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Os três pregos da cruz
Espiritualidade

Os três pregos da cruz

Os três pregos da cruz

O desapego das coisas puramente terrenas deveria ser uma meta para todo cristão decidido a agradar somente a Deus.

Equipe Christo Nihil Praeponere12 de Fevereiro de 2015Tempo de leitura: 4 minutos
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O sorriso de Madre Teresa de Calcutá, sempre presente em toda e qualquer circunstância de sua vida, mesmo durante aqueles períodos de "noite escura", dos quais a bem-aventurada se lembrava com angústia em suas cartas, ainda hoje é capaz de impressionar. Quem olha para a imagem da beata enxerga o rosto de uma pessoa que, deixando-se consumir totalmente pelo fogo divino, fez desta nossa peregrinação terrestre um ato contínuo de amor e entrega a Deus. Ou seja, encontrou a felicidade, completando na própria carne as dores que faltaram aos sofrimentos de Cristo pelo seu Corpo, que é a Igreja (cf. Cl 1, 24).

Certamente, um modelo de vida semelhante pode causar, não obstante admirações, grandes perplexidades. Ainda mais em uma sociedade que já não sabe lidar com o sofrimento. Como é possível ser feliz na dor? A resposta a essa pergunta está na cruz. A alegria do homem é fazer a vontade de Deus. Contudo, por se tratar de algo nem sempre fácil — ao contrário, consiste muitas vezes em um verdadeiro martírio —, o cumprimento dessa vontade exige um desprendimento heroico acerca de todo e qualquer apego, seja material seja afetivo. O exemplo primordial de abnegação vem, sobretudo, de Cristo no Horto das Oliveiras. Suando sangue, o Senhor diz: "Pai, se é de teu agrado, afasta de mim este cálice! Não se faça, todavia, a minha vontade, mas sim a tua" ( Lc 22, 42).

Na vida de todos os santos se constata essa atitude do Jesus agonizante que, mesmo sofrendo, se regozija por cumprir o desejo do Pai. A confiança em Deus desperta no ser humano o dom do olhar sobrenatural, o qual ilumina o caminho para a verdadeira glória do céu. Como costumava dizer Santa Teresa d'Ávila, esta vida é como uma noite ruim, numa ruim pousada [1]. Nossa meta definitiva é, verdadeiramente, a eterna casa do Pai. Aqui, somos somente estrangeiros. Por isso São Paulo e Silas, dentro da prisão, mesmo diante da possibilidade da morte, cantavam um hino a Deus (cf. At 16, 25). Eles estavam convictos daquilo que Nossa Senhora também prometera em Lourdes a Santa Bernadette: "Não lhe prometo a felicidade neste mundo, somente no outro" [2].

Com efeito, o desapego das coisas puramente terrenas deveria ser uma meta para todo cristão decidido a agradar somente a Deus. "Quem me dera não estar atado senão por três pregos, nem ter outra sensação em minha carne que a Cruz" [3]. Era o que constantemente pedia São Josemaria Escrivá em suas meditações diárias. Neste propósito, o santo do cotidiano em nada menosprezava as obrigações e responsabilidades diárias do homem perante a sociedade. É fato que um verdadeiro cristão deve agir bem em todas os ambientes, transformando-os em ocasião de adoração perpétua a Deus. O que São Josemaria pedia era a graça de enxergar tudo como oportunidade de oblação ao Senhor, a sempre lembrar-se de que o fim de todas as nossas ações só pode ser um: o encontro com Jesus.

Foi este pensamento que encantou a então filósofa ateia Edith Stein, e a fez abandonar suas raízes judias para tomar o hábito das carmelitas. Ela compreendeu a ciência da cruz, por assim dizer, descobrindo o significado salvífico e redentor da paixão de Cristo. "O que nos salvará não serão as realizações humanas, mas a paixão do Cristo, na qual quero ter parte" [4]. Com estas palavras, a futura santa Teresa Benedita da Cruz renunciava ao seu prestigioso nome, à sua posição ao lado de um dos maiores filósofos modernos — Edmund Husserl —, aos seus bens materiais, a fim de alcançar a sétima morada, isto é, a plena conformação à vontade divina. A 2 de agosto de 1942, irmã Teresa cumpria seu desejo de tomar parte na paixão de Cristo, oferecendo-se em holocausto, durante o martírio no campo de concentração nazista, em Auschwitz.

