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Cinquenta Tons de “surras” e “pauladas”
Sociedade

Cinquenta Tons de “surras” e “pauladas”

Cinquenta Tons de “surras” e “pauladas”

Descubra a verdade por trás de “Cinquenta Tons de Cinza”, a patética história que transforma um maníaco sadomasoquista em herói romântico

Equipe Christo Nihil Praeponere23 de Fevereiro de 2015Tempo de leitura: 5 minutos
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Em um tempo longínquo, a sociedade costumava enviar sádicos para um terapeuta ou para a prisão, não para o próprio quarto. Mas, com o advento de Fifty Shades of Grey ["Cinquenta Tons de Cinza", em português], os dias de sanidade mental da humanidade estão contados. O recorde de vendas do livro e o sucesso de bilheteria do filme denunciam o estado doentio da modernidade e convidam pais, mães e filhos a uma importante reflexão.

A obra, escrita por uma mulher e recentemente adaptada para o cinema, conta a história de "amor" nada saudável entre o magnata Christian Grey e a jovem estudante Anastásia Steele. O relacionamento dos dois é regido por um "contrato", no qual Christian é denominado o "dominante", e Anastásia, a "submissa". As cláusulas do documento são estarrecedoras: "a Submissa (...) deve oferecer ao Dominante, sem perguntar nem duvidar, todo o prazer que este lhe exija"; "o Dominante pode açoitar, surrar, dar chicotadas e castigar fisicamente à Submissa (...) por motivos de disciplina, por prazer ou por qualquer outra razão, que não está obrigado a expor"; "a Submissa aceitará açoites, surras, pauladas, chicotadas ou qualquer outra disciplina que o Dominante administrar, sem duvidar, perguntar nem queixar-se".

O mesmo contrato ainda fixa um prazo de validade de "três meses", durante os quais Anastásia se torna "propriedade" de Christian. A lista de aberrações é interminável. "Açoites", "açoites com pá", "chicotadas", "gelo", "cera quente" são talvez as únicas "fantasias" nomináveis do livro. É este arsenal de torturas o protagonista de "Cinquenta tons de cinza".

Um estudo conduzido pelo Journal of Women's Health ["Jornal de Saúde da Mulher"] traz uma importante relação entre os atos da trama sadomasoquista e os aspectos reais de violações sexuais. No desenrolar dos acontecimentos,

Christian lança mão de estratégias típicas de abusadores, incluindo perseguição (ele deliberadamente segue Anastásia Steele e usa um telefone e um computador para rastrear sua localização), intimidação (ele a ameaça com punições e violência, incluindo pressioná-la a atividades com as quais ela fica desconfortável), isolamento social (ele afasta Anastásia de amigos e família) e violência sexual (ele usa álcool para forçar o seu consentimento e a constrange a atividades sexuais desconfortáveis).

Como resposta, Anastásia experimenta reações típicas de mulheres violadas, incluindo ameaça constante (por exemplo, de que Christian está tentando rastreá-la, está nervoso com ela e vai puni-la ou machucá-la); identidade alterada (Anastásia descreve a si mesma como um "assombrado fantasma pálido"); estresse (Anastásia começa a ter comportamentos para manter a paz no relacionamento, como reter informação sobre a sua localização para evitar a ira de Christian); ânsia pela sanidade e normalidade no relacionamento; e enfraquecimento e aprisionamento, já que as suas condutas se mecanizam em resposta ao abuso de Christian.

Sabendo qual o verdadeiro teor dessa história assombrosa, urge identificar, afinal, qual a origem da sua repercussão. Na Inglaterra, a trilogia de E. L. James vendeu mais do que "Harry Potter" e "O Código da Vinci". Nos Estados Unidos, foram 10 milhões de cópias compradas em apenas seis semanas. No mundo inteiro, o filme bateu recorde de bilheteria, beirando a cifra de 240 milhões de dólares. Como uma narrativa sádica e violenta é capaz de alcançar tamanho sucesso?

