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O santo que morreu por não violar o segredo da Confissão
Santos & Mártires

O santo que morreu
por não violar o segredo da Confissão

O santo que morreu por não violar o segredo da Confissão

“O que é dito dentro das santas paredes do confessionário é o mais estrito dos segredos” e, a fim de preservá-lo, os sacerdotes devem estar dispostos a enfrentar, se preciso for, a própria morte. É o que nos ensina a história de São João de Nepomuk.

Pe. Mário Beccar Varela28 de Abril de 2021Tempo de leitura: 5 minutos
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Ocorrida há mais de trinta anos, a queda da assim chamada “cortina de ferro” não somente permitiu que naqueles países novamente crescessem a esperança e a liberdade, mas também tornou mais acessíveis a milhões de pessoas, em todo o mundo, algumas das mais esplêndidas maravilhas culturais e arquitetônicas da bela Europa.

Dentre estas, é dever de justiça citar a encantadora cidade de Praga, capital da República Tcheca, tão famosa pelos seus antigos edifícios de extraordinária beleza. Os tchecos também são conhecidos por terem oferecido ao mundo a música clássica de Dvorak, além de uma saborosa cerveja que leva o nome de uma de suas importantes cidades: Pilsen. Mais ainda, uma das regiões desse país, a Boêmia, produz há séculos cristais reconhecidos como padrão de requinte e beleza no mundo inteiro.

Pode-se, porém, dizer com segurança que, mesmo somando-se o refulgir de todos os cristais que a Boêmia possa ter produzido, não se alcança o brilho sobrenatural de uma alma empenhada em buscar e alcançar a santidade. Tal foi o exemplo a nós deixado por um dos mais ilustres filhos dessas terras, João Nepomuceno, sacerdote e mártir em defesa dos direitos da Santa Igreja.

São João Nepomuceno ouvindo uma confissão da Rainha, por Josef Mathaus.

Um denodado sacerdote. — João Nepomuceno nasceu na cidade de Nepomuk, em um dos vales da Boêmia, por volta do ano de 1345. Já no ano de 1370 tinha o cargo de notário na Cúria Metropolitana. Nove anos depois, foi ordenado sacerdote e nomeado pároco de São Gall. Não obstante os encargos dessa grave função, continuou seus estudos de direito eclesiástico na Universidade de Praga, na qual obteve o bacharelato. Em 1382, o arcebispo o enviou a Pádua, onde se doutorou em direito canônico, em 1387. Voltando logo em seguida a Praga, foi nomeado cônego da igreja de São Gil, mas ali permaneceu só dois anos. Em agosto de 1390, tornou-se cônego honorário da Catedral de São Vito e vigário geral dessa já então ampla e importante arquidiocese. A partir desse momento, a Providência o transformou em homem público.

Os sermões pregados por São João Nepomuceno produziram notável mudança nos costumes e assim ele foi chamado a desempenhar o cargo de confessor da Rainha. Para isso concorreram sua já conhecida virtude e a segurança doutrinária por ele tantas vezes demonstrada no púlpito.

Se, no entanto, a piedosa rainha colocava-se docilmente sob a direção espiritual de tão virtuoso sacerdote, o mesmo não se passava com o rei. Além de ser dado a violentos acessos de fúria, foi ele tomado por uma infundada desconfiança em relação à fidelidade de sua esposa. Como nada encontrasse para comprovar essa dúvida, mas seu coração mesquinho continuasse apegado a essa fantasiosa idéia, mandou trazer o confessor à sua presença e exigiu-lhe contar em detalhes o que no confessionário lhe confidenciava a rainha. Espantado pela infundada desconfiança, e muito mais pelo inaudito pedido, João Nepomuceno com firmeza o recusou, afirmando categoricamente o princípio da inviolabilidade do segredo da confissão, o mesmo até hoje mantido pela Santa Igreja:

O que é dito dentro das santas paredes do confessionário é o mais estrito dos segredos. As palavras pelo penitente declinadas ante o sacerdote, sendo a matéria para a absolvição da alma pecadora, ali mesmo morrem. Disso tudo, somente Deus é testemunha, e o sacerdote que algo disso revelasse a um terceiro cometeria um dos mais abomináveis sacrilégios, contra o qual se levantaria imediatamente terrível excomunhão [1].

A nada disso, porém, deu ouvidos o ímpio rei. Cego de furor, mandou brutalmente torturar o fiel confessor. Suportando sofrimentos terríveis, João Nepomuceno manteve-se irredutível e isso só aumentou a fúria do cruel soberano. Por fim, vendo que nada conseguiria tirar de um homem tão firme e compenetrado de sua fé, mandou os esbirros amarrarem-no e atirarem-no de uma das pontes de Praga. Assim, o intrépido sacerdote entregou sua alma a Deus, perecendo afogado nas águas do rio Moldava. Era a noite de 20 de março de 1393.

Uma controvérsia histórica. — A trágica morte dum personagem tão conhecido e estimado chocou muitos habitantes da cidade, e o rei, não querendo admitir abertamente a razão pela qual mandara assassinar o Pe. João Nepomuceno, fez constar ser outra a razão de sua atitude.

