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Nada é árduo aos que trabalham por Deus e pelas almas
Espiritualidade

Nada é árduo aos que trabalham
por Deus e pelas almas

Nada é árduo aos que trabalham por Deus e pelas almas

Trechos de uma carta escrita por São José de Anchieta revelam o que enfrentavam os primeiros evangelizadores do Brasil e com que espírito eles trabalhavam.

Equipe Christo Nihil Praeponere9 de Junho de 2016Tempo de leitura: 2 minutos
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O texto a seguir foi retirado de uma carta escrita por São José de Anchieta ao superior dos jesuítas, Diego Láyñez, no dia 1.º de junho de 1560, e conta um pouco o que enfrentavam os primeiros evangelizadores de nossa terra e com que espírito eles trabalhavam. O trecho consta no Ofício das Leituras de hoje, 9 de junho, dia em que a Igreja faz memória de José de Anchieta, "apóstolo do Brasil".

Para quem não sabe, apesar de tanto tempo passado, José de Anchieta só veio a ser canonizado em 2015, pelo Papa Francisco. Nós temos em nosso site uma aula especial sobre a vida deste grande apóstolo, a que vale a pena assistir.

Clique aqui para conhecer melhor a história de São José de Anchieta.

Destacamos do breve excerto abaixo a seguinte frase: "Nada é árduo aos que têm por fim somente a honra de Deus e a salvação das almas". Possamos também nós trabalhar com esse mesmo objetivo em mente, pedindo a Deus que nos inflame do mesmo amor que animou São José de Anchieta e os primeiros jesuítas a darem a vida por Sua causa:

Nada é árduo aos que têm por fim somente a honra de Deus e a salvação das almas

De outros muitos poderia contar, máxime escravos, dos quais uns morrem batizados de pouco, outros já há dias que o foram; acabando sua confissão vão para o Senhor. Pelo que, quase sem cessar, andamos visitando várias povoações, assim de Índios como de Portugueses, sem fazer caso das calmas, chuvas ou grandes enchentes de rios, e muitas vezes de noite por bosques mui escuros a socorrermos aos enfermos, não sem grande trabalho, assim pela aspereza dos caminhos, como pela incomodidade do tempo, máxime sendo tantas estas povoações e tão longe umas das outras, que não somos bastantes a acudir tão várias necessidades, como ocorrem, nem mesmo que fôramos muito mais, não poderíamos bastar. Ajunta-se a isto, que nós outros que socorremos as necessidades dos outros, muitas vezes estamos mal dispostos e, fatigados de dores, desfalecemos no caminho, de maneira que apenas o podemos acabar; assim que não menos parecem ter necessidade de ajuda os médicos que os mesmos enfermos. Mas nada é árduo aos que têm por fim somente a honra de Deus e a salvação das almas, pelas quais não duvidarão dar a vida. Muitas vezes nos levantamos do sono, ora para os enfermos, ora para os que morrem.

Hei me detido em contar os que morrem, porque aquele se há de julgar verdadeiro fruto que permanece até o fim; porque dos vivos não ousarei contar nada, por ser tanta a inconstância em muitos, que não se pode nem se deve prometer deles coisa que haja muito de durar. Mas bem-aventurados aqueles que morrem no Senhor (Ap 14, 13), os quais livres das perigosas águas deste mudável mar, abraçada a fé e os mandamentos do Senhor, são transladados à vida, soltos das prisões da morte, e assim os bem-aventurados êxitos destes nos dão tanta consolação, que pode mitigar a dor que recebemos da malícia dos vivos. E contudo trabalhamos com muita diligência em a sua doutrina, os admoestamos em públicas predicações e particulares práticas, que perseverem no que têm aprendido. Confessam-se e comungam muitos cada domingo; vêm também de outros lugares onde estão dispersados a ouvir as Missas e confessar-se.

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Por que o Ocidente está cada vez menos religioso?
Sociedade

Por que o Ocidente está
cada vez menos religioso?

Por que o Ocidente está cada vez menos religioso?

Para a escritora norte-americana Mary Eberstadt, a causa da secularização no Ocidente tem nome e sobrenome. Chama-se decadência familiar.

