Padre Paulo Ricardo
CNP
Christo Nihil Præponere"A nada dar mais valor do que a Cristo"
Todos os direitos reservados a padrepauloricardo.org®
21 séculos de eucatástrofes
Espiritualidade

21 séculos de eucatástrofes

21 séculos de eucatástrofes

As contrariedades do dia a dia não podem ser motivo de desânimo nem de presunção. É preciso manter-se firme, com as armas dos santos: fé e perseverança.

Equipe Christo Nihil Praeponere27 de Julho de 2015Tempo de leitura: 8 minutos
imprimir

Os primeiros cristãos tiveram de enfrentar as mais terríveis tribulações para defender a fé em Jesus Cristo. Foram provados até o limite das próprias forças, ora pela truculência do Estado — o qual via naquela nova religião uma eminente ameaça —, ora pelas condições de vida — fome, doenças etc. É possível enxergar essa realidade nas cartas de São Paulo, nas quais o apóstolo das gentes exorta a comunidade a manter-se sempre alegre, mesmo nos momentos de crise e instabilidade (cf. Fp 4, 4). Ele aconselhava: "Não vos inquieteis com nada! Em todas as circunstâncias apresentai a Deus as vossas preocupações, mediante a oração, as súplicas e a ação de graças" (Fp 4, 6) E assim faziam os fiéis, seguindo as recomendações apostólicas. Mantinham-se firmes na Palavra de Deus, no anúncio da Boa-Nova e na caridade fraterna. Essas foram as armas dos cristãos que derrubaram o Império Romano e tornaram o nome de Cristo conhecido em toda a terra.

É verdade, porém, que muitos desanimaram frente aos desafios. Nem todos puderam suportar a opressão das perseguições e o peso da cruz. Acabaram por capitular. Essa fraqueza, naturalmente, deveu-se a dois motivos bem óbvios: uma fé imatura e a falta de confiança na graça de Deus. Ninguém, a não ser o próprio Cristo, pode suportar sozinho o peso dos pecados do mundo. E mesmo Jesus teve de passar por uma noite escura no jardim, apoiado pelos anjos, antes que derramasse seu sangue no madeiro (cf. Lc 22, 43). O pelagianismo — que, infelizmente, ainda cerra fileiras em muitas de nossas igrejas — é um erro grosseiro [1]. Em que pese sua qualidade musical, Renato Russo não é um bom conselheiro. Confiar em si mesmo é coisa de loucos. Os manicômios — para lembrar uma anedota de G.K. Chesterton — estão cheios de pessoas que acreditam em si mesmas.

Um cristão, portanto, necessita de amadurecer sua fé se quiser sobreviver às ondas agitadas que constantemente chacoalham a Barca de Pedro. Esse processo de amadurecimento, por outro lado, deve estar enraizado na grande herança apostólica da Igreja. Em nossos dias, costuma-se considerar madura a fé que se adapta ao sabor das novas ideias, das circunstâncias impostas pelo mundo moderno. Isso não pode ser considerado um amadurecimento. Isso se chama apostasia. Como explicou certa vez o Cardeal Joseph Ratzinger, "'adulta' não é uma fé que segue as ondas da moda e a última novidade; adulta e madura é uma fé profundamente radicada na amizade com Cristo" [2]. Jesus deixou-nos os sacramentos justamente para que fôssemos santificados. A Eucaristia e a Confissão, sobretudo, foram os dois pilares da vida dos grandes santos da história. Não podemos relativizar essa herança, como se se tratasse de algo opcional. Os sacramentos são imprescindíveis. Acaso não está escrito: "Se não comerdes a carne do Filho do Homem, e não beberdes o seu sangue, não tereis a vida em vós mesmos" (Jo 6, 53)? Fé adulta é a do homem que constrói sua casa sobre a rocha firme (cf. Mt 7, 24-25). Nenhuma ventania pode derrubá-la. Essa rocha nada mais é que a economia sacramental.

Quem se entrega à graça de Deus, por conseguinte, sabe lidar com os tempos de provação. Não luta com suas próprias forças. Torna-se um instrumento da providência divina. Infelizmente, muitos ainda vivem a ilusão de um cristianismo sem cruz. Não se enganem. Jesus alertou-nos claramente sobre a perseguição que haveríamos de sofrer: "Se o mundo vos odeia, sabei que me odiou a mim antes que a vós" (Jo 15, 18). E é a certeza desse repúdio do mundo à Palavra de Deus que não nos deixa sucumbir, pois bem-aventurados são aqueles que sofrem perseguição pelo nome de Jesus (cf. Mt 5, 10).

Existe uma cena belíssima na versão cinematográfica de O Senhor dos Anéis, que nos auxilia a compreender por que não podemos desistir, mesmo quando tudo parece fadado ao desastre. Trata-se de um diálogo entre Frodo e Sam, os dois hobbits protagonistas da história. Frodo, fatigado pelo peso do anel e angustiado com o cenário de destruição à sua volta, murmura ao amigo, Sam, dizendo que não é capaz de continuar a missão. Sam, compadecido, responde a Frodo que compreende suas limitações, pois, na verdade, eles nem deveriam estar naquele lugar. Tudo era uma grande injustiça. "Mas estamos", prossegue o parceiro de Frodo. E ele continua assim:

— É como nas grandes histórias, senhor Frodo. As que tinham mesmo importância. Eram repletas de escuridão e perigo. E, às vezes, você não queria saber o fim, porque como podiam ter um final feliz? Como podia o mundo voltar a ser o que era depois de tanto mal? Mas, no fim, é só uma coisa passageira. Essa sombra. Até a escuridão tem de passar. Um novo dia virá. E, quando o Sol brilhar, brilhará ainda mais forte. Eram essas as histórias que ficavam na lembrança, que significavam algo. Mesmo que você fosse pequeno o bastante para entender por quê. Mas acho, senhor Frodo, que eu entendo, sim. Agora eu sei. As pessoas dessas histórias tinham várias oportunidades de voltar atrás, mas não voltavam. Elas seguiam em frente, porque tinham no que se agarrar.

