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O ultrassom que mudou a minha vida
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O ultrassom que mudou a minha vida

O ultrassom que mudou a minha vida

Ex-diretora de clínica de abortos conta como abandonou a cultura da morte para se tornar ativista pró-vida

Abby JohnsonTradução: Equipe Christo Nihil Praeponere12 de Março de 2015Tempo de leitura: 11 minutos
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O texto que segue é o primeiro capítulo do livro Unplanned (sem tradução para o português), da ativista pró-vida Abby Johnson. Conta como um simples ultrassom mudou totalmente a sua história e revelou a ela a terrível verdade sobre o aborto. A sua experiência é muito parecida com a do dr. Bernard Nathanson, produtor do filme "O Grito Silencioso". Se ainda não assistiu ao vídeo, clique aqui. Nessa produção, é possível acompanhar, com detalhes de um ultrassom, como é feito um aborto.

Sem mais delongas, eis o testemunho de Abby:

A cabeça de Cheryl apareceu em meu escritório. "Abby, precisam de mais uma pessoa na sala de exames. Você está disponível?"

Eu levantei os olhos de minha papelada, surpresa. "Claro."

Embora estivesse com a Planned Parenthood por oito anos, nunca tinha sido chamada para a sala de exames para ajudar a equipe médica durante um aborto, e não fazia ideia por que precisavam de mim agora. Eram as enfermeiras instrumentistas quem ajudavam nos abortos, não as outras equipes da clínica. Como diretora dessa clínica em Bryan, Texas, eu podia ocupar qualquer posição, se fosse necessário, exceto, é claro, a dos médicos e enfermeiras realizando procedimentos médicos. Em algumas ocasiões, atendi ao pedido de uma paciente de ficar com ela e até segurar a sua mão durante o processo, mas apenas quando era eu a assistente a acompanhá-la durante a entrada e o aconselhamento. Não era o caso de hoje. Então, por que precisavam de mim?

O aborteiro visitante de hoje só esteve aqui, na clínica de Bryan, duas ou três vezes antes. Ele praticava abortos privadamente a cerca de 160 quilômetros de distância. Assim que conversei com ele sobre o trabalho, algumas semanas antes, ele me explicou que, para ficar mais fácil, só fazia abortos por ultrassom – o procedimento abortivo com o menor risco de complicações para a mulher. Porque esse método permite ao médico ver exatamente o que está acontecendo dentro do útero, há menos chances de perfurar a parede do útero, um dos riscos do aborto. Eu respeitava isso da parte dele. Quanto mais pudesse ser feito para manter as mulheres seguras e saudáveis, melhor, eu pensava. No entanto, expliquei a ele que essa prática não era o protocolo comum em nossa clínica. Ele entendeu e disse que seguiria nossos procedimentos usuais, embora concordássemos que ele estaria livre para usar o ultrassom, se a situação assim o exigisse.

Pelo que sabia, nunca tínhamos feito abortos por ultrassom em nossas instalações. Fazíamos abortos apenas em sábados alternados, e a meta estipulada por nossa filial era realizar de 25 a 35 procedimentos naqueles dias. Gostávamos de terminar tudo por volta das 14h. Nosso procedimento costumava durar em torno de 10 minutos, mas um ultrassom atrasava mais 5 minutos – e quando você está agendando 35 abortos para um dia, esses minutos a mais fazem a diferença.

Relutei por um momento do lado de fora da sala de exames. Nunca gostei de entrar nessa sala durante um procedimento de aborto – nunca aceitei bem o que acontecia por trás daquela porta. Mas, como todos nós devíamos estar prontos para colaborar e fazer o serviço, eu abri a porta e entrei.

A paciente já estava sedada – ainda consciente, mas grogue –, com o médico lançando a luz sobre ela. Ela estava em posição, os instrumentos arrumados na bandeja próxima à porta e a enfermeira posicionava a máquina de ultrassom perto da mesa de operações.

"Eu vou realizar um aborto por ultrassom nessa paciente. Preciso que você segure a sonda", explicou o médico.