Havia na Boêmia uma grande e prestigiosa abadia, a de Klandrau. Aproveitando o lapso entre a morte do antigo abade e a eleição de um novo, o monarca tencionava suprimi-la, transformando-a em uma nova sede episcopal, a qual seria entregue a um membro de sua corte. O rei tentou pressionar o vigário geral para apoiá-lo nessa ação. E como ele a isso se teria oposto violentamente, o rei declarou ser essa oposição suficiente para condená-lo à morte.

Embora algumas crônicas oficiais do reino tenham transmitido essa versão, muitas outras referem o verdadeiro motivo [2].

Após ser encontrado, o corpo de João Nepomuceno foi sepultado na própria catedral, onde logo passou a receber do povo as honras devidas a um mártir. Assim, tinha início um forte e saudável movimento de veneração ao sacerdote que morrera em defesa do segredo da Confissão. Estes fatos inclusive foram narrados na carta de acusação ao rei, que o arcebispo João Jenzenstein apresentou ao Papa Bento IX [3].

Uma imagem de São João Nepomuceno orna o local do seu martírio, em Praga.

Beatificação e canonização. — O Papa Inocêncio XIII o declarou beato em 1721. Posteriormente, cartas de imperadores, de bispos e de ordens religiosas, às quais se juntavam as das universidades de Viena, Praga e Blatislava, em coro pediam ao Soberano Pontífice a abertura do processo de canonização, e de fato, este foi iniciado em julho de 1722.

Anos depois, em 27 de janeiro de 1725, uma comissão presidida pelo Arcebispo de Praga, formada por algumas dignidades eclesiásticas, além de um professor de medicina e dois cirurgiões, realizou a exumação dos restos mortais do mártir. Na presença dessas autoridades, deu-se um extraordinário acontecimento.

O corpo se encontrava naturalmente desfeito pelo tempo, exceto a língua, a qual estava maravilhosamente conservada, ainda que ressequida. Então, diante de todos, começou a refazer-se, apresentando uma cor rósea como se tratasse de alguém vivo. Admirados, os presentes se puseram de joelhos, e este milagre, realizado em circunstâncias tão solenes e com testemunhas tão categorizadas, foi o quarto dos constantes no processo de canonização.

E assim, em 19 de março de 1729, na Basílica de São João de Latrão, pelas mãos do Papa Bento XIII, era solenemente elevado à honra dos altares São João Nepomuceno, mártir do segredo da Confissão, cuja festa a Igreja comemora no dia 16 de maio.

Referências

  1. Este trecho é uma adaptação de excertos das aulas de Catecismo radiofônicas ministradas pelo Cardeal Eugênio Sales após a publicação do Novo Catecismo da Igreja Católica, em 1993.
  2. Instructions for the King, de Paul Zidek, 1471, in: “Zeitschrift für kathol. Theologie”, 1883, 90 sqq.; “Chronica regum Romanorum”, 1459, de Thomas Ebendorfer; “Scriptores rerum Prussicarum”, III, Leipzig, 1860, 87.
  3. Pubitschka, Gesch, IV, app.; ed. Pelzel.

Notas

  • Este texto do Pe. Mário Beccar Varela, publicado tanto na revista Arautos do Evangelho (Maio/2007, n. 65, p. 38-39) quanto no site da mesma instituição, foi adaptado aqui apenas em seu início, a fim de situar corretamente no tempo o evento da queda do muro de Berlim.

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Novena do Trabalho
Oração

Novena do Trabalho

Novena do Trabalho

Nestes tempos de desemprego e grave crise econômica, esta novena a São Josemaria Escrivá pode ser uma oração muito útil e proveitosa, tanto para quem está à procura de trabalho, quanto para quem deseja fazer bem o próprio ofício.

Pe. Francisco Faus21 de Abril de 2021Tempo de leitura: 13 minutos
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Nestes tempos de desemprego, grave crise econômica e diversas ameaças aos direitos dos trabalhadores, é muito recomendável que os homens e as famílias se dirijam a Deus em oração.

Composta pelo Pe. Francisco Faus, esta “Novena do Trabalho”, em honra a São Josemaria Escrivá, fundador do Opus Dei, consta de três partes: uma leitura meditada de excertos (entre dois e três) de obras de S. Josemaria; uma intenção, segundo as necessidades particulares de cada qual (na primeira, pede-se a graça de achar trabalho; na segunda, a de fazer bem o próprio trabalho); e uma oração final a S. Josemaria.

O fiel é livre, naturalmente, para adaptar a novena às próprias necessidades, acrescentando-lhe outras leituras e as orações a que tiver maior devoção (por exemplo, a São José Operário, cuja festa a Igreja celebra no próximo dia 1.º de maio). Os que, por questão de comodidade, preferirem o texto abaixo em outro formato, podem baixar a novena diretamente do site da Obra clicando aqui.


1.º dia — Trabalho, caminho de santidade

Reflexão: 1) “Viemos chamar de novo a atenção para o exemplo de Jesus que, durante trinta anos, permaneceu em Nazaré trabalhando, desempenhando um ofício. Nas mãos de Jesus, o trabalho, e um trabalho profissional semelhante àquele que desenvolvem milhões de homens no mundo, converte-se em tarefa divina, em trabalho redentor, em caminho de salvação” (Questões atuais do Cristianismo, n. 55). — 2) “Aí onde estão os nossos irmãos, os homens, aí onde estão as nossas aspirações, o nosso trabalho, os nossos amores, aí está o lugar do nosso encontro cotidiano com Cristo. Deus nos espera cada dia: no laboratório, na sala de operações de um hospital, no quartel, na cátedra universitária, na fábrica, na oficina, no campo, no seio do lar e em todo o imenso panorama do trabalho” (Homilia: Amar o mundo apaixonadamente).