— Em que nós nos agarramos, Sam?, pergunta Frodo.

— No bem que existe neste mundo, senhor Frodo, pelo qual vale a pena lutar —, explica Sam, levantando o pequeno hobbit abatido.

Em sua literatura, J.R.R Tolkien trabalha com o conceito de eucatástrofe, uma espécie de catástrofe às avessas, isto é, aquilo de bom e redentor que ocorre quando tudo parece destruído. Os amantes da obra de Tolkien sabem que seus livros estão permeados pela profunda espiritualidade católica do autor. Como disse Sam a Frodo, existe uma bondade neste mundo pela qual vale a pena lutar. Essa bondade consiste na origem divina do cosmos. Toda a criação, em especial o ser humano, reflete a beleza e a graça de Deus. E ainda que o pecado a tenha maculado, no final, como ensina o Catecismo, haverá "uma vitória de Deus sobre o último desencadear do mal, que fará descer do céu a sua Esposa" [3]. Isso é eucatástrofe. No final, como aconteceu há dois mil anos, Deus sempre vence. Evidentemente, a grande eucatástrofe da história da humanidade aconteceu com a Paixão, Morte e Ressurreição de Jesus Cristo.

De fato, vivemos, em nossa sociedade, um clima de confusão desnorteadora, o qual pode, de certo modo, nos induzir a um pessimismo. Tantas notícias ruins sobre a moral social, sobre a família e a própria Igreja contribuem para isso em grande escala. O cristão, porém, não pode deixar-se prender por esses desafios, já que sua esperança abre uma visão para além das nuvens negras que cobrem o céu. A esperança cristã nunca decepciona porque não se fundamenta em um futuro utópico, mas na providência divina que cerca seus filhos de carinho e proteção, como diz o salmista (cf. Sl 124, 2). A eucatástrofe diz respeito ao cristianismo justamente por isso. Embora o homem contribua de alguma maneira para a ação de Deus, Ele age livremente e tem a posse da última palavra. Neste sentido, é oportuno meditarmos o testemunho do mártir vietnamita Paulo Le-Bao-Thin, no qual, diz Bento XVI, é "clara esta transformação do sofrimento mediante a força da esperança que provém da fé" [4]:

Eu, Paulo, prisioneiro pelo nome de Cristo, quero falar-vos das tribulações que suporto cada dia, para que, inflamados no amor de Deus, comigo louveis o Senhor, porque é eterna a sua misericórdia ( Sal136/135). Este cárcere é realmente a imagem do inferno eterno: além de suplícios de todo o gênero, tais como algemas, grilhões, cadeias de ferro, tenho de suportar o ódio, as agressões, calúnias, palavras indecorosas, repreensões, maldades, juramentos falsos, e, além disso, as angústias e a tristeza. Mas Deus, que outrora libertou os três jovens da fornalha ardente, está sempre comigo e libertou-me destas tribulações, convertendo-as em suave doçura, porque é eterna a sua misericórdia. Imerso nestes tormentos, que costumam aterrorizar os outros, pela graça de Deus sinto-me alegre e contente, porque não estou só, mas estou com Cristo.

[...] Como posso eu suportar este espetáculo, ao ver todos os dias os imperadores, mandarins e seus guardas blasfemar o vosso santo nome, Senhor, que estais sentado sobre os Querubins (cf. Sal 80/79, 2) e os Serafins? Vede como a vossa cruz é calcada aos pés dos pagãos! Onde está a vossa glória? Ao ver tudo isto, sinto inflamar-se o meu coração no vosso amor e prefiro ser dilacerado e morrer em testemunho da vossa infinita bondade. Mostrai, Senhor, o vosso poder, salvai-me e amparai-me, para que na minha fraqueza se manifeste a vossa força e seja glorificada diante dos gentios [...] Ouvindo tudo isto, caríssimos irmãos, tende coragem e alegrai-vos, dai graças eternamente a Deus, de quem procedem todos os bens, bendizei comigo ao Senhor, porque é eterna a sua misericórdia [...] Escrevo todas estas coisas, para que estejam unidas a vossa e a minha fé. No meio da tempestade, lanço a âncora que me permitirá subir até ao trono de Deus: a esperança viva que está no meu coração.

A pergunta agora é: Quando soar a última trombeta, de que lado estaremos, dos vitoriosos ou dos derrotados? A fé católica exige uma tomada de posição, pois "o Reino dos céus é arrebatado à força e são os violentos que o conquistam" (Mt 11, 12). Temos de fugir, a todo custo, da blasfema presunção de achar que não é preciso lutar, porque, afinal de contas, Deus sempre vence. Sobre os presunçosos recai a mesma censura do profeta Mardoqueu à rainha Ester: "Se te calares agora, o socorro e a libertação virão aos judeus de outra parte; mas tu e a casa de teu pai perecereis" (Est 4, 14). A indolência, como ensina Padre Paulo Ricardo em outro vídeo, é um pecado gravíssimo.

Peçamos à Virgem Santíssima, Ela que foi o auxílio fiel de tantos cristãos ao longo destes 21 séculos de eucatástrofes, a fortaleza para suportarmos os desafios e a graça para caminharmos, sem descanso, rumo à Jerusalém Celeste.

Comentários

Os comentários são de responsabilidade exclusiva de seus autores e não representam a opinião deste site. Se achar algo que viole os termos de uso, denuncie. Leia as perguntas mais frequentes para saber o que é impróprio ou ilegal.

