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Santo Tomás, mestre de piedade
Santos & Mártires

Santo Tomás,
mestre de piedade

Santo Tomás, mestre de piedade

Santo Tomás, se é mestre nos estudos, não o é menos na piedade. Só ele, entre todos os Doutores, soube unir na mais perfeita amizade a erudição com a virtude, a verdade com a caridade, a leitura com a oração.

Pe. Édouard Hugon, OPTradução: Equipe Christo Nihil Praeponere28 de Janeiro de 2021Tempo de leitura: 13 minutos
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É conhecido, entre outros, o encômio com que o celebérrimo Pe. Pedro Labbe, SJ, cantou as glórias do Aquinate: “Tomás”, diz, “foi anjo antes de ser Doutor Angélico… Fala de Deus como se o tivesse visto; disputa de tal modo sobre os anjos como se fora espírito. Infunde horror ao pecado quando o mostra; torna amáveis as virtudes quando as descreve” (Elogium S. Thomæ).

Entre as virtudes especialmente amáveis e que se hão de amar brilha a piedade, que emerge de tal forma tanto da vida quanto dos escritos dele, que se pode chamar ao Angélico modelo e mestre de piedade: antes, porém, modelo que mestre, já que ele primeiro viveu o que ensinou, e por isso é mestre, porque modelo. Afirma-o também a Encíclica Studiorum ducem, enquanto admira e propõe no santo Preceptor esta aliança da doutrina com a piedade, da erudição com a virtude, da verdade com a caridade. Com efeito, segundo o Sumo Pontífice, “por certo vínculo admirável de parentesco estão unidas entre si a verdadeira ciência e a piedade, companheira de todas as virtudes”. 

Atente-se para a grande força da expressão “parentesco” (cognatio), como se ao mesmo tempo nascessem e na mesma família convivessem a ciência e a piedade. De fato, nas obras do Angélico, de modo quase espontâneo e por um suave processo, a piedade brota da Teologia como os frutos da árvore. Para pô-lo em evidência, indicaremos brevemente, após vermos a noção de piedade, como de cada tratado — sobre Deus, sobre a graça, sobre os atos humanos, sobre as virtudes, sobre a Encarnação, a Eucaristia etc. — emanam aplicações de máxima e felicíssima utilidade para a vida espiritual.

Detalhe de “O triunfo de S. Tomás”, por Benozzo Gozzoli.

1. A virtude da piedade. — A piedade, com base no nosso Doutor, pode ser definida: é a virtude moral anexa à justiça pela qual se presta o culto devido aos pais, à pátria e sobretudo a Deus, que recebe por excelência o título de Pai nosso. Pertence, com efeito, à justiça, porque tem por objeto um débito; mas se distingue da razão de justiça, porquanto não se podem recompensar os pais, a pátria e Deus segundo a medida que lhes é devida (secundum æqualitatem) e, por isso, é uma virtude anexa.

Presta culto aos que são princípio do nosso ser ou governo. Ora, o primeiro princípio desse tipo é Deus, enquanto os pais, dos quais nascemos, e a pátria, na qual fomos nutridos, são princípios secundários (STh II-II 100, 1 ad 3). Por essa razão, a piedade, que honra os pais e a pátria, predica-se por excelência do culto a Deus, assim como a Deus mesmo, por certa superexcelência, convém o nome de pai (cf. STh II-II 100, 3 ad 2).

A estas noções deve dar-se a máxima atenção nestes nossos tempos, nos quais o amor à pátria degenera por vezes até os excessos de um falso ou imoderado nacionalismo, como se fora uma “religião”. Aprendemos de S. Tomás que os pais, a pátria e Deus não devem nunca ser separados, mas amados com a mesma virtude, guardada sempre a ordem devida, segundo a razão pela qual são princípio do nosso ser. Por isso, Deus há de ser honrado e amado por excelência, de modo que nada amemos mais do que a Ele, nem contra Ele, nem tanto quanto a Ele (cf. STh II-II 134, 3 ad 2).

Ora, a piedade, enquanto virtude moral, honra o pai carnal e os outros parentes de sangue; mas, enquanto dom do Espírito Santo, honra a Deus, e assim este dom pode ser definido, com base no mesmo Doutor: Disposição da alma pela qual é facilmente movida pelo Espírito Santo a ter um afeto filial por Deus como pai (cf. STh II-II 121, 1 e 3).

Eis, portanto, cingindo-nos ao escopo que aqui temos em mira, o que há de fixar-se bem firme na mente: é próprio da piedade excitar um filial afeto por Deus enquanto pai. Daí se vê por que S. Tomás é, com justiça, chamado mestre de piedade: porque a sua doutrina, por sua força intrínseca e como que por certo calor nativo, acende este afeto, promove-o e alimenta-o. E nisto se mostra um mestre admirável, na medida em que o faz não com palavras pomposas, não à força e a lanço, mas de modo tão simples, modesto, quase a furto, inclusive nas respostas às objeções, que a nossa mente se vê banhada de inefável devoção. Assim, ao falar do efeito da Eucaristia, afirma (STh III 79, 1 ad 2): 

Como diz S. Gregório, “o amor de Deus não é ocioso: opera grandes coisas, se está presente” (Hom. 30, 2). Por isso, este sacramento, no que depende de sua própria virtude, não só confere o hábito da graça e da virtude, mas também o excita em ato, segundo S. Paulo: “A caridade de Cristo nos impele” (2Cor 5, 14). Daí se segue que, pela virtude deste sacramento, a alma se delicia espiritualmente e, de certo modo, se inebria com a doçura da bondade divina, segundo o Cântico dos Cânticos: “Amigos, comei e bebei; inebriai-vos, ó caríssimos” (Ct 5, 1).

