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Lutero, o homem que gerou o mundo moderno
Padre Paulo Ricardo

Lutero, o homem que
gerou o mundo moderno

Lutero, o homem que
gerou o mundo moderno

Por que, em certo sentido, Lutero é seguido mais pelas ideologias atuais do que pelos próprios protestantes? É o que Padre Paulo Ricardo vai responder em nosso novo curso de férias!

Equipe Christo Nihil Praeponere7 de Janeiro de 2019
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Está chegando mais um curso de férias em nosso site!

Este mês, Padre Paulo Ricardo apresenta a você uma personagem decisiva para a história tanto da Igreja quanto da humanidade: Martinho Lutero.

Neste curso, que dá início a nossos estudos de História da Igreja Moderna, você acompanhará o contexto histórico em que se deu a chamada “Reforma” Protestante, a biografia do homem que deu origem a essa revolta e, principalmente, a ligação dele com as ideologias e movimentos revolucionários de nossa época.

Você vai se surpreender ao descobrir que Lutero é mais seguido pelas ideologias atuais do que pelos próprios luteranos e protestantes!

Anote, pois, em sua agenda! No próximo dia 21 de janeiro, às 21h, você tem um encontro conosco para conhecer esta figura controversa, cheia de temores internos e que, mesmo sem se dar conta, tornou-se o primeiro homem na história a montar uma ideologia.

Para ter acesso a este conteúdo que estará disponível em breve, avisamos desde já que é necessário ser aluno de nosso site. Por isso, se você ainda não estuda conosco, faça agora sua inscrição e tenha acesso, ainda hoje, a todo o nosso catálogo de cursos.

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Homens, parem de agir como vítimas!
Sociedade

Homens, parem de agir como vítimas!

Homens, parem de agir como vítimas!

Nunca foi tão necessário revisitar os ideais do patriarcado cristão, dando aos homens razões para que tomem as rédeas de suas vidas, parem de agir como vítimas e sejam os líderes que foram chamados por Deus a ser.

Jared ZimmererTradução: Equipe Christo Nihil Praeponere4 de Janeiro de 2019
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O patriarcado hoje costuma ser definido como um sistema social injusto que reforça papéis de gênero e oprime, evocando a típica dominação masculina sobre as mulheres.

Minha própria irmã descobriu recentemente essa versão do patriarcado em um curso de estudos sobre a mulher em uma instituição pública, durante o qual ela foi instada a dar exemplos em sua vida de quando a dominação masculina foi reforçada sobre ela, seja por seu pai ou qualquer outro homem com o qual ela tivesse algum contato. Infelizmente para o professor, que tentava tirar uma lição disso, minha irmã não conseguiu recordar uma única vez em que essa noção de misoginia tivesse sido imposta sobre ela. Ainda que meu coração sinceramente se compadeça de qualquer mulher que já tenha sido assediada por um homem, não me parece que devamos culpar o patriarcado por isso.

O fato é que muitos homens e mulheres nunca experimentaram o que é realmente o patriarcado. Em uma época na qual 1 em cada 3 lares sofre com a ausência do pai, será que podemos mesmo continuar a culpar o patriarcado pelas doenças sociais que estamos experimentando? Para que um patriarcado esteja em ordem, deve haver um homem desempenhando um papel de liderança. Mas os homens não estão em suas casas; ao contrário, eles estão abandonando seus postos e entrando em expedições egoístas. Se algum chega a abandonar a própria família, como muitos hoje estão fazendo, não se trata propriamente de opressão, mas de covardia. Acredito que a velha e desgastada mania de culpar os homens de ser “opressores” só funciona quando eles estão realmente presentes.

Ainda que o movimento de “liberação” das mulheres tivesse como finalidade libertar as mulheres da abstrata “opressão patriarcal”, o que o movimento provocou, na verdade, foi um retrocesso à servidão: nunca se viu os homens usarem tanto as mulheres como agora. Sem praticamente nenhum senso de compromisso, eles recebem hoje a gratificação imediata do ato sexual, fato que as mulheres exaltam como se se tratasse de verdadeira liberdade.

Mas será liberdade de fato ser jogada de lado como nada mais do que um objeto descartável? Isso não é amor, não é liberdade, não é verdade. É sim uma covardia dos homens, provocada pelo ciclo contínuo de meninos sendo criados para temer seja sua liderança como homens seja sua capacidade inata de fazer diferença no mundo. É também um resultado da noção, passada a homens e a mulheres, de que “libertar-se do patriarcado” é o mesmo que livrar-se dos “grilhões” da responsabilidade moral.

Essa ideologia tem se espalhado porque fomos ensinados a ver tudo pelas lentes da vitimização. Os grandes heróis de nossa época são os que mais foram oprimidos. Ao invés de olhar para as virtudes que deveríamos cultivar e, mais importante ainda, para os vícios que deveríamos erradicar, as últimas duas ou três gerações foram ensinadas a vislumbrar matéria de opressão em cada ação ou reação da sociedade. Graças a essa tolice, a ideologia marxista de consciência social não só aliena as pessoas, como torna-se um verdadeiro perigo. Debaixo do fiasco cultural de um feminismo equivocado e de uma masculinidade caracterizada por violência e indignação encontra-se uma população inteira de homens que não sabem sequer o que seja conduzir uma família. Os princípios mal formulados do feminismo, incluindo sua noção de patriarcado, são simplesmente tão errados quanto os dos homens que tratam suas mulheres como animais. Ambos confundem liderança com opressão e imprimem na cultura um medo entre os dois sexos.

