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O mistério atesta a imensidão que nos espera
Doutrina

O mistério atesta a
imensidão que nos espera

O mistério atesta a imensidão que nos espera

"Esta vida terrena não tem nenhum sentido, destacada da vida eterna": palavras do Cardeal Siri, em uma breve reflexão sobre a vida eterna, os mistérios de Deus e os limites do conhecimento humano.

Cardeal Giuseppe SiriTradução: Equipe Christo Nihil Praeponere10 de Novembro de 2015Tempo de leitura: 4 minutos
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Um documento publicado pela Sagrada Congregação para a Doutrina da Fé – Carta sobre algumas questões respeitantes à escatologia – recordou oportunamente pontos basilares e imprescindíveis da certeza cristã. Naturalmente, isso suscitou surpresa naqueles que queriam que não se falasse mais sobre esses assuntos e fez explodir a ira de certos cultores da considerada teologia da "esperança" (e falamos daqueles que acenderam apenas a esperança de "acomodações" neste mundo, onde é bem notável que nada se "acomoda" perfeitamente).

Consideramos dever de nossa revista fazer algumas claras e precisas observações a esse propósito. A íntegra do documento citado retrata a "vida após a morte", ou seja, a vida eterna, que se segue necessariamente à vida terrena.

Esta vida terrena não tem nenhum sentido, destacada da vida eterna: não tem justificativa, carece de finalidade, é uma piada de mau gosto, na qual restam insolúveis os problemas postos pelo espírito humano, as suas aspirações de imortalidade, a ânsia de amor rumo ao infinito, os vínculos sagrados do sangue e da amizade – todas essas coisas que são a negação clamorosa de um "nada" após a morte.

Os materialistas de todas as espécies, mesmo aqueles (e não são poucos) camuflados de teólogos, quiseram minimizar o medo e o horror com os quais se abre o cortejo da morte: e obtiveram este efeito (triste para eles) de tornar a "vida após a morte" o mais imponente entre os problemas humanos.

Pensando bem, não é pouca coisa dizer que, sem a "vida eterna", tudo se torna piada e zombaria e a vida terrena fica sem propósito.

Apesar disso, em toda parte, como que vestidos de uma certa indiferença em relação à substância da questão, muitos procuram fazer explorações ocultas do "além": bruxaria, necromancia, espiritismo, portadores de percepções extrassensoriais e parapsicólogos; alguns, de parecer diverso, chegam a arriscar olhares libidinosos ao outro lado da grande cortina. Todos, com exceção dos porta-vozes oficiais das teses materialistas, são fascinados pelas aventuras conduzidas ao redor dessa cortina. Isso não significa que Deus não permita extrapolações nas coisas humanas, especialmente no que diz respeito às criaturas mais estultas e desobedientes, os demônios (não é por nada que existem os exorcismos).

Não é totalmente impossível – na verdade, é bem real – que Deus queira estabelecer verdadeiros contatos entre o Céu e a terra (a divina liturgia celebra alguns desses ilustres e benéficos contatos), não abrindo, porém, a nenhum mortal, a visão direta da vida após a morte. Naturalmente, não se pode incluir nessa afirmação os grandes místicos, que, voltando à dimensão do nosso vale de lágrimas, nem sempre puderam traduzir aquilo que experimentaram. Assim, é lícito dizer (ou melhor, advertir) que, em todo esse combate laico sobre os limiares da vida eterna, as pessoas em geral estão confinadas a permanecer dentro dos limites da fantasia, da imaginação.

E a razão é simples. Nenhum de nós seria capaz de perceber nada de material em cinco dimensões. Meter em nossa pequena capacidade receptiva algo de próprio da vida eterna é bem mais, infinitamente mais, que tentar conjugar um universo em cinco dimensões.

A imaginação não pode ser e não será jamais, por si mesma, uma fonte teológica.

A Teologia retira as suas informações de uma fonte que vem da eternidade, isto é, da Revelação, ou das fontes explicitamente autorizadas por ela. Ela parte de fontes oficiais e seguras.

A Teologia fala com certeza.