Na homilia de sua canonização, o Papa João Paulo II assim descreveu o itinerário de conversão da santa [5]:

O amor de Cristo foi o fogo que ardeu a vida de Teresa Benedita da Cruz. Antes ainda de se dar conta, ela foi completamente arrebatada por ele. No início, o seu ideal foi a liberdade. Durante muito tempo, Edith Stein viveu a experiência da busca. A sua mente não se cansou de investigar e o seu coração de esperar. Percorreu o árduo caminho da filosofia com ardor apaixonado e no fim foi premiada: conquistou a verdade; antes, foi por ela conquistada. De facto, descobriu que a verdade tinha um nome: Jesus Cristo, e a partir daquele momento o Verbo encarnado foi tudo para ela. Olhando como Carmelita para este período da sua vida, escreveu a uma Beneditina: "Quem procura a verdade, consciente ou inconscientemente, procura a Deus".

A beleza do sorriso de Madre Teresa, o canto de Silas e São Paulo, a santificação no meio do mundo de São Josemaria Escrivá, o martírio de Santa Teresa Benedita da Cruz. Todas essas realidades, cuja eloquência do testemunho não nos deixa indiferentes, têm sua origem e fim no desprendimento das coisas da terra. Quem coloca seu coração em Deus transmite a luz de Cristo em sua face e atrai os outros para o céu — "Eu vivo, mas já não sou eu; é Cristo que vive em mim. A minha vida presente, na carne, eu a vivo na fé no Filho de Deus, que me amou e se entregou por mim", escreve São Paulo aos Gálatas (2, 20).

A única coisa que deve nos prender a este mundo são os três pregos da cruz. Essa é a nossa meta cristã.

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Qual deve ser a medida do amor próprio?
Espiritualidade

Qual deve ser a medida do amor próprio?

Qual deve ser a medida do amor próprio?

Nosso Senhor mandou que amássemos ao próximo como a nós mesmos. Muita gente se perde, no entanto, porque se ama mal.

Equipe Christo Nihil Praeponere6 de Fevereiro de 2015Tempo de leitura: 5 minutos
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Nosso Senhor, perguntado pelos fariseus sobre qual era o maior mandamento da Lei, foi taxativo: "'Amarás o Senhor teu Deus de todo o teu coração, de toda a tua alma, de todo o teu entendimento!' Esse é o maior e o primeiro mandamento" ( Mt 22, 37-38). Com isso, Ele recordava a vocação do ser humano sobre a terra: este foi chamado não para gozar de prazeres, acumular riquezas ou ser elevado aos olhos do mundo, mas tão somente para amar a Deus e cumprir com a Sua santa vontade, de modo que se pode dizer – com referência à parábola da figueira estéril – que o homem que não vive para Deus "está ocupando inutilmente a terra" (Lc 13, 7).

O segundo mandamento, acrescentou ainda Jesus, "é semelhante a esse: 'Amarás ao teu próximo como a ti mesmo'" ( Mt 22, 39). Os mandamentos são semelhantes porque também o homem foi criado à imagem e semelhança de Deus (cf. Gn 1, 26) – e, por isso, deve ser amado. São, pois, dois mandamentos, mas, curiosamente, três objetos a amar: Deus, a si mesmo, e ao próximo. Santo Agostinho, questionando-se sobre a diferença desses números, oferece uma resposta valiosa e ensina com qual medida deve o homem amar-se a si mesmo:

"Mas, se há três objetos do nosso amor, porque há apenas dois mandamentos? Vou dizer-te: Deus não julgou necessário encarregar-te de te amares a ti próprio porque não há ninguém que não se ame a si mesmo. Mas muita gente se perde porque se ama mal. Ao mandar-te amá-Lo com todo o teu ser, Deus deu-te a regra segundo a qual deves amar. Queres amar-te? Então ama a Deus com todo o teu ser. Com efeito é nele que te encontrarás, evitando assim perderes-te em ti. […] Deste modo é-te dada a regra segundo a qual deves amar-te: ama Aquele que é maior do que tu e amar-te-ás a ti mesmo." [1]

O amor a si mesmo não é mandamento porque, escreve Agostinho, "não há ninguém que não se ame a si mesmo". As palavras do santo de Hipona são convenientemente explicadas por Santo Tomás de Aquino, que, ao responder se "os pecadores amam-se a si mesmos", esclarece: "Todos os homens, bons e maus, amam-se a si mesmos, na medida em que amam a própria conservação" [2]. Não há virtude nessa espécie de amor, já que até os animais agem de modo semelhante: quando veem alguma ameaça à sua vida ou à sua integridade física, eles fogem, pois "amam", por assim dizer, "a si mesmos", agem buscando "a própria conservação".

