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A “soberba disfarçada” dos que não têm tempo para Deus
Espiritualidade

A “soberba disfarçada”
dos que não têm tempo para Deus

A “soberba disfarçada” dos que não têm tempo para Deus

Rezamos, então? Ah, sim, rezamos! Mas o fazemos do nosso modo e em nosso tempo. As regras, somos nós que as ditamos; os termos, nós que os estabelecemos. Rezamos, sim, mas os deuses, no fundo, somos nós.

Equipe Christo Nihil Praeponere24 de Julho de 2019
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No calendário litúrgico anterior à reforma litúrgica de Paulo VI, o Tempo depois de Pentecostes (correspondente ao “Tempo Comum” de agora) era inaugurado com a parábola do grande banquete (cf. Lc 14, 16-24). O texto, proclamado no domingo seguinte à grande solenidade de Corpus Christi (o 2.º depois de Pentecostes), servia de “complemento” para os ensinamentos desta grande celebração [1], lançando uma luz sobre toda a nossa vida espiritual.

Em primeiro lugar, o banquete a que faz referência Nosso Senhor nesta parábola pode significar várias coisas. Numa outra versão da mesma história, presente no Evangelho de S. Mateus (22, 1-14), Jesus fala mais propriamente de um banquete “nupcial”, ou seja, de um casamento. Com essa analogia, Ele quer fazer referência à união entre Deus e o homem que já aconteceu em Jesus Cristo (e à qual chamamos “união hipostática”), à que está acontecendo hoje em nossa vida de oração e em cada comunhão eucarística (pois incorporamos ao nosso o Corpo de Cristo) e, por fim, à que acontecerá no fim dos tempos, quando nos unirmos a Ele de modo total e definitivo.

Concentremo-nos no segundo sentido da comparação: nossa comunhão com Deus através da vida espiritual. À luz disso, as desculpas que os convidados apresentam ao longo da parábola nada mais são do que as desculpas que nós mesmos apresentamos para não procurarmos a Deus e nos unirmos a Ele através da oração e dos sacramentos. No Evangelho, é um homem que comprou uma fazenda e precisa governá-la; é outro que comprou umas juntas de bois e precisa vê-las; é outro que se casou e precisa cumprir seus deveres conjugais… Ou seja, ninguém desocupado; são justamente os “ocupados demais” que Nosso Senhor procura repreender. 

O problema não está, evidentemente, em ter ocupações, posses ou uma família a cuidar. A grande questão, aqui, é que esses homens não compreendem (ou não querem compreender) que toda a sua vida deveria girar em torno desse banquete que é a oração íntima com Deus. O fato mesmo de eles apresentarem desculpas para não comparecerem ao festim já constitui um absurdo. Seria como alguém dizer que está “ocupado demais” para comer, por exemplo; que tem muito o que fazer e, justamente por isso, deixará de se alimentar… Ora, mas não é justamente o alimento que dará forças a essa pessoa para desempenhar bem suas atividades? 

É com esses olhos que devemos enxergar as desculpas que tantos de nós arrumamos para não rezar: “não tenho tempo”, “estou muito ocupado”, “minha vida é uma correria” são o tipo de frase que só se deve usar para coisas dispensáveis ou insignificantes. Se achamos que a oração seja isso, então a verdade é que nós ainda não entendemos nada de cristianismo. Pior do que isso: não entendemos nada da realidade do nosso ser, que tem uma necessidade profunda de Deus, uma inquietude que não cessará jamais, enquanto não repousarmos nele. Se é essa a nossa postura, somos como o homem orgulhoso descrito pelo livro do Apocalipse: 

Dizes: Sou rico, faço bons negócios, de nada necessito — e não sabes que és infeliz, miserável, pobre, cego e nu. Aconselho-te que compres de mim ouro provado ao fogo, para ficares rico; roupas alvas para te vestires, a fim de que não apareça a vergonha de tua nudez; e um colírio para ungir os olhos, de modo que possas ver claro (3, 17-18). 

O homem que vive sem oração e, além disso, não se dá conta do quanto precisa de Deus, é exatamente isto: um “infeliz, miserável, pobre, cego e nu”, que se acha “rico”, homem de “bons negócios” e “de nada” necessitado. Ou seja, é um soberbo

Mas essa soberba… quantas vezes pode vir disfarçada de humildade! São Gregório Magno, comentando a frase com que os primeiros convidados pretendiam desculpar-se — “Peço-te que me dês por dispensado” (em latim: Rogo te, habe me excusatum) —, ensina que “aquele que se escusa de ir à ceia de quem o convida, seja por causa da fazenda, seja para experimentar as juntas de bois, simula palavras de humildade: com efeito, enquanto diz ‘rogo-te’, mas se recusa a ir, soa-lhe na voz humildade, mas soberba na ação (humilitas sona in voce, superbia in actione)” [2].

O verbo usado pelo autor sagrado é mesmo providencial: Rogo. Ora, rogar é uma espécie de oração. Logo, também os soberbos “rezam”. Não são pagãos os homens da parábola. Não se trata de descrentes, ateus ou incrédulos. Primeiro porque Nosso Senhor contou essa história aos judeus simbolizando nos primeiros convidados justamente o povo eleito que não O quis receber; mas depois, numa interpretação mais ampla, esses convidados “ocupados demais” somos nós mesmos, os religiosos que acreditamos em Deus, mas vivemos como se Ele não existisse.

Rezamos, então? Ah, sim, rezamos! Mas o fazemos do nosso modo, em nosso tempo; as regras, somos nós que as ditamos; os termos, nós que os estabelecemos; a data, nós que a definimos. Rezamos, sim, mas os deuses, no fundo, somos nós.

