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A luta de satanás contra o sacerdócio
EspiritualidadeIgreja Católica

A luta de satanás contra o sacerdócio

A luta de satanás contra o sacerdócio

O diabo sabe que a melhor maneira de destruir a Igreja é atacando o sacerdócio.

Equipe Christo Nihil Praeponere8 de Agosto de 2014Tempo de leitura: 4 minutos
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“Para fazer reinar Jesus Cristo no mundo, nada é mais necessário do que um clero santo, que seja, com o exemplo, com a palavra e com a ciência, guia dos fiéis" [1]. Estas são palavras que os Santos Padres não se cansam de repetir ao orbe católico, desde que foram pronunciadas, pela primeira vez, pelo papa São Pio X. De fato, o testemunho de um bom sacerdote é capaz de arrastar centenas de fiéis à Igreja de Cristo, quer por meio da pregação, quer por meio da administração dos sacramentos, quer por meio da obediência às normas eclesiais, como o celibato.

A missão do sacerdote resume-se àquela regra máxima da Igreja, de que falam os santos: Salus animarum suprema Lex – a lei suprema é a salvação das almas. Por isso o Papa Bento XVI, na proclamação do Ano Sacerdotal, em 2009, exortou o clero católico a redescobrir a dimensão eclesial de seu ministério. Somente na comunhão com a Igreja o sacerdote pode atingir aquela santidade necessária “para fazer reinar Jesus Cristo no mundo". Explica-nos o Papa Emérito: “a missão é eclesial, porque ninguém se anuncia nem se leva a si mesmo, mas, dentro e através da própria humanidade, cada sacerdote deve estar bem consciente de levar Outro, o próprio Deus, ao mundo" [2].

Essa realidade não é desconhecida pelo diabo, tampouco por aqueles que fazem as suas vezes na terra, disseminando o joio no meio do trigo. Não é para admirar, por conseguinte, que, no combate à Igreja, o primeiro alvo seja o sacerdócio. “Quando se quer destruir a religião" – observava o santo Cura d'Ars –, “começa-se por atacar o padre" [3]. Com efeito, a primeira tentação demoníaca contra os sacerdotes é a de afastá-los da comunhão eclesial, incentivando-os à dissidência, aplaudindo hereges e ridicularizando aqueles que se submetem de bom grado à autoridade do Santo Padre. Trata-se do primeiro non serviam demoníaco: o não à Igreja.

Os argumentos – ou, no caso, as mentiras – são os mesmos de sempre: o celibato é transformado em símbolo de castração, que fere o direito à sexualidade e leva à pedofilia; o hábito eclesiástico é tachado de indumentária antiquada, que afasta o clero do povo; o padre passa a ser somente o “presidente" da celebração; a obediência a Roma é considerada clericalismo; as normas litúrgicas são suprimidas em nome de uma falsa criatividade; o padre, é dito, não pode ficar preso a “regras de orações medievais"; isto, outros reclamam, não está de acordo com o Concílio Vaticano II; o padre não é sacerdote, mas presbítero; ele tem uma mentalidade pré-conciliar etc. Repetidas ad nauseam pela mídia – e por uma porção de maus teólogos que agem em conluio com ela –, essas ideias perniciosas vão aos poucos minando a identidade do sacerdote, até ao ponto de levá-lo a proclamar o segundo non serviam do diabo: o não a Cristo.

Não é preciso gastar muita tinta, porém, para explicar os erros contidos nestes sofismas. Muito mais sabiamente responderam os santos padres – vivendo a sua vocação de maneira exemplar –, como também o Magistério da Igreja – seja nas encíclicas papais, sejo nos outros inúmeros documentos já publicados a esse respeito. O que é preciso ter em conta é que a luta que se trava contra o sacerdócio é, na verdade, uma luta contra a Pessoa de Jesus Cristo. O padre, não nos esqueçamos, é um Alter Christus (Outro Cristo), dado o caráter impresso em sua alma pelo sacramento da ordem. Por isso, é compreensível a raiva do diabo pela castidade dos sacerdotes – “o mais belo ornamento de nossa ordem", como elogiava São Pio X –, pois ela remete à virgindade de Cristo, que também foi guardada até a morte na cruz [4]. É compreensível o ódio do diabo à batina negra – a “heroica e santa companheira" de Dom Aquino Correa –, porque o luto recorda o sacrifício redentor da cruz, pelo qual a morte foi vencida [5].