The University BookmanTradução: Equipe Christo Nihil Praeponere7 de Junho de 2016Tempo de leitura: 10 minutos
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A escritora Mary Eberstadt é conhecida nos Estados Unidos por suas análises conservadoras sobre a sociedade, a cultura e a filosofia norte-americanas. Em 2013, ela lançou o livro How the West Really Lost God ("Como o Ocidente realmente perdeu Deus", infelizmente sem tradução para o português). Para a autora, se a destruição da família é geralmente considerada um efeito da perda de identidade religiosa, o contrário também é verdadeiro. A teoria de Eberstadt vê a decadência familiar como causa da secularização que o Ocidente vem experimentando nas últimas décadas.

Eis a íntegra de uma entrevista que ela concedeu a Gerald J. Russello, editor do site The University Bookman, sob o título Family and Faith: A Two-Way Street ("Família e fé: uma via de mão dupla").

Obrigado por se juntar a nós. Conte-nos sobre a tese do seu novo livro.

A escritora Mary Eberstadt, autora de "How the West Really Lost God".

How the West Really Lost God começa com uma revisão dos argumentos convencionais para a secularização do Ocidente e observa que esses argumentos não explicam adequadamente o declínio do Cristianismo em certas partes do mundo ocidental. Se isso estiver correto — se, com todo o respeito aos novos ateístas e outros pensadores seculares, o progresso material, a educação e o racionalismo não causaram por si só o secularismo—, então, o que aconteceu?

Meu livro argumenta que, no grande quebra-cabeça do processo de secularização, tem faltado uma peça chave: a família, e os modos como as mudanças na família ocidental, por sua vez, afetaram o Cristianismo ocidental. Por razões que são apresentadas em vários capítulos, eu acredito que essas duas instituições são melhor entendidas como uma dupla hélice — que uma é tão forte quanto a outra em um dado momento da história, e que uma depende da outra para se reproduzir.

Esse é um novo modo de entender o que anda acontecendo, uma firme ruptura com o script secular pós-iluminista sobre o que Nietzsche e outros chamaram de "a morte de Deus". Sob a influência desse script, muitas pessoas parecem ter decidido que o declínio da religião é simplesmente inevitável. Mas não é isso o que mostram os registros.

O seu livro ajuda a analisar os vários efeitos que a modernidade teve em diferentes partes do mundo. Você nota que a modernidade e a perda da necessidade da religião nem sempre andam juntas. Na sua visão, então, o que causou a secularização da Europa?

A Europa ocidental é mais secular que os Estados Unidos, e a Escandinávia, por sua vez, é o território mais secular de todos. Consideremos, então, a Escandinávia como uma placa de Petri para a teoria do livro. Qual região iniciou a família ocidental sem casamento e o seu aliado mais próximo, o Estado social (cujo papel indiscutível na secularização é também parte dessa cultura)? A Escandinávia. Qual é indiscutivelmente o lugar mais atomizado no mundo ocidental hoje, a medir pelo, vamos dizer, número de pessoas que sequer vive dentro de uma família? Novamente, a Escandinávia. Hoje, quase metade das casas suecas é composta de uma só pessoa, por exemplo.

Eu acredito que essas mudanças não estão acontecendo de modo aleatório. A Escandinávia é um exemplo excelente para provar a tese do meu livro: o declínio religioso e o declínio familiar — medido por índices como fertilidade, casamento, divórcio e coabitação — andam lado a lado. Eles estão relacionados de modo causal.

Você fala do "Fator Família" e do "efeito que a participação na família per se parece ter na fé e na prática religiosas". Você pode explicar essa relação?

A sociologia convencionalmente supõe que o declínio religioso leva a um declínio na família — que as pessoas primeiro perdem o seu Cristianismo, e então mudam os seus hábitos de formação familiar. Acredito que esse é um entendimento muito estreito, e que a relação causal entre as duas instituições é muito mais dinâmica.

Por exemplo, nós sabemos que, se as pessoas são casadas, elas tendem muito mais a ir à igreja. Também sabemos que, se são casadas e têm filhos, elas tendem mais ainda a fazê-lo. Até agora, sociólogos observando essa conexão assumiram o fato de ir à igreja como algo que as pessoas casadas simplesmente "fazem". Eles não se perguntaram se a realidade de casar e ter uma família pode constituir uma força causal em si mesma — inclinando algumas pessoas a uma religiosidade maior.

