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A Bíblia leva-nos a Roma
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A Bíblia leva-nos a Roma

A Bíblia leva-nos a Roma

Ao deixar-se conduzir pela Igreja, santos de todos os séculos puderam descobrir suas vocações na prática da leitura orante das Sagradas Escrituras.

Equipe Christo Nihil Praeponere15 de Setembro de 2014Tempo de leitura: 5 minutos
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A prática da Lectio Divina é uma das devoções mais presentes na vida dos santos. Por meio da meditação das Sagradas Escrituras, eles foram capazes de encontrar a face de Jesus, que se revela a cada versículo lido. É por isso que, querendo esmiuçar o valor dos Textos Sacros, São Jerônimo dizia a seus fiéis: “A ignorância das Escrituras é ignorância de Cristo" [1]. Quem se põe a escutar a Palavra, escuta, pois, a própria voz de Deus; faz como reza o salmista: “É tua face, Senhor, que eu procuro" (cf. Sl 27, 8-9).

Diferentemente do que acusam os protestantes, a Igreja sempre incentivou a leitura das páginas sagradas. Ao mesmo tempo, os santos padres nunca deixaram de insistir numa leitura dentro da « tradição viva de toda a Igreja». Essa preocupação se deve ao fato de que também a Bíblia, quando mal interpretada, pode conduzir o homem ao erro. Que foram as tentações de Cristo no deserto senão “tentações bíblicas"? Desafiou Satanás: “Se és o Filho de Deus, lança-te abaixo, pois está escrito: 'Ele deu a seus anjos ordens a teu respeito; eles te protegerão com as mãos'" (cf. Sl 90, 11). Quando se perde a dimensão eclesiológica das Sagradas Escrituras, perde-se, por conseguinte, o próprio sentido das Escrituras, pois não seria possível crer em suas palavras se a isso não nos levasse a autoridade da Igreja [2].

Assim se justifica a luta do Magistério contra a doutrina luterana da Sola Scriptura (Somente a Escritura). Trata-se de uma defesa do sentido autêntico da Bíblia, de uma defesa contra reducionismos baratos, manipulações desonestas, fundamentalismos agressivos, que, no mais das vezes, levam grande parte dos cristãos à perda da fé, como também muitos céticos e pagãos a recusarem os ensinamentos evangélicos. Por outro lado, a prática da Lectio Divina, isto é, a leitura das Sagradas Escrituras realizada sob a luz da Tradição, longe de induzir os fiéis a falsas devoções, abre-lhes um caminho seguro para o encontro com Cristo. Isso porque, como definiam os Padres, “a Sagrada Escritura está escrita no coração da Igreja, mais do que em instrumentos materiais" — «Sacra Scriptura principalius est in corde Ecclesiae quam in materialibus instrumentis scripta». A religião cristã não é a religião do livro mas da Palavra, que é Jesus. Essa Palavra, por sua vez, confiou seu depositum fidei, quer por meio do testemunho oral, quer por meio do testemunho escrito, à tutela de sua Igreja.

Santos de todos os séculos experimentaram essa verdade, descobrindo suas vocações no seio da Igreja orante e intérprete fiel da Revelação [3]:

[...] Certamente não é por acaso que as grandes espiritualidades, que marcaram a história da Igreja, nasceram de uma explícita referência à Escritura. Penso, por exemplo, em Santo Antão Abade, que se decide ao ouvir esta palavra de Cristo: «Se queres ser perfeito, vai, vende tudo o que possuíres, dá o dinheiro aos pobres, e terás um tesouro no céus; depois, vem e segue-Me» (Mt 19, 21).

Igualmente sugestivo é São Basílio Magno, quando, na sua obra Moralia, se interroga: «O que é próprio da fé? Certeza plena e segura da verdade das palavras inspiradas por Deus. (…) O que é próprio do fiel? Com tal certeza plena, conformar-se com o significado das palavras da Escritura, sem ousar tirar nem acrescentar seja o que for». São Bento, na sua Regra, remete para a Escritura como «norma retíssima para a vida do homem».

São Francisco de Assis – escreve Tomás de Celano – «ao ouvir que os discípulos de Cristo não devem possuir ouro, nem prata, nem dinheiro, não devem trazer alforge, nem pão, nem cajado para o caminho, não devem ter vários pares de calçado, nem duas túnicas, (…) logo exclamou, transbordando de Espírito Santo: Com todo o coração isto quero, isto peço, isto anseio realizar!».