A prova que faltava: livro recomendado pelo MEC ensina gênero nas escolas
EducaçãoMarxismo

A prova que faltava: livro recomendado
pelo MEC ensina gênero nas escolas

A prova que faltava: livro recomendado pelo MEC ensina gênero nas escolas

O livro Sociologia em movimento insiste na tese marxista de que a culpa para as discriminações está na família e na Igreja

Equipe Christo Nihil Praeponere24 de Julho de 2015Tempo de leitura: 12 minutos
imprimir

Certa vez, quando questionado a respeito da popularidade dos jornais, o escritor inglês G. K. Chesterton explicou que aquele sucesso se devia à ficção promovida por eles. "A vida é um mundo, e a vida vista nos jornais é outro", declarou.

A cobertura da imprensa sobre o debate acerca da inclusão do termo gênero nos Planos Municipais de Educação é o mais recente exemplo dessa ficção. Na maior parte das reportagens, procurou-se transmitir um retrato bastante distorcido da realidade, no qual os cristãos apareciam como Dom Quixote lutando contra moinhos de vento. Quem lesse esses jornais, logo teria a impressão de que a Igreja, movida por um repentino acesso de cólera, havia se levantado para uma cruzada pelo obscurantismo. Gênero, segundo a mídia e os ideólogos de plantão, seria uma expressão inofensiva, cujo significado se resumiria tão somente a uma luta pelo fim da discriminação.

Eis que agora nos surgem as provas cabais de que a Teoria de Gênero é exatamente aquilo tudo que havíamos denunciado aqui no site: um programa de destruição da família e da Igreja. Está nas mãos de alunos do ensino médio um livro chamado Sociologia em movimento. A obra, segundo consta, foi editada em 2013, pela Editora Moderna, de acordo com as determinações do Ministério da Educação para o Programa Nacional do Livro Didático — ou seja, antes mesmo que o Plano Nacional de Educação fosse votado.

No capítulo 14, intitulado Gênero e sexualidade, o leitor encontra uma apologia aberta ao fim da família e da lei natural, em nome de uma suposta liberdade e do que os autores entendem por "identidade de gênero", isto é, "uma construção cultural estabelecida socialmente através de símbolos e comportamentos, e não uma determinação de diferenças anatômicas entre os seres humanos" [1]. A confissão vem logo nas primeiras linhas: "As permanências da sociedade patriarcal e do androcentrismo estão entre as principais explicações para esse fenômeno (a discriminação), e serão trabalhadas ao longo do capítulo, juntamente com as evidências que apontam para a reversão desse quadro social" [2]. O objetivo do estudo, conforme as próprias palavras do texto, é "reconstruir os papéis sociais estabelecidos" [3].

Quem não está familiarizado com o linguajar revolucionário deste tipo de publicação, é facilmente induzido a trocar gato por lebre. Ocorre que, no mundo pós-moderno, como explica Padre Paulo Ricardo no curso de Filosofia da Linguagem, a guerra cultural é uma guerra de palavras. A linguagem é um dos meios mais importantes utilizados pela intelligentsia para refundar o mundo à sua imagem e semelhança.

O próprio debate sobre o uso da palavra "gênero" nos planos de educação comprova isso. Embora o texto vigente do Plano Nacional defenda a "superação das desigualdades educacionais, com ênfase na promoção da cidadania e na erradicação de todas as formas de discriminação", não faltaram críticas à supressão da tal palavra. Pergunta: se se trata apenas de uma luta pelo respeito, por que não basta dizer "erradicação de todas as formas de discriminação"? Essa é uma questão que eles não respondem. Mas para a qual há uma resposta.

Filhos de Karl Marx

Para a Sociologia", diz o livro, "a família (...) pode assumir diferentes configurações e padrões de normalidade". A pergunta é se os pais estão de acordo com essa visão subjetiva e relativista de família.

A palavra "gênero", do modo como foi pensada pelos ideólogos, representa todo um projeto de engenharia social. Como fica claro no livro, a tese tem suas raízes no pensamento de Karl Marx e Engels. Na obra
A origem da família, da propriedade privada e do Estado, esses dois ídolos do pensamento esquerdista atribuem à família a máxima culpa pelas desigualdades sociais. Eles afirmam: "O primeiro antagonismo de classes que apareceu na história coincide com o desenvolvimento do antagonismo entre o homem e a mulher, na monogamia; e a primeira opressão de classes, com a opressão do sexo feminino pelo masculino" [4]. Seria preciso, portanto, para destruir o capitalismo, destruir primeiro a família. Por isso, quando se fala de luta contra a "família patriarcal" ou "família burguesa", saiba que se fala de luta contra a família natural, a saber, aquela formada por um homem, uma mulher e seus filhos. Padre Paulo Ricardo explica muito bem essa questão no vídeo Marxismo e a destruição da família.

O marxismo nega a existência da verdade. A estrutura do mundo se resumiria a uma tensão de forças antagonistas, influenciada pelo pensamento dominante ou, nas palavras de Marx, pela ideologia. Essa ideologia, por sua vez, seria a superestrutura, aquelas instituições que sustentam o status quo — família e Igreja, por exemplo. Desse modo, para que a estrutura opressora caia, é mister que se corrompa a superestrutura por meio de uma nova ideologia, de um novo discurso. O Papa Pio XI notou que o socialismo propõe "a formação das inteligências e dos costumes" como também "se faz particular amigo da infância e procura aliciá-la, abraça todas as idades e condições, para formar o homem 'socialista' que há de constituir mais tarde a sociedade humana plasmada pelo ideal do socialismo" [5].

É fato. Sem a presença da família, as crianças são "educadas" pela escola, conforme os interesses do Estado. Isso já acontece em países como a Suécia, onde os filhos são completamente retirados do convívio dos pais. A razão é a seguinte: para que as crianças percam a noção de certo e errado, é preciso moldá-las desde a mais tenra idade. A lei que obriga as famílias a colocarem seus filhos nas escolas com apenas quatro anos de idade está intimamente ligada a esse projeto. Aliás, não deixa de ser interessante o fato de que, nos planos municipais de algumas cidades do Brasil, "gênero" apareceu apenas nos parágrafos referentes à educação infantil.

