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Não existe cristianismo sem cruz
Espiritualidade

Não existe cristianismo sem cruz

Não existe cristianismo sem cruz

A tentação de apresentar um cristianismo sem cruz revela-se, aos poucos, decepcionante, porque é somente na cruz que se descobre o amor de Deus.

Equipe Christo Nihil Praeponere26 de Setembro de 2014Tempo de leitura: 5 minutos
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A cruz possui um significado inegociável para o cristianismo. É somente por meio do Cristo crucificado que se pode compreender “o poder de Deus" (cf. 1 Cor 1, 24) e a sua ação salvífica entre os homens. Por isso, na pregação evangélica de Jesus, tudo se resume a esta exortação: “Se alguém quiser vir comigo, renuncie-se a si mesmo, tome sua cruz e siga-me" (cf. Mt 16, 24). Não se trata de mera retórica, mas da apresentação de um dado incontestável: não há redenção sem cruz. O homem que quiser se salvar, deverá, necessariamente, apegar-se às cruzes do dia a dia, renunciando-se a si mesmo, tal qual o Filho do Homem fez no lenho da salvação.

Após aquele encontro fatídico na estrada para Damasco, São Paulo pôde perscrutar o significado autêntico da renúncia anunciada por Jesus. Viu que a lógica da cruz consiste num abandono confiante no “Evangelho da graça", o qual nos apresenta a salvação não como prêmio que se conquista por meio de esforços puramente humanos. É dom gratuito; Deus confunde a “sabedoria" humana ao doar-se inteiramente ao homem — “o que é tido como debilidade de Deus é mais forte que os homens" (cf. 1 Cor 1, 24). São Paulo, por sua vez, fazendo frente às tendências de sua época, não deixou de anunciar aos seus interlocutores a “loucura" e o “escândalo" do madeiro santo: “Porque a linguagem da Cruz é loucura para aqueles que se perdem; mas poder de Deus para os que se salvam, isto é, para nós" (cf. 1 Cor 1, 18-23).

Nas pegadas do Apóstolo das gentes, a Igreja sempre procurou incutir na sociedade o necessário e urgente apelo do Crucificado, sobretudo quando estes esforços sofriam oposição da mentalidade pagã e autossuficiente do período. Ela testemunhou pelo derramamento de sangue — tal qual São Pedro, que se deixou crucificar de cabeça para baixo, achando-se indigno de ter uma morte igual à de Jesus —, pela vida abastada e longe das comodidades do mundo — a exemplo dos monges eremitas e dos irmãos e irmãs do Carmelo —, como também pela atualização diária e milagrosa do próprio sacrifício de Jesus, através da celebração da Santa Eucaristia. Em poucas palavras, pode-se dizer que a pregação da Igreja se fundamentou ordinariamente neste pequeno, mas não menos verdadeiro, princípio: “Quando vires uma pobre Cruz de madeira, só, desprezível e sem valor... e sem Crucificado, não esqueças que essa Cruz é a tua Cruz" [1].

Por outro lado, grande e persistente foi a oposição sofrida pelo anúncio do Cristo crucificado ao longo da história. Algo que não surpreende, todavia. Dada a realidade do pecado original, que faz com que os homens tenham os pensamentos do mundo e não os de Deus (cf. Mt 16, 23), o ser humano “é continuamente tentado a desviar o seu olhar do Deus vivo e verdadeiro para o dirigir aos ídolos (cf. 1 Ts 1, 9), trocando 'a verdade de Deus pela mentira' (cf. Rm 1, 25)" [2]. De fato, para uma mentalidade submissa àquilo que São João chamava de “concupiscência da carne", “concupiscência dos olhos" e “soberba da vida", isto é, os ídolos que o mundo oferece, a cruz pode parecer uma realidade muito pouco atraente e sem sentido [3]. Nestes dois últimos séculos, em que não raras vezes os santos padres tiveram de lidar com propostas subversivas, dentro e fora da Igreja, cuja finalidade principal era substituir o Cristo crucificado por uma concepção cristã praticamente ateia, esse drama se revela ainda mais grave.

