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Precisamos falar das mentiras sobre a legalização do aborto
Sociedade

Precisamos falar das mentiras
sobre a legalização do aborto

Precisamos falar das mentiras sobre a legalização do aborto

Há anos o movimento que defende a descriminalização do aborto utiliza jogos linguísticos para manipular a opinião pública

Equipe Christo Nihil Praeponere1 de Dezembro de 2014Tempo de leitura: 7 minutos
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"Mas a hora vem, a hora chegou, em que a vocação da mulher se realiza em plenitude (...) Por isso, no momento em que a humanidade conhece uma mudança tão profunda, as mulheres iluminadas do espírito do Evangelho tanto podem ajudar para que a humanidade não decaia" [1]. Assim se expressavam os padres conciliares ao término do Concílio Vaticano II, vislumbrando o sublime chamado da mulher perante a sociedade: a irradiação do amor. Mas essa, infelizmente, parece não ser a proposta de alguns meios de comunicação, que rezam mais na cartilha das grandes empreiteiras do aborto que nas máximas do decálogo.

Na sua edição de novembro, a revista TPM lançou uma campanha humilhante na internet, a fim de despertar um famigerado debate a respeito da legalização do aborto [2]. Com a hashtag # precisamosfalarsobreaborto, a publicação incentivou seus leitores a postarem supostos números e pesquisas sobre o tema nas redes sociais, além de fotos com o cartaz do movimento. À ideia, como era de se esperar, somaram-se vozes de alguns artistas já nacionalmente conhecidos por suas posições, no mínimo, controversas.

Um dos sinais de decadência de uma sociedade, dizia o filósofo Mário Ferreira dos Santos, é quando, em assuntos importantes, a população passa a dar ouvidos a artistas e atletas [3]. A revista TPM é a mesma que em 2007, durante a visita do Papa Bento XVI ao Brasil, fazia chacota de católicos e cristãos dizendo-se "super a favor do amor. Mas, sim, a gente já deve ter feito várias piadas sobre casamento" [4]. Na reportagem agora em questão, o auge da vigarice intelectual sai da boca de um comediante — sim, segundo a TPM, alguém muito relevante para palpitar neste assunto: "Um dia, espero, ainda vamos achar a proibição do aborto um absurdo, assim como achamos um absurdo a escravidão ou o holocausto". Esta é a lógica da delinquência: impedir que um bebê seja assassinado pela própria mãe é o mesmo que segregar negros e brancos ou mandar judeus para câmaras de gás. Eis os nossos "formadores de opinião". Eis a voz de quem encontra eco nos meios de comunicação brasileiros.

Prestem atenção: aborto significa retalhar uma vida indefesa. E, vá lá, ainda que não se pudesse dizer com toda certeza se o embrião em desenvolvimento é ou não um ser humano — embora os estudos de embriologia já não manifestem qualquer dúvida sobre a humanidade do feto —, seríamos do mesmo modo obrigados a optar pela via da prudência, isto é, a preservação da vida, pois existiria a possibilidade de se tratar de um ser humano. Olavo de Carvalho está certo quando diz: "À luz da razão, nenhum ser humano pode arrogar-se o direito de cometer livremente um ato que ele próprio não sabe dizer, com segurança, se é ou não um homicídio" [5]. A lei moral exige isso. Os defensores do aborto, por outro lado, não só se recusam a admitir um debate franco a respeito do início da vida, mas também, não se sabe com que autoridade, assumem a responsabilidade de escolher quem merece ou não viver. Isso não é diálogo, isso é imposição, como bem observou o editorial do jornal Gazeta do Povo: apesar do título, a campanha da revista pede debate, "mas não dá espaço aos argumentos pró-vida e já indica qual deveria ser o seu resultado: o apoio à descriminalização" [6]. Não é preciso ser nenhum filósofo para perceber a trapaça.

