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Eu recebi o que vos transmiti
Espiritualidade

Eu recebi o que vos transmiti

Eu recebi o que vos transmiti

Em nossas palavras e obras, ou deixamos transparecer o Deus verdadeiro, ou exibimos um simulacro, moldado impiedosamente por nossas próprias mãos.

Equipe Christo Nihil Praeponere29 de Outubro de 2014Tempo de leitura: 3 minutos
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Em qualquer tradição, a fidelidade à mensagem recebida é fundamental, seja em reverência àquele que anuncia a mensagem – e não quer vê-la distorcida ou modificada –, seja em respeito a quem ouve a palavra – e não quer, obviamente, ser enganado. Se não se procede assim, tudo se torna uma brincadeira de “telefone sem fio" e, no final, ao invés de comunicação, edifica-se uma torre de Babel, repleta de erros e confusão.

Ora, tudo isso é muito mais verdadeiro quando se trata da revelação de Deus, “o qual não pode enganar-se nem enganar" [1]. Alguém duvida da grande responsabilidade dos Apóstolos, que receberam de Cristo o encargo de “fazer discípulos entre todas as nações" e ensinar-lhes “a observar tudo o que vos tenho ordenado" ( Mt 27, 19. 20), sabendo que de sua fidelidade dependia, por assim dizer, a eficácia da visita de Deus ao mundo? Qual também não é o tamanho da missão confiada a todos os cristãos, chamados a “ordenar segundo Deus as realidades temporais e impregnar o mundo com a força do Evangelho" [2]? Em nossas palavras e obras, ou deixamos transparecer o Deus verdadeiro ou exibimos um simulacro, moldado impiedosamente por nossas próprias mãos.

Por isso, hoje, mais do que nunca, as palavras do Apóstolo são importantes: “ Ego enim accepi a Domino quod et tradidi vobis – Eu recebi do Senhor o que também vos transmiti" (1 Cor 11, 23). O Papa Bento XVI comenta que, mesmo para São Paulo, “originariamente chamado por Cristo com uma vocação pessoal, (...) conta sobretudo a fidelidade a quanto recebeu. Ele não queria 'inventar' um novo cristianismo, por assim dizer 'paulino'" [3], mas tão somente transmitir aquilo que ele mesmo tinha encontrado. É essa atitude que nos dá “a garantia de que cremos na mensagem originária de Cristo, transmitida pelos Apóstolos" [4].

Este ponto é particularmente importante: da integridade e autenticidade da mensagem passada depende a própria salvação eterna das almas, que encontram em perigo de perder-se por conta de mensageiros infiéis.

Foi com coragem que o Papa Paulo VI denunciou a cultura de morte na encíclica Humanae Vitae, enfrentando uma dura oposição do mundo e de prelados em conluio com o mundo. A sua resposta aos que pretendiam atenuar a doutrina moral da Igreja em favor de certa “abertura" era bem clara: “Não minimizar em nada a doutrina salutar de Cristo é forma de caridade eminente para com as almas" [5].

O santo Papa Pio X também enfrentou dificuldades quando decidiu combater com pulso firme a heresia modernista. Mesmo depois da encíclica Pascendi e da instituição do juramento antimodernista, grande foi a resistência das pessoas, às vezes dentro da própria Igreja.

Um fato significativo com relação a um padre, de nome João Semeria, merece nota. Esse sacerdote, “antes e depois da 'Pascendi', mantinha estreita relação com os mais insignes modernistas" e a sua obra “deixava entrever que no seu afecto ao modernismo talvez houvesse uma parte de convicção pessoal". Conta-se que “Pio X censurou-o um dia, porque 'tendo recebido tantos dons de Deus para fazer o bem, os empregava em escrever livros não conformes com os ensinamentos da Igreja'. Semeria respondeu que o fazia para pôr a religião ao alcance de todos. O Papa acrescentou: – Alargais as portas para que entrem os que estão de fora, mas entretanto obrigais a sair os que estão dentro" [6].

Não importa que o número de fiéis pareça pequeno, mas que se ensine a verdadeira fé e se evangelize com destemor. Sem proselitismo, pois não se pode trair a Nosso Senhor, trocando-O pelos aplausos do mundo ou por alguns trocados, como fez Judas. Não foi o próprio Cristo quem comparou o Reino dos céus a um “grão de mostarda" (cf. Mt 13, 31-32)?