Mas poderia o verdadeiro Deus se contentar com um culto prestado deste modo, com uma oração assim soberba? Não, não poderia ser. Nosso Senhor diz que os seus O adorariam “em espírito e em verdade” (Jo 4, 23), e não exteriormente, de modo fingido e dissimulado. Por isso, o texto da parábola diz expressamente que o Senhor se irou com esses homens “ocupados demais”, e que não provariam jamais do seu banquete. Seus lugares seriam ocupados por outros: “os pobres, os aleijados, os cegos e os coxos” (et pauperes, ac debiles, et caecos, et claudos). 

E por que eles? Porque é essa a disposição interior que Deus espera de nós; Ele quer que nos reconheçamos necessitados dele, que nos demos conta de nossa pobreza, de nossa debilidade, de nossa cegueira e de nossa inconstância; e não que nos consideremos “plenos” e “autossuficientes” a ponto de O abandonarmos e pensarmos que temos tudo aquilo de que precisamos. Porque essa postura, no fim das contas, não passa de uma ilusão. Pauperes, debiles, caeci et claudi somos todos. A diferença é que uns andam na verdade do que são (e, por isso, são humildes), enquanto outros escolheram deliberadamente viver numa mentira: a de que se bastam a si mesmos.

E quem se basta... infelizmente deixa de participar do admirabile commercium que aconteceu no momento da Encarnação: 

Deus veio a esta nossa pobre terra para realizar uma troca; para dizer-nos, como só um bom Deus poderia fazer: “Tu me dás a tua humanidade e eu te darei a minha divindade; tu me dás o teu tempo e eu te darei a minha eternidade; tu me dás o teu corpo frágil e eu te darei a redenção; tu me dás o teu coração partido e eu te darei amor; tu me dás o teu nada e eu te darei o meu Tudo.” [3]

Quem se basta continua “humano demais”; continua aprisionado no tempo tão passageiro desta existência; continua preso às necessidades tão corriqueiras deste corpo mortal; continua vivendo no mundo limitado dos próprios sentimentos; continua fechado em seu “nada” e, no fim, não ganha o Tudo que o Preciosíssimo Sangue de Cristo nos veio comprar.

Não nos esqueçamos, pois, que o Céu é um dom, que a vida sobrenatural é um presente de Deus, e não algo a que possamos ter “direito” com um simples crachá que nos identifique como católicos ou cristãos. Disponhamo-nos às transformações verdadeiras, profundas e radicais que Deus realmente deseja operar em nós. Mas sem desculpas, sem artifícios, sem subterfúgios. Podemos até enganar os outros, ou tentar enganar a nós mesmos; mas Deus non irridetur, “de Deus não se zomba” (Gl 6, 7): Ele conhece o mais íntimo de nosso coração.

Referências

  1. Dom Prósper Guéranger explica que, “quando ainda não se havia estabelecido a festa do Corpus Christi, este evangelho já estava assinalado para este Domingo. O Espírito divino que assiste a Igreja na ordenação de sua liturgia preparava deste modo, antecipadamente, o complemento dos ensinamentos desta grande solenidade.” (El Año Litúrgico, t. IV: El Tiempo despues de Pentecostes (I). Burgos: Editorial Aldecoa, 1955, p. 113)
  2. S. Gregório Magno, apud Santo Tomás de Aquino, Catena Aurea in Lucam, c. XIV, l. 4.
  3. Fulton Sheen, “The Infinity of Littleness” (de 24 dez. 1933), in: The Eternal Galilean, Washington: National Council of Catholic Men, 1934, p. 12.

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Um Papa forte que ainda desafia o mundo moderno
Doutrina

Um Papa forte
que ainda desafia o mundo moderno

Um Papa forte que ainda desafia o mundo moderno

À medida que o mundo ocidental se despojava do jugo suave de seu Redentor para, no lugar, se deixar seduzir por ideologias, erguia-se em Roma a voz do sucessor de São Pedro.

Peter KwasniewskiTradução: Equipe Christo Nihil Praeponere24 de Julho de 2019
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Em meu último artigo, repassei algumas das grandes encíclicas sociais de Leão XIII, escritas com o fim de dar à Igreja uma orientação em sua delicada e difícil relação com os Estados modernos e as situações econômicas atuais. Leão XIII estava em luta contra a emergência de um estilo de vida e uma visão de mundo inteiramente secularizados, separados da herança cristã e obcecados com a busca de um progresso estritamente material. Ele foi um dos primeiros a destacar a magnitude das mudanças que estavam acontecendo, à medida que o mundo ocidental se despojava do jugo suave de seu Redentor para, no lugar, se deixar seduzir pelas ideologias da moda como o liberalismo, o materialismo, o consumismo, que prometiam expandir a liberdade, ao mesmo tempo que punham gradualmente abaixo as instituições naturais e sobrenaturais que sustentam e confortam o homem em sua peregrinação pela terra.

Neste artigo, eu gostaria de comentar a grande traços algumas encíclicas fantásticas de Leão XIII que merecem hoje o nosso estudo. Elas bem poderiam formar um excelente “syllabus” para um clube do livro ou para os grupos de leitura de nossas paróquias. A clareza delas, somada à sua força e relativa brevidade, é um dos melhores modelos em que se deviam inspirar os documentos do magistério papal.

Em sua encíclica sobre o matrimônio cristão, Arcanum Divinae (1880), Leão XIII fala do projeto original do Criador para o casamento e a família, e desenvolve uma crítica contundente contra algumas teorias “inovadoras” e a legislação liberal que, à época, estavam apenas começando a comprometer a instituição familiar. Lida agora, com 150 anos de vantagem, esta encíclica nos permite ver a precisão incrível de todas as predições feitas pelo Papa sobre os efeitos deletérios de tais leis e ideias. No entanto, e isto é o mais importante, o Papa também aprofunda o lado positivo da matéria. Esta encíclica, por si só, constitui o marco inaugural do ensinamento católico moderno sobre matrimônio e família.

