CNP
Christo Nihil Præponere"A nada dar mais valor do que a Cristo"
Evangelize compartilhando!
Todos os direitos reservados a padrepauloricardo.org®
Como cordeiro levado ao matadouro
Espiritualidade

Como cordeiro levado ao matadouro

Como cordeiro levado ao matadouro

Mesmo carregando o pesado fardo do pecado e sofrendo as mais terríveis dores até a própria morte, Cristo “ficou calado, sem abrir a boca”.

Equipe Christo Nihil Praeponere12 de Maio de 2015Tempo de leitura: 4 minutos
imprimir

São João Batista não foi o único a comparar Nosso Senhor a um cordeiro, quando disse a famosa frase: "Eis o Cordeiro de Deus, aquele que tira o pecado do mundo" (Jo 1, 29). No Antigo Testamento, ao profetizar sobre o servo sofredor, Isaías recorre à mesma analogia, porém, sob outro aspecto: "Oprimido, ele se rebaixou, nem abriu a boca! Como cordeiro levado ao matadouro ou ovelha diante do tosquiador, ele ficou calado, sem abrir a boca" (Is 53, 7).

O grande orador francês Jacques Bossuet, comentando esse exato trecho das Escrituras, tece as seguintes e belas considerações:

"Se um homem se vê incapaz de resistir à violência, ele pode às vezes salvar a si mesmo fugindo; se não pode evitar ser levado como prisioneiro, pode ao menos se defender quando é acusado; ou, se é privado dessa liberdade, pode sempre achar algum alívio na sua angústia, seja reclamando veementemente da injustiça com a qual está sendo tratado, seja gemendo e lamentando por causa de seus sofrimentos. Não no caso de nosso Divino Senhor. Por Sua própria vontade, Ele deixa de lado todos esses poderes; no Filho de Deus, eles foram todos agrilhoados, até mesmo a Sua língua foi amarrada. Quando O acusam, Ele não responde; quando O batem, Ele não murmura, nem mesmo um mínimo gemido ou suspiro, como os fracos e oprimidos proferem, na esperança de revirar alguma piedade nos corações de seus algozes. Ele não abre a boca (Is 53, 7). Mais do que isso, Ele nem mesmo desvia a Sua cabeça dos golpes cruéis que chovem sobre ela; Ele permanece imóvel, não fazendo esforço para fugir de nem uma única pancada." [1]

A imagem passada pelo panegirista é exata: ele não quis dar muita atenção ao fato de que Cristo, sendo Deus, podia fazer cessar todo aquele crime com um simples ato de vontade divina. Também enquanto homem, a Sua humilhação foi perfeita. Tão perfeita, que o profeta, ao falar de Seu silêncio, prefere compará-Lo a um cordeiro mudo que a um ser humano. Qualquer homem – discorre bem Bossuet – procuraria fugir, defender-se ou mesmo gritar contra aqueles que o prendiam. Cristo, não. Ele quis elevar ao extremo a imagem do cordeiro: tirou os pecados do mundo, mas sem gritar nem levantar a voz (cf. Is 42, 2); foi imolado verdadeiramente, mas em silêncio.

O Seu silêncio e paciência são ainda mais admiráveis se se leva em conta, como diz Santo Tomás de Aquino, que as dores que Ele sofreu são as maiores pelas quais um homem poderia passar [2]. Não apenas pelo gênero dolorosíssimo de sua morte, que foi a crucifixão. Os estudiosos modernos têm feito os seus cálculos e não hesitam em concluir que existem métodos de execução mais cruéis do que a morte na cruz. Sem entrar no mérito da questão, porém, não é apenas isso o que faz a paixão de Cristo ser o pior de todos os sofrimentos. É o fato de ser a Sua humanidade perfeitíssima o que tornam soberanamente piores os seus suplícios. Senão, vejamos.

