com os talentos artísticos de Celina que quis levá-la a Paris para ter aulas com os melhores artistas. Quando ela lhe revelou, todavia, que planejava tornar-se carmelita depois que ele não mais precisasse de seus cuidados, ele disse: "Venha, vamos juntos ao Santíssimo Sacramento agradecer a Ele pela honra que me faz em escolher Suas esposas em minha casa. Se possuísse eu qualquer coisa melhor, eu depressa ofereceria para Ele." Teresa dizia que a melhor coisa que ele tinha a oferecer era a si mesmo. Quando ficou paralisado e teve que aceitar ser cuidado por um sanatório e depois por sua família, ele se rendeu completamente e ficou profundamente tocado pela devoção de seus parentes. "No céu, eu lhes recompensarei por tudo isso", ele disse a seu cunhado.

Luís entendeu que suas filhas não eram suas. Deus só lhe tinha confiado o cuidado delas, e ele, por sua vez, aceitara generosamente com sua esposa a tarefa compartilhada de "criá-las para o Céu". Sobre o papel profético de Luís na importante e repentina conversão que Teresa teve mais tarde, sua irmã Celina escreve que, "ao lhe conceder um pai incomparável, cuja bondade era uma prefiguração da bondade de nosso Pai do Céu, Nosso Senhor a estava preparando para penetrar, mais do que qualquer pessoa, no mistério da divina paternidade."

E em que Luís Martin pode nos ajudar a refletir sobre nosso relacionamento com nossos próprios pais?

Em 9 de maio de 1897, Teresa escreveu ao jovem Padre Roulland, sacerdote francês enviado em missão à China, de quem ela era irmã espiritual e por cujo apostolado rezava de modo especial:

"Se, como creio, meu Pai e minha Mãe estão no Céu, devem olhar e abençoar o irmão que Jesus me deu. Desejaram tanto um filho missionário! Contaram-me que antes de eu nascer, meus pais tinham a esperança que seu anseio fosse enfim se realizar. Se tivessem podido penetrar o véu do futuro, teriam visto que, com efeito, era por mim que o desejo deles se realizaria. Dado que um missionário se tornou meu irmão, é também filho deles, e nas suas orações, não podem separar o irmão de sua indigna irmã." [4]

E não é que Teresa, com essas palavras, oferece Luís como um pai para todos nós? Se, como ele, nossos próprios pais foram bons e amáveis conosco, então, na comunhão dos santos, Luís pode juntar-se a eles para derramar em nós o amor do coração de Cristo. Se, no entanto, como muitas das crianças que Luís ajudou no decorrer de sua vida, não pudemos experimentar essa delicadeza por parte de nossos pais, ou se nunca chegamos a conhecê-los, Luís pode ser o instrumento por meio do qual Deus derrama em nós as Suas graças.

São Luís Martin oferece aos pais de hoje um novo modelo de masculinidade e paternidade. Unindo seu amor a Deus com seu amor por sua esposa e filhas, ele entendeu a essência da paternidade: que seu papel como cocriador das almas de suas filhas para glorificar a Deus não acabava com o nascimento, mas continuava por toda a sua vida, enquanto ele as acompanhasse para fazê-las nascer para a eternidade. Como ele mesmo repetia com frequência, ele era um pai "todo para a maior glória de Deus".

Referências

  1. Carta da Senhora Martin para Paulina, de 4 de março de 1877. In: Stéphane Joseph Piat. História de uma família. 3. ed. Braga: Apostolado da Imprensa., p. 49.
  2. Irmã Genoveva da Santa Face. O pai de Santa Teresa do Menino Jesus (trad. do Carmelo do Imaculado Coração de Maria e Santa Teresinha). Cotia, 1965, p. 58.
  3. Ibid., p. 63.
  4. Carta 226. In: Santa Teresa do Menino Jesus. Obras completas: escritos e últimos colóquios. São Paulo: Paulus, 2002, p. 472.

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Existe algum problema com o jogo “Pokémon GO”?
Sociedade

Existe algum problema
com o jogo “Pokémon GO”?

Existe algum problema com o jogo “Pokémon GO”?

Qual o segredo do sucesso de “Pokémon GO” e o que essa febre revela a respeito da alma humana?

Padre Paulo Ricardo12 de Agosto de 2016Tempo de leitura: 2 minutos
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"Pokémon GO", o jogo que se tornou uma verdadeira febre das redes sociais, suscita a ocasião de fazermos uma importante reflexão moral a respeito do uso saudável das diversões e dos passatempos, de acordo com a doutrina e a espiritualidade católicas. Nos últimos dias, de fato, foram muitos os pais que entraram em contato conosco pedindo-nos uma orientação. Eles perguntavam se haveria algum problema com o jogo e se deveriam proibir os seus filhos de se entreterem com esse aplicativo.

Importa dizer, em primeiro lugar, que entretenimentos desse gênero são uma necessidade da alma humana, que precisa de descanso, assim como nosso corpo exige repouso após a fadiga do dia. O autor espiritual João Cassiano ilustra o caso com um episódio da vida do apóstolo São João, que o Doutor Angélico faz questão de resgatar em sua Suma de Teologia:

"O bem-aventurado João Evangelista, ao ver que alguns se escandalizavam de o ver jogando com seus discípulos, mandou um deles, que trazia consigo um arco, disparar uma flecha. Depois que ele repetiu isso muitas vezes, o santo perguntou-lhe se poderia fazê-lo continuamente. O outro respondeu que, se assim procedesse, o arco se quebraria. O apóstolo então observou que, da mesma forma, a alma humana se romperia se jamais relaxasse a sua tensão." [1]

Os passatempos não são, portanto, uma necessidade que partilhamos com os animais, como são a comida, a bebida e o sexo. Trata-se antes de uma manifestação própria daquele que foi moldado "à imagem e semelhança" de Deus (cf. Gn 1, 26) e cujo coração se inquieta continuamente, enquanto não repousar nEle [2]. É nesta sede insaciável do ser humano que se encontra, de fato, o grande segredo do sucesso de "Pokémon GO": assim como as redes sociais e muitos outros divertimentos de nossa época, o que faz este jogo é explorar a constante procura humana por algo que satisfaça os impulsos de sua alma e preencha o vazio profundo de sua existência.

A notícia que é preciso dar aos jogadores sem freios é esta: fomos feitos para uma busca muito mais digna que a caça de "pokémons" — a busca de Deus; fomos criados para uma glória muito superior que a de ser um "mestre Pokémon" — a glória do Céu. Evidentemente, não há pecado algum nos jogos lúdicos, mas existe sim algo de muito grave, quando as pessoas, devido à sua falta de moderação, começam a transformar toda a sua vida em lazer. " Se dás muito tempo ao jogo", adverte São Francisco de Sales, "ele já não é um divertimento, mas fica sendo uma ocupação" [3].

Quando passamos a vida diante de uma tela de celular à procura de ínfimas glórias virtuais, o tempo escorre por nossas mãos, esvai-se, e acabamos desperdiçando o dom preciosíssimo da vida que nos foi confiada por Deus. "Os que andam em negócios humanos dizem que o tempo é dinheiro. Parece-me pouco", diz São Josemaría Escrivá, "para nós, que andamos em negócios de almas, o tempo… é Glória!" [4].

Referências

Suma Teológica, II-II, q. 168, a. 2.
Cf. Santo Agostinho, Confissões, I, 1.
Filoteia ou Introdução à Vida Devota (III, 31). 8.ª ed. Petrópolis: Vozes, 1958, p. 257.
Caminho, n. 355.

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