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Progresso ou engenharia? Como os meios de comunicação mudaram a moral
Sociedade

Progresso ou engenharia?
Como os meios de comunicação
mudaram a moral

Progresso ou engenharia? Como os meios de comunicação mudaram a moral

Sob a ilusão de proporcionar entretenimento, novelas, filmes e noticiários são produzidos para alterar a moral social e obter dinheiro fácil para os grandes estúdios.

Equipe Christo Nihil Praeponere8 de Julho de 2015Tempo de leitura: 6 minutos
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A virgindade virou peça de museu. Ao menos, é o que dizem certas vozes da mídia, em nome de um suposto progresso humano e social. Esses dias mesmo, em um badalado programa de TV, os apresentadores discutiam com seus convidados como a sociedade teria "evoluído" desde a época em que se acreditava que toda pessoa deveria ser virgem antes do casamento. É verdade que, numa época dominada pela influência da revolução sexual e do dinheiro, falar de castidade soa antiquado. Infelizmente, o número de casais de namorados sexualmente ativos é muito grande. Mas isso em nada justifica a relação absurda que se costuma fazer entre liberdade sexual e progresso. Essa mudança de comportamento tem outras raízes.

A Igreja celebra nestes dias a memória litúrgica de uma grande mártir, cujo heroísmo na luta para preservar a própria pureza serve de exemplo para nossos dias, tão marcados pelo hedonismo. Maria Goretti era uma simples camponesa italiana, filha de pais pobres e a terceira de seis filhos. Desde cedo, graças ao exemplo de sua família, mostrou-se piedosa e dedicada à religião. Com apenas 11 anos de idade, teve de enfrentar a fúria do homem escravo do pecado. Alessandro Serenelli, à época, com 20 anos, aproveitando-se de uma ocasião em que Maria se achava sozinha em sua casa, quis forçar a menina a ter relações sexuais com ele. Maria recusou-se, obviamente, e disse ao rapaz: "Não! É um pecado! Deus não gosta disso". Ao perceber que nada conseguiria da pequena santa, Alessandro Serenelli golpeou-a 11 vezes com uma adaga.

Maria Goretti chegou a ser socorrida e ir para o hospital, mas não resistiu aos ferimentos. Antes de falecer, porém, perdoou seu assassino, dizendo que gostaria de vê-lo no céu. Alessandro Serenelli foi condenado a 30 anos de prisão. Arrependido, pediu perdão aos pais da vítima, após ter sonhado com a santa. Em 24 de junho de 1950, na presença dos familiares e, mais surpreendente ainda, de Alessandro Serenelli, Pio XII canonizou a humilde mártir, chamando-a de a "Santa Inês do século XX", por causa da semelhança entre o martírio das duas. Ambas deram a vida pela castidade. Entre tantas palavras comovedoras, o Papa exortou o orbe católico a "não ceder ante a sedução do vício, mas antes a combater com alegria (...) para alcançar aquela perfeição cristã de bons costumes, que todos podemos atingir com a força de vontade, ajudada com a graça divina" [1].

É claro que um crime hediondo como esse, do qual Santa Maria Goretti foi vítima, é capaz de horrorizar qualquer pessoa, seja cristã ou não. Basta pensar na comoção nacional, gerada recentemente pelo estupro coletivo ocorrido no Piauí, para afastar qualquer dúvida. O estupro não é simplesmente um atentado contra algum preceito religioso. É um atentado contra a dignidade do ser humano. E é isso o que o torna tão odioso aos olhos da humanidade. Ocorre, no entanto, que o poder de uma boa propaganda, sob a força de sofisticados mecanismos de manipulação, pode tornar até mesmo o estupro uma coisa atraente. Falamos aqui há poucos meses da "cultura do estupro", que vem se desenvolvendo ano após ano, sobretudo entre a juventude, graças a filmes como Cinquenta tons de cinza e outros congêneres igualmente bizarros. É exatamente essa cultura — orgulhosa pela inversão de valores que há anos promove no seio da sociedade — a responsável por tornar a virgindade um tabu e a liberdade sexual uma conquista.

