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O Espírito que deixamos do lado de fora
Espiritualidade

O Espírito que deixamos do lado de fora

O Espírito que deixamos do lado de fora

“Eis que estou à porta e bato”, diz o Espírito Santo. Mas e se ninguém lhe ouvir a voz? E se ninguém lhe abrir a porta? Então não acontecerá comunhão alguma e o Espírito… ficará do lado de fora.

Equipe Christo Nihil Praeponere11 de Junho de 2019Tempo de leitura: 6 minutos
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— Ora, se “o Espírito Santo não toca em carne morta”, então você há de convir que estão todos perdidos, não?

— Comecemos por lembrar que essa frase não é nossa, mas de São João d’Ávila, Doutor da Igreja, e nós não temos pretensão alguma de “corrigir” o santo ou sua linguagem.

Não nos custa fazer, todavia, os devidos esclarecimentos, porque a frase, isolada, pode sim gerar confusão. Se, absolutamente, o Espírito Santo não tocasse em carne morta — isto é, nas pessoas que estão vivendo na carne e, de modo mais específico, nas que se encontram afastadas de Deus pelo pecado mortal —, então estaríamos de fato todos perdidos. Afinal de contas, é justamente por ação da graça que os pecadores podem vir à conversão. Não é o esforço do pecador que precede a vinda do Espírito Santo; ao contrário, é a graça que tudo precede, ela vem antes. Por isso, a teologia lhe dá o nome de graça preveniente. Todos os homens recebem de Deus luzes para se converter; a ninguém Ele priva de sua graça suficiente.

Dizer o contrário disso seria pelagianismo ou, na “melhor” das hipóteses, semipelagianismo (mas ambas as ideias estão erradas). É Deus quem opera em nós, diz o Apóstolo, o querer e o fazer (Fl 2, 13). Assim, continuando na analogia da “carne morta”, esta só poderia se vivificar pela ação do Espírito Santo. Sem o toque da graça, nenhuma carne morta pode “ressuscitar”, nenhuma alma em pecado pode se reconciliar com Deus.

Mas voltemos à ideia da graça suficiente, cujo significado, muito simples, é: Deus quer a conversão de todos os homens. Quando o Espírito Santo disse pela boca de São João: “Eis que estou à porta e bato” (Ap 3, 20), é da porta do coração de todos os homens que Ele falava, sem exceção.

Só que existe uma grande diferença — e é isso que muitos não entendem (ou se recusam a entender) — entre o Espírito Santo que está à porta, bate, mas permanece do lado de fora, e o Espírito que está à porta, bate e é convidado a entrar. Deste o Apocalipse continua a dizer: “Se alguém ouvir a minha voz e me abrir a porta, entrarei em sua casa e cearemos, eu com ele e ele comigo” (Ap 3, 20). Mas e se ninguém ouvir a voz do Espírito? E se ninguém lhe abrir a porta? Então não acontecerá comunhão alguma e o Espírito… ficará de fora.

Continuando com a linguagem da porta, poderíamos dizer que o Espírito Santo não “arromba” os corações. A Igreja canta que Ele é hospes animae, não burgator animae; Ele é “hóspede da alma”, e um hóspede só entra num lugar em que é convidado; quem arromba, quem entra sem ser chamado, é ladrão e salteador.

Quando São João d’Ávila, portanto, diz que “o Espírito Santo não toca em carne morta”, ele está se referindo à obstinação daqueles que, dentro de suas casas, vivendo nas obras da carne de que fala o Apóstolo — “fornicação, impureza, libertinagem, idolatria, superstição, inimizades, brigas, ciúmes, ódio, ambição, discórdias, partidos, invejas, bebedeiras, orgias e outras coisas semelhantes” (Gl 5, 19-21) —, não querem deixar os seus pecados, mas ainda assim querem se dizer espirituais, “católicos”... O Espírito está fora; vivendo no pecado grave, essas pessoas escorraçaram o Espírito de suas almas… talvez até lhe dêem algum prato de comida, até lhe façam algum “agrado” — ou seja, talvez até clamem por seu nome, talvez até digam “Senhor, Senhor” — mas o Senhor, no entanto, permanece do lado de fora.