Além disso, não só o Deus Todo-Poderoso não se engana e não engana a ninguém, como não pode ser enganado. Quando alguém escuta a palavra do Evangelho mas prefere modificá-la e adaptá-la aos seus próprios gostos antes de passá-la adiante, não só está enganando as pessoas, como tentando enganar o próprio Deus. E d'Ele – lembra São Paulo – não se zomba: Deus non irridetur (Gl 6, 7). Um dia, todos prestaremos contas a Deus do que fizemos com a mensagem que d'Ele mesmo recebemos.

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Santificado seja o Vosso Nome
Espiritualidade

Santificado seja o Vosso Nome

Santificado seja o Vosso Nome

Pior do que feministas que invadem catedrais são católicos que banalizam o próprio pecado em nome da misericórdia de Deus

Padre Paulo Ricardo27 de Outubro de 2014Tempo de leitura: 4 minutos
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Na oração do Pai-nosso, após manifestar seu afeto filial, Jesus faz um primeiro pedido a Deus-Pai: Santificado seja o vosso nome. Esse pedido remete diretamente para o segundo preceito do Decálogo. Trata-se de honrar a Revelação de Deus ao homem. Ora, informar o nome a alguém significa tornar-se acessível. Antes da Revelação, os pagãos utilizavam-se dos nomes das divindades de forma deliberada. Acreditavam que os deuses estavam submetidos à vontade do homem; eram-lhes subordinados. Por outro lado, Deus, quando se revela, obriga a humanidade a contentar-se com esta afirmação: “Eu sou aquele que sou" (Ex 3, 14). Deus é desde sempre e para a eternidade. Não está submetido à vontade humana.

Na encarnação de Cristo, porém, o nome de Deus é manifestado mais diretamente, de maneira que já é possível instrumentalizá-lO. O nome de Jesus pode ser usado para justificar atrocidades e extorsões. É justamente o que comenta Bento XVI na primeira parte do famoso livro Jesus de Nazaré: “Agora o nome de Deus pode ser abusado e Deus ser desonrado. O nome de Deus pode ser instrumentalizado para nossos objetivos e assim deformada a sua imagem" [1]. Como não pensar no uso indiscriminado do nome de Deus para justificar atos terroristas, contrários à vida e à dignidade da pessoa humana?

A honra ao nome do pai expressa de maneira concreta o amor filial. Nada é mais gratificante a um filho que um elogio a seus pais. A blasfêmia, não obstante, é o típico pecado do Diabo. Basta lembrar que, por serem criaturas puramente espirituais, os anjos não podem fornicar. Por isso, o ataque demoníaco a Deus faz-se pelo orgulho. Dizia Santo Tomás de Aquino: “O orgulho é por natureza o pior de todos os pecados, mais grave que a infidelidade, o desespero, o homicídio, a luxúria etc" [2]. A blasfêmia, por conseguinte, nada mais é do que um meio para Satanás desonrar a essência divina, parodiando-a impunemente, a fim de que o homem tenha de Deus somente uma caricatura. Foi pensando nisso que, certa vez, Santa Teresinha pediu permissão a Jesus para amá-lO no inferno [3]:

[...] Uma tarde não sabendo como dizer a Jesus que o amava e quanto desejava que Ele fosse por toda parte amado e glorificado, eu pensava com dor que Ele nunca poderia receber no inferno um só ato de amor, então disse a Deus que para lhe dar prazer eu consentiria em ver-me aí mergulhada, a fim de que Ele seja amado eternamente nesse lugar de blasfêmia.

A blasfêmia significa um esquecimento da filiação divina e um esquecimento de si mesmo. É um atentado ao próprio homem. Tamanha é a gravidade desse pecado, que o Cura d'Ars perguntava-se espantado: “Não é um milagre extraordinário que a casa onde se acha um blasfemo não seja destruída por um raio ou cumulada com toda sorte de desgraças?" [4]. Em síntese, a agressão ao nome de Deus esconde em seu seio uma revolta contra o plano divino. Desse modo, o pecado contra o segundo mandamento não se traduz somente em ridicularizações hediondas - embora sejam elas as mais comuns, como se costuma apresentar em programas humorísticos, filmes, revistas, etc - às vezes, trata-se de algo muito mais sutil e, por essa razão, muito mais nocivo.