O cinema, a televisão, os jornais e tantos outros meios de comunicação — embora sejam, de maneira geral, extremamente úteis, como já reconheceu a Igreja em inúmeras oportunidades — têm prestado um enorme desserviço à população, a pretexto de um novo padrão de comportamento [2]. Notem: Quais personagens de filmes, novelas ou séries, hoje em dia, promovem, com suas atitudes, aquelas virtudes necessárias ao bem comum? É difícil dizer. Praticamente todos fundamentam suas vidas em projetos de vingança, golpes, traições e divertimento sexual. Não há mais uma linha clara entre o bem e o mal. Ao contrário, há apenas uma parte do jogo: o mal. Por outro lado, personagens ligados a virtudes como castidade, bondade e pureza são caracterizados de maneira ridícula e boba, no intuito de nutrir o desprezo do público por esses ideais. Assim funciona. Aquilo que habitualmente se chamava de "sétima arte", na verdade, não passa de um empenho de engenharia social e busca por dinheiro. A verdadeira arte, com raras exceções, passa bem longe — algo que há muito tempo já notara o Papa Pio XI [3]:

Enquanto a produção de figuras realmente artísticas, de cenas humanas e ao mesmo tempo virtuosas exige um esforço intelectual, trabalho, habilidade e também uma despesa grande, é relativamente fácil provocar certa categoria de pessoas e de classes sociais com representações que excitam as paixões e despertam os instintos inferiores, latentes no coração humano.

Na mosca! Comparem quanto tempo levou para J.R.R. Tolkien escrever a obra-prima O Senhor dos Anéis e o tempo gasto pela senhora E.L. James para produzir o lixo sadomasoquista sobre Christian Grey. É muito mais fácil seduzir as massas com algumas cenas de nudez e sexo, que motivá-las, por meio de personagens bem construídos, a guardar a castidade, pedir perdão, lutar pelo céu etc. E como tudo tem o seu preço, o resultado é uma sociedade imbecilizada pelo vício, incapaz de reagir com honestidade às contrariedades e provações do cotidiano. Grande parte dos jovens universitários, por exemplo, imagina-se dentro de um daqueles filmes bobocas de colegiais americanos, onde reina o sexo livre e a bebedeira. Poucos se veem em uma instituição de ensino superior. Dão testemunho disso as famosas cervejadas e trotes que, dia sim dia também, costumam sair com algum escândalo nos noticiários do país.

É um engano terrível creditar as mudanças morais das pessoas simplesmente ao espírito do tempo (o Zeitgeist), como se estivéssemos, irreversivelmente, fadados à perversão dos costumes e da lei natural. Não sejamos tolos. Por trás de cada filme, série e notícia, existe uma equipe altamente especializada, capaz de usar os mais variados recursos da comunicação, para induzir o povo à sua pauta. Quem conhece o mínimo de Teoria da comunicação já ouviu falar sobre as técnicas de agendamento de notícias, a fim de produzir uma única consciência coletiva. Noticia-se somente aquilo que convém ao grupo no poder. Percebam: toda essa campanha em torno da causa gay, diga-se de passagem, está alicerçada em um grande esquema publicitário. Mesmo vozes da imprensa secular já denunciaram essa artimanha. Famílias naturais são apresentadas de maneira problemática, com traições, divórcios e brigas constantes, ao passo que os relacionamentos homossexuais são escritos cuidadosamente para conquistar a opinião pública. Isso a doses homeopáticas, a fim de que a audiência não perceba. Trata-se de um programa de projeção e identificação, como explica o teórico Edgar Morin [4]:

O leitor ou o espectador, ao mesmo tempo em que libera fora dele virtualidades psíquicas, fixando-as sobre os heróis em questão, identifica-se com personagens que, no entanto, lhe são estranhas, e se sente vivendo experiências que contudo não pratica.

Não vamos insistir aqui em boicotes a determinados filmes, marcas ou canais de televisão. Sejamos francos. O problema já se tornou tão grave que levantar cruzadas santas seria flertar com o ridículo. O que defendemos — e com muita esperança — é o apostolado pessoal, em que cada cristão, por meio de seu testemunho — ora por atos, ora por palavras —, desperte a consciência das pessoas à sua volta para a verdadeira vocação do ser humano: a santidade. Isso, sim, é eficaz. O exemplo de um casal de namorados que busca, a cada dia, viver a santidade em seu relacionamento é muito mais convincente que qualquer propaganda. Aos poucos, as pessoas irão perceber a miséria oferecida por esses programas de TV e, como o filho pródigo, voltarão para a casa do Pai. O boicote ocorrerá naturalmente. Mas é preciso o apostolado; um grupo de verdadeiros cristãos que "enfrente e anule o trabalho selvagem daqueles que pensam que o homem é uma besta" [5].

