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Jesus deseja ser consolado por você
Espiritualidade

Jesus deseja ser consolado por você

Jesus deseja ser consolado por você

Hoje em dia, com tantos ataques à dignidade de Deus, é urgente reaprendermos as práticas reparadoras para consolarmos o Coração de Cristo.

Equipe Christo Nihil Praeponere12 de Julho de 2016Tempo de leitura: 6 minutos
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Ainda sobre a devoção ao Sagrado Coração de Jesus e ao Seu Preciosíssimo Sangue, é preciso tratar agora da necessária reparação às ofensas cometidas contra a honra de Nosso Senhor.

Infelizmente, embora faça parte da Tradição cristã, a prática da reparação não está mais na moda; pouquíssimas homilias ou pregações são dedicadas a esse tema tão importante para o crescimento na fé. Não são poucos, aliás, os que reprovam os sacrifícios de expiação e consolação, sentenciando-os ao passado medieval. Se a misericórdia de Deus é infinita, argumentam, não há por que fazer atos de reparação e desagravo, uma vez que nenhuma falta humana seria grande o suficiente para ofender o Coração de Jesus; afinal, Ele mesmo declarou: "Quero misericórdia e não sacrifício" (Mt 9, 13).

Outros ainda insistem que, tendo Cristo derramado Seu sangue até a última gota no dia da Paixão, as penitências já não fariam sentido e acabariam atentando contra o único e verdadeiro sacrifício redentor, pois insinuariam, de certo modo, uma insuficiência na Paixão de Cristo pela salvação dos pecadores.

É comum que, diante desse quadro de objeções aparentemente sensatas às práticas de reparação, o fiel leigo — ou mesmo sacerdote — sinta-se dissuadido a realizar qualquer obra de amor pela conversão dos pecadores, pelas almas do purgatório e, mais importante ainda, em desagravo aos ataques contra a dignidade de Deus. Acontece que a história dos santos, inclusive de santos doutores, como Tomás de Aquino e Agostinho, é tão fortemente marcada pelos sacrifícios e por atos de desagravo a Nosso Senhor que não há teologia neste mundo que possa impugnar ou relativizar a sua importância.

De qualquer modo, vale a pena esclarecer o equívoco daqueles que se opõem aos atos de reparação, a fim de que não reste qualquer dúvida sobre o assunto.

De fato, a misericórdia de Deus é infinita e cobre uma multidão de pecados. Falta nenhuma é capaz de superar o tamanho desse amor. Contudo, esse mesmo Deus, infinito em sua bondade, quis estabelecer uma relação com Sua criatura, quis tornar-se sua família e seu amigo. Ele não é um deus longínquo ou uma divindade pagã alheia às necessidades de suas criaturas, como acreditavam as antigas civilizações. Deus nos amou por primeiro, estabeleceu como que uma pedagogia, manifestando-se por meio de inúmeros profetas, até a plenitude dos tempos, quando enviou seu Filho unigênito, para que n'Ele todas as coisas fossem recapituladas (cf. Hb 1, 1-2).

Entende-se, pois, que Ele nos ama como amigo e que, por isso, somos chamados a dar uma resposta de amor, porque "a caridade é amizade do homem com Deus" [1]. Somente por meio dessa resposta o homem se realiza enquanto pessoa humana e torna-se aquilo que é chamado a ser. O desprezo pelo sagrado, porém, destrói a vocação e ratifica uma indiferença com relação Àquele de quem recebemos tudo.

Ora, se a amizade é o meio pelo qual Deus decidiu nos salvar, é óbvio que aqueles que O recusam põem em xeque a própria salvação, e não por uma limitação da misericórdia divina, que é infinita, mas por uma escolha trágica do indivíduo. Essa escolha, no entanto, pode ser atenuada justamente pela reparação que os irmãos desses infelizes oferecem a Deus, repetindo as palavras de Cristo na cruz: "Perdoa-lhes, porque não sabem o que fazem" (Lc 23, 34).

Ademais, Cristo mesmo desejou os nossos sacrifícios pela redenção da humanidade ao fundar Sua Igreja como membro de Seu Corpo. Esse corpo místico também é objeto da Paixão, como atestam estas palavras de São Paulo: "Completo na minha carne o que falta aos sofrimentos de Cristo pelo seu Corpo, que é a Igreja" (Cl 1, 24). Quando meditamos os sofrimentos de São Pio de Pietrelcina, cujas mãos se dignaram experimentar as próprias chagas do Senhor, ou as humilhações de Santa Bernadette, que teve de escutar da Madre Superiora que "não servia para nada", não há como não perceber a presença viva e atuante de Jesus carregando o madeiro até o calvário, pois, como diz São Paulo, "à medida que os sofrimentos de Cristo crescem para nós, cresce também a nossa consolação por Cristo" (2 Cor 1, 5).