Um dos primeiros atos do pontificado de Leão XIII foi a promulgação do documento “Sobre a restauração da filosofia cristã”, mais conhecido como Aeterni Patris (1880). O trabalho inacabado do Concílio Vaticano I, suspenso em 1870 por causa da Guerra Franco-Prussiana, incluía uma revisão e reforma completas do plano de estudos católico em filosofia e teologia. Leão XIII tomou para si esta missão, apoiado em sua experiência pessoal do poder sistemático, do gênio sintético e da relevância atemporal de Santo Tomás de Aquino. Aeterni Patris foi e ainda é a Carta Magna do movimento de restauração ou, melhor dizendo, de refortalecimento do tomismo. É notável esta encíclica por sua visão conjunta da história da intelectualidade cristã e por sua ponderada, embora decidida, preferência por Santo Tomás de Aquino.

Uma vez mais, foi para dar continuidade aos esforços do Concílio Vaticano I por articular a harmonia entre fé e razão e responder ao espírito arrogante do reducionismo histórico-crítico que Leão XIII redigiu sua encíclica sobre o estudo da Sagrada Escritura: a Providentissimus Deus (1893). A encíclica proclama com firmeza a inspiração divina, a inerrância e a infalibilidade do Texto Sagrado, além de reafirmar e explicar a doutrina católica tradicional acerca da dupla autoria, divina e humana, dos livros da Escritura; a sua consequente imunidade de todo erro; o vínculo inquebrantável entre Bíblia, Tradição e Magistério; e os vários sentidos da Escritura identificados pelos Padres da Igreja.

Leão XIII retratado por Franz von Lenbach.

Em 1896, Leão XIII trouxe à luz a encíclica Satis Cognitum, sobre a unidade da Igreja, na qual se abordam tão bem os fundamentos da eclesiologia que o Papa Paulo VI, em sua encíclica inaugural Ecclesiam Suam (1964), deu-lhe especial atenção como fonte primária para as futuras discussões no Concílio Vaticano II. Esta encíclica de Leão XIII confronta-se diretamente com a pergunta: teve Jesus real intenção de fundar uma Igreja, visível e hierarquicamente estruturada como um corpo de fiéis na terra, encarregada de pregar o seu Evangelho e estender aos confins do mundo os efeitos de sua Redenção? O Papa ordena de forma sucinta evidências tiradas da Escritura, o testemunho da Tradição e argumentos racionais para chegar à conclusão de que sim, há uma única Igreja de Cristo, com sua estrutura episcopal. Ao longo de todos os meus anos de estudos em eclesiologia e apologética, nunca encontrei nenhuma exposição deste tema que seja tão direta, bem ordenada, elegante e inspiradora como a de Leão XIII. 

Embora cada uma das quase cem encíclicas promulgadas por Leão XIII ofereça uma explicação penetrante da situação moderna, além de bons conselhos para os católicos, há pelo menos três delas, escritas na virada do século XIX para o XX, que me impressionaram durante anos como as mais representativas da profunda visão teológica do Papa, de seu fervor religioso tão animador e de sua ousada crítica cultural: trata-se de Annum Sacrum, sobre a consagração ao S. Coração (1899); Tametsi Futura, sobre Jesus Cristo, Redentor da humanidade (1900); e Mirae Caritatis, sobre a Santa Eucaristia (1902).

Todas elas nos falam do amor imenso que Deus manifestou por nós em Jesus Cristo, da misericórdia que Ele tem mostrado para conosco desde a queda de Adão, e da verdade divina, a única em que nossas inteligências podem encontrar paz em meio às tempestades de filosofias de vida cada vez mais confusas e contraditórias. O Papa não se contenta com afirmar que é esta a nossa terrível condição e qual é a nossa salvação; ele o expõe passo a passo, mostrando aonde nos podem, a nós homens modernos, levar as falsas filosofias de vida e como Deus nos pode resgatar do fosso de destruição que cresce cada vez mais com a nossa rejeição e desprezo de seu Evangelho. Sinto-me obrigado a dizer que teria sido de muito proveito que os Padres conciliares do Vaticano II houvessem estudado primeiro estes documentos antes de chegarem a Roma em 1962. Isto lhes teria dado a dose necessária de realismo, o refortalecimento do seu sensus catholicus, além de um modelo de brevidade e profundidade.

Neste “trio” de encíclicas, Leão XIII fomenta uma luta apaixonada pela conversão, a começar pela própria Igreja, movendo-se a partir daí em círculos concêntricos até abarcar a humanidade inteira. E, como todos os Papas antes e depois dele, Leão XIII nos convida a estar reunidos em torno do mais sublime de todos os sagrados mistérios na terra: a Santíssima Eucaristia, o Corpo e Sangue de nosso Redentor, e a deixá-lo nos unir em uma só Igreja, em um só Corpo, repleto daquela força vital que cura a queda dos filhos de Adão.

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O martírio das carmelitas de Compiègne
Santos & Mártires

O martírio das carmelitas de Compiègne

O martírio das carmelitas de Compiègne

A multidão comprime-se em volta da guilhotina. Entre os condenados, se vêem diversas mulheres de capa branca: são as dezesseis carmelitas do convento de Compiègne...

Henrique Elfes17 de Julho de 2019
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Praça do Trono, 17 de julho de 1794. — São cerca de oito horas da tarde. É verão e o céu ainda está claro. A multidão comprime-se em volta da guilhotina, erguida no centro da antiga Place du Thrône, atual Barriére de Vincennes. Junto dos degraus que conduzem ao cadafalso, o carrasco, Charles-Henri Sanson, espera respeitosamente de pé, flanqueado por dois ajudantes. O calor é opressivo, e em toda a praça reina um odor mefítico de sangue. 