É particularmente notório um episódio da luta de Pio XI contra a ideologia nazista. Por ocasião da visita de Hitler a Roma, tendo se espalhado, a pedido de Mussolini, as suásticas do nacional-socialismo por toda a cidade eterna, o Papa Ratti ordenou que nenhuma bandeira fosse exposta nas sacadas do Vaticano, foi para Castel Gandolfo, e mandou escrever no L'Osservatore Romano que o ar de Roma estava irrespirável e que a ele não agradava nem um pouco ficar num lugar onde havia uma cruz que não era a de Cristo. Algo semelhante ocorreu com João Paulo II, quando da sua viagem à Nicarágua, em 1983. O governo sandinista, apoiado por padres ligados à Teologia da Libertação, havia organizado um infeliz protesto contra o papa. Na missa campal, foram colocados no altar, de propósito, cartazes de guerrilheiros em vez do crucifixo. O então secretário pessoal do santo papa, Cardeal Stanislaw Dziwisz, conta em suas memórias [4]:

[...] O Santo Padre, praticamente sozinho, enfrentou o tumulto e fez frente aos provocadores. Foi inesquecível a cena em que os sandinistas agitavam suas bandeiras rubro-negras, enquanto ele, de cima do palco, opunha-se a eles, levantando na direção do céu o báculo com o crucifixo na ponta.

Também dentro da Igreja esses confrontos contra a cruz de Cristo não faltaram. Nas sessões do Concílio Vaticano II, infelizmente, muitos foram os que sugeriram o abandono do sinal da cruz durante a liturgia, por este supostamente já não mais corresponder ao espírito do homem moderno [5]. Nas universidades de teologia, por sua vez, “a maneira blasfema como então se zombava da cruz como sendo um sadomasoquismo" era de se lamentar [6]. O então padre Joseph Ratzinger, futuro Bento XVI, escreve a respeito: “Vi o rosto horrível, sem disfarce, dessa piedade ateia; vi o terror psicológico, desenfreado, com o qual se conseguia sacrificar toda consideração moral como restante de um espírito burguês, quando se tratava da meta ideológica" [7].

Como nos tempos de São Paulo, a sociedade moderna não é simpática à mensagem da cruz de Cristo. Ao contrário, há certamente aquele número de indivíduos que, ludibriados pelas promessas ideológicas, depositam a própria esperança em obras e esforços humanos, a fim de alcançar um paraíso aqui na terra. É a tentação do neopelagianismo. Mutatis mutandis, como também não pensar nos “profetas" da técnica, verdadeiros gurus do modernismo, que, “fiando-se demasiadamente nas descobertas atuais", julgam desnecessária a mensagem evangélica, dando margem ao ceticismo e ao agnosticismo [8]? And last, but not least, que dizer das seitas e heresias que proliferam, fazendo com que o cristianismo e, por conseguinte, a Igreja deixem de ser a Mater et Magistra da sociedade, como gostava de definir São João XXIII, para se converter em uma mera instituição filantrópica ou sentimentalista?

A Igreja deve seguir o caminho do Esposo. Renegar a cruz seria como que um adultério. A tentação de apresentar um cristianismo sem cruz, no intuito de satisfazer o gosto da clientela, aos poucos, mostra-se frustrante. Sem o Cristo crucificado se perde o dom gratuito do Pai que, amando o mundo de tal maneira, entrega Seu Filho único em holocausto. É nisto que conhecemos o amor. Não há mensagem mais urgente, mais necessária, mais imprescindível para o homem que a mensagem do amor de Deus. Nenhum esforço humano, nenhuma sabedoria humana, nenhuma teologia da “libertação" ou da “prosperidade" é realmente capaz de libertar o homem e fazer com que ele progrida na santidade. É Cristo crucificado que nos traz a redenção, porque foi para isto que Ele se manifestou: “para destruir as obras do demônio" (cf. 1 Jo 3, 8).

É, pois, na morte crucificada que se encontra a verdadeira vida.

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As febres extraordinárias de São Pio de Pietrelcina
Santos & Mártires

As febres extraordinárias
de São Pio de Pietrelcina

As febres extraordinárias de São Pio de Pietrelcina

À semelhança de Cristo, que declarou ter vindo lançar fogo sobre a terra, também os santos vieram incendiar a humanidade com a chama do divino amor.

Equipe Christo Nihil Praeponere23 de Setembro de 2014Tempo de leitura: 3 minutos
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Das muitas histórias contadas em torno da figura do Padre Pio de Pietrelcina, aquelas relacionadas às suas febres ocupam páginas particularmente impressionantes. No período em que era forçado a abandonar o convento para cuidar de sua saúde em casa, o frade italiano experimentava febres altíssimas, sem registros em toda a história médica, de modo que, não fossem os relatos e as observações de profissionais, se pensaria que os testemunhos a este respeito tinham sido inventados.