Santo Tomás considera, entre as causas da dor interna do Redentor: " em primeiro lugar, todos os pecados do gênero humano". Essa dor nele "excedeu todas as dores de qualquer pessoa contrita, seja porque proveniente de uma sabedoria e caridade maiores, que fazem aumentar a dor da contrição, seja também porque foi uma dor por todos os pecados ao mesmo tempo" [3]. Em segundo lugar, o Aquinate põe a causa da "perda da vida corporal, que por natureza é horrível à condição humana". Noutro lugar, porém, além de ressaltar a repugnância natural de qualquer homem à morte, ele lembra que "Cristo foi virtuosíssimo. Logo, amou a sua vida de modo superlativo. Por isso, a dor pela perda de sua vida foi máxima" [4].

Como remate, o Doutor Angélico trata de ressaltar "a extensão do sofrimento pela sensibilidade do paciente":

"Porque Cristo tinha uma ótima compleição física, já que seu corpo fora formado milagrosamente por obra do Espírito Santo, (...) nele era agutíssimo nele o sentido do tato, com o qual se percebe a dor. Igualmente a alma, com suas forças interiores, captava de modo intenso todas as causas de tristeza."

Eis, pois, a grandeza da entrega de Cristo. Mesmo carregando o pesado fardo de todos os pecados; mesmo experimentando com agudez singular cada pancada, cada chicote, cada espinho, cada prego; mesmo tendo diante de Si a própria morte, Ele "ficou calado, sem abrir a boca".

Olhemos para o silêncio paciente do Cordeiro de Deus. Consideremos a insignificância dos sofrimentos por que passamos e, ao mesmo tempo, a impaciência com que enfrentamos todos eles; o pequeno ruído que fazem as dores que padecemos e, em contraste, os grandes murmúrios que soltamos diante delas; as cruzes serenas que nos visitam e, por outro lado, as palavras amargas com que as recebemos de Deus.

Por amor, entreguemos também nós a nossa vida, "como cordeiro levado ao matadouro", como "ovelha diante do tosquiador". Sem gritarias. Sem espalhafatos. Porque foi assim que morreu Nosso Senhor. E é também assim que queremos morrer, dia após dia, até o final das nossas vidas (cf. Lc 9, 23).

Referências

  1. BOSSUET, Jacques. The Passion of Jesus Christ. In: Great French Sermons. London: Sands and Co., 1917. p. 80 (tradução nossa).
  2. Suma Teológica, III, q. 46, a. 6.
  3. Comentários às Sentenças de Pedro Lombardo, III, 15, q. 2, a. 3.
  4. Suma Teológica, III, q. 46, a. 6, ad 4.

Comentários

Os comentários são de responsabilidade exclusiva de seus autores e não representam a opinião deste site. Se achar algo que viole os termos de uso, denuncie. Leia as perguntas mais frequentes para saber o que é impróprio ou ilegal.

Entre a propaganda e a verdade: a história secreta da Ideologia de Gênero
Sociedade

Entre a propaganda e a verdade: a história secreta da Ideologia de Gênero

Entre a propaganda e a verdade: a história secreta da Ideologia de Gênero

Uma propaganda é capaz de fazer o certo parecer errado e o errado parecer certo. O caso da Ideologia de Gênero não foge à regra.

Equipe Christo Nihil Praeponere11 de Maio de 2015Tempo de leitura: 5 minutos
imprimir

Uma peça publicitária só pode ser bem-sucedida se souber cativar o público com as palavras e as imagens certas. A linguagem simbólica exerce enorme influência sobre o homem. Todas as grandes empresas, partidos políticos e meios de comunicação têm, por de trás de sua figura pública, um afiado esquema de marketing. "Um bom governo sem propaganda dificilmente se sai melhor do que uma boa propaganda sem um bom governo", dizia o ministro da comunicação nazista Goebbels. É fato. E a experiência do último século é a prova cabal de como ideologias malignas podem conquistar o apoio das massas, apelando a jargões risíveis porém populares.