Vindos da cidade, despontam os carroções. Hoje são dois, e vêm bastante cheios: ao todo, serão quarenta vítimas. Recebem-nas as exclamações e ameaças habituais, mas o barulho logo se abafa em murmúrios de espanto. Acontece que, entre os condenados, se vêem diversas mulheres de capa branca: são as dezesseis carmelitas do convento de Compiègne. Ao contrário dos seus companheiros de infortúnio, não deixam pender a cabeça nem choram ou gritam; trazem o rosto erguido, e a linha firme do corpo é sublinhada pelas mãos amarradas às costas. E cantam: aos ouvidos de todos, ressoam as notas quase esquecidas da Salve Rainha em latim e do Te Deum. Até para o mais empedernido dos basbaques presentes, é um espetáculo inaudito.

Quando os carroções param ao pé do cadafalso, o burburinho faz-se silêncio absoluto. Até essas mulheres histéricas, as chamadas “fúrias da guilhotina”, que sempre estão na primeira fila dos espectadores, emudecem.

As primeiras a descer são as carmelitas. Uma delas, a priora, Madre Teresa de Santo Agostinho, aproxima-se do carrasco e pede-lhe que lhes conceda uns minutos para poderem renovar os seus votos e que a deixe ser a última a sofrer a execução, para que possa animar cada uma das suas filhas até o fim. Sanson, o carrasco, alma delicada, concorda de bom grado.

Todas juntas, cantam o Veni Creator Spiritus. A seguir, renovam os seus votos religiosos. Enquanto rezam, uma voz de mulher sussurra na multidão: “Essas boas almas, vejam se não parecem anjos! Pela minha fé, se essas mulheres não forem diretas ao paraíso, é porque o paraíso não existe!…”

A priora recua até a base da escada. Tem nas mãos uma estatueta de cerâmica da Virgem Maria com o Menino Jesus ao colo. A primeira a ser chamada, a mais jovem de todas, é a noviça Constança. Ajoelha-se diante da Madre e pede-lhe a bênção. Segundo uma testemunha, ter-se-ia também acusado nesse momento de não haver terminado o ofício do dia. Com um sorriso, a Madre diz-lhe: “Vai, minha filha, confiança! Acabarás de rezá-lo no Céu”…, e dá-lhe a beijar a imagem. 

Constança sobe rapidamente os degraus, entoando o salmo Laudate Dominum omnes gentes, “Louvai o Senhor, todos os povos”. “Ia alegre, como se se dirigisse para uma festa”. O carrasco e seus ajudantes, com gesto profissional, dispõem-na debaixo da guilhotina. Ouve-se o golpe surdo do contrapeso, o ruído seco da lâmina que cai, o baque da cabeça recolhida num saco de couro. Sem solução de continuidade, o corpo é lançado ao carroção funerário.

Uma por uma, as freiras ajoelham-se diante da priora e pedem-lhe a bênção e permissão para morrer. Cantam o hino iniciado por Constança. Quando chega a vez da Irmã de Jesus Crucificado, que tem 78 anos, os jovens ajudantes do carrasco têm de descer para ajudá-la a vencer os degraus. Ela diz-lhes afavelmente: “Meus amigos, eu vos perdôo de todo o coração, tal como desejo que Deus me perdoe”.

Só falta a Madre. Com gesto simples e firme, beija a estatuinha e confia-a à primeira pessoa que tem ao lado. (Essa imagem foi devolvida mais tarde à Ordem e encontra-se hoje no Carmelo de Compiègne, novamente fundado em 1867.) Tem 41 anos, um rosto expressivo, nem muito bonito nem feio; o porte é, mais do que altivo, descontraído. Os olhos castanhos, sofridos, mas irradiando bondade, procuram os do Pe. Lamarche, que as confessara no dia anterior na prisão e que se encontra entre a multidão. Como quem tem pressa em concluir uma tarefa urgente, sobe por sua vez os degraus.

Agora tudo terminou. Pode-se cortar o silêncio como se fosse um queijo. Muitos dos assistentes choram baixinho. Anos mais tarde, encontrar-se-ão — registrados em cartas pessoais, diários íntimos e memoriais — os ecos da emoção que experimentaram e dos efeitos que ela lhes causou: muitos sentiram a necessidade de mudar de vida, de retomar a prática dos sacramentos, um ou outro de ingressar num convento… Um deles, um menino que presenciara a cena das janelas de um prédio situado em frente da guilhotina, guardou dela uma impressão tão profunda que, anos mais tarde, quando fazia o serviço militar, carregava sempre consigo as obras de Santa Teresa de Ávila e acabou por fazer-se sacerdote. “O amor vence sempre”, costumava dizer a Madre priora; “o amor vence tudo”.

Os corpos foram levados às pressas para o antigo convento dos agostinianos do Faubourg de Picpus. Lá foram lançados na fossa comum e cobertos de cal viva. Hoje há ali um gramado cercado de ciprestes, com uma simples cruz de ferro. É um lugar de silêncio e oração.

Na capelinha anexa a esse cemitério, há uma lápide que traz o nome das dezesseis mártires beatificadas em 27 de maio de 1906 por São Pio X.

Referências

  • In: Gertrud von le Fort. A última ao cadafalso: medo e esperança, trad. port. de Roberto Furquim. São Paulo: Quadrante, 1998, pp. 120-123.

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Como entender que a Igreja é santa?
Doutrina

Como entender que a Igreja é santa?

Como entender que a Igreja é santa?