TPM diz: "A cada dois dias uma brasileira morre em decorrência de um aborto ilegal". É falso. Segundo dados do próprio SUS — os quais podem ser acessados por qualquer indivíduo que tenha acesso à internet —, o número de mortes anuais por aborto ilegal no Brasil não chega a cinquenta [7]. No ano de 2012, foram registradas 69 mortes por aborto: 13 foram espontâneos, 11 para a classificação "outros tipos de aborto", 40 por razões "não especificadas" e apenas 5 por falhas durante o procedimento. Outra mentira que se costuma aventar: o número de abortos ilegais é consequência da legislação vigente, que restringe a prática. Ora, seguindo esse raciocínio, teríamos de descriminalizar o homicídio por causa dos 60 mil assassinatos que ocorrem todos os anos no Brasil. Trata-se, evidentemente, de uma grande boçalidade. A Rússia, onde o aborto é legalizado desde a era soviética, viu-se obrigada a impor limites à sua atual legislação, dada a quantidade absurda de abortamentos realizados no país: o número de abortos é maior que o de nascimentos [8].

De fato, o principal entrave para estas discussões é justamente o lobby que se faz em cima de números e pesquisas duvidosas. Há anos o movimento que defende a descriminalização do aborto utiliza jogos linguísticos para manipular a opinião pública. Na década de 1970, o falecido médico americano Bernard Nathanson — até então conhecido como o "rei do aborto" — ficou horrorizado ao perceber, por meio do ultrassom, o que ocorria com o feto durante a operação. A sua descoberta resultou no famoso documentário "O grito silencioso" [9]. Anos mais tarde, ele revelaria a farsa a respeito dos números de abortos clandestinos nos Estados Unidos [10]:

É uma tática importante. Dizíamos, em 1968, que na América se praticavam um milhão de abortos clandestinos, quando sabíamos que estes não ultrapassavam de cem mil, mas esse número não nos servia e multiplicamos por dez para chamar a atenção. Também repetíamos constantemente que as mortes maternas por aborto clandestino se aproximavam de dez mil, quando sabíamos que eram apenas duzentas, mas esse número era muito pequeno para a propaganda. Esta tática do engano e da grande mentira se se repete constantemente acaba sendo aceita como verdade.

Com efeito, a revista TPM presta um enorme desserviço à sociedade brasileira, sobretudo às mulheres, ao reproduzir dados e opiniões de ONGs que, sabe-se muito, são, no mais das vezes, grandes parceiras das fundações internacionais — cujas intenções são, inegavelmente, o controle da natalidade [11]. Primeiro, é um atentado à soberania nacional. Segundo — e mais importante —, um crime contra a dignidade humana. Raciocinem: que mais pode gerar gravidezes indesejadas e, por conseguinte, abortos — sejam legais sejam ilegais — que o estímulo à "cultura do descarte", como denuncia o Papa Francisco? A própria revista TPM admite: "nunca fomos a favor de casar virgem". O Brasil segue na lista dos países onde os jovens iniciam a vida sexual mais cedo. Ora, o recorde não se deve a outra coisa senão à so called "educação sexual". Desde o ensino fundamental, os adolescentes são ensinados a se considerarem uma espécie de mercadoria para comprar e vender. E a mídia em geral é a principal promotora desse tipo de comportamento, incentivando a pornografia, o adultério, relações promíscuas etc. Eles inoculam o veneno para sugerirem o remédio.

Ademais, diferentemente da propaganda que se faz, é preciso frisar que a legalização do aborto não se trata de uma iniciativa em defesa das mulheres pobres. Ao contrário, é uma clara vertente da ciência eugenista. Basta lembrar, por exemplo, o projeto macabro idealizado pela senhora Margaret Sanger, a fundadora da poderosa Federação Internacional de Paternidade Planejada (IPPF). Ela dizia: "Nós queremos exterminar a população negra" [12]. Hoje, nos Estados Unidos, 40% das gravidezes de mulheres negras terminam interrompidas graças a essa política [13]. Diga-se o óbvio: não são os pró-vida que se assemelham aos nazistas.