Em nome de um falso conceito de “misericórdia", inúmeras pessoas têm caído na presunção da tibieza, recusando-se a buscar a santidade pessoal. Essa é, sem dúvida, a pior de todas as blasfêmias, pois nessa atitude não só se espezinha o conteúdo das Tábuas da Lei, a pretexto de uma época que segue a regra materialista do laissez faire, laissez passer, le monde va de lui même (deixe fazer, deixe passar, o mundo vai por si mesmo), como também se deturpa a natureza do nome de Deus ao utilizá-lO para justificar posições morais claramente pecaminosas. É como dizer que a crucifixão de Cristo não teve nenhum valor. Não significou a purificação de nossos pecados. Ora, Jesus verteu sangue do alto do madeiro justamente para assumir a nossa culpa. Com efeito, quando a misericórdia é utilizada para a banalização do mal, aí já não há mais misericórdia. Pior do que feministas que invadem catedrais são católicos que banalizam o próprio pecado em nome da misericórdia de Deus.

Sobre essa tendência pouco cristã de se aceitar somente a face misericordiosa de Cristo, criticava o então Cardeal Joseph Ratzinger, na Via-Sacra de 2005 [5]:

Apesar de todas as nossas palavras de horror à vista do mal e dos sofrimentos dos inocentes, não somos nós porventura demasiado inclinados a banalizar o mistério do mal? Da imagem de Deus e de Jesus, no fim de contas, admitimos apenas o aspecto terno e amável, enquanto tranquilamente cancelamos o aspecto do juízo? Como poderia Deus fazer-Se um drama com a nossa fragilidade — pensamos cá conosco —, não passamos de simples homens?! Mas, fixando os sofrimentos do Filho, vemos toda a seriedade do pecado, vemos como tem de ser expiado até ao fim para poder ser superado. Não se pode continuar a banalizar o mal, quando vemos a imagem do Senhor que sofre. Também a nós, diz Ele: Não choreis por Mim, chorai por vós próprios... porque se tratam assim o madeiro verde, que será do madeiro seco?

“Toda a santidade, toda a perfeição de nossa alma consiste em amar a Jesus Cristo nosso Deus, nosso Sumo Bem e Salvador" [6]. Por esta sentença, Santo Afonso de Ligório introduzia seus discípulos à escola de perfeição cristã. Essa perfeição é atingida no louvor ao nome de Nosso Senhor, tornando-O conhecido entre todos os povos e nações. Ainda mais: traduz-se no amor àqueles que são queridos por Deus, a saber, a Virgem Maria e os santos. A forma mais eficaz de santificar o nome de Deus, por conseguinte, é fazendo que cada vez mais pessoas aproximem-se d'Ele com devoção e piedade. Nisto consiste o amor cristão.

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O diálogo pode substituir a missão?
Bento XVI

O diálogo pode substituir a missão?

O diálogo pode substituir a missão?

O diálogo pode substituir a missão? Em discurso a universitários de Roma, o Papa emérito Bento XVI reafirma a importância do anúncio do Evangelho.

Kath.netTradução: Equipe Christo Nihil Praeponere24 de Outubro de 2014Tempo de leitura: 8 minutos
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Em Aula Magna para inaugurar o ano acadêmico da Pontifícia Universidade Urbaniana, de Roma, o Papa Bento XVI enfrentou o espinhoso problema da evangelização. O discurso do Pontífice emérito, lido por seu secretário pessoal, Georg Gänswein, no último dia 21 de outubro, responde se, afinal, “o diálogo pode substituir a missão" e se, ao invés de anunciar a verdade do Evangelho, “não seria mais apropriado encontrar-se no diálogo entre as religiões e servir juntos à causa da paz no mundo". O texto italiano, na íntegra, está no site Kath.net. Segue, abaixo, uma boa tradução da leitura para os católicos de língua portuguesa.