Intenções: A) Para encontrar trabalho. — Para que Deus Nosso Senhor me oriente no esforço de procurar trabalho, e me abençoe fazendo-me conseguir um emprego honesto, digno e estável; e que me ajude, depois, a olhar para a minha tarefa profissional como um caminho de santificação e de serviço aos outros, onde o meu Pai Deus me espera a toda a hora e me pede que imite Jesus quando trabalhava como carpinteiro em Nazaré.

B) Para fazer um bom trabalho. — Para que Deus Nosso Senhor me ajude a olhar para a minha tarefa profissional como um caminho de santificação e de serviço aos outros, onde Ele me espera a toda a hora e me pede, em todas as circunstâncias, que imite Jesus quando trabalhava como carpinteiro em Nazaré.

Rezar a oração a São Josemaria (final).

2.º dia — Trabalhar por amor a Deus

Reflexão: 1) “A dignidade do trabalho se baseia no Amor. O grande privilégio do homem é poder amar, transcendendo assim o efêmero e transitório” (É Cristo que passa, n. 48). — 2) “Fazei tudo por Amor. – Assim não há coisas pequenas: tudo é grande. – A perseverança nas pequenas coisas, por Amor, é heroísmo” (Caminho, n. 813). — 3) “Na simplicidade do teu trabalho habitual, nos detalhes monótonos de cada dia, tens que descobrir o segredo – para tantos escondido – da grandeza e da novidade: o Amor” (Sulco, n. 489).

Intenções: A) Para encontrar trabalho. — Para que Deus me conceda a graça de conseguir logo um trabalho, que proporcione segurança à minha família. E para que, ao mesmo tempo, Ele me ajude a compreender que o que dá valor a qualquer trabalho honesto é o amor com que o fazemos: em primeiro lugar, amor a Deus, a quem oferecemos o trabalho; e amor ao próximo, a quem queremos servir e ser úteis.

B) Para fazer um bom trabalho. — Para que Deus me ajude a compreender que o que dá valor a qualquer trabalho honesto é o amor com que o fazemos: em primeiro lugar, amor a Deus, a quem oferecemos o trabalho; e amor ao próximo, a quem queremos servir e ser úteis.

Rezar a oração a São Josemaria (final).

3.º dia — Trabalhar com ordem e constância

Reflexão: 1) “Como é breve a duração da nossa passagem pela terra!… Verdadeiramente é curto o nosso tempo para amar, para dar, para desagravar. Não é justo, portanto, que o malbaratemos… Não podemos desperdiçar esta etapa do mundo que Deus confia a cada um de nós” (Amigos de Deus, n. 39). — 2) “Quando tiveres ordem, multiplicar-se-á o teu tempo e, portanto, poderás dar mais glória a Deus, trabalhando mais a seu serviço” (Caminho, n. 80).

Intenções: A) Para encontrar trabalho. — Para que com o auxílio de Maria Santíssima, consiga um trabalho estável e apropriado. E que quando – por bondade de Deus – já estiver trabalhando, saiba aproveitar o tempo como um tesouro que é; e me esmere em aprimorar a virtude da ordem, de modo que consiga fazer tudo com pontualidade, intensidade e constância, sem confusões nem atrasos, seguindo um plano bem estruturado, que me permita dedicar de modo equilibrado, os horários convenientes a cada um dos meus deveres: vida espiritual, família, profissão e relações sociais.

B) Para fazer um bom trabalho. — Para que com o auxílio de Maria Santíssima, saiba aproveitar o tempo como um tesouro que é; e que me esmere em aprimorar a virtude da ordem de modo que consiga fazer tudo com pontualidade, intensidade e constância, sem confusões nem atrasos, seguindo um plano bem estruturado, que me permita dedicar, de modo equilibrado, os horários convenientes a cada um dos meus deveres: vida espiritual, família, profissão e relações sociais.

Rezar a oração a São Josemaria (final).

4.º dia — Trabalho bem acabado

Reflexão: 1) “Não podemos oferecer ao Senhor uma coisa que, dentro das pobres limitações humanas, não seja perfeita, sem mancha, realizada com atenção até nos mínimos detalhes: Deus não aceita trabalhos ‘marretados’. Por isso o trabalho de cada qual – essa atividade que ocupa as nossas jornadas e energias – há de ser uma oferenda digna aos olhos do Criador; numa palavra, uma tarefa acabada, impecável” (Amigos de Deus, n. 55). — 2) “Antes de mais, devemos amar a Santa Missa, que tem que ser o centro do nosso dia. Se a vivermos bem, como não havemos de continuar depois com o pensamento no Senhor, para trabalhar como Ele trabalhava e amar como Ele amava?” (É Cristo que passa, n. 154).