O livro Sociologia em movimento abraça essa tese marxista, bem como a de outras correntes filosóficas contrárias ao cristianismo, quando, por exemplo, defende a ideia de que "o discurso sobre a sexualidade não é uma descrição da natureza reprodutiva, mas sim um meio de estabelecer relações de poder construídas historicamente nas sociedades ocidentais" [6]. Os autores ainda insistem no absurdo:

O peso cultural da família patriarcal e da Igreja em nossa sociedade (...) continua a ser uma forte influência para a marginalização dos grupos LGBT. Isso leva à violência homofóbica e transfóbica (aversão a homossexuais e a transgêneros), assim como à violência doméstica contra mulheres, fenômeno social de intolerância e machismo que por vezes acarreta a morte de mulheres, homossexuais, transgêneros e pessoas que não se enquadram nos estereótipos tradicionais dos gêneros [7].

No geral, a obra é um conjunto de falácias e preconceitos, que levam o leitor desavisado a acreditar que na origem de todas as desgraças estão a família e a Igreja. E não deixa de ser curiosa a afirmação de que "o discurso da sexualidade" seria apenas uma convenção social para legitimar o poder de algumas instituições. Com isso, o livro dá um tiro no próprio pé e deixa claro o propósito da agenda de gênero: chegar ao poder. Trata-se de uma ideologia criada para levar seus defensores à liderança da sociedade. Dadas as premissas, a conclusão não pode ser outra: se não existe uma lei natural para a sexualidade — mas discursos ideológicos, como dizem —, que seria a questão de gênero senão apenas outra ideologia? O gato se esconde, mas deixa o rabo de fora.

Percebam: o direito natural, como propõe a filosofia perene, desautoriza qualquer interpretação relativista a respeito da pessoa humana. Assim, é preciso destruir a sensibilidade social, para que, uma vez cega aos apelos da natureza e da razão, possa-se instaurar um novo modelo de comportamento, o qual favoreça os interesses ideológicos.

A Igreja, ao contrário, não defende um modelo sexual porque quer dominar as pessoas, mas porque esse modelo corresponde à verdade do ser humano. Se essa lei natural é posta de lado, "abre-se dramaticamente o caminho ao relativismo ético no plano individual e ao totalitarismo do Estado a nível político" [8]. As leis ficam sob o arbítrio da maioria. Perdem o seu fundamento. Bento XVI deixou isso evidente em uma de suas catequeses sobre Santo Tomás de Aquino:

A defesa dos direitos universais do homem e a afirmação do valor absoluto da dignidade da pessoa postulam um fundamento. Não é precisamente a lei natural, este fundamento com os valores não negociáveis que ela indica? O Venerável João Paulo II escrevia na sua Encíclica Evangelium vitae palavras que permanecem de grande atualidade: "Para o bem do futuro da sociedade e do progresso de uma democracia sadia, urge pois redescobrir a existência de valores humanos e morais essenciais e naturais, que derivam da própria verdade do ser humano, e exprimem e tutelam a dignidade da pessoa: valores que nenhum indivíduo, nenhuma maioria e nenhum estado jamais poderá criar, modificar ou destruir, mas apenas os deverá reconhecer, respeitar e promover".

A mentira pseudocientífica

Ė uma enorme tolice acreditar que a liberdade virá com o fim da família e da Igreja. Marx descreveu com eloquência, embora de forma bastante desonesta, as dificuldades enfrentadas pelos operários. Pregou a revolução para daí, supostamente, nascer o mundo melhor. Mas nada disse sobre o ordenamento desse mundo, o qual acabou se mostrando, na prática, bem distante da utopia libertadora. O saldo é de mais de 100 milhões de mortos.

A esperança socialista é vazia e duvidosa, porque se fundamenta num erro crasso: o materialismo. Ela ignora que "o homem permanece sempre homem", que sua "liberdade permanece sempre liberdade, inclusive para o mal" [9]. Um arranjo econômico hipoteticamente superior não pode alterar essa realidade, já que o ser humano "não é só o produto de condições econômicas nem se pode curá-lo apenas do exterior criando condições econômicas favoráveis" [10]. Do mesmo modo, a destruição da estrutura familiar natural, longe de trazer soluções autênticas, só causará mais violência. A experiência dos últimos anos, com tantas famílias em crise, tem provado isso de maneira inequívoca.

Existe, sim, uma realidade chamada pecado. E ignorá-la "dá lugar a graves erros no domínio da educação, da política, da ação social e dos costumes" [11]. É no seio da família, marcada pelas virtudes humanas e teologais, que essa tendência ao mal pode ser enfrentada com verdadeira eficácia. A Agenda de Gênero prega justamente o contrário, a pretexto de uma nova ordem mundial, exercida de maneira raivosa e delinquente.

Desmascarando a farsa

Nenhuma outra instituição no mundo fez mais pela dignidade da mulher que a família e a Igreja. Sociólogos sérios, como o agnóstico Rodney Stark e tantos outros escondidos do público pela mídia e por muitas universidades, reconhecem que o cristianismo exerceu um papel fundamental na emancipação da mulher. Isso explica o grande número de conversões femininas, nos primeiros séculos. É significativa esta declaração de Stark:

Em meio às denúncias atuais de que o cristianismo é patriarcal e sexista, facilmente se esquece de que a Igreja primitiva era tão particularmente atraente para mulheres que no ano 370 o imperador Valentiniano emitiu uma ordem escrita ao papa Dâmaso I requerendo que os missionários cristãos parassem de visitar as casas de mulheres pagãs. Embora alguns autores clássicos afirmem que as mulheres eram presa fácil para qualquer 'superstição forânea', muitos reconhecem que o cristianismo era extraordinariamente atraente porque no interior da subcultura cristã as mulheres tinham um status mais elevado do que no mundo greco-romano em geral [12].