O lamentável caso de Jandira Magdalena dos Santos Cruz, a jovem de 27 anos que veio a falecer após complicações durante um aborto clandestino, tendo depois o corpo mutilado pelos assassinos, apenas elucida o que João Paulo II já havia observado na Carta Apostólica Mulieris Dignitatem [14]:

O fato narrado no Evangelho de João pode apresentar-se em inúmeras situações análogas em todas as épocas da história. Uma mulher é deixada só, é exposta diante da opinião pública com "o seu pecado", enquanto por detrás deste "seu" pecado se esconde um homem como pecador, culpado pelo "pecado do outro", antes, co-responsável do mesmo. E, no entanto, o seu pecado escapa à atenção, passa sob silêncio: aparece como não responsável pelo "pecado do outro"! Às vezes ele passa a ser até acusador, como no caso descrito, esquecido do próprio pecado. Quantas vezes, de modo semelhante, a mulher paga pelo próprio pecado (pode acontecer que seja ela, em certos casos, a culpada pelo pecado do homem como "pecado do outro"), mas paga ela só e paga sozinha! Quantas vezes ela fica abandonada na sua maternidade, quando o homem, pai da criança, não quer aceitar a sua responsabilidade? E ao lado das numerosas "mães solteiras" das nossas sociedades, é preciso tomar em consideração também todas aquelas que, muitas vezes, sofrendo diversas pressões, inclusive da parte do homem culpado, "se livram" da criança antes do seu nascimento. "Livram-se": mas a que preço? A opinião pública de hoje tenta, de várias maneiras, "anular" o mal deste pecado; normalmente, porém, a consciência da mulher não consegue esquecer que tirou a vida do próprio filho, porque não consegue apagar a disponibilidade a acolher a vida, inscrita no seu "ethos" desde o "princípio".

Infelizmente, essa opinião pública denunciada pelo Santo Padre é a mesma a instrumentalizar a morte de Jandira para a causa da descriminalização do aborto. Assim, induzem muitas mulheres ao erro, submetendo-as à pressão machista, a qual, vejam só, as feministas juram combater. No documentário Blood Money, há vários depoimentos de mulheres que se submeteram a um aborto e ainda hoje vivem as sequelas físicas e psíquicas do crime [15]. A Igreja não é alheia a esse sofrimento. É justamente por conhecer o coração das mulheres que o Magistério se manifesta inegociavelmente a favor da vida. Já ficou provado: aborto não é solução. É, antes, um dos problemas. Por isso, mais do que falar sobre aborto, é preciso falar das mentiras que geralmente estão associadas às suas propostas de legalização. A revista TPM precisa descobrir isso.

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Ataques à família são suicídio da humanidade, diz Cardeal
Sociedade

Ataques à família são suicídio
da humanidade, diz Cardeal

Ataques à família são suicídio da humanidade, diz Cardeal

Cardeal Gerhard Müller sai em defesa da família: “A diferença entre homem e mulher é uma realidade positiva porque reflete a vontade de Deus na criação”.

Edward PentinTradução: Equipe Christo Nihil Praeponere28 de Novembro de 2014Tempo de leitura: 4 minutos
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A Congregação para a Doutrina da Fé foi a principal responsável pelo colóquio internacional e inter-religioso Humanum, que, por três dias, falou sobre a complementaridade de homem e mulher no casamento.

O prefeito da Congregação, Cardeal Gerhard Müller, falou com o Register no dia 18 de novembro, perto do fim da conferência, para avaliar como o encontro foi conduzido, discutir o que mais pode ser feito para defender o matrimônio e prever como o colóquio poderá complementar o Sínodo dos Bispos sobre a família.

National Catholic Register: Como aconteceu esse colóquio? Ele correspondeu às suas expectativas?

Cardeal Müller: Ele tem ido muito bem até agora. Todas as nossas expectativas foram correspondidas e até superadas! É algo extraordinário que tantas comunidades cristãs e 14 religiões do mundo possam se reunir para dar testemunho de convicções básicas a respeito do matrimônio. Mesmo vindo de diferentes tradições, entendimentos, categorias e concepções, houve uma notável unidade sobre a natureza do matrimônio.