Assim que coloquei a sonda de ultrassom nas mãos e ajustei as configurações na máquina, argumentei comigo mesma: Eu não quero estar aqui. Eu não quero participar de um aborto. Não, atitude errada – eu precisava me concentrar para essa tarefa. Respirei fundo e tentei prestar atenção à música de rádio que tocava suavemente ao fundo. É uma boa experiência de aprendizado – nunca vi um aborto por ultrassom antes, disse a mim mesma. Talvez isso me ajude na hora de aconselhar as mulheres. Vou aprender em primeira mão sobre esse processo mais seguro. Além disso, vai acabar em apenas alguns minutos.

Eu não podia imaginar como os próximos 10 minutos iriam abalar as fundações dos meus valores e mudar o curso da minha vida.

Eu havia ocasionalmente diagnosticado clientes por ultrassom antes. Era um dos serviços que oferecíamos para confirmar uma gravidez e estimar a sua duração. A familiaridade de preparar um ultrassom aliviou a minha inquietação por estar nessa sala. Apliquei o lubrificante na barriga da paciente e, então, arrumei a sonda até que o seu útero aparecesse na tela e ajustei a posição da sonda para capturar a imagem do feto.

Esperava ver o que já tinha visto em ultrassons passados. Normalmente, dependendo de quanto tempo era a gestação e de como o feto estava virado, eu via primeiro a perna, ou a cabeça, ou alguma imagem parcial do tronco, e precisava mexer um pouco para conseguir a melhor imagem possível. Mas, dessa vez, a imagem estava completa. Eu podia ver a silhueta inteira e perfeita de um bebê.

Parece-se com Grace quando tinha 12 semanas, eu pensei, surpresa, lembrando da primeira vez em que espreitei minha própria filha, três anos antes, protegida no aconchego de meu ventre. A imagem agora diante de mim parecia a mesma, apenas mais clara e mais nítida. Esse detalhe me assustou. Eu podia ver claramente o contorno da sua cabeça, dos seus braços e pernas, até mesmo dos seus pequenos dedinhos. Perfeitamente.

E, então, rapidamente, o sentimento da ardente memória de Grace foi substituído por um surto de aflição. O que eu estou prestes a ver? Meu estômago se remexeu. Eu não quero assistir o que está prestes a acontecer.

Suponho que isso soa estranho vindo de uma profissional que gerenciava uma clínica da Planned Parenthood por dois anos, aconselhando mulheres em crise, agendando abortos, revisando os orçamentos mensais da clínica, contratando e treinando equipes. Mas, estranho ou não, o simples fato é que eu nunca estive interessada em promover abortos. Eu viria para a Planned Parenthood oito anos antes, acreditando que o seu propósito principal era prevenir gestações indesejadas, reduzindo, desse modo, o número de abortos. Essa era certamente a minha meta. E eu acreditava que a Planned Parenthood salvava vidas – a vida de mulheres que, sem os serviços providos por essa organização, poderiam acabar nas mãos de algum açougueiro de fundo de beco. Tudo isso correu pela minha mente enquanto eu mantinha cuidadosamente a sonda em seu lugar.

"Treze semanas", ouvi dizer a enfermeira, depois de tirar as medidas para determinar a idade do feto.

"Ok", disse o médico, olhando para mim, "apenas mantenha a sonda no lugar durante o procedimento, para que eu veja o que estou fazendo."

O ar frio da sala de exames me fazia congelar. Com meus olhos ainda colados na imagem desse bebê perfeitamente formado, eu assistia ao vídeo, quando uma nova imagem surgiu na tela. A cânula – um instrumento em forma de canudo atado ao final do tubo de sucção – foi introduzida no útero e se aproximava do lado do bebê. Parecia como um invasor na tela, um intruso. Errado. Aquilo parecia errado.

Meu coração acelerou. O tempo parou. Não queria olhar, mas também não queria parar de olhar. Eu não podia não assistir. Estava aterrorizada, mas fascinada ao mesmo tempo, como um desses curiosos que desacelera o carro quando passa diante de algum acidente horrível – não querendo ver um corpo destroçado, mas olhando tudo, mesmo assim.