A primeira resposta – e, certamente, a primeira que vem à mente do leitor – é o sexo. O êxito de "Cinquenta Tons de Cinza" se deveria principalmente às passagens eróticas inseridas pela autora no livro. O fato de 68% da audiência do filme ser composta por mulheres é um dado importante. Mostra como a pornografia – um problema eminentemente masculino – tem se adaptado também para o universo feminino. Do material explícito e visual usado para os homens, o demônio adapta livros e letras para destruir também as mulheres.

Mas, ainda que o aspecto sexual responda muito, não responde tudo. Para Kirsten Andersen, correspondente do LifeSiteNews.com, o sucesso de tramas como "Cinquenta Tons de Cinza" e Twilight ["Crepúsculo"] "tem sua origem na batalha que se trava em todos nós desde o dia em que aparecemos gritando, nus e indefesos, neste mundo", tem a ver com o fato de que "nós todos queremos ser profundamente amados", ainda que, muitas vezes, vejamos a nós mesmos como seres "pateticamente desprezíveis". Os romances exploram, portanto, a radical necessidade do ser humano por amor e redenção – na maioria das vezes, porém, do jeito errado.

Em "Cinquenta Tons de Cinza", por exemplo, o senhor Grey é pintado como o "redentor" de Anastásia. A menina virgem que nunca teve sorte no amor teria finalmente encontrado o seu par. O modo como ele a intimida e os serviços humilhantes a que ela se presta, porém, mostram o erro brutal que estão cometendo. Nem ele a redime, tampouco ela é amada; no relacionamento erótico e dominador dos dois – repleto de medo, ciúmes e ameaças –, ambos vão, pouco a pouco, se destruindo. (Só em uma ficção de muito mau gosto algo deste tipo poderia acabar bem.)

A razão disso é que o ser humano, além de seu corpo, possui uma alma. Enquanto seu corpo se entrega desordenadamente ao prazer, algo no mais íntimo do seu ser clama pelo infinito, pelo eterno, por Deus. Por isso, mil atos sexuais – por mais inventivos e pitorescos que possam parecer – não são capazes de fazer ninguém, absolutamente, feliz. "Coisas ruins acontecem quando tentamos ser Deus, ou quando deixamos que alguém preencha o papel de Deus para nós", escreve Kirsten Andersen. "O único amor salvífico que iremos encontrar neste mundo é divino em sua origem – não romântico".

Não é preciso, pois, ter "bola de cristal" para prenunciar o trágico fim em que acabará qualquer casal que queira imitar Christian e Anastásia. E não adianta vir com a conversa de que "o que eles fizeram no filme, fica no filme, não tem nada a ver com o mundo real". O chamado "mercado erótico" já está comemorando o sucesso de "Cinquenta Tons de Cinza", seja no exterior, seja em terras tupiniquins. A obra de E. L. James não é uma "história inofensiva" para mero entretenimento. É mais uma iniciativa – na linha das muitas começadas pela Revolução Sexual – para forçar limites morais, destruindo a família natural, o projeto de Deus para a sexualidade humana e a própria dignidade da mulher.

Sim, a pergunta a ser feita é: o que este livro e este filme têm a dizer sobre o valor da mulher? Você gostaria que sua filha entrasse em um relacionamento com Christian Grey? Ou que seu filho se tornasse um sádico e torturador sexual? Anastásia Steele é, felizmente, uma personagem fictícia, mas os efeitos malignos de "Cinquenta Tons de Cinza" – a patética história que transforma um maníaco em herói romântico – estão prontos para entrar em cena na vida real: nesta, e nas próximas gerações.

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Bispo de Ars retira Santíssimo Sacramento de igrejas após onda de profanações
Notícias

Bispo de Ars retira Santíssimo Sacramento de igrejas após onda de profanações

Bispo de Ars retira Santíssimo Sacramento de igrejas após onda de profanações

Depois de uma série de furtos sacrílegos, o bispo da terra de São João Maria Vianney decide retirar Nosso Senhor dos sacrários

ACI DigitalTradução: Fratres In Unum20 de Fevereiro de 2015Tempo de leitura: 3 minutos
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O bispo de Belley-Ars (França), Mons. Pascal Roland, decidiu ordenar a retirada do Santíssimo Sacramento de todas as capelas e igrejas de sua diocese após uma onda de roubos sacrílegos que ocorreram recentemente na região.