O que todos nós compartilhamos é um ponto de referência comum na natureza humana, o essencial da existência humana e o relacionamento entre homem e mulher como uma célula, como um ponto de partida para o bem do casal e também das crianças.

Register: Parece estranho que essa conferência não tenha acontecido antes, que não tenha havido essa ênfase no matrimônio, dado que ele tem estado sob constante ataque pelos últimos 50 anos. Você gostaria de ter visto um evento como esse acontecer mais cedo?

Müller: De fato! Durante este período de mais de um ano em que estivemos preparando o colóquio, nós na Congregação para a Doutrina da Fé ouvimos várias vezes: “Isso é novo" ou “Nós nunca fizemos algo assim antes!". Talvez esse evento devesse ter acontecido antes, mas agora a crise que enfrenta a família aguçou o nosso senso para o quanto esse tipo de testemunho internacional e inter-religioso é necessário.

O modo como a família é desvalorizada ou ameaçada em vários lugares é como estar à beira de um precipício. Nós devemos parar – e não dar o último passo, que não tem volta. Nos ataques ao matrimônio enquanto união complementar entre homem e mulher, estamos vendo como que um suicídio da própria humanidade, especialmente no Ocidente secularizado – na Europa, nos Estados Unidos, na América do Norte. A diferença entre homem e mulher é uma realidade positiva porque reflete a vontade de Deus na criação, e a vontade de Deus é boa e visa o desenvolvimento humano!

Register: O que pode ser feito, além de uma conferência como essa, para que a maioria silenciosa seja ouvida e para reagir à minoria falante que tenta redefinir o casamento?

Müller: Isso é fundamental. Muitas pessoas têm dado ênfase aos esforços para redefinir o matrimônio ou têm focado os problemas na família. As pessoas pensam que o relacionamento entre homem e mulher é discutido todo o tempo... mas não é. A discussão é sobre sexo ou relações fracassadas, mas não sobre por que homem e mulher foram designados para viver juntos ou como eles complementam e completam um ao outro. É nisto que a vasta maioria das pessoas está interessada: em como tornar o seu casamento melhor, mais forte, mais satisfatório e vivificante.

A maioria silenciosa até agora não entendeu o que está acontecendo na sociedade ou tem sido silenciada pelo uso da palavra 'discriminação', aplicada àqueles que querem defender a família tradicional. Mas não podemos dizer que a relação básica entre homem e mulher é apenas um produto social ou cultural, um 'presente' de um governo ou um constructo humano. Mais do que isso, ela é uma base. Do mesmo modo, dignidade pessoal e liberdade não são produtos sociais e culturais, mas estão inscritos na nossa própria natureza, como homem e mulher, criados à imagem de Deus.

As crianças, também, não são um produto da sociedade ou um mero objeto do Estado, do governo. Os governos não podem substituir a responsabilidade primordial dos pais para os seus filhos, nem negar às crianças o direito de crescer com uma mãe e um pai.

Register: Em seu discurso, você falou sobre homem e mulher caminhando rumo ao divino, por meio do casamento. Você pode falar mais sobre isso?

Müller: Na tradição católica, o matrimônio é baseado na criação, e essa criação expressa a vontade de Deus. Na história da salvação, Deus enviou o Seu Filho, Jesus Cristo, que é a vontade de Deus encarnada, para a nossa salvação. Em Cristo, o estado natural do casamento, o vínculo natural entre homem e mulher no matrimônio, é elevado a um sacramento, a um sinal e instrumento de Sua graça e de Sua própria relação com a Igreja.

O vínculo de unidade entre o homem e a mulher que se amam, no matrimônio, é expresso pelo amor de Jesus Cristo à Sua Igreja. E esse é um amor de doação, um amor crucificado: que poder há no sagrado matrimônio dos cônjuges para realmente perceber que eles estão diante de um meio, um instrumento, não só para a própria santificação, mas para a divinização de todas as pessoas que entram em contato com o amor divino da Trindade através de sua vida de casados.