Scott Hahn, ex-pastor protestante, também experimentou essa verdade, assim como os santos, quando se decidiu por uma escuta da Palavra de Deus, alicerçada na grande Tradição da Igreja. Em seu comovente testemunho de conversão à fé católica, ele e sua mulher, Kimberly Hahn, contam como foram surpreendidos pela fé bíblica da Igreja, sobretudo na Santa Missa [4]:

[...] Então, subitamente, compreendi que era ali o lugar da Bíblia. Aquele era o ambiente no qual esta preciosa herança de família devia ser lida, proclamada e explicada. Depois passamos à liturgia Eucarística, onde todas as minhas afirmações sobre a Aliança encontravam o seu lugar.

Hahn foi um ferrenho opositor do catolicismo durante anos. Como pastor de linha calvinista, ele pregava “que a Missa católica era o maior sacrilégio que um homem podia cometer" [5]. Essa convicção o motivava a converter o maior número de católicos possível, a fim de retirá-los da idolatria. Seus estudos teológicos, por conseguinte, tinham por objetivo principal refutar cada ensinamento católico, mormente a divina liturgia, a autoridade do papa e a devoção à Virgem Santíssima. Nada que a Igreja Católica ensinasse poderia ser considerado bíblico.

Em 1979, poucos meses após a visita de João Paulo II aos Estados Unidos, Kimberly Hahn apresentou ao marido o livro “Sexo e a aliança matrimonial", de John Kippley, que versava sobre a moral católica e a contracepção. A coerência dos argumentos era tão eloquente, que o casal, embora não admitindo ainda a verdade católica, viu-se obrigado a abandonar os métodos anticoncepcionais. Esse foi o primeiro passo para a reviravolta. Scott Hahn descobrira uma nova maneira de enxergar a Aliança de Deus: ela não era apenas um contrato; Deus queria uma família.

Scott e Kimberly Hahn.

Após o episódio, Scott Hahn deu início a um estudo para fundamentar biblicamente as teses da Sola Fide — doutrina protestante que nega o valor meritório das boas obras — e da Sola Scriptura. Ora, a Sola Fide e a Sola Scriptura são como que duas colunas do protestantismo. Toda a fé protestante tem como ponto de partida esses dois preceitos básicos. A sua fundamentação era, portanto, imprescindível para o pastor. Mas qual não foi sua surpresa ao descobrir que ambas as teses luteranas não possuíam nenhum respaldo das Sagradas Escrituras. De fato, a Igreja Católica estava certa! Com efeito, conforme Scott Hahn se aprofundava em seus estudos, um a um iam caindo os dogmas do protestantismo: a proibição do batismo de crianças, a negação das imagens, o repúdio ao culto mariano etc. Scott iniciava o caminho para a Igreja.

Scott Hanh converteu-se à Igreja Católica na páscoa de 1986, mesmo sob forte oposição de amigos e familiares. Anos mais tarde, seria a vez de sua mulher, Kimberly, buscar a comunhão com a Igreja de Cristo, pedindo o batismo e os demais sacramentos da iniciação cristã. Hoje, ambos ministram palestras em todo o mundo, a fim de esclarecer os fundamentos bíblicos da Igreja Católica, bem como a riqueza de sua liturgia. Graças à sua história de conversão, Scott é considerado o “Martinho Lutero às avessas". Ele descobriu que também a Bíblia leva-nos a Roma.

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Quatro conselhos dos santos para a educação dos seus filhos
Sociedade

Quatro conselhos dos santos
para a educação dos seus filhos

Quatro conselhos dos santos para a educação dos seus filhos

Vão aqui quatro preciosos conselhos dos santos para a educação dos seus filhos. Nem todas são exortações muito agradáveis aos ouvidos, mas com certeza todas serão de grande valor para a sua família.

Equipe Christo Nihil Praeponere11 de Setembro de 2014Tempo de leitura: 6 minutos
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“Como poderão os filhos ser bons, se os pais não prestam? Só por milagre". Com essa frase, Santo Afonso de Ligório resume a grave responsabilidade dos pais na formação da consciência de seus filhos. Como ensinou Nosso Senhor, pelos seus frutos os conhecereis. São muitíssimos os nomes de santos que tiveram pais ou mães igualmente virtuosos: Santo Agostinho e Santa Mônica, São Gregório Magno e Santa Sílvia, Santa Catarina da Suécia e Santa Brígida… e a lista se estende. São verdadeiramente almas gigantes, que só puderam se elevar porque receberam uma educação exemplar de seus pais.