Intenções: A) Para encontrar trabalho. — Para que, com o auxílio de Nossa Senhora, não demore a resolver-se o problema do meu desemprego. E para que, ao iniciar o novo trabalho, Deus me ajude a colocar todo o empenho em realizá-lo com categoria, com a maior perfeição possível, sem fazer as tarefas de qualquer maneira – convencido de que um trabalho mal feito não pode ser santificado, porque lhe falta amor, que é a condição imprescindível para que qualquer atividade humana possa ser agradável a Deus.

B) Para fazer um bom trabalho. — Para que Deus me ajude a colocar todo o empenho em realizar o meu trabalho com categoria, com a maior perfeição possível, sem fazer as tarefas de qualquer maneira – convencido de que um trabalho mal feito não pode ser santificado, porque lhe falta amor, que é a condição imprescindível para que qualquer atividade humana possa ser agradável a Deus.

Rezar a oração a São Josemaria (final).

5.º dia — Todos os trabalhos honestos são dignos

Reflexão: 1) “É hora de que todos nós, cristãos, anunciemos bem alto que o trabalho é um dom de Deus, e que não faz nenhum sentido dividir os homens em diferentes categorias, conforme os tipos de trabalho, considerando umas ocupações mais nobres do que as outras. O trabalho, todo trabalho, é testemunho da dignidade do homem” (É Cristo que passa, n. 47). — 2) “Diante de Deus, nenhuma ocupação é em si grande ou pequena. Tudo adquire o valor do Amor com que se realiza” (Sulco, n. 487).

Intenções: A) Para encontrar trabalho. — Para que Deus me conceda a alegria de conseguir trabalho, uma tarefa em que eu possa ser útil e desenvolver as minhas capacidades. E que se, no momento, esse trabalho estiver por baixo do meu preparo e das minhas legítimas aspirações, eu não o despreze, mas – enquanto não achar um trabalho mais apropriado – o realize com toda a responsabilidade, fazendo com que tenha a categoria do trabalho que Jesus realizou na oficina de Nazaré.

B) Para fazer um bom trabalho. — Para que se, atualmente, o meu trabalho está por baixo do meu preparo e das minhas legítimas aspirações, Deus me ajude a não desprezá-lo, mas – enquanto não achar um trabalho mais apropriado – a realizá-lo com toda a responsabilidade, fazendo com que tenha a categoria do trabalho que Jesus realizou na oficina de Nazaré.

Rezar a oração a São Josemaria (final).

6.º dia — Trabalhar em companhia de Deus e com reta intenção 

Reflexão: 1) “Deves manter – ao longo do dia – uma constante conversa com o Senhor, que se alimente também das próprias incidências da tua tarefa profissional” (Forja, n. 745). — 2) “Como cristão, deverias trazer sempre contigo o teu Crucifixo, E colocá-lo sobre a tua mesa de trabalho. E beijá-lo antes de te entregares ao descanso e ao acordar” (Caminho, n. 302). — 3) “Coloca na tua mesa de trabalho, no teu quarto, na tua carteira…, uma imagem de Nossa Senhora, e dirige-lhe o olhar ao começares a tua tarefa, enquanto a realizas e ao terminá-la. Ela te alcançará – garanto! – a força necessária para fazeres, da tua ocupação, um diálogo amoroso com Deus” (Sulco, n. 531).

Intenções: A) Para encontrar trabalho. — Para que Deus me conceda um emprego honesto e digno, e me abra os olhos da alma para compreender que Ele está sempre ao meu lado. Que, para não perder de vista esta maravilhosa realidade, eu me esforce em ter presença de Deus durante o trabalho, servindo-me discretamente – como de um “lembrete” – de um pequeno crucifixo, de uma estampa de Nossa Senhora, da efígie de outro santo da minha devoção…; “lembretes” colocados onde eu os possa ver com frequência, sem exibicionismo nem alarde.

B) Para fazer um bom trabalho. — Para que Deus me faça compreender que Ele está sempre ao meu lado, enquanto estou trabalhando. E que, para não perder de vista esta maravilhosa realidade, eu me esforce em ter presença de Deus durante o trabalho, servindo-me discretamente – como de um “lembrete” – de um pequeno crucifixo, de uma estampa de Nossa Senhora, da efígie de outro santo da minha devoção…; “lembretes” colocados onde eu os possa ver com frequência, sem exibicionismo nem alarde.

Rezar a oração a São Josemaria (final).

7.º dia — Amadurecer nas virtudes através do trabalho 

Reflexão: 1) “Tudo aquilo em que intervimos os pobrezinhos dos homens – mesmo a santidade – é um tecido de pequenas insignificâncias que, conforme a intenção com que se fazem, podem formar uma tapeçaria esplêndida de heroísmo ou de baixeza, de virtudes ou de pecados” (Caminho, n. 826). — 2) “É toda uma trama de virtudes que se põe em jogo quando exercemos o nosso ofício com o propósito de santificá-lo: a fortaleza, para perseverarmos no trabalho, apesar das naturais dificuldades; a temperança, para superarmos o comodismo e o egoísmo; a justiça, para cumprirmos os nossos deveres para com Deus, para com a sociedade, para com a família, para com os colegas; a prudência, para sabermos em cada caso o que convém fazer e nos lançarmos à obra sem dilações… E tudo por Amor…” (Amigos de Deus, n. 72).