O que o quadro geral mostra, eu acho, é que existe alguma coisa relativa à vida familiar — na verdade, mais de uma coisa — que leva as pessoas à igreja em primeiro lugar: coisas como o desejo de situar os próprios filhos em uma comunidade moral, ou o fato de que o nascimento é visto por muitas pessoas como um evento cósmico e sagrado, ou o fato de que o Cristianismo ratifica como nenhum outro credo secular o tipo de sacrifício envolvido na vida familiar, bem como outros fatores que eu abordo no livro. Novamente, família e fé parecem operar em uma via conceitual de mão dupla, e não em uma de direção única.

Quais dados você encontrou relacionando o declínio da família com crises econômicas ou sociológicas?

Há inúmeros dados para conectar o fortalecimento da família a benefícios econômicos — e também, por outro lado, para conectar declínio familiar a crise econômica.

No momento, toda uma biblioteca poderia ser construída para abrigar a ciência social sobre o rompimento da família incluindo, por exemplo, o fato de que lares destruídos aumentam a probabilidade estatística de que crianças tenham problemas educacionais, comportamentais e outros que possam impedir o seu sucesso na vida; ou outras verdades inconvenientes, as quais, apesar disso, estão empírica e firmemente estabelecidas. O último grande cientista social James Q. Wilson brincava que existem tantos dados atestando os benefícios da família que até alguns sociólogos estão começando a acreditar nela.

No livro, eu também tento olhar para tipos de efeitos colaterais menos comuns, mas igualmente fáceis de perceber — especialmente aqueles que ajudam o declínio familiar a impulsionar o declínio religioso.

Mas as estruturas da família não são meramente arbitrárias? Por que uma família "natural" é importante?

Ao falar de família "natural", eu me refiro simplesmente à configuração de família que outros modelos podem até imitar, mas não poderão jamais replicar, ou seja, o modelo fundamental baseado nos irredutíveis laços biológicos de mãe, pai, filhos etc. O Cristianismo tem dependido historicamente dessa forma de família, que é a que aparece nos bancos das igrejas cristãs tradicionais.

O destino da família natural é também importante para o destino do Cristianismo de outra forma: porque a história cristã em si mesma está repleta de personagens, metáforas e significado familiares. No fim das contas, trata-se de uma religião que começa com o nascimento de uma criança, que tem uma Sagrada Família, que entende o próprio conceito de Deus como o de um Pai amoroso e benevolente.

O que acontece, então, se vivemos em um mundo — como nós do Ocidente vivemos — em que mais pessoas experimentam cada vez menos essas mesmas coisas? O ponto é que a desintegração da família introduz uma nova complexidade na transmissão de certas características da mensagem cristã. Como você explica Deus Pai a alguém que cresceu sem uma figura masculina e paterna dentro de casa? Ou como falar o que há de tão sagrado sobre um bebê a pessoas que — em um tempo de taxas decrescentes de natalidade e outras mudanças familiares — talvez nunca tenham ou cuidem de uma criança?

Esses problemas não são insuperáveis. Todavia, são problemas que não existiam antes. Novamente, mudança familiar e mudança religiosa andam lado a lado.

Por que deveríamos nos preocupar com o declínio da fé cristã no Ocidente?

É um ponto de vista do livro o de que todos têm uma posição sobre esse assunto. Crentes ou seculares, todo mundo tem um palpite a dar sobre o papel do Cristianismo no espaço público moderno.

Há um capítulo inteiro dedicado aos dados que demonstram apenas essa proposição. É difícil condensar isso em uma frase sem parecer reducionista, mas, para se ter uma ideia, pessoas religiosas são, de maneira geral, mais felizes, mais saudáveis e significativamente mais caridosas com o seu tempo e o seu dinheiro do que pessoas seculares. É claro que todos podemos pensar em exceções, mas essas generalizações são corroboradas por ciência social absolutamente isenta.

Esse é um exemplo de como, no seu melhor, aqueles que creem "dão um retorno" para o resto da sociedade. Há outros exemplo ainda. O Cristianismo tradicional tenta encorajar famílias fortes, por exemplo, e à medida em que isso funciona, essa prioridade institucional também é de evidente benefício social. É possível argumentar que o grande e crescente Estado social não existiria sem a fratura do lar ocidental, porque muito do que o Estado faz é servir de substituto para o pai ou provedor do lar — fazer os tipos de coisas que costumavam ser feitas por famílias autossuficientes.

Na sua análise, que efeito tiveram os novos imigrantes islâmicos na Europa?