Note-se ainda o episódio do Horto das Oliveiras (cf. Mc 14, 32s). O mesmo Jesus, que tantas vezes se retirou para orar sozinho no deserto, aparece assustado, com Sua alma triste até a morte e com o desejo de ser consolado por Seus discípulos. Não se trata de uma carência afetiva, é certo, mas de um grande mistério: o Deus que se fez homem completo para redimir os demais e ensiná-los o caminho para o verdadeiro amor. Na Cruz se espelham todas as dores da humanidade. Portanto, a reparação às ofensas contra Jesus também nos une aos padecimentos de todo o gênero humano: "Ele nos consola em todas as nossas aflições, para que, com a consolação que nós mesmos recebemos de Deus, possamos consolar os que se acham em toda e qualquer aflição" (2 Cor 1, 4). Quem ousaria pensar numa escola de amor melhor e mais eficaz do que essa?

É possível agora entender o que Jesus pretendia ensinar quando disse não querer "sacrifício", mas "misericórdia". O sacrifício ao qual Ele se referia era aquele baseado unicamente na lei; tratava-se de um ato legalista. As penitências reparadoras, por outro lado, têm como gênese o amor verdadeiro à Pessoa de Jesus, como explica o Papa Pio XI: "Quando a caridade dos fiéis se entibia, a caridade de Deus se apresenta para ser honrada com culto especial" [2]. A misericórdia não contraria as penitências, antes as incentiva.

A Igreja aprovou, ao longo de sua história, os mais variados tipos de mortificação e penitência, desde o jejum à abstinência de carne nas sextas-feiras. Algumas almas mais generosas, como São João Maria Vianney, São Josemaria Escrivá, São João Paulo II etc., não tiveram medo de dormir no chão — para experimentarem a frieza do calabouço onde Cristo ficou preso —, de flagelar-se com a disciplina — para sentirem os chicotes rasgarem as costas de Jesus —, ou de usar o cilício, para se unirem à Paixão redentora que foi coroada de espinhos. Existem, além disso, as práticas espirituais das "comunhões reparadoras" ou da chamada "hora santa" e também as sempre recomendáveis obras de misericórdia: dar de comer aos pobres, visitar os doentes, vestir os nus, dar bom conselho etc.

Recorde-se, porém, que a melhor prática de reparação às ofensas contra Deus é aquela em que nossa vontade é contrariada para conformar-se amorosamente à vontade do Criador, pois "quanto mais perfeitamente corresponda ao sacrifício do Senhor nossa oblação e sacrifício [...], tantos mais abundantes frutos de propiciação e de expiação para nós e para os demais perceberíamos" [3]. Neste sentido, que grande ocasião é o nosso cotidiano, cheio de contratempos e de frustrações, para amar e consolar o Coração de Jesus.

Nossa época exige dramaticamente atos de reparação às ofensas cometidas todos os dias contra o dulcíssimo Coração de Jesus. Isso ficou claro nas inúmeras aparições de Maria no último século e, em especial, na mensagem de Fátima, cujo centenário se aproxima. Naquela ocasião, Maria Santíssima escolheu três inocentes crianças para sofrerem pela conversão dos pecadores. Que testemunho belíssimo deram Lúcia, Jacinta e Francisco ao nosso século, que perde mais tempo cuidando do corpo em academias e clínicas de estética do que com a alma. Loucos! São João Maria Vianney mesmo disse que se as pessoas condenadas tivessem ao menos um segundo para poderem livrar-se do fogo eterno, o inferno estaria vazio. Ah, se os homens usassem o tempo que têm disponível para amar a Deus. Mas, desgraçadamente, esse tempo é gasto com bobagens, blasfêmias, pornografia e outras monstruosidades.

É tempo de misericórdia, proclamou o Papa Francisco. É tempo de dobrarmos nossos joelhos no chão, batermos no peito e clamarmos: "Miserere nobis, Domine, quia peccatores sumus — Tende piedade de nós, Senhor, porque somos pecadores".

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O dia em que uma mula se prostrou diante do Santíssimo Sacramento
Santos & Mártires

O dia em que uma mula se prostrou
diante do Santíssimo Sacramento

O dia em que uma mula se prostrou diante do Santíssimo Sacramento

Para converter o coração de um herege, Santo Antônio de Lisboa chegou a fazer uma mula se prostrar diante do Santíssimo Sacramento. Conheça essa história.