Vão aqui quatro conselhos dos santos para você educar os seus filhos. Nem todas são exortações muito agradáveis aos ouvidos, mas, com certeza todas serão de grande valor para a sua família.

1. Ser obediente a Deus

Se queremos saber mandar, temos primeiro de saber obedecer, procurando impor-nos mais com o amor do que com o temor." (São João Bosco[1])

Antes de impor a autoridade sobre os filhos, é preciso lembrar que há uma autoridade à qual todos os homens devem obedecer. Tanto maior será o respeito dos filhos por seus pais, quanto maior for o respeito destes ao Pai dos céus. O filho que vê o pai trabalhando, tratando com respeito a sua mulher, cuidando das necessidades da casa e rezando - em suma, cumprindo o seu dever de cristão e pai de família -, não só será dócil às suas instruções, como seguirá o seu exemplo, ao crescer. Portanto, em primeiro lugar, o Reino de Deus, isto é, o cumprimento da Palavra. As outras coisas virão por acréscimo.

2. Corrigir por amor, não por ira

Tome-se como regra nunca pôr as mãos num filho enquanto dura a ira ou cólera; espere-se até que se tenha aquietado por completo." (Santo Afonso de Ligório[2])
“Quando, porém, se tornarem necessárias medidas repressivas, e consequentemente a mudança de sistema, uma vez que certas índoles só com o rigor se podem dominar, cumpre fazê-lo de tal maneira que não apareça o mínimo sinal de paixão." (São João Bosco [3])

Os conselhos de Santo Afonso e São João Bosco são o mesmo conselho do Autor Sagrado: “Vós, pais, não provoqueis revolta nos vossos filhos" (Ef 6, 4). Se é verdade que, como adverte o Livro dos Provérbios, “quem poupa a vara, odeia seu filho" (13, 24), também é verdade que toda correção deve ser feita de modo racional e equilibrado, inspirada pelo amor, não pela ira. Caso contrário, também a criança aprende a irar-se, sem que mude de comportamento. Aqui, é importante evitar não só as agressões físicas, mas também os gritos e as palavras exasperadas, que mais servem para intimidar as pessoas que para melhorar o seu caráter.

3. Dar bom exemplo

Os pais estão igualmente obrigados a dar bom exemplo a seus filhos. Estes, principalmente quando pequenos, imitam tudo o que veem, com a agravante de seguirem mais facilmente ao mal, ao qual nos sentimos inclinados por natureza, que o bem, que contraria nossas inclinações perversas. Como poderão os filhos comportar-se irrepreensivelmente, se ouvirem seus pais blasfemar a miúdo, falar mal do próximo, injuriá-lo e desejar-lhe mal, prometer vingar-se, conversar sobre coisas indecentes e defender máximas ímpias, como estas: Deus não é tão severo como dizem os Padres; ele é indulgente com certos pecados, etc.? O que se tornará a filha que ouve sua mãe dizer: É preciso deixar-se ver no mundo e não se enclausurar como uma freira em casa? Que bem se pode esperar dos filhos que veem o pai o dia inteiro sentado na taberna e, depois, chegar bêbado a casa, ou então visitar casas suspeitas, confessando-se uma só vez no ano ou só muito raramente? S. Tomás diz que tais pais, de certo modo, obrigam seus filhos a pecar." (Santo Afonso de Ligório[4])

As palavras de Santo Afonso são suficientemente claras. Aqueles que dão mau exemplo de vida, “de certo modo, os obrigam seus filhos a pecar". Se essa sentença é verdade para o mal, também o é para o bem. Pais que vivem uma vida de oração e virtudes excitarão o coração de seus filhos para o serviço de Deus e das almas. O casal de beatos Luís Martin e Zélia Guérin educou tão bem suas cinco filhas, que todas elas se tornaram religiosas, entre elas Santa Teresinha do Menino Jesus, que é doutora da Igreja.

O pai que, lendo essas linhas, lamentou não ter dado uma boa educação a seus filhos - pois não tinha conhecido Nosso Senhor quando começou a sua família - deve, antes, louvar a Deus pelo conhecimento que agora tem e ainda pode dar a seus filhos, por meio de conselhos. É preciso, agora, buscar a conversão da própria família, sobretudo com uma vida de muita oração e penitência, evitando inquietações e escrúpulos desnecessários, afinal, Deus não nos pede conta daquilo que ignoramos. Uma vez conscientes da Sua vontade, todavia, é importante trabalhar com temor e tremor na própria salvação e na dos outros, sabendo que a quem muito foi dado, muito será cobrado.