Intenções: A) Para encontrar trabalho. — Para que, com a ajuda de Nossa Senhora, ache o trabalho que venho procurando. E que, ao meter-me em cheio nesse novo trabalho, Deus me ajude a desenvolver por meio dele as virtudes cristãs e a amadurecer espiritualmente. Que eu procure ser paciente e compreensivo, tanto com os chefes como com os colegas e subordinados, que seja simples e humilde, fugindo da vaidade e do exibicionismo, que faça tudo, em suma, com pureza de coração.

B) Para fazer um bom trabalho. — Para que Deus me ajude a desenvolver por meio do trabalho as virtudes cristãs e a amadurecer espiritualmente. Que eu procure ser paciente e compreensivo, tanto com os chefes como com os colegas e subordinados, que seja simples e humilde, fugindo da vaidade e do exibicionismo, que faça tudo, em suma, com pureza de coração.

Rezar a oração a São Josemaria (final).

8.º dia — Trabalhar é servir, ajudar os outros

Reflexão: 1) “Pensai que através dos vossos afazeres profissionais, realizados com responsabilidade, além de vos sustentardes economicamente, prestais um serviço diretíssimo ao desenvolvimento da sociedade, aliviais também as cargas dos outros e mantendes muitas obras assistenciais – em nível local e universal – em prol dos indivíduos e dos povos menos favorecidos” (Amigos de Deus, n. 120). — 2) “Quando tiveres terminado o teu trabalho, faz o do teu irmão, ajudando-o, por Cristo, com tal delicadeza e naturalidade, que nem mesmo o favorecido repare que estás fazendo mais do que em justiça deves. – Isto, sim, é fina virtude de filho de Deus!” (Caminho, n. 440).

Intenções: A) Para encontrar trabalho. — Para que Deus Nosso Senhor me conceda o trabalho que lhe peço com tanta fé. E para que infunda na minha alma o desejo de fazer do meu trabalho, não uma atividade egoísta, fechada nos meus interesses, mas um serviço aberto ao bem e à utilidade de muitos, realizado com a certeza de que esse ideal de serviço aos outros dará um novo sentido, mais elevado e alegre, à minha vida.

B) Para fazer um bom trabalho. — Para que Deus infunda na minha alma o desejo de fazer do meu trabalho, não uma atividade egoísta, fechada nos meus interesses, mas um serviço aberto ao bem e à utilidade de muitos, realizado com a certeza de que esse ideal de serviço aos outros dará um novo sentido, mais elevado e alegre, à minha vida.

Rezar a oração a São Josemaria (final).

9.º dia — Fazer apostolado com o nosso trabalho 

São Josemaria Escrivá.

Reflexão: 1) “O trabalho profissional é também apostolado, ocasião de entrega aos outros homens; o momento de lhes revelar Cristo e levá-los a Deus Pai” (É Cristo que passa, n. 49). — 2) “Faze a tua vida normal; trabalha onde estás, procurando cumprir os deveres do teu estado, acabar bem as tarefas da tua profissão ou do teu ofício, superando-te, melhorando dia a dia. Sê leal, compreensivo com os outros e exigente contigo mesmo. Sê mortificado e alegre. Esse será o teu apostolado. E, sem saberes por quê, dada a tua pobre miséria, os que te rodeiam virão ter contigo e, numa conversa natural, simples – à saída do trabalho, numa reunião familiar, no ônibus, ao dar um passeio em qualquer parte –, falareis de inquietações que existem na alma de todos, embora às vezes alguns não as queiram reconhecer: irão entendendo-as melhor quando começarem a procurar Deus a sério” (Amigos de Deus, n. 273).

Intenções: A) Para encontrar trabalho. — Para que Deus, por mediação de Nossa Senhora, me faça encontrar um bom trabalho, no qual possa crescer profissionalmente e dar o melhor de mim mesmo. E que me ajude a ver, no meu ambiente profissional, um campo aberto para a realização da missão apostólica que Deus confia a todos os batizados, aproveitando as oportunidades que Ele me dá para ajudar colegas, amigos, colaboradores, clientes…, a descobrirem as maravilhas da fé cristã.

B) Para fazer um bom trabalho. — Para que Deus me ajude a ver, no meu ambiente de trabalho, um campo aberto para a realização da missão apostólica que Deus confia a todos os batizados, aproveitando as oportunidades que Ele me dá para ajudar colegas, amigos, colaboradores, clientes…, a descobrirem as maravilhas da fé cristã.

Rezar a oração a São Josemaria (abaixo).


Oração a São Josemaria (no fim de cada dia). — Ó Deus, que por mediação da Santíssima Virgem Maria, concedestes inumeráveis graças a São Josemaria, sacerdote, escolhendo-o como instrumento fidelíssimo para fundar o Opus Dei, caminho de santificação no trabalho profissional e no cumprimento dos deveres cotidianos do cristão, fazei que eu saiba também converter todos os momentos e circunstâncias da minha vida em ocasião de vos amar, e de servir com alegria e com simplicidade a Igreja, o Romano Pontífice e as almas, iluminando os caminhos da terra com o resplendor da fé e do amor. Concedei-me por intercessão de São Josemaria o favor que vos peço… (peça-se) Amém. — Pai-nosso, Ave-Maria, Glória.