Talvez o restabelecimento do patriarcado cristão seja a mudança necessária, o catalisador positivo, para resolver nossos problemas sociais. Algumas das principais características do patriarcado são sua clareza, o conflito que ele gera e o controle que ele detém. Se devem ser elogiadas ou censuradas essas características, tudo depende de como se percebem os objetos a que elas dizem respeito.

O patriarcado é claro no sentido de que as leis dentro de um sistema patriarcal geralmente significam punições mais severas. Assim como o pai dentro de uma casa impõe uma boa dose de medo em tempos de mau comportamento, no patriarcado é muito menor a leniência para com as transgressões feitas à lei. Também é claro o patriarcado no sentido de que um sistema assim chama as coisas por aquilo que elas são. Um inimigo é um inimigo. Na modernidade nós temos dificuldades em definir um inimigo. Não queremos ferir os sentimentos de ninguém e trocamos a misericórdia e a justiça cristãs pela noção hodierna de “ser legal”. Jesus nos disse para amarmos nossos inimigos, não para fingirmos que eles não existiam.

Se uma ameaça estivesse a caminho de uma tribo ou de uma nação, os homens se reuniam para discutir como afastá-la e como melhor proteger aqueles sob seu cuidado. Isso significava guerra, conflito, controle. Não o controle de um ditador, mas o controle adquirido por meio de autossacrifício e coragem. Os homens tinham de arriscar suas vidas na linha de combate a fim de manter a salvo suas tribos. Eles entendiam que, se alguns dos homens morressem, ao menos sua descendência perduraria. Se as mulheres morressem, no entanto, eles teriam menos oportunidades de “encher a terra” com sua prole. As mulheres eram tidas em alta consideração deste modo porque sua sobrevivência significava a sobrevivência de todo o povo.

Houve épocas obviamente de abuso do patriarcado, e a elas se deve parcialmente a culpa dos desentendimentos de hoje. Por isso faço menção específica do patriarcado cristão. O homem cristão tem consciência da necessidade de viver como o próprio Cristo. Ele de bom grado dá a própria vida por sua família e por seu povo. São Paulo exalta esse patriarcado em Ef 5: “Pois o marido é a cabeça da mulher, assim como Cristo é a cabeça da Igreja”. O entendimento paulino de patriarcado pede dos homens que eles ajam exatamente como agiu Cristo crucificado; exorta-os a ganharem o direito de ser a cabeça da casa, não por meio da força bruta, mas através da caridade, fazendo sacrifícios e agindo com honra.

Eis um outro porquê de Jesus ser uma figura tão perigosa: Ele oferece a solução para nossos problemas, Ele oferece o patriarcado cristão. Quando os fariseus questionaram sua fidelidade à lei mosaica, que permitia o divórcio para não deixar os homens matarem suas esposas, Cristo respondeu: “Foi por causa da dureza de vossos corações que Moisés permitiu o divórcio, mas no princípio não era assim”. Jesus volta à origem do homem. Ao fazer isso, Ele não põe abaixo os ideais do patriarcado, mas desafia o status quo de um machismo corrosivo e traz de volta à mente o papel do próprio Adão. Este, encontrando-se sozinho e insatisfeito, procura sua amada. Ele procura aquela que será carne de sua carne e que satisfará suas necessidades mais profundas. Jesus repreende a mera noção de medo entre os sexos e, ao invés, institui uma masculinidade baseada no amor crucificado. Ele não pede aos homens que “sejam legais”, mas os desafia sim a interiorizar a lei eterna de Deus. Ele manda aos homens que reconheçam uma vez mais o incrível dom do feminino em suas vidas e que o tratem como a joia mais preciosa da Criação.

Acredito que nunca tenha sido tão necessário como agora revisitar os ideais do patriarcado cristão. Um sistema de expectativa dado aos homens para que tomem a frente e sejam os líderes que foram chamados a ser. Por muito tempo os homens deixaram de lado seus deveres como protetores, provedores e líderes de seus lares, tanto em matérias físicas quanto espirituais. O patriarcado, complementado pelas virtudes e princípios cristãos, permite que uma sociedade e sua moralidade prosperem porque, quando os homens conduzem suas casas no seguimento de Cristo, protegendo-as dos perigos físicos e espirituais e provendo-lhes os bens materiais e espirituais necessários, as famílias prosperam. Isso significa que os homens precisam dar um passo à frente e parar de agir como vítimas.

Construa suas virtudes, portanto, reze pedindo a graça de Deus e prepare-se para tomar o leme. Esse é o modo como Deus pensou o homem — e o modo como também nós deveríamos pensar.