O livro limita a sua análise ao Cristianismo, o que já é mais do que o suficiente para um volume. Por isso, pode ser que a tese do livro se aplique a outras confissões que não a cristã.

Ao longo de todo o globo, por exemplo, alta fertilidade é associada com alta religiosidade. Quanto mais religiosas são as pessoas, mais elas tendem a ter filhos, e pessoas profundamente religiosas tendem ainda mais a ter famílias numerosas que outras pessoas. É a dupla hélice novamente em ação, e os muçulmanos da Europa exemplificam isso também.

De qualquer modo, é claro que o que torna a confusão das mesquitas na Europa tão óbvia é o silêncio de muitas igrejas, porque elas estão vazias.

Você acha que algo pode ser feito para revigorar alguma das duas hélices que você descreve — a fé e a família?

Sempre há algo a ser feito. Parte da resposta se encontra nas bases. Se as pessoas entenderem que "a importância da família para a fé" não é apenas retórica, mas, ao contrário, se trata de uma conexão orgânica profunda à qual é preciso prestar atenção, a revigoração acontecerá em cada igreja e congregação por vez.

Ter uma família é um trabalho pesado em qualquer tempo ou época, de modo que quem se preocupa com a família enquanto instituição deve pensar em todas as coisas que facilitam a vida das pessoas — coisas pequenas, mas significativas. As igrejas naturalmente fazem algumas dessas coisas, mas, sem dúvida, elas poderiam fazê-las melhor e com mais vigor. É tentador ter o Estado social tomando as rédeas do que instituições menores, como igrejas, poderiam estar fazendo melhor e com mais sensibilidade e eficiência. Todavia, é preciso resistir a essa tentação se as igrejas quiserem construir comunidades mais vibrantes. O que elas precisam é competir com o Estado oferecendo serviços melhores à comunidade.

Além das bases, a maior questão no horizonte deve ser o que vai acontecer ao moderno Estado social que ao mesmo tempo contribuiu para o declínio da família e emergiu como um substituto custoso para a família. Será o Estado babá, tal como o conhecemos — tomando conta de seus cidadãos do berço ao túmulo —, sustentável? Tendências demográficas e econômicas, especialmente em partes da Europa ocidental, sugerem que a resposta a longo prazo talvez seja negativa. E se fosse para o atual Estado social imperar ou mesmo implodir, é difícil ver como qualquer instituição a não ser a família poderia emergir no vácuo resultante.

No livro, eu ofereço dois capítulos — um para o caso do otimismo e outro para o do pessimismo —, a fim de que os leitores possam decidir por si próprios. De qualquer modo, o renascimento de ambas as instituições já aconteceu antes na história, como o livro frequentemente menciona. Não é difícil imaginar essa mesma renascença acontecendo de novo.

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Urgente! MEC quer implantar uma ditadura na educação do Brasil
EducaçãoPolítica

Urgente! MEC quer implantar
uma ditadura na educação do Brasil

Urgente! MEC quer implantar uma ditadura na educação do Brasil

Proposta de implantar um “sistema único de educação” dá poder ilimitado ao Ministério da Educação. De acordo com o Pe. José Eduardo, nem “as maiores ditaduras do Brasil cogitaram essa ideia”.

Thácio Siqueira6 de Junho de 2016Tempo de leitura: 8 minutos
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Na última terça-feira, dia 31 de maio de 2016, a Comissão de Educação da Câmara dos Deputados em Brasília convocou um Seminário sobre a Base Nacional Curricular Comum (BNCC).

Um dos debatedores foi o Pe. Dr. José Eduardo de Oliveira e Silva, Professor de Teologia Moral e estudioso dos temas de educação.

Em entrevista à ZENIT, o sacerdote explicou com mais detalhes a tentativa de implantar um "sistema único de educação", que eliminaria totalmente a liberdade das escolas e daria o poder ilimitado ao MEC de ensinar, na prática, qualquer ideologia para todas as crianças do Brasil.

ZENIT: Temos acompanhado com preocupação todo o debate acerca da Base Nacional Curricular Comum (BNCC), de autoria do Ministério da Educação. De onde saiu a ideia de se impor a todas as escolas do Brasil uma mesma base curricular?

Padre José Eduardo de Oliveira e Silva.