Nestas palavras se revela, de fato, uma forte eloquência; mas, ao mesmo tempo, se franqueiam os segredos da vida interior do Doutor Eucarístico, que mais de uma vez se inebriou com a doçura da bondade divina. Ei-lo: porque piedosíssimo, pôde ser mestre de piedade.

2. O amor, a inabitação e a graça. — A semelhante conclusão se pode chegar por cada tratado. Para arrebatar-nos ao amor das coisas invisíveis, escreve sobre o amor de Deus coisas admiráveis: “É o amor de Deus que infunde e cria a bondade nas coisas” (STh I 79, 1 ad 2), princípio no qual muitíssimas vezes insiste para estabelecer a diferença entre o amor criado e o amor divino. 

Com efeito, o nosso amor, por ser débil e ineficaz, supõe um bem no amado, mas de forma alguma o produz. Por esse motivo, quando amamos um pecador, não o transformamos por isso em santo e formoso, senão que lhe cobrimos feiura: fechamos-lhe os olhos ou não lha imputamos. O amor de Deus, ao contrário, infunde o bem que ama em nós e, por isso, quando começa a amar um pecador, o torna realmente belo e justo, apagando e purificando os pecados, renovando-lhe interiormente a alma (cf. STh I-II 110, 1; 113, 1 e 2).

Assim, porque Cristo nos chama amigos, faz-nos dignos de sua amizade, verdadeiramente belos, verdadeiramente justos e santos. Só o pensamento disso está já pleno de consolação… No entanto, para tornar mais forte e intenso o nosso afeto por Deus, expõe o Angélico que Deus está presente substancialmente em nós como hóspede e amigo, para que possamos, ainda neste exílio, gozar a sua presença: “Toda a Trindade em nós habita pela graça” (De ver., q. 27, 2 ad 3), a saber: não só infundindo dons criados, mas também fazendo em nós, pessoalmente, a sua morada.

Por essa razão, conclui: “O bem da graça de um só é maior do que o bem de natureza de todo o universo” (STh I-II 113, 9 ad 2).

Caetano, que se compraz não só com sutilezas metafísicas, mas também com uma verdadeira e terna piedade, meditando estas áureas palavras de S. Tomás, exclama: “Tem sempre ante teus olhos, de dia e de noite, que o bem da graça de um só é melhor do que o bem de natureza de todo o universo, para que vejas sem cessar a condenação a que se risca quem não dá valor à perda de tamanho bem”.

3. A virtude e a paz. — Também nas questões aparentemente mais áridas sugere o S. Doutor muitos ensinamentos que ajudam e nutrem a vida espiritual. Assim, comparando o filósofo moral, o retor, o político e o teólogo, observa: 

O que o retor persuade, o político decide; ao teólogo, porém, a quem servem as demais artes, competem todos os modos mencionados. Pois ele compartilha com o filósofo moral a consideração dos atos viciosos e virtuosos, e considera, com o retor e o político, os atos na medida em que merecem ser punidos ou premiados (STh I-II 7, 2 ad 3).

Isso vale particularmente para o homem piedoso, asceta e místico, que sempre considera os atos humanos enquanto se referem à vida sobrenatural.

Pintura do Doutor Angélico na igreja de São Roque, em Acireale, Itália.

Ouvimos o Pe. Labbe louvar S. Tomás por fazer amáveis as virtudes quando as descreve. O S. Doutor mostra que toda virtude é amável, já que a beleza convém a qualquer virtude (cf. STh II-II 141, 2 ad 3); mas deve chamar-se bela, de modo especial, à virtude que afasta o homem das coisas que mais o deturpam, a saber: dos prazeres que convêm à natureza humana segundo a parte mais inferior. É por isso que a castidade é uma virtude belíssima. Ora, uma vez que o angélico é o Doutor da castidade, resplende nele uma beleza singular, aspecto no qual ele é superior a S. Agostinho, como lembra a nossa Liturgia: “Diz Agostinho assim a um irmão: ‘Tomás me é igual em glória, mas me supera em pureza virginal’” (resp. IX Matut.). A virtude da temperança auxilia a piedade, a fim de que toda a vida espiritual seja devidamente governada. Pois um homem realmente temperante deseja com moderação e sempre conforme o termo médio da razão; e, pelo mesmo motivo, se entristece com moderação (cf. STh II-II 141, 2 ad 3).

Assim se lançam em todo o homem os fundamentos daquela verdadeira paz a que S. Agostinho chamava tranquilidade da ordem. Não há como não ver o quão bela e precisa é esta definição. A paz não é apenas tranquilidade, já que pode haver certa paz aparente, fingida ou maldosa, como são os gozos desonestos do coração; mas tampouco é apenas ordem, já que a ordem pode ser ferida ou desprezada, senão que é, a um tempo, tranquilidade e ordem ou, melhor ainda, tranquilidade da ordem (cf. De civit. Dei XIX, 93). Donde se segue que o homem perfeitamente piedoso é o que possui em paz a própria alma.

4. A Paixão e a Eucaristia. — A Encarnação é um mistério de piedade, assim como a Eucaristia é o sacramento da piedade. De ambos escreveu o Angélico coisas admiráveis que alimentam uma terníssima devoção. Bastam umas poucas palavras suas para nos comovermos interiormente com as dores de Cristo.

Mostra que a dor da Paixão foi, em Cristo, maior do que todas as dores, tanto extensivamente, porque experimentou em si todas as dores, quanto intensivamente, porque nele a dor foi puríssima e, portanto, máxima (cf. STh III 46). Para intensificar em nós a compaixão, acrescenta: 

A vida corporal de Cristo foi de tanta dignidade, por causa sobretudo de sua união com a divindade, que a morte dela por uma só hora seria mais de lastimar do que a morte de outro homem, por grande que fosse a duração. Por isso diz o Filósofo (cf. EN III, 9) que o virtuoso tanto mais ama a própria vida quanto mais sabe ser ela melhor, e contudo a expõe pelo bem da virtude. Do mesmo modo, Cristo expôs sua vida maximamente amada pelo bem da caridade (STh III 46, 6 ad 4).