“Católica": esta definição da Igreja, que pertence à profissão de fé desde os tempos mais antigos, carrega consigo alguma coisa de Pentecostes. Recorda-nos que a Igreja de Jesus Cristo nunca visou um só povo ou uma só cultura, mas, desde o início, era destinada à humanidade. As últimas palavras que Jesus disse a seus discípulos foram: “Ide e fazei meus discípulos todos os povos" (Mt 28, 19). E no momento de Pentecostes os Apóstolos falaram em todas as línguas, manifestando, pela força do Espírito Santo, toda a amplitude de sua fé.

Desde então, a Igreja tem crescido realmente em todos os continentes. (...) O profeta Zacarias anunciou um reino messiânico que se estenderiade mar a mar e seria um reino de paz (cf. Zc 9, 9s). Com efeito, onde é celebrada a Eucaristia e os homens, a partir do Senhor, se convertem emum só corpo, faz-se presente algo daquela paz que Jesus Cristo prometeu dar a seus discípulos.

(...)

O Senhor Ressuscitado encarregou os seus Apóstolos e, através deles, os discípulos de todos os tempos, de levarem sua palavra aos confins da terra e de fazer os homens seus discípulos. O Concílio Vaticano II, retomando no decreto Ad Gentes uma tradição constante, trouxe à luz as profundas razões desse encargo missionário e confiou-o com força renovada à Igreja de hoje.

Mas, será que serve? – muitos se perguntam, hoje, dentro e fora da Igreja – A missão ainda é, de fato, algo da atualidade? Não seria mais apropriado encontrar-se no diálogo entre as religiões e servir juntos à causa da paz no mundo? A “contra pergunta" é: o diálogo pode substituir a missão? Com efeito, hoje, muitos são da ideia de que as religiões deveriam respeitar-se e, no diálogo entre elas, fazer um esforço comum pela paz. Nesse modo de pensar, na maioria das vezes se pressupõe que as diversas religiões sejam variações de uma única e mesma realidade; que “religião" seja um gênero comum, que assume formas diferentes segundo as diferentes culturas, mas expressa uma mesma realidade. A questão da verdade, essa que na origem moveu os cristãos mais do que ninguém, vem posta entre parênteses. Pressupõe-se que a autêntica verdade de Deus, em última análise, é inatingível e que, no máximo, se pode tornar presente o que é inefável somente com uma variedade de símbolos. Essa renúncia à verdade parece realista e útil para a paz entre as religiões no mundo.

Todavia, segue sendo letal para a fé. De fato, a fé perde o seu caráter vinculante e a sua seriedade, se tudo se reduz a símbolos no fundo intercambiáveis, capazes de adiar só de longe o inacessível mistério do divino.

(...)

A opinião comum é que as religiões estão, por assim dizer, uma junto à outra, como os continentes e os países no mapa geográfico. Todavia, isso não é exato. As religiões estão em movimento a nível histórico, assim como estão em movimento os povos e as culturas. Existem religiões à espera. As religiões tribais são desse tipo: têm seu momento histórico e, todavia, estão à espera de um encontro maior que as conduza à plenitude.

Nós, como cristãos, estamos convencidos de que, no silêncio, elas esperam o encontro com Jesus Cristo, a luz que vem d'Ele, a única que pode conduzi-las completamente à sua verdade. E Cristo as espera. O encontro com ele não é a irrupção de um estranho que destrói sua própria cultura ou sua própria história. É, ao invés, o ingresso em algo maior, de que eles estão a caminho. Por isso, esse encontro é sempre, ao mesmo tempo, purificação e maturação. Por outro lado, o encontro é sempre recíproco. Cristo espera a sua história, a sua sabedoria, a sua visão das coisas.

Hoje vemos cada vez mais nitidamente outro aspecto: enquanto nos países de sua grande história, o cristianismo se converteu em algo cansado e alguns ramos da grande árvore nascida do grão de mostarda do Evangelho se tornaram secas e caíram na terra, do encontro entre Cristo e as religiões em espera brota nova vida. Onde antes só havia cansaço, manifestam-se e levam alegria as novas dimensões da fé.