A Ideologia de Gênero é uma grande peça publicitária. Apoiada pelo discurso dos "direitos sexuais", da "tolerância" e da "misericórdia", palavrinhas politicamente corretas e além de qualquer suspeita, muitos são levados a considerá-la algo inofensivo ou mesmo um grande progresso para a civilização. Aquele que a ela se opõe, por outro lado, é visto como pessoa antiquada, de visão obtusa e reacionária, ainda que salte "aos olhos a profunda falsidade dessa teoria". Foi também assim que rotularam a imprensa judia quando esta denunciou as obscenidades do nacional-socialismo, logo que Hitler subiu ao poder. Ora, quem, em sã consciência, se posicionaria contra um projeto político que apenas visava a "reconstrução" da Alemanha? De maneira análoga, como é possível se opôr à felicidade daqueles que desejam a mudança de sexo?

Uma boa propaganda não somente convence, como também modifica a história. O passado secreto da Ideologia de Gênero está longe de ser misericordioso, tolerante e feliz. Tudo começou na década de 1950, nas clínicas universitárias. Neste período, inúmeras cirurgias de mudança de sexo (precisamente de homem para mulher) foram realizadas de forma experimental. Na década de 1970, quando vieram os resultados científicos de todas aquelas experiências, não havia qualquer índice de que o procedimento fosse seguro. Pior. As evidências de que se tratasse de algo nocivo eram gritantes. As clínicas decidiram não mais realizar aquele tipo de operação. But where there's a will there's a way.

Três pesquisadores decidiram levar adiante o projeto: Dr. Alfred Kinsey, Dr. Harry Benjamin e o psicólogo John Money. O currículo destes três paladinos da Ideologia de Gênero não é nada honroso.

Dr. Alfred Kinsey, um biólogo e sexólogo cujo legado dura ainda hoje, acreditava que todos os atos sexuais eram legítimos — incluindo pedofilia, bestialidades, sadomasoquismo, incesto, adultério, prostituição e orgias. A fim de obter dados para suas pesquisas, Kinsey autorizou experimentos horríveis em bebês e crianças pequenas. Seu intuito principal era justificar a opinião de que crianças de qualquer idade teriam prazer com o sexo — ele chegou a advogar a normalização da pedofilia. O transexualismo entrou em sua agenda quando foi apresentado ao caso de um homossexual que queria tornar-se uma garota. Kinsey consultou um conhecido seu, um endocrinologista chamado Harry Benjamin. Benjamin conhecia bem os travestis (homens que se vestem de mulher). Assim, ambos viram uma oportunidade para mudar aquele rapaz fisicamente, para além da roupa e da maquiagem. Os dois tornaram-se colaboradores profissionais no primeiro caso do que Benjamin mais tarde chamaria "transsexualismo".

Benjamin pediu a vários psiquiatras que avaliassem o rapaz quanto à possibilidade de uma cirurgia para feminilizar sua aparência. Os médicos não chegaram a um consenso. Mas isso não pôde pará-lo. Por sua própria conta, Benjamin começou a dar hormônios femininos ao garoto. Levaram-no para a Alemanha e lá o operaram parcialmente. Benjamin, por sua vez, perdeu todo contato com seu paciente, tornando qualquer acompanhamento a longo prazo impossível.

O terceiro co-fundador do hoje movimento transgênero foi o psicólogo Dr. John Money, um dedicado discípulo de Kinsey e membro do grupo de pesquisas transexuais, chefiado por Benjamin.

O primeiro caso transgênero de Money veio em 1967, quando foi consultado por um casal canadense, os Reimers, para que reparasse uma circuncisão mal-feita no filho deles de dois anos, David. Sem qualquer razão médica, Money lançou-se em um experimento para fazer fama por conta própria e avançar suas teorias sobre gênero, não importando as consequências para a criança. Disse aos perturbados pais que o melhor caminho para assegurar a felicidade de David era mudar cirurgicamente sua genitália de masculino para feminino e educá-lo como uma garota. Como muitos pais fazem, os Reimers seguiram a orientação do doutor, e David foi rebatizado de Brenda. Money assegurou aos pais que Brenda se adaptaria a ser uma menina e que ela nunca saberia a diferença. Ademais, pediu ao casal que mantivesse aquilo em segredo. E assim se fez — pelo menos por um tempo.