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Natal: o homem resgatado “desde dentro”
Espiritualidade

Natal:
o homem resgatado “desde dentro”

Natal:
o homem resgatado “desde dentro”

Depois da Queda, o velho Adão sabia ser necessária alguma espécie de “resgate dramático” para devolver-lhe a saúde. Mal ele sabia, porém, que esse resgate aconteceria dentro de sua própria natureza, e não fora dela.

Peter KwasniewskiTradução: Equipe Christo Nihil Praeponere26 de Dezembro de 2018
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Escreve São João da Cruz que:

Ao dar-nos, como nos deu, o seu Filho, que é a sua Palavra — e não tem outra — (Deus) disse-nos tudo ao mesmo tempo e de uma só vez nesta Palavra única e já nada mais tem para dizer. [...] Porque o que antes disse parcialmente pelos profetas, revelou-o totalmente, dando-nos o Todo que é o seu Filho (citado em Catecismo da Igreja Católica, n. 65).

O Pai pronunciou a sua Palavra: eis o que recordamos todos os anos no Natal. Na Queda, o homem se distanciou da voz de Deus, deixando de dar-lhe ouvidos. O Senhor que “passeava” pelo jardim todos os dias com Adão e Eva aparentemente tinha escondido sua face — ainda que, na verdade, tenha sido a humanidade a esconder-se, com medo, da luminosa face de Deus.

Depois de séculos cambaleando, cego, na escuridão da ignorância, do erro e do pecado, o velho Adão — pelo menos sob o aspecto dos profetas de Israel e dos pagãos sábios, os mais autoconscientes dos homens e, por isso mesmo, os mais conscientes de Deus — sabia ser necessária alguma espécie de resgate dramático para devolver a saúde à humanidade.

O que esses homens não sabiam é que esse resgate “desde fora” seria, ainda mais profundamente, um resgate desde dentro. Quando a Palavra se fez carne no ventre da Virgem Maria, o Filho único do Pai eterno se fez homem, a fim de inserir na natureza humana a graça e a glória da sua divindade. Era para acontecer uma reparação e restauração a partir de nossa natureza, e não fora dela, como seria a repintura de um prédio antigo.

A Palavra se fez carne. O Verbo assumiu uma habitação corpórea. O Deus escondido tem um rosto humano. Seus santíssimos lábios pregam as palavras de vida eterna. Agora o que nos cabe é sentar-nos a seus pés, como Maria de Betânia, e escutá-lO continuamente, bebendo de suas palavras e atando-nos bem forte a seu Coração.

Quando o Beato John Henry Newman escolheu como lema cardinalício a expressão Cor ad cor loquitur, “O coração fala ao coração”, ele estava a captar em uma frase a realidade e o instrumento mais essencial da verdadeira religião: trata-se, antes de tudo, de um relacionamento pessoal no qual tudo está em jogo. É um presente total de si Àquele que amou a humanidade. É uma questão de amizade, mais do que de proposições doutrinais, normas morais, costumes litúrgicos etc.

Quem ama aceita tudo o mais: todas as proposições, normas e costumes. E faz isso não com reclamações, mas sim com uma alegria contagiante, por serem estas expressões, símbolos e lembretes dAquele a quem se ama. Não podemos agir com desprezo ou desdém para com essas coisas sem ofender Aquele a quem amamos.

A crise da teologia hoje e, mais amplamente, a crise na Igreja, deve-se, no fundo, à ausência prevalente do espírito dos “santos loucos”, da “loucura por Cristo”, daqueles santos que se dispunham a deixar tudo para abraçar o Senhor. A santa loucura de apaixonar-se por nosso Salvador crucificado é exatamente o oposto da mundanidade que infectou a Igreja. O que precisamos hoje é de loucos por Cristo, não de burocratas astutos, apologetas especialistas em comunicação ou autômatos inquestionáveis. O Filho de Deus deitado como bebê em um estábulo: eis a “loucura” por meio da qual Deus se apresenta a nós quando se põe em nosso meio, com uma sabedoria muito superior à dos filósofos de nossa época.

É possível contemplar esse espírito de santa loucura — ora impetuoso como uma cachoeira, ora silencioso e tranquilo como a neve — nas novas comunidades religiosas que florescem, bem como nas famílias católicas fiéis que procuram viver ao máximo as bem-aventuranças do Evangelho, tão exigentes quanto compensatórias. Em tais comunidades ou famílias, a atmosfera tóxica de racionalismo egoísta foi afastada e substituída pelo ar puro e fresco de uma vida entregue ao Deus que nos amou e se entregou por nós.

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“Hoje nasceu para nós um Salvador”
Mensagem de Natal

“Hoje nasceu para nós um Salvador”

“Hoje nasceu para nós um Salvador”

O Natal será feliz se Jesus nascer de fato em nossa vida. Se não houver lugar para Ele no nosso coração, o Natal será somente uma festa morta. Não será Natal se acordarmos amanhã do mesmo jeito que estamos hoje!