E esse apostolado é missão sua, leitor.

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União Europeia quer mães britânicas fora de casa
SociedadeNotícias

União Europeia quer
mães britânicas fora de casa

União Europeia quer mães britânicas fora de casa

Ideólogos estão preocupados porque porcentagem de mães britânicas em casa é o dobro da média da União Europeia. A solução seria prover creches financiadas pelo Estado.

Equipe Christo Nihil Praeponere7 de Julho de 2015Tempo de leitura: 2 minutos
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O Conselho Europeu, com sede em Bruxelas, órgão composto pelos chefes de governo da União Europeia e que determina a agenda política da organização, fez uma crítica às mães britânicas por quererem ficar em casa para cuidar de seus filhos.

Um relatório do Conselho aponta que "a porcentagem de mulheres britânicas inativas ou em trabalho a tempo parcial por conta de responsabilidades pessoais e familiares (12,5%) foi quase o dobro maior que a média da União Europeia (6,3%) em 2013" e considera isso um "desafio social" que o governo britânico deve se empenhar para eliminar, provendo mais creches financiadas pelo Estado.

O relatório também critica o fato de que haja mais mulheres que homens trabalhando a tempo parcial. "A diferença na parcela de trabalho a tempo parcial entre mulheres (42,6%, em 2013) e homens (13,2%, em 2013) é uma das maiores da União Europeia", diz o documento.

Às recomendações do Conselho se seguiram respostas indignadas dos britânicos, que dizem que o Estado não deve interferir na opção de mães que escolhem ficar em casa. "São as famílias britânicas que devem decidir como lidar com a educação dos seus filhos, sem coação do governo britânico ou de burocratas europeus. Essa é apenas mais uma tática de bullying para fazer com que as mães abandonem seus filhos pequenos em casa", disse Laura Perrins, do grupo Mothers at Home Matter ["Mães em casa são importantes"], a The Telegraph.

Em outro artigo publicado no jornal inglês, Perrins critica o feminismo moderno, que "ignora a maternidade e está focado apenas no mercado de trabalho". "Esse é o meu problema com o feminismo moderno", escreve. "Ele está apenas preocupado com a igualdade de 'planilha', como com quantas mulheres são executivas, bancárias ou comerciantes. Se você não está trabalhando fora, simplesmente não conta". A articulista considera que, "se quiser ser uma verdadeira irmandade, o feminismo deve aceitar e respeitar a escolha de uma mulher de permanecer em casa e cuidar de sua família".

Ela também responde à afirmação de que mulheres que ficam em casa estão "desperdiçando o seu potencial". "Educar a próxima geração de cidadãos é uma contribuição crucial não apenas para a família, considerada individualmente, mas para a sociedade como um todo", diz. "Pode não ser glamouroso e, acredite-me, pode ser entediante às vezes, mas é algo que conta. Todas as pequenas coisas que uma mãe ensina ao seu filho todo o dia, todos os dias: isso conta".

Para Perrins, está muito claro que a responsabilidade pela educação das crianças não pode ser transferida abusivamente para o Estado. "A criação, educação e transmissão de valores morais e culturais para as próximas gerações é um papel desafiador e importante – diz ela – e não é algo que possa ser cumprido eficazmente em creches comunitárias".

A mãe e articulista britânica também pede uma mudança de mentalidade. "A maternidade só será uma barreira para a igualdade se a sociedade escolher assim e definir que são apenas os esforços no trabalho assalariado que 'importam'". Trata-se, como diz o escritor G. K. Chesterton (também ele britânico), da "estranha ideia de que as mulheres são livres quando servem os seus empregadores, mas escravas quando ajudam os seus maridos".

Perris conclui rebatendo as acusações de que o trabalho doméstico tornaria as mulheres desiguais. "Se criar a próxima geração de cidadãos é visto como algo sem sentido ou inferior ao trabalho fora de casa, que seja: as donas de casa são 'menos iguais'", afirma. "Mas essa é a opinião dos políticos e das feministas, não a contribuição da mãe. Para os seus filhos e a sua própria família, ela é inestimável".