O sociólogo explica que esse status elevado da mulher no cristianismo se devia, entre outras coisas, à visão humanista da religião cristã. Com a proibição ao aborto e ao infanticídio, por exemplo, a mulher deixou de ser vista como propriedade do marido, um objeto descartável, para converter-se em uma companheira, pela qual deveria dar a vida, como Cristo deu a vida pela Igreja (cf. Ef 5, 25). É no cristianismo medieval, sobretudo, que surge a figura das grandes rainhas católicas, cheias de virtudes para pastorear a grei. No paganismo, por outro lado, as mulheres eram vistas simplesmente como objetos de prazer do homem, os quais possuíam mesmo o direito de assassiná-las.

É da pena de Santo Tomás de Aquino que provém uma das mais belas apologias da dignidade feminina já vistas. "Era conveniente que a mulher fosse formada da costela do homem", ele escreve, "para significar que entre o homem e a mulher deve haver uma união de sociedade, pois nem a mulher deve dominar o homem, e por isso não foi formada da cabeça; nem deve ser desprezada pelo homem, como se lhe fosse servilmente submetida, e por isso não foi formada dos pés" [13].

Fica evidente, por conseguinte, a falsidade da acusação feita por Marx, Michel Foucault e cia. É no paganismo, na libertinagem sexual, na depravação moral que surgem as opressões contra as mulheres, os homossexuais e outros indivíduos — não no cristianismo. E isso por uma razão óbvia: a libertinagem sexual transforma o ser humano em um ser descartável, em uma massinha de modelar. O comportamento violento dos jovens — como vimos na aula sobre a redução da maioridade penal — é resultado direto desse modelo de educação liberal, que os considera animais adestráveis. Um animal se comportará como um animal.

Uma visão distorcida da realidade

"O conceito de gênero", diz a obra, "não se fundamenta em um princípio evolutivo, biológico ou morfológico, e sim em uma construção social". Disto a ensinar às crianças que elas devem "construir a própria identidade de gênero" é um passo.

O principal problema dessa questão é de cunho humanístico. A Teoria de Gênero defende uma visão de pessoa humana profundamente equivocada, segundo a qual o ser humano seria determinado apenas pelo ego e pela vontade. O corpo nada tem a dizer nessa história. Trata-se apenas de um instrumento para a satisfação das vontades. Assim, pode-se admitir todo tipo de "união sexual", desde que exista o desejo e o consentimento para tal. O homem fica reduzido às suas paixões.

Os frutos de uma loucura como essa são colhidos dentro do próprio movimento homossexual, como no caso escandaloso dos clubes do carimbo, que têm espalhado de propósito o vírus do HIV entre os homossexuais. O prazer é a justificativa. Se a lei apóia a libertinagem como um direito inalienável, "nem a Igreja nem a sociedade em seu conjunto deveriam surpreender-se se depois também outras opiniões e práticas distorcidas ganham terreno e se aumentam os comportamentos irracionais e violentos" [14].

Acusar a Igreja e a família de fomentarem a violência é de uma insanidade inominável. A castidade que a Igreja pede aos homossexuais é a mesma pedida aos heterossexuais. Não há nada de homofóbico. Norteados pela regra da caridade fraterna, o que a Igreja e a família têm por princípio são estas palavras de São Bento: "Tolerem pacientissimamente as suas fraquezas, físicas ou morais; rivalizem em prestar mútua obediência; ninguém procure o que julga útil para si, mas sobretudo o que é para o outro" [15]. Já está mais do que na cara o que realmente gera a violência contra as mulheres e os homossexuais. Aliás, vale a pena conferir este artigo, publicado recentemente no site, a respeito das origens sexistas e racistas da Teoria de Gênero.

A resposta necessária

O livro Sociologia em movimento, nas mãos de alunos do ensino médio mesmo depois da aprovação do Plano Nacional da Educação sem referência à gênero, é um insulto à Constituição, à verdade dos fatos e ao bom senso. Mais: trata-se de uma ação orquestrada contra a família e a Igreja, que merece nosso imediato repúdio. Os pais devem, com todo o direito, unir-se em associações e pedir a retirada desse material das bibliotecas de nossas escolas, além de verificar as outras apostilas de seus filhos. É bem possível que o ninho da serpente esteja escondido lá. Estejamos atentos.


Comentários

Os comentários são de responsabilidade exclusiva de seus autores e não representam a opinião deste site. Se achar algo que viole os termos de uso, denuncie. Leia as perguntas mais frequentes para saber o que é impróprio ou ilegal.

Os pressupostos de uma ditadura
Sociedade

Os pressupostos de uma ditadura

Os pressupostos de uma ditadura

A semelhança entre a ideologia nazista e os argumentos dos atuais críticos do cristianismo requer a nossa máxima atenção

Equipe Christo Nihil Praeponere23 de Julho de 2015Tempo de leitura: 6 minutos
imprimir

Uma maneira bastante comum de desqualificar o adversário em um debate é rotulá-lo de algo odioso. Trata-se, obviamente, de um caso flagrante de desonestidade intelectual, mas que, não raras vezes, ganha espaço nas discussões, vejam, "acadêmicas". Nas redes sociais, então, a coisa torna-se um pouco mais grotesca. Palavras como "nazista" e "fascista" são disparadas a esmo, sem qualquer sentido, no único intuito de desmoralizar o oponente perante o público. O site mesmo já foi vítima desse tipo de expediente em algumas oportunidades. Os comentários em nossas publicações não nos deixam mentir.

Foi com base nesse tipo de atitude que o jurista americano Mike Godwin formulou uma lei: "À medida que uma discussão se torna mais longa, a probabilidade de uma comparação envolvendo Hitler e os nazistas se aproxima de 1". Claro, portanto, é que argumentações do gênero não merecem crédito algum. A não ser que haja razões muito plausíveis para isso. É o que pretendemos apresentar neste artigo.