Depois de eventos relacionados "à profanação de Sacrários e roubo de cibórios" e com respaldo no Código de Direito Canônico, o prelado emitiu uma ordem, solicitando que "o Santíssimo Sacramento seja retirado dos sacrários de todas as igrejas e capelas paroquiais e seja depositado em local seguro".

"A porta dos Sacrários permanecerá ostensivamente aberta", continua o Ordinário.

Para as necessidades de oração pública ou privada, explica o bispo da terra de São João Maria Vianney (Cura d'Ars), "o Santíssimo Sacramento poderá ser recolocado temporariamente nesses sacrários, desde que se assegure a presença suficiente de fiéis".

Essas medidas entraram em vigor no dia 10 de fevereiro e "permanecerão até segunda ordem".

"O Bispo espera que essas medidas excepcionais expressem toda a gravidade desses eventos e contribuam para desencorajar sua repetição", concluiu.

Onda de furtos

Dias atrás, o Bispo de Belley-Ars revelou em seu site os últimos ataques e roubos sacrílegos ocorridos na diocese:

Em 6 de fevereiro – dia em que se comemora 250 anos da aprovação da devoção ao Sagrado Coração de Jesus, aprovado pelo Papa Clemente XIII – , paroquianos de Neuville-les-Dames, na circunscrição paroquial de Châtillon-sur-Chalaronne, descobriram que o sacrário da Igreja de São Mauricio havia sido quebrado e o cibório com as hóstias consagradas roubado.

Na mesma noite, os paroquianos de Ambronay perceberam também o roubo de um cibório na Igreja de Nossa Senhora. No sábado, 7 de fevereiro, em Vonnas, foi constatado que dois cibórios da Igreja de San Martín haviam sido roubados.

No domingo, 8 de fevereiro, em Jujurieux (circunscrição paroquial de Pont-d'Ain), os fiéis descobriram que um outro cibório fora roubado na Igreja de San Esteban. Nesses quatro casos, as hóstias consagradas não foram roubadas, mas abandonadas no local.

No sábado, 7 de fevereiro, o sacerdote de Montluel descobriu que o cibório e as hóstias do colegiado Notre-Dame-des-Marais haviam sido roubados.

Este roubo foi a continuação de uma série de roubos, profanações e vandalismos que vêm ocorrendo nos últimos meses nas igrejas da diocese: roubos de objetos e de uma estátua na igreja de Seyssel, em outubro de 2014; roubo de cibório e hóstias consagradas na igreja de Saint-Jean de Niost e Sainte-Julie, em outubro de 2014, de Saint-Etienne-du-Bois, em novembro de 2014; e outras profanações em Saint-Maurice-de-Beynost, em 11 janeiro de 2015.

As comunidades afetadas por esses roubos e as paróquias apresentaram uma queixa junto à delegacia de polícia. Por isso, fez-se um inventário completo dos objetos dessas igrejas graças à administração conjunta do Serviço Diocesano de Arte Sacra e do Conselho Geral do departamento de l'Ain, onde a diocese de Belley-Ars está localizada.

A indicação precisa dos objetos roubados e suas fotografias foram imediatamente enviados à Polícia Nacional, para tentar bloquear o tráfico desses objetos culturais, buscá-los e vigiá-los, a fim de impedir a revenda deles.

Repúdio aos roubos sacrílegos

A Igreja Católica em l'Ain lamenta que "objetos sagrados, como cibórios ou sacrários sejam furtados ou danificados. Ela lamenta a falta de respeito dos autores que se apropriam dos cibórios, que são tão caros à comunidade paroquial e aos moradores das comunidades a que pertencem esses objetos".

Os católicos da região "estão profundamente consternados com o furto de hóstias consagradas. Essas hóstias consagradas pelo sacerdote na Missa são o Corpo de Cristo, a presença real de Jesus. Portanto, esse roubo é uma profanação de extrema gravidade."