Meu olhar voou para o rosto da paciente. Corriam lágrimas dos cantos dos seus olhos. Eu podia ver que ela estava sofrendo. A enfermeira limpou o seu rosto com um lenço.

"Apenas respire", a enfermeira gentilmente a instruía. "Respire".

"Está quase acabando", eu sussurrei. Queria ficar focada nela, mas meus olhos voltaram rápido para a imagem na tela.

A princípio, o bebê não parecia se importar com a cânula. Ela tocou suavemente o seu lado e, por um segundo, eu me senti aliviada. É claro, eu pensei. O feto não sente dor. Tinha assegurado isso a inúmeras mulheres, como fora ensinada pela Planned Parenthood. O tecido fetal não sente nada ao ser retirado. Controle-se, Abby. Este é um procedimento médico simples e corriqueiro. Minha cabeça estava trabalhando pesado para controlar minhas reações – não podia esboçar nenhuma inquietação que se parecesse minimamente com terror, enquanto observava a tela.

O movimento seguinte foi o arranco súbito de um pezinho. O bebê começou a chutar, como se tentasse fugir daquele intruso ameaçador. Assim que a cânula apertou o seu lado, o bebê começou a lutar para virar e se mexer. Parecia claro para mim que ele podia sentir a cânula – e não gostava nada do que estava sentindo. Então, a voz do médico interrompeu, me assustando.

" Beam me up, Scotty" [*], ele disse tranquilamente à enfermeira. Estava pedindo a ela que iniciasse a sucção – em um aborto, a sucção só começa quando o médico sente que tem a cânula exatamente no lugar certo.

Eu tive um impulso súbito de gritar: "Pare!", de sacudir aquela mulher e dizer: "Olhe o que está acontecendo com o seu bebê! Acorde! Depressa! Impeça-os!"

Mas assim que concebia essas palavras, eu olhava para minha própria mão segurando a sonda. Eu era uma deles fazendo aquilo. Meus olhos voltaram para a tela de novo. A cânula já estava sendo girada pelo médico e, agora, eu podia ver o seu pequenino corpo ser violentamente retorcido. Por um brevíssimo momento, parecia que o bebê era espremido como um pano de prato, torcido e apertado. Então, ele ficou enrugado e começou a desaparecer para dentro da cânula, diante dos meus olhos. A última coisa que vi foi a sua coluna minúscula e perfeitamente formada ser sugada pelo tubo, e então já era. O útero estava vazio. Completamente vazio.

Eu estava imóvel e incrédula. Sem perceber, soltei a sonda. Ela escorregou da barriga da paciente e deslizou para a sua perna. Eu podia sentir meu coração batendo forte – tão forte que meu pescoço latejava. Tentei puxar fundo a respiração, mas não conseguia inspirar nem expirar. Ainda olhei espantada para a tela, mas ela estava preta agora, porque eu tinha perdido a imagem. Não conseguia assimilar nada. Estava muito chocada e abalada para me mexer. Estava consciente de que o médico e a enfermeira casualmente conversavam enquanto trabalhavam, mas aquilo soava distante, como um vago barulho de fundo, difícil de escutar, tendo o pulsar do meu próprio sangue nos ouvidos.

A imagem do corpo pequenino, destroçado e sugado fora, ainda se repetia em minha mente, e, com ela, a imagem do primeiro ultrassom de Grace – como ela tinha quase o mesmo tamanho. E podia ouvir em minha memória uma das muitas discussões que tive com meu marido, Doug, sobre aborto.

"Quando você estava grávida da Grace, não era um feto; era um bebê", ele dizia. Agora, aquilo me atingia como um raio: Ele estava certo! O que estava no ventre dessa mulher há alguns momentos estava vivo. Não era apenas tecido, células. Era um bebê humano. E estava lutando por sua vida! Uma batalha que ele perdeu num piscar de olhos. O que tenho dito às pessoas por anos, aquilo em que tenho acreditado, o que tenho ensinado e defendido, não passa de uma mentira.

De repente, senti os olhos do médico e da enfermeira em minha direção.

"Abby, você está bem?", perguntou o doutor. Os olhos da enfermeira procuravam o meu rosto com preocupação.