Quando Santo Agostinho adverte, porém, que "muita gente se perde porque se ama mal", está fazendo referência aos pecadores, que amam a si mesmos desordenadamente. Santo Tomás diz, com acerto, que:

"Nem todos os homens pensam ser o que eles são, pois o principal no homem é a alma racional e o que é secundário é a natureza sensível e corporal: a primeira é chamada pelo Apóstolo de 'homem interior', e a segunda de 'homem exterior' (cf. 2 Cor 4, 16). Os bons apreciam em si mesmos, como principal, a natureza racional, ou o homem interior, e por isso consideram-se como sendo o que são. Mas os maus creem que o principal neles é a natureza sensível e corporal, ou o homem exterior. Por essa razão, não se conhecendo bem a si mesmos, eles não se amam verdadeiramente, mas amam somente o que julgam ser. Ao contrário, os bons, conhecendo-se verdadeiramente a si mesmos, amam-se de verdade." [3].

Os maus invertem a realidade e se preocupam apenas com o "homem exterior", em detrimento de suas almas e de sua salvação eterna. Eles querem a felicidade, mas procuram-na nos lugares errados. Abandonam a Deus, "fonte de água viva, para cavar cisternas, cisternas fendidas que não retêm a água" ( Jr 2, 13). O seu amor próprio, então, não é amor coisíssima nenhuma, porque, ignorando o que realmente são, eles acabam por lançar a sua alma no inferno. Com razão, pois, diz o salmista que "aquele que ama a iniquidade odeia a sua alma" (Sl 10, 6).

Quem vive, por exemplo, no pecado da fornicação, normalmente acha que está fazendo bem para si mesmo, pois está sentindo prazer, agradando a sua carne e, afinal, "a gente se ama tanto, qual o problema?" A realidade, no entanto, é que, violando o sexto mandamento, ele não está só condenando a si mesmo, mas também a alma daquela pessoa a quem tanto diz amar (e, no entanto, não está disposto nem ao compromisso, nem à família, nem aos filhos, mas tão somente à sua satisfação sexual). Ora, que espécie de amor é esse, que prefere o próprio prazer ao bem eterno do próximo, que joga o destino e a vida seus e do outro na lata de lixo?

Algumas pessoas, por outro lado, querem fazer bem a si mesmas comprando tudo o que veem pela frente, como se a sua felicidade estivesse em uma casa na praia, em um carro importado ou em um prêmio de loteria. A verdade é que, tendo tudo isso, muitas se esquecem de Deus e perdem a própria salvação. Por isso, adverte Nosso Senhor: "Que aproveitará ao homem ganhar o mundo inteiro, se vier a perder a sua vida?" ( Mc 8, 36).

Como, então, amar direito a si mesmo? Santo Agostinho ensina a real medida do amor próprio ordenado: " Queres amar-te? Então ama a Deus com todo o teu ser". Nesta terra, o que de mais valioso o ser humano possui é a sua alma; e a vontade de Deus, que é a de "que todos se salvem e cheguem ao conhecimento da verdade" (1 Tm 2, 3-4), é a única que pode nos salvar de nós mesmos.

Se um louco, andando na rua, começasse a cortar partes do próprio corpo, imediatamente alguém chamaria um médico e com razão aquele indivíduo seria colocado totalmente aos seus cuidados, para que não mais se destruísse. O homem, com seu amor próprio desordenado, é semelhante a esse louco que se mutila e se destrói, sem sequer perceber o que está fazendo. Para que seja curado, é preciso que ele se entregue – "com todo o seu ser" – a quem sabe o que é bom para ele. Se aos médicos humanos as pessoas se confiam com segurança, pois sabem que eles vão fazer o melhor, quanto mais devem confiar em Deus, que, não precisando, deu provas mais do que suficientes de Seu grande amor para conosco!

Confiemos n'Ele e entreguemo-nos à Sua divina vontade, seguindo o conselho de Santo Agostinho: "Ama Aquele que é maior do que tu e amar-te-ás a ti mesmo."

