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A rebeldia de um monge
Igreja Católica

A rebeldia de um monge

A rebeldia de um monge

Se a rebelião de Lutero conseguiu dividir a cristandade, a providência de Deus foi muito mais eficaz em Seus santos.

Equipe Christo Nihil Praeponere1 de Junho de 2016Tempo de leitura: 3 minutos
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Tratado o doloroso tema da separação entre Cristo e a Igreja, que não poucas pessoas realizam em nossos tempos, é hora de voltarmos o olhar ao século XVI, quando um monge agostiniano se tornou pioneiro em talhar um “cristianismo" à sua própria medida, desvinculado da autoridade do Papa e da mediação sacerdotal, querida pelo próprio Senhor.

Martinho Lutero, nascido em 1483, na Saxônia, era um rapaz de inteligência aguçada, característica que seus pais e professores identificaram muito cedo, quando ele recebeu o trivium, em Mansfeld. Foi com 21 anos, mal acabara de começar os seus estudos de direito, que o rapaz decidiu fazer-se religioso. Em viagem a Erfurt, onde frequentava a universidade, Lutero foi surpreendido por uma tempestade bastante violenta. Em meio aos raios e trovões que o assustavam, ele invocou o auxílio de Santa Ana e fez uma promessa irrefletida: “Se me ajudares, far-me-ei monge".

De fato, apenas duas semanas depois do incidente, ele batia à porta do convento dos eremitas de Santo Agostinho. Levava uma vida de disciplina e oração, mas, aflito pelos escrúpulos e por uma ideia muito severa de Deus, não conseguia obter a paz da alma. Daniel-Rops escreve que “Lutero era um ser intensamente dominado pelo sentimento trágico do pecado" [1]. A sua luta, mais que contra a sensualidade da carne, era contra a soberba da vida. “Os pensamentos hediondos, o ódio a Deus, a blasfêmia, o desespero, eis as grandes tentações", escrevia [2].

Um versículo bíblico em particular inquietava o monge da Saxônia: “Nele [no evangelho] se revela a justiça de Deus, que vem pela fé e conduz à fé, como está escrito: 'O justo viverá pela fé'" (Rm 1, 17). Por muito tempo, Lutero não conseguia ver na “justiça de Deus" senão a justitia puniens, a ira divina pelas faltas do homem. Até que ele descobre que Deus não apenas julga o homem, como também o justifica. Essa visão – que, até aqui, nada tem de errada – levou-o a formular, no entanto, uma nova doutrina. Para responder ao que o atormentava dia e noite, Lutero firma a salvação somente pela fé, eliminando a necessidade da penitência e do combate contra o pecado e deturpando toda a doutrina da graça: se o são ensinamento católico lembrava que a amizade de Deus não pode conviver com o pecado, a sua heresia concebia uma graça pela qual “todas as manchas da alma são como que cobertas por um manto de luz" [3]. O cristianismo deixava de ser a religião da santidade para se transformar num disfarce sutil, uma máscara para cobrir as faltas do homem.

Com o passar do tempo – e o advento da famosa e difícil questão das indulgências –, Lutero uniu à sua sola fide a rejeição do poder pontifício e, em 1520, no auge de sua rebeldia, o livre exame, o pedido de extinção do celibato eclesiástico e a crítica aos próprios Sacramentos, dos quais ele só reconhecia a validade de três. Em 1521, estava assinada a sua excomunhão, mas a cristandade já estava dividida.

Antes de qualquer coisa, é preciso lembrar a gravidade do ato de Lutero, um ato de desobediência que não pode ser desculpado por nenhuma contingência histórica. Ainda que muitas vezes os erros dos membros da Igreja gritem – como gritavam no século XVI e gritam também hoje –, a sua santidade, forjada com o sangue do Cordeiro, fala muito mais alto. Por isso, não se pode olhar para a rebelião dos chamados “reformadores" senão com desconfiança e desaprovação.

Só que, ao mesmo tempo, “como Deus é o criador soberanamente bom das naturezas boas, também é o ordenador soberanamente justo das vontades más, de tal forma que, quando usam mal das naturezas boas, Ele faz bom uso até mesmo das vontades más" [4]. Da vontade má de Lutero, que cedeu às “grandes tentações", caindo no pecado da soberba, o Senhor suscitou a Companhia de Jesus, na qual floresceram homens da estirpe de Santo Inácio de Loyola, São Francisco Xavier e São José de Anchieta, apóstolo do Brasil; suscitou almas como Santa Teresa de Ávila e São João da Cruz, que levaram a cabo a reforma do Carmelo; suscitou São João de Ávila, São Filipe Néri, São Carlos Borromeu e outros numerosos homens de fibra, que podem com razão ser chamados de “reformadores".