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‘Maria é um atalho para o Caminho’
Testemunhos

‘Maria é um atalho para o Caminho’

‘Maria é um atalho para o Caminho’

Conheça o testemunho de Kélvia, a jovem que descobriu a beleza da Igreja Católica depois que se consagrou a Nossa Senhora.

Equipe Christo Nihil Praeponere6 de Julho de 2015Tempo de leitura: 3 minutos
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"Assim que me consagrei à Mãe, fui cada vez mais me aproximando de Nosso Senhor Jesus". O testemunho abaixo é de Kélvia Portela Ambrozi, do Maranhão. Em poucas linhas, ela conta como recuperou a fé que tinha recebido na infância, graças à consagração a Nossa Senhora e à formação do site. "Eu achava que era católica, mas não sabia praticamente nada da Santa Igreja", ela escreve. "Hoje, quanto mais eu estudo, mais eu amo a Santa Igreja Católica e não entendo como uma pessoa intelectualmente capaz pode ser de outra religião."

Salve Maria!

Bom dia, Padre Paulo Ricardo e equipe.

Muitos depoimentos são recebidos por vocês e eu gostaria de deixar o meu testemunho, no qual contarei um pouco da minha história.

Meu nome é Kélvia Portela Ambrozi, tenho 29 anos, nasci e moro no interior do Maranhão, sou casada há quase três anos, não temos filhos (ainda não fomos contemplados), sou dentista e venho de uma família católica muito tradicional, daquelas numerosas. Meus avós tiveram 17 filhos, dos quais duas mulheres se tornaram freiras. Minha irmã e eu fomos batizadas ainda bebês (meu irmão demorou um pouco mais, mas ainda na infância foi batizado), fizemos catequese desde crianças, primeira Comunhão, Comunhão solene etc. Não pudemos fazer a Crisma porque nos mudamos para São Luís para estudar. Lá fomos para uma escola Católica e concluímos o primeiro grau.

Com a ausência dos meus pais no dia-a-dia em São Luís, eu já não ia à Santa Missa com tanta frequência, deixei de confessar e fui me afastando cada vez mais da Igreja. Depois que concluí a faculdade voltei a morar na cidade dos meus pais, passei a ir mais à Missa (ainda não como antes), fiz a Crisma e, depois de oito anos de namoro, casei com meu esposo. Tudo estava muito bem na minha vida, mas eu sentia que faltava algo.

Um belo dia, vi no Facebook um aviso de que um grupo iria se reunir para a Consagração à Nossa Senhora. Aquele chamado foi tão forte que, graças a Deus, não deixei escapar. A cada semana em que nos reuníamos eu sentia que ali era o meu lugar. As coisas ditas sobre Nossa Senhora eram tão lindas que enchiam meu coração de amor. Durante as reuniões nos pediram que assistíssemos às suas aulas sobre a Consagração, e foi ali que eu tive o primeiro contato com o seu site.

Comecei a assistir às aulas e logo eu via outro vídeo interessante, depois outro, e depois outro. Às vezes, quando eu tinha tempo, passava literalmente o dia todo vendo suas aulas, e foi quando percebi que eu achava que era católica, mas não sabia praticamente nada da Santa Igreja. Estava tão longe que, até quando ia rezar o Credo na Missa, eu "pulava" a parte em que dizia "creio na Santa Igreja Católica", com medo de ofender a Deus, um pensamento absolutamente protestante que me envergonho de reconhecer, verdadeiramente influenciada pelas aulas de história que tive no ensino médio. Como eu disse anteriormente, apesar de vir de uma família católica, não conhecia a Santa Senhora e nem a Santíssima Igreja.

Impressionante como eu vejo um cuidado tão de perto de Nossa Senhora em vários aspectos e fases da minha vida. Assim que me consagrei à Mãe, fui cada vez mais me aproximando de Nosso Senhor Jesus. Lembro sempre do que Ela disse aos apóstolos em Jo 2, 5: "Fazei tudo o que Ele vos disser". Como ouvi na consagração, Maria é um atalho para o Caminho e como isso é claro pra mim hoje!