"Sim, estou bem." A sonda ainda não estava corretamente posicionada e, agora, estava preocupada, porque o doutor não conseguia mais ver o interior do útero. Minha mão direita segurou a sonda e a minha esquerda repousou cuidadosamente na barriga quente da mulher. Olhei de relance para o seu rosto. Mais lágrimas e uma expressão de dor. Mexi a sonda até recuperar a imagem do seu útero agora vazio. Meus olhos viajaram de volta para minhas mãos. Olhei-as como se sequer fossem as minhas próprias mãos.

Quantos estragos fizeram estas mãos durante os últimos oito anos? Quantas vidas foram ceifadas por causa delas? Não apenas pelas minhas mãos, mas pelas minhas palavras. E se eu soubesse a verdade, e se a contasse para todas aquelas mulheres?

E se...

Eu tivesse acreditado em uma mentira? Eu tinha promovido cegamente a "linha da empresa" por todo esse tempo. Por quê? Por que não havia procurado pela verdade por conta própria? Por que havia fechado meus ouvidos aos argumentos que escutava? Meu Deus, o que eu tinha feito?

Minha mão estava ainda na barriga da paciente e eu sentia que havia simplesmente tirado algo dela com aquela mão. Eu a tinha roubado. E minha mão começou a doer – sentia uma dor física, de verdade. E bem ali, de pé, ao lado da mesa, com minha mão na barriga daquela mulher em lágrimas, este pensamento emergiu do mais profundo do meu ser:

Nunca mais! Nunca mais.

Entrei no piloto automático. Enquanto a enfermeira limpava a mulher, coloquei de lado a máquina de ultrassom, levantei gentilmente a paciente, que estava mole e grogue. Ajudei-a a sentar-se, coloquei-a em uma cadeira de rodas e a levei à sala de recuperação. Arrumei um cobertor em volta dela. Como muitas pacientes que tinha visto antes, ela continuava a chorar, visivelmente condoída, emocional e fisicamente. Fiz o meu melhor para fazê-la sentir-se mais confortável.

Dez minutos – talvez quinze, no máximo – se passaram, desde que Cheryl me pediu para ajudá-la na sala de exames. E naqueles poucos minutos, tudo mudou. Drasticamente. A imagem daquele bebê sendo torcido e se debatendo ainda se repetia em minha mente… E a paciente? Eu me senti muito culpada. Tinha tirado algo precioso daquela mulher e ela sequer sabia disso.

Como as coisas chegaram a isso? Como deixei que acontecesse? Tinha investido meu ser, meu coração e minha carreira na Planned Parenthood porque me preocupava com as mulheres em crise. E agora era eu mesma quem enfrentava uma crise.

Olhando para trás, para aquele 30 de setembro de 2009, percebo como Deus é sábio não nos revelando o nosso futuro. Se soubesse a tempestade que estava para suportar, não teria tido a coragem de mover adiante. Como eu não sabia, não estava procurando ainda por coragem. Estava, todavia, tentando entender como eu fui terminar naquele lugar – vivendo uma mentira, espalhando uma mentira e machucando toda mulher que eu então queria ajudar.

Eu desesperadamente precisava saber o que fazer depois.

Essa é a minha história.

Abby Johnson.

Notas

* A expressão " Beam me up, Scotty!" é um bordão nos Estados Unidos, retirado da série de ficção científica Star Trek ["Jornada nas Estrelas"]. Trata-se de um comando dado pelo Capitão Kirk ao engenheiro-chefe da nave estelar, Scotty, quando ele precisa ser transportado de volta à nave estelar Enterprise. No contexto do procedimento do aborto, significa, como Abby mesmo explica, um comando para "transportar" a criança do útero materno pelo tubo de sucção. Uma tentativa patética por parte do aborteiro de "brincar" com a situação.

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O apostolado exige a vida de oração
Espiritualidade

O apostolado exige a vida de oração

O apostolado exige a vida de oração

O homem não pode abandonar o próximo, como também não pode, a pretexto de uma vida ativa, esquecer-se de Deus.