Tudo isso abrasa a alma de modo mais eficaz do que as orações e pregações mais refinadas e, por sua própria força, leva à seguinte conclusão: “Como não amar de volta a quem assim nos amou?” Excita também o mais possível a piedade quando fala dos efeitos da morte de Cristo, que nos libertou de nossas duas mortes, isto é, do corpo e da alma (cf. STh III 41). S. Tomás parece fazer eco a S. Efrém, o Sírio, algumas de cujas palavras vale a pena referir, para que nos ensinem hoje a piedade, ao mesmo tempo, os Doutores de Edessa e de Aquino, ou seja, a Igreja oriental e latina: “Glória a ti”, diz S. Efrém cantando a Cristo, “glória a ti, que da tua cruz fizeste uma ponte sobre a morte, a fim de que por ela passem as almas da região da morte para a da vida!” (De Domino Nostro, ed. Lamy, I 158). Belíssima poesia, que nos pinta a cruz como uma ponte sobre a morte!

No tratado sobre a Eucaristia, S. Tomás é ainda mais Doutor de piedade, expondo por que Cristo quis, na véspera de sua Paixão, instituir este sacramento: porque as coisas que fazem ou dizem por último os amigos que partem são as que mais se imprimem na memória, e é quando mais se inflama o afeto (cf. STh III 73 5); e por que nos quis consolar nesta peregrinação com sua presença corporal? Porque o mais próprio da amizade é conviver com os amigos.

Por essa razão, conclui: “Daí ser este sacramento, por tão familiar união de Cristo conosco, o sinal da maior caridade e o sustentáculo da nossa esperança” (STh III 75, 1).

5. Piedade mariana. — Tampouco há de passar em silêncio o fato de o Angélico ser mestre de verdadeira piedade à Bem-aventurada Virgem Maria.

Ele mesmo formulou o firmíssimo e universal princípio no qual se contêm todas as glórias da Beatíssima Virgem: “Na Virgem bendita devia aparecer tudo o que é perfeição” (In IV Sent., dist. 30, q. 2, a. 1, sol. 1). Prova-o pela proximidade com Cristo, fonte das graças:

Quanto mais algo se aproxima do princípio em qualquer gênero, tanto mais participa do efeito desse princípio. Pois bem, Cristo é o princípio da graça. Ora, a bem-aventurada Virgem Maria foi a mais próxima de Cristo segundo a humanidade, porque dela recebeu [Cristo] a natureza humana. Logo, devia receber de Cristo, mais do que outros, uma maior plenitude de graça (STh III 27, 5).

Não só isso. Dessa união com Cristo infere o Angélico uma afinidade com Deus. Comentando esta sentença, Caetano, piedosíssimo também nessa matéria, escreve estas conhecidíssimas palavras: 

Note-se que a junção, por consanguinidade carnal, com a humanidade assunta pelo Verbo chama-se, no texto, “afinidade com Deus” (affinitas ad Deum), de sorte que os consanguíneos de Cristo, enquanto homem, são afins de Deus segundo a razão em que “Deus” é o nome da divindade… Por isso, a Mãe dele foi constituída como afim de Deus… a única que alcança, por sua própria operação natural, os confins (ad fines) da divindade, ao conceber a Deus, dá-lo à luz, criá-lo e alimentá-lo com seu próprio leite (In STh II-II 103, 4).

Argumentos esses que são poderosíssimos estímulos para a piedade, pois se tanta dignidade tem Maria, a ponto de alcançar os confins da divindade, qual não deve ser o nosso filial afeto pela Mãe de Deus e dos homens?

6. Conclusão. — Já que não podemos repisar cada um [dos tratados], notemos apenas que a nossa piedade encontra o máximo auxílio no que ensina o Angélico acerca dos Novíssimos, sobretudo acerca da bem-aventurança celeste, dos dotes, das auréolas e das qualidades dos corpos [ressuscitados]. Aqui também se vê como se cumpre o que com veemência desejava o Sumo Pontífice Pio XI, a quem, como a protetor amantíssimo, agradece o Colégio Angelicum: Pax Christi in regno Christi, quando finalmente Deus será tudo em todos (cf. 1Cor 15, 28).

Do que sucintamente apontamos fica patente como o Mestre de piedade está sempre de mãos dadas com o Mestre dos estudos: pode, sim, mostrar o caminho nos estudos quem tão amigavelmente uniu a doutrina com a piedade, a erudição com a virtude, a verdade com a caridade. Ora, se é guia nos estudos, também nos costumes irá preparar um caminho seguro. Ora, se, como diz o Apóstolo, “a piedade é útil para tudo”, tendo a promessa da vida presente e da futura, o que foi Guia para a verdade e a piedade, será no fim Guia para a felicidade.

Notas

  • Este texto é uma tradução do artigo “Sanctus Thomas, Magister Pietatis”, do Pe. Édouard Hugon, OP, publicado originalmente em Roma, na revista Angelicum, vol. 3, n. 1 (mar. 1926), pp. 79–84.

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Um sermão sobre os Esponsais de Maria e São José
Santos & Mártires

Um sermão sobre os
Esponsais de Maria e São José

Um sermão sobre os Esponsais de Maria e São José

Neste sermão para a festa dos Esponsais de Maria e São José, o Cardeal Burke desfaz um mal-entendido e esclarece que não, a Virgem Santíssima não foi “mãe solteira”, porque “Jesus foi concebido e nasceu dentro do casamento”.