Pe. José Eduardo: A ideia surgiu a partir de uma Emenda à Constituição, a PEC 59/2009. O texto afirma que "a lei estabelecerá o plano nacional de educação, de duração decenal, com o objetivo de articular o sistema nacional de educação em regime de colaboração... que conduza ao estabelecimento de meta de aplicação de recursos públicos em educação como proporção do produto interno bruto". Como se vê, o texto é de uma "lei orçamentária", na qual foi inserido uma espécie de "cavalo de Tróia", que seria este "sistema nacional de educação", inexistente na legislação brasileira até então.

ZENIT: Mas em que consiste este "Sistema Nacional de Educação"?

Pe. José Eduardo: Na verdade, a lei não o define, apenas o enuncia. Por isso, precisamos interpretá-lo de acordo com a Constituição Federal.

ZENIT: Por quê? Existe um outro modo de interpretar esse "Sistema Nacional de Educação", em desacordo com a Constituição?

Pe. José Eduardo: Sim. Já em 1988, o Dep. Octávio Elísio apresentou um Projeto de Lei, quase idêntico a um modelo apresentado pelo Prof. Dermeval Saviani (UNICAMP), em que se anunciava um Sistema Nacional de Educação. Dizia o PL 1.258/1988: "haverá no país um sistema nacional de educação, constituído pelos vários serviços educacionais desenvolvidos no território nacional" (p. 7). O que se propunha é que todos os sistemas educacionais brasileiros fossem transformados em serviços de um único sistema. Quando os deputados perceberam que eles iriam tirar a autonomia das escolas, dos Municípios e dos Estados, reagiram imediatamente e rejeitaram o projeto de lei, assumindo-se o substitutivo do Dep. Jorge Hage, de agosto de 1989.

ZENIT: Então, essa ideia não é nova no Brasil.

Pe. José Eduardo: De modo algum. Na verdade, o primeiro a querer implementar um sistema federal fortemente centralizado foi o Presidente Getúlio Vargas. Ele criou o Ministério da Educação, cujo segundo ministro foi o conhecido Gustavo Capanema. Depois da queda da ditadura, o então Ministro da Educação Clemente Mariani, em 1949, apresentou o ante-projeto da Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (LDB), que o então Dep. Gustavo Capanema rejeitou, por considerar o PL pouco centralizador.

Na época, levantou-se contra ele, nada mais, nada menos que, Anísio Teixeira, um dos maiores ícones da educação brasileira, alegando que aquele desejo de centralismo era absurdo! Foi isto que Anísio escreveu sobre as ideias educacionais de Capanema: "Ora, francamente, o sr. Capanema está a brincar. Fortalecer os poderes federais nunca significa transferir poderes locais para o centro, mas simplesmente fortalecer os poderes que devem pertencer ao centro. Do contrário, seria extrapolar e raciocinar à doida, pois nada, absolutamente nada no mundo resistiria a esse tipo de lógica. Na cabeça do sr. Capanema só é nacional o que nascer da cabeça de uma autoridade federal, o município, o estado, as regiões são antinacionais, quando, na realidade, o nacional é o país todo e, queira ou não queira, a substância nacional está nos municípios, nos estados e nas regiões" (p. 94).

Anísio, aliás, já tinha escrito, com outros educadores, o famoso "Manifesto dos pioneiros da educação nova", em 1932, em que rejeitava fortemente a ideia de uma educação centralizada. O Manifesto dizia: "Unidade não significa uniformidade. A unidade pressupõe multiplicidade. Não é, pois, na centralização, mas na aplicação da doutrina federativa e descentralizadora, que teremos de buscar o meio de levar a cabo, em toda a República, uma obra metódica e coordenada, de completa eficiência, tanto em intensidade como em extensão" (p. 8). No final das contas, Capanema, como relator do Projeto, conseguiu arquivá-lo.

No entanto, perceba: mesmo com todo este centralismo intolerante, quase ditatorial, do Gustavo Capanema, nunca lhe passou pela cabeça, nem a Vargas ou aos ditadores posteriores, criar uma base curricular centralizada, detalhada e uniforme para todas as escolas. Repito: as maiores ditaduras do Brasil nunca cogitaram essa ideia.

ZENIT: Mas, e então?, como ficaram as reivindicações dos educadores brasileiros?