É nas grandes provações que agitam a barca da Igreja que se revelam os fiéis. Se a rebelião de Lutero conseguiu dividir a cristandade, a providência de Deus foi muito mais eficaz em Seus santos.

Referências

  1. Henri Daniel-Rops. A Igreja da Renascença e da Reforma (I). Quadrante, São Paulo, p. 273.
  2. Ibidem, p. 274.
  3. Ibidem, p. 277.
  4. Santo Agostinho, De Civitate Dei, XI, 17.

Notas

P.S.: Essa matéria foi postada originalmente no dia 31 de outubro de 2014.

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Descubra o que é necessário para ser feliz
Padre Paulo Ricardo

Descubra o que é
necessário para ser feliz

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A verdadeira felicidade está reservada para aqueles que se deixam consumir pelo amor de Deus.

Padre Paulo Ricardo31 de Maio de 2016Tempo de leitura: 0 minutos
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É possível sorrir, mesmo quando tudo parece estar dando errado? Como agir quando as crises e os problemas batem à nossa porta? O que os santos faziam em meio à dor e ao sofrimento, que nós também podemos fazer?

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Quando a ciência é transformada em religião
Fé e Razão

Quando a ciência é
transformada em religião

Quando a ciência é transformada em religião

Para destruir “o organismo misterioso de Cristo”, o inimigo substituiu a adoração do Deus verdadeiro pelo culto idolátrico da “deusa da razão”.

Equipe Christo Nihil Praeponere31 de Maio de 2016Tempo de leitura: 4 minutos
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De acordo com o Papa Pio XII, o inimigo, em sua obra para destruir “o organismo misterioso de Cristo", quis “a razão sem a fé" [1].

De fato, há muito tempo os anticlericais têm levantado, ensandecidos, a bandeira da razão, acusando a Igreja de ser inimiga da ciência. Com isso, eles propugnam um “divórcio" entre a fé e a razão, como se aquilo que as Sagradas Escrituras definem e que os santos ensinam em sua sabedoria, fosse inconciliável com o parecer da filosofia, com o avanço das ciências e mesmo com o progresso da civilização. A ideia é traçar uma caricatura da religião e de qualquer um que procure conduzir sua vida de acordo com os mandamentos de Deus, apelidando um e outro de atrasado, obscurantista e "medieval" – este último, na verdade, mais um elogio que uma crítica.

Importa dizer, em primeiro lugar, que toda essa campanha – mentirosa, mas, ainda assim, eficaz – não passa de proselitismo. Os cientificistas e demais adeptos do “culto da ciência" não querem simplesmente afastar as pessoas de Cristo, como eles mesmos têm uma religião, com deuses, dogmas e ritos muito bem definidos. A entronização da “deusa da razão" na Catedral de Notre Dame, durante as confusões que marcaram a Revolução Francesa, em 1789, é sintomática: ao desprezar a revelação cristã e o Deus da Bíblia, desde Abraão, Moisés e os profetas até a vinda definitiva de Jesus, o que os iluministas ateus pretendiam (e o que desejam ainda hoje os irreligiosos modernos) não era simplesmente “matar Deus", mas substitui-lo por um ídolo, moldado por suas próprias mãos.

O nome deste ídolo, que eles invocam com o título de “toda-poderosa", é a ciência. São João Paulo II constatou, em sua encíclica Fides et Ratio, “sobre as relações entre fé e razão", que, ainda hoje, “uma certa mentalidade positivista continua a defender a ilusão de que, graças às conquistas científicas e técnicas, o homem, como se fosse um demiurgo, poderá chegar por si mesmo a garantir o domínio total do seu destino" [2].

Não é raro, de fato, ouvir pessoas com esse discurso, alegando que, “no futuro, com os avanços da ciência", não haverá obstáculos de nenhuma ordem para nenhum intento, nem mesmo para a manipulação da vida humana. Aborto, eutanásia, pesquisas com células-tronco embrionárias, fecundação in vitro, clonagem... Não há Deus, tudo é permitido.Tais indivíduos, no fundo, já fizeram da ciência o seu deus, ainda que não o saibam. Colocaram-na acima de si mesmos, da dignidade do homem e do próprio Deus, pois estão convencidas de que algumas pesquisas de laboratório e alguns experimentos empíricos podem abolir tudo, inclusive o bem e o mal.