Padre Paulo Ricardo21 de Dezembro de 2018
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Mensagem do Padre Paulo Ricardo para o Natal de 2018

1. Um mistério que acontece hoje

“Hoje nasceu para nós um Salvador, que é Cristo Senhor”. Essa mensagem, repetida pelos anjos nesta noite santa e ecoada ao longo dos séculos na Liturgia, precisa ser verdade. Então, a gente precisa entender qual é o mistério que nós estamos celebrando no Natal. Sim, porque o que nós celebramos no Natal é um mistério, e não uma doutrina. Claro, nós temos uma doutrina, o cristianismo tem uma doutrina; mas o cristianismo não é uma mera doutrina. É um mistério: as coisas acontecem. No Natal, nós celebramos um nascimento, um hoje: “Hoje nasceu para nós um Salvador”, Hodie natus est nobis Salvator. Hoje.

O que quer dizer isso? Quer dizer que o que nós estamos celebrando tem a ver com um nascimento que aconteceu há mais de dois mil anos, no passado. Mas não é simplesmente um aniversário de um acontecimento histórico, porque, claro, não seria “hoje”: seria 2018 anos atrás. Nós também não estamos celebrando um acontecimento no futuro, porque a vinda de Jesus no futuro será para nos julgar, e seria uma tragédia que isso acontecesse agora. Nós não estamos preparados. Nós olhamos para a humanidade, e que tragédia, que catástrofe seria! Quantos milhões de almas condenadas eternamente! Nós não estamos prontos. Seria trágico.

2. Jesus quer se encarnar em nossa humanidade

a) Temos de dar a Ele uma nova humanidade. — Então, se nós não celebramos nem o passado nem o futuro, o que celebramos? Celebramos a vinda de Jesus no hoje da minha vida. Então, se nós celebramos a vinda de Jesus no hoje da minha vida, acontece que eu preciso, como aconteceu com a Virgem Maria dois mil anos atrás, dar a Ele uma humanidade. Sim, porque o Filho de Deus se fez Filho do Homem. A Virgem Maria deu a Jesus uma humanidade. Então Ele se encarnou: Hodie natus est nobis Salvator, “Hoje nasceu para nós um Salvador”, porque Maria deu a Ele uma humanidade. “Eis aqui a escrava do Senhor, eis aqui a serva do Senhor” (Lc 1, 38)! Aconteceu.

Mas, se nós estamos celebrando o Natal hoje, é porque eu preciso dar a Jesus uma humanidade, você precisa dar a Jesus uma humanidade. Ele precisa nascer, e você precisa dar sua humanidade a Ele, porque este é o mistério cristão. Já dizia um grande orador católico chamado Bossuet que o mistério cristão é o mistério da Encarnação, que se dilata no tempo e no espaço. A Encarnação acontece ao longo do tempo e em todos os lugares. A Encarnação precisa acontecer hoje.

b) Temos de renunciar a nós mesmos. — Nós estamos aqui e queremos desejar um feliz Natal, mas o Natal será feliz se Ele nascer de fato na sua vida. O Natal será feliz se o amanhã for diferente de hoje, se houver uma transformação em você, e você, renunciando aos seus caprichos, à sua vida mesquinha, humana, desordenada e egoísta, entregar tudo e der a Ele uma humanidade para que Ele viva. Este é o mistério cristão: “Vivo, mas não eu; é Cristo quem vive em mim” (Gl 2, 20).

Sim, precisa ser Natal; mas, para ser Natal, Ele precisa viver em mim. Eu preciso renunciar à minha vida, dando a Ele a minha humanidade, para que Ele viva a vida dele em mim. Sim, Jesus será Jesus, e eu serei eu: são duas pessoas, mas numa unidade em que eu dou para Ele essa humanidade “suplementar”, essa humanidade “a mais”, como diz Santa Elisabete da Trindade. Eu preciso dar essa humanidade, e isso é uma realidade ativa, é uma coisa real, é um hoje, é um agora: eu preciso fazer isso. Tocados pela graça, nós seremos capazes de fazer isso. A Virgem Maria, movida pelo Espírito Santo, viveu o mistério da Encarnação.

c) Temos de abrir espaço em nosso coração para que Jesus nele entre. — A graça de Deus quer nos visitar nesta noite santa. O Espírito Santo nos visita, como visitou pelo anjo Gabriel, como visitou aqueles habitantes de Belém naquela noite, batendo de porta em porta. Mas que triste saber que tantos fecharam as portas, porque para Ele não havia lugar. Na hospedaria não havia lugar, e se não houver lugar no nosso coração, o Natal será somente uma festa morta. De que adianta armar árvores de Natal, presépios, acender velas, tocar sinos, cantar cantigas… se Ele não tiver um coração em que entrar, se Ele bater à porta do meu coração e ela estiver fechada, se não houver lugar para Ele?

3. Precisamos morrer para nós para que em nós Jesus viva a sua vida

Então, para que isso aconteça, de forma bem concreta, o que nós precisamos fazer é morrer. Sim, é Natal, mas nós precisamos morrer, morrer para nós, morrer para o nosso egoísmo, morrer para o nosso pecado. Para que seja Natal, precisa morrer o homem velho, precisa morrer o desordenado, precisa morrer o egocêntrico.