As religiões, em si mesmas, não são um fenômeno unitário. Nelas, sempre vão distintas dimensões. De um lado está a grandeza do tender, mais além do mundo, para o Deus eterno. Mas, de outro, encontram-se nela elementos surgidos da história dos homens e da prática das religiões, de onde podem vir, sem dúvida, coisas belas e nobres, mas também coisas baixas e destrutivas, aí onde o egoísmo do homem se apoderou da religião e, em vez de uma abertura, ela se transformou em um fechamento no próprio espaço.

Por isso, a religião nunca é simplesmente um fenômeno só positivo ou só negativo: nela um e outro aspecto se mesclam. Em seus inícios, a missão cristã percebeu de modo muito forte sobretudo os elementos negativos das religiões pagãs que encontrou. Por essa razão, o anúncio cristão foi em um primeiro momento extremamente crítico das religiões. Apenas superando suas tradições que em parte considerava também demoníacas, a fé pôde desenvolver sua força renovadora. Com base em elementos desse tipo, o teólogo evangélico Karl Barth colocou em contraposição religião e fé, julgando a primeira de modo absolutamente negativo, como comportamento arbitrário do homem que tenta, a partir de si mesmo, apoderar-se de Deus. Dietrich Bonhoeffer retomou essa definição pronunciando-se a favor de um cristianismo “sem religião". Trata-se, sem dúvida, de uma visão unilateral que não se pode aceitar. E todavia é correto afirmar que cada religião, para permanecer em seu devido lugar, ao mesmo tempo deve ser sempre crítica da religião. Isso vale, claramente, desde suas origens e com base em sua natureza, para a fé cristã, que, por um lado, olha com profundo respeito para a profunda espera e a profunda riqueza das religiões, mas, por outro, vê de modo crítico também o que é negativo. Sem dizer que a fé cristã deve sempre desenvolver de novo essa força crítica com relação à sua própria história religiosa.

Para nós, cristãos, Jesus Cristo é o Logos de Deus, a luz que nos ajuda a distinguir entre a natureza das religiões e a sua distorção.
Em nosso tempo se faz cada vez mais forte a voz dos que querem convencer-nos de que a religião como tal está superada. Só a razão crítica deveria orientar o agir do homem. Por trás de semelhantes concepções, está a convicção de que, com o pensamento positivista, a razão em toda a sua pureza adquiriu definitivamente o domínio. Na realidade, também esse modo de pensar e de viver está historicamente condicionado e ligado a determinadas culturas históricas. Considerá-lo como o único válido diminuiria o homem, subtraindo dele dimensões essenciais de sua existência. O homem se torna menor, não maior, quando não há espaço para um ethos que, com base em sua autêntica natureza, vá para além do pragmatismo, quando não há espaço para o olhar dirigido a Deus. O lugar próprio da razão positivista está nos grandes campos da ação da técnica e da economia, e todavia esta não encerra toda a humanidade. Assim, cabe a nós abrir de novo as portas que, além da mera técnica e do puro pragmatismo, conduzem a toda a grandeza de nossa existência, ao encontro com o Deus vivo.

Essas reflexões, ainda que um pouco difíceis, deveriam mostrar que hoje, em um mundo profundamente mudado, continua sendo razoável o encargo de comunicar aos outros o Evangelho de Jesus Cristo.
Há, todavia, um segundo modo, mais simples, para justificar hoje essa tarefa. A alegria exige ser comunicada. O amor exige ser comunicado. A verdade exige ser comunicada. Quem recebeu uma grande alegria, não pode guardá-la apenas para si mesmo, deve transmiti-la. O mesmo vale para o dom do amor, para o dom do reconhecimento da verdade que se manifesta.

Quando André encontrou Cristo, não pôde senão dizer a seu irmão: “Encontramos o Messias" (Jo 1, 41). E Felipe, ao qual foi dado o dom do mesmo encontro, não pôde senão dizer a Natanael que havia encontrado aquele sobre o qual tinham escrito Moisés e os profetas (cf. Jo 1, 45). Anunciamos Jesus Cristo não para procurar para a nossa comunidade o maior número de membros possíveis; e tanto menos pelo poder. Falamos d'Ele porque sentimos o dever de transmitir a alegria que nos foi doada.