O corpo de Pio chegava a temperaturas tão elevadas que os termômetros normais chegavam a arrebentar. Em carta enviada a uma de suas filhas espirituais, a 9 de Fevereiro de 1917, ele contava: “Sinto que melhorei. A febre tão alta, que não havia termômetro capaz de medi-la, deixou-me há já alguns dias". Em outra de suas cartas, ele acrescentava: “O calor da febre era tão excessivo, que fazia rebentar o termômetro".

O Padre Paolino de Casacalenda, guardião do convento de San Giovanni Rotondo, conta que, na primeira vez em que se encontrou com o Padre Pio, este estava de cama. Vendo-o “com o rosto afogueado e a respiração um pouco difícil", decidiu tirar-lhe a febre: “Qual não foi o meu espanto quando, ao retirar o termômetro, me apercebi que o mercúrio, chegado aos 42 graus e meio, ou seja, ao ponto extremo dos termômetros vulgares, tinha feito pressão e, não podendo sair, tinha quebrado o reservatório onde estava encerrado". Curioso para saber até onde ia a febre de Pio, Paolino pegou um termômetro de banho e ficou ainda mais assombrado quando viu “na coluna que o mercúrio tinha atingido os 52 graus". Naquele momento, o frade ficou convencido de que se encontrava “frente a um indivíduo fora do vulgar".

O Padre Raffaele de Sant'Elia de Pianisi, que viveu muitos anos com o Padre Pio, conta que, em 1934, quando Dom Bosco foi canonizado, o seu termômetro subiu a 53 graus de febre. “Vi-o com os meus próprios olhos. O Padre, na sua cama, parecia autêntico fogo, devido ao calor. Para lhe tirar a febre, tínhamos utilizado um termômetro de banho". Algumas pessoas que assistiram à canonização de São João Bosco contam ter visto o Padre Pio em Roma, durante a cerimônia. “Eu sei muito bem que naquele dia o Padre Pio estava de cama, e não posso dizer até que ponto tais afirmações eram verdadeiras", diz o Padre Raffaele. “De resto, tudo era possível ao Padre Pio, de quem se contavam tantos casos de bilocação".

O doutor Giorgio Festa, que cuidou por muito tempo da saúde do frade de Pietrelcina, examinou regularmente a sua temperatura, duas vezes por dia, no decorrer de várias semanas. Para tanto, levou consigo “um termômetro especial, que serve para as experiências científicas e que é de uma precisão absoluta". Os registros variavam de 36,2 graus a impressionantes 48,5 graus. “Quando era atingido por temperaturas tão elevadas," escreveu o médico, “o Padre Pio parecia sofrer muito, sendo tomado por grande agitação na cama, mas sem delirar e sem as perturbações comuns que habitualmente acompanham alterações febris significativas. Ao fim de um ou dois dias, tudo regressava ao seu estado normal."

Interessado pelo caso do Padre Pio, o doutor Festa correu atrás de investigações específicas e descobriu que, das temperaturas mais altas até então registradas pelos médicos, nenhuma passava dos 44 graus, tendo tais ocorrências recebido o nome de “agônicas" ou “pré-agônicas", pois eram fatalmente seguidas de morte.

Tantos episódios, respaldados não só pelos relatos de quem convivia com São Pio de Pietrelcina, como pela própria ciência médica, são verdadeiramente milagres. Aliás, é impossível compreender a vida deste santo sacerdote sem recorrer ao auxílio sobrenatural. Toda a sua existência nesta terra foi inteiramente devotada a uma contínua e cada vez mais profunda manifestação de Deus, pela qual o santo assumiu para si as palavras do Apóstolo: “Eu vivo, mas não eu: é Cristo que vive em mim" (Gl 2, 20).

De fato, a vida dos santos está repleta de histórias como essas, cheias de fatos extraordinários e comoventes, capazes de mexer com o coração até do cético mais obstinado. A caridade cristã realmente supera todas as medidas humanas e, à semelhança de Cristo, que declarou ter vindo lançar fogo sobre a terra (cf. Lc 12, 49), também os santos vieram incendiar a humanidade com a chama do divino amor.

Referências

  • Renzo Allegri. Padre Pio – um santo entre nós. Paulinas, Lisboa, 1999. p. 94-97

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Corte inaugura “direito à blasfêmia” na França
Sociedade

Corte inaugura
“direito à blasfêmia” na França

Corte inaugura “direito à blasfêmia” na França

Corte francesa absolve feministas que invadiram Catedral de Notre Dame e condena vigias “por violência contra as militantes”

Equipe Christo Nihil Praeponere23 de Setembro de 2014Tempo de leitura: 3 minutos
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Em fevereiro do ano passado, algumas ativistas do movimento feminista Femen, famosas por suas exibições internacionais desnudas, decidiram “comemorar" a renúncia do Papa Bento XVI invadindo a Catedral de Notre Dame, em Paris, com inscrições no corpo que diziam: “ Pope no more - Papa não mais" e “Pope Game Over". Além dos transtornos causados pela invasão do templo e pelo ultraje ao sentimento religioso dos católicos presentes, as militantes teriam danificado três sinos da igreja com bastões de madeira, segundo informações das agências internacionais.