O remédio às insinuações diabólicas, por conseguinte, não pode ser outro senão aquele prescrito por Bento XVI, durante o Ano Sacerdotal [6]:

É importante favorecer nos sacerdotes, sobretudo nas jovens gerações, uma correta recepção dos textos do Concílio Ecuménico Vaticano II, interpretados à luz de toda a bagagem doutrinal da Igreja. Parece urgente também a recuperação desta consciência que impele os sacerdotes a estar presentes e ser identificáveis e reconhecíveis quer pelo juízo de fé, quer pelas virtudes pessoais, quer também pelo hábito, nos âmbitos da cultura e da caridade, desde sempre no coração da missão da Igreja.

Enfim, não se há de esquecer a mediação de Nossa Senhora, mãe solícita dos sacerdotes e a inimiga de todas as heresias. Na sua viagem a Fátima, em 2010, o Santo Padre não perdeu a oportunidade de confiar à Virgem, “os filhos no Filho e seus sacerdotes", consagrando-os ao seu Coração Materno, para que cumprissem fielmente a Vontade do Pai [7]. Neste ato, o Papa Bento XVI ensinava ao clero do mundo inteiro que o melhor caminho de santidade e escudo contra o demônio é a intercessão de Nossa Senhora. É também o ensinamento dum outro padre que, não por acaso, muito se assemelha às palavras de São Pio X, ao início deste texto: “foi pela Santíssima Virgem Maria que Jesus Cristo veio ao mundo, e é também por Ela que deve reinar no mundo" [8].

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O demônio odeia a Igreja
Espiritualidade

O demônio odeia a Igreja

O demônio odeia a Igreja

Se o mundo odeia a Igreja, é porque primeiro odiou a sua cabeça. Quem diz não à Igreja, diz não ao próprio Jesus Cristo.

Equipe Christo Nihil Praeponere6 de Agosto de 2014Tempo de leitura: 3 minutos
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O Papa Pio XII ensina que o inimigo, “que se tornou cada vez mais concreto", vociferou três gritos contra Deus. Ao destacar isso, ele lembra que, embora seja uma invenção angélica, o pecado também encontra seus servidores em meio aos homens. Muitos deles, com as suas ideias e atitudes, realmente se revestem de Satanás, semeando o erro e introduzindo a confusão entre as próprias ovelhas do redil de Cristo.

O primeiro grito de que fala o Papa – “Cristo sim, a Igreja não!" [1] – é uma rebeldia conhecida. Embora sua grande manifestação tenha acontecido no século XVI, com Martinho Lutero e os chamados “reformadores" protestantes, essa forma de pensar parece estar na moda hoje em dia. É frequente ler ou ouvir pessoas defendendo que se pregue “mais Jesus, menos religião", como se Nosso Senhor não tivesse verdadeiramente fundado uma só Igreja: “Tu és Pedro e sobre esta pedra edificarei a minha Igreja" [2] e não se tivesse vinculado a ela como a cabeça se vincula ao corpo humano: “Cristo, salvador do Corpo, é a cabeça da Igreja" [3].

O Papa Paulo VI recorda que não é possível amar Cristo sem a Igreja, chamando tal dicotomia de absurda: “Como se poderia querer amar Cristo sem amar a Igreja, uma vez que o mais belo testemunho dado de Cristo é o que São Paulo exarou nestes termos: 'Ele amou a Igreja e entregou-se a si mesmo por ela' (Ef 5, 25)?" [4]. Também o Papa Francisco, em seus discursos e meditações na Casa Santa Marta, tem repetido esse ensinamento. E ainda Pio XII, ao destacar que Jesus podia distribuir as graças “diretamente por si mesmo a todo o gênero humano", ensina que Ele:

“Quis, porém, comunicá-las por meio da Igreja visível, formada por homens, a fim de que por meio dela todos fossem, em certo modo, seus colaboradores na distribuição dos divinos frutos da Redenção. E assim como o Verbo de Deus, para remir os homens com suas dores e tormentos, quis servir-se da nossa natureza, assim, de modo semelhante, no decurso dos séculos se serve da Igreja para continuar perenemente a obra começada." [5]

O grande escândalo que as pessoas experimentam em relação à necessidade da Igreja diz respeito especialmente ao fato de ela, ainda que indefectivelmente santa, possuir em seu seio membros pecadores, que não raras vezes maculam a sua imagem e ação no mundo. Sobre isso, Pio XII explica que, “se às vezes na Igreja se vê algo em que se manifesta a fraqueza humana, isso não deve atribuir-se (...) [senão] àquela lamentável inclinação do homem para o mal". E remata dizendo que, “se alguns de seus membros estão espiritualmente enfermos, não é isso razão para diminuirmos nosso amor para com ela, mas antes para aumentarmos a nossa compaixão para com os seus membros" [6].