Equipe Christo Nihil Praeponere11 de Julho de 2016Tempo de leitura: 1 minutos
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Na região de Toulouse, na França, Santo Antônio disputava com um herege que não acreditava no Santíssimo Sacramento da Eucaristia. Apesar de vencido, o infiel não se convertia à Fé.

Depois de muito discutir, então, ele propôs:

— Deixemo-nos de palavras e vamos a obras. Se tu fores capaz de mostrar com milagres, na presença de toda a gente, que no Sacramento está de fato o Corpo de Jesus Cristo, eu prometo deixar a heresia e submeter-me à Fé católica.

E Santo Antônio, cheio de confiança, respondeu que assim faria.

— Pois então vou fechar em casa um animal. Vou atormentá-lo com a fome durante três dias, e ao fim vou trazê-lo perante todos os que quiserem assistir, dando-lhe algo de comer. Neste intervalo, vens tu com o Sacramento que dizes ser o Corpo de Jesus Cristo. Se o animal esfomeado parar de comer e correr para o Deus que, segundo afirmas, toda a criatura tem obrigação de adorar, podes ficar certo que imediatamente abraçarei a Fé da Igreja.

O santo varão de Deus sem demora em tudo consentiu. E no dia combinado ajuntou-se o povo na praça grande, e veio o dito herege na má companhia de outros hereges, e trouxe a mula que tinha atormentado com a fome, e também, para ela, provisão saborosa de comida. Santo Antônio celebrou a missa na capela que havia no lugar, e ao fim, à vista do povo, trouxe o Santíssimo Corpo de Jesus Cristo. Mandando a todos que se calassem, disse para a mula:

— Ó animal, em virtude e em nome do teu Criador que eu, embora indigno, tenho aqui presente em minhas mãos, ordeno e mando que venhas já sem demora até Ele e humildemente lhe prestes reverência, para que desse modo veja a maldade dos hereges que toda a criatura é sujeita ao Criador a quem a dignidade do sacerdote trata cada dia nos altares.

Enquanto isso, o herege punha de comer à mula esfomeada.

Eis, então, que coisa maravilhosa aconteceu! O animal, mesmo atormentado de tanta fome, quando ouviu as palavras de Santo Antônio, logo parou de comer e abaixou a cabeça, caindo de joelhos diante do Sacramento.

Diante deste fato, muito se alegraram os fiéis católicos, e merecidamente saíram confundidos os hereges. E aquele dito herege se converteu ali mesmo, conforme havia prometido, e começou a obedecer aos mandamentos da Igreja.

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Ator de Hollywood propõe castidade como modelo de vida
Testemunhos

Ator de Hollywood propõe
castidade como modelo de vida

Ator de Hollywood propõe castidade como modelo de vida

Eduardo Verástegui impressionou os telespectadores da rede CNN ao revelar sua fé católica e sua opção pela castidade. Conheça um pouco de sua história de conversão.

Equipe Christo Nihil Praeponere8 de Julho de 2016Tempo de leitura: 2 minutos
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O ator mexicano Eduardo Verástegui, que atuou em "Cristiada" (For Greater Glory, 2012) e mais recentemente em "Little Boy" (2015), impressionou os telespectadores da rede CNN quando revelou, durante uma entrevista concedida em 2015, estar há 13 anos sem relações sexuais.

A escolha que ele fez se deve à sua conversão definitiva à Igreja Católica, ocorrida em 2002. O ator diz que foi uma professora de inglês que o fez mudar de vida:

"Um dia minha professora de inglês se deu conta de que eu era uma pessoa um pouco fora do padrão, era a ovelha negra de minha família, consideravam-me impossível. [...] Cresci em um ambiente onde pensava que o verdadeiro homem era o Don Juan, o latin lover, o mulherengo, o playboy... E você acaba acreditando que, para ser feliz, tem que se transformar nesse tipo de homem."

Nesse percurso, o ator confessou ter machucado muitas mulheres em sua juventude. Mas as coisas começaram a mudar quando, aos 28 anos, sua professora fê-lo ver um novo caminho a seguir. Um dia, durante uma aula, ela lhe perguntou: "Você gostaria de se casar, ter família e filhas?". Verástegui respondeu que sim e, em seguida, fez uma lista das qualidades que ele queria em um genro. Foi então que ele percebeu estar sendo exatamente o oposto do tipo de homem que ele mesmo queria para suas filhas:

"Graças a essas conversas compreendi que o sexo é sagrado, que é um presente de Deus, e que é necessário cuidar dele, preservá-lo, a fim de compartilhá-lo com a pessoa mais importante de sua vida, no meu caso, a mãe de meus filhos. [...] A partir de então eu disse: 'Vou ser fiel a essa pessoa que ainda não conheço. E farei uma promessa de castidade, uma disciplina de abstinência'. Estou me preparando para ser um bom marido e um bom pai, se for essa a minha vocação. Não vivo pensando no futuro, o futuro é incerto."