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A Páscoa falsificada
Espiritualidade

A Páscoa falsificada

A Páscoa falsificada

A Páscoa é o maior triunfo de Deus porque é a vitória da Cruz. Aí reside a alegria crescente do Terceiro Dia, e ela ressoará pelos corredores da eternidade. Não há separação possível: o Crucificado é o Ressuscitado. O resto são falsificações.

Fr. John A. PerriconeTradução: Equipe Christo Nihil Praeponere20 de Abril de 2021Tempo de leitura: 5 minutos
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Para celebrar devidamente a Páscoa, talvez tenhamos de recordar A pregação e as ações do Anticristo, obra-prima de Luca Signorelli, de 1499. Hoje ela se encontra na capela de São Brício, na cidade italiana de Orvieto. À primeira vista, Cristo parece estar em primeiro plano. Até que o observador percebe que aquele não é Cristo de jeito nenhum, mas um impostor. Mais do que isso: trata-se do Anticristo; Satanás, na verdade. Mas como se pode constatar isso? Só um olhar católico instruído poderia sabê-lo. 

O diabo aponta para o seu coração. Mas não seria esse um gesto comum do Salvador desde as admiráveis revelações do Sagrado Coração a Santa Margarida Maria Alacoque? Sim, mas algo está visivelmente faltando: não há chagas no corpo de Cristo. Nos muitos simulacros de Cristo ao longo dos séculos, a pele lisa desprovida das feridas do Gólgota entrega que se trata de um falso Salvador. Só aquelas chagas distinguem a presença do verdadeiro Redentor; os outros são falsificados.

O cristianismo falsificado sempre se compraz em mostrar o coração de Cristo, mas não o seu coração trespassado. Deste simbolismo aparentemente inofensivo provém o credo invertido do cristianismo falsificado. Ele está centrado não no amor sacrificial, mas no “amô” sentimental, uma tentação perene para todos os filhos decaídos de Adão e Eva. Mesmo Albert Camus, um existencialista por completo, ecoou essa verdade quando escreveu: “As gerações futuras serão capazes de sintetizar a nossa cultura em duas proposições: eles fornicavam e liam os jornais”. Esse falso cristianismo vira a verdade do Evangelho do avesso, ditando a bonomia como seu imperativo de ferro.

Essa inversão cômica da grandeza da cruz deixava desgostoso o jornalista Graham Greene e fazia-o dizer, com impaciência e delicioso desprezo: “Quando ouço o apelo ao amor fraternal, penso em Caim e Abel”. Ao invés de Cristo crucificado, eles pregam sentenciosamente os jargões de sua cultura decadente misturados com clichês que sufocam ao invés de corrigir. O vazio deles é captado por T. S. Eliot em A canção de amor de J. Alfred Prufrock, com escárnio perfeito: “Medi minha vida em colheres de café”. O destino final dos que se casam com esse cristianismo falsificado é afundar com cada vez mais segurança no pântano da autossatisfação.

Detalhe de “A pregação e as ações do Anticristo”, de Luca Signorelli.

Estamos diante de uma traição grosseira da Páscoa. Esta é o maior triunfo de Deus porque é a vitória da Cruz. Aí reside a alegria crescente do Terceiro Dia, e ela ressoará pelos corredores da eternidade. Não há separação possível: o Crucificado é o Ressuscitado.

Durante a época do Grande Terror, aquele resultado imediato do encerramento do Concílio Vaticano II, armou-se um grande esforço para apagar boa parte do cristianismo histórico. Frases de efeito estéreis tomaram o lugar da doutrina imemorial. Uma das mais insípidas foi uma recém-cunhada atribuição dada aos católicos: um povo pascal. Tão vaga quanto juvenil, ela apreendia o todo do cristianismo falsificado: uma identidade “religiosa” sem o Calvário. A frase estéril felizmente desapareceu, mas seu espírito não. Ele paira sobre muitas igrejas e liturgias como alcatrão gotejante. Infelizmente, ele entra na alma de forma lenta mas efetiva, corrompendo-a.

Página após página, os santos Evangelhos desmentem essa fraude. Quando Cristo se senta sobre o túmulo vazio, Ele o faz ostentando as chagas de sua crucificação como troféus. Pois seu corpo ressuscitado é seu corpo crucificado; a vitória da Ressurreição é a proclamação do triunfo do Gólgota. No cenáculo, Nosso Senhor encontra o hesitante Tomé como um general vitorioso que retorna da batalha. Recorde o que faz o Salvador: Ele coloca as mãos do apóstolo nos buracos onde a lança perfurou e os pregos trespassaram. Note que, assim que o Salvador oferece “paz” aos Apóstolos, Ele lhes mostra suas chagas. Tal gesto é um golpe retumbante naqueles que desejam efeminar Cristo e neutralizar seu apelo revigorante a que tomemos a nossa cruz e o sigamos.

Sorrisos melosos, linguagem inclusiva e canções alegres simplesmente não são o bastante. Eles desaparecem como ciscos de poeira em um incêndio. Mesmo agora, Cristo está sentado à direita de seu Pai, no Céu, com corpo glorificado, ainda mais belo graças às insígnias do Calvário — as santas chagas que, no ensinamento de Santo Tomás, “iluminam os recintos do céu como rubis e safiras”.