A Igreja é santa? Que haja alguns cristãos verdadeiramente santos, ninguém há que o negue; mas será suficiente este pequeno rebanho de santos para poder chamar santa a toda a Igreja?

Ignacio Riudor, SJTradução: Equipe Christo Nihil Praeponere (adaptado)16 de Julho de 2019
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I. O problema. — A Igreja é santa? São Paulo escreveu aos fiéis de Éfeso as seguintes palavras: “Cristo amou a Igreja e se entregou por ela, para santificá-la, purificando-a pela água do batismo com a palavra, para apresentá-la a si mesmo toda gloriosa, sem mácula, sem ruga, sem qualquer outro defeito seme­lhante, mas santa e irrepreensível” (Ef 5, 25ss). Ora, esta afirmação do Apóstolo se cumprirá apenas na etapa escatológica da história da Igreja ou é uma realidade já existente aqui na terra? Eis o problema que muitos se propõem hoje em dia. 

Pois bem, dado que a Igreja de Cristo não é um ser abstrato, senão que se compõem de cristãos concretos, podemos dizer em verdade que estes são santos? Que haja alguns cristãos verdadeiramente santos, ninguém há que o negue; mas será suficiente este pusillus grex, este pequeno rebanho de santos para poder chamar santa a toda a Igreja? Árduo problema, que devemos estudar no presente artigo. Antes de tudo, porém, é necessário investigar nas fontes primárias da Revelação o conceito de santidade.

1. O adjetivo “santo” na Sagrada Escritura.a) Aplicado a Deus. — O adjetivo “santo”, que por sua etimologia indica a ideia de pureza, isenção de toda falta e pecado, se aplica no Antigo Testamento principalmente a Deus. Isaías é, quiçá, o autor inspirado que mais vezes chama assim a Deus, sobretudo com o nome “o Santo de Israel” (cf. Is 1, 4; 5, 19.24; 10, 17.20; 12, 6; 17, 7; 29, 13.23; 30, 11.12.15; 41, 14.16.22; 43, 3.14; 45, 11), ou chamando-o também três vezes santo: “Santo, santo, santo é o Senhor Deus do universo” (Is 6, 3). Mas também em muitos outros livros do Antigo Testamento se dá com muita frequência este título a Deus.

No Novo Testamento, ao manifestar-se Deus no mistério da SS. Trindade, se dá o nome de santo em primeiro lugar ao Pai: “Pai santo, guarda-os em teu nome” (Jo 17, 11). E, como derivação de sua santidade, os cristãos, filhos seus, se santificam ou purificam à semelhança dele, como nos diz São João em sua primeira epístola: “Caríssimos, desde agora somos fi­lhos de Deus […]. Sabemos que, quando isso se manifestar, sere­mos semelhantes a Deus, porquanto o veremos como ele é. E todo aquele que nele tem essa esperança torna-se puro, como ele é puro” (1Jo 3, 2s).

Também ao Filho encarnado, Jesus Cristo, se dá o epíteto de “santo”. O anjo Gabriel anuncia a Maria que o fruto de suas entranhas se chamará “o Santo, Filho de Deus” (Lc 1, 35). Os próprios demônios o reconhecem como o “Santo de Deus” (Lc 4, 34). Pedro o chama assim em seu segundo discurso aos judeus depois da vinda do Espírito Santo: “Vós renegastes o Santo e o Justo” (At 3, 14). Na epístola aos Hebreus se chama Jesus de “santo, inocente, imaculado, separado dos pecadores” (Hb 7, 26).

À terceira pessoa da SS. Trindade se dá também este nome de santo, e isso de tal maneira que ele chega a ser um dos componentes do seu nome próprio: Espírito Santo. Assim aparece tanto nos evangelhos (cf. Mt 1, 18ss; Lc 1, 35; 4, 1; Jo 14, 26; 20, 22 etc.) como nos Atos dos Apóstolos (cf. At 1, 2.5.16; 2, 38; 5, 3; 10, 38.44 etc.) e em várias passagens de São Paulo (cf., por exemplo, Rm 5, 5; 2Cor 13, 13; Ef 1, 13 etc.).

b) Aplicado às criaturas. — Não somente a Deus se aplica na Sagrada Escritura o epíteto “santo”, mas também às pessoas e inclusive às coisas, enquanto pertencem ou estão consagradas a Deus. Tudo o que está mais estreitamente vinculado ao culto divino se chama santo. Assim, chama-se “o santo” à parte do tabernáculo ou do Templo que continha o altar dos perfumes e o candelabro de sete braços (cf. Ex 26, 33; 28, 29; 43, 20; e Hb 9, 2 etc.). E à parte onde estava a Arca da Aliança se chamava “o santo dos santos” (cf. Ex 26, 34; 3Rs 6, 16; Hb 9, 3). Santos eram chamados os ornamentos do Sumo sacerdote (cf. Ex 28, 36), os vasos sagrados (1Rs 21, 5) etc. Jerusalém é a “cidade santa” (cf. Mt 24, 25; Mc 13, 14; Lc 21, 20), e São Pedro chama “santo” ao monte da transfiguração, onde se manifestou a divindade de Jesus Cristo (cf. 2Pd 1, 18). 

Mas com muito maior razão que as coisas, chamam-se santas as pessoas consagradas a Deus. No Levítico se repete muitas vezes esta frase: “Vós sereis santos, porque eu sou santo” (cf. Lv 11, 44s; 19, 2; 20, 26; 21, 8). E São Pedro recorda este texto do Antigo Testamento aos cristãos, exortando-os à santidade (cf. 1Pd 1, 15s). Também São Paulo chama com este nome a todos os cristãos, por estarem consagrados a Deus por meio do Batismo, como se pode ver o início de quase todas as suas epístolas (cf. Rm 1, 17; 1Cor 1, 2; 2Cor 1, 1; Ef 1, 1; Fl 1, 1; Col 1, 2), e a tudo aquilo que Deus pôs na Igreja para santificar os cristãos, como os livros da Sagrada Escritura (cf. Rm 1, 2; v. também 2Pd 1, 21) e os Mandamentos de sua Lei (cf. 2Pd 2, 21).