O ator revelou sentir-se feliz, mas admitiu ser uma pessoa "muito fraca" e que apenas sua disciplina espiritual lhe permite conseguir manter seu estilo de vida. "Se tiram de mim minha disciplina espiritual, se me tiram Deus do centro de minha vida, eu entro em colapso em menos de dois minutos, não consigo. Vivo em um ambiente cheio de tentações. A capital das tentações é a nossa carreira... Se não vou ao ginásio da alma para desenvolver uma vida virtuosa, não consigo, é impossível", concluiu o ator.

Hoje, Eduardo Verástegui tem sua própria produtora de filmes (Metanoia Films), buscando viver a santidade em sua profissão. No começo de sua vida de fé, o ator até veio ao Brasil na perspectiva de ser um missionário, mas o padre mexicano Juan Rivas, que o dirigia espiritualmente, achou conveniente que ele voltasse para Hollywood para uma missão ainda mais ousada: evangelizar o mundo cinematográfico.

Que São José o mantenha firme na luta pela castidade e o ajude na pregação dessa virtude tão necessária para os nossos dias.

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Um Deus que ama com coração humano
Espiritualidade

Um Deus que ama
com coração humano

Um Deus que ama com coração humano

A devoção ao Sagrado Coração de Jesus permite-nos caminhar para a santidade não mais como ideal longínquo, mas como realidade e meta de todo o gênero humano.

Equipe Christo Nihil Praeponere7 de Julho de 2016Tempo de leitura: 5 minutos
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A devoção ao Sagrado Coração de Jesus, da qual se costuma fazer memória no mês de junho, pertence ao patrimônio mais íntimo da fé cristã e, por isso, não pode ser simplesmente ignorada como se se tratasse de uma piedade popular qualquer. É isso que procurou ensinar o Papa Pio XII na sua belíssima encíclica Haurietis Aquas, cujo aniversário de 60 anos de publicação comemoramos recentemente.

Pio XII viu a necessidade de estabelecer algumas balizas com relação ao culto do Sagrado Coração depois que se começou a espalhar em alguns ambientes católicos a estranha ideia de que esta celebração, embora tão incentivada pelo Magistério, seria apenas um acréscimo às já inúmeras outras festas litúrgicas ou que ela atrapalharia o ensino da doutrina social da Igreja por fomentar "uma devoção sensível não enformada em altos pensamentos e afetos, e, portanto, mais própria para mulheres do que para pessoas cultas" [1].

É claro que o Santo Padre não podia silenciar a respeito de tão grave assunto, sendo o Coração de Cristo "o índice natural ou o símbolo da sua imensa caridade para com o gênero humano" [2]. E, assim, no dia 16 de maio de 1956, 18º ano de seu pontificado, o venerável servo de Deus Pio XII mandava publicar a encíclica Haurietis Aquas para defender e exaltar "a singular importância que o culto ao coração sacratíssimo de Jesus adquiriu na liturgia da Igreja, na sua vida interna e externa, e também nas suas obras" [3].

De maneira bastante objetiva, a encíclica de Pio XII retoma a doutrina acerca da união hipostática de Cristo para fundamentar a razão pela qual os católicos não só podem como devem adorar o Seu Coração e prestar-Lhe as devidas homenagens. Jesus, por meio de Sua encarnação, redimiu toda a humanidade, tomando para si não "um corpo ilusório e fictício", "como já no primeiro século da era cristã ousaram afirmar alguns hereges", mas a carne humana em todas as suas dimensões, exceto no pecado [4]. Com efeito, no Seu Coração existem três tipos de amor, com os quais ama o Pai e o gênero humano: o amor divino, o amor espiritual e o amor sensível.

Eugenio Pacelli, o Papa Pio XII, governou a Igreja de 1939 a 1958.