A prova de que essa “mentalidade positivista" não passa de um grande engano é que, mesmo com tantos equipamentos eletrônicos – com diferentes nomes e múltiplos usos –, tantas informações e tantas “conquistas científicas e técnicas", o homem do século XXI tem tudo, menos a felicidade. Preocupado em encher-se de máquinas e fartar-se de prazeres, ele se esqueceu de saciar o seu coração.

Mas, como pode o homem saciar o seu coração e alcançar a felicidade? Santo Tomás, após demonstrar por que a bem-aventurança do homem não está nem nas riquezas, nem nas honras, nem na fama, nem no poder, nem em nenhum bem do corpo ou da alma, remata com a seguinte lição: “Só Deus pode satisfazer plenamente a vontade humana" [3]. O Papa São João Paulo II, explicando porque a razão sozinha não é suficiente ao ser humano, também preleciona:

“Não é possível conhecer profundamente o mundo e os fatos da história, sem ao mesmo tempo professar a fé em Deus que neles atua. A fé aperfeiçoa o olhar interior, abrindo a mente para descobrir, no curso dos acontecimentos, a presença operante da Providência. (...) O insensato ilude-se pensando que conhece muitas coisas, mas, de fato, não é capaz de fixar o olhar nas realidades essenciais. E isto impede-lhe de pôr ordem na sua mente (cf. Pr 1, 7) e de assumir uma atitude correta para consigo mesmo e o ambiente circundante. Quando, depois, chega a afirmar que 'Deus não existe' (Sl 14, 1; 53, 1), isso revela, com absoluta clareza, quanto seja deficiente o seu conhecimento e quão distante esteja ele da verdade plena a respeito das coisas, da sua origem e do seu destino." [4]

Para voltar a Deus e purificar o templo profanado pelo culto idolátrico da razão, é preciso que o homem recupere a sua vocação de ser “aquele que procura a verdade" [5], como bem definiu João Paulo II. “Embora a supracitada verdade da fé cristã exceda a capacidade da razão humana, os princípios que a razão tem postos em si pela natureza não podem ser contrários àquela verdade" [6]. O mesmo Deus que Se revelou em Cristo é o artífice de todo o universo, o mesmo autor da fé na Palavra que se fez carne é o autor da razão humana: fé e razão, pois, não se contradizem; completam-se – ou melhor, exigem-se mutuamente.

Notas

  • Essa matéria foi postada originalmente no dia 25 de novembro de 2014, com o título A razão sem a fé.

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Bernadette, a santinha “que não servia para nada”
Virgem MariaSantos & Mártires

Bernadette, a santinha
“que não servia para nada”

Bernadette, a santinha “que não servia para nada”

As aparições de Nossa Senhora a Santa Bernadette de Lourdes cumprem as palavras do Evangelho, de que Deus esconde as suas coisas aos sábios e entendidos para as revelar aos pequeninos.

Equipe Christo Nihil Praeponere27 de Maio de 2016Tempo de leitura: 7 minutos
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"Vitoriosa contra todas as heresias". Era essa a expressão que Pio IX tinha em mente quando, a 8 de dezembro de 1854, numa Basílica de São Pedro ornamentada como há tempos não se via, proclamou solenemente o dogma da Imaculada Conceição. Com esse gesto, o Papa não queria somente exaltar o sublime privilégio da Mãe de Deus, pelo qual ela "foi preservada imune de toda mancha de pecado original" [1], mas fazer com que os corações dos católicos se voltassem àquela cuja intercessão se mostrava urgentemente necessária. A época era de grande confusão. E a Igreja se via assaltada por todos os lados. No plano político, os revolucionários atacavam os direitos da Santa Sé sem qualquer pudor ou decência, buscando ora excluí-la da vida pública, ora domesticá-la. No plano religioso, por sua vez, as coisas não eram melhores. Heresias e ameaças de cismas brotavam como erva daninha sobre os extensos jardins da Igreja, perturbando a fé de inúmeros católicos. A solução, pensava o Pontífice, não podia ser outra senão recorrer à Auxiliadora dos cristãos.

