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Se Maria é imaculada, por que precisou se purificar?
Virgem Maria

Se Maria é imaculada,
por que precisou se purificar?

Se Maria é imaculada, por que precisou se purificar?

Se Nossa Senhora é imaculada, pura de toda mancha de pecado, por que então ela precisou ser purificada no Templo, segundo a Lei de Moisés? Que sentido teve aquela purificação?

Equipe Christo Nihil Praeponere20 de Novembro de 2020Tempo de leitura: 3 minutos
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Recebemos no suporte do site a seguinte pergunta: “Se Nossa Senhora é imaculada, por que ela precisou ser purificada? Qual o sentido desta purificação?”

Resposta: A resposta é simples e direta. O preceito mosaico de purificação das puérperas (isto é, das mulheres que acabaram de dar à luz) não tinha por finalidade purificá-las nem do pecado original (do qual, como sabemos, Maria foi preservada em sua concepção) nem de qualquer pecado atual (que ela, igualmente, jamais cometeu), mas de uma impureza legal, equiparada por Moisés à do período de menstruação (cf. Lv 12, 2), durante o qual era proibido aos judeus ter relações sexuais. Quanto ao período pós-parto, o que a Lei mandava era o seguinte:

Quando uma mulher der à luz um menino, será impura durante sete dias, como nos dias de sua mens­truação. No oitavo dia, o menino será circuncidado. Ela ficará ainda trinta e três dias no sangue de sua purificação. Não tocará coisa alguma santa, e não irá ao santuário até que se acabem os dias de sua purificação. Se ela der à luz uma menina, será impura durante duas semanas, como nos dias de sua menstruação, e ficará sessenta e seis dias no sangue de sua purificação (Lv 12, 2-5).

A Virgem Maria, por conseguinte, observou a lei de purificação não para ser purificada de algum pecado, mas porque a Lei judaica considerava impuras (para certas atividades, como tocar objetos consagrados, ir ao Templo etc.) as mulheres durante 40 (no caso de nascer um menino) ou 80 dias (no caso de nascer uma menina) depois do parto. Por isso falamos de impureza legal, e não propriamente moral, já que se trata de uma condição em que a mulher se encontrava em virtude de uma prescrição da Lei. Também se consideravam legalmente impuros, por exemplo, os que passassem sem querer em cima de um sepulcro (cf. Nm 19, 16).

Há que notar, não obstante, que Maria Santíssima observou a Lei por humildade e obediência aos preceitos da justiça geral, embora não estivesse obrigado a alguns deles, como no caso do mandamento de purificação. Por quê? Porque ela, sendo Mãe de Deus puríssima e imaculada, concebeu milagrosamente por obra do Espírito Santo, razão por que também o seu parto foi extraordinário, imune de toda impureza (legal), corrupção (corporal) e sofrimento (físico) [1], como nos recorda um autor espiritual:

No quadragésimo dia após o nascimento de Cristo, por uma dupla causa subiu Maria, Mãe de Deus, ao Templo de Jerusalém, a fim de satisfazer dois mandamentos da Lei: dos quais o primeiro se refere ao oferecimento dos primogênitos (cf. Ex 13) e o outro, ao rito de purgação da puérpera (cf. Lv 12); e, de fato, a nenhuma destas leis estava obrigada a Virgem Mãe, que por elas era claramente eximida. Porque, com efeito, deviam oferecer-se os primogênitos que tivessem aberto o claustro materno; ora, Cristo, tendo saído do útero da Mãe, conservou-lhe intacto o claustro da virgindade. Além disso, deviam purgar-se as puérperas que tivessem concebido por sêmen; mas a Virgem castíssima concebera do Espírito Santo sem ajuda de varão. Quis, no entanto, cumprir ambos os mandamentos, submetendo-se à lei comum das mulheres, para que a humílima Virgem, sem dar sinais de nada singular, brilhasse para todos como exemplo de humildade [2].

Afinal, se cremos que ninguém menos que o Filho de Deus encarnado, a própria Santidade, se submeteu ao rito da circuncisão [3], apresentando-se publicamente como pecador — necessitado, portanto, da purificação do pecado, da justificação da fé (cf. Rm 4, 11) e da mortificação da carne [4] —, para nos dar um exemplo extraordinário de humildade e sujeição, que dificuldade teríamos em crer que sua Mãe, preservada por Ele da mancha do pecado, também se teria submetido livremente aos ritos da religião judaica, em sinal de humildade e santa obediência

E assim como Jesus, ao ser circuncidado, deu início aos olhos de Deus a seu ofício de Redentor, obrigando-se ao cumprimento de toda a Lei e derramando as primícias de seu Sangue, como se ainda Menino quisesse nos dar um penhor de tudo o que por nós verteria na cruz, também Maria, ao ser purificada, deu início aos olhos de Deus a seu ofício de Corredentora, recebendo por ocasião de um tão sublime exemplo a notícia e como que uma antecipação das dores que, dali a 33 anos, lhe afogariam o Imaculado Coração: “Uma espada transpas­sa­rá a tua alma” (Lc 2, 35).