Ele não sente nojo, repulsa, asco; Ele não rejeita a nossa miséria, como Ele não rejeitou aquele presépio, aquela palha, aquele feno, como Ele não rejeitou aqueles panos, aquelas faixas, aqueles andrajos. Ele não rejeitou nada da nossa miséria. A alegria do Natal, que é anunciada pelo anjos, é exatamente isso. A alegria é que Deus, majestoso e de infinita glória, vem na nossa miséria: Ele não se envergonha, não se peja da nossa miséria. Ele vem! Ele quer! Ele quer vir! “Eis que estou à porta e bato. Quem ouvir a minha voz, eu entrarei e cearei com ele” (Ap 3, 20).

Novamente Ele bate à porta do seu coração, como bateu dois mil anos atrás às portas dos habitantes de Belém. Nós precisamos abrir as portas para Ele: Aperite portas Salvatori, “Abri as portas ao Salvador”. É Ele. Vamos, então, irmãos, vamos, coragem, coragem! Sim, é claro, dói, dói morrer para si mesmo, dói morrer para a sua vida. Mas não será Natal se amanhã você acordar do mesmo jeito que você está hoje! Não será Natal se você não mudar! Não será Natal se a graça não tocar o seu coração! Não será Natal se você não der a Ele a humanidade que Ele quer, para se encarnar mais uma vez na sua vida! Ele quer viver na sua humanidade.

4. Conclusão

O Natal não é uma lembrança do passado. O Natal não é uma expectativa do futuro. Hodie natus est nobis Salvator, hoje, hoje! Agora nasceu para nós um Salvador. Para isso, morramos para os nossos pecados. Será tão alegre a manhã de Natal, quando você, renovado, renovada, já não viver mais, mas o Cristo viver em você. Então será feliz e santo o seu Natal.

Deus abençoe você. Em nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo. Amém.

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Uma devoção em honra aos mistérios da infância de Cristo
Oração

Uma devoção em honra aos
mistérios da infância de Cristo

Uma devoção em honra aos
mistérios da infância de Cristo

Esta devoção, ainda pouco conhecida e difundida no Brasil, é constituída de súplicas ao Menino Jesus a fim de que, pelos doze principais mistérios de sua divina infância, Ele se digne abençoar-nos e ter piedade de nós.

Cardeal Pierre de BérulleTradução: Equipe Christo Nihil Praeponere21 de Dezembro de 2018
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A seguinte devoção, dedicada aos mistérios da infância de Nosso Senhor, teve origem na França e costuma ser atribuída ao cardeal Pierre de Bérulle (1575-1629), fervoroso defensor do culto ao Menino Jesus. A pedido de inúmeros bispos e pastores, o Papa Pio VII enriqueceu-a de muitas indulgências, a fim de estimular os fiéis a imitarem as amáveis virtudes do divino Infante.

A devoção, da qual oferecemos abaixo uma nova tradução ao português, divide-se em três partes, cada uma das quais consta de quatro invocações ao Menino Jesus, fazendo-nos percorrer os doze principais mistérios da infância de Cristo. Queira Deus que este piedoso exercício, talvez pouco conhecido, ganhe mais espaço entre as devoções do povo fiel, sobretudo na época do Natal.


V. Vinde, ó Deus, em meu auxílio.
R. Apressai-vos, Senhor, em me socorrer.
V. Glória ao Pai e ao Filho e ao Espírito Santo.
R. Assim como era no princípio, agora e sempre, por todos os séculos dos séculos. Amém.

Pai-Nosso.

1.º A Encarnação. Ó dulcíssimo Menino Jesus, que para nossa salvação descestes do seio do Pai e, concebido do Espírito Santo, não rejeitastes o útero da Virgem; e, sendo Verbo encarnado, tomastes a forma de servo, tende piedade de nós!
R. Tende piedade de nós, Menino Jesus, tende piedade de nós!

Ave, Maria.

2.º A visitação. Ó dulcíssimo Menino Jesus, que por meio de vossa Virgem Mãe, ao visitardes Isabel, enchestes a São João Batista, vosso Precursor, do Espírito Santo e o santificastes ainda no ventre materno, tende piedade de nós!
R. Tende piedade de nós, Menino Jesus, tende piedade de nós!

Ave, Maria.

3.º À espera do parto. Ó dulcíssimo Menino Jesus, encerrado no útero por nove meses, aguardado ansiosamente pela Virgem Maria e por São José, oferecido a Deus Pai pela salvação do mundo, tende piedade de nós!
R. Tende piedade de nós, Menino Jesus, tende piedade de nós!

Ave, Maria.

4.º O nascimento. Ó dulcíssimo Menino Jesus, nascido da Virgem Maria em Belém, envolto em faixas, posto numa manjedoura, anunciado pelos anjos, visitado pelos pastores, tende piedade de nós!
R. Tende piedade de nós, Menino Jesus, tende piedade de nós!

Ave, Maria.

A vós, Jesus, que nascestes da Virgem,
seja dada toda glória,
com o Pai e o Espírito criador.
Pelos séculos dos séculos. Amém.

V. Cristo está entre nós.
R. Vinde, adoremos.

Pai-Nosso.