Gregory DipippoTradução: Equipe Christo Nihil Praeponere22 de Janeiro de 2021Tempo de leitura: 8 minutos
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23 de janeiro é o dia tradicional da festa dos Esponsais da Virgem Maria com São José. Embora nunca tenha feito parte do calendário geral, esta era mantida por muitas Ordens religiosas, especialmente aquelas com uma devoção particular à Virgem Maria, e em muitos calendários locais. (Os padres que a quiserem celebrar podem clicar neste link, onde terão acesso ao formulário litúrgico desta memória devocional.)

Em 10 de janeiro de 2015, Sua Eminência, o Cardeal Raymond Burke, celebrou uma Missa votiva dos Esponsais da Virgem na Basílica de São Nicolau no Cárcere (San Nicola in Carcere), em Roma, como parte de uma conferência da Confraternity of Catholic Clergy; esta Missa foi escolhida porque o matrimônio e a família, e questões relacionadas a eles, foram o tema da conferência. Sua Eminência gentilmente permitiu que o site New Liturgical Movement compartilhasse o texto completo de seu sermão — e nós o traduzimos a seguir. (As leituras bíblicas desta Missa foram Provérbios 8, 22-35 e Mateus 1, 18-21.)


Cardeal Burke, durante Missa votiva dos Esponsais da Virgem, 2015.

Celebrando a Missa votiva do matrimônio da Bem-aventurada Virgem Maria com São José, contemplamos de novo o grande mistério do amor incomensurável e incessante de Deus por nós. No breve relato do Evangelho de São Mateus, vemos como Deus providenciou que seu Filho unigênito se encarnasse no seio imaculado da Virgem Maria e, ao mesmo tempo, por sua Encarnação, passasse a fazer parte da família de José e Maria. Em outras palavras, embora São José e a Bem-aventurada Virgem tivessem se casado antes da concepção virginal de Deus Filho no ventre dela, eles o fizeram com todo o respeito à consagração da virgindade de Maria a Deus desde a sua juventude, [com todo o respeito] à oferta de sua virgindade, consagrada a Deus. Ou seja, São José casou-se com Maria com o intuito de honrar, ao longo do casamento, a virgindade consagrada dela.

Pelo texto do Evangelho segundo São Mateus fica claro que Maria já era casada com São José na época da Anunciação, mas que São José ainda não a tinha acolhido em sua casa. Por isso, ao saber de sua gravidez, São José, por uma questão de decência, pensou em se divorciar dela da maneira mais discreta possível. Para ficar claro, a palavra “prometida” não pode ser entendida como “noiva”, mas sim como “desposada” ou “casada”, como o restante das palavras do texto deixa claro.

Aqui é importante recordar o rito do casamento judaico, que a Virgem Maria e São José, como judeus devotos, observaram atentamente. O rito consistia em duas fases: uma primeira fase, pela qual o contrato de casamento era selado, tornando as partes verdadeiramente marido e mulher; e uma segunda fase, pela qual o casamento era consumado com a chegada da esposa à casa de seu marido. Em sua Exortação Apostólica Redemptoris Custos, o Papa São João Paulo II descreveu a observância da prática do casamento judaico pela Virgem Maria e São José com as seguintes palavras:

Segundo o costume do povo hebraico, o matrimônio constava de duas fases: primeiro, era celebrado o matrimônio legal (verdadeiro matrimônio); e depois, só passado um certo período, é que o esposo introduzia a esposa na própria casa. Antes de viver junto com Maria, portanto, José já era o seu “esposo” (n. 18).

Maria é, de fato, a esposa de São José e, portanto, o divino Menino, concebido em seu ventre pela sombra do Espírito Santo, é membro da família de José e Maria, e goza da maternidade divina da Virgem Maria e da paternidade adotiva, ou da guarda, de São José.

O Padre René Laurentin, referindo-se à decisão de Maria desde a juventude de “não pertencer a nenhum homem, mas somente a Deus”, descreve assim o seu estado civil à época da Anunciação:

As Bíblias erroneamente traduzem como “noiva”, mas Maria está realmente casada com José, de acordo com as duas fases do casamento hebraico: o consentimento (qidushin) antes da Anunciação, e a segunda fase, a introdução da esposa na casa do marido (nissuin), conforme o acordo com José de um casamento virginal (não consumado) (Marie, source directe de l'Évangile de l'Enfance).

O Padre Laurentin passa a explicar como Maria, em razão de sua condição de esposa em um casamento virginal, acreditava ter renunciado à possibilidade da maternidade do Messias. Assim, na Anunciação, ela perguntou ao Arcanjo Gabriel: “Como se fará isso, se eu não conheço homem?” (Lc 1, 34). O Arcanjo deixou claro que foi precisamente a sua virgindade que a preparou para ser a Mãe de Deus. O Padre Laurentin, referindo-se ao seu voto de virgindade, escreve: “Mas este voto trouxe, pelo contrário, o único meio de alcançar este privilégio único. Tais são os paradoxos do Altíssimo. Ela recebe, então, a resposta que tudo torna novo e esclarece” (ibid.).

A Igreja, de fato, sempre viu no texto sobre a sabedoria eterna de Deus, do livro dos Provérbios, uma imagem da Virgem Maria, que Deus escolheu, desde o início, para ser a Mãe do Redentor: “O Senhor me criou, como primícia de suas obras, desde o princípio, antes do começo da terra” (Pr 8, 22). O texto inspirado nos leva a uma reflexão mais profunda sobre o matrimônio de Maria com José e sua maternidade divina no grande mistério da fé, o mistério da nossa salvação eterna. Pesquisando seu significado mais profundo, entendemos a verdade dos versículos finais: “Pois quem me acha encontra a vida e alcança o favor do Senhor. Mas quem me ofende, prejudica-se a si mesmo; quem me odeia, ama a morte” (Pr 8, 35-36).