Essa novidade da fé cristã — um Deus que ama também com amor humano — enche-nos de esperança, pois, agora sabemos, também nós podemos amá-Lo verdadeiramente com o auxílio de Sua graça. Não precisamos mais de sacrifícios de cabritos e novilhos, porque a Nova Aliança foi selada "com o sangue sacrossanto daquele que esses animais pacíficos e privados de razão [...] prefiguravam: 'o Cordeiro de Deus que tira o pecado do mundo'" (cf. Jo 1, 29; Hb 9, 18-28; 10, 1-17) [5]. No dia da Paixão, "o coração de Cristo, unido hipostaticamente à pessoa divina do Verbo, sem dúvida deve ter palpitado de amor e de qualquer outro afeto sensível" [6]. "Esses sentimentos", esclarece Pio XII, "eram tão conformes e estavam tão em harmonia com a vontade humana, transbordante de caridade divina, e com o próprio amor infinito que o Filho tem com o Pai e com o Espírito Santo, que jamais se interpôs a mínima oposição e discórdia" entre eles [7].

De fato, a mancha do pecado original perverteu as paixões humanas, inclinando-as para os vícios. Essa condição lamentável impedia o homem de prestar um culto verdadeiro a Deus, entregando-se de todo coração ao Pai Santíssimo que está no Céu. O coração do homem estava como que dividido pela criatura e pelo Criador.

Com a encarnação de Cristo, por outro lado, a natureza humana é redimida e as palavras do profeta se cumprem: "Dar-vos-ei um coração novo e em vós porei um espírito novo; tirar-vos-ei do peito o coração de pedra e dar-vos-ei um coração de carne" (Ez 36, 26).

Eis aí! Em Cristo, o novo Adão, a humanidade recebe uma nova vida pela qual agora pode prestar um culto verdadeiro a Deus e amá-Lo devotamente. Por isso a contemplação do Sagrado Coração ocupa um lugar especial na Liturgia da Igreja, porque é por meio dessa contemplação que os homens podem ordenar as suas paixões, configurando-as à Paixão do Coração de Cristo, que é também um coração humano. O Catecismo explica assim:

"Quem crê em Cristo torna-se filho de Deus. Esta adoção filial transforma-o, dando-lhe a possibilidade de seguir o exemplo de Cristo. Torna-o capaz de agir com retidão e de praticar o bem. Na união com o seu Salvador, o discípulo atinge a perfeição da caridade, que é a santidade. Amadurecida na graça, a vida moral culmina na vida eterna, na glória do céu." [8]

No nosso curso sobre o protestantismo, enfatizamos a importância da communicatio idiomatum para compreender o modo como Deus operou a redenção da humanidade. Houve uma espécie de comunicação entre os idiomas divino e humano, de modo que aquilo que era próprio da carne também passou a ser próprio da Pessoa divina de Cristo: "[...] a humildade foi assumida pela majestade; a fraqueza, pelo poder; a mortalidade, pela eternidade; e, para pagar o débito da nossa condição, a natureza inviolável uniu-se à natureza passível [...]" [9]. A carne de Cristo é, portanto, instrumento de salvação. E mais especificamente no seu Coração transpassado, sinal e símbolo vivo de seu amor por nós, encontramos o caminho para a perfeição, pois, na humanidade de Jesus, a santidade deixa de ser apenas um ideal para tornar-se realidade e meta de todo o gênero humano.

É do coração de Jesus, aliás, que correm os rios de sangue e água, nos quais os Padres da Igreja sempre identificaram a fonte dos sacramentos, cujo efeito em nossas almas nada mais é que o da santificação.

Ora, é do Coração Sacratíssimo de Jesus que haurimos com gáudio, segundo as palavras do profeta, as inumeráveis "riquezas celestiais que nas almas dos fiéis infunde o culto tributado ao sagrado coração, purificando-os, enchendo-os de consolações sobrenaturais, e excitando-os a alcançar toda sorte de virtudes" [10].

Vêem-se logo os motivos de Pio XII para exaltar e defender esta devoção tão sagrada, que encerra em si mesma todo o tesouro da nossa redenção. Não há como negar, a verdade é uma só: o Coração de Jesus é o grande oceano das graças de Deus; n'Ele — e somente n'Ele — é que devemos navegar!

Sagrado Coração de Jesus,
tende piedade de nós!

Referências

  1. Papa Pio XII, Carta Encíclica Haurietis Aquas (16 de maio de 1956), n. 6.
  2. Ibid., n. 12.
  3. Ibid., n. 11.
  4. Ibid., n. 21.
  5. Ibid., n. 18.
  6. Ibid., n. 22.
  7. Idem.
  8. Catecismo da Igreja Católica, n. 1709.
  9. Leão Magno, Carta Lectis dilectionis tuae, ao bispo Flaviano de Constantinopla (13 de junho de 449), cap. 3 (DH 293).
  10. Papa Pio XII, op. cit., n. 2.

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