Se eu pudesse dizer quais foram os erros durante a minha caminhada espiritual, eu diria que foram dois: uma catequese fraca, onde não aprendi sequer o que é o milagre da Santa Missa (aprendi durante a Consagração), e a preguiça, falta de vontade de estudar e buscar Deus depois de adulta. Hoje, quanto mais eu estudo, mais eu amo a Santa Igreja Católica e não entendo como uma pessoa intelectualmente capaz pode ser de outra religião.

Com esse meu depoimento, eu gostaria apenas de lhe dizer OBRIGADA. Hoje tenho muita pressa em amar a Deus e esperança de vê-lo face a face. Voltei a ler a Bíblia (coisa que não fazia desde criança), a ir à Santa Missa aos domingos, rezo o terço diariamente e estou sempre com Nosso Senhor Jesus Cristo e com a Mãe Santíssima no pensamento e coração. Hoje busco uma conversão diária e que só terminará quando eu estiver ao lado do Pai.

Nunca desista de nós, seu site chega mais longe do que o senhor imagina.

Fiquem com Deus.

Louvado seja Nosso Senhor Jesus Cristo!

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Sete conselhos para enfrentar a morte e o luto de forma cristã
Espiritualidade

Sete conselhos para enfrentar
a morte e o luto de forma cristã

Sete conselhos para enfrentar a morte e o luto de forma cristã

Não adianta fugir ou mudar de assunto. Um dia, a morte chega para todos. Mas qual o sentido desse acontecimento? Como reagir diante de uma realidade tão dura e perturbadora?

Fábio AcuñaTradução: Equipe Christo Nihil Praeponere3 de Julho de 2015Tempo de leitura: 8 minutos
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A morte assusta a todos nós. Diante dela, tomamos consciência de nossa fragilidade e, sem fé, podemos facilmente ser acometidos por incertezas, dúvidas e mal estar.

Muitas vezes, para fugir desse tema, dizemos que ainda nos falta muito tempo para esse dia, que não nos devemos preocupar com isso e, quando alguém nos lembra de nosso destino comum e inevitável, sempre tentamos dar um jeito de mudar de assunto.

Na verdade, o que precisamos fazer é entender o verdadeiro sentido da morte. Para isso, seguem alguns conselhos, que nos darão uma visão cristã desse acontecimento e uma ajuda para viver o luto em paz e com sabedoria.

1. Recorrer aos Sacramentos da Igreja

Ao se aproximar o momento de nossa partida deste mundo, devemos nos preparar, procurando livrar a nossa alma do pecado e de outros fardos que impedem a nossa união com Deus. Por isso, é muito importante receber a Unção dos Enfermos e, se possível, os sacramentos da Confissão e da Comunhão. Assim, quando a morte chegar, mais do que uma despedida, será ela um encontro com Cristo, que, como Bom Pastor, acompanha as Suas ovelhas na passagem para a vida eterna.

Se um ente querido ou um vizinho se encontra em perigo de morte – ou por velhice ou por alguma doença –, será de grande ajuda procurar ou avisar um sacerdote próximo para que visite o enfermo e este possa partir na graça de Deus. Não se pode deixar de chamar o padre por receio de que a sua visita passe uma "impressão errada" ou "apresse", por assim dizer, a morte da pessoa. A assistência espiritual do sacerdote é de grande conforto para todas as almas, seja qual for o seu destino. Na verdade, seria um grande mal que deixássemos de recorrer à Igreja nessas horas, pois estaríamos nos descuidando do bem mais valioso que possuimos: a nossa própria alma.

Por isso, lembremo-nos também de buscar viver sempre em comunhão com o Senhor. Cumpramos os Seus mandamentos e recebamos com frequência os sacramentos da Penitência e da Eucaristia, fazendo isso por amor a nosso Deus e considerando que a morte pode chegar quando menos esperamos.

2. Compreender que a morte nos liberta e nos faz entrar na vida eterna

"Intérprete autêntico das afirmações da Sagrada Escritura e da Tradição, o Magistério da Igreja ensina que a morte entrou no mundo por causa do pecado do homem. Embora o homem tivesse uma natureza mortal, Deus o destinava a não morrer. A morte foi, portanto, contrária aos desígnios de Deus Criador" [1]. Porém, quando Se fez homem para a nossa salvação, o Verbo de Deus experimentou em Sua própria carne a realidade dolorosa da morte, a fim de mudar em bênção o que era condenação..