Contemplando o matrimônio da Bem-aventurada Virgem Maria com São José, nós vemos como, logo no início da obra da salvação, Deus Pai cuidou para que a concepção de seu Filho unigênito em nossa carne humana fosse virginal, como de fato devia ser, mas, ao mesmo tempo, completamente legítima, a fim de manifestar plenamente a verdade, a beleza e a bondade de Deus. Deus Filho é concebido virginalmente no ventre de Maria, esposa de São José. O Evangelho segundo São Mateus é marcado, em particular, pela atenção à natureza jurídica da nossa fé e da sua prática, apresentando Cristo como o novo Moisés, o novo Legislador, mais eminentemente no Sermão da Montanha. É inconcebível que Deus Filho, em sua Encarnação, não respeitasse totalmente e, na verdade, não levasse à perfeição, tanto a virgindade da Virgem Maria quanto a santidade de seu casamento com São José.

A compreensão exata do estado civil de São José e da Bem-aventurada Virgem Maria é importante para que, de nossa parte, haja um conhecimento e um amor mais completos do mistério da fé, mas também é importante para evitar uma confusão e um erro que são comuns hoje. A grave situação é referida na edição revisada do livro The Father John A. Hardon S.J. Basic Catholic Catechism Course. Será útil citar uma parte de seu desenvolvimento sobre o assunto:

O fato de que Jesus foi concebido virginalmente e nasceu depois do casamento de Maria e José significa que Jesus foi concebido e nasceu dentro do casamento. É o contrário do que muitos, mesmo sacerdotes, dizem na atualidade, a saber, que Jesus nasceu fora do casamento, como os filhos de tantas mulheres solteiras hoje, e que esta não é uma situação “anormal”. Uma mãe grávida e solteira estaria, segundo essas pessoas, nas mesmas condições de Maria, que, elas alegam, também estava solteira na época em que concebeu Jesus. Isto é falso; é, de fato, uma falsidade muito séria, pois mina a santidade do casamento e a razão dessa santidade. Os defensores dessa posição dizem que Jesus foi concebido depois de Maria e José ficarem noivos, não estando eles ainda casados (The Father John A. Hardon S.J. Basic Catholic Catechism Course, Manual, Revised Edition, ed. Raymond Leo Cardinal Burke).

A posição errônea descrita acima é sustentada não apenas por quem deliberadamente discorda do ensino perene da Igreja, mas também por muitas pessoas simplesmente mal catequizadas e, por isso, vítimas de tais ensinamentos falsos.

A clareza em relação ao casamento da Bem-aventurada Virgem Maria com São José torna-se ainda mais importante para as discussões sobre o casamento empreendidas atualmente pelo Sínodo dos Bispos [1]. Ao mesmo tempo que o Sínodo dos Bispos é chamado a exaltar a beleza do matrimônio, como Deus o estabeleceu desde o princípio, há uma forte tentativa de introduzir discussões sobre os chamados “elementos positivos” na coabitação de um homem e de uma mulher, como marido e mulher, sem respeito pelo santo sacramento do Matrimônio. Vemos no casamento de Maria e José, de maneira notável, a beleza do casamento, estabelecido por Deus na Criação e restaurado à sua perfeição original por Deus Filho encarnado na Redenção. Contemplando o casamento de Maria e José, entendemos de forma mais completa e sincera as palavras do próprio Cristo, quando os fariseus o testaram sobre a verdade da indissolubilidade do casamento: “Não lestes que o Criador, no começo, fez o homem e a mulher e disse: ‘Por isso, o homem deixará seu pai e sua mãe e se unirá à sua mulher; e os dois formarão uma só carne’? Assim, já não são dois, mas uma só carne. Portanto, não separe o homem o que Deus uniu” (Mt 19, 4-6).

O ensino de Cristo sobre o santo Matrimônio brilha com particular esplendor no casamento de sua Mãe, Maria, e seu pai adotivo, José.

Estamos prestes a testemunhar a grande vitória da Cruz, a grande obra de Deus Filho que assumiu a nossa natureza humana no seio imaculado da Virgem Maria. Cristo agora oferece sacramentalmente o sacrifício do Calvário. Ele nos dá o fruto incomparável do seu sacrifício: seu Corpo, Sangue, Alma e Divindade. Ele nos dá o remédio e alimento celestiais pelos quais vencemos o pecado em nossas vidas e vivemos em verdadeira liberdade, por amor a Deus e ao próximo. Que a nossa contemplação do mistério da fé no casamento da Bem-aventurada Virgem Maria com São José nos inspire a ensinar, a celebrar e a viver a verdade sobre o santo Matrimônio, como Deus o estabeleceu desde o início e o redimiu por sua Paixão, Morte e Ressurreição redentoras. Busquemos sempre no mistério eucarístico a graça de ensinar, de celebrar e de viver [a verdade do Matrimônio].


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Por que os mártires saíram de moda?
Santos & Mártires

Por que os mártires saíram de moda?

Por que os mártires saíram de moda?

Com sua vida e, sobretudo, com sua morte, os mártires escancaram a falsidade do indiferentismo religioso reinante. Por isso, o que pode explicar a atual impopularidade deles, mesmo entre os católicos, senão a apostasia da fé?

Equipe Christo Nihil Praeponere22 de Janeiro de 2021Tempo de leitura: 8 minutos
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“É mártir que não acaba mais”: nestes últimos dias, em seu rito antigo, a Igreja celebra, em sequência, Santa Prisca (18), os santos Mário, Marta, Audíface e Ábaco (19), São Fabiano e São Sebastião (20), Santa Inês (21), São Vicente e Santo Anastácio (22). Atualmente, conservou-se como obrigatória na liturgia apenas a memória de Santa Inês, cujo nome consta na mais antiga oração eucarística da Igreja, o Cânon Romano

Mas, ainda que a liturgia atual tenha reduzido bastante o número de santos do calendário, todo católico pode ter contato diário com os mártires de sua fé através de um livro chamado Martirológio Romano. Em dois mil anos de história, foram tantas as pessoas que testemunharam Cristo a ponto de derramar o próprio sangue que, para cada dia do ano, há pelo menos alguma delas para celebrar, recordar e invocar [1].