O Venerável Fulton Sheen escreveu certa vez que a Via Pacis é a Via Crucis, “o caminho da paz é o da cruz”. Esta é a sua versão da antiga jaculatória: Ave crux, spes unica, “Salve cruz, única esperança”. Sem a cruz, a vida carece de alegria, esperança e paz. Aqui o paradoxo do cristianismo atinge o homem moderno como um cometa veloz, deixando-o atordoado. O grande bispo continua com palavras que facilmente desmascaram o cristianismo falsificado: “Deus odeia a paz naqueles que foram destinados para a guerra”. Os católicos secularizados veem nisso um grande exagero. Eles guincham: “Somos uma religião de paz”. Mas, para manter esse tipo de inanidade, eles precisam confrontar o próprio Deus: “Pensais que vim trazer a paz ao mundo? Vim para trazer não a paz, mas a espada” (Mt 10, 34). Que guerra? Que espada? A única verdadeira: a guerra contra o pecado; contra o erro e as mentiras do mundo; contra nossa fraquezas e transigências; nossas complacências e indulgências. Essas são as únicas guerras dignas de ser travadas. É a vitória nessas guerras que traz a paz.

Que os bons católicos se deleitem nas alegrias de Cristo ressuscitado. Não nos cansemos de repetir a antífona antiga: Christus resurrexit! Vere resurrexit! — “Cristo ressuscitou! Ressuscitou realmente!” Deleitemo-nos no mistério do sepulcro vazio. Mas não nos esqueçamos de onde vem essa perfeita vitória divina — apenas da derrota retumbante de Satanás e de seu reino infernal. E isto pela arma da Cruz invencível de Cristo. Cuidado com o Cristo falsificado. Ele irá cortejar os desavisados com mensagens que repousam confortavelmente sobre a natureza decaída do homem. Ele irá usar uma linguagem de reaproximação com o espírito do mundo. E ela soará, oh! tão razoável, oh! tão doce

Fiquem apenas com o verdadeiro Cristo ressuscitado, aquele que nos convida a descansar sobre as suas chagas. Insistam apenas em Deus.

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Uma homilia de Pio XII para uma Páscoa especial
Espiritualidade

Uma homilia de Pio XII
para uma Páscoa especial

Uma homilia de Pio XII para uma Páscoa especial

“Reconheçam todos que não pode haver serena tranquilidade para as almas, os povos e as nações, a não ser que todas as coisas se componham segundo aquela reta ordem que nasce dos preceitos evangélicos e é confirmada e sustentada pela graça divina.”

Papa Pio XIITradução: Equipe Christo Nihil Praeponere19 de Abril de 2021Tempo de leitura: 5 minutos
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No solene dia da Páscoa, em pleno Jubileu de 1950, durante a Missa de Ressurreição na Basílica de São Pedro, o Papa Pio XII leu em latim uma breve mas tocante homilia para os fiéis ali presentes. Recordando a doutrina do Corpo místico, o Pontífice ensinava que é impossível haver uma ordem civil justa e serena se não reina na alma dos cidadãos a justiça e a paz que só a graça influencia, só a obediência a uma Lei mais alta sustenta.

Eis a íntegra desta homilia, proferida em 11 de abril de 1950. Seu texto original, em latim, encontra-se disponível no site do Vaticano (cf., também, AAS 42 (1950) 279-282). A tradução para a língua portuguesa foi feita por nossa equipe.


Homilia do Papa Pio XII para o solene dia da Páscoa,
proferida durante a Missa na Basílica Vaticana aos 11 de abril de 1950

Veneráveis Irmãos, diletos filhos,

Enquanto hoje comemoramos cheios de veneração o divino Redentor, que ressurge triunfante da morte, vem à Nossa mente aquela palavra plena de suma sabedoria do Apóstolo dos gentios, ao escrever sobre Cristo: “Foi entregue pelos nossos pecados, e ressuscitou para nossa justificação” (Rm 4, 25). Ele, com efeito, pelos suplícios que livremente suportou e derramando até a morte seu preciosíssimo sangue, expiou os nossos pecados e restituiu-nos, redimidos da escravidão do demônio, à liberdade dos filhos de Deus.

Quando, porém, se ergueu vitorioso do sepulcro, não só alimentou e confirmou a fé dos Apóstolos e a nossa, não só, por seu exemplo, nos convidou a caminhar consigo até o Céu e, refulgindo em corpo glorioso, nos mostrou algo da futura bem-aventurança eterna, mas derramou também a mancheias seus divinos carismas e ordenou à Igreja por si constituída que nutrisse com a graça superna e conduzisse à vida nova todos os homens que de bom grado obedecessem aos seus preceitos. Por esta razão, como aguda e lucidamente nota o Doutor Angélico, “quanto […] à eficiência, que é pela virtude divina, tanto a paixão de Cristo quanto a ressurreição são causa da justificação […], mas, quanto à exemplaridade, propriamente a paixão e morte de Cristo é causa da remissão da culpa, pela qual morremos ao pecado; a ressurreição de Cristo, porém, é causa da vida nova, que é pela graça, ou justificação” (STh III 56, 2 ad 4).