À luz disso, é possível entender o significado correto do adágio Ecclesia semper reformanda est. As reformas genuínas brotam dos corações que amam Nosso Senhor, dos espíritos apaixonados de homens e mulheres que não temem renunciar a seus desejos e suas ideias para se configurarem totalmente a Cristo, que é a cabeça da Igreja [7]. É por Ele que acontecem as verdadeiras reformas: se, pelos pecados dos homens, a Igreja está em constante renovação, é sempre por iniciativa divina que ela se renova; se, pelas faltas dos membros, o Corpo fica ferido, é sempre pela ação da graça que acontece a cura.

O agir de Deus, no entanto, se faz necessitado da liberdade humana. Assim como Ele fez depender do fiat de uma Virgem a sua entrada no mundo, faz depender do “sim"de cada um de nós a Sua ação providente. Se destemida e generosamente nos lançamos a esta misteriosa aventura que é a vontade de Deus, santificamo-nos e edificamos a Cidade de Deus; se, ao contrário, mesquinha e covardemente nos fechamos no comodismo de nossos caprichos e veleidades – apegando-nos ciosamente a nós mesmos, para usar a expressão do Apóstolo [8] –, destruímo-nos e regressamos à perecível cidade dos homens, na qual só reinam o erro e a confusão.

Não desanimemos se o demônio odeia a Igreja. Lembremo-nos, antes, da advertência de Nosso Senhor aos Apóstolos: “Se o mundo vos odeia, sabei que primeiro odiou a mim. Se fôsseis do mundo, o mundo vos amaria como ama o que é seu; mas, porque não sois do mundo, (...) o mundo vos odeia" [9].

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Um clero santo para que Cristo reine sobre a Terra
Igreja CatólicaEspiritualidade

Um clero santo para que
Cristo reine sobre a Terra

Um clero santo para que Cristo reine sobre a Terra

Para fazer reinar Jesus Cristo no mundo, nada é mais necessário do que um clero santo, que seja, com o exemplo, com a palavra e com a ciência, guia dos fiéis.

Equipe Christo Nihil Praeponere4 de Agosto de 2014Tempo de leitura: 4 minutos
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São João Maria Vianney, cuja memória litúrgica celebra-se no dia 4 de agosto, costumava se referir ao sacerdócio como “o amor do coração de Jesus". Dizia o santo pároco: “um bom pastor, um pastor segundo o coração de Deus, é o maior tesouro que o bom Deus pode conceder a uma paróquia e um dos dons mais preciosos da misericórdia divina" [1]. Com essas palavras, o Cura d'Ars exprimia aos seus fiéis a importância da existência de sacerdotes para o mundo.

O ministério sacerdotal existe para realizar a mediação entre o Céu e a Terra. Trata-se de uma necessidade sobrenatural, dada a fragilidade do gênero humano, causada pelo pecado. A culpa original fez com que os homens se voltassem contra Deus, por medo de sua presença [2]. Ele, por sua vez, não os abandonou à própria sorte; ao contrário, alentou-os a esperar a salvação eterna, estabeleceu com eles uma aliança e escolheu homens dentre o povo de Israel para oferecer “dons e sacrifícios" pelos pecados. Esse modelo de sacerdócio ministerial duraria até à vinda do Sumo Pontífice, na Nova Aliança, que seria capaz de oferecer o seu sacrifício uma vez por todas, a saber: Jesus Cristo. A superioridade desse Sumo Sacerdote é manifestada nas palavras de São Paulo aos hebreus [3]:

“Tal é, com efeito, o pontífice que nos convinha: santo, inocente, imaculado (...) que não tem necessidade, como os outros sumos sacerdotes, de oferecer todos os dias sacrifícios, primeiro pelos pecados próprios, depois pelos do povo; pois isto o fez de uma só vez para sempre, oferecendo-se a si mesmo"

Na noite de sua paixão, Jesus instituiu a um só tempo os sacramentos da ordem e da Eucaristia; fez a oferta definitiva para a remissão dos pecados da humanidade. Daí procede a relação intrínseca entre sacerdócio e Santa Missa. O sacerdote da Nova Aliança é também vítima e altar. Ele não só oferece o sacrifício como também se entrega em holocausto pela salvação do rebanho. Assim, diferentemente do que ocorria na Antiga Aliança – na qual o sacerdote deveria oferecer sacrifícios todos os dias, “primeiro pelos pecados próprios, depois pelos do povo" –, Ele se oferece a si mesmo, como vítima de expiação, no altar da cruz. E somente um sacerdote “santo e imaculado", como descrevem as Sagradas Escrituras, pode fazer isso uma vez por todas.