"Sejam quais forem as intenções dos autores desses atos, não existe nada mais ofensivo que possa ser cometido contra Deus, contra a fé cristã e contra a comunidade católica. A Igreja convida a todos os cristãos que rezem pelo perdão e arrependimento dos que cometeram esses atos. Que essa provação seja, para todos os cristãos, ocasião de professar sua fé em Cristo, realmente presente nessas hóstias consagradas", concluem.

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Rasgai os corações, não os estômagos
Espiritualidade

Rasgai os corações, não os estômagos

Rasgai os corações, não os estômagos

"Uma questão de alimento", por si só, "não nos aproxima de Deus". Tudo o que fazemos externamente — jejuns, orações e esmolas — deve ser o resultado de uma verdadeira conversão interior.

Equipe Christo Nihil Praeponere19 de Fevereiro de 2015Tempo de leitura: 4 minutos
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Ao falar sobre a virtude da abstinência, Santo Tomás de Aquino cuida de distingui-la da simples "privação absoluta de alimentos" que, em si, "não designa nem uma virtude, nem um ato virtuoso, mas algo indiferente" [1]. Deixar de comer, pura e simplesmente, não significa nada. "Uma questão de alimento não nos aproxima de Deus; se não o comermos, não teremos nada de menos e, se o comermos, não teremos nada a mais" (1 Cor 8, 8), confirma o Apóstolo.

Algum protestante, lendo estas linhas escritas por São Paulo, talvez se arrisque a usar o "livre exame" das Escrituras, a fim de condenar os jejuns quaresmais dos católicos: "Por que, afinal, eles deixam de comer carne, e de fazer isto ou aquilo? Afinal, não está escrito...?" Sim, a sua alegação seria perfeitamente bíblica, assim como foram bíblicas as palavras com que o demônio tentou Jesus no deserto (cf. Mt 4, 1-11). Ora, não foi o próprio Cristo a advertir que, quando o Noivo fosse tirado de seus discípulos, eles jejuariam (cf. Mc 2, 20)? Para este caso, pois, assim como para tantos outros, vale a observação do Aquinate: "A letra do Evangelho também mata, se faltar a graça interior da fé que cura" [2].

É claro que o jejum é importante. Mas, hoje — assim como em outros momentos da história do povo de Deus —, são muitas as pessoas que se privam de alimentos, sem praticar de verdade a virtude da abstinência.

O povo de Israel, por exemplo, se queixava diante de Deus, no Antigo Testamento: "Por que foi que jejuamos e tu nem olhaste? Nós nos humilhamos totalmente e nem tomaste conhecimento", ao que o Senhor respondeu, pela boca do profeta Isaías: "Acontece que, mesmo no dia de jejum, só cuidais dos vossos interesses e continuais explorando os trabalhadores. Acontece que jejuais criando caso, brigando e esmurrando" (Is 58, 3-4). Assim, mais do que abster-se de comida, é importante fazê-lo "como é necessário, ou seja, com alegria interior; e para o que é necessário, ou seja, para a glória de Deus, não para a sua glória pessoal" [3].

Santo Agostinho insistia, em seus sermões sobre a Quaresma, que de nada adiantava deixar de comer carne, por exemplo, se esta fosse tão somente substituída por outros pratos suculentos:

"Que ninguém, sob o pretexto de abstinência, pretenda mudar os prazeres, ao invés de cortá-los, procurando, por exemplo, comidas caras, porque não come carne, ou licores raros, porque não bebe vinho. Nem faça com que, sob o pretexto de domar a carne, se aumente o prazer. 'Todos os alimentos são, sem dúvida, puros para os puros' (cf. Tt 1, 15), mas para ninguém é puro o excesso" [4].
"Retrato de uma mesa com peixes, ostras e um gato", de Alexander Adriaenssen.