Notas

  1. Cf. Pe. Gabriel M.ª Roschini, OSM, Mariologia. 2.ª ed., Roma: Angelus Belardetti, 1948, vol. 2, p. 259s.
  2. Pe. Frans de Costere, SJ, em: A. J. Haehnlein (ed.), Mariologia. Wirceburgi, sumptibus Stahelianis, 1859, p. 90s.
  3. O Angélico identifica sete razões de conveniência pelas quais Cristo, embora acima da Lei, devia ser circuncidado segundo a Lei (cf. STh III 37, 1c.): 1) para mostrar a verdade de sua carne humana; 2) para aprovar a circuncisão, instituída outrora por Deus; 3) para certificar que pertencia à descendência de Abraão, que recebera o mandamento da circuncisão em sinal da fé que tivera no Messias; 4) para não dar aos judeus motivo de o rejeitarem como a um incircunciso; 5) para nos dar um exemplo de obediência; 6) porque, tendo assumido uma carne de pecado (isto é, passível), não devia rejeitar o remédio pelo qual era costume purificar a carne do pecado; 7) para que, suportando em si mesmo o peso da Lei, livrasse a outros do jugo dela, como diz S. Paulo: “Deus enviou seu Filho, […] submetido a uma Lei, a fim de remir os que estavam sob a Lei” (Gl 4, 4s).
  4. Pe. H. Simón, CSSR, Prælectiones Biblicæ. Novum Testamentum. 4.ª ed., iterum recognita a J. Prado. Marietti, 1930, vol. 1, p. 165s, n. 111: “A circuncisão externa do corpo”, para os judeus, “era símbolo e sinal da mortificação interna da concupiscência, além de um sacramento da Antiga Lei por força do qual, e em atenção à fé no futuro Messias, os membros do povo de Deus eram purificados do pecado original”.

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Purgatório: um grande ato de misericórdia
Doutrina

Purgatório:
um grande ato de misericórdia

Purgatório: um grande ato de misericórdia

Que imensa graça é o Purgatório! A mancha de pecado numa alma — mesmo em estado de graça — impede-a de estar na presença de Deus; mas Ele nos dá o Purgatório como remédio. Não nos esqueçamos dessa grande misericórdia.

Eric SammonsTradução: Equipe Christo Nihil Praeponere18 de Novembro de 2020Tempo de leitura: 4 minutos
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Celebramos recentemente o Dia de Finados, ao longo do qual rezamos para que todos os fiéis defuntos sejam libertos do Purgatório e levados à presença de Deus no Céu. Porém, nas últimas décadas, a crença no Purgatório tem passado por momentos difíceis. É claro que os protestantes rejeitam a doutrina, mas também muitos católicos (a maioria?) manifestam uma descrença prática. Afinal de contas, na maior parte dos funerais católicos o defunto é canonizado, pois se pressupõe que ele já está feliz no Céu, “olhando-nos lá de cima”, apesar do provável período que a maioria das pessoas mortas em estado de graça terão de passar no Purgatório.

Por que os católicos esqueceram o Purgatório? Porque minimizamos duas coisas: a gravidade de nossos pecados e a santidade de Deus. 

Um único pecado venial não perdoado ou qualquer pecado não reparado impede que a alma compareça à presença do Deus santíssimo. Quando Isaías viu a Deus em seu trono no Céu, exclamou imediatamente: “Ai de mim — gritava eu. Estou perdido porque sou um homem de lábios impuros, e habito com um povo (também) de lábios impuros e, entretanto, meus olhos viram o rei, o Senhor dos exércitos!” (Is 6, 5). Isaías compreendeu como que por instinto que um pecador não é digno de estar na presença de Deus. Por quê? Porque, como ouviu os anjos cantar: “Santo, santo, santo é o Senhor Deus dos exércitos!” (Is 6, 3), Deus é santo, o que quer dizer que Ele está separado da humanidade pecadora.