Equipe Christo Nihil Praeponere11 de Março de 2015Tempo de leitura: 3 minutos
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Jesus é nosso modelo de serviço e humildade. Despojando-se de sua condição divina, o Filho de Deus desce até o abismo em que se encontra o ser humano para resgatá-lo do pecado. Nesta atitude, revela-se toda a dinâmica do agir de Deus: Ele vem sofrer conosco, faz-se presente no meio de nós, a fim de que o imitemos no trato com nossos irmãos, sobretudo com os mais necessitados.

Criado à imagem e semelhança de Deus, o homem possui uma natural inclinação a fazer o bem. Não se aquieta diante de uma situação de evidente injustiça. Assim como diz Jesus "Eu vim para servir" (Mc 10, 45) —, quer também servir a um propósito importante, tornar-se útil à sociedade. Esse desejo de serviço, por sua vez, exprime-se melhor na vida dos santos, os maiores imitadores de Cristo. Como não se recordar, por exemplo, do testemunho de Madre Teresa de Calcutá, que passou a vida cuidando dos mais pobres e doentes?, do zelo de São João Bosco pela juventude?, da caridade de São Francisco de Assis e das obras de misericórdia de Irmã Dulce? Todos esses santos foram homens e mulheres inflamados pelo primeiro mandamento: Amar a Deus sobre todas as coisas e ao próximo como a ti mesmo.

O mundo exige a presença de cristãos capazes de santificar as realidades mais marginalizadas do cotidiano. O homem não pode, a pretexto de uma vida ascética, esquecer-se da necessidade dos outros. Todavia, uma má interpretação desse último preceito pode conduzir à negação de outro igualmente importante: o homem não pode, a pretexto de uma vida ativa, esquecer-se de Deus. Isso significa que somente almas de vida interior, isto é, pessoas de profundo espírito de oração e contemplação, podem, de fato, santificar as realidades mais marginalizadas do cotidiano. Os santos que mencionamos anteriormente foram heroicos em suas atividades apostólicas não muito pela ousadia, mas porque souberam solidificar seus projetos na rocha da oração. Quando perguntavam a Madre Teresa qual era seu segredo para conseguir cuidar dos leprosos, ela respondia: "Eu rezo".

Há um materialismo nos dias de hoje, que, no plano dos projetos pastorais e caritativos, tende a relativizar a importância da ascese, considerando-a algo secundário ou, muitas vezes, irrelevante. Com efeito, para tornar-se servidor da humanidade, o homem deixa de servir a Deus. Isso revela como também os projetos pastorais podem ser bezerros de ouro. Cristo, antes de iniciar seu ministério público, antes de curar e alimentar os pobres, foi ao deserto jejuar e fazer penitência. Mais ainda: passou 30 anos escondido no silêncio da casa de sua Mãe. E ninguém, em são juízo, diria que Ele deixou de salvar almas durante esse tempo de escondimento e oração. Ao contrário, "Jesus Cristo deu mais glória a Deus Pai pela sua submissão a Maria durante trinta anos do que lhe teria dado se convertesse toda a Terra operando os maiores prodígios." [1] Um verdadeiro serviço aos homens exige um verdadeiro serviço a Deus.

João Paulo I, meditando sobre a aplicação do Concílio Vaticano II, ponderava assim:

"Falar, propor coisas belíssimas, desenhar programas é demasiado fácil; o difícil é fazer, cumprir. Não tendes a impressão de que hoje estamos supermultiplicando reuniões, congressos, comissões para discutir e programar? Não será caso de reduzir um pouco tanta pesquisa, investigação e debate, para dedicar um pouco mais de tempo a rezar, a refletir um pouco mais, em silêncio, e depois arregaçar as mangas e pôr mãos à obra? Não será esta, porventura, a melhor maneira de vivermos o 'pós-Concílio' e de nos situarmos equilibradamente entre tradições e renovação?" [2]

O cristão procura preocupar-se com o homem em sua integridade: espírito, alma e corpo. Não faz parte do cristianismo aquela teologia já várias vezes condenada que, "diante da urgência dos problemas", acentua "unilateralmente a libertação das escravidões de ordem terrena e temporal, dando a impressão de relegar ao segundo plano a libertação do pecado e portanto de não atribuir-lhe praticamente a importância primordial que lhe compete" [3].