2. Em que consiste essencialmente esta santidade. — O Novo Testamento, muito mais que o Antigo, nos ensina que a santidade das criaturas racionais radica não tanto em uma dedicação exterior a Deus quanto em uma renovação interior. Assim, São Paulo diz aos seus fiéis que eles hão-de ser “santos e irrepreensíveis, diante de seus olhos [de Deus]” (Ef 1, 4), e em suas epístolas identifica praticamente santidade com renovação interior, que essencialmente consiste em afastar-se das criaturas, na medida em que o amor desordenado a elas nos leva ao pecado, e unir-se com o Criador, fim último de todas as coisas, pela graça e o exercício das virtudes. Assim expressa o Apóstolo estas ideias: “Renunciai à vida passada, despojai-vos do homem velho, corrompido pelas concupiscências enganadoras. Renovai sem cessar o sentimento da vossa alma, e revesti-vos do homem novo, criado à imagem de Deus, em verdadeira justiça e santidade” (Ef 4, 22ss).

De toda esta doutrina essencialmente bíblica sobre a santidade, que aqui não podemos mais do que esboçar, se deduz que a santidade do homem pode ser considerada sob dois aspectos: a) como santidade ontológica, ou consagração a Deus pela graça santificante; e b) como santidade moral, ou reta ordenação a Deus, fim último de todas as coisas, mediante a prática de atos moralmente bons. Em concreto, como a Igreja está constituída pelos cristãos, ao falarmos da santidade da Igreja devemos levar em consideração: 1.º) uma santidade ontológica, que há-de consistir nos elementos sobrenaturais (graça, sacramentos etc.) que unam os membros da Igreja com Deus; 2.º) uma santidade moral, que há-de consistir  nos atos de virtude praticados pelos fiéis sob o impulso do Espírito Santo. Nesse sentido, a santidade vem a identificar-se, ao menos em parte, com a virtude da religião, como explica Santo Tomás de Aquino: 

Chama-se santidade a aplicação que o homem faz de sua mente e de seus atos a Deus. Sua diferença, portanto, com a religião não é essencial, mas apenas de razão. A religião, com efeito, proporciona o serviço devido a Deus, no que de modo especial se refere ao culto divino, como o sacrifício, a oblação e coisas semelhantes. A santidade, além disso, ordena a Deus os atos das outras virtudes ou faz com que o homem se disponha, por meio de certos atos, ao culto divino (STh II-II 81, 8 c.).

3. Três graus de santidade. — Logicamente, conforme a realização mais ou menos perfeita deste separar-se do pecado e unir-se a Deus, podemos distinguir, em escala ascendente, três graus de santidade:

  1. Uma santidade ordinária, que se confunde com o estado habitual de graça possuído pelos membros da Igreja que não estão em pecado mortal. Exige, por um lado, uma tendência habitual a fugir do pecado (eis o seu elemento negativo) e, por outro, a observância habitual dos preceitos que obrigam sob pecado grave (eis o seu elemento positivo).
  2. Uma santidade perfeita, que, além da ausência de pecado mortal, exige a inclinação habitual a evitar também o pecado venial (elemento negativo) e a guardar as regras de perfeição mais altas propostas por Cristo no Evangelho, e em particular as que recebem o nome de “conselhos evangélicos” (elemento positivo).
  3. Uma santidade heroica, que implica fugir do pecado venial e seguir os caminhos de perfeição nos casos mais difíceis e árduos, até chegar ao ponto de dar a vida por Cristo e pelo próximo.

Os limites entre estes três graus não são nem podem ser linhas perfeitamente definidas. No entanto, existem casos claríssimos que podemos enquadrar em cada um deste graus, e isto basta para poder distingui-los. Seguir a Cristo em pobreza, castidade e obediência com toda fidelidade será, pois, um ato de santidade perfeita. E o ato mais claro de santidade heroica é entregar-se a Cristo até chegar a dar por Ele a própria vida, segundo aquelas palavras do Senhor: “Ninguém tem maior amor do que aquele que dá a vida por seu amigo” (Jo 14, 13).

Por fim, não seguindo precisamente em progressão ascendente, mas como graça inteiramente extraordinária, concedida por Deus a quem e quando Ele quer, há a santidade chamada “carismática”, que é uma como que confirmação da santidade acompanhada de dons extraordinários, entre os quais se contam principalmente os milagres. 

4. Precisão exata do problema. — Dizer que a Igreja é santa não implica que nela não haja pecadores; mais ainda: nem sequer que o número de santos supere o dos que não o são, desde que esses defeitos se davam à fragilidade humana, a que muitos não sigam os Mandamentos, os exemplos e os meios de santificação existentes na Igreja. Mas implica, sim, como teremos ocasião de ver mais adiante, quando explicarmos em que sentido há-de entender-se esta propriedade essencial da Igreja, que esta santidade deve aparecer de modo manifesto, conforme as palavras do Senhor: “Assim, brilhe vossa luz dian­te dos homens, para que vejam as vossas boas obras e glorifiquem vosso Pai que está nos céus” (Mt 5, 16).