Os mesmos conselhos dos santos valem para o nosso tempo, quando muitos transformam a Quarta-Feira de Cinzas — e, do mesmo modo, a Sexta-Feira Santa e toda a Quaresma — em ocasião para encher a barriga de "bacalhoada" e frutos do mar, ao invés de dirigir o seu coração a Deus; quando decidem estender indefinidamente as folias carnavalescas — que, em grande parte, já constituem, em si, ocasião de pecado —, ao invés de se arrependerem dos seus pecados; quando preferem "curtir o feriado" a saírem de sua comodidade e fazerem penitência. Definitivamente, não é este o sentido da abstinência de carne pedida pela Igreja. Para estas pessoas, a frase do Apóstolo é bastante apropriada: "Uma questão de alimento não nos aproxima de Deus". Um pedaço de carne de boi que se deixa de comer em um ou outro dia do ano não é capaz, por si só, de purificar o coração de ninguém.

Ao contrário, aquilo que se faz externamente — jejuns, orações e esmolas — deve ser o resultado de uma verdadeira conversão interior, de um autêntico voltar-se a Deus. "Agora, diz o Senhor, voltai para mim com todo o vosso coração, com jejuns, lágrimas e gemidos; rasgai o coração, e não as vestes" (Jl 2, 12-13).

O significado do jejum e da abstinência está profundamente ligado àquelas palavras do Deuteronômio: "Não só de pão vive o ser humano, mas de tudo o que procede da boca do Senhor" (Dt 8, 3). O cristão penitente deixa de usufruir das criaturas, se priva de finos manjares e boas bebidas — que, em si, nada tem de ilícitos —, porque quer voltar o coração ao seu Criador. Dizendo "não" aos prazeres permitidos, ele também fortalece a sua alma para rejeitar os prazeres proibidos e oferece, com o seu sacrifício, uma reparação a Deus pelos seus pecados.

"Rasgai o coração, e não as vestes", diz o profeta. Que, nesta Quaresma, sejamos capazes de chorar as nossas faltas, que tanto ofendem a Majestade Divina, e que nossas penitências sejam todas realizadas com espírito de amorcom o espírito dos santos, que abraçavam qualquer sofrimento e carregavam qualquer cruz só para consolar o Sacratíssimo Coração do seu Deus.

Uma santa e penitente Quaresma a todos!

Referências

  1. Summa Theologiae, II-II, q. 146, a. 1.
  2. Summa Theologiae, I-II, q. 106, a. 2.
  3. Summa Theologiae, II-II, q. 146, a. 1, ad 4.
  4. Sermo 205, 2.

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Os três pregos da cruz
Espiritualidade

Os três pregos da cruz

Os três pregos da cruz

O desapego das coisas puramente terrenas deveria ser uma meta para todo cristão decidido a agradar somente a Deus.

Equipe Christo Nihil Praeponere12 de Fevereiro de 2015Tempo de leitura: 4 minutos
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O sorriso de Madre Teresa de Calcutá, sempre presente em toda e qualquer circunstância de sua vida, mesmo durante aqueles períodos de "noite escura", dos quais a bem-aventurada se lembrava com angústia em suas cartas, ainda hoje é capaz de impressionar. Quem olha para a imagem da beata enxerga o rosto de uma pessoa que, deixando-se consumir totalmente pelo fogo divino, fez desta nossa peregrinação terrestre um ato contínuo de amor e entrega a Deus. Ou seja, encontrou a felicidade, completando na própria carne as dores que faltaram aos sofrimentos de Cristo pelo seu Corpo, que é a Igreja (cf. Cl 1, 24).

Certamente, um modelo de vida semelhante pode causar, não obstante admirações, grandes perplexidades. Ainda mais em uma sociedade que já não sabe lidar com o sofrimento. Como é possível ser feliz na dor? A resposta a essa pergunta está na cruz. A alegria do homem é fazer a vontade de Deus. Contudo, por se tratar de algo nem sempre fácil — ao contrário, consiste muitas vezes em um verdadeiro martírio —, o cumprimento dessa vontade exige um desprendimento heroico acerca de todo e qualquer apego, seja material seja afetivo. O exemplo primordial de abnegação vem, sobretudo, de Cristo no Horto das Oliveiras. Suando sangue, o Senhor diz: "Pai, se é de teu agrado, afasta de mim este cálice! Não se faça, todavia, a minha vontade, mas sim a tua" ( Lc 22, 42).