Então, que imensa graça é o Purgatório! A mancha de pecado numa alma — mesmo em estado de graça — impede-a de estar na presença de Deus; mas Ele nos dá o Purgatório como remédio. 

Como é o Purgatório? É aí que nossa santa, Catarina de Gênova, entra na história. As declarações oficiais da Igreja sobre o Purgatório são muito pontuais. Em suma, a Igreja diz duas coisas sobre o Purgatório:  

  • “As almas dos justos que no instante da morte ainda estão marcadas por pecados veniais ou por penas temporais devidas pelo pecado vão para o Purgatório” [1];
  • “Os fiéis vivos podem ajudar as almas do Purgatório por meio de suas intercessões (sufrágios)” [2].

Portanto, o Purgatório existe e nós podemos ajudar com nossas orações as almas que lá estão. Segundo a Igreja, isso é tudo o que sabemos com certeza. Duas coisas ainda estão abertas à especulação: o que é o Purgatório e quanto tempo as pessoas passarão nele. 

No entanto, Santa Catarina de Gênova nos dá uma ideia, pois ela teve visões do Purgatório para que pudéssemos saber mais a respeito desse misterioso estado em que entram tantas almas.

De acordo com Santa Catarina, o Purgatório é um lugar onde há mais alegria e mais sofrimento do que tudo o que conhecemos neste mundo. Essa descrição é incompreensível para nós; nesta terra, é difícil conceber algo que nos cause alegria e sofrimento — talvez o mais próximo disso seja o que a mãe sente durante o nascimento de um filho. Normalmente, pensamos na alegria como a ausência de sofrimento, mas no Purgatório os dois estados estão de algum modo integrados.

Essa combinação de alegria e sofrimento revela a essência do Purgatório nas visões de Santa Catarina de Gênova. As santas almas desejam ardentemente ver a Deus. Estão dispostas a suportar qualquer sofrimento necessário para isso. São Paulo nos diz em sua Primeira Carta aos Coríntios por que elas devem sofrer:

Agora, se alguém edifica sobre este fundamento, com ouro, ou com prata, ou com pedras preciosas, com madeira, ou com feno, ou com palha,  a obra de cada um aparecerá. O dia (do julgamento) irá demonstrá-lo. Será descoberto pelo fogo; o fogo provará o que vale o trabalho de cada um. Se a construção resistir, o cons­trutor receberá a recompensa. Se pegar fogo, arcará com os danos. Ele será salvo, porém passando de alguma maneira através do fogo (1Cor 3, 12-15).

As dores do Purgatório são comparadas ao fogo. Não é, porém, o fogo do inferno [3]; é o “fogo devorador” do próprio Deus (Hb 12, 29). De acordo com Santa Catarina, o fogo devorador refina o interior da alma no Purgatório, queimando as impurezas que se acumularam ao longo de uma vida de serviço irresoluto a Deus. Mas esse mesmo processo traz imensa alegria, pois a alma sabe que está se aproximando da completa união com Deus. Como diz Santa Catarina: “Novamente a alma percebe a tristeza de ser impedida de ver a luz divina; ao ser atraída por aquele olhar unificador, a alma instintivamente também deseja com ardor ficar livre” (Tratado sobre o Purgatório, c. 9).

Como a Sagrada Escritura, a razão e Santa Catarina deixam claro, o Purgatório é um grande ato de misericórdia. É o processo pelo qual nos tornamos aquilo que fomos criados para ser: imagens de Deus sem qualquer apego ou impureza oriunda do pecado. Não nos esqueçamos dessa imensa misericórdia, rezando pelas almas do Purgatório e começando a tarefa de nos desapegarmos do pecado nesta vida.

Notas

  1. Ludwig Ott, Manual de teología dogmática. 7. ed. Barcelona: Herder, 1969, p. 707. 
  2. Ludwig Ott, op. cit., p. 481.
  3. Não é esta, porém, a opinião de S. Tomás, a qual, a bem da verdade, ele reputa apenas provável e mais conforme à doutrina dos santos e a revelações feitas a muitos. Para o Angélico, o purgatório seria um lugar inferior, de algum modo unido ao inferno, de maneira que o mesmo fogo que pune os réprobos purgaria os justos (cf. Quaestio de purgatorio, a. 2 c.) (Nota da Equipe CNP).

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Não me deixem ser cremado!
Doutrina

Não me deixem ser cremado!

Não me deixem ser cremado!

A Igreja não aprova a cremação; ela a permite. Porém, como no caso da doutrina católica sobre a sexualidade, considerada por muitos rígida e intransigente, o caminho mais difícil é também o mais belo, humano e glorioso.