Assistimos, sim, aos pressupostos de uma ditadura. Ao menos, já temos quase todos os elementos necessários a uma imposição totalitária contra a Igreja e os cristãos em geral. Percebam, por exemplo, a hostilidade com que o pensamento cristão é tratado. Recentemente, comentamos aqui a ojeriza criada em torno da faixa "100% Jesus", do jogador Neymar, usada na final da Champions League. Foi uma demonstração boçal de intolerância aos símbolos cristãos. O episódio lembrou outro momento constrangedor para a democracia e o bom senso, quando as meninas do vôlei brasileiro venceram as Olimpíadas de 2012 e, para agradecer a Deus pelo título, rezaram juntas o Pai Nosso. Na opinião de alguns, aquilo foi inadmissível, pois seria um caso de desrespeito à laicidade do Estado. Nenhum pio foi ouvido, porém, em relação à apresentação da cantora Marisa Monte, vestida de Iemanjá, no encerramento da mesma competição.

O Brasil possui cinco séculos de tradição cristã. Isso se manifesta na arte, no comportamento, no nome de ruas, cidades e estados. O Cristo Redentor, como disse certa vez o papa Bento XVI, "representa a hospitalidade e o amor com que o Brasil sempre soube abrir seus braços a homens e mulheres perseguidos e necessitados provenientes de todo o mundo" [1]. Nada disso, contudo, interessa às vozes contrárias ao cristianismo. No que depender delas, a iconografia cristã só pode ganhar notoriedade pública se estiver envolvida em atos, pasmem, de protestos e escárnio. Com raras exceções, praticamente toda a chamada grande imprensa apoiou o vilipêndio das imagens sacras durante a parada gay deste e de outros anos. Como não se lembrar, ainda, das reportagens indignadas que saíram contra a proibição da Arquidiocese do Rio de Janeiro ao uso da imagem do Cristo Redentor no filme Rio, eu te amo? Que a imagem do Cristo apareça nos cinemas sendo ultrajada, não há problema nenhum. Ofensivo mesmo é o Cristo crucificado presente nos tribunais de justiça do país. Esse, sim, deve ser censurado e banido.

Tudo se torna mais infame quando a discussão envolve educação e moral. É raro quem nunca ouviu a acusação de que a Igreja Católica, representada na figura da Companhia de Jesus, teria subjugado as populações indígenas à cultura europeia. São José de Anchieta, na ideologia de muitas universidades por aí, teria sido apenas um opressor branco e odioso. Nenhum mérito deve ser atribuído a ele. Louvável seriam apenas Paulo Freire e sua pedagogia do oprimidoem que pese o amontoado de críticas e desconfianças que existam a respeito. Tem mais. Em nome de uma falsa justiça aos povos nativos, o Brasil deveria deixar de lado toda essa religião branca e europeia e retornar às origens, à suposta verdadeira identidade da nação: o paganismo. Nenhuma menção se faz ao canibalismo presente em muitas das tribos indígenas da época, nem à barbárie dos infanticídios.

Com a discussão em torno da Ideologia de Gênero nos Planos Municipais de Educação, a desumanização dos cristãos fica ainda mais escancarada. Um jornal teve o disparate de escrever que contrários ao termo "gênero" estavam os cristãos e, a favor, estavam os movimentos LBGTs, professores e… sociedade civil. Entendam o absurdo: segundo certos jornalistas, os cristãos não são cidadãos de direito, estão alheios à sociedade civil. Não importa que esses cristãos sejam pais de família, sejam também professores, taxistas, donas de casa ou empresários. Membro da sociedade civil, para os laicistas, é somente o que reza na cartilha dos ditos movimentos sociais, dos revolucionários, dos sindicatos etc. e tal.

O que isso tudo tem a ver com uma ditadura?, você pode estar se perguntando. Resposta: tudo. Na Alemanha nazista, conta Bento XVI em sua autobiografia, o golpe começou com um discurso nacionalista de retomada das origens. Era necessário, por conseguinte, liquidar qualquer referência àquilo que havia, aparentemente, destruído a cultura germânica. Enquanto se exaltavam ícones pagãos, a herança cultural de outros povos, bem como o judeu e o cristão, era escarnecida. A justificativa era exatamente esta: pôr um fim à influência de povos estrangeiros. Ademais, havia um forte proselitismo contra os "inimigos" da raça ariana, retirando-lhes o direito à cidadania. Isso fica evidente neste famoso discurso do ministro da comunicação nazista, Goebbels, em que ele diz assim: "Um dia nossa paciência vai acabar e calaremos esses judeus insolentes, bocas mentirosas!"

A semelhança é gritante. Para uma pessoa como Bento XVI, que testemunhou na carne o terror nazista, é fácil identificar uma ditadura quando ela se apresenta, mesmo que de forma velada. Ele comenta: "Quando ouço, hoje em dia, as críticas ao cristianismo pela destruição da identidade cultural de um local, invadido por valores europeus, percebo como as argumentações são semelhantes e muitas frases floreadas me soam familiares" [2].

Os exemplos expostos acima são mínimos perto do que se poderia citar. Trouxemos particularidades do Brasil por motivos óbvios. Mas não é só aqui que as coisas caminham por esse rumo. Nos Estados Unidos, a pré-candidata à presidência, Hilary Clinton, fala abertamente em mudar as bases religiosas americanas, para garantir o "direito" ao aborto. Em outras regiões, pais estão sendo presos simplesmente por se recusarem à compactuar com a ideologia de gênero.