A eficácia pastoral depende dessa consciência sobre o pecado e, sobretudo, do auxílio da graça. O homem é apenas um instrumento da providência divina. É a graça de Deus que realiza todos os prodígios manifestados na vida dos santos. É a graça de Deus que liberta a humanidade tanto das mazelas espirituais quanto das materiais. Santa Teresinha não foi menos caridosa, rezando pela conversão de um ladrão condenado à morte, do que São Francisco de Assis, alimentando alguns mendigos. A maior obra de caridade que um padre pode fazer por alguém é ouvir a sua confissão. Esta é a humildade de Cristo: Ele veio para servir ao homem integralmente. Veio para conduzi-lo a Jerusalém Celeste, à morada dos santos e dos anjos, à casa de Deus.

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O bebê que está mudando o debate sobre o aborto
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O bebê que está mudando
o debate sobre o aborto

O bebê que está mudando o debate sobre o aborto

Abortado espontaneamente com apenas 19 semanas de vida, Walter sobreviveu pouco tempo fora do útero. O suficiente para gerar comoção e marcar vidas.

Live Action NewsTradução: Equipe Christo Nihil Praeponere9 de Março de 2015Tempo de leitura: 4 minutos
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"Amontoado de células"; "Tecido"; "Apenas um feto". Essas são expressões comuns usadas pelas pessoas favoráveis ao aborto para descrever o nascituro, a fim de diminuir a humanidade dessas novas vidas. Porém, o modo como as pessoas rotulam os nascituros não é o que os define, e isso está comprovado pela vida de uma pequena criança. No verão de 2013, Walter Joshua Fretz nasceu com apenas 19 semanas de gestação. Ele viveu por poucos momentos, mas sua vida tem tido um impacto duradouro.

Os pais de Walter, Lexi e Joshua Fretz, mãe e pai de duas meninas (que acolheram sua terceira filha, Mia, no último mês de Setembro), aguardavam ansiosamente a chegada do seu novo bebê, quando, de acordo com o blog de Lexi, ela começou a ter sangramentos. Isso não era algo incomum para ela durante a gestação, mas, quando o sangramento se tornou rosa, ela ficou mais preocupada e ligou para sua parteira, que a aconselhou a ir para uma Unidade de Emergência (Emergency Room, em inglês).

Na sala de emergência, várias gestantes chegaram depois dela e foram levadas diretamente para a enfermaria. Mas, uma vez que Lexi ainda não tinha completado 20 semanas – ela estava com 19 semanas e 6 dias – as normas do hospital requeriam que ela permanecesse na emergência. Cerca de uma hora depois, Lexi foi capaz de ouvir as batidas do coração de seu bebê e se sentiu aliviada, mas, enquanto aguardava um ultrassom, começou a sentir as familiares dores de parto. Quase cinco horas depois de chegar ao hospital, Lexi deu à luz seu filho, Walter Joshua Fretz. Ela escreve:

Eu estava chorando bastante naquele momento, mas ele era perfeito. Ele estava completamente formado e tudo estava no lugar; eu podia ver o seu coração batendo em seu pequenino peito. Joshua e eu o seguramos e choramos por ele e olhamos para o nosso filho perfeito e pequenino.

A próxima decisão de Joshua parecia natural e insignificante, mas acabaria se tornando um divisor de águas e até mesmo um salva-vidas para muitas pessoas. Ele foi para o carro pegar a câmera de Lexi para tirar fotos de seu filho. A princípio, isso não era o que Lexi queria, mas as fotos de Walter logo se espalharam por toda a Internet. Elas alcançaram mães enlutadas e ajudaram-nas na perda de seus próprios bebês, e foram usadas para ajudar mulheres a escolher a vida para seus filhos não nascidos.