Referências

  1. Santo Agostinho, Sermão inédito sobre a carta de São Tiago, apud Evangelho Quotidiano
  2. Suma Teológica, II-II, q. 25, a. 7
  3. Idem

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"Eu salvei a vida da minha filha e ela salvou a minha"
Testemunhos

"Eu salvei a vida da minha
filha e ela salvou a minha"

"Eu salvei a vida da minha filha e ela salvou a minha"

O testemunho de uma mãe que engravidou por causa de um estupro – e passaria por tudo “de novo” só para conhecer e amar a sua filha

Pete BaklinskiTradução: Equipe Christo Nihil Praeponere2 de Fevereiro de 2015Tempo de leitura: 2 minutos
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Lianna Rebolledo tinha apenas 12 anos de idade, quando foi subitamente sequestrada por dois homens e brutalmente estuprada, enquanto caminhava perto de sua casa, em Cidade do México. Os agressores deixaram a jovem quase morta, com sua face e pescoço horrivelmente desfigurados. O que eles não sabiam era que tinham deixado Lianna com o despertar de uma nova vida dentro de si.

"Foi muito violento. Eu pensei, sinceramente, que eles iam me matar", contou Lianna ao Life Site News, em uma entrevista gravada em Washington, D.C.

Um médico disse a Lianna que ela não tinha que viver com as consequências do estupro, que não precisava levar em frente algo que a lembraria constantemente daquela noite terrível, e assegurou-lhe que o aborto era o seu "direito".

Mas Lianna perguntou ao médico se o aborto a ajudaria a esquecer o estupro e aliviar sua dor e sofrimento. Quando ele disse que não, ela percebeu que acabar com a vida do bebê, na verdade, não ia beneficiar ninguém.

"Se o aborto não ia curar nada, eu não entendia o porquê de fazê-lo", ela disse. "Eu sabia que tinha alguém dentro do meu corpo. Eu nunca pensei sobre quem era o seu pai biológico. Ela era minha criança. Ela estava dentro de mim. Sabendo apenas que ela precisava de mim, e eu dela... isso me fez querer trabalhar, arrumar um emprego [para sustentá-la]".

O estupro tornou a vida de Lianna em um inferno. Não importava quantas vezes ela "se lavava", não conseguia livrar-se do sentimento de sujeira. A ideia de suicídio parecia oferecer à jovem uma libertação instantânea de tanta miséria, mas ela começou a perceber que tinha que pensar não apenas em si mesma, mas no futuro desta pequena vida que florescia em seu corpo.

Olhando para trás, Lianna, agora com 35 anos, percebe que sua filha salvou a sua vida e ajudou a dar-lhe a cura de que ela precisava tão desesperadamente.

"No meu caso, duas vidas foram salvas. Eu salvei a vida da minha filha, mas ela salvou a minha", conta.

Além de tudo isso, ela agora vê que sua vida depois do estupro ganhou propósito e sentido precisamente por causa de sua filha, que agora tem 23 anos e recentemente foi graduada na universidade.

"Foi realmente difícil, mas só de ver aquela pequenina me dizendo como era feliz por eu ter lhe dado a vida, quando ela disse isso – e ela tinha apenas quatro anos quando me disse: 'Mamãe, obrigado por me dar a vida' –, eu entendi que foi ela quem me deu a vida de volta."

"Ela sempre esteve presente por mim. Ela é a única pessoa que me mostrou um amor verdadeiro. E eu sempre serei grata", conta.

Lianna diz que não consegue imaginar a vida sem sua filha. Impressionantemente, ela diz que passaria de novo por toda humilhação, dor e sofrimento se isso significasse conhecer e amar sua filha.

"Embora [o estupro] tenha sido um momento muito difícil, se eu tivesse que passar por isso só para conhecer e amar minha filha, eu passaria de novo."

Lianna agora vive em Los Angeles, Califórnia, onde ela cuida do Loving Life, uma organização sem fins lucrativos que ajuda mulheres violadas e grávidas. Ela também é uma palestrante pró-vida internacional e leva a mensagem de que toda vida é amável, não importa como tenha começado.

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O valor da vocação
Espiritualidade

O valor da vocação

O valor da vocação

A fidelidade à própria vocação é o único caminho seguro para alcançar a verdadeira felicidade

Equipe Christo Nihil Praeponere29 de Janeiro de 2015Tempo de leitura: 3 minutos
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Nos campos de concentração nazistas, onde o ser humano era reduzido a uma existência deplorável, Viktor Frankl descobriu algo importante: o homem, quando possui uma razão para sua vida, é capaz de suportar as piores dores e humilhações. Isso explica o porquê de tantas pessoas, mesmo sob difíceis condições, entregarem-se a uma vocação, cujos resultados nem sempre são o dinheiro ou o prazer, mas a chacota e a incompreensão da sociedade.