4. Agir com prudência e vigilância

“Os pais são os culpados, pois quando se trata de seus cavalos, eles mandam aos cavalariços que cuidem bem deles, e não deixam que cresçam sem serem domados, e desde cedo põem neles freio e outros arreios. Mas quando se trata de seus filhos jovens, deixam-nos soltos por todas as partes durante muito tempo, e assim perdem a castidade, se mancham com desonestidades e jogos, e desperdiçam o tempo com espetáculos imorais. (...)Cuidamos mais de nossos asnos e de nossos cavalos, do que de nossos filhos. O que possui uma mula, se preocupa em encontrar um bom cuidador, que não seja nem rude, nem desonesto, nem ébrio, mas um homem que conheça bem o seu ofício. Todavia, quando se trata de procurar um professor para a alma da criança, contratamos o primeiro que aparece. E, no entanto, não há arte superior a esta. O que é comparável à arte de formar uma alma, de plasmar a inteligência e o espírito de um jovem? Quem professa esta ciência deve proceder com mais cuidado que um pintor ou um escultor ao realizar sua obra." (São João Crisóstomo[5])

São João Crisóstomo viveu no século IV, mas esse conselho é válido sobretudo para os nossos tempos, em que as crianças são entregues a um sistema educacional corrompido, muitas vezes com a displicência dos pais, que querem passar toda a sua responsabilidade de educá-las para o Estado.

“Quando se trata de procurar um professor para a alma da criança, contratamos o primeiro que aparece". Essa sentença convida todos os pais a um exame de consciência: como me relaciono com a escola dos meus filhos? Sei ou procuro saber o que os professores estão passando para eles, quais livros estão sendo usados para a sua instrução e como é o ambiente em que convivem? Em casa, deixo os meus filhos jovens “soltos por todas as partes", deixando que façam o que querem, sem freios e sem disciplina? Converso com eles com frequência, agindo verdadeiramente como pai? O exame deve incluir, evidentemente, o propósito de agir com mais pulso e cuidado na orientação da prole.

É preciso empregar muita diligência nesses exames, pois, como diz Santa Teresinha do Menino Jesus, as crianças “são como uma cera mole sobre a qual se pode depositar tanto as impressões das virtudes como do mal", e os primeiros responsáveis por moldar essas pequenas almas são justamente os pais. A santa religiosa de Lisieux exclamava: “Ah! quantas almas chegariam à santidade se fossem bem dirigidas!..."[6]

Lembremo-nos sempre que Deus pedirá conta daquilo que fizemos com as almas de nossos filhos e peçamos a Sua graça para imitarmos a Sagrada Família de Nazaré, na qual Nosso Senhor cresceu, rodeado de carinho, atenção e amor.

Referências

  1. São João Bosco, Circular sobre os Castigos, 1.
  2. Pe. Saint-Omer, C.Ss.R. (org.), Escola da Perfeição Cristã, p. 161.
  3. São João Bosco, Circular sobre os Castigos, 1.
  4. Pe. Saint-Omer, C.Ss.R. (org.), Escola da Perfeição Cristã, p. 161.
  5. São João Crisóstomo, Homilias sobre o Evangelho de São Mateus, LIX, 7.
  6. Santa Teresinha do Menino Jesus, Manuscrito A, 52v-53r.

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O desejo do homem inscrito no coração de Deus
Espiritualidade

O desejo do homem
inscrito no coração de Deus

O desejo do homem inscrito no coração de Deus

Os santos entenderam bem que, não só o desejo de Deus está inscrito no coração do homem, como o desejo do homem está inscrito no coração de Deus.

Equipe Christo Nihil Praeponere5 de Setembro de 2014Tempo de leitura: 3 minutos
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O Catecismo da Igreja Católica diz que “o desejo de Deus está inscrito no coração do homem"[1]. Não era preciso que essa sentença estivesse em um livro eclesiástico para que as pessoas a reconhecessem como autêntica. Essa verdade, qualquer homem de boa vontade é capaz de perceber, ao lançar um olhar sincero ao seu coração, atravessando as crostas não raras vezes volumosas que o cobrem. Há, no ser humano, um anseio profundo de felicidade, anseio que aponta para o alto, como que dizendo: “Deus existe".