Lexi recebeu muitas mensagens positivas e compartilhou algumas, incluindo as seguintes:

Acabo de encontrar as imagens de Walter... Eu estou grávida e em uma situação bem ruim esta semana. Fiz meu primeiro ultrassom na semana passada e ele é um menino também. Mas, esta semana, comecei a rezar por um aborto espontâneo ou para decidir acabar [com a gravidez], já que o seu pai está fugindo de toda a responsabilidade. Eu pedi a Deus para me dar um sinal hoje de que ficaríamos bem, ou eu iria em frente e procuraria um aborto amanhã. Algumas horas depois, eu vi o link no Facebook. Fez-me ir às lágrimas. Mas, o mais importante, me fez entender, sem nenhuma dúvida, que eu não posso fazer isso com meu filho.
Eu costumava acreditar que havia razões para justificar alguns abortos. (...) Mas, agora, olhar Walter ali, deitado no seu peito, me traz vergonha por minhas opiniões passadas e desgosto por cada mulher que decide abortar sem entender o valor da vida que traz dentro de si.
Eu sempre pensei que era uma escolha da mulher interromper uma gravidez! Novamente, falta de entendimento, pensar, ou melhor, ser levada a pensar que, nesse estágio, uma mulher poderia abortar um feto (um aglomerado de células!) Quão errada eu estava!!! Estou feliz porque você escolheu compartilhar sua história e as belas fotos desse momento tão triste da sua vida! Foi uma lição para mim!
Estou grávida há 8 semanas e por 3 delas eu fiquei em profunda agonia, sem saber se mantinha ou abortava o bebê (não estou numa boa situação para ter crianças no momento), mas você pôs a minha vida em perpectiva. Eu posso amar este bebê e "me virar", e isso basta para mim agora. Eu vou manter essa criança que estou carregando e guardá-la para a eternidade.

Essas fotos de Walter revelam a humanidade da criança não nascida. Elas provam, sem sombra de dúvidas, que se trata de uma pessoa, e não de uma partícula ou de um monte de tecido. O que levanta a questão: Por que em alguns lugares é legalmente permitido acabar com a vida de um ser humano não nascido?

"Só porque a criança na barriga da mãe não pode ser vista por nós, isso não significa que ela seja um punhado de células", escreve Lexi. "Walter estava perfeitamente formado e era muito ativo no útero. Se ele tivesse apenas mais algumas semanas, teria tido uma chance de lutar na vida. (...) Em meio a toda a nossa dor, fico feliz porque algo de bom pode sair disso. Rezo para que o Senhor continue usando as fotos de Walter para impactar a muitos."

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O escândalo das escolhas definitivas
Papa FranciscoDoutrina

O escândalo das escolhas definitivas

O escândalo das escolhas definitivas

O verdadeiro amor pelas almas não pode nunca prescindir do anúncio da verdade, ainda que esta pareça dura ou difícil de ser seguida

Equipe Christo Nihil Praeponere6 de Março de 2015Tempo de leitura: 4 minutos
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"O matrimônio, por sua própria instituição, se deve dar somente entre dois, isto é, o homem e a mulher". "Dos dois forma-se uma só carne". "Por vontade de Deus, o vínculo nupcial é tão íntimo e fortemente unido, que ninguém entre os homens pode desfazê-lo ou rompê-lo" [1]. Eis a verdade sobre o matrimônio, exposta pelo próprio Cristo e resumida pelo Papa Leão XIII, ainda ao fim do século XIX. Na ocasião, o que rondava a Europa era a ameaça do divórcio; hoje, são tantos os males que cercam o mundo, que mesmo os conceitos de "Matrimônio" e "casamento" – e até de "homem" e "mulher", com a ideologia de gênero –, foram postos em xeque.

Não é, portanto, exclusividade de nossa época, que as pessoas se escandalizem com a pregação cristã sobre o casamento. Quando Jesus – explicando aos judeus que o divórcio só havia sido permitido pela lei mosaica por causa da dureza de seus corações e que "no começo não foi assim" – estabeleceu com firmeza que o homem não pode separar o que Deus uniu, os Seus próprios discípulos ficaram impressionados: " Se tal é a condição do homem a respeito da mulher, é melhor não se casar!" (Mt 19, 10). Como resposta a essa indagação, Jesus não só manteve integralmente o que disse, como afirmou, noutro lugar, que o adultério não se comete apenas com atos, mas também com o coração (cf. Mt 27, 28).