A partir da Cruz e Ressurreição de Nosso Senhor, portanto, tudo muda de figura. A morte não é mais a triste descida do ser humano à mansão dos mortos, mas a entrada na vida eterna. Muitos protestantes, ao interpretar as Escrituras individualmente, terminam acreditando que as almas depois da morte ficam inconscientes e caem numa espécie de "sono" inconsciente. Esquecem-se que Jesus prometeu o Céu ao bom ladrão no mesmo dia em que este morreu (cf. Lc 23, 43), e que "está determinado que os homens morram uma só vez e depois vem o julgamento" (Hb 9, 27).

A Igreja, em conformidade com o testemunho das Escrituras e com o ensinamento dos primeiros cristãos [2], lembra que, na verdade, a nossa alma parte para o encontro com Deus imediatamente após a nossa morte corporal. Por isso, nós devemos vivê-la compreendendo que um ciclo terreno termina e se inicia o tempo da glória, ao lado de Deus e de Sua corte celestial. "Eu sou a ressurreição e a vida", disse Jesus. "Quem crê em mim, mesmo que morra, viverá; e todo aquele que vive e crê em mim, jamais morrerá" (Jo 11, 25-26).

3. Conservar com amor e alegria a lembrança daqueles que partiram

Ainda que não estejam mais fisicamente conosco, todas as lições e momentos compartilhados com os nossos entes queridos vivem em nossos corações. Honremos sempre sua memória como um inestimável tesouro que nos acompanhará em nossa vida.

Mesmo que nos doa que alguém amado tenha partido e sintamos um vazio por sua perda, deve-se evitar cair em tristezas prolongadas. Primeiro, porque somos confortados pela esperança cristã de que quem creu e viveu no Senhor tem a vida eterna com Ele. Segundo, porque sabemos que quem se foi não gostaria de ver-nos assim. Se nos é difícil levantar-nos do luto, busquemos a ajuda de um sacerdote ou diretor espiritual para superar a dor. Será muito útil.

Também pode ser uma boa obra de caridade doar algumas (se não todas) roupas ou objetos que a pessoa usou a um abrigo ou casa de beneficência. Além de ser um sadio exercício de desapego, que nos pode ajudar a superar o luto causado pela perda, colocamos em prática a terceira obra de misericórdia temporal, que é "vestir os nus".

4. Auxiliar as famílias que perderam seus entes queridos

Quando perdem alguém, as pessoas geralmente se refugiam na solidão, no silêncio e no pranto, podendo experimentar falta de apetite e estresse ou mesmo entrar em depressão.

Como cristãos, o nosso dever é acompanhar, aconselhar e ajudar aqueles que perderam os seus entes queridos, fazendo com que se recordem deles com alegria e incentivando-os a ver na morte não um fim, mas uma permanência no amor de Deus, que tem preparado um lugar para cada um de nós.

"Consolar os aflitos" também é uma obra de misericórdia, recomendada pelas próprias Escrituras: "Alegrai-vos com os que se alegram, chorai com os que choram" (Rm 12, 15). Além disso, a solidariedade com quem sofre é um grande remédio para aliviar também as nossas dores. Quando nos voltamos às necessidades dos outros, somos capazes de ver a mão de Deus que levanta o próximo por meio de nós. Quem, como o bom samaritano (cf. Lc 10, 30-37), cuida das misérias alheias, tem suas próprias misérias pensadas por Nosso Senhor, que é o Bom Samaritano por excelência.

5. Evitar brigas por causa de dinheiro ou herança

É possível que a pessoa falecida tenha deixado alguns bens que tocam aos filhos e parentes mais próximos. Tudo tem seu tempo apropriado e é lamentável ver famílias que, antes mesmo da morte da pessoa, brigam por causa de bens materiais; irmãos que, ao invés de se unirem, nem sequer conversam mais um com o outro, por conta de interesses.

Ante a tentação de acirrar os ânimos por causa de heranças terrenas, vale ter diante dos olhos a única herança imperecível, a qual – como ensina São Gregório Magno – "não diminui com o crescimento do número de herdeiros". "Se ressuscitastes com Cristo – exorta São Paulo –, buscai as coisas do alto, onde Cristo está entronizado à direita de Deus; cuidai das coisas do alto, não do que é da terra" (Cl 3, 1-2).