Casey ChalkTradução: Equipe Christo Nihil Praeponere18 de Novembro de 2020Tempo de leitura: 7 minutos
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Há algo inexplicavelmente profundo no corpo sem vida e enterrado, mesmo quando sobram apenas ossos e pó depois de sua deterioração. Ele recorda ao homem sua mortalidade, ao mesmo tempo que sugere (por meio da tensão de um cadáver que se parece com um ente querido, mas já não é essa pessoa plenamente) algo transcendente sobre a condição humana. Na famosa cena do cemitério em Hamlet, os coveiros zombam dos falecidos, até que Hamlet aparece e, observando um crânio, lamenta: “Hélas, pobre Yorick! Eu o conheci, Horácio…”. Depois da morte de Cristo, mulheres choram sobre seu corpo sem alma e procuram honrá-lo com especiarias e lençóis brancos.

Desde então, os cristãos têm honrado os corpos sem vida dos santos. Nós também deveríamos honrar os nossos.

Os cristãos têm boas razões para realizar tais práticas, como observam Scott Hahn e Emily Stimpson em seu livro recém-publicado, Hope to Die: The Christian Meaning of Death and the Resurrection of the Body [“Esperança de morrer: o sentido cristão da morte e a ressurreição do corpo”, ainda sem tradução portuguesa]. Em essência, o homem é feito à imagem de Deus precisamente por ter um corpo e uma alma intelectual. Não se trata simplesmente de um corpo com uma alma sensível, como no caso dos outros animais, nem de um puro espírito inteligente, como no dos anjos. E, como nos diz Gn 1, 31, esse ente de corpo e alma era bombondade que o pecado poderia manchar, mas não apagar.

“Cristo Morto com os Anjos”, de Edouard Manet.

A Encarnação confirmou e elevou a bondade do corpo. O Verbo se fez carne por meio do vaso puro de Maria. Como declaravam os primeiros cristãos em sua crítica aos gnósticos antimaterialistas: como poderia ser má a carne, se Deus se dignou assumi-la para si? Por meio da Encarnação, Deus tornou possível a união do corpo humano à divindade, seja através do próprio Cristo, seja também, por extensão, através de nossa união com Ele.

Quando Jesus morreu e ressuscitou dos mortos, Ele foi visto não como uma aparição sem corpo, mas como um homem glorificado. Ao aparecer a Tomé, Ele diz: “Introduz aqui o teu dedo, e vê as minhas mãos. Põe a tua mão no meu lado. Não sejas incrédulo, mas homem de fé” (Jo 20, 27). Jesus vence a morte no corpo. Os primeiros cristãos traziam essa mensagem no coração, reconhecendo que seu próprio destino eterno estava imerso na mesma realidade. São João declara: “Sabemos que, quando isso se manifestar, sere­mos semelhantes a Deus, porquanto o veremos como ele é” (1Jo 3, 2). São Paulo afirma: “Assim como reproduzi­mos em nós as feições do homem terreno, precisamos reproduzir as feições do homem celestial” (1Cor 15, 49). 

Os sacramentos, particularmente a Eucaristia, são os meios para vivenciarmos essa união com o corpo ressuscitado de Cristo. Na verdade, como o sacerdote diz na epiclese, pão e vinho se tornam o Corpo e o Sangue de Cristo. Na Missa, nós entramos em comunhão com Cristo não apenas espiritual, mas fisicamente. Scott Hahn explica: “A transubstanciação é, com efeito, uma espécie de fusão nuclear. Ela põe em movimento um processo que criará algo completamente novo: um novo nós”. Com todo respeito a formas de doutrina e espiritualidade cristãs que espiritualizam demais o céu às custas de sua dimensão física, quando nossos corpos ressuscitarem no último dia, eles se unirão a nossas almas, como aconteceu com Cristo.

Essa concepção do corpo humano estava em flagrante conflito com as concepções do mundo antigo. Os pagãos procuravam satisfazer seus desejos corporais das formas mais glutônicas e luxuriosas, mas isso porque eles não achavam que seus corpos importassem. O corpo humano possuía uma perfeição, juvenil e efêmera, e depois que essa beleza desaparecia — particularmente após a morte —, sua degradação pútrida e repugnante deveria ser mantida a uma distância social segura. É por isso que tantos povos pagãos queimavam os corpos de seus mortos. É possível imaginar os participantes de um funeral pensando, enquanto viam o cadáver se transformar em cinzas: “Tu não precisarás disso no lugar para onde estás indo!”