Escutemos as objeções: "Ah, mas a imposição de valores cristãos a um país laico também pode ser considerada uma ditadura". Devagar, senhores. A Igreja não defende nenhum valor religioso para o Estado que antes não seja também um valor universal ao gênero humano. Observem: toda a doutrina moral da Igreja está fundamentada em uma coisa chamada lei natural. E isso por uma razão muito evidente. O direito humano postula um fundamento sólido. Este fundamento, claro, deve ser uma lei inerente ao homem. Não pode estar submetido ao arbítrio da vontade. Ocorre que o direito positivista — defendido por aqueles que negam a lei natural — está baseado puramente na arbitrariedade. E isso traz consequências gravíssimas, pois "onde a razão positivista se considera como a única cultura suficiente, relegando todas as outras realidades culturais para o estado de subculturas, aquela diminui o homem, antes, ameaça a sua humanidade" [3]. Se o direito depende da vontade, logo, as leis estarão submetidas à vontade de quem? Prazer, meu nome é ditadura.

A observação do velho papa sobre a argumentação pomposa dos inimigos do cristianismo requer nossa máxima atenção. Ele está nos alertando: Cuidado, esse discurso é muito familiar. E terminou com seis milhões de mortos nos campos de concentração.

Comentários

Os comentários são de responsabilidade exclusiva de seus autores e não representam a opinião deste site. Se achar algo que viole os termos de uso, denuncie. Leia as perguntas mais frequentes para saber o que é impróprio ou ilegal.

As origens sombrias da ideologia de gênero
Sociedade

As origens sombrias
da ideologia de gênero

As origens sombrias da ideologia de gênero

Esoterismo, racismo e discriminação: conheça as origens obscuras da agenda de gênero e saiba qual a ligação dessa teoria com a Ku Klux Klan, a maior organização racista dos Estados Unidos.

Massimo IntrovigneTradução: Equipe Christo Nihil Praeponere22 de Julho de 2015Tempo de leitura: 7 minutos
imprimir

Recentemente, em sua coluna, Renzo Puccetti explicou, com riqueza de argumentos, por que é absurdo comparar a sentença da Suprema Corte dos Estados Unidos, que obriga os estados federados a introduzir o "matrimônio" homossexual, a decisões precedentes tomadas contra a discriminação racial, que declararam ilegítimas as limitações aos matrimônios entre americanos brancos e negros.

Gostaria de dar um passo a mais e devolver a acusação de racismo ao remetente. De fato, embora a informação tenha sido totalmente escondida e censurada, é a própria teoria do gênero que nasce e se desenvolve em ambientes racistas, chegando a estar relacionada com a organização racista por excelência dos Estados Unidos, a Ku Klux Klan.

Em um artigo anterior, no qual respondia à falácia da moda, segundo a qual "a teoria de gênero não existe", trazia à luz as duas versões clássicas, às quais todos os futuros sequazes da gender theory fizeram referência. A primeira é a da filósofa francesa Simone de Beauvoir, para quem "não se nasce mulher, torna-se mulher" [1] e cada um – ainda que ela pensasse sobretudo nas mulheres – tem direito a escolher o próprio gênero, masculino ou feminino, independentemente do sexo biológico. Na segunda versão, teorizada por Judith Butler, o gênero absorve totalmente o sexo e cada um pode decidir que coisa quer ser em uma gama que já não prevê apenas duas possibilidades – homem ou mulher –, mas três, cinco, cinquenta ou infinitas.

É possível traçar ainda um outro itinerário, que a partir de Beauvoir e Butler não segue adiante, mas vai para trás. A teoria do gênero não teria nascido sem uma série de precursores que formularam, muitos anos antes, versões que podemos chamar de prototípicas, ainda que não fossem tão sofisticadas e radicais como as de Butler. A principal dessas proto-teóricas do gênero é a americana Margaret Sanger (1879-1966). Comparadas com as teorias posteriores, as ideias de Sanger parecem ser até moderadas. Mas, sem ela, não existiriam as futuras teorias do gênero.

As biografias oficiais de Sanger apresentam-na como uma heroína feminista que, movida por compaixão para com as mulheres que morriam de parto depois do décimo filho recorrendo a perigosos abortos clandestinos, dedicou a sua vida à propaganda dos anticoncepcionais, aceitando até a prisão e o exílio. Mas a sua verdadeira história é um pouco diferente.

Não se pode compreender Margaret Sanger prescindindo de seus interesses esotéricos. Sanger parte das ideias da Sociedade Teosófica. Em 1936, ela é convidada a falar à sede mundial dessa sociedade, em Adyar, na Índia. O seu discurso, publicado no órgão da Sociedade Teosófica, The Theosophist, explica exatamente a relação entre a sua teoria do feminismo e do gênero e a sua interpretação das doutrinas teosóficas.

Ainda que muito estudada hoje em dia, particularmente pela influência crucial que teve na arte moderna através de pintores do calibre de Kandinsky e Mondrian, a Sociedade Teosófica talvez deva ser brevemente apresentada aos não especialistas. Ela foi fundada em 1875, em Nova Iorque, pelo coronel e advogado americano Henry Stell Olcott e por uma das mais importantes figuras da história do esoterismo, a nobre russa Helena Petrovna Blavatsky. A sua doutrina central é que, com a ajuda dos Mestres, os quais não são espíritos, mas homens particularmente evoluídos que vivem por centenas de anos e residem em um centro misterioso entre a Índia e o Tibete, a humanidade – a qual, no seu estado atual, é o resultado de um processo cósmico de decadência com elementos claramente gnósticos – é chamada a um processo de evolução. Isso se dá através do progressivo aparecimento na Terra de sete raças-raiz, cada uma dividida em sete sub-raças. Segundo Blavatsky, em seu tempo se estava na vigília do aparecimento da sexta sub-raça da quinta raça-raiz, espiritualmente superior à precedente e que se teria manifestado nos Estados Unidos.