Todos nós, pois, que ao longo dos últimos dias, especialmente durante a Semana Santa, recordando piedosamente as dores e angústias de Jesus Cristo, éramos incitados de modo particular a purificar a alma de suas manchas e a dar morte a nossos pecados — os quais, aliás, foram a causa da divina Redenção —, hoje, nesta superna luz da Páscoa e com efusiva alegria, somos chamados àquela restauração e renovação de vida a que os próprios mistérios celebrados suavissimamente nos impelem. Somos o Corpo místico de Jesus Cristo; aonde pois se dirigiu a glória da Cabeça, para lá é chamada a esperança também do Corpo. “Assim como Cristo ressuscitou dos mortos […], assim nós vivamos uma vida nova” (Rm 6, 4). E do mesmo modo que “Cristo, ressuscitado dos mortos, não morre mais, nem a morte terá sobre ele mais domínio” (Rm 6, 9), assim também nós, movidos por seu exemplo e fortalecidos por sua graça, não só nos despojemos “do homem velho, o qual se corrompe pelas paixões enganadoras” (Ef 4, 22), mas também “nos renovemos no nosso espírito e nos nossos pensamentos, e revistamo-nos do homem novo, criado segundo Deus na justiça e na santidade verdadeiras” (Ef 4, 24).

Estas belíssimas palavras e exortações do Apóstolo dos gentios parecem, de modo particularíssimo, oportunas às solenidades pascais deste Ano Sacro, enquanto os cristãos do mundo inteiro — abertos os tesouros espirituais da Igreja —, são chamados não só a expiar seus pecados, não só a uma forma de vida mais perfeita, mas também a se esforçar com empenho para que todos, purificados de suas culpas e depondo seus erros e preconceitos, se aproximem de bom grado e de boa vontade do único que é o caminho, a verdade e a vida (cf. Jo 14, 6). Reconheçam todos que não pode haver serena tranquilidade para as almas, os povos e as nações, a não ser que todas as coisas se componham segundo aquela reta ordem que nasce dos preceitos evangélicos e é confirmada e sustentada pela graça divina.

Meditem no que Cristo diz aos Apóstolos: “Deixo-vos a paz, dou-vos a minha paz; não vo-la dou, como a dá o mundo” (Jo 14, 27).

Quantos crimes, quantas discórdias, quantas mortes e guerras — como temos experimentado com enorme tristeza — provêm de terem os homens abandonado aquele reto caminho que o divino Redentor indicou com o fulgor de sua luz e consagrou com seu sangue derramado! A ele pois há que se voltar privada e publicamente. E com mente atenta se deve considerar que não pode uma sólida paz governar as cidades sem antes moderar e dirigir primeiro as almas dos cidadãos. É necessário, por conseguinte, coibir com firmeza os apetites túrbidos e desordenados, fazê-los obedientes à razão e esta, enfim, a Deus e à lei divina. A este propósito nos ensina com acerto, embora fosse pagão, o maior orador romano: “A estas perturbações, que a insensatez arroja à vida dos homens e incita qual certas Fúrias, há que resistir com todas as forças e recursos, se queremos isto: viver o que foi dado à vida tranquila e placidamente” (Cícero, Tusc. III 11). Ora, destes “males a cura está posta somente na virtude” (Id., IV 15). Viva pois nas almas, floresça no ambiente doméstico, triunfe na sociedade civil a virtude cristã, a única da qual é lícito esperar aquela renovação dos costumes e a reta e ordenada restauração das coisas públicas que é desejo de todos os bons. Cristo, como bem sabeis, não apenas — o que os filósofos fazem — nos ensina a virtude, senão que também nos exorta com seu exemplo a trabalhar por adquiri-la; excita-nos a vontade, fortalecendo-a com sua graça superna; e, proposto o prêmio da felicidade celeste, nos atrai e impele. Se todos o seguirem, poderão gozar aquela serenidade interna que é a perfeição da alegria (cf. S. Tomás, STh I-II 70, 3), ainda que devam tolerar angústias, perseguições e a injustiça dos homens, porque lhes sucederá o mesmo que sucedeu outrora aos Apóstolos, que “saíam da presença do Sinédrio, contentes por terem sido achados dignos de sofrer afrontas pelo nome de Jesus” (At 5, 41).

E, além disso, se de fato todos possuírem esta paz interna e verdadeira, que se funda na lei divina e é alimentada pela divina graça, então não há dúvida de que também a “ordenada concórdia” (S. Agostinho, De civ. Dei XIX, 13) — extintos os ódios, sedados os maus desejos e feita, segundo os imperativos da justiça e da caridade, uma melhor distribuição das riquezas — poderá felizmente nascer para as ordens civis, os povos e as nações. 

É o que Nós, com preces suplicantes, imploramos ao divino Redentor, a quem hoje celebramos ressuscitado e vencedor da morte, enquanto a vós, Veneráveis Irmãos e diletos filhos, repetimos aquelas belíssimas palavras do Apóstolo dos gentios, tão apropriadas para este dia solene: “Alegrai-vos, procurai ser perfeitos, encorajai-vos, tende o mesmo sentir, vivei em paz, e o Deus da caridade e da paz será convosco” (2Cor 13, 11). Amém.

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