A “obsessão” cristã com os cadáveres impressionava muitos povos antigos (certamente os romanos), que a consideravam bizarra e repugnante. Os cristãos honram os mortos, visitam seus túmulos, guardam seus ossos, e até os veneram e beijam! Mas esses atos de devoção só eram possíveis graças à doutrina cristã sobre a ressurreição, que tributa uma grande estima ao corpo humano, mesmo o corpo morto, pois ele ressuscitará um dia e será renovado. Às vezes era muito difícil convencer um pagão que se convertia a abandonar suas piras funerárias; Carlos Magno, o convertido que se tornou o primeiro Sacro Imperador Romano, fez da cremação um crime de pena capital!

Sim, como Scott Hahn observa, depois do império de Carlos Magno, “nenhum outro país ou poder europeu baniu ou permitiu explicitamente a cremação. Não era necessário fazê-lo. Ninguém queria ser cremado”. Então, a cristandade permaneceu de pé por um milênio. Foi somente no século XIX que diversos grupos — “radicais franceses, maçons italianos, socialistas alemães, bolcheviques russos, médicos ingleses e engenheiros civis americanos” — começaram a resgatar o interesse pela cremação. Muitos de seus defensores eram ateus e anticristãos declarados. Segundo o historiador Thomas Laqueur, “a ideia era que a cremação pusesse abaixo aquela comunidade milenar que enterrava seus mortos em solo sagrado, oferecendo, para tanto, uma alternativa vinda da história”. 

Alguns utilizavam razões sanitárias para argumentar a favor da cremação. Os cadáveres, diziam, poluem o abastecimento de água e liberam gases tóxicos no ar. Mais tarde, no século XX, passaram a usar argumentos ecológicos — diziam que a Terra não tinha espaço suficiente para abrigar os mortos da humanidade. O sepultamento também foi se tornando cada vez mais caro, às vezes atingindo valores proibitivos. Finalmente, o mundo globalizado encoraja a disseminação da cremação, já que outras tradições religiosas (o hinduísmo e o budismo, por exemplo) normalmente queimam seus defuntos. O efeito dessas forças é alarmante: em 1905, 99,9% dos britânicos eram sepultados. Em 2017, cerca de 77% foram cremados.

A posição da Igreja sobre a cremação sempre girou em torno de uma permissão relutante. Marco Minúcio Félix, um apologeta cristão do século III, escreveu: “Não tememos a perda pela cremação, embora adotemos o costume do sepultamento, mais antigo e superior”. Em 1300, por sua vez, o Papa Bonifácio reafirmou que a cremação era para bruxas e hereges, não para os fiéis cristãos. Essa posição foi consagrada como disciplina da Igreja no Código de Direito Canônico de 1917, que diz: “Os corpos dos fiéis defuntos devem ser sepultados, e sua cremação é proibida” (Cân. 1203, § 1). A Enciclopédia Católica, de 1908, explica que a cremação é “uma profissão pública da falta de religião e de materialismo”. 

Nada disso, porém, equivalia a uma censura doutrinal formal contra a cremação. Por isso o Papa Paulo VI pôde suspender de forma legítima a proibição da cremação em seu documento Piam et Constantem, de 1963. Como explica Scott Hahn, a instrução apostólica era uma concessão ao crescente número de cristãos que solicitavam a permissão da Igreja para realizar a cremação “por motivos de saúde, econômicos ou outras razões de ordem privada ou pública”. Mesmo assim, o sepultamento continuou normativo, como diz a instrução: “Devem ser tomadas todas as medidas para preservar a prática do reverente sepultamento do fiel defunto”. Os cristãos só poderiam agir de outro modo “quando forçados a fazê-lo por necessidade”.

Outros documentos da Igreja têm reiterado a relutante autorização de Paulo VI para a cremação. O novo Código de Direito Canônico, de 1983, explica que “a Igreja recomenda sinceramente a preservação do piedoso costume do sepultamento”, embora “não proíba a cremação”. Scott Hahn cita a escritora católica Patricia Snow, que afirma que a Igreja “encoraja, prefere veementemente e recomenda com sinceridade que os católicos continuem a piedosa e constante (piam et constantem) prática do sepultamento dos corpos dos fiéis defuntos”. Na verdade, depois que Snow escreveu isso, o Vaticano publicou em 2016 outro documento no qual recomendava “insistentemente” que o sepultamento era “acima de tudo a forma mais adequada de manifestar a fé e a esperança na ressurreição do corpo”. 