A afirmação da vida eterna domina toda a divina revelação: o pecado original obstrui o caminho à vida eterna; o Verbo se faz homem para reabrir a porta da vida eterna; o Reino, do qual se fala sobretudo no primeiro Evangelho, de Mateus, recolhe tudo dessa grande aventura divina e se faz perene na vida eterna; a moral é regulada por uma Lei e está sujeita a um julgamento que perderia todas as razões de ser sem a vida eterna; o prêmio está na vida eterna; o mérito existe em ordem à vida eterna. Essas não são opiniões, mas doutrina revelada.

As informações que temos sobre a vida eterna são escassas, mas suficientes para sustentar a grande fadiga de fazer-nos chegar dignamente. As afirmações relativas aos dois estados antitéticos da eternidade são breves, demarcadas por linhas que conduzem ao infinito. As informações são poucas para que possamos procurar praticar, com mais força, o exercício da Fé; as margens do mar infinito, que nos obrigam a entrar, dão força para a ascensão no mérito.

O grande respeito por esse complexo doutrinal consiste em não querer vesti-lo de fantasia para torná-lo mais humano. A imaginação se desgastaria, tentando receber coisas que ultrapassam as representações sensíveis.

As descrições da liturgia eterna no livro do Apocalipse são indicativas de um conteúdo que o intelecto pode receber apenas de algum modo; são imagens, com descrições adaptadas aos sentidos, para colocar a inteligência diante de coisas que não podem ser representadas (como é a matéria em relação aos Sacramentos). O respeito e a prudência guiam o caminho ao "além". Mas essa Teologia, quando acompanhada da reflexão orante e da contemplação, pode levar a níveis altíssimos, aos quais não podem chegar a imaginação ou a representação construída com elementos colhidos pelos sentidos... Os limites que se experimentam nessa investigação teológica são o testemunho de que a realidade, à qual devemos chegar na vida eterna, está bem além de nossa inteligência. Se fosse diferente disso (e não é), significaria que não esperamos nada muito maior do que aquilo que somos capazes de ver agora, ainda que simplesmente por representação intelectual... O mistério atesta a imensidão que nos espera!

Referências

  • Giuseppe Siri. L'aldilá tra fantasia e teologia. In: Renovatio, XIV (1979), 4, pp. 445-448.

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Cuidado se você não sofre tentações!
Espiritualidade

Cuidado se você não sofre tentações!

Cuidado se você não sofre tentações!

São melhores as amarguras e as provações da batalha, que preparam o Céu, à paz e à tranquilidade deste mundo, que pavimentam a estrada para o inferno.

Equipe Christo Nihil Praeponere6 de Novembro de 2015Tempo de leitura: 4 minutos
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Uma famosa oração, atribuída a Santo Agostinho, e rezada por quem se prepara para a Santa Escravidão a Nossa Senhora, possui uma frase digna de profunda meditação: “Ó Jesus, anátema seja quem não Vos ama. Aquele que não Vos ama seja repleto de amarguras."

Mas, desde quando os santos rezam a Deus pedindo que as pessoas fiquem amarguradas?

Qual é, afinal, o sentido dessas palavras de Agostinho, aparentemente tão severas?

O desejo desse doutor da Igreja é bem simples: que os homens amem a Deus!

E ninguém pense que se trata de uma petição qualquer. As palavras de Agostinho – que não fazem mais que ecoar as do próprio Cristo no Pai Nosso – são a coisa mais importante e valiosa que se pode pronunciar em favor daqueles que se ama. Pois, que bem maior podemos dar aos que amamos, senão Deus mesmo, o único que pode trazer felicidade ao nosso coração? Nenhum bem deste mundo pode saciar a nossa alma e, ainda que pudesse, a morte o levaria embora e o tiraria de nossas mãos... Deus, ao contrário, não só alegra os Seus nesta vida, como lhes reserva uma eternidade ao Seu lado.

A condição para gozar dessa bem-aventurança eterna é uma só: amar a Deus. Por isso, diz São Paulo: "Para aqueles que O amam, Deus preparou coisas que nenhum olho viu, nem ouvido ouviu e nem coração jamais pressentiu" (1 Cor 2, 9).

São muitas, todavia, as coisas que nos afastam dessa divina recompensa, e uma delas são as falsas alegrias do mundo, que substituem o lugar de Deus e nos fazem esquecer d'Ele.