6. Evitar cair em práticas espíritas ou supersticiosas para mitigar a dor

Algumas empresas, no afã de lucrar com a dor alheia, oferecem rituais funerários absolutamente incompatíveis com a fé cristã. São práticas como semear uma árvore com os restos mortais da pessoa, jogar as suas cinzas em um lago para perpetuar a sua memória, ou mesmo domesticar um animalzinho com o nome do parente falecido, relacionando-o com a crença na reencarnação.

O Catecismo da Igreja Católica é bem claro ao ensinar que não existe reencarnação:

"A morte é o fim da peregrinação terrena do homem, do tempo de graça e misericórdia que Deus lhe oferece para realizar a sua vida terrena segundo o plano divino e para decidir o seu destino último. Quando acabar a nossa vida sobre a terra, que é só uma, não voltaremos a outras vidas terrenas. 'Os homens morrem uma só vez' (Hb 9, 27). Não existe 'reencarnação' depois da morte." [3]

Por isso, não é nada aconselhável, a quem perdeu os seus entes queridos, que saia à procura de "comunicações do além" em casas espíritas ou ambientes parecidos. A dor não nos pode fazer desviar de nossa fé! Nossa confiança deve estar sempre colocada em Deus e em Suas promessas. É a Sua graça que nos ajudará a continuar, não as falsas mensagens de doutrinas abertamente contrárias à doutrina de Cristo.

7. Rezar pelo descanso eterno daqueles que partiram

A maior obra de amor que podemos realizar por nossos entes queridos é oferecer orações por eles. Como diz Santa Teresinha do Menino Jesus, "pensar em uma pessoa que se ama é rezar por ela" [4].

No Brasil, há o piedoso costume de se honrar as almas dos falecidos com a conhecida "Missa de sétimo dia". O Catecismo ensina que, "desde os primeiros tempos, a Igreja honrou a memória dos defuntos, oferecendo sufrágios em seu favor, particularmente o Sacrifício eucarístico para que, purificados, possam chegar à visão beatífica de Deus" [5]. Por isso, não importa o quanto tempo tenha passado, é sempre recomendado oferecer muitas Missas pelas almas dos fiéis falecidos, além de Terços, jejuns e toda espécie de orações.

Também não se pode esquecer o motivo de todas essas práticas. Os católicos rezam por seus mortos porque acreditam na verdade do purgatório. A Igreja não é composta apenas pelos cristãos que vivem neste mundo (Igreja militante), mas está unida aos santos, no Céu (Igreja triunfante), e às almas que se purificam de seus pecados, no purgatório (Igreja padecente). Por essa união mística – que a Igreja chama de "comunhão dos santos" –, as nossas preces e súplicas pelos falecidos têm valor diante de Deus e fazem entrar no Céu aqueles que amamos e que partiram desta vida.

Um dia, será a nossa vez de nos juntarmos à corte celeste e às almas de nossos entes queridos. Por isso, estejamos sempre preparados para a nossa morte e para nosso encontro definitivo com Deus. É verdade que ninguém pode ter certeza absoluta da própria salvação [6]. Se, porém, vivermos uma vida de virtudes e de oração, ao fim de nossas existências poderemos dizer, com São Paulo: "Chegou o tempo da minha partida. Combati o bom combate, terminei a corrida, guardei a fé. Desde agora, está reservada para mim a coroa da justiça que o Senhor, o juiz justo, me dará naquele dia, não somente a mim, mas a todos os que tiverem esperado com amor a sua manifestação" (2 Tm 4, 6-8).

Referências

  1. Catecismo da Igreja Católica, 1008.
  2. Cf. Papa São Clemente, Primeira Carta aos Coríntios, 56 (PG 1, 321-324); Santo Inácio de Antioquia, Carta aos Tralianos, 13 (PG 5, 799); São Policarpo de Esmirna, Carta aos Filipenses, 9 (PG 5, 1019).Moralia in Iob, V, 86 (PL 75, 729).
  3. Catecismo da Igreja Católica, 1013.
  4. Cartas, 225 (2 de maio de 1897).
  5. Catecismo da Igreja Católica, 1032.
  6. Cf. Santo Tomás de Aquino, Suma Teológica, I-II, q. 112, a. 5.

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