O fato, porém, é que não só perdemos contato com os mártires como a própria “teologia do martírio”, por assim dizer, saiu um pouco de moda. Como vivemos em um tempo de apostasia generalizada, a verdade é que muitos já não creem que realmente valha a pena ter os mártires como inspiração, admiração ou modelo a ser imitado. Diante de um Deus “avô”, que não castiga mais o pecado nem condena ninguém ao inferno, o peso dos atos humanos foi totalmente relativizado. Assim, não faz diferença, na prática, obedecer ou não a Deus, seguir ou não os seus Mandamentos, cometer aqui e ali um “deslize” ou outro. Desde que haja uma disposição geral e abstrata para “seguir Jesus”, “ser bom”, “viver o amor” — ainda que ninguém saiba, na prática, o que isso significa —, o que o ser humano faz ou deixa de fazer não importa. 

Essa moral laxa casa muitíssimo bem com o indiferentismo religioso reinante: tanto faz ser católico, protestante, espírita, umbandista, budista ou o escambau. O importante é seguir algum deus — ou, às vezes, nem isso, pois dá para ser ateu também e seguir simplesmente uma “filosofia de vida”. 

É principalmente por isso que os mártires não estão na moda. Porque eles, com sua vida e, sobretudo, com sua morte, denunciam e escancaram a falsidade desse pensamento. Os mártires apenas acreditavam no que a Igreja lhes tinha transmitido (ou seja, eles não criam em qualquer coisa), e por isso, simplesmente por isso, morriam. As mentes modernas, ao se depararem com qualquer relato do Martirológio, dizem: “São loucos”. E que seja assim não nos deve impressionar, pois a sabedoria de Cristo é, de fato, loucura para o mundo (cf. 1Cor 1, 18-25). Estranho mesmo é que os próprios seguidores de Cristo pensem assim e desprezem sua própria história e antepassados. 

Não deveria ser dessa forma, mas de fato é.

O martírio e a caridade

Como remédio para essa mentalidade mundana que infelizmente contaminou muitos membros da Igreja, é preciso que repassemos rapidamente algumas noções sobre o martírio. Guiar-nos-á neste breve artigo Santo Tomás de Aquino (cf. STh II-II 124). 

Antes, porém, de passar ao que diz o Aquinate, importa considerar que esta valiosa lição de sua pena vem, na verdade, do próprio Evangelho e parte de um pressuposto muito simples: o de que existe uma “escala” de bens, sendo que, pelos superiores, vale a pena sacrificar os inferiores. Melior est misericordia tua super vitas, diz a Deus o salmista: “A tua misericórdia é melhor que todas as vidas” (Sl 62, 4). Numa análise simples de quem tem fé, morrer para ganhar a vida eterna não é (ou não deveria ser) nenhuma loucura. Trata-se simplesmente de escolher o bem maior. 

Os carrascos dos mártires geralmente lhes apresentavam uma saída aparentemente bem “simples”: realizar um determinado ato, pecaminoso, e livrar-se da morte. Bastava lançar um punhado de incenso diante da imagem do imperador. Bastava pisar uma imagem da Virgem Maria ou de Jesus. O mártir, porém, diz Santo Tomás, “nos propõe desprezar o mundo visível pelas realidades invisíveis” (4c.), a terra pelo Céu, o prazer momentâneo pela glória eterna, a vida deste mundo pela vida com Deus. Convenhamos: uma troca justa e, à luz da fé, perfeitamente racional.

É por isso que todo cristão deve estar disposto a sofrer o martírio, caso se lhe apresente a ocasião (1c.), como se repetisse com o salmista: Paratum cor meum, Deus, paratum cor meum — “Meu coração está pronto, meu Deus, está pronto o meu coração!” (Sl 107, 2). E por que isso? Porque o martírio é um ato de virtude, ao qual faz referência o próprio Jesus, nas suas bem-aventuranças: “Felizes aqueles que sofrem perseguição pelo amor da justiça, porque deles é o Reino dos céus” (Mt 5, 10).

Sofrer perseguição, no entanto, é diferente de buscá-la. É preciso ter o coração sempre pronto, mas isso não significa oferecer-se presunçosamente ao martírio. Cristo, por exemplo, por várias vezes saiu do meio de seus perseguidores, quando eles pegaram em pedras para matá-lo (cf. Mt 12, 14-15; Jo 8, 59). “Um homem nunca deve oferecer a outro uma ocasião de agir injustamente”, diz o Doutor Angélico. “Mas se o outro agir injustamente, o primeiro deve suportá-lo na medida do que sente” (1 ad 3).

Além disso, o martírio é um ato impossível sem a graça de Deus e sem a virtude da caridade, que o anima. Sem amor, recorda o Apóstolo, de nada valeria entregar o próprio corpo às chamas (cf. 1Cor 13, 3). Mas é tal a ligação entre o martírio e a caridade que Santo Tomás chega a ensinar o seguinte:

O martírio, entre todos os atos virtuosos, é aquele que manifesta no mais alto grau a perfeição da caridade. Porque tanto mais se manifesta que alguém ama alguma coisa quanto por ela despreza uma coisa amada e abraça um sofrimento. É evidente que entre todos os bens da vida presente aquele que o homem mais preza é a vida e, ao contrário, aquilo que ele mais odeia é a morte, principalmente quando vem acompanhada de torturas e suplícios por medo dos quais “até os próprios animais ferozes se afastam dos prazeres mais desejáveis”, como diz Agostinho. Deste ponto de vista, é evidente que o martírio é, por natureza, o mais perfeito dos atos humanos, enquanto sinal do mais alto grau de amor, segundo o que está em Jo 15, 13: “Não existe maior prova de amor do que dar a vida por seus amigos” (3c.).