Seremos anunciadores credíveis de Jesus Cristo quando o tivermos encontrado realmente no profundo da nossa existência, quando, através do encontro com Ele, nos for doada a grande experiência da verdade, do amor e da alegria.
Faz parte da natureza da religião a profunda tensão entre a oferta mística a Deus, na qual nos entregamos totalmente a Ele, e a responsabilidade pelo próximo e pelo mundo por Ele criado. Marta e Maria são sempre inseparáveis, ainda que, de vez em quando, a ênfase possa recair sobre uma ou sobre a outra. O ponto de encontro entre os dois polos é o amor no qual tocamos ao mesmo tempo Deus e as suas criaturas. “Conhecemos e cremos no amor" (1 Jo 4, 16): essa frase exprime a autêntica natureza do cristianismo. O amor, que se realiza e se reflete de modo multiforme nos santos de todos os tempos, é a autêntica prova da verdade do cristianismo.

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São Jerônimo e a coroa triunfal da castidade
Espiritualidade

São Jerônimo e a coroa
triunfal da castidade

São Jerônimo e a coroa triunfal da castidade

O testemunho de São Jerônimo é a prova de que, com a graça divina e as mortificações, todos podem viver a virtude da pureza.

Padre Paulo Ricardo21 de Outubro de 2014Tempo de leitura: 5 minutos
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O historiador Daniel-Rops conta que, antes de sua conversão definitiva, Jerônimo, “nascido de pais cristãos", “começou a sua vida como um rapaz curioso de tudo, ávido de conhecimento, cujo temperamento oscilava entre um desejo sincero de piedade, e até de ascese, e certas liberdades menos morais" [1]. Tendo recebido a fé cristã desde cedo, Jerônimo ainda não se tinha decidido totalmente por Cristo, sua carne ainda opunha resistência moral à fé que desde a infância o fascinava.

Sua juventude, que culmina com uma fuga decisiva para o deserto, ilustra muito bem o itinerário por que passam muitos cristãos, antes de se converterem. “Sou aquele filho pródigo que malbaratou a sua parte da herança paterna (...) e que ainda não soube menosprezar os afagos de minhas passadas luxúrias e, agora que me empenho em querer superar os meus vícios, ocorre que o diabo procura aprisionar-me em novas redes" [2], confessava o santo, em carta endereçada a Teodósio e outros monges anacoretas. Anos mais tarde, o santo não temeria admitir que fora várias vezes vencido pelo mal: “Se elevo a virgindade até os céus, não o faço por possuí-la, mas por admirar o que não tenho" [3].

Essas palavras, certamente difíceis de escrever, revelam como, em qualquer época, onde abundou o pecado sempre é possível que superabunde a graça (cf. Rm 5, 20). O testemunho da reviravolta de Jerônimo – unido, por exemplo, às “Confissões" de um Santo Agostinho – é razão de esperança para aqueles que, tendo passado pelo vale da sombra da morte (cf. Sl 23, 4), querem agora conformar-se a uma vida iluminada pelo Verbo de Deus (cf. Sl 119, 105).

Entretanto, São Jerônimo não pretende iludir ninguém com as facilidades de uma vida mansa. Definitivamente, esse não é o caminho para quem quer possuir a virtude da pureza. A esse propósito, ele faz questão de alertar que são justamente os que lutam os principais alvos do demônio. “O diabo não procura os homens infiéis, que estão fora, cuja carne o rei assírio já queimou na fornalha. É a Igreja de Cristo que ele se apressa em arruinar" [4]. “Cuidado se você não sofre tentações!", alertava o Santo Cura de Ars. E explicava:

“A quem o demônio mais persegue? Talvez você ache que as pessoas que são mais tentadas, são indubitavelmente, os beberrões, os provocadores de escândalos, as pessoas imodestas e sem vergonha que deitam e rolam na sujeira e na miséria do pecado mortal, que se enveredam por toda espécie de maus caminhos. Não, meu caro irmão! Não são essas pessoas! (...) As pessoas mais tentadas são aquelas que estão prontas, com a graça de Deus, a sacrificar tudo pela salvação de suas pobres almas, que renunciam a todas as coisas que a maioria das pessoas buscam ansiosamente. E não é um demônio só que as tenta, mas milhões de demônios procuram armar-lhes ciladas." [5]