5.º A circuncisão. Ó dulcíssimo Menino Jesus, circuncidado aos oito dias, chamado com o glorioso nome de Jesus e profetizado, no nome e também no sangue, como o nosso Salvador, tende piedade de nós!
R. Tende piedade de nós, Menino Jesus, tende piedade de nós!

Ave, Maria.

6.º A Epifania. Ó dulcíssimo Menino Jesus, manifestado aos reis magos pela Estrela guia, adorado no colo da Mãe, presenteado com os dons místicos do ouro, do incenso e da mirra, tende piedade de nós!
R. Tende piedade de nós, Menino Jesus, tende piedade de nós!

Ave, Maria.

7.º Apresentação no Templo. Ó dulcíssimo Menino Jesus, apresentado no Templo pela Virgem Mãe, abraçado por Simeão, revelado a Israel pela profetisa Ana, tende piedade de nós!
R. Tende piedade de nós, Menino Jesus, tende piedade de nós!

Ave, Maria.

8.º Fuga para o Egito. Ó dulcíssimo Menino Jesus, perseguido pelo iníquo Herodes, deportado para o Egito com vossa Mãe por São José, salvo de uma morte cruel e glorificado pelo testemunho dos Santos Inocentes, tende piedade de nós!
R. Tende piedade de nós, Menino Jesus, tende piedade de nós!

Ave, Maria.

A vós, Jesus, que nascestes da Virgem,
seja dada toda glória,
com o Pai e o Espírito criador.
Pelos séculos dos séculos. Amém.

V. Cristo está entre nós.
R. Vinde, adoremos.

Pai-Nosso.

9.º Permanência no Egito. Ó dulcíssimo Menino Jesus, que permanecestes no Egito com Maria Santíssima e o patriarca São José até a morte de Herodes, tende piedade de nós!
R. Tende piedade de nós, Menino Jesus, tende piedade de nós!

Ave, Maria.

10.º De volta a Israel. Ó dulcíssimo Menino Jesus, que voltastes do Egito para a terra de Israel com vossos pais suportando muitas dificuldades no caminho e entrastes na cidade de Nazaré, tende piedade de nós!
R. Tende piedade de nós, Menino Jesus, tende piedade de nós!

Ave, Maria.

11.º A vida em Nazaré. Ó dulcíssimo Menino Jesus, que vivestes santamente na bendita casa de Nazaré, obediente a vossos pais, cansado pela pobreza e muitos trabalhos, mas confortado por vosso crescimento em sabedoria, idade e graça, tende piedade de nós!
R. Tende piedade de nós, Menino Jesus, tende piedade de nós!

Ave, Maria.

12.º O reencontro no Templo. Ó dulcíssimo Menino Jesus, conduzido a Jerusalém aos doze anos, procurado com dor por vossos pais e, três dias depois, encontrado com alegria entre os doutores da Lei, tende piedade de nós!
R. Tende piedade de nós, Menino Jesus, tende piedade de nós!

Ave, Maria.

A vós, Jesus, que nascestes da Virgem,
seja dada toda glória,
com o Pai e o Espírito criador.
Pelos séculos dos séculos. Amém.

No Natal e sua Oitava (ao longo do ano, omite-se o Aleluia):
V. O Verbo se fez carne, aleluia
R. E habitou entre nós, aleluia.

Na Epifania e sua Oitava:
V. Cristo se manifestou a nós, aleluia
R.Vinde, adoremos, aleluia.

Oremos. Ó Deus eterno e todo-poderoso, Senhor do céu e da terra, que vos revelais aos pequeninos, concedei-nos, nós vo-lo pedimos, que, venerando com dignas homenagens os santos mistérios da infância do vosso Filho Jesus e imitando-os como convém, possamos chegar ao Reino dos Céus prometido aos pequeninos. Pelo mesmo Cristo, Senhor Nosso.
R. Amém.

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Matrimônio, “um duelo até a morte”
Espiritualidade

Matrimônio, “um duelo até a morte”

Matrimônio, “um duelo até a morte”

O casamento por toda a vida é um ato de desafio contra todas as dificuldades da vida, das catástrofes às imoralidades. Trata-se de um “duelo até a morte”, não contra a pessoa amada, mas por causa dela.

Nathanael BlakeTradução: Equipe Christo Nihil Praeponere18 de Dezembro de 2018
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O matrimônio é um duelo até a morte, do qual nenhum homem honrado deveria fugir”. Como muitos dos aforismos de G. K. Chesterton, essa linha ilumina… e surpreende. É uma bela fala de um personagem da obra Manalive, e muitos leitores sentirão que ela tem algo de verdadeiro.

Ainda assim, com um pouco mais de reflexão, ela não deixa de ser confusa. Quem são os duelistas? Se são marido e mulher, então o ditado torna-se sombrio de uma forma decididamente não-chestertoniana: não é possível que ele quisesse louvar os conflitos desagradáveis que tornam miseráveis tantos casamentos. E mesmo se a expressão quisesse referir-se tão-somente a uma “disputa romântica”, ainda assim ela seria exagerada e míope. Os cônjuges podem competir graciosamente às vezes, mas o casamento também está repleto de trabalhos terrenos — lavar roupas, agendar consultas médicas, lavar a louça etc. Descrever esse esforço comum na vida como um duelo seria entendê-lo da maneira errada. Além disso, Chesterton certamente não quis dizer com essa frase que os homens não-casados, inclusive os padres de sua própria fé católica, são todos desonrosos.