Na vida de todos os santos se constata essa atitude do Jesus agonizante que, mesmo sofrendo, se regozija por cumprir o desejo do Pai. A confiança em Deus desperta no ser humano o dom do olhar sobrenatural, o qual ilumina o caminho para a verdadeira glória do céu. Como costumava dizer Santa Teresa d'Ávila, esta vida é como uma noite ruim, numa ruim pousada [1]. Nossa meta definitiva é, verdadeiramente, a eterna casa do Pai. Aqui, somos somente estrangeiros. Por isso São Paulo e Silas, dentro da prisão, mesmo diante da possibilidade da morte, cantavam um hino a Deus (cf. At 16, 25). Eles estavam convictos daquilo que Nossa Senhora também prometera em Lourdes a Santa Bernadette: "Não lhe prometo a felicidade neste mundo, somente no outro" [2].

Com efeito, o desapego das coisas puramente terrenas deveria ser uma meta para todo cristão decidido a agradar somente a Deus. "Quem me dera não estar atado senão por três pregos, nem ter outra sensação em minha carne que a Cruz" [3]. Era o que constantemente pedia São Josemaria Escrivá em suas meditações diárias. Neste propósito, o santo do cotidiano em nada menosprezava as obrigações e responsabilidades diárias do homem perante a sociedade. É fato que um verdadeiro cristão deve agir bem em todas os ambientes, transformando-os em ocasião de adoração perpétua a Deus. O que São Josemaria pedia era a graça de enxergar tudo como oportunidade de oblação ao Senhor, a sempre lembrar-se de que o fim de todas as nossas ações só pode ser um: o encontro com Jesus.

Foi este pensamento que encantou a então filósofa ateia Edith Stein, e a fez abandonar suas raízes judias para tomar o hábito das carmelitas. Ela compreendeu a ciência da cruz, por assim dizer, descobrindo o significado salvífico e redentor da paixão de Cristo. "O que nos salvará não serão as realizações humanas, mas a paixão do Cristo, na qual quero ter parte" [4]. Com estas palavras, a futura santa Teresa Benedita da Cruz renunciava ao seu prestigioso nome, à sua posição ao lado de um dos maiores filósofos modernos — Edmund Husserl —, aos seus bens materiais, a fim de alcançar a sétima morada, isto é, a plena conformação à vontade divina. A 2 de agosto de 1942, irmã Teresa cumpria seu desejo de tomar parte na paixão de Cristo, oferecendo-se em holocausto, durante o martírio no campo de concentração nazista, em Auschwitz.

Na homilia de sua canonização, o Papa João Paulo II assim descreveu o itinerário de conversão da santa [5]:

O amor de Cristo foi o fogo que ardeu a vida de Teresa Benedita da Cruz. Antes ainda de se dar conta, ela foi completamente arrebatada por ele. No início, o seu ideal foi a liberdade. Durante muito tempo, Edith Stein viveu a experiência da busca. A sua mente não se cansou de investigar e o seu coração de esperar. Percorreu o árduo caminho da filosofia com ardor apaixonado e no fim foi premiada: conquistou a verdade; antes, foi por ela conquistada. De facto, descobriu que a verdade tinha um nome: Jesus Cristo, e a partir daquele momento o Verbo encarnado foi tudo para ela. Olhando como Carmelita para este período da sua vida, escreveu a uma Beneditina: "Quem procura a verdade, consciente ou inconscientemente, procura a Deus".

A beleza do sorriso de Madre Teresa, o canto de Silas e São Paulo, a santificação no meio do mundo de São Josemaria Escrivá, o martírio de Santa Teresa Benedita da Cruz. Todas essas realidades, cuja eloquência do testemunho não nos deixa indiferentes, têm sua origem e fim no desprendimento das coisas da terra. Quem coloca seu coração em Deus transmite a luz de Cristo em sua face e atrai os outros para o céu — "Eu vivo, mas já não sou eu; é Cristo que vive em mim. A minha vida presente, na carne, eu a vivo na fé no Filho de Deus, que me amou e se entregou por mim", escreve São Paulo aos Gálatas (2, 20).

A única coisa que deve nos prender a este mundo são os três pregos da cruz. Essa é a nossa meta cristã.

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