Um mártir incomum

Para exemplificar a supremacia desse testemunho dos mártires, contemos a história de um mártir tanto quanto incomum: um que, diferentemente de uma Santa Prisca ou de uma Santa Inês, levou uma vida pouco íntegra; um que morreu como santo, mas viveu mal — um “filho” de São Dimas, em suma.

E por que contar uma vida assim? Para animar-nos! Pois, ao celebrarmos na liturgia santos de estatura elevada, de vida íntegra e reputação ilibada, talvez nos sintamos um pouco intimidados e até desanimados. Prisca e Inês, por exemplo, além de mártires, foram virgens — termo que nos assusta porque, infelizmente, nós somos aquela sociedade profetizada por Nossa Senhora do Bom Sucesso, na qual quase já não existem mais “almas virgens”. (Isto é, com a atmosfera de impureza que respiramos, até as pessoas que, “tecnicamente”, são virgens, infelizmente estão com o coração contaminado.) Cristo, porém, como lemos no Evangelho, veio não para os justos, mas para os pecadores. Foi justamente 

[…] o caso de Santo André Wouters, um padre diocesano em Gorcum, na Holanda. Ele era conhecido por sua embriaguez pública, pelos múltiplos casos amorosos que mantinha e por ser pai de inúmeros filhos, apesar de seu voto de celibato. Corsários calvinistas tomaram a cidade e começaram a matar padres e religiosos. De acordo com alguns relatos, ele escolheu juntar-se a eles no cativeiro, onde foi ridicularizado por sua vida de devassidão, infidelidade e escândalo nas mãos dos carrascos calvinistas. Em 9 de julho de 1572, Pe. André Wouters foi executado, ao lado de outros 18 padres e religiosos, por ser católico. Quando o laço foi colocado em volta de seu pescoço, ele foi questionado por seus algozes se renunciaria à sua fé na Eucaristia e no papado a fim de salvar a própria vida. As últimas palavras do Pe. Wouters a seus carrascos foram: “Fornicador eu fui, herege nunca”. Ele seria canonizado pelo Beato Papa Pio IX, juntamente com os outros mártires de Gorcum, em 1865. Sua fé e seu amor a Cristo, exemplificados em seu ato de martírio, expiaram os pecados de sua vida terrena para trazê-lo, pela graça de Deus, à glória celeste [2].

“Fornicador eu fui, herege nunca”: ao reconhecer humildemente a própria culpa e indignidade, numa espécie de ato final de contrição, este sacerdote demonstrava que ninguém foi feito para o pecado, nem mesmo os pecadores. Não é porque um homem cai que deve permanecer deitado, não é porque está sujo que deve ficar imundo para sempre. Em suas palavras se vê também um senso correto da gravidade dos pecados: a é maior do que a temperança; Deus é maior do que o corpo; por isso, a heresia é pior do que a fornicação.

Os mártires de Gorcum, retratados por Cesare Fracassini.

Além disso, Pe. André Wouters não “aprovava” o seu pecado. O relato dá a entender que ele suportou com paciência o escárnio de seus perseguidores, começando já aí a reparar sua má conduta passada. E o verbo empregado no passado, “fui”, também mostra como ele já não se identificava com a sua miséria. Nas mãos dos hereges calvinistas, ele certamente se viu bem próximo da morte e abraçou aquela situação como uma oportunidade única de se emendar e redimir.

E foi justamente o que aconteceu. É tal a grandeza do martírio, que extinguiu todos os pecados passados deste padre devasso no fogo abrasado de caridade que o animou a entregar a própria vida! Há, pois, esperança para os pecadores. A misericórdia de Deus se derrama realmente com abundância sobre aqueles que se arrependem sinceramente de seus pecados e procuram consertar sua vida. 

Ao celebrarmos os mártires, portanto, lembremo-nos do grande amor que os impulsionou a entregar a própria vida por Cristo, e celebremos esta grande graça que eles receberam das mãos de Deus. Pois digno mesmo ninguém é de receber tamanha honra — nem Santa Prisca, nem Inês, nem Sebastião, nem Santo André. Isso, porém, não relativiza o sacrifício que eles realmente ofereceram para permanecer fiéis a Jesus e incorporados na única Igreja fundada por Ele — Igreja fora da qual eles acreditavam piamente não haver salvação

Se não acreditassem nisso, não teriam morrido. 

E se isso não for verdade, então eles morreram todos em vão.

Notas

  1. Os fiéis que rezam as Horas canônicas na sua forma antiga podem ter contato com o Martirológio diariamente ao recitar a hora Prima (que foi abolida da atual Liturgia das Horas).
  2. Fr. Matthew MacDonald, On the Limits and Failures of Saints. In: Catholic World Report, 2 jan. 2021.

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Três Ps que os homens precisam imitar em São José
Espiritualidade

Três Ps que os homens
precisam imitar em São José

Três Ps que os homens precisam imitar em São José

São José foi dado a todos como modelo de pai e de esposo. Sua principal virtude é a fidelidade, e dela provêm todas as outras virtudes que ele possui. Destas, porém, três são especialmente necessárias para os homens que desejam seguir os seus passos.

Pe. Dwight LongeneckerTradução: Equipe Christo Nihil Praeponere21 de Janeiro de 2021Tempo de leitura: 5 minutos
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“Não é por acaso”, eu disse a Miguel, “que toda igreja católica tem uma imagem de São José na frente” [1].