A Igreja não aprova a cremação; ela a permite. Porém, como no caso da doutrina da Igreja sobre a sexualidade, considerada por muitos rígida e intransigente, o caminho mais difícil é também o mais belo, humano e glorioso. O sepultamento cristão prega a ressurreição, a transformação e a glorificação do corpo humano. Diz Scott Hahn:

A cremação transmite lições sobre o corpo que são diretamente contrárias àquilo em que a Igreja realmente crê. Ela ensina que o corpo é descartável, que não é uma parte integral da pessoa humana. Além disso, ensina que o corpo perde o valor quando a alma se separa dele — que o corpo encerrou seu ciclo e não lhe resta mais nada. Não há ressurreição, transformação ou glorificação.

Sim, os católicos piedosos podem ser cremados em boa consciência. Talvez, em alguns casos, seja prudente ou até necessário fazê-lo. Mas estou com Scott Hahn. Quando eu morrer, quero que meu corpo seja uma mensagem flagrante de afirmação da vida eterna corpórea que Cristo conquistou para todos nós.

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Não temos outro rei senão... Cristo!
Sociedade

Não temos outro rei senão... Cristo!

Não temos outro rei senão... Cristo!

Nosso Senhor Jesus Cristo deve vir em primeiro lugar também na vida pública: é a única forma de manter a saúde mental dos povos, a única forma de evitar que, em última instância, os poderes deste mundo se erijam em deuses.

Equipe Christo Nihil Praeponere16 de Novembro de 2020Tempo de leitura: 9 minutos
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Quando o Papa Pio XI instituiu a festa em honra a Cristo Rei, em 1925, ele a quis no final do ano litúrgico, como coroação de todos os mistérios da vida de Jesus. 

Ao contrário da festa que consta no atual calendário litúrgico, porém, a intenção original de Pio XI, expressa em sua encíclica Quas primas, era homenagear Cristo Rei no último domingo de outubro. Isto a fim de que, antes de celebrar a glória de todos os santos, em 1.º de novembro, a Igreja celebrasse e exaltasse a glória daquele que triunfa em todos os santos.

Mas não era só isso. Desde o princípio, a instituição dessa festa representou, por parte da Igreja, uma verdadeira “declaração de guerra” contra o mundo moderno: primeiro contra o erro do laicismo, que queria tirar Deus da vida pública, mas também contra alguns Estados que, ao ameaçar os justos direitos de Deus e da Igreja, espezinhavam direitos básicos de seus cidadãos.

Era o caso — só para dar dois exemplos — do México e da União Soviética, que desde 1917 começaram a perseguir de modo ferrenho os cristãos. No primeiro caso, a resistência católica ao anticlericalismo deu origem à Cristiada, um verdadeiro exercício de legítima defesa da Igreja. No segundo caso, pilhas e pilhas de cadáveres foram amontoadas em nome de um “mundo melhor” que até hoje não chegou — seja na própria Rússia, seja nos países comunistas onde seus erros foram principalmente disseminados.

Ou seja, a festa de Cristo Rei foi pensada como uma reação vigorosa da Igreja ao ódio a Deus, que transbordava das legiões de espíritos maus para as almas dos que nos governam; e, deles, para toda a sociedade. 

Infelizmente, o tom social dessa celebração foi em grande parte atenuado no Novus Ordo de Paulo VI. No documento com o qual se instituiu o novo calendário litúrgico, é possível ler, inclusive, que a festa antiga não foi apenas transferida de outubro para o fim do ano litúrgico; o que se deu foi uma verdadeira substituição [1]. Mudou-se o nome da festa; mudaram-se os textos litúrgicos; e, se é evidente que nem por isso a doutrina da Igreja mudou, as mentes dos sacerdotes e dos fiéis foram, pouco a pouco, perdendo consciência do que é a realeza social de Cristo, devido à quase total falta de menção a ela, seja nas salas de aula de teologia, seja nos templos e na divina liturgia. 

“Deus Onipotente”: detalhe do Retábulo de Gante, de Jan van Eyck.

Mas não é só a omissão dessa verdade doutrinal que nos fez chegar ao estado em que nos encontramos hoje. O laicismo já muito antes do Concílio Vaticano II se encontrava suficientemente difundido, e praticamente sem resistência de nenhum gênero. A separação entre Estado e Igreja tal como a encontramos hoje nas sociedades civis provocou uma cisão no homem moderno, separando-lhe o corpo e a alma e criando em sua mente uma espécie de esquizofrenia.