Médicos ativistas iguais ao Dr. Money sempre buscam a fama primeiro, especialmente se controlam a informação que a mídia divulga. Money jogou um jogo de "prenda-me se for capaz", divulgando o sucesso da mudança de gênero do garoto para comunidades médicas e científicas e construindo sua reputação como um dos principais especialistas no emergente campo da mudança de gênero. Levou décadas até que a verdade fosse revelada. Na verdade, a adaptação de David Reimer para ser uma garota foi completamente diferente dos relatórios brilhantes inventados por Money para os artigos dos jornais. Aos 12 anos, David estava severamente depressivo e recusava-se a voltar a ver Money. No desespero, seus pais quebraram o segredo e lhe contaram a verdade sobre a "mudança de gênero". Aos 14 anos, David decidiu submeter-se a uma nova cirurgia para viver como garoto.

Em 2000, aos 35 anos, David e seu irmão gêmeo finalmente expuseram os abusos sexuais aos quais o Dr. Money os havia imposto na privacidade de seu escritório. Os rapazes contaram como Dr. Money tirava foto deles nus quando tinham apenas sete anos de idade. Mas fotos não eram o suficiente para Money. O pedófilo doutor também os forçou a terem relações sexuais incestuosas um com o outro.

As consequências dos abusos de Money foram trágicas para os dois garotos. Em 2003, apenas três anos após seu passado de tortura ter se tornado público, o irmão gêmeo de David, Brian, morreu de overdose. Pouco tempo depois, David também cometeu suicídio. Money, por sua vez, foi finalmente exposto como um farsante. Mas isso não ajudou a amenizar o luto da família, cujos gêmeos agora estavam mortos.

Certamente, nenhum jornal secular ou programa de TV, quando estiver em pauta a chamada Teoria de Gênero, revelará esses episódios expostos acima ao público. De fato, reina aquilo que Pio XI denominou, certa vez, de conspiração do silêncio, pois "não se explica facilmente como é que uma imprensa, tão ávida de esquadrinhar e publicar até os mínimos incidentes da vida cotidiana", pode calar-se tão vergonhosamente sobre tais coisas. Vários estudos feitos por ex-discípulos de Kinsey e Money comprovam a perniciosidade da Ideologia de Gênero, principalmente das cirurgias de mudança de sexo. Charles Ihlenfeld, um endocrinologista que trabalhou por seis anos com o Dr. Benjamin, chegou a declarar publicamente: "Há muita insatisfação entre as pessoas que fizeram a cirurgia... Muitas terminam em suicídio" — como no caso dos gêmeos Reimers.

Não se iludam com propaganda, não se iludam com promessas, não se iludam com mentiras. A Ideologia de Gênero é uma farsa. E das mais grosseiras.

Comentários

Os comentários são de responsabilidade exclusiva de seus autores e não representam a opinião deste site. Se achar algo que viole os termos de uso, denuncie. Leia as perguntas mais frequentes para saber o que é impróprio ou ilegal.

Ativistas exploram abuso de menor para legalizar aborto no Paraguai
Pró-VidaNotícias

Ativistas exploram abuso de menor para legalizar aborto no Paraguai

Ativistas exploram abuso de menor para legalizar aborto no Paraguai

Menina de 10 anos grávida por estupro é o novo “cavalo de batalha” da Anistia Internacional para legalizar o aborto na América Latina.

Andrea RadilTradução: Equipe Christo Nihil Praeponere8 de Maio de 2015Tempo de leitura: 7 minutos
imprimir

"Menina de 10 anos grávida por estupro no Paraguai": uma manchete assim, sem dúvidas, é de chocar e paralisar qualquer um. Como mãe de uma menina de 12 anos que vive no Paraguai, não posso sequer começar a imaginar o que sentiria em meu coração se algo desse tipo acontecesse a minha filha.