Miguel tinha vindo se confessar e buscar aconselhamento para superar seus fracassos como marido e pai. Ele foi pego na armadilha da pornografia e da ambição. Ele tomou algumas decisões fáceis, mas ruins. O estresse se acumulou e o apego ao trabalho começou a piorar. Miguel começou a negligenciar a relação com sua esposa e filhos — considerando-os um fardo e um incômodo. Por causa disso, sua esposa estava ameaçando pedir o divórcio. Miguel, então, veio me procurar porque a realidade o havia atingido como um banho de água fria.

“São José”, continuei, “nos é dado como modelo de pai e de esposo. Sua principal virtude é a fidelidade, e dessa fidelidade provêm todas as outras virtudes que ele possui”.

No Evangelho de São Mateus, São José é descrito como “um homem justo”. Outras versões traduzem o texto dizendo que ele era “fiel à Lei”. Em outras palavras, José se submeteu à lei de Deus, e foi essa obediência essencial e fidelidade à vontade de Deus que formou o alicerce de sua vida. São José viveu de fato aquele versículo do Evangelho que diz: “Buscai em primeiro lugar o Reino de Deus e a sua justiça e tudo o mais vos será dado em acréscimo” (Mt 6, 33).

A fidelidade de São José, como pai adotivo de Jesus, deu origem a uma série de outras virtudes, mas há três, que vemos nas narrativas do Natal, especialmente necessárias para os homens que desejam seguir os seus passos.

1. Pureza. — A primeira virtude que nasce da fidelidade de São José é a pureza. Numa época em que a pornografia e a imoralidade desenfreada propagam-se ao nosso redor, a pureza pode parecer passiva e covarde. Mas a pureza passiva e fraca não é uma virtude masculina. Em vez disso, a verdadeira pureza é forte. A verdadeira pureza está enraizada não apenas no ato de evitar o pecado sexual, mas numa fidelidade positiva e operante.

O homem fiel à esposa e ao chamado cristão à castidade percorre um caminho de liberdade e força. Uma pureza enraizada na fidelidade à vontade de Deus e ao caminho divino revela uma sexualidade totalmente madura e integrada. O homem viril e puro num sentido positivo compreende o impulso fecundo da sexualidade e o trata como uma força poderosa em sua vida — não simplesmente como um brinquedo, ou algo a ser temido e reprimido. Essa pureza positiva, em São José, estava presente na aceitação da Virgem Maria como sua esposa, na sua capacidade de se abster de relações sexuais com ela e na poderosa canalização de sua sexualidade para o serviço de um amor maior.

“O Sonho de São José”, por Antonio Palomino.

2. Paciência. — A segunda virtude que se desenvolve com a fidelidade de São José é a paciência. São José é um protótipo do homem forte e silencioso. Ele olha e espera. Observa a situação com atenção. Ele é capaz de parar, olhar e ouvir. Ele não reage impulsivamente, mas se contém, para poder agir com cuidado, no momento certo, após considerar todos os fatos.

A paciência de José cresce com a fidelidade, porque toda a sua vida esteve enraizada na lei de Deus. Por meio de uma vida de estudo e oração, um homem judeu da geração de José aprendia a ouvir a Deus, confiar nele e, depois, obedecer-lhe. Para desenvolver uma vida espiritual tão profunda são necessários trabalho árduo, perseverança e paciência — uma virtude que vemos em seu cuidadoso zelo com Maria e o Menino Jesus, e que precisamos desenvolver em nosso mundo altamente sobrecarregado, impulsivo e acelerado.

3. Prudência. — A terceira virtude erigida sobre o alicerce da fidelidade de São José é a prudência, que consiste no discernimento sábio e cuidadoso que nos permite escolher o caminho certo. Constata-se a prudência de São José quando ele encontra abrigo para Maria, que estava prestes a dar à luz. Também a sua escolha de fugir para o Egito e retornar apenas quando fosse seguro revela um guardião de Cristo prudente, maduro e sábio. Mais uma vez, a virtude da prudência de São José está enraizada em sua fidelidade, porque sua profunda confiança na providência de Deus o capacita a correr riscos e fazer as escolhas certas, sabendo que Deus cuida de tudo.

A narrativa do Natal é maravilhosa não apenas porque está carregada de elementos sobrenaturais, como um nascimento milagroso, anjos e uma estrela-guia, mas também porque está repleta da força extraordinária de pessoas ordinárias como São José. A pureza, a paciência e a prudência que ele demonstra são um lembrete para pessoas como Miguel, que estão lutando com as responsabilidades do casamento e da paternidade. O casamento dele estava uma bagunça porque ele carecia de pureza, paciência e prudência; e ele não tinha essas virtudes porque lhe faltava primeiro aquela profunda fidelidade a Deus, da qual essas virtudes se originam. Quando fui capaz de orientá-lo a redefinir as prioridades de sua vida e a desenvolver uma devoção genuína a São José, começamos a ver essas mesmas virtudes florescerem na vida dele e sua vida familiar começou a tomar a direção certa.

As festividades de Natal, que acabamos de viver, são uma oportunidade não apenas para encher a barriga e reunir a família e os amigos [2]. Precisamos também redefinir nossas prioridades, determinar mais uma vez que edificaremos nossa casa sobre o alicerce de Cristo e, a exemplo de São José, assegurar que toda a nossa vida gire em torno do Menino que está sobre a manjedoura.

Notas

  1. Embora seja frequente a presença de imagens de São José nas igrejas, infelizmente não são todas que a possuem. Em todo o caso, entende-se a colocação do autor no sentido de que “deveriam ter”, visto ser ele o Patrono da Igreja Católica. Além disso, o padre fala a partir do contexto dos Estados Unidos, onde ele mora.
  2. Sobre a importância de estender as comemorações do tempo do Natal, cf. Peter Kwasniewski, Até quando devemos festejar o Natal?.

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