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O pecado de certa "opção fundamental"
Teologia

O pecado de certa "opção fundamental"

O pecado de certa "opção fundamental"

Para certos teólogos, Judas teria de vender Jesus duas vezes para que cometesse um atentado contra os céus.

Equipe Christo Nihil Praeponere24 de Novembro de 2014Tempo de leitura: 4 minutos
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O apóstolo São João afirma ser mentiroso quem diz não ter pecado [1]. A tendência à corrupção está na natureza humana desde que Eva engoliu as sugestões da serpente juntamente com o fruto proibido. O homem é um campo de batalha entre os desejos da carne e os desejos da alma. Trata-se da concupiscência da culpa original. Não é para admirar, portanto, que a expressão “ sou um homem sem pecados" tenha ficado popular nos últimos tempos [2]. O que causa espanto, a bem da verdade, é a reprodução desse tipo de pensamento na boca de alguns dos teólogos.

Embora o pecado seja a única parte da teologia católica que pode ser realmente provada – para lembrar uma observação de Chesterton já no início do século XX –, os teólogos modernos negam o pecado humano, que eles podem ver na rua [3]. Não são poucos os que, em nome de uma falsa ideia de misericórdia, pregam a inexistência do inferno e da responsabilidade humana perante os seus delitos. Imitando a atitude farisaica – que diante de Deus, não consegue enxergar as próprias faltas –, eles adaptam a moral humana aos seus interesses, fazendo do amor de Deus uma desculpa para as transgressões mais absurdas [4]. É na esteira desse raciocínio que se encontram as tentativas de legitimação do divórcio e comunhão para recasados, a aprovação do aborto, o “casamento" gay, a eutanásia etc.

Uma teoria muito popular entre alguns moralistas católicos sintetiza toda a trama: a chamada opção fundamental. Segundo essa tese, o pecado mortal seria uma possibilidade remota na vida do homem cristão, dada a sua opção fundamental pela bondade. Com efeito, na consideração do comportamento humano, a Igreja não deveria levar em conta atitudes particulares (pois estas não constituiriam uma decisão absoluta sobre a vida da pessoa), mas tão somente aquela “opção fundamental", com que o indivíduo decide globalmente sobre si próprio, por meio de sua liberdade. Qualquer semelhança com a teoria da justificação luterana não é mera coincidência. O adágio de Lutero – “seja um pecador e peque fortemente, mas creia e se alegre em Cristo mais fortemente ainda" – é o que, de fato, está na raiz da “opção fundamental" [5]. Resumidamente, o que se está a dizer é que uma pessoa precisaria insistir repetidas vezes num pecado para que ofendesse a Deus. Para estes teólogos, Judas teria de vender Jesus duas vezes para que cometesse um atentado contra os céus.

Há alguns anos, numa entrevista ao canal EWTN, o cardeal nigeriano Francis Arinze (ex-prefeito da Congregação para o Culto Divino) não deixou de alertar para a perniciosidade dessas teorias:

Para que uma pessoa cometa pecado mortal, não é preciso uma declaração formal, rejeitando Deus; é suficiente realizar um ato num grande ponto (...) Davi matou Urias somente uma vez, não duas, e as consequências foram terríveis (...) essas pessoas que dizem que precisa repetir o ato, quantas vezes eu preciso matar alguém para que isso seja um pecado mortal? Não há necessidade de conforto àqueles que são tentados, nós lhe desejamos falar a verdade e a verdade os libertará.