Mas a linha de Chesterton, nesse conto fantástico de sua autoria, soa como uma frase belamente articulada e de modo algum é destituída de sentido. Para os homens, o casamento é deveras um duelo até a morte, não contra a própria esposa, mas por causa dela. Os votos de nosso matrimônio tradicional são quase tão românticos quanto quaisquer juramentos que o cavaleiro de um livro de histórias já tenha feito. Na riqueza e na pobreza, na saúde e na doença, renunciando a todas as outras pessoas, até que a morte nos separe — tais promessas são um desafio contra o mundo inteiro, se for necessário. O duelo não é contra a própria esposa, mas contra tudo e contra todos em potencial, inclusive contra si mesmo. A busca por viver fielmente os próprios votos é ora difícil, ora alegre, mas a medida não se distribui igualmente. Aderir a essas promessas pode acarretar um sofrimento terrível.

Tal é o risco do amor.

Como nos lembra C. S. Lewis, “amar plenamente é ser vulnerável”. Amar outra pessoa significa tornar-se refém seja da sorte, seja de uma vontade alheia. Os votos do matrimônio cristão tradicional são explícitos nesse ponto: a pessoa promete permanecer casada estando na pior situação, na pobreza e na doença, se for o caso. A prudência pode mitigar alguns dos riscos; mas, apesar de tudo, o casamento continua a ser uma aceitação de vulnerabilidade por toda a vida, se esses votos forem levados a sério. Para citar Chesterton (mais uma vez em Manalive): “Matrimônios imprudentes!... Onde no céu ou na terra existiram quaisquer matrimônios prudentes? Poder-se-ia falar igualmente de suicídios prudentes.” Um compromisso até a morte não é prudente, se uma pessoa está olhando apenas para si mesma.

E o casamento é uma morte de si, porque estabelece, no lugar do “eu” solitário do indivíduo, um “nós” por toda a vida. A união física do casamento, que a Bíblia descreve como “uma só carne”, é apenas uma parte da fusão que é o casamento, na qual o próprio eu, embora não seja abolido, volta-se de modo irrevogável para a outra pessoa. Ceder o controle sobre a própria vida dessa forma pode ser apavorante, e muitos se recusarão a fazê-lo. Pense-se, por exemplo, no eminente filósofo Jean-Jacques Rousseau, que ao longo de toda a vida procurou um meio de ter amor sem vulnerabilidade. Isso simplesmente não é possível nesta vida.

É possível ter prazer ao mesmo tempo em que se tem controle e segurança, mas amor não. E o prazer sem amor se esvai. Por isso, Lewis concluiu seus comentários sobre a vulnerabilidade do amor com um alerta: “O único lugar, fora o Céu, onde você pode ficar perfeitamente a salvo de todos os perigos e perturbações do amor, é o Inferno.” Aqueles que não arriscam seus corações acabarão fazendo de si mesmos pessoas sem coração. É por isso que os tradicionais votos matrimoniais admitem a possibilidade de corações partidos, pois, se os corações não endurecerem ao longo dos anos, ao menos um deles se partirá quando a morte fizer a sua parte.

Ainda assim, aqueles que amam continuam casados, não apenas por um costume social ou pelos benefícios que a estabilidade do romance e da família proporcionam à sociedade, mas porque o amor os impele a agir assim. Há algo a respeito do amor que nos induz a fazer promessas de fidelidade eterna, como se soubéssemos que tal fidelidade oferece um modo de vida melhor, sejam lá quais forem os riscos que se corram. É uma aliança o que permite que um relacionamento se mova da potência ao ato. O eu que sacrifica sua autonomia sobre o altar do matrimônio se verá mais plenamente realizado nesse relacionamento. Só quando eliminamos as outras opções do que nos poderíamos tornar é que podemos entrar no negócio de nos tornarmos alguma coisa; só renunciando a todas as outras pessoas é que poderemos realizar plenamente nosso relacionamento com uma única pessoa.

Mas, nessa matéria, há uma heresia em potencial que ronda nossa cultura: a da “alma gêmea” (da “tampa da panela”, da “metade da laranja”, ou seja lá como se queira chamá-la). Trata-se de uma noção quase espiritual: existe uma pessoa com a qual você nasceu para estar e, se você se casar com essa pessoa, você será feliz no casamento. Essa visão, abraçada por alguns cristãos, é como um bálsamo para as preocupações relativas aos riscos de se fazer uma aliança, mas ao mesmo tempo torna as coisas piores. A ideia passa a ilusão de que o romance e o casamento com a alma gêmea serão fáceis, mas essa garantia de conforto serve como uma desculpa, tanto para a preguiça (a moral e a outra) em um relacionamento, quanto para o abandono do casamento quando os problemas inevitavelmente aparecem. Além disso, a pessoa que parece ser a alma gêmea de alguém aos 20, 25 ou 30 anos pode se tornar um “encosto” mais tarde. O “par perfeito” para um ego imaturo impedir-lhe-á o amadurecimento, não deixará espaço para que ele se desenvolva. Assim, a ideia da alma gêmea, vinda da cultura pop, deixa de levar em conta o dinamismo e o desenvolvimento necessários para sustentar um relacionamento por toda a vida.