É claro que a reação dos discípulos não se compara à dos homens deste século: enquanto aqueles queriam evitar o casamento para servir melhor a Deus [2], estes fogem do altar... para servir melhor a si mesmos. – Se tal é a condição do homem a respeito da mulher, é melhor permanecer solteiro! Se tal é a condição do homem a respeito da mulher, é melhor viver sozinho! – De fato, as estatísticas mostram que o número de casamentos formais têm diminuído em várias partes do mundo. Ao contrário, as chamadas "uniões estáveis" (que de estáveis só têm o nome) são a nova onda do momento.

Trata-se da "cultura do provisório", tão denunciada pelo Papa Francisco em seus discursos. "Vivemos numa cultura (...) na qual cada vez mais pessoas renunciam ao matrimônio como compromisso público. Esta revolução nos costumes e na moral agitou com frequência a 'bandeira da liberdade', mas na realidade trouxe devastação espiritual e material" [3]. Aquilo que para alguns seguidores de Cristo era apenas um susto ou indagação é cada vez mais realidade no mundo moderno: as pessoas não querem mais se casar.

O Catecismo reconhece que "pode parecer difícil e até impossível ligar-se por toda a vida a um ser humano" [4]. No entanto, a Igreja deve manter-se fiel a seu Senhor e Fundador, sem a pretensão de mudar uma só letra da doutrina evangélica. Como Cristo, ela não deve temer figurar como "sinal de contradição" ( Lc 2, 34), pois o verdadeiro amor pelas almas não pode nunca prescindir do anúncio da verdade, ainda que esta pareça dura ou difícil de ser seguida. No ensinamento do Beato Papa Paulo VI, "não minimizar em nada a doutrina salutar de Cristo é forma de caridade eminente para com as almas" [5].

Alguém poderia até argumentar que, deste modo, com essa "intransigência moral", a Igreja Católica estaria a perder "fiéis". À parte a pouca fidelidade desses que saem da barca de Pedro por não aceitarem os preceitos firmados pelo próprio Jesus, essa é uma questão importante. Se ensinasse algo diferente em matéria de família, a Igreja, por certo, ganharia a simpatia de muitos, cairia nas graças da mídia e até poderia aumentar o seu número de "fiéis". Mas, a que preço? Qual deve ser a maior preocupação da Igreja? Aumentar o seu dízimo ou levar as almas a um encontro real com Cristo? Ter um grande número de pessoas nas igrejas ou aumentar a extensão do Corpo Místico de Cristo – a Igreja com "i" maiúsculo?

O anseio da Igreja (e, portanto, de Cristo) é que o homem "se defina", chegue à plenitude de seu ser, não que seja uma permanente "metamorfose ambulante", sem rumo e sem verdadeira meta.

"Na cultura do provisório, do relativo, muitos pregam que o importante é 'curtir' o momento, que não vale a pena comprometer-se por toda a vida, fazer escolhas definitivas, 'para sempre', uma vez que não se sabe o que reserva o amanhã. Em vista disso eu peço que vocês sejam revolucionários, eu peço que vocês vão contra a corrente; sim, nisto peço que se rebelem: que se rebelem contra esta cultura do provisório que, no fundo, crê que vocês não são capazes de assumir responsabilidades, crê que vocês não são capazes de amar de verdade." [6]

Com a sua pregação, a Igreja toma constantemente a voz de Cristo e chama as almas a considerarem o altíssimo preço pelo qual foram compradas e a grandíssima vocação para a qual foram chamadas. Para corresponder a esses apelos que parecem vir apenas da boca de homens, mas, na verdade, vêm da boca do próprio Deus, é preciso coragem e perseverança. Pelo pecado original, tendemos mais facilmente à dissolução que a perfeição, ao pecado que à virtude. Mas, pelo Batismo, somos chamados à magnanimidade [7]: com grandeza de alma, acolhamos o chamado de Cristo e da Igreja e não tenhamos medo de arriscar nossas vidas em decisões definitivas, almejando a verdadeira Vida, que nunca terá fim.

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