À crítica do cardeal Arinze soma-se a voz de ninguém menos que São João Paulo II. Na sua encíclica Veritatis Splendor, de 1993, quando a polêmica em torno do ensinamento da Igreja já ultrapassava todos os limites, o Santo Padre pôs os devidos pingos nos “is", esclarecendo aos teólogos partidários da “opção fundamental", que “estas tendências são contrárias ao ensinamento bíblico, que concebe a opção fundamental como uma verdadeira e própria escolha da liberdade e une profundamente uma tal escolha com os atos particulares" [6]. Por conseguinte, aqueles que insistiram nesta abordagem, mesmo após as admoestações do Santo Padre, não escaparam ao crivo da Congregação para Doutrina da Fé. É o caso, por exemplo, do padre Marciano Vidal, que teve uma de suas obras notificadas pelo então cardeal-prefeito, Joseph Ratzinger [7]. Como resposta a algumas críticas levantadas pela mídia em relação ao episódio, Ratzinger foi categórico: “a vigilância exercida neste caso pelos Pastores faz parte da responsabilidade que o Senhor lhes confiou de guardar intacto o «depósito da fé» para o bem da Igreja inteira" [8].

De fato, a Igreja tem o dever de esclarecer a consciência dos homens, sobretudo quando se põe em jogo a salvação das almas. Dizer à humanidade que ela está marcada pelo pecado não é, de forma alguma, uma atitude de intolerância ou intromissão na vida privada, como fazem pensar os arautos do liberalismo. Ao contrário, é, isso sim, uma exortação à busca da misericórdia divina, que é capaz de perdoar e nos tornar filhos da santidade. Se é verdade que o homem vive preso a um corpo de morte, muito mais verdade é a graça de Jesus [9]. Essa dupla realidade do homem é descrita de um modo dramático por Santo Ambrósio de Milão [10]:

[...] O que é o homem se Vós não o visitais? Não esqueçais, portanto, o débil. Lembrai-Vos, ó Senhor, que me fizestes débil, e que do pó me plasmastes. Como poderei permanecer de pé, se Vós não me olhais continuamente para consolidar este barro, já que a minha consistência provém da Vossa face? "Se escondeis o Vosso rosto, tudo desfalece" (Sl 103, 29): mas, se Vós me olhais, ai de mim! Nada tendes para ver em mim senão montanhas de delitos: não traz vantagem ser abandonados nem ser vistos, porque, quando somos contemplados, provocamos desgosto. Podemos, porém, pensar que Deus não rejeita aqueles que vê, porque purifica aos que olha. Diante d'Ele arde um fogo capaz de queimar a culpa (cf. Jl 2, 3).

Na Veritatis Splendor, o Papa João Paulo II recordou que “seguir Cristo não é uma imitação exterior, já que atinge o homem na sua profunda interioridade. Ser discípulo de Jesus significa tornar-se conforme a Ele, que Se fez servo até ao dom de Si sobre a cruz" [11]. Deus nos dá a Sua Graça porque o pecado não é uma mera invenção de Santo Agostinho. O inferno existe. E ele não está vazio!

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Pais são presos por não aceitarem "ideologia de gênero"
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Pais são presos por não
aceitarem "ideologia de gênero"

Pais são presos por não aceitarem "ideologia de gênero"

Na Alemanha, um casal, pai de nove filhos, foi ameaçado de perder a liberdade, porque sua filha se negou a participar das aulas de “educação sexual" previstas para a escola primária.

Equipe Christo Nihil Praeponere21 de Novembro de 2014Tempo de leitura: 4 minutos
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Enquanto o Brasil resiste bravamente à implantação legal da ideologia de gênero, alguns fatos ocorridos fora do continente podem ajudar a esclarecer ainda mais de que se trata essa grande farsa, concebida para destruir a sociedade, a família e o próprio homem.

Na Alemanha, um casal, pai de nove filhos, está ameaçado de perder a liberdade, porque sua filha se negou a participar das aulas de “educação sexual" previstas para a escola primária. A polícia alemã já encarcerou Eugen Martens, em agosto de 2013, e só não prendeu ainda sua esposa, Luise, porque ela está amamentando o filho mais novo. O agente policial que visita a família, no entanto, garante: “O escritório da promotoria fará aplicar a decisão do juiz". Ou seja, mais dia ou menos dia, também a mãe será presa.