Esclareçamos de pronto um equívoco, difundido na literatura não especializada. A teoria das raças-raiz de Blavatsky é aberta a várias interpretações, mas a Sociedade Teosófica condenou todas as interpretações de tipo racista, afirmando que as diversas "raças" deveriam, em todo caso, colaborar harmoniosamente entre si. Todavia, as interpretações racistas existem, ainda que a Sociedade Teosófica as tenha denunciado como errôneas. Na Alemanha, desenvolveu-se no início do século XX uma corrente chamada "ariosofia", que interpreta a teoria teosófica das raças na base de um primado racista da raça ariana. Um ávido leitor das publicações "ariosóficas" na Áustria era um rapaz chamado Adolf Hitler. A própria Sanger, como se sabe da leitura dos diários de personalidades teosóficas da época, não foi particularmente bem acolhida em Adyar, ainda que sua conferência esteja publicada na revista da Sociedade Teosófica. Tampouco sua interpretação da "raça nova" correspondia, de fato, àquela da direção teosófica oficial.

Margaret Sanger.

Resta o fato de que, na base de especulações esotéricas, Sanger pensava que estava para surgir uma nova raça, superior às precedentes e que se manifestaria nos Estados Unidos. Que tem a ver tudo isso com o gênero? A própria Sanger explica. As suas ideias de tipo gnóstico levaram-na à convicção de que a diferença sexual entre homem e mulher era algo de mau, assim como o modo como as mulheres traziam os filhos ao mundo. Seriam consequências de um processo de degeneração e não existiriam na idade de ouro originária, aquela do andrógino, ou seja, de uma pessoa humana na qual coexistiriam os caracteres masculinos e femininos e formas de geração diferentes do parto. Libertar a mulher com os anticoncepcionais do seu papel de mãe seria o primeiro passo para permitir às mulheres – e consequentemente também aos homens – que escolhessem o próprio gênero, quem e que coisa gostariam de ser, iniciando um processo de retorno ao andrógino originário. Não se trata ainda da teoria de gênero como a conhecemos hoje, mas já é o seu núcleo fundamental.

nova raça em marcha rumo à superação do sexo biológico poderia emergir, continuava Sanger, só onde a humanidade fosse intelectual e culturalmente mais avançada: na América, e entre os americanos brancos e de origem nórdica e europeia. Dos inúmeros imigrantes italianos Sanger não tinha uma boa opinião. "Os negros e os europeus do sul – escrevia – são intelectualmente inferiores aos americanos nativos": uma expressão que o movimento "nativista" utilizava para excluir do número dos "verdadeiros americanos" os imigrantes vindos da Itália. Em uma famosa citação, Sanger comparava os afroamericanos a uma "erva daninha a extirpar", através de uma severa política de eugenia que deveria incluir a esterilização forçada. Quanto aos aborígenes australianos, considerava-os "apenas um grau acima dos chimpanzés". Certamente, eram muitos os defensores da teoria das raças e da eugenia, mas apenas Margaret Sanger ligava a eugenia ao gênero: extirpada a erva daninha, a "raça nova" poderia finalmente emergir na marcha rumo à androginia e à superação da escravatura biológica da diferenciação sexual.

Mal acolhida pela Sociedade Teosófica, Sanger encontrou terreno fértil para suas ideias na Ku Klux Klan, a organização americana criada para perpetuar a discriminação racial contra os afroamericanos e ao mesmo tempo – o que geralmente se omite – para propagar um anticatolicismo feroz com base no mito da América "branca, anglo-saxã e protestante" (WASP, na sigla em inglês). Muitos filmes apresentam a Ku Klux Klan como uma organização masculina. Os historiadores – a partir da obra fundamental de Kathleen Blee, Women of the Klan ["Mulheres do Klan"] – têm feito notar que, na KKK "histórica", do período entre guerras, as mulheres tiveram, na verdade, um papel essencial.

Margaret Sanger colaborou com a Ku Klux Klan, aperfeiçoou suas ideias sobre raça e gênero em diálogo com as mulheres do Klan e falou com frequência a um público entusiasmado de ativistas da organização racista encapuzadas e aplaudentes. Algumas fotografias que podem ser encontradas na Internet representando Sanger em diálogo com o Klan são falsas, confeccionadas com Photoshop. As reuniões do Klan eram secretas e as fotografias são raras. Mas, para confirmar a ligação entre Sanger e a KKK, incluindo conferências a mulheres encapuzadas, não é preciso reportar-se aos seus críticos ou aos críticos da teoria do gênero. Ela mesma o conta em sua autobiografia, minimizando e justificando, certamente, mas admitindo a relação e falando de "dezenas" de convites por parte da Ku Klux Klan.

Alguém poderia objetar citando atitudes hostis aos homossexuais por parte da Ku Klux Klan. Outros poderiam replicar citando os nomes de um certo número de dirigentes do Klan e de organizações coligadas que eram homossexuais ou bissexuais. Mas é um debate que nos levaria muito longe. O tema deste artigo, de fato, é outro. Quis mostrar como a formulação arquetípica da teoria do gênero, a de Margaret Sanger, nasce de uma interpretação desviada – e não compartilhada pela grande maioria dos teósofos – de ideias sobre a raça da Sociedade Teosófica e nasce em diálogo com o racismo americano representado pela Ku Klux Klan. A ideia central é que essa na qual se pode escolher se se é homem ou mulher é uma nova humanidade, uma "raça nova" que poderá nascer somente entre a elite iluminada "branca, anglo-saxã e protestante" e não entre os negros, os "europeus do sul" e os católicos, "intelectualmente inferiores" e destinados a ser extirpados como erva daninha. Desapareceram essas ideias racistas entre os defensores do gênero? Olhando o ar de superioridade com o qual eles atacam manifestações como a da Praça San Giovanni e a chamam de "medievais", eu não me permitiria estar tão seguro disso [2].

Comentários

Os comentários são de responsabilidade exclusiva de seus autores e não representam a opinião deste site. Se achar algo que viole os termos de uso, denuncie. Leia as perguntas mais frequentes para saber o que é impróprio ou ilegal.