Há alguns dias atrás, a mídia no Paraguai reportou justamente essa manchete. Uma garota de 10 anos foi levada à unidade de emergência de um hospital em Assunção, reclamando de dores abdominais e de um inexplicável crescimento no tamanho de sua barriga. Depois de vários testes, os médicos chegaram a uma conclusão: a menina estava grávida.

Em 2014, a mãe da garota havia denunciado o homem com quem vivia para a polícia, acusando-o de molestar a sua filha, que, então, tinha nove anos de idade. A polícia começou a investigar o caso, mas a mãe logo retirou a acusação, assegurando à polícia que tudo não passava de um mal-entendido. A mãe continuou a viver com o homem, e agora, um ano depois, sua filha pequena está grávida de 23 semanas. Acredita-se que a menina era sujeita a abusos constantes e que sua mãe sabia, ou pelo menos suspeitava o que estava acontecendo.

Neste caso terrível, há duas vítimas e vários culpados. Obviamente, as vítimas são a jovem garota e o seu bebê. Tenho sentimentos divididos em relação à mãe da garota pequena. Como mulher, não colocaria toda a culpa sobre a mãe da menina, pois estou convencida de que a violência experimentada pela garota provavelmente também foi sofrida e temida por sua mãe. Contudo, como mãe que sou, também sei que lutaria com unhas e dentes contra qualquer um que tentasse ferir algum dos meus filhos. Daria alegremente a minha vida para defendê-los.

Não se pode desculpar as ações ou, neste caso, a omissão de uma mãe que fracassou em proteger a sua filha – e a mãe agora se encontra presa por sua cumplicidade no abuso. A polícia afirmou que por mais de um ano a mãe da garota sabia que sua filha era abusada por seu parceiro, mas deixou que isso continuasse.

Neste ínterim, o principal criminoso, o homem que estuprou e engravidou a menina de 10 anos, está foragido, tendo se escondido desde o momento em que o caso se tornou público.

Diante de tragédias desse gênero, no entanto, nossa sociedade é obrigada a lidar com uma situação mais comum do que se pode imaginar. De acordo com o Ministro da Saúde do Paraguai, em 2014, houve 684 casos de gravidez em garotas entre 10 e 14 anos. Essa estatística deixa entrever a magnitude do problema.

Agora, o que deve ser feito com a jovem menina grávida?

A Anistia Internacional está usando este caso para pedir a legalização do aborto. A organização montou um lobby intenso para pressionar o governo paraguaio a abortar a criança com 27 semanas de vida. Estão apelando para a chamada "interrupção legal da gravidez", com vistas a proteger a saúde da jovem menina.

Os advogados dessa campanha repetem o mantra de que o Estado deve agir "o mais rápido possível para proteger todos os direitos humanos das mulheres, começando com o direito à vida, à saúde e à integridade física e psicológica, a curto, médio e longo prazo". Eles dizem defender o "direito à escolha".

Eu me pergunto se os ativistas da Anistia Internacional estão realmente preocupados com a jovem garota. Porque, aparentemente, o que eles estão realmente fazendo é usar a menina, usar a sua trágica circunstância, para fazer avançar a sua própria agenda.

Será que eles não percebem que o que estão propondo como solução é simplesmente cometer uma outra injustiça? Que dois erros não fazem um acerto? Que aquela que estão punindo com a morte é a mais indefesa e inocente das partes envolvidas?

O art. 4º da Constituição da República do Paraguai é claro em afirmar que o Estado deve proteger a vida desde o momento da concepção ("El derecho a la vida es inherente a la persona humana. Se garantiza su protección, en general, desde la concepción."). Neste caso, seja a garota de 10 anos que foi abusada, seja o bebê que ela carrega em seu ventre, ambas têm o direito de demandar que o Estado aja para proteger as suas vidas. Ambas devem ter acesso a todos os esforços médicos necessários para atendê-las; ambas são vítimas e merecem todo o suporte da sociedade e do Estado.