Notícias recentes reportam que as feministas foram “absolvidas por ato na Notre Dame". A Justiça penal da França não só decidiu “inocentar nove ativistas do movimento feminista Femen", como “condenou três vigias da catedral que haviam tentado interromper a ação das militantes a multas que vão de 300 euros a 1 mil euros (...) por violência contra as militantes"!

Não, você não leu errado. É isso mesmo. As ativistas invadiram Notre Dame e saíram… impunes. Ao contrário, os vigias “malvados", que não deixaram que as militantes “expressassem o seu pensamento", foram condenados pelo tribunal a pagar multas.

Mas, o absurdo não para por aí. A Justiça francesa “considerou que não havia provas suficientes de que as ativistas haviam danificado o sino" da igreja! Ou seja, não tem problema nenhum em invadir a catedral, gritar e insultar a religião católica… contanto que os sinos da igreja permaneçam intactos. Está liberado entrar em templos religiosos e fazer o escarcéu… contanto que não se danifique nenhum móvel ou objeto do local. “Se alguém jura pelo Santuário, não vale; mas se alguém jura pelo ouro do Santuário, então vale!" (Mt 23, 16), decretam os fariseus do século XXI.

Os jornalistas que falam sobre a absolvição das jovens do Femen também estão obcecados com os sinos. “No julgamento, as militantes do Femen contestaram ter danificado o sino, alegando que haviam coberto os bastões de madeira com feltro" - “O advogado dos representantes da Notre Dame, por sua vez, disse que a proteção se descolou e que as ativistas tocaram o sino com um bastão sem proteção" - “A Justiça considerou que não havia provas suficientes de que as ativistas haviam danificado o sino". Ora, quem é que pode se preocupar com um sino, ainda que de ouro, quando o santuário está sendo profanado? “Insensatos e cegos! Que é mais importante, o ouro ou o Santuário que santifica o ouro?" (Mt 23, 17).

Mas, em uma cultura materialista, as pessoas não são capazes de enxergar nada além do que captam os seus sentidos. Veem o ouro, mas já não conseguem contemplar a beleza do santuário. O edifício da igreja já não é nada mais do que cimento e tijolos. Non est Deus (Sl 53, 1): não há Deus, nem nada sagrado e transcendente pelo qual viver.

O bárbaro da modernidade já não é capaz de elevar-se… esforça-se por esquecer que seus antepassados faziam o sinal da cruz ao passar em frente a uma capela; trabalhavam duro para conseguir o pão de cada dia para os seus filhos; e iam à Missa todos os domingos, pois tinham consciência de que, se o Senhor não construísse as suas casas e cuidassem de suas cidades, em vão trabalhariam os construtores e vigiariam as sentinelas (cf. Sl 126, 1). Então, para não mais lembrar que a Europa um dia foi cristã, eles, com uma impiedade animalesca, precisam pôr abaixo tudo o que lhes lembra este passado glorioso, quando os homens, justamente por adorarem a Deus, eram homens de verdade, de corpo e de alma.

Inna Schevchenko, uma das fundadoras do Femen, comemorou a sentença da Corte francesa. “É um bom exemplo para os outros países. Isso nos encoraja a continuarmos com nossa ação. Temos orgulho de saber que a blasfêmia é um direito e que não seremos condenadas por isso", afirmou.

O tempora, o mores! Para esta triste época, em que a impunidade é encorajada, o ateísmo é acolhido como “religião oficial" do Estado e a blasfêmia não só é praticada, como transformada em “direito", não resta senão suplicar a Cristo que suscite nos corações dos cristãos o amor a Deus e o empenho de, mais uma vez, salvar o Ocidente da barbárie.

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Católicos Romanos
Igreja Católica

Católicos Romanos

Católicos Romanos

“Vamos em frente. Somos romanos”, exortou certa vez São João Paulo II, manifestando a força da cristandade ligada à Sé de Pedro.