Porque, lembremo-nos das palavras do próprio Cristo:

Nem todo aquele que me diz: Senhor, Senhor, entrará no Reino dos céus, mas sim aquele que faz a vontade do meu Pai que está nos céus. Muitos me dirão naquele dia: Senhor, Senhor, não pregamos nós em vosso nome, e não foi em vosso nome que expulsamos os demônios e fizemos muitos milagres? E, no entanto, eu lhes direi: Nunca vos conheci. Retirai-vos de mim, operários maus (Mt 7, 21-23)!

Com esses versículos, retomamos a ideia do último texto: não bastam os carismas! Esses dons não são nada em comparação com a graça santificante, que nos torna agradáveis a Deus. Pois de nada adianta ter o nome do Senhor nos lábios, de nada adianta clamar pelo Espírito Santo, pregar, expulsar demônios e até fazer milagres em seu nome, se Ele não atravessa a porta de nossa alma e não ceia no íntimo de nosso coração!

É dessa máxima presença de Deus na alma que o Papa Leão XIII fala em sua encíclica Divinum Illud Munus:

Deus está presente e dentro de todas as coisas: “por seu poder, enquanto tudo está sujeito à sua potestade; por sua presença, enquanto tudo está descoberto a seus olhos; por sua essência, enquanto é a causa da existência de todos os seres” (STh I, q. 8, a. 3). No homem, porém, Deus está presente não apenas como nas coisas; mais que isso, é por ele conhecido e amado, pois a mesma natureza nos impele a que espontaneamente amemos, cobicemos e procuremos alcançar o bem. Enfim, Deus, pela sua graça, reside na alma do justo como em templo, de maneira completamente íntima e singular; daí os fortes liames de caridade que estreitissimamente unem a alma a Deus, sobrepujando a amizade do amigo ao melhor dos amigos, e a fazem gozá-lo em delícias inexcedíveis.

Essa admirável união, denominada “inabitação”, não difere, a não ser por sua condição ou estado, daquela que possuem os habitantes do céu na posse beatífica de Deus; e, não obstante seja um efeito realíssimo de toda a Trindade divina: “Viremos a ele e faremos nele nossa habitação” (Jo 14, 23), é, contudo, considerada obra peculiar do Espírito Santo. Porquanto também no homem perverso podemos deparar reflexos do poder e sabedoria de Deus; mas só o justo participa do amor divino, característica do Espírito Santo (Papa Leão XIII, Carta Encíclica Divinum Illud Munus, de 15 mai. 1897, n. 15-16).

O problema é que muitos de nós já não cremos nisso. Não acreditamos mais na distinção entre “justos” e “perversos”, entre peixes bons e maus, entre joio e trigo, entre os que subirão ao Céu e os que descerão ao Inferno (ainda que tenha sido o próprio Senhor a falar de tudo isso). Fomos tomados por uma visão igualitarista não só de sociedade, mas também de salvação. Nossos discursos se limitam a chavões como: “Deus te ama do jeito que você é”, “Deus não condena ninguém”, “Todo o mundo é igual”; nossas pregações parecem mais palestras motivacionais do que sermões religiosos, mais trechos de livros de autoajuda que trechos do Evangelho.

E por quê?

Porque é mais fácil falar o que as pessoas querem ouvir do que pregar o que sempre ensinou a Igreja — a vida sobrenatural! — e, com isso, desagradar as pessoas, incomodá-las e chamá-las à conversão; é mais fácil falar do Espírito que “afaga e consola” que falar do Espírito desprezado, à porta de nossas almas, e que tantos não deixamos entrar por causa de nossas vidas depravadas…!

Para que clamamos pelo Espírito Santo, afinal? Para que fazemos novenas de Pentecostes e cantamos tantos hinos em seu nome? É para que Ele simplesmente venha saciar nossos desejos mundanos, ou é para que Ele venha realmente renovar os nossos corações a fim de nos tornar justos, a fim de nos tornar dignos do Céu?

Paremos de criar ilusões para justificar uma vida levada na carne. Não queiramos igualar as pessoas na mediocridade. Falemos do Céu, falemos da vida eterna, falemos da santidade! Isso irá, sim, separar os homens entre bons e maus, entre justos e injustos… Mas essa “santa desigualdade”, Nosso Senhor não pediu a ninguém, a nenhum apóstolo, que a eliminasse. Ela é simplesmente consequência do livre-arbítrio humano, que pode dizer “sim” ao Espírito ou preferir… a “carne morta”.