É por isso que, no decorrer de nossa vida, somos assaltados por tantas dificuldades, tristezas, perdas e acidentes – aquilo que as pessoas comumente chamam de "desgraças", embora a única verdadeira desgraça nesta e na outra vida seja estar afastado de Deus. Todas essas coisas, se vivemos na graça da amizade com Cristo, não devem nos preocupar, já que "tudo concorre para o bem dos que O amam" (Rm 8, 28). Mas, se, ao contrário, vivemos na desgraça do pecado, sem desejo de nos emendarmos e mudarmos de vida, tudo o que nos acontece serve-nos como castigo.

Não nos impressionemos! Embora isso não se ouça mais dos púlpitos de nossas igrejas e certos pregadores cheguem a dizer o contrário, é verdade que Deus castiga. Às vezes, Ele permite que os males desta vida nos visitem, não por ódio ou maldade, mas justamente porque Ele nos ama e quer a nossa salvação! Afinal, qual é o pai que, vendo o seu filho afastar-se e correr velozmente em direção ao abismo, não prefere que ele se acidente, a vê-lo precipitar-se no fosso? Qual é o pai que, vendo o seu filho destruir-se no mundo das drogas, não procura intervir de alguma forma, mesmo que o remédio às vezes lhe doa?

É por isso que Santo Agostinho reza pedindo: "Aquele que não Vos ama seja repleto de amarguras."

Sim, Senhor, que sejamos repletos de amarguras, enquanto não Vos amarmos por inteiro! Que sejamos repletos de angústias e tristezas, só para que procuremos a única e verdadeira alegria de nossa alma, que sois Vós! Que percamos o que for preciso, só para ganhar a única e verdadeira riqueza, que sois Vós! Que morramos para este mundo e percamos a própria saúde, só para ganhar a única e verdadeira vida, que sois Vós!

E assim, em coro, unamo-nos a Santo Agostinho e a todos os santos de Deus, em ação de graças pelas cruzes e sofrimentos que nos visitam e nos convidam à conversão. Alegremo-nos verdadeiramente com as santas amarguras que o Senhor nos manda, porque também elas são um sinal do Seu grande amor por nós.

Ao contrário, comecemos a preocupar-nos quando, mesmo em nossa infidelidade e impenitência, tudo estiver aparentemente tranquilo e estivermos levando uma vida pacífica e confortável, sem as provações de Deus – nem as tentações do demônio [1]. É o terrível sinal de que já fomos comprados pelo mal e que, por isso, nem mesmo o diabo precisa nos tentar mais.

"Cuidado se você não sofre tentações!"advertia o Santo Cura de Ars. "Talvez você ache que as pessoas que são mais tentadas, são indubitavelmente, os beberrões, os provocadores de escândalos, as pessoas imodestas e sem vergonha que deitam e rolam na sujeira e na miséria do pecado mortal, que se enveredam por toda espécie de maus caminhos. Não, meu caro irmão! Não são essas pessoas!"

"As pessoas mais tentadas – continua São João Maria Vianney – são aquelas que estão prontas, com a graça de Deus, a sacrificar tudo pela salvação de suas pobres almas, que renunciam a todas as coisas que a maioria das pessoas buscam ansiosamente. E não é um demônio só que as tenta, mas milhões de demônios procuram armar-lhes ciladas."

Prefiramos, pois, as amarguras e tentações da batalha, que preparam o Céu, à paz e à tranquilidade deste mundo, pois são elas que pavimentam a estrada para o inferno.

Notas

  1. Para uma distinção teológica entre as "provações", que vêm de Deus, e as "tentações", que vêm do demônio, vale a pena ler o Comentário de Santo Tomás de Aquino ao Pai Nosso, n. 78-80, tratado do qual, aliás, se pode tirar grande proveito espiritual.

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Uma palavra sobre o aborto em casos de estupro
Pró-Vida

Uma palavra sobre o
aborto em casos de estupro

Uma palavra sobre o aborto em casos de estupro

A impressionante história de Lianna mostra por que o aborto é injustificável, mesmo nas situações mais dramáticas e dolorosas.