Pio IX era um profundo devoto da Santíssima Virgem. Conta-se que no dia da proclamação do Dogma, feita na presença de 200 bispos, 54 cardeais e uma multidão de fiéis, o Santo Padre teve de interromper a leitura da bula Ineffabilis Deus por três vezes, devido à sua enorme comoção. Um raio de luz teria iluminado sua fronte, fazendo-o contemplar a beleza celestial da Virgem. Quase morreu de emoção. "O canhão do Castelo de Sant'Angelo troou, e todos os sinos de Roma repicaram no momento em que o papa foi depor uma coroa de ouro na cabeça de uma imagem de Nossa Senhora na Piazza di Spagna", narra o sempre excelente Daniel-Rops [2]. Tratou-se de um dia de grande glória para a Igreja, uma manifestação contundente de fé e esperança em Deus que não tardaria em receber a resposta do Céu, resposta que viria quatro anos mais tarde, numa pobre gruta da cidade de Lourdes, na França, conhecida como Massabielle.

Naquela época, Lourdes era apenas um vilarejo francês, situado na região dos Médios Pirineus. Lá vivia com sua família a pequena Bernadette Soubirous, a primogênita de três filhos. Seus pais, Francisco Soubirous e Luísa Castèrot, sofriam gravemente para alimentá-los. Depois de uma série de empreendimentos fracassados, os Soubirous encontravam-se arruinados financeiramente. Para não morarem na rua, o casal teve de levar os filhos para uma antiga prisão abandonada, a única coisa que lhes restara como opção. Mas Bernadette não era somente pobre de bens materiais. A saúde também lhe faltava. Quando nasceu, foi acometida por uma cólera terrível que quase a matou. Mais tarde, já com dez anos de idade, contraiu asma devido às péssimas condições de vida às quais estava submetida. E que dizer dos estudos então? Mal sabia falar o francês e as lições do catecismo pareciam-lhe muito complicadas. Por pouco não recebeu a primeira comunhão.

A providência divina haveria de mudar o destino dessa pobre menina no dia 11 de fevereiro de 1858. Ao sair com sua irmã e uma amiga para buscar lenha, nas proximidades do rio Gave, onde também ficava a gruta abandonada de Massabielle, um velho e asqueroso lixão, Bernadette é obrigada a esperar no local sozinha, pois havia sido proibida pela mãe de atravessar as águas geladas do rio. A senhora Luísa temia que a filha pegasse um resfriado. De repente, um vento sopra levemente o rosto de Bernadette. A pequena olha para os lados surpreendida, mas nada vê. O vento sopra uma segunda vez, levando-a a olhar para um nicho onde lhe aparece uma belíssima senhorita vestida de branco, com uma faixa azul em torno da cintura e rosas amarelas sob seus pés. A senhorita fica em silêncio, sorri e mostra-lhe o Santo Terço, o qual Bernadette logo começa a fiar piedosamente, como se estivesse num êxtase espiritual. Terminada a oração, a senhorita lhe faz um pedido: "Querereis ter a bondade de vir aqui…" Esta seria apenas a primeira de uma série de aparições da Virgem, que mudariam a história de Bernadette e de toda a França.

É preciso lembrar que, antes de Lourdes, Nossa Senhora já havia visitado a França, no dia 27 de novembro de 1830. Foi a Santa Catarina Labouré, cujo corpo permanece ainda hoje incorrupto, que a Mãe de Deus entregou a famosa Medalha Milagrosa, que já proclamava, bem antes de Pio IX, a sua conceição imaculada. Em Lourdes, por sua vez, Maria resolveu renovar o chamado de Deus à conversão, escolhendo para ser sua porta-voz nada mais que uma menina triplamente miserável. Num tempo em que os pobres não tinham história, "Bernadette — como Maria — veio à luz para fazê-los ingressar na História, para que manifestem seu valor oculto, para restaurar a verdade ignorada do Evangelho" [3].

"Não lhe prometo a felicidade neste mundo, somente no próximo", diz Maria a Bernadette nas aparições seguintes, em que lhe pediria também oração e penitência pela conversão dos pecadores e reparação às ofensas cometidas contra Nosso Senhor Jesus Cristo — missão esta que a pobre menina cumpriu com grande zelo e heroísmo. Os testemunhos recolhidos posteriormente revelariam "em que condições estupendas, apesar de zombarias, de dúvidas e de oposições, a voz daquela menina, mensageira da Imaculada, se impôs ao mundo" [4].