O valor de uma vida não é definido pela sua idade, por seu estágio de desenvolvimento ou pelas circunstâncias sob as quais foi concebida. Toda vida é valiosa em si mesma. As autoridades têm a obrigação moral e o dever constitucional de proteger ambas as crianças e dar a elas o cuidado necessário para salvar as suas vidas.

Ainda que a Anistia Internacional afirme que o aborto seja necessário para salvar a vida e a saúde da jovem criança, no momento, felizmente, a sua vida não se encontra em risco. A médica que a está acompanhando, Dolores Castellanos, confirmou que a gravidez está se desenvolvendo sem afetar a saúde do bebê ou da pequena garota. No entanto, a propaganda midiática em torno do caso insiste que a jovem irá morrer se chegar ao final da gestação.

Para o seu maior crédito, o governo tem sido cauteloso e equilibrado. O Ministro da Saúde, Antonio Barrios, não sucumbiu à pressão do lobby internacional pró-aborto. Ele afirmou que o governo tomou medidas estritas para proteger a criança e o bebê.

Além disso, várias organizações sem fins lucrativos e outras instituições do Paraguai se apressaram em oferecer ajuda com assistência integral, como aconselhamento, suporte material e financeiro a curto e longo prazo, e apoio contínuo, levando em consideração – o que é o mais importante – a vida de ambas as crianças, a jovem mãe e o seu bebê. Já outros, como a Anistia Internacional, não oferecem assistência às vítimas, mas, ao contrário, apenas tiram proveito da situação, tentando estabelecer um precedente para a legalização do aborto, a fim de criar leis que violem o direito à vida.

Se, por um lado, é louvável o cuidado integral e generoso pela jovem garota e sua filha, por outro, trata-se apenas de apagar um fogo que infelizmente se acenderá de novo no futuro. Mais deve ser feito para atingir as raízes da tragédia com que essa garota e outras tantas crianças têm que lidar.

Ao invés do aborto, é hora do governo sancionar soluções efetivas para o abuso infantil. Que ele legisle para promover campanhas de combate a esse problema, em primeiro lugar, e que promova uma cultura de apreço e cuidado pelas crianças – ao invés de criar uma sociedade ainda mais insensível e que tolere o assassinato de crianças como solução. Há que se proteger todas as crianças, nascidas e não nascidas, porque são o rosto futuro da sociedade.

Mas, acima de tudo, urge compreender que a melhor resposta para o abuso infantil sempre esteve bem à frente dos nossos olhos. É uma solução tão óbvia que chega a ser inacreditável que tantos "especialistas" não a tenham enxergado: é preciso fortalecer a família encabeçada por um pai e uma mãe. A família é a mais básica organização sem fins lucrativos, e aquela que mais visa o bem comum. É focada na saúde do indivíduo e é a única verdadeira fundação da sociedade.

A pequena garota hoje grávida vem de uma família que é o retrato da disfunção familiar. A mãe, que tinha um emprego de baixa renda, tinha três filhos de três diferentes pais: um de 13 anos, a pequena menina de 10 que está grávida, e um menino de 8 anos. Importa, pois, atacar as raízes profundas do problema.

Não há melhor investimento para o governo do que fortalecer, proteger e promover o casamento e a família como coluna social insubstituível, especialmente quando há jovens crianças envolvidas nisso. A sociedade como um todo deve abraçar uma cultura que reconheça e valorize a família e todos os seus membros como um tesouro a ser cuidado e preservado.

Isso por que essa pequena garota e outras como ela passaram é algo impossível de apagar. Foi roubada delas a inocência da infância. O abuso ao qual ela foi sujeita deixará uma marca permanente em sua memória e em sua alma. Isso requer o nosso suporte e a nossa ajuda. Mas pensar que matar o bebê em seu ventre vai ajudá-la de alguma forma é um erro grave. Isso não vai amenizar, ao contrário, só vai aumentar o estrago causado por essa experiência. Violência não pode ser apagada com mais violência.