Pe. José Eduardo: Em 1952, o Projeto da LDB foi desarquivado e, após uma década de profundos debates, foi aprovado e sancionado em 1961. Após a Constituição de 1988, resolveu-se criar uma nova LDB, atualizando-a de acordo com as novas configurações Constitucionais. Rejeitou-se o Projeto de Elísio-Saviani, que era pelo Sistema Nacional, e aprovou-se a nova LDB de 1996, vigente até hoje, que representa uma das maiores conquistas dos educadores do Brasil!

ZENIT: Até que se inserisse esse, como o sr. diz, "cavalo de Tróia": o novo conceito de sistema nacional de educação... Mas o sr. dizia que era possível interpretá-lo de modo correto, em harmonia com a Constituição. Como é isso?

Pe. José Eduardo: A Constituição afirma, no art. 211, que "A União, os Estados, o Distrito Federal e os Municípios organizarão em regime de colaboração seus sistemas de ensino"; a LDB afirma, em seu art. 8, que "a União, os Estados, o Distrito Federal e os Municípios organizarão, em regime de colaboração, os respectivos sistemas de ensino" e, no § 1, que "caberá à União a coordenação da política nacional de educação, articulando os diferentes níveis e sistemas e exercendo função normativa, redistributiva e supletiva em relação às demais instâncias educacionais". Mais adiante, continua a LDB, no art. 15: "os sistemas de ensino assegurarão às unidades escolares públicas de educação básica que os integram progressivos graus de autonomia pedagógica e administrativa".

ZENIT: Então, embora a Constituição não previsse um Sistema Nacional de Educação, a introdução sorrateira dessa terminologia forçosamente deve ser entendida como coordenação, e não substituição dos outros sistemas (municipais, estaduais etc), e deve ademais garantir progressivos graus de autonomia até às escolas… Então, por que querem agora criar essas Bases Curriculares Comuns?

Pe. José Eduardo: Na verdade, eles não estão "criando" as bases curriculares. O Ministério da Educação já tinha fornecido outras bases, anteriormente. O Parecer 15/98 do Conselho Nacional de Educação ofereceu a "base comum para as escolas de ensino médio", em duas páginas (vide as páginas 48 e 49). Agora, o MEC está apresentando uma BNCC que, na primeira versão, tinha 302 páginas e, nesta última, 676 páginas, em que se determinam os conteúdos, ano por ano, matéria por matéria, detalhadamente.

ZENIT: Impressionante! Mas, se eles deveriam garantir uma progressiva autonomia, para que querem controlar, assim, o ensino das escolas?

Pe. José Eduardo: Exatamente para criarem um sistema único de educação. Essa expressão, "sistema único", não é minha, mas de um grande parceiro do Prof. Saviani, que fez a Conferência de abertura do CONAE 2010, o Prof. Jamil Cury. Ele disse textualmente: "é evidente que o desafio de um sistema único de educação se radica no próprio desafio de uma superação do próprio capitalismo" (p. 10). Em outras palavras, o que eles querem, mesmo, é estabelecer um sistema único e, para isso, criaram essas bases curriculares tão detalhadas.

ZENIT: Mas, no texto que o sr. citou, ele fala claramente de "superar o próprio capitalismo". Então, essa reforma tem um sentido claramente ideológico?

Pe. José Eduardo: Na verdade, é pior que isso. Não se trata de uma questão de conteúdo, apenas; trata-se da transformação da arquitetura da educação do Brasil. A primeira versão das BNCC era claramente de inspiração marxista. A segunda está mais diluída. Contudo, isso não importa muito. A partir do momento em que puderem definir o ensino em todas as escolas, poderão ensinar a ideologia que quiserem, porque eles não pararão na BNCC. Ela é o primeiro passo de uma verdadeira revolução educacional.

ZENIT: Como assim? Eles não estão limitados pela LDB?

Pe. José Eduardo: Deveria ser assim. Essa é a minha interpretação. Mas o que se está claramente fazendo é lacear a legislação para que a mesma seja alterada. Num documento do MEC intitulado "Instituir um Sistema Nacional de Educação: agenda obrigatória para o país", afirma-se claramente: "hoje a falta de uma Base Nacional Comum inviabiliza, por um lado, orientações claras e potentes para a composição dos currículos das licenciaturas e, por outro, a regulação mais enérgica do setor privado" (p. 4) e, ainda mais, que "será imprescindível uma releitura da LDB à luz do Sistema Nacional de Educação a ser configurado" (p. 3). Está claro? Por um lado o MEC está dizendo que falta uma Base Nacional Comum, quando foi ele mesmo que já homologou várias Bases Nacionais Comuns, enquanto que, por outro lado, querem aproveitar-se desta falsa informação para redesenhar a LDB segundo a nova Base Nacional Curricular Comum!!!