No dia 25 de fevereiro de 1858, Nossa Senhora pede a Bernadette que beba da água da fonte, coma as ervas do chão e depois o beije. A princípio, a filha dos Soubirous pensa que a Dama se referia às águas do rio Gave. Errado. Maria queria que Bernadette cavasse a terra para desenterrar a fonte dos milagres. Aos incrédulos que lhe fazem objeções pelo estranho pedido de Maria — não concebiam que a Mãe de Deus a tivesse "obrigado" a comer capim como um animal — Bernadette responde: "Você se comporta como um animal quando come salada?" Mas a revelação grandiosa viria no dia 25 de março. Depois de muita insistência do pároco de Lourdes, Bernadette pede à senhorita que diga seu nome: " Que soy era Immaculada CouncepciouEu sou a Imaculada Conceição", responde a Virgem Santíssima para escândalo de todos. De fato, não era possível que Bernadette tivesse inventado aquilo, pois, uma menina que mal sabia o significado da Trindade, dificilmente também entenderia a dimensão das palavras "imaculada conceição". Como diria Pio XII anos mais tarde, "a própria bem-aventurada Virgem Maria quis confirmar por um prodígio a sentença que o vigário de seu divino Filho na terra acabava de proclamar com os aplausos da Igreja inteira" [5].

Após tão excelsos eventos, confirmados pela autoridade da Igreja, Lourdes se tornaria um dos maiores santuários marianos do mundo, recebendo visitas das mais distintas terras, todos em busca de paz, curas, amor e fé: "Os melhores são empolgados pelo atrativo de uma vida mais totalmente dada ao serviço de Deus e de seus irmãos; os menos fervorosos tomam consciência da sua tibieza e reencontram o caminho da oração" [6]. Os milagres da fonte de Lourdes ainda hoje intrigam cientistas do mundo todo.

A pequena Bernadette, porém, seguiu sua vida no escondimento, como se nada tivesse acontecido. Voltou a ser uma simples jovem. Sentindo a necessidade de afastar-se do mundo e das especulações de curiosos, decide-se pelos votos religiosos e entra para o convento das Irmãs da Caridade, em Nevers, França. Com uma saúde ainda mais frágil, é obrigada a passar pelas mais duras humilhações, a ponto de ter de ouvir dos lábios da superiora, e na frente do bispo, "que não servia para nada". Oferece tudo ao Coração de Jesus como consolo e reparação às ofensas dos homens.

Bernadette viveu seus últimos anos em oração e grande agonia. "Não lhe prometo a felicidade neste mundo, somente no próximo". As palavras que a Virgem lhe dirigira nas primeiras aparições cumpriram-se fatalmente. A santa entregou-se como holocausto pela conversão e salvação dos pecadores. Morreu no dia 16 de abril de 1879, aos 35 anos, devido a sérias complicações causadas pela tuberculose. Suas últimas palavras: "Ó minha senhora, eu vos amo. Santa Maria, Mãe de Deus, rogai por mim". Com o corpo incorrupto, a "que não servia para nada" foi elevada às glórias dos altares em 1933 pelo Papa Pio XI. A felicidade eterna a havia alcançado.


Fique sabendo:

  • Bento XVI nasceu no dia 16 de abril de 1927, festa litúrgica de Santa Bernadette, e anunciou sua renúncia no dia 11 de fevereiro de 2013, festa litúrgica de Nossa Senhora de Lourdes.
  • 4 filmes já foram gravados acerca das aparições de Lourdes. A canção de Bernadette, de 1943, venceu 4 Oscars. O longa mais fiel às verdades históricas, porém, é o Bernadette, de 1987, cuja atriz protagonista possui um semelhança espantosa com a nossa vidente.

Referências

  1. Papa Pio IX, Bula Ineffabilis Deus (8 de dezembro de 1854), n. 41.
  2. Henri Daniel-Rops. A Igreja das revoluções: diante de novos destinos (Trad. de Henrique Ruas). São Paulo: Quadrante, 2003, p. 401.
  3. René Laurentin. Bernadete (Trad. de Yvone Maria de Campos Teixeira da Silva). 6. ed. São Paulo: Paulinas, 2012, p. 6.
  4. Papa Pio XII, Carta Encíclica Le Pèlerinage de Lourdes (2 de julho de 1957), n. 5.
  5. Idem, n. 10.
  6. Idem, n. 14.

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