Equipe Christo Nihil Praeponere2 de Novembro de 2015Tempo de leitura: 4 minutos
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A história de Lianna Rebolledo – a mãe que, com apenas 12 anos, engravidou por causa de um estupro – é realmente chocante. A violação de que foi vítima deixou-a "semimorta" e "com sua face e pescoço horrivelmente desfigurados". Ela mesma confessa, mais de duas décadas depois do ocorrido, que pensou que seus agressores iam matá-la. Não há palavras que possam expressar suficientemente a dor e a indignação de qualquer pessoa moralmente sadia diante de um crime como este. Embora a "cultura pornográfica" vigente procure até mesmo justificar este tipo de abuso, sabemos que se trata de "um atentado contra a justiça e a caridade", que "ofende profundamente o direito de cada um ao respeito, à liberdade e à integridade física e moral" e "causa um prejuízo grave, que pode marcar a vítima para toda a vida" [1].

Disto, de fato, Lianna é testemunha viva: a violação realmente "marca a vítima para toda a vida". Mesmo depois de um tempo, ela conta que não conseguia livrar-se do sentimento de sujeira, chegando a cogitar a hipótese do suicídio.

Outro fato, porém, destinou a mudar a vida desta mulher para sempre: a notícia de que estava grávida, de que seria mãe. Já na época em que ficou sabendo de sua gravidez, um médico tentou pressioná-la a abortar. Ela, porém, consciente de que havia outro ser humano dentro de si, disse "não". O abuso que sofreu foi realmente terrível, mas punir um ser humano indefeso por isso não era, absolutamente, uma saída viável.

Alguns defensores do aborto podem sentir-se tentados a usar a história de Lianna para proveito próprio. Nesta ótica, ao invés de respaldar a defesa da vida, o caso de Lianna seria um exemplo da importância de dar à mulher o eufemístico "direito de escolha" – melhor definido como "direito de matar". A posição que estes assumem é a mesma do médico da história: não se poderia obrigar a mulher a viver "com as consequências do estupro". Para eliminar essas "consequências", então, valeria tudo, até mesmo matar o próprio filho.

Este é o argumento dos grupos que se intitulam "pró-escolha" (pro-choice, em inglês), exposto na sua crueza. Seu erro é bem evidente: coloca a liberdade humana – neste caso específico, a feminina – acima do próprio direito à vida. Mas, como bem afirma o Papa João Paulo II, "a tolerância legal do aborto (...) não pode, de modo algum, fazer apelo ao respeito pela consciência dos outros, precisamente porque a sociedade tem o direito e o dever de se defender contra os abusos que se possam verificar em nome da consciência e com o pretexto da liberdade" [2]. Só porque o homem é livre, não significa que tudo o que faz seja bom ou moralmente legítimo.

Outro problema do argumento abortista é supor que vítimas de abuso sexual que ficam grávidas queiram natural e necessariamente fazer um aborto. Um estudo conduzido por Sandra Mahkorn, especialista no assunto [3], mostra exatamente o contrário: de 75 a 85% dessas mulheres querem levar adiante a sua gestação. "Essa evidência, por si só, deveria fazer as pessoas pensarem e refletirem sobre o pressuposto de que o aborto é querido ou até mesmo melhor para vítimas de violação sexual", escreve David Reardon, PhD em Bioética [4].

Na verdade, o que faz o aborto – que a mídia e a "cultura da morte" supõem que elimine ou atenue a ferida do estupro – é apenas complicar ainda mais o drama que enfrentam essas mulheres. Muitas das que passaram pela experiência traumática de um aborto relatam-na como "uma degradante e brutal forma de estupro médico". Como entender essa expressão? Explica David Reardon:

"O aborto envolve um exame doloroso dos órgãos sexuais de uma mulher por um estranho mascarado que está invadindo o seu corpo. Uma vez na mesa de operação, ela perde o controle sobre seu corpo. Se protesta e pede ao aborteiro para parar, será possivelmente ignorada ou dirão a ela: 'É tarde demais para mudar de ideia. Isso é o que você quis. Temos que terminar agora.' E enquanto ela está deitada ali, tensa e desamparada, a vida oculta dentro de si é literalmente sugada de seu ventre. A diferença? Numa violação sexual, da mulher é roubada a sua pureza; nesse estupro médico, é roubada a sua maternidade." [5]