ZENIT: Isso é muito grave! O que deveríamos fazer? Deveríamos lutar para que não houvesse a BNCC e o Sistema Nacional de Educação?

Pe. José Eduardo: A meu ver deveríamos apenas fazer as pessoas compreenderem, de um lado, que não é necessário uma BNCC detalhada, bastariam, como se tem feito até o momento, as definições de objetivos e métodos que garantissem a "progressiva autonomia" dos sistemas e unidades de ensino, ou, conforme já prescrevia o famoso Parecer 15/98 do Conselho Nacional de Educação, descrevendo principalmente as metas que deverão ser atingidas, "os pontos de chegada", deixando o detalhamento de seu conteúdo, "os pontos de partida", às instâncias mais próximas do alunado.

Por outro lado, o tal Sistema Nacional de Educação não pode se comportar como um sistema único, mas como um órgão de coordenação, que respeitasse a autonomia dos diversos sistemas. Parece-me que esta seria a posição mais sensata, e mais de acordo com nossos princípios democráticos. Quando temos um currículo que determina com exatidão o que e como deverá ser ensinado uniformemente em todo o território nacional, e inclusive quando se quer utilizar este mesmo currículo para poder avaliar de modo uniforme o desempenho das escolas em todo o país, como se o governo federal fosse o diretor e proprietário de cada uma destas escolas, as escolas, na prática, passaram a fazer parte do Sistema Nacional Único do governo federal, ainda que no papel se diga outra coisa.

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Ex-luterana convertida à Igreja é declarada santa pelo Papa Francisco
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Ex-luterana convertida à Igreja é
declarada santa pelo Papa Francisco

Ex-luterana convertida à Igreja é declarada santa pelo Papa Francisco

Ela nasceu na Suécia protestante para morrer em odor de santidade na Roma católica. Conheça um pouco da história de Santa Maria Isabel Hesselblad, canonizada neste mês pelo Papa Francisco.

Equipe Christo Nihil Praeponere6 de Junho de 2016Tempo de leitura: 4 minutos
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O Papa Francisco canonizou, neste dia 5 de junho, a religiosa sueca Maria Isabel Hesselblad. Trata-se de um destino pouco comum para quem nasce na região da Escandinávia, dominada pelo protestantismo desde o século XVI.

De fato, Isabel foi criada em um lar protestante. Nasceu no vilarejo de Faglavik, sudoeste da Suécia, no dia 4 de junho de 1870. Ela era a quinta de 13 irmãos e foi batizada na comunidade luterana da Suécia, que seus pais frequentavam todos os domingos.

Com 16 anos, para ajudar nas necessidades materiais de casa, Isabel começa a trabalhar como doméstica. Dois anos depois, em 1888, a jovem decide mudar-se para os Estados Unidos, onde passa a trabalhar como enfermeira em um hospital de Nova Iorque. Aí ela entra em contato com diferentes culturas e religiões, descobrindo um mundo cristão totalmente diverso daquele a que estava acostumada na Suécia: a Igreja Católica.

Enquanto atendia a um trabalhador irlandês que se havia ferido na construção da futura Catedral de São Patrício, Isabel ouviu-o clamando o auxílio de Nossa Senhora: "Maria, Mãe de Deus, rogai por nós!". Assustada com a invocação, a jovem Isabel escreveria que "não era cristão" falar daquele modo. "Os católicos usam umas fórmulas curiosas", pensou ela na ocasião.

Outra noite, depois de enfrentar uma terrível tempestade buscando um sacerdote para um católico moribundo, ela receberia uma bênção profética. "Que Deus te abençoe, querida irmã, pelo teu cuidado e dedicação", disse-lhe o religioso. "Tu ainda não és capaz de entender o maravilhoso serviço que prestas a tanta gente, mas um dia o entenderás e encontrarás o caminho."

A jovem Isabel perambulava com suas amigas por várias igrejas cristãs de distintas denominações e se perguntava qual seria o único rebanho a que se referia o Evangelho de São João. Muito lhe agradava o silêncio das igrejas católicas, ainda que não conseguisse entender o porquê de tantos gestos físicos, como o sinal da cruz e as genuflexões.