Quem se dedica a uma vocação — seja ao sacerdócio ou à vida religiosa, seja ao matrimônio ou ao celibato laical —, dedica-se a um chamado interior. Não se trata de uma escolha arbitrária, pautada em interesses econômicos ou sentimentais. É, antes, uma entrega total, uma resposta ao projeto de Deus para aquele indivíduo. Por isso, no exercício de sua vocação, ele não procurará tanto o sucesso pessoal — embora isso também possa existir —, mas a perfeita realização de seu chamado.

O mundo moderno, marcado por uma mentalidade particularmente materialista, já não crê na vocação e, por esse motivo, escandaliza-se quando um jovem recém-formado ou uma bela moça decidem abandonar tudo (família, emprego, namoro etc.) para viverem o sacerdócio ou a vida religiosa. Inúmeros seminaristas, ao revelarem sua vocação para outras pessoas, tiveram de ouvir estas perguntas: "Você é assexuado?", "vai apenas estudar e depois sair, né?", "não gosta de trabalhar?". Na verdade, o que se esconde por detrás dessas questões é a indignação de quem não consegue buscar outra coisa, a não ser dinheiro e prazer. Não se concebe que alguém, sobretudo um jovem, possa renunciar ao sexo e ao bem-estar econômico por um projeto que, na concepção neopagã, já não tem espaço dentro da civilização. É justamente o que Bento XVI explicava aos sacerdotes, durante o Ano-Sacerdotal: "O celibato é um grande escândalo, porque mostra precisamente que Deus é considerado e vivido como realidade" [1].

O mesmo vale para o matrimônio quando vivenciado segundo o projeto originário de Deus, isto é, homem, mulher e filhos. Notem: quantos casais desejam, hoje, gerar muitos filhos, ter relações abertas à vida, lutar contra o fim da lei do divórcio e outras distorções perniciosas do casamento? Uma família numerosa gera tanto escândalo quanto um jovem celibatário, porque apesar de viverem suas vocações em diferentes estados, expressam uma única e verdadeira adesão vocacional. Ambos deram um "sim" definitivo, entregando-se de todo coração ao projeto de Deus. O casal, na fidelidade e vivência indissolúvel do matrimônio; o seminarista, no amor casto e, ao mesmo tempo, fecundo pela Igreja e Nosso Senhor Jesus Cristo. Por esta razão, ensina o Catecismo da Igreja Católica, matrimônio e ordem são dois sacramentos de missão [2]. Importa, em primeiro lugar, salvar as almas dos que estão ao nosso lado do que alcançar a própria satisfação.

E é nesta doação incondicional de si mesmo que se revela e se experimenta a graça vocacional. "Porque aquele que quiser salvar a sua vida, perdê-la-á; mas aquele que tiver sacrificado a sua vida por minha causa, recobrá-la-á" ( Mt 16, 25). Dinheiro e prazer, os dois grandes bezerros de ouro de todas as épocas, são incapazes de trazer a felicidade plena. Ao contrário, aquele que se deixa levar por suas seduções, torna-se um escravo. Escravo das dívidas, das trapaças, da prostituição, escravo do pecado e da corrupção. É como naquele diálogo entre Jesus e a samaritana sobre a água do poço: "Todo aquele que beber desta água tornará a ter sede" (Jo 4, 13). A pessoa que vive sua vocação, porém, encontra a face de Cristo em todas as circunstâncias, mesmo que venha a padecer sofrimentos, "dores de cabeças", perseguições e desprezo — "Mas o que beber da água que eu lhe der jamais terá sede".

O Concílio Vaticano II, meditando sobre "as alegrias e as esperanças, as tristezas e as angústias dos homens de hoje, sobretudo dos pobres e de todos aqueles que sofrem" [3], foi firme ao afirmar que "todos na Igreja, quer pertençam à Hierarquia quer por ela sejam pastoreados, são chamados à santidade" [4]. Trata-se de um chamado universal. A santidade é, prestem atenção, o horizonte para o qual todos devemos caminhar. É a nossa verdadeira vocação. Neste sentido, é urgente uma redescoberta do valor vocacional, a fim de que todos experimentem dessa água que o próprio Cristo tem a oferecer-nos: "Mas a água que eu lhe der virá a ser nele fonte de água, que jorrará até a vida eterna" ( Jo 4, 14). Maria é o melhor modelo de confiança no projeto divino, dizendo o seu fiat.

Diante das provações do mundo, é preciso coragem para assumir o chamado de Deus. Meditemos sempre nesta exortação de um santo que muito pregou sobre vocação: "Por que não te entregas a Deus de uma vez..., de verdade..., agora!?" [5].

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