De fato, ele leu no Evangelho: Reddite quae sunt Caesaris Caesari, et quae sunt Dei Deo, “Dai a César o que é de César, e a Deus o que é de Deus” (Mt 22, 21), e entendeu o quê? Que César é tão “deus” das coisas terrenas quanto Deus, com d maiúsculo, o é das espirituais. Assim como Deus tudo criou, e tudo funciona de acordo com suas disposições, cada nação tem o seu próprio “deus” — ou, no caso, seu próprio ídolo. No mundo ocidental, isso fica evidente nas leis cada vez mais injustas que são promulgadas pelas autoridades civis. Elas se acham onipotentes e, à base de simples canetadas, definem quem pode viver e morrer, o que é família e o que não é, o que os filhos dos outros devem aprender ou não. De fato, em quantas nações do mundo o aborto já não foi legalizado? Em quantas já não é preciso mais ser homem e mulher para celebrar um casamento civil [2]? Em quantas outras, enfim, a “teoria” de gênero — no fundo, uma ideologia — já não se transformou em política de Estado?

“Mas as nações não são livres para aprovar as leis que entenderem mais oportunas para seus cidadãos?” Sim, as pessoas, melhor dizendo, são livres para votar e aprovar as normas que acharem mais convenientes para seus respectivos territórios, mas essa liberdade não é absoluta. Ela deve levar em conta a realidade das coisas, tais como foram criadas por Deus, e não instaurar uma nova ordem das coisas, uma “realidade paralela”, por assim dizer. Se um tiranete instituísse uma lei “abolindo” a gravidade, todos ririam dele e diriam, com razão, que ele perdeu o juízo. Todavia, diante de parlamentos, tribunais e conselhos que hoje proclamam (às vezes em uníssono) que um homem pode ser mulher e uma mulher, homem, todos os meios de comunicação já estão devidamente coordenados para impor uma “espiral do silêncio” e patrulhar quem quer que ouse manifestar-se contra César!

Em outra ocasião, porém, Jesus disse: Nemo potest duobus dominis servire, “Ninguém pode servir a dois senhores” (Mt 6, 24). Ou seja, é preciso dar a César o que é de César, sim, mas só Deus é Senhor em absoluto; só Ele é Senhor dos senhores; a Ele inclusive os césares desse mundo devem estar sujeitos. E não porque nós, católicos, sejamos teocratas, no sentido de que os Estados nacionais deveriam ser “fagocitados” pela Igreja em todo o mundo; mas somos, sim, teocêntricos, e acreditamos que é preciso pôr Deus em primeiro lugar, também na vida pública, pois esta é a única forma de manter a saúde mental dos povos, a única forma de evitar que, em última instância, os poderes deste mundo se erijam em deuses — e inclusive ordenem a seus súditos que lhes prestem culto. 

É o que já está acontecendo na China, onde os cristãos estão sendo obrigados a substituir, em suas casas, representações de Cristo por quadros e ditos do ditador da vez: Xi Jinping.

A notícia assusta, mas é este o fim inevitável para o qual caminham todos os que perdem a fé em Jesus Cristo. Pois Ele, Deus feito homem, é o único refúgio e proteção dos pobres contra os poderosos deste mundo: sem o Deus que se fez homem, os homens se fazem deuses, e agem efetivamente como tais. Sem os limites da lei de Cristo, as leis dos homens não têm limite algum. Sem o justo temor do juízo divino, todos os juízes não só podem falhar, como realmente falham; não só podem condenar inocentes, como realmente condenam; não só podem fazer vista grossa aos maus, como realmente fazem. Daí o aborto legalizado em tantos lugares; pais pressionados a submeter os filhos ao “novo normal” da moralidade pública, nas escolas, com teoria de gênero, sexualização precoce, preconceitos contra a Igreja etc.

Ao bom católico, diante de tudo isso, não resta outra alternativa senão, com o máximo de suas forças, resistir. A menos que ele queira tornar-se mais um em meio à multidão que condenou Jesus à morte, clamando, quase dois mil anos atrás: Non habemus regem nisi Caesarem, “Não temos outro rei, senão César” (Jo 19, 15). 

Não, a fé em Jesus, Nosso Senhor, não tolera compromissos fáceis com o mundo, conluios criminosos com a mentalidade dominante. O caminho de quem procura acomodar o Evangelho às modas e novidades deste mundo; o caminho de quem, na prática, serve a dois senhores é evoluir rapidamente para a apostasia, para a traição de Cristo, para o abandono da Verdade: aut enim unum odio habebit et alterum diliget, aut unum sustinebit et alterum contemnet, “porque ou odiará a um e amará o outro, ou se dedicará a um e desprezará o outro” (Mt 6, 24).