II. Orientação histórica. — 1. Doutrinas errôneas. — Diante do espetáculo que é a multidão de pecadores que há na Igreja, já nos primeiros séculos do cristianismo surgiu a tentação de selecionar e discriminar os bons dos maus, os justos dos pecadores; somente os justos, os puros, seriam membros verdadeiros da Igreja. Assim pensavam os montanistas e os donatistas dos sécs. IV e V da nossa era, assim pensavam os cátaros ou puritanos da Idade Média, bem como os primeirosreformadores” do séc. XVI, sobretudo Lutero, para quem a Igreja era apenas a congregação dos justos. E como somente Deus pode conhecer com toda certeza quem são os justos, só Deus poderá conhecer a sua própria Igreja: daqui nasce a sua teoria da invisibilidade da Igreja. 

Mas advirtamos que os luteranos, que, por um lado, caem em excesso de puritanismo ao excluir da Igreja todos os aqueles que não são justos, se encontram, por outro lado, muito aquém do verdadeiro conceito de santidade ao pôr a justificação somente na imputação dos méritos de Cristo, sem verdadeira transformação interior, o que está em clara oposição à doutrina de uma verdadeira reforma interior, que São Paulo pressupõe e explica continuamente em suas epístolas. Além disso, Lutero desprezava a observância dos conselhos evangélicos como uma clara manifestação de santidade. Escolhamos somente um trecho entre milhares: “Esta classe de vida [a religiosa] é contra o Evangelho […], e é coisa evidentíssima que os seus votos são nulos, ilícitos, ímpios e contrários ao Evangelho” (Obras, ed. Weimar, VIII 688).

Os dissidentes orientais se aproximam muito mais, no conceito que têm da santidade, do modo católico de a conceber; no entanto, não poucas vezes em seus escritos parece que somente dão importância à santidade ontológica e ativa, deixando de lado a santidade passiva ou dos membros da Igreja.

Nos sécs. XVII e XVIII, alguns católicos de diversos matizes jansenistas, como os que se congregaram no Sínodo de Pistóia, também caíram no erro de querer formar uma Igreja santa expulsando os pecadores. Foram condenados pelo Papa Pio VI (cf. DH 2615).

2. Doutrina da Igreja. — A santidade da Igreja é a primeira das propriedades que aparecem nos símbolos, ao fazermos nossa profissão de fé na Igreja. A fórmula mais primitiva que nos foi conservada de tais símbolos, fórmula brevíssima, provavelmente da metade do séc. II, diz assim: “Creio no Pai dominador do universo, e em Jesus Cristo, nosso Salvador, e no Santo Espírito Paráclito, e na Santa Igreja, e na remissão dos pecados” (DH 1). Nos documentos do Magistério eclesiástico, tanto dos Sumos Pontífices como dos Concílios ecumênicos, dá-se continuamente à Igreja o título de “santa”. Em especial, fala o Concílio Vaticano I da “exímia santidade da Igreja” ou da “Santa Igreja que Cristo resolveu fundar”.

III. Valoração teológica. — É de fé divina e católica que a Igreja de Cristo é verdadeiramente santa. Por outro lado, consta que os pecadores, desde que não abandonem a fé ou obediência à hierarquia da Igreja, continuam sendo membros da Igreja, já que foi condenada como herética a proposição contrária, defendida pelo Sínodo de Pistóia (cf. DH 2615). Daqui podemos deduzir que é teologicamente certo que a existência de pecadores na Igreja não está em conflito com a santidade mesma da Igreja. 

IV. Ensinamento bíblico.1. A Igreja é santa com santidade ontológica. — Em primeiro lugar, porque Jesus Cristo, que é Cabeça da Igreja, é santo; todas as páginas do Evangelho dão testemunho desta santidade de Jesus Cristo tanto no sentido de ausência total de pecado como no sentido de exercício de todas as virtudes. Lembremo-nos ainda dos escritos dos Apóstolos, testemunhas imediatas de sua vida na terra, que o chamam continuamente de “o justo”, “o santo” (cf., por exemplo, São Pedro em At 3, 14; 1Pd 1, 18s; 2, 22ss; São Tiago em sua carta, 5, 6; São João em sua primeira epístola, 2, 1; 3, 5; São Paulo muitas vezes: 2Cor 5, 21; Hb 4, 15; 7, 26), e também de seus próprios inimigos, pois aquela pergunta de Jesus: “Quem de vós me acusará de pecado?” (Jo 8, 56) não recebeu contestação.

A doutrina que Cristo nos legou é santa com uns quilates tão sublimes de perfeição, que tem maravilhado até mesmo os pagãos que leem sem preconceitos o Evangelho; bastaria, para se convencer disso, ler os capítulos 5 a 7 de São Mateus, que se chamam comumente “o Sermão da Montanha”. Acrescente-se a isto os sacramentos, instituídos por Cristo para santificar as almas, pelos quais recebemos o Espírito Santo; o sacrifício de Jesus Cristo, que se renova continuamente de forma incruenta, mas realíssima, em todo o mundo; e, por fim, o influxo misterioso do Espírito Santo, alma da Igreja, que atua em todos aqueles que são templos dele pela graça santificante. 