Equipe Christo Nihil Praeponere18 de Setembro de 2014Tempo de leitura: 3 minutos
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Os cartazes que enfeitavam as ruas de Roma, em 2011, por ocasião da beatificação de João Paulo II, diziam, na sua maioria, as seguintes palavras: “ Damose da fa, semo romani". A frase fazia referência a uma alocução do falecido papa, na Sala Paulo VI, em que ele dizia aos fiéis presentes, em dialeto romano: “Vamos em frente. Somos romanos". De modo semelhante exprimia-se São Josemaria Escrivá no seu famoso livro Caminho: “Gosto de que sejas muito romano. E — assim prosseguia o santo do cotidiano — que tenhas desejos de fazer a tua 'romaria', 'videre Petrum', para ver Pedro." [1]

Historicamente, a cidade de Roma concentrou o poder temporal do maior império político já visto na terra. A sede de expansão e domínio fez com que os romanos chegassem até os confins do mundo, por assim dizer, levando consigo sua cultura, organização política e religião. Em meio a isso, emergia a figura imponente do imperador, a cuja pessoa os cidadãos e súditos deveriam prestar culto.

O anúncio de Jesus Cristo insere-se exatamente neste contexto. Deus, por razões misteriosas, quis que a encarnação de seu Filho — o Rei dos reis — coincidisse com o tempo em que outro homem arrogava para si o título de “Augusto". Cristo, por sua vez, encarna-se para anunciar o verdadeiro Evangelho; não aquele que pertencia à linguagem do imperador, mas o Evangelho da Alegria, capaz de encher “o coração e a vida inteira daqueles que se encontram com Jesus" [2]. Dada essa realidade, não foi por acaso que o cristianismo logo se converteu no maior obstáculo para o imperador romano. Os cristãos agora possuíam outra medida, possuíam a glória da salvação eterna, um Deus em cuja face se manifestava o amor à criatura: o amor crucificado e ressuscitado. Com efeito, a ameaça de morte contra aqueles que não prestassem culto a César não mais poderia intimidá-los. Ao contrário, o martírio pelo Deus do amor havia se convertido no maior desejo de seus corações.

Na crucifixão de São Pedro, por conseguinte, Roma é lavada pelo sangue do apóstolo sobre o qual Jesus havia edificado seu Corpo Místico, isto é, a Igreja. Isso marca um ponto importante na história da Cidade Eterna. Ela não mais seria a sede do imperador, aquele que oprimia e subjugava, mas a Cátedra do “Servo dos Servos" de Cristo, o encarregado de “confirmar seus irmãos na fé" (cf. Lc 22, 32). Roma não seria mais o opróbrio das nações, submetendo-as às perversões mundanas, mas o símbolo da libertação, manifestada pelo canto alegre dos cristãos que, a exemplo de seu Senhor, iam para a cruz, entregando-se por amor a Deus. Não seria mais a capital do maior império político já visto nesta Terra, mas a casa dos cristãos, a casa universal, a casa dos filhos de Deus. Não seria mais a Roma de Nero, de Calígula, mas “dos mártires, dos santos" [3].

Assim se compreende a árdua luta empreendida por Santa Catarina de Siena, a fim de que o Santo Padre retornasse a Roma, quando o então papa Gregório XI encontrava-se num exílio em Avinhão. Para que a Igreja pusesse fim à crise que se insurgia entre os fiéis, convinha antes “pôr fim à longa ausência, a esse exílio em Avinhão que privava a Cristandade da sua autêntica capital, consagrada pelo sangue do Apóstolo" [4]. Por isso a santa não economizou palavras ao se dirigir ao seu “Doce Cristo na Terra": “Seja homem, volte para Roma".

Na teologia moderna, infelizmente, não é difícil encontrar a acusação de que a Igreja Católica teria sido fundada por Constantino. Além disso, não faltam aqueles que, dentro da Igreja, estabelecem como que um poder paralelo, a fim de dar início a uma “nova reestruturação e nova divisão eclesiástica do trabalho e do poder religioso", menosprezando a figura do papa ao mesmo tempo em que reduz o Corpo de Cristo à figura de empresa [5]. Ora, é preciso pouco esforço para enxergar o veneno por trás dessas teorias. Basta observar o esfacelamento do protestantismo, perdido em meio a tantas interpretações duvidosas da bíblia, como também o caos daquelas igrejas e Conferências Episcopais, que recusando a autoridade de Roma, acabaram subjugadas pela bota dos governos locais, numa nova espécie de Cesaropapismo. É o caso, por exemplo, da Igreja Ortodoxa, escrava do Kremlin, e de inúmeras igrejas da América Latina.

“A Igreja de Roma preside na caridade", afirmava Santo Inácio de Antioquia. Amemos, portanto, a capital da Cristandade, onde o sol não tem poente, onde se vence refulgente todo erro e todo mal!

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