A noção da alma gêmea também ignora as realidades do livre-arbítrio e da pecaminosidade humana, que podem corromper e destruir inclusive relacionamentos entre almas gêmeas, se elas existissem na forma como são concebidas pela imaginação popular. Assim, a recusa de reconhecer a fragilidade de todos os pares humanos faz com que a noção da alma gêmea se transforme em um ídolo que nos afasta de nossos votos matrimoniais. J. R. R. Tolkien observou os perigos dessa falsa ideia das almas gêmeas em uma carta ao seu filho Michael. Eis o seu alerta:

Quando o glamour se vai, ou simplesmente diminui, as pessoas acham que cometeram um erro, e que a verdadeira alma gêmea ainda está por ser encontrada. A verdadeira alma gêmea se revelará, com muita probabilidade, como a primeira pessoa sexualmente atrativa que aparecer. Alguém com quem, de fato, elas deveriam ter-se casado, com muito proveito para si mesmas, se pelo menos… Daí o divórcio, a fim de providenciar o “se pelo menos”. E, é claro, via de regra elas até que estão certas: elas cometeram de fato um erro. Só uma pessoa muito sábia poderia, ao fim de sua vida, fazer um julgamento sadio de com quem, entre todas as alternativas possíveis, ela deveria ter-se casado com mais proveito!... Mas a “verdadeira alma gêmea” é a pessoa com a qual você se encontra casado de fato.

É necessário escolher cuidadosamente a própria companheira de vida, é claro, mas não devemos supor que encontraremos apenas conforto e compatibilidade perfeita se encontrarmos a pessoa certa. Ademais, nós poderíamos acrescentar ao conselho de Tolkien o seguinte: mesmo se houvesse uma pessoa perfeita preparada para você, o que faria você pensar que a merece? Ou que você gostaria mesmo de uma alma gêmea perfeita? Talvez o que você procura em uma alma gêmea é bem diferente do que aquilo de que você precisa. Uma pessoa realmente perfeita para você, ao invés de o deixar correr solto, o que gostaria era de que você se tornasse uma pessoa melhor, e muitos de nós não acolheremos essa correção, não importando o quão docilmente estejamos orientados para melhorar.

A tolice das almas gêmeas não dá nenhuma resposta para a vulnerabilidade do amor e para os riscos de uma aliança matrimonial por toda a vida. O que há é apenas uma escolha inicial (tomada com prudência, assim se espera) e então a tentativa, que durará a vida inteira, de ser fiel aos próprios votos, não obstante as tragédias, os sofrimentos ou mesmo o agradável tédio de uma vida comum levada em meio à prosperidade do mundo moderno. Embora esteja na moda menosprezar como chato e sem graça um homem e uma mulher comuns partilhando a vida no casamento, normalmente um casal assim se compromete a uma missão muito mais desafiadora e romântica do que qualquer coisa a ser tentada por um boêmio libertino.

O casamento por toda a vida é um ato de desafio contra todas as dificuldades da vida, das catástrofes às imoralidades. No casamento, homens e mulheres se prometem uns aos outros e mandam o destino às favas. As tradicionais promessas que tornam solene um matrimônio constituem uma das mais dignas e importantes atividades humanas. Nossa liberdade não se concretiza na possibilidade de fazermos algo, mas, sim, em fazer aquilo que demos a nossa palavra que faríamos. A liberdade humana se consuma na autolimitação voluntária da promessa feita e cumprida. No ato de fazer e manter promessas, nós nos posicionamos frente ao mundo e ao futuro como agentes ativos, e não como seres meramente passivos reagindo às circunstâncias. A força dos juramentos na ficção, na literatura e no direito deve-se à prova que eles fazem da vontade humana livre dentro do cosmos.

Como observava Hannah Arendt, é o ato de fazer e manter promessas, bem como o de perdoar, que põe fim às reações impulsivas e permite-nos começar alguma coisa nova. Vistos sob essa perspectiva, os votos matrimoniais não são um fim a inaugurar um estado imóvel, mas um começo a permitir o florescimento de algo novo. Ao viver nossos votos matrimoniais, renovamos nossa liberdade e nossa dignidade como agentes, ao mesmo tempo que unimos as duas metades da raça humana em uma união a dar-lhe continuidade.

E, para os cristãos, isso permite entrever um pouco como o matrimônio é uma fonte de graça e uma imagem de Cristo e sua Igreja. Jesus Cristo passou a vida em humilde serviço para estabelecer sua Igreja, até finalmente morrer por ela. Nada do que Ele nos pede, a fim de mantermos nossos votos no matrimônio, será mais difícil de suportar do que aquilo por que Ele já passou por nossa causa.

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