“As pessoas mais tentadas são aquelas que estão prontas (...) a sacrificar tudo pela salvação de suas pobres almas". Esta verdade, que São João Maria Vianney pregaria na França no século XVIII, foi confirmada com força por São Jerônimo quando ele, ainda jovem, decidiu se refugiar no deserto e dizer “não" à sua velha vida de prazeres. O seu relato é impressionante, a ponto de o Cura de Ars comentar: “Eu não acredito que exista um santo que tenha sido mais tentado do que ele" [6]. Eis o que Jerônimo escreve:

“Quando eu vivia no deserto, exausto pelo calor do sol, na vasta solidão que dá aos eremitas uma solitária morada, quantas vezes os prazeres de Roma pareciam me assaltar! Permanecia sozinho, porque estava repleto de amargura. As vestes de saco desfiguraram meus membros e minha pele magra se tornara negra como a de um etíope. Chorava e gemia todos os dias, e quando o sono ameaçava superar minhas lutas, os meus ossos nus colidiam com dificuldades contra o chão. De minha comida e bebida eu nada falo, pois, ainda que esgotados, para os eremitas, beber água fria e aceitar alguma comida cozida já é visto como extravagância. Embora em meu medo do inferno eu me encerrasse nessa prisão, onde não tinha outra companhia a não ser a dos escorpiões e das feras selvagens, frequentemente me via rodeado por um bando de garotas. Ainda que minha carne estivesse como que morta, com meu rosto pálido e meu corpo macerado pelos jejuns, minha mente queimava de desejo, e as chamas da luxúria ainda fervilhavam em mim. Desamparado, eu me jogava aos pés de Jesus, derramava sobre eles as minhas lágrimas e as enxugava com meu cabelo: e então submetia meu corpo rebelde a semanas de abstinência. (...) Lembro-me o quanto clamava em alta voz toda a noite até o romper do dia, sem parar de bater em meu peito até que, à repreensão do Senhor, voltasse a ficar tranquilo. Eu chegava a temer minha própria cela, como se ela soubesse os meus pensamentos, e, então, irritado comigo mesmo, saía sozinho pelo deserto. Onde eu encontrasse vales cavernosos, montanhas rochosas ou despenhadeiros, ali eu fazia meu oratório, a fim de corrigir a minha carne infeliz. Aí – e disso o próprio Senhor é minha testemunha –, depois de ter derramado copiosas lágrimas e esticar os meus olhos aos céus, eu às vezes me sentia entre os coros angélicos, que com gozo e alegria cantavam: 'Como perfume derramado é o teu nome, por isso as jovens enamoram-se de Ti' (Ct 1, 3)." [7]

Na luta para vencer as tentações da impureza, o homem é obrigado a tomar uma decisão. Ou ele cede à impureza e, pouco a pouco, perde a fé – afinal, como ensina o bem-aventurado Fulton Sheen, “quem não vive de acordo com aquilo em que acredita termina acreditando naquilo que vive" -, ou combate o bom combate (cf. 2 Tm 4, 7) e, então, ganha a coroa da pureza, como aconteceu com São Jerônimo.

Que alegria não deve ter sido para o santo ver-se rodeado pelas hostes angélicas, após tantos embates e penitências! E que alegria não será também para nós contemplarmos a face de Deus, após as penúrias deste vale de lágrimas! Confiemo-nos à intercessão de São Jerônimo, e não desanimemos diante das tentações, mas creiamos: “Quando te decidires com firmeza a ter vida limpa, a castidade não será para ti um fardo; será coroa triunfal" [8].

Referências

  1. DANIEL-ROPS, Henri. A Igreja dos Apóstolos e dos Mártires. São Paulo: Quadrante, 2014. p. 527.
  2. São Jerônimo, Epistola II (PL 22, 331-332).
  3. São Jerônimo, Epistola XLVIII, 20 (PL 22, 509).
  4. São Jerônimo, Epistola XXII, 4 (PL 22, 396).
  5. Santo Cura de Ars, Sermão sobre as tentações, p. 9-10.
  6. Ibidem, p. 11.
  7. São Jerônimo, Epistola XXII, 7 (PL 22, 398-399).
  8. São Josemaría Escrivá, Caminho, 123.

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