É verdade que, no Brasil, assim como em muitíssimos países do mundo, está espalhada a ideia de que o aborto provocado decorrente de estupro não só seria aceitável, como seria um "direito das mulheres". Isto, porém, não altera em nada a realidade das coisas. Como bem ensina Santo Tomás de Aquino, "toda lei constituída pelos homens tem força de lei só na medida em que deriva da lei natural. Se, ao contrário, em alguma coisa está em contraste com a lei natural, então não é lei mas sim corrupção da lei" [6]. Assim, uma norma que autorizasse às mães matarem os próprios filhos – sob quaisquer circunstâncias – não passaria de uma arbitrariedade.

Porque, afinal, "se nós aceitamos que uma mãe possa matar o seu próprio filho – dizia a bem-aventurada Madre Teresa de Calcutá –, como podemos dizer às outras pessoas para não se matarem?" [7]. O testemunho de Lianna Rebolledo deve servir de lição para a sociedade moderna: ele mostra por que, mesmo nas situações mais dramáticas e impensáveis, o aborto é intolerável. Nenhum crime, por mais assombroso e terrível que tenha sido, pode justificar o assassinato de um ser humano frágil e inocente no ventre materno.

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“Nada neste mundo pode me fazer voltar a realizar um aborto”
Pró-VidaTestemunhos

“Nada neste mundo pode me
fazer voltar a realizar um aborto”

“Nada neste mundo pode me fazer voltar a realizar um aborto”

O aborto era uma prática corriqueira no trabalho do Dr. Anthony Levatino. Ele chegou a realizar mais de mil deles nos anos 80. Até que um acidente mudou a sua opinião sobre o assunto – e deu um giro de 180 graus na sua vida.

Live Action NewsTradução: Equipe Christo Nihil Praeponere30 de Outubro de 2015Tempo de leitura: 5 minutos
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Em 1976, o obstetra e ginecologista Dr. Anthony Levatino tinha acabado de receber a sua graduação em medicina e era, sem sombra de dúvida, a favor do aborto. Ele defendia convicto o chamado "direito ao aborto" e acreditava que o tema não passava de uma decisão a ser tomada apenas entre uma mulher e o seu médico.

"Muitas pessoas se identificam como sendo contra (pro-life) ou a favor do aborto (pro-choice), mas, para a maior parte delas, nada disso as afeta pessoalmente, nada disso impacta as suas vidas do modo como eu queria que as impactasse", diz Levatino em uma palestra para a associação Pro-Life Action League. "Mas, quando você é um obstetra ou ginecologista e se diz a favor do aborto, a coisa se torna bem mais pessoal, porque é você quem realiza os abortos e é você quem deve tomar a decisão de fazer aquilo ou não."

Defensor do "direito da mulher sobre o próprio corpo", Levatino tomou a sua decisão e aprendeu a fazer abortos no primeiro e segundo trimestres de gravidez. À época, trinta a quarenta anos atrás, o procedimento para interromper a gestação no segundo trimestre era a perigosa prática da injeção salina.

Nesse mesmo período, Levatino e sua esposa estavam lutando com problemas de fertilidade e começaram a pensar na possibilidade de uma adoção. O procedimento, porém, era complicado, sem falar da dificuldade em encontrar uma criança recém-nascida. "Foi a primeira vez em que comecei a ter dúvidas sobre o que estava fazendo, porque eu sabia bem que um dos motivos pelos quais é tão difícil achar crianças para adotar é que médicos como eu os estão matando em abortos", disse Levatino.

Finalmente, em 1978, o casal adotou a sua primeira filha, Heather. Pouco depois disso, eles descobriram que estavam esperando outro filho. Até então, Anthony descreve uma vida "perfeitamente feliz" e diz que, apesar das primeiras dúvidas a respeito do aborto, ele voltou a realizá-los, sem maiores problemas.

Em 1981, depois de terminar a sua residência, Levatino fez um curso de obstetrícia e ginecologia que incluía um novo método de fazer abortos. Até então, o envenenamento salino era o método mais comum para os abortos de segundo trimestre, mas sempre trazia o risco de bebês nascessem vivos. Os procedimentos também eram caros, difíceis e exigiam que as mulheres entrassem em trabalho de parto. Levatino e seus companheiros foram treinados, então, para realizar o método chamado de "dilatação e evacuação" (D&E), que ainda é o mais comum hoje em dia.