Qual o crime cometido por Eugen e Luise, moradores de um pequeno município na Renânia do Norte-Vestfália? É verdade que, na Alemanha, “a escola é obrigatória e se uma criança falta às aulas, a escola tem obrigação de denunciar os pais e o tribunal pode multar essa família". Mas, até aqui o casal não se tem mostrado negligente em relação à educação de suas crianças. Elas têm ido à escola, regularmente. Foi apenas a sua filha recusar-se a receber aulas de gênero, que o Estado seguiu o seu encalço.

As aulas da chamada “educação sexual" têm um conteúdo perverso, como conta Mathias Ebert, fundador da Associação Besorgte Eltern (“Pais preocupados"), fundada justamente para denunciar a corrupção dos seus filhos: “Não só se ensina às crianças como funciona o sexo entre homens e mulheres, mas se coloca uma 'variedade' de práticas sexuais: sexo oral, sexo anal e muito mais. A partir da escola primária dizem aos meninos que seu gênero não está determinado e que não podem saber se são meninos ou meninas; que devem refletir".

Ebert também afirma que a prisão da família Martens não é um caso isolado na Alemanha. “Não conheço o número exato de pais presos, mas só o pequeno grupo de pais da cidade de Paderborn tem passado, no total, 210 dias presos", explica. “É um escândalo enorme, também, porque são justamente as crianças que querem sair da aula. Na cidade de Borken, por exemplo, em uma classe, a lição perturbou tanto as crianças que seis delas desmaiaram".

Não é preciso atravessar o oceano para descobrir uma situação tão ou até mais trágica do que essa. No Brasil, as escolas ensinam às crianças, desde a mais tenra infância, como acontece um ato sexual – chegam a fazer encenações ou demonstrações com objetos de plástico –, como usar um método anticoncepcional, como se masturbar etc. Com a ideologia de gênero, novas perversões estão “no forno": além de aprender o sexo antinatural, as crianças precisariam questionar a própria “identidade" e, como nas escolas alemãs, ser levadas a “refletir" “se são meninos ou meninas". Os pais, ainda que não concordassem com tudo isso, teriam o mesmo fim que Eugen e Luise Martens: a cadeia.

Família Martens.

É com esse enfoque que a Organização Mundial da Saúde trata da educação das crianças e adolescentes. No documento Standards for Sexuality Education in Europe [“Padrões para Educação Sexual na Europa"] – após deixar bem claro que o seu conceito de “educação sexual" não tem nada que ver com “preparação para o casamento e para a família" [1] –, ela diz que a educação dos pais em matéria de sexualidade “é inadequada para a sociedade moderna" [2] – como se fosse o Estado a decidir a “medida de todas as coisas".

Isso quer dizer que a educação sexual não seja importante? Absolutamente, não. A Igreja reconhece a importância de que “as crianças e os adolescentes (...) sejam formados numa educação sexual positiva e prudente, à medida que vão crescendo" [3]. O que acontece na Alemanha – e, de igual forma, em todo o Ocidente –, porém, é um desrespeito ao princípio da subsidiariedade. “A educação sexual, direito e dever fundamental dos pais, deve atuar-se sempre sob a sua solícita guia, quer em casa quer nos centros educativos escolhidos e controlados por eles" [4], ensina o Papa João Paulo II. Ou seja, a sociedade e o Estado devem colaborar, na medida do possível, com a educação dos pais, e não o contrário. São “os pais, que transmitiram a vida aos filhos, (...) seus primeiros e principais educadores", e este direito-dever não só é essencial, mas também insubstituível e inalienável [5].

A fundação Besorgte Eltern tem realizado inúmeras manifestações na Alemanha, exigindo respeito não só ao papel primordial dos pais na formação de seus filhos, como à própria integridade das crianças. “Que não se deturpe os sentimentos das crianças", pede Mathias Ebert. “Está claro que, se deixaram as aulas, é por causa do clima que respiram em casa, mas, isto é errado? É errado que um menino tenha determinados valores, transmitidos por sua família, e viva com base neles? Creio que não."

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