Como minha avó me dizia: "Não importa o quanto me enfureça um prato quebrado, nunca acharei que a solução seja destruir o resto da porcelana."

Comentários

Os comentários são de responsabilidade exclusiva de seus autores e não representam a opinião deste site. Se achar algo que viole os termos de uso, denuncie. Leia as perguntas mais frequentes para saber o que é impróprio ou ilegal.

Eis o Cordeiro de Deus
Doutrina

Eis o Cordeiro de Deus

Eis o Cordeiro de Deus

Pelo sangue dos cordeiros, os israelitas foram preservados da praga exterminadora. Pelo sangue do Cordeiro, a humanidade foi livre da morte.

Equipe Christo Nihil Praeponere7 de Maio de 2015Tempo de leitura: 4 minutos
imprimir

Das famosas dez pragas do Egito, a mais importante de todas foi, sem dúvida, a última, não só porque representou o maior de todos os castigos infligidos aos egípcios (cf. Ex 11, 6), mas também porque foi o estopim para a libertação definitiva de todo o povo de Israel. Depois de rãs, mosquitos, tumores e gafanhotos, um anjo exterminador foi enviado às terras do Faraó para matar os primogênitos de todos os egípcios e de todos os seus animais.

Tudo isso foi realizado para que o povo de Deus, liderado por Moisés, fosse retirado da escravidão. De fato, o coração duro do Faraó só permitiu que os israelitas partissem do Egito depois que o seu próprio filho, o herdeiro de seu trono, teve a vida ceifada pelo anjo da morte. Naquele dia, instituiu-se a festa da páscoa: à "passagem" de Deus, o Egito ficou banhado de sangue, enquanto os judeus foram preservados do extermínio.

Na ocasião, o que salvou o povo hebreu? Ficou determinado que todas as famílias de Israel deviam, no décimo quarto dia daquele mês, imolar um cordeiro "sem defeito", tomar o seu sangue e untar os umbrais de suas portas. À vista disso, o anjo da morte não entraria em suas casas. "Quando o Senhor passar pelo Egito para castigá-lo, e reparar o sangue sobre a moldura das portas, passará por vossas portas e não permitirá que o Exterminador entre em vossas casas para causar dano" (Ex 12, 23). De fato, pelo sangue dos cordeiros, os israelitas foram preservados da morte.

Para entender plenamente essa história, é preciso recorrer ao juízo da Igreja, a quem Cristo deu o poder das chaves (cf. Mt 18, 18; Lc 10, 16) e o encargo de interpretar corretamente as Escrituras. Certos trechos da Bíblia, de fato – e a história contada acima é um exemplo –, aparentam não ter nada a ver com o que vivem os homens de hoje e parecem não ter nenhum ensinamento a oferecer à modernidade. O extermínio dos egípcios apontado pelo livro do Êxodo, então, poderia muito bem ser enquadrado naquela denominação de "páginas 'obscuras' da Bíblia", usada pelo Papa Bento XVI [1]. Como entender que Deus estenda a mão sobre o Egito e mate todos os seus primogênitos em uma só noite?

À pergunta provocadora, urge responder com a única chave interpretativa de toda a revelação divina: "o Evangelho e o mandamento novo de Jesus Cristo realizado no mistério pascal" [2]. Nas palavras de Hugo de São Vítor, "toda a Escritura divina constitui um único livro e este único livro é Cristo, fala de Cristo e encontra em Cristo a sua realização" [3]. As pragas do Egito e o sangue que quebrou os grilhões dos israelitas carregam o seu próprio significado [4], mas constituem, sobretudo, um sinal daquilo que estava por vir, uma figura que aponta para "o cordeiro de Deus, aquele que tira o pecado do mundo" (Jo 1, 29).