Foi durante uma viagem a Bruxelas, enquanto acompanhava suas amigas católicas em um procissão do Santíssimo na Catedral de São Miguel e Santa Gudula, que Isabel teve um encontro pessoal com Jesus na Eucaristia:

"Ao ver as minhas duas amigas e muitos outros se ajoelhando, retirei-me atrás das portas para não ofender os que me rodeavam ficando de pé. Pensei comigo: 'Só me ajoelho diante de ti, Senhor, não aqui'. Naquele momento, o bispo chegou à porta carregando a custódia. Minha alma atormentada se encheu de repente de doçura e escutei uma voz, que parecia proceder ao mesmo tempo do exterior e do fundo do meu coração, que me dizia: 'Eu sou aquele que tu buscas'. Caí de joelhos, então, e ali, atrás da porta da igreja, realizei a minha primeira adoração a nosso divino Senhor presente no Santíssimo Sacramento."

Essa experiência mística abriu a alma de Isabel à fé católica. Depois, a oração, o estudo e os conselhos de um sábio padre jesuíta terminariam dissipando as suas dúvidas em relação a Nossa Senhora. Em 15 de agosto de 1902, já com 32 anos, Isabel finalmente recebe o Batismo "sob condição", no Convento da Visitação, em Washington. "Por um momento o amor de Deus foi derramado sobre mim", ela escreve, relembrando esse evento tão importante em sua caminhada de fé. "Entendi, então, que só poderia responder àquele amor por meio do sacrifício e de um amor disposto a sofrer por Sua glória e pela Igreja. Sem hesitar ofereci a Ele a minha vida e a minha vontade de segui-Lo no caminho da Cruz."

Santa Maria Isabel Hesselblad, em seu hábito de brigidina.

Durante uma peregrinação à Cidade Eterna, Isabel recebeu o sacramento da Confirmação e descobriu que devia dedicar toda a sua vida a rezar pela unidade dos cristãos. Ao visitar o templo e a casa de sua conterrânea, Santa Brígida, ela ficou profundamente impressionada e sentiu que Deus lhe chamava para a vida consagrada: "É neste lugar que desejo que Me sirvas".

Em 1906, ela recebe a permissão do Papa São Pio X para tomar o hábito da Ordem do Santíssimo Salvador, fundada por Santa Brígida. Cinco anos depois, passados inúmeros percalços, ela consegue estabelecer em Roma uma casa das brigidinas, dando início a um novo ramo da comunidade.

Desde o começo de sua fundação, Isabel se dedicou com muito cuidado à formação e direção de suas filhas espirituais. Ela implorava a elas que vivessem unidas a Deus, que tivessem um desejo fervoroso de se conformarem a nosso Divino Salvador, que possuíssem um grande amor pela Igreja e pelo Romano Pontífice e, por fim, que rezassem continuamente pela unidade de todos os cristãos. "Essa é a primeira meta da nossa vocação", ela repetia. "Nossas casas religiosas devem ser formadas pelo exemplo de Nazaré: oração, trabalho e sacrifício. O coração humano não pode aspirar a nada maior."

Contemplando o infinito amor do Filho de Deus, que Se sacrificou pela nossa salvação, ela alimentava a chama do amor em seu coração e lutava por transmitir a mesma caridade a suas filhas. "Nós devemos nutrir um grande amor por Deus e pelo próximo", ela dizia. "Um amor forte, um amor ardente, um amor que elimine as imperfeições, um amor que gentilmente suporte um ato de impaciência ou uma palavra amarga, um amor que se preste prontamente a um ato de caridade."

Durante a Segunda Guerra Mundial, o convento das brigidinas em Roma escondeu inúmeros refugiados, vindos de todos os lados, o que fez o Estado de Israel reconhecê-la com o título de "justa entre as nações".

A bem-aventurada Maria Isabel Hesselblad morreu em 24 de abril de 1957, em odor de santidade. Já em 2000 ela foi beatificada pelo Papa São João Paulo II.

Ao aproximar-se a sua morte, Isabel rezava continuamente o Rosário. "A Virgem está mais próxima de mim que o meu próprio corpo", ela escrevia. "Sinto que seria mais fácil cortar-me um braço, uma perna ou a cabeça que afastar de mim a Virgem. É como se a minha alma estivesse acorrentada a ela."

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