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Sagrado Coração: nosso refúgio contra Satanás
Espiritualidade

Sagrado Coração:
nosso refúgio contra Satanás

Sagrado Coração: nosso refúgio contra Satanás

Durante as mais terríveis tentações e ataques diabólicos, o Sagrado Coração de Jesus é um refúgio seguro. Eis aqui sete formas através das quais essa devoção pode nos proteger do pecado e do mal.

Kathleen BeckmanTradução: Equipe Christo Nihil Praeponere18 de Junho de 2021Tempo de leitura: 8 minutos
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“A devoção ao Sagrado Coração de Jesus não é uma devoção nossa. É de Deus. É a devoção de Deus por nós”, escreve o Pe. James Kubicki, SJ, em seu livro A Heart on Fire [“Um Coração em Chamas”, sem tradução para o português]. Ele também nos lembra que a devoção ao Sagrado Coração não começou no século XVII com as revelações a Santa Margarida Maria Alacoque, uma religiosa visitandina — mas começou “antes do tempo, no Coração eterno de Deus”. Essa verdade ajuda-nos a alcançar a feliz redescoberta do amor perfeito de Deus por nós. Deus não precisa receber nosso amor de volta, mas, no mistério da misericórdia divina, Ele deseja nosso amor recíproco. Deus deseja uma comunhão amorosa e duradoura conosco. Embora nossos corações sejam frequentemente instáveis, esquecidos e temerosos, seu coração está voltado atentamente para nós.

Na cultura atual, tão carente de amor, nosso conceito de amor é facilmente distorcido, disperso e destruído. A devoção ao Sagrado Coração de Jesus é uma provisão poderosa contra a destruição do amor autêntico. Cristo está presente, vivo e atuante, e o seu Sagrado Coração entoa uma canção de amor que é exclusivamente pessoal.

O diabo, nosso velho inimigo (cf. Ef 6, 11-13; 2, 1-7, Zc 3, 1-2; 1Ts 2, 18; Ap 12, 10), trama metodicamente a destruição esmagadora do amor autêntico a Deus e ao próximo. A tentação diabólica busca a distorção da imagem de Deus, a dispersão do nosso objetivo eterno e a destruição do amor. Quando a alma experimenta a ausência de amor autêntico, ela prontamente sucumbe à sedução de tentações diabólicas. No ministério da Igreja de libertação e exorcismo, vemos isso com frequência. Um coração em chamas que, com e por amor divino, repele os demônios.

O Catecismo da Igreja (n. 385) aborda a realidade do mal e nossa necessidade de “fixar os olhos da fé naquele que é o seu único Vencedor”:

Deus é infinitamente bom e todas as suas obras são boas. Todavia, ninguém escapa à experiência do sofrimento, dos males existentes na natureza — que aparecem ligados às limitações próprias das criaturas — e, sobretudo, à questão do mal moral. De onde vem o mal? “Eu perguntava de onde vem o mal e não encontrava saída”, diz Santo Agostinho, e sua própria busca sofrida não encontrará saída, a não ser na conversão ao Deus vivo. Pois “o mistério da iniquidade” (2Ts 2, 7) só se explica à luz do “mistério da piedade”. A revelação do amor divino em Cristo manifestou ao mesmo tempo a extensão do mal e a superabundância da graça. Precisamos, pois, abordar a questão da origem do mal fixando o olhar de nossa fé naquele que é o seu único Vencedor.

Quando fixamos nossos olhos e coração no Sagrado Coração de Jesus, percebemos que o coração de Deus é amoroso, onipotente, onisciente e protetor das criaturas amadas. O Sagrado Coração queima com um poder incompreensível para criar o bem e destruir o mal. Nosso foco é sempre o coração eucarístico de Deus, não a obra do diabo. Embora percebamos a batalha espiritual ao nosso redor e sejamos capazes de discernir bem os espíritos, interna e externamente, nossos corações devem comungar com o Sagrado Coração. Durante as terríveis tentações e os piores ataques diabólicos, o Sagrado Coração é um refúgio. Sobretudo na adoração, podemos olhar, rezar, dialogar, revigorar, discernir e ser preenchidos com o combustível da graça, para resistir ao diabo e proclamar a vitória de Cristo.

Proponho a seguir sete formas através das quais a devoção ao Sagrado Coração pode nos proteger do pecado e do mal.