À páscoa judaica se segue, então, a Páscoa por excelência. O sangue dos cordeiros, incapaz de "eliminar os pecados" (Hb 10, 4), é substituído pelo verdadeiro Cordeiro, indefectível, que, "depois de ter oferecido um sacrifício único pelos pecados (...), levou à perfeição definitiva os que são por ele santificados" (Hb 10, 12.14). A liberdade agora conquistada não é simplesmente o fim de uma escravidão física; é a destruição do pecado, que escraviza o espírito. A morte agora vencida não é mais a morte deste corpo terreno e passageiro, consequência inevitável de sermos filhos de Adão; é a morte definitiva, que precipita a alma na desgraça e na escravidão eternas. Foi para esta liberdade que Cristo nos libertou (cf. Gl 5, 1), derramando voluntariamente o Seu próprio sangue (cf. Jo 10, 18) e untando as portas da nossa alma com o sacramento do Batismo.

Para elevar ainda mais à perfeição a analogia do cordeiro, porém, Ele não só foi imolado verdadeiramente, mas deu-se como alimento para todos os que vivem a Sua vida. Os que comiam o cordeiro da antiga páscoa com os ázimos (cf. Ex 12, 8) estavam livres da praga exterminadora, mas presos ainda aos grilhões da morte. "Os vossos pais comeram o maná no deserto e, no entanto, morreram. Aqui está o pão que desce do céu, para que não morra quem dele comer" (Jo 6, 49-50). Mas, como se dá isso? Como acontece que quem come e bebe do Corpo e Sangue do Senhor viva para sempre?

Santo Tomás de Aquino, comentando a passagem de Jo 6, 54: "Se não comerdes a carne do Filho do Homem e não beberdes o seu sangue, não tereis a vida em vós", explica que a realidade do sacramento da Eucaristia "é a unidade do corpo místico, sem a qual não pode haver salvação, porque ninguém tem acesso à salvação fora da Igreja, como tampouco no dilúvio houve salvação fora da arca de Noé" [4]. Ou seja, a Eucaristia nos salva porque nos incorpora à Igreja, que é o corpo místico de Cristo. O antigo povo de Deus estava limitado a uma raça, à comunidade dos judeus; o povo da Nova Aliança é a santa Igreja, a assembleia de homens e mulheres, de todas as raças, povos e nações, que têm em comum a comunhão no Corpo e Sangue do Cordeiro.

"Ecce Agnus Dei, ecce, qui tollit peccáta mundi – Eis o Cordeiro de Deus, eis o que tira os pecados do mundo", repetem os sacerdotes em todas as Missas. E a Igreja canta a Deus a sua ação de graças: porque "Cristo amou a Igreja e se entregou por ela"; porque "quis apresentá-la a si mesmo toda bela, sem mancha nem ruga ou qualquer reparo, mas santa e sem defeito" (Ef 5, 26-27); porque é ela, agora, unida à sua cabeça, que deve oferecer o seu sacrifício; porque somos nós, agora, que devemos completar em nossa carne o que falta à paixão de Nosso Senhor (cf. Cl 1, 24). "Eu vos exorto, irmãos, pela misericórdia de Deus, a oferecerdes vossos corpos em sacrifício vivo, santo e agradável a Deus: este é o vosso verdadeiro culto" (Rm 12, 1).

Referências

  1. Cf. Exortação Apostólica Verbum Domini (30 de setembro de 2010), 42.
  2. Idem.
  3. De arca Noe, 2, 8 (PL 176, 642 C-D).
  4. Cf. BETTENCOURT, Dom Estêvão. Para entender o Antigo Testamento. Agir: Rio de Janeiro, 1956. pp. 205s
  5. Suma Teológica, III, q. 73, a. 3.

Comentários

Os comentários são de responsabilidade exclusiva de seus autores e não representam a opinião deste site. Se achar algo que viole os termos de uso, denuncie. Leia as perguntas mais frequentes para saber o que é impróprio ou ilegal.