2. A Igreja é santa com santidade moral. — A esta santidade ontológica deve necessariamente corresponder a santidade moral nos membros da Igreja. 

a) Em primeiro lugar, a santidade ordinária

  1. porque, se Cristo estabeleceu em sua Igreja os meios de santificação que acabamos de indicar, é necessário que eles produzam frutos de santidade nos membros da mesma Igreja, segundo as palavras do Senhor: “Toda árvore boa produz bons frutos” (Mt 7, 17ss). 
  2. porque se o fim da Igreja é, como vimos noutro artigo, a santificação dos homens, é impossível que tal fim, atribuído por Cristo à sua obra, não consiga, em um número bastante grande, o seu efeito, e para isto necessita ele chegar pelo menos ao primeiro grau de santidade ordinária; 
  3. porque a Palavra de Deus é como a semente que cai em terra boa e produz fruto, em uns de trinta, em outros de sessenta, em outros ainda de cem (cf. Mt 12, 13). Por fim, também São Paulo supõe esta santidade em seus cristãos, quando diz que eles devem estar “mortos para o pecado, vivos no Espírito” (Rm 8, 9s) e crucificar o homem velho, a fim de destruir o corpo de pecado (cf. Rm 6, 6), sem levar em conta aqui as exortações a fugir dos vícios e praticar as virtudes, as partes parenéticas de suas epístolas aos Romanos, Gálatas, Efésios etc.

b) Santidade moral perfeita. — Na Igreja de Jesus Cristo se dá também, como consequência necessária de tudo o que nos ensina o Novo Testamento, uma santidade moral perfeita. A razão é que o fim de toda a Lei nova, enquanto se contrapõe o Novo Testamento à Lei antiga, é precisamente a santidade perfeita, coisa que aparece sobretudo no capítulo 5 de São Mateus, já que ali Cristo exige de seus seguidores: o cumprimento de seus Mandamentos, inclusive dos menores (v. 19); dominar a ira até conseguir perdoar aos inimigos (v. 22ss); a pureza em grau sumo (v. 28); não só não resistir ao que nos faz mal, mas ainda oferecer a outra face ao que nos agride (v. 29ss); amar os inimigos (v. 43s); dar esmola em segredo e fugir dos louvores dos homens (6, 1ss); servir a Deus, desprezando o dinheiro e confiando unicamente em sua Providência (v. 24ss). E quem não é capaz de ver que tudo isso requer uma santidade não ordinária, mas em grau exímio?

Jesus Cristo convida a abraçarem a pobreza e a castidade perfeita os que aspiram a um grau maior de santidade. A tradição dos primeiros séculos da Igreja interpretou assim duas passagens de São Mateus (19, 12.16-25). Sempre haverá, pois, quem não olhe para trás, como aconteceu com o jovem rico, mas que siga os caminhos da perfeição em pobreza e castidade.

c) Santidade heroica. — Muito do que acabamos de dizer supõe, em circunstâncias especialmente difíceis, não só uma santidade exímia, mas heroica. Ademais, Jesus Cristo nos deixou o exemplo desta santidade heroica, sobretudo no amor aos homens até o sacrifício da própria vida e no sofrimento das perseguições do mundo contra Ele, e anuncia, como se vê claramente nos capítulos 13, 15 e 16 do evangelho de São João, que não faltarão pessoas que sigam esses exemplos. Era isto mesmo que supunham os Apóstolos como coisa evidente quando exortavam os fiéis cristãos à perfeita imitação de Cristo. Assim diz o Apóstolo São João: “Jesus deu sua vida por nós. Também nós outros devemos dar a nossa vida pelos nossos irmãos” (1Jo 3, 16); e São Pedro: “É para isso que fostes­ chamados. Também Cristo pa­deceu por vós, deixando-vos exemplo para que sigais os seus passos” (1Pd 2, 21).

São Paulo, sobretudo, supõe uma santidade extraordinária nos cristãos. Recordem-se umas poucas passagens de suas cartas, que poderiam multiplicar-se sem problema. Aos romanos escrevia: 

Quem nos separará do amor de Cristo? A tribulação? A angústia? A perseguição? A fome? A nudez? O perigo? A espada? Realmente, está escrito: Por amor de ti somos entregues à morte o dia inteiro; somos tratados como gado destinado ao matadouro (Sl 43, 23). Mas, em todas essas coisas, somos mais que vencedores pela virtude daquele que nos amou. Pois estou persuadido de que nem a morte, nem a vida, nem os anjos, nem os principados, nem o presente, nem o futuro, nem as potestades, nem as alturas, nem os abismos, nem outra qualquer criatura nos poderá apartar do amor que Deus nos testemunha em Cristo Jesus, nosso Senhor (Rm 8, 35-39).

E aos coríntios:

Trazemos sempre em nosso corpo os traços da morte de Jesus para que também a vida de Jesus se manifeste em nosso corpo. Estando embora vivos, somos a toda hora entre­gues à morte por causa de Jesus, para que também a vida de Jesus apareça em nossa carne mortal. Assim em nós opera a morte, e em vós a vida (2Cor 4, 10ss) […] De muito boa vontade darei o que é meu, e me darei a mim mesmo pelas vossas almas, ainda que, amando-vos mais, seja menos amado por vós (2Cor 12, 15).

Estas últimas palavras, ainda que São Paulo as tenha dito referindo-se a si mesmo, são sem dúvida um ideal que ele propõe a seus fiéis discípulos.

d) Santidade carismática”. — Jesus a anuncia como algo característico de sua Igreja: diz a seus discípulos que eles hão-de fazer as obras que Ele mesmo fez, e inclusive maiores do que as dele (cf. Jo 14, 12). E, em sua última aparição, ao enviá-los para pregar por todo o mundo, lhes dá o poder de fazer milagres (cf. Mc 16, 17).

A existência destes carismas na Igreja aparece já no epílogo do evangelho de São Marcos (cf. Mc 16, 17-20); nos Atos dos Apóstolos, com muita frequência (recordem-se, por exemplo At 3, 1-11; 5, 15ss; 10, 44-47; 16, 16ss), e em São Paulo, que dá normas acerca da maneira com que se devem portar na Igreja os fiéis com dons carismáticos (cf. 1Cor 12, 1-31).

Notas

  • Este artigo é uma tradução levemente adaptada de F. de Vizmanos e I. Riudor, Teología fundamental para seglares. Madrid: BAC, 1963, pp. 879-886, nn. 771-787.

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