De fato, assim como a sede do corpo aponta para a existência da água, as nossas almas sedentas pelo infinito, pelo transcendente, indicam a existência de algo que vai além da mera matéria, além da estonteante e efêmera confusão deste mundo. É esse anseio que explica o fato de o fenômeno religioso ser uma constante na história. Não há sociedade que tenha crescido sem religião, não há civilização que tenha florescido sem buscar fundamentos no eterno. Por isso o Concílio Vaticano I não hesitou em afirmar que “Deus, princípio e fim de todas as coisas, pode ser conhecido com certeza mediante a luz natural da razão humana a partir das coisas criadas"[2], isto é, “as perfeições invisíveis de Deus, o seu sempiterno poder e divindade, se tornam visíveis à inteligência, por suas obras"[3]. É possível chegar à existência de Deus pelo simples uso da razão.

No entanto, para que se salve, para que dê verdadeiro sentido à sua existência, a razão não é suficiente. Por mais poderosos que sejam os raciocínios humanos, eles não são capazes de redimir o homem ou conceder-lhe a vida eterna. Antes da vinda de Cristo, o homem enfrentava o terrível drama da torre de Babel: pelejava, em vão, na construção de “uma torre cujo cimo atingisse os céus"[4], procurando alcançar o eterno por suas próprias forças.

Vendo os esforços do homem em sua direção, Deus não ficou mudo: falou aos grandes patriarcas do Antigo Testamento e, de modo especial, a Moisés; conduziu o povo que elegeu a uma Terra Prometida, cercando-o de carinho e proteção constantes ao longo da história. Até que “o Verbo se fez carne"[5] e o abismo que separava Criador e criatura foi definitivamente superado, não pelo esforço humano racional, mas pelo próprio Deus: “Muitas vezes e de diversos modos outrora falou Deus aos nossos pais pelos profetas. Ultimamente, nos falou por seu Filho, que constituiu herdeiro universal, pelo qual criou todas as coisas"[6]. Na face de Cristo, então, desvendou-se o enigma do ser humano. Finalmente, o anseio mais profundo dos corações pôde, com Ele – e só com Ele –, ser satisfeito. À primeira inquietude do coração humano passou a somar-se a certeza de que Deus não só instalara nele uma sede, como viera saciá-la plenamente... com o amor.

A força que verdadeiramente move e transforma o mundo é o amor. Todas as chamadas “virtudes" humanas são nada sem o amor. A única coisa que o homem pode fazer sobre a terra, depois da grande misericórdia do Deus que se fez carne para ascender a sua carne aos céus, é responder com generosidade, em todos os momentos de sua vida, à Sua afeição. Depois de olhar para a Cruz e ver o “grande amor com que nos amou"[7], não é possível viver senão em contínua ação de graças, espantados pelo preço tão alto com que Ele nos comprou.

Eis o grande segredo dos santos, a chave certa para entender o sacrifício de suas histórias. Suas vidas não foram nada mais que uma “resposta" generosa ao amor de Deus. Sua existência não foi configurada por um mero corpo de preceitos ou de dogmas – qualquer religião instituída por mãos humanas e mais ou menos estruturada pode oferecer isso –, mas por uma história de amor, mais dramática que a mais terrível das tragédias, e mais encantadora que a mais romântica das estórias.

Essas almas não só entenderam que “o desejo de Deus está inscrito no coração do homem"; descobriram também que o desejo do homem estava inscrito no coração de Deus, desejo que chegou à Cruz, provando que “o amor é forte como a morte"[8].

Quem olha para a Cruz de Cristo deve prostrar-se, prostrar-se e agradecer por ser objeto de tão grande amor e, sentindo dificuldade em amar de volta, escutar o conselho de Santa Teresa de Jesus: “Se ainda não O amais (...), não podeis por vós mesmos chegar a amá-Lo, porque não é de vossa condição; mas, levando-se em conta o muito que Ele vos ama e o quanto vale ter a Sua amizade, passai pelo sofrimento de estar muito na presença de quem é tão diferente de vós"[9].