Em sua palestra, ele descreve exatamente como é realizar esse tipo de procedimento:

"Você pega um instrumento como esse, chamado fórceps, e você basicamente, a operação consiste em você literalmente dilacerar uma criança em pedaços. A sucção é apenas para o fluído. Todo o resto [do procedimento] consiste literalmente em desmembrar a criança, pedaço por pedaço, com esse instrumento de aborto."

Ao longo dos quatro anos seguintes, Levatino realizaria em torno de 1.200 abortos, sendo 100 deles abortos tardios realizados por "dilatação e evacuação".

Em um belo dia de junho de 1984, no entanto, sua vida viraria de ponta cabeça. Sua família estava em casa se divertindo com alguns amigos, quando, de repente, Levatino escutou o barulho de pneus freando na pista. As crianças tinham corrido para a rua e Heather havia sido atingida por um carro.

"Ela estava destruída", ele explica. "Fizemos tudo o que podíamos, mas, naquela mesma noite, ela morreu, literalmente em nossos braços, no caminho para o hospital."

Depois de um tempo, Anthony tinha que voltar ao trabalho. Um dia, agendaram para ele um aborto por "dilatação e evacuação". Era o primeiro que ele iria fazer depois do acidente. Na cabeça de Anthony, nenhuma preocupação. Para ele, seria mais um procedimento de rotina que ele já tinha realizado várias vezes antes. Mas, não foi bem isso o que aconteceu.

"Eu comecei aquele aborto, peguei o fórceps, e literalmente quebrei um braço ou uma perna, e eu simplesmente parei naquele movimento", ele diz. "Mas, sabe de uma coisa, quando você começa um aborto, você não pode parar. Se você não remove todos os pedaços – e não os 'estende' literalmente do lado da mesa de operação, sua paciente vai voltar, ou com uma infecção, ou com uma hemorragia, ou morta. Então, eu segui em frente e terminei aquele aborto."

Quando concluiu, porém, Anthony estava começando a sentir uma mudança dentro de si:

" Pela primeira vez na minha vida, depois de todos aqueles anos e todos aqueles abortos, eu olhei para aquele pilha de resíduos do lado da mesa e a única coisa que eu conseguia enxergar era o corpo de um filho. Eu não conseguia ver o grande médico que eu estava sendo. Não conseguia ver como tinha ajudado aquela mulher em sua crise. Não conseguia ver os 600 dólares que tinha acabado de fazer em 15 minutos. Tudo o que eu conseguia ver era o corpo do filho de alguém. Depois de perder a minha filha, tudo aquilo estava parecendo muito, muito diferente para mim."

Anthony parou de realizar abortos tardios, mas continuou a prover abortos de primeiro trimestre nos meses seguintes, até ele finalmente perceber que matar um bebê com 20 semanas de gestação era exatamente o mesmo que matar um com nove ou mesmo duas semanas de gravidez. Ele tinha entendido que não importa quão grande ou pequeno seja um bebê, ele não deixa de ser uma vida humana. Desde fevereiro de 1985, Levatino nunca mais realizou um aborto e, diz ele, "não há absolutamente nenhuma chance" de que ele volte a fazer algum.

Teimando que nunca faria parte do movimento pró-vida – que, para ele, não passava de um "bando de loucos" –, Levatino foi eventualmente convidado a um jantar onde, ao contrário do que imaginava, ele conheceria pessoas inteligentes, homens que trabalhavam voluntariamente gastando o seu tempo – e a sua vida – para defender a vida dos que ainda não nasceram.

Hoje, Levatino faz conferências públicas sobre o assunto, especialmente para jovens, descrevendo-lhes com detalhes em que realmente consiste um aborto. Ele já deu o seu testemunho no próprio Congresso Federal, pedindo que o "aborto legal" acabe de uma vez por todas nos Estados Unidos da América.

Que o seu testemunho também ajude o Brasil a perceber a maldade da prática do aborto e a importância que há em uma sociedade defender os seus membros mais frágeis e indefesos: os não-nascidos.

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