A juíza norte-americana Amy Coney Barrett, católica e mãe de 7 filhos.

Se nos permitem a comparação, todo católico deveria procurar merecer, com sua vida, o elogio que há alguns anos recebeu a juíza Amy Coney Barrett, recém-nomeada ministra da Suprema Corte norte-americana (sob protestos, evidentemente, da mídia e de políticos anticristãos). Constatando as firmes posições da magistrada católica em matérias que dizem respeito à lei natural, uma senadora do Partido Democrata lhe dirigiu, em 2017, durante uma sabatina, as seguintes palavras: The dogma lives loudly within you — que poderíamos traduzir como: O dogma vive fortemente dentro de você, ou: O dogma fala alto dentro de você, ou ainda: O dogma está entranhado em você.

A parlamentar em questão usou a palavra dogma num sentido lato e, com a sua afirmação, ela pretendia não elogiar a juíza, mas denegrir-lhe a imagem. O que ela receava, porém, ao ver o nome de Amy avançar nas mais altas cortes da Justiça dos Estados Unidos? 

O temor dela era que, num conflito entre César e Deus, a balança da juíza pendesse mais para Deus, como São Pedro adverte que os cristãos devem agir: Oboedire oportet Deo magis quam hominibus, “Convém obedecer antes a Deus que aos homens” (At 5, 29). O temor dela — e de todos os seus companheiros de partido —  era ter diante de si um outro Thomas More, o santo que morreu como the king’s faithful servant, but God’s first, isto é, “fiel servidor do rei, mas servo de Deus em primeiro lugar”. O temor dela — e de todo o mundo descrente — é que ainda haja cristãos dispostos a testemunhar a própria fé, cristãos prontos a dar a vida por aquilo em que acreditam, como fizeram os mártires.

É uma pena que mulheres como esta sejam figuras raras em nossas repartições públicas. Porque a expectativa que todo o mundo deveria ter de um cristão autêntico na vida política é justamente esta: que, entre Deus e César, ele não hesitasse jamais em obedecer ao primeiro.

Os discípulos de Jesus não devem vender-se nunca à opinião pública, buscar os aplausos do mundo, se isso significa trair o seu Deus.

O nosso problema hoje é que, infelizmente, já não podem dizer a nosso respeito: “O dogma está entranhado em você”. Muito pelo contrário: o afã de agradar o mundo, as preocupações mundanas, os apegos desta vida, tudo isso pode muito bem ter feito morrer, já há muito tempo, a chama da fé em nossos corações.

Esta é, pois, a grande tragédia: o dogma já não habita mais nos corações de tantos de nós, católicos. Já não nos preocupamos mais em dar testemunho da lei de Cristo; não só a fé já não é mais importante para nós, mas a própria realidade das coisas, como foram criadas por Deus, não nos interessa mais. Preferimos manter uma aparência aos olhos dos outros a assumir a verdade com todas as suas consequências. Preferimos ceder ao aborto, à revolução sexual e à ideologia de gênero, a defender com unhas e dentes a lei de Deus inscrita no mais profundo do coração humano.

A Virgem de Fátima prometeu, no entanto, que ao menos em Portugal se conservaria sempre o dogma da fé. Por essa razão em especial, nós, lusófonos, devemos combater com muito mais empenho esse divórcio entre vida religiosa e vida pública, a que a Gaudium et spes chamou, com razão, um dos mais graves erros do nosso tempo (cf. n. 43). 

Não devemos nos contentar, de fato, com o “cumprimento dos atos de culto e de certos deveres morais” (id.), pois ser cristão é muito mais do que isso: é confessar o reinado social de Cristo sobre todos os povos; é confessar que, acima de todos os césares deste mundo louco, há um Deus que tudo governa com sabedoria; é viver, enfim — e buscar que as pessoas ao nosso redor vivam — de acordo com as leis que essa Inteligência suprema ditou, desde toda a eternidade, para a nossa felicidade e eterna salvação.

Notas

  1. “No último domingo per annum celebra-se a solenidade de Nosso Senhor Jesus Cristo, Rei do universo, no lugar [loco] da festa instituída pelo Papa Pio XI em 1925, fixada para o último domingo de outubro. Deste modo, põe-se sob melhor luz a importância também escatológica deste domingo” (Calendarium Romanum, p. 63, trad. nossa).
  2. Malgrado a orientação cristalina da Igreja, emitida há alguns anos pela Congregação para a Doutrina da Fé, a respeito do reconhecimento civil das uniões homossexuais.

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