Referências

  1. Catecismo da Igreja Católica, parágrafo 27
  2. Concílio Vaticano I: Constituição dogmática Dei Filius, 24 de abril de 1870. Cf. Denzinger-Hünermann, n. 3004
  3. Rm 1, 20
  4. Gn 11, 4
  5. Jo 1, 14
  6. Hb 1, 1-2
  7. Ef 2, 4
  8. Ct 8, 6
  9. Santa Teresa de Jesus, Livro da Vida, capítulo 8, n. 5

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Pigmeus do mundo sobrenatural e eterno
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Pigmeus do mundo
sobrenatural e eterno

Pigmeus do mundo sobrenatural e eterno

Se são muitos os males que pesam sobre nossas cabeças, é porque são poucas as almas que procuram se conformar às verdades eternas.

Equipe Christo Nihil Praeponere3 de Setembro de 2014Tempo de leitura: 3 minutos
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Não é preciso muita perspicácia para identificar que a humanidade afunda em uma grave crise. Infelizmente, até o lugar que deveria ser o oásis no deserto de materialismo que se experimenta em nossos tempos se encontra muitas vezes devastado pelo pensamento mundano. Poucas vezes as palavras do profeta foram tão apropriadas: “Se eu saio para os campos, eis os mortos à espada; se eu entro na cidade, eis as vítimas da fome!" [1].

Evidentemente, está a se falar de uma crise de fundo espiritual. O homem contemporâneo é o anômalo que o Papa Pio XII descrevia como “gigante do mundo físico", mas “pigmeu do mundo sobrenatural e eterno" [2].

Várias imagens podem ser usadas para compor esta personagem estranha que é o homem do século XXI. Em outros tempos, por exemplo, era comum o fenômeno das “conversões tardias": pessoas que, após viver muito tempo afastadas de Deus e da Igreja, vendo a passagem dos anos e a proximidade da morte, caíam em si mesmas, tomavam fôlego e procuravam o caminho do Céu. Hoje, experimenta-se a triste realidade das “obstinações tardias": pessoas que, depois de viverem dissolutamente a vida inteira, recobram ânimo no fim da vida... para ofender ainda mais a Deus, dissipando os seus últimos dias no lamaçal do pecado e usando os seus fios de cabelo brancos para aconselhar os outros a fazer o mesmo – bem ao estilo “comamos e bebamos, porque amanhã morreremos" [3].

No outro extremo da pirâmide etária, o quadro também não é muito alentador. O demônio aprendeu muito bem com Platão que “o começo, em todas as coisas, é sempre o mais importante, mormente para os jovens", já que “é sobretudo nessa época que os modelamos e que eles recebem a marca que pretendemos imprimir-lhes" [4]; por isso, destrói a família e aquilo que deveria ser a educação das crianças torna-se a razão de sua queda. Não é raro assistir, por exemplo, até mesmo em programas de televisão, a crianças cantando e dançando músicas indecentes.

Mas, os exemplos se multiplicam. Em um projeto chamado de “genial" por um site jornalístico, uma norte-americana criou um acampamento em que colocava meninos – de 5 a 12 anos – vestidos como meninas e vice-versa. O objetivo era “ajudar famílias e escolas a entenderem mais sobre o assunto relacionado ao universo LGBT". A iniciativa – mais uma das que integram a malfadada “ideologia de gênero" – “gerou uma série de fotos, que por sua vez se tornarão um livro" [5].

Menino desfila vestido de menina. A imagem faz parte de um álbum só para retratar "crianças que não se conformam com o próprio gênero".

O que dizer de uma época em que fotos como essas, com crianças sendo tratadas como cobaias de uma experiência ideológica, são apreciadas a ponto de produzirem um livro? Na ânsia de “agigantar-se" física e materialmente, o homem tem prescindido de sua dimensão espiritual e, como consequência, tem descido mais baixo que a própria natureza.

Investigar as causas da rápida e progressiva degeneração de nosso século é menos urgente que indicar os remédios para a sua salvação. Estes, na verdade, se resumem a um: a graça de Deus. Qualquer esforço humano, sem o auxílio sobrenatural, será em vão. Para isso, é preciso que recuperemos duas coisas sobre as quais pouco se fala ultimamente: oração e penitência.

Essas duas palavras, tão comuns no vocabulário dos antigos, designam, com efeito, as duas armas com as quais a Igreja, desde o começo e em todo o tempo, santifica os seus membros. Por meio da oração, pedem-se a Deus as graças necessárias para amá-Lo; pela mortificação, os nossos corações se alargam para amar mais perfeitamente a Ele.

Se são muitos os males que pesam sobre nossas cabeças, é porque são poucas as bocas que repetem e menos ainda as almas que se conformam às verdades eternas. Que sejamos santos: eis o grande desafio de toda a nossa existência.

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