Com efeito, o sacramento da ordem, que nasce diretamente da vontade de Cristo – “fazei isto em memória de mim" [4] – perpetua a ação salvífica de Jesus na história. Todo padre é um Outro Cristo. Na administração dos sacramentos, não é a pessoa do padre quem realiza a ação, mas é o próprio Jesus a operar o milagre da transubstanciação – em que o pão e o vinho se convertem em Corpo e Sangue – a perdoar os pecados, a conceder o viático aos enfermos etc. A Igreja ensina que o bispo ou o presbítero preside na pessoa de Cristo Cabeça ( in persona Christi capitis).

Isso explica o porquê de o sacerdócio sempre ter ocupado um lugar privilegiado no imaginário popular. O padre – seja pelas suas vestes, seja pela sua piedade – transmite ao mundo a misericórdia de Deus pelos seus filhos, sobretudo quando procura configurar-se cada dia mais à pessoa de seu Senhor. Dá testemunho disso uma centena de santos sacerdotes, que, ao longo de seu ministério, reconduziram muitos transviados de volta à religião cristã, por meio de suas práticas devocionais e atividades caritativas: São João Bosco, no apostolado com os jovens; Santo Afonso Maria de Ligório, na prática das virtudes morais e evangélicas; São Josemaria Escrivá, na santificação do trabalho; São Pio X, na condução da Igreja à Eucaristia. Desse último, aliás, colhemos estas pias palavras, que dizem muito sobre a importância do ministério sacerdotal: “para fazer reinar Jesus Cristo no mundo, nada é mais necessário do que um clero santo, que seja, com o exemplo, com a palavra e com a ciência, guia dos fiéis" [5].

Exige-se do sacerdote, portanto, uma maior dedicação à sua vocação, ainda mais nestes tempos em que a figura sacerdotal encontra-se tão atacada, seja por uma opinião pública tendenciosa e anticlerical, seja pelos próprios pecados de alguns padres. Se na ação litúrgica, a presença de Cristo é garantida ao sacerdote, de tal forma que mesmo o seu pecado não pode impedir os frutos da graça, “há muitos outros atos em que a conduta humana do ministro deixa traços que nem sempre são sinal de fidelidade ao Evangelho e que podem, por conseguinte, prejudicar a fecundidade apostólica da Igreja" [6]. Neste sentido, faz-se imperioso o apelo de Pio XII [7]:

O caráter sacramental da ordem chancela da parte de Deus num pacto eterno o seu amor de predileção, que exige em troca, da criatura escolhida, a santificação... O clérigo deve ser tido como um eleito entre o povo, cumulado dos dons sobrenaturais e participante do poder divino, numa palavra, um 'outro Cristo'... Já não pertence a si, nem aos parentes e amigos, nem mesmo à sua pátria. Deve consumi-lo um amor universal. Mais ainda, a caridade universal será o seu respiro, os seus pensamentos, a vontade, os sentimentos deixam de ser seus, para serem de Cristo, que é a sua vida.

Da santidade dos padres, depende a salvação das almas. Da santidade dos padres, depende o anúncio da misericórdia cristã. É neste sentido que o Cura d'Ars alertava: “deixai uma paróquia durante vinte anos sem padre, e lá adorar-se-ão as bestas" [8]. Este século é a maior prova disso.

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A liberdade sem a autoridade
Espiritualidade

A liberdade sem a autoridade

A liberdade sem a autoridade

É ilusão demoníaca pensar que a obediência a Deus aprisiona o ser humano, quando é só nos conformando à Sua vontade que seremos realmente livres.

Equipe Christo Nihil Praeponere1 de Agosto de 2014Tempo de leitura: 3 minutos
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Prossegue o Papa Pio XII, em sua reflexão, dizendo que o inimigo também propugnou “a liberdade sem a autoridade" [1].

Sem dúvida, uma das manifestações magisteriais mais importantes sobre a liberdade humana está contida na encíclica Libertas praestantissimum, do Papa Leão XIII. Nela, o Santo Padre recorda que, mais importante que a liberdade, é o modo como ela é exercida:

“O homem pode, com efeito, obedecer à razão, perseguir o bem moral, dirigir-se pelo caminho reto até o fim. Mas o homem pode também seguir uma direção totalmente oposta e, perseguindo enganosas ilusões de bens, perturbar a devida ordem e correr à sua voluntária perdição." [2]

Trata-se de uma constante na história da humanidade: o homem pensa poder ser livre prescindindo de Deus. Ao cair em tentação, Adão e Eva foram seduzidos pela ideia de ser como deuses, sobrepondo sua liberdade à autoridade de Deus, como alguém que procura fazer-se a medida de si próprio.

A sedução do mundo é de que, obedecendo à Palavra de Deus e a mandamentos tidos como difíceis de suportar, estaríamos nos privando da própria liberdade. Assim, a submissão a Deus é comparada, erroneamente, a um sistema de escravidão, no qual a nossa liberdade seria diminuída, quando não totalmente aniquilada.

É verdade que o salmista levanta os seus olhos ao Senhor “como os olhos dos escravos estão fitos nas mãos do seu senhor, como os olhos das escravas estão fitos nas mãos de sua senhora" [3]. E também é verdade que São Luís Maria Grignion de Montfort propõe, para melhor servir a Deus, o método de escravidão a Nossa Senhora. Porém, isso não significa extinguir a nossa própria vontade. É justamente o contrário! Geralmente, as ilusões que chamamos de “a nossa vontade" não são nada mais que as nossas paixões desordenadas, tentando levar-nos... rumo a lugar nenhum. Aponta o Papa Pio XII que “as faculdades inferiores da natureza humana, em consequência da queda do nosso primeiro pai, resistem à reta razão" [4]. E ainda: “Infelizmente, depois do pecado de Adão, as faculdades e as paixões do corpo, estando alteradas, não só procuram dominar os sentidos mas até o espírito, obscurecendo a razão e enfraquecendo a vontade" [5].

Uma pessoa que, por exemplo, contrai determinado vício – que é, mais que um pecado, a “disposição má da alma (...), causada pela frequente repetição dos atos maus" [6] –, ao olhar para dentro de si, percebe que a prática daquele ato, ao invés de libertá-la – como a tenta enganar o demônio –, só a escraviza mais e mais. Então, no fundo do poço do pecado, ela se vê incapaz de deixar determinada conduta, como um dependente químico que não consegue mais viver sem a droga.

Se a sua consciência, no entanto, parece “relaxada" e ela sequer sente remorso pelos atos que comete, resta lembrar que, mais que simplesmente submeter as paixões à razão, é preciso que elas sejam submetidas à reta razão, isto é, à consciência retamente formada, em conformidade com a lei de Deus. Assim como alguém que bebe veneno inevitavelmente faz mal a si mesmo, uma pessoa que usasse o argumento da consciência para fazer algo objetivamente errado, ainda assim se destruiria. Muito se fala hoje sobre não invadir o território “sagrado" da consciência humana. Está certo, mas o terreno da consciência só é sagrado se bem formado; se já foi vilipendiado, deve, por assim dizer, ser consagrado de novo. Assim como uma imagem sacra, se se quebra, precisa ser novamente abençoada.

Por isso, “a liberdade não consiste em cada um fazer o que bem entende" [7]. Isso significaria verdadeiramente a confusão e destruição da sociedade. Remata o Papa Leão XIII:

“Por sua natureza, pois, (...) a liberdade humana supõe a necessidade de obedecer a uma regra suprema e eterna; e esta regra não é outra senão a autoridade de Deus impondo-nos as suas ordenações ou as suas proibições, autoridade soberanamente justa que, longe de destruir ou de diminuir, de qualquer modo, a liberdade dos homens, a protege e a leva à sua perfeição; porque a verdadeira perfeição de todo o ser é tender e atingir o seu fim: ora, o fim supremo, para o qual deve tender a liberdade humana, é Deus." [8]

“O fim supremo, para o qual deve tender a liberdade humana, é Deus". Louvemos a Ele pelo dom do livre-arbítrio. Como preleciona Santo Agostinho, “embora nem toda criatura possa ser feliz (pois não alcançam nem são capazes de tal graça as feras, as plantas, as pedras e coisas assim), a que pode sê-lo não o pode por si mesma, mas por Aquele que a criou" [9]. É ilusão demoníaca pensar que a obediência a Deus aprisiona o ser humano, quando só nos conformando à Sua vontade seremos plenamente felizes, como diz Nosso Senhor no Evangelho: “Conhecereis a verdade e a verdade vos tornará livres" [10].

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