1. Sagrado Coração: Encarnado. — A guerra eclodiu no Céu com a revelação do plano de Deus para a Encarnação do Verbo.

Detalhe da “Queda dos Anjos Rebeldes”, por Luca Giordano.

A rebelião de um terço dos seres angélicos (agora chamados demônios) ocorreu porque eles não aceitariam que o Filho de Deus se tornasse “carne” na forma humilde de uma criatura nascida de uma mulher. A devoção ao Sagrado Coração cultiva o amor encarnado. Honrar o Coração humano de Jesus Cristo, amar o Coração vivo do Verbo encarnado, capacita-nos a imitá-lo no amor ao Pai, a nós mesmos e aos outros. Isso frustra o plano do diabo de nos afastar de nosso Criador com dúvidas de que Deus é impessoal e desinteressado. Nosso coração, unido ao Coração de Cristo, torna-se uma fortaleza impenetrável. E os demônios até podem cercar a fortaleza, mas não podem entrar nela.

2. Sagrado Coração: Eucarístico. — Entramos no drama épico da maior história de amor de todos os tempos através da comunhão com Jesus na Eucaristia. Como os discípulos no caminho de Emaús, reconhecemos Jesus ao partir o pão. Reacender o “espanto” eucarístico é um termo que o Papa João Paulo II usou em sua Encíclica Ecclesia de Eucharistia. Este espanto do coração humano acende o fogo do amor divino dentro de nós. Os demônios desprezam o Anfitrião humilde. De acordo com os santos, os demônios temem os discípulos que vivem uma vida eucarística intencional. O Sagrado Coração é o vaso de onde flui o precioso Sangue que salva vidas. O diabo trabalha incansavelmente para nos manter longe da Sagrada Comunhão. Para consternação dos demônios, que vivem amaldiçoando, a vida eucarística forma uma vestimenta de louvor que abençoa.

3. Sagrado Coração: Revelação. — Jesus Cristo encarnado revela o rosto e o coração de nosso Pai celestial. Precisamos desesperadamente dessa revelação da verdade para saber quem somos: filhos de Deus. Quando aceitamos a revelação de Jesus Cristo, conhecemos nossa dignidade e destino. Isso nos fundamenta na verdade para que, quando o Mentiroso, o Enganador e o Ladrão nos atacar, permaneçamos firmes na revelação da misericórdia de Deus. A devoção ao Sagrado Coração nos ajuda a lembrar a Revelação: o Evangelho do amor. O diabo planeja metodicamente como nos dispersar da Revelação e de sua relevância. Quando o diabo nos tenta para que duvidemos da existência de Deus, ou insinua que Ele é mau ou perverso, podemos voar para a proteção do Sagrado Coração, recordando a revelação do amor divino. Saber quem Deus diz que eu sou me fortalece para resistir às mentiras do diabo.

4. Sagrado Coração: Palavra. — O Papa Bento XVI nos recordou: “Nunca devemos esquecer que toda espiritualidade cristã autêntica e viva se baseia na Palavra de Deus proclamada, aceita, celebrada e meditada na Igreja” (Verbum Domini, n. 121). Desde o início, a Palavra é amor. A criação da humanidade é deliberadamente orquestrada para atrair todas as coisas a Deus, no qual está a satisfação de todos os desejos. Nas Escrituras, lemos sobre a vida de Cristo na terra; seus muitos encontros humanos onde o amor se manifestou. Seu Coração é tocado, Ele chora, cura, serve, dorme, come, reza — Ele entende homens e mulheres. Isso vai contra o demônio, que procura extinguir de nossa consciência a dignidade que nos foi dada por Deus. A Palavra tem um coração de amor infinito, voltado para você e para mim. O diabo odeia essa realidade porque ele vive na solidão e alheio ao amor.

5. Sagrado Coração: Altar de sacrifício. — O Sagrado Coração é um coração para os outros. O Pe. Simon Tugwell, OP, ensina: “A liturgia fielmente celebrada deve ser um itinerário de longo prazo na expansão do coração; torna-nos cada vez mais capazes da totalidade do amor que há no Coração de Cristo”. O sacrifício perfeito do amor de Cristo é perpetuado no altar. Essa é também a proclamação de sua vitória sobre o mal. O diabo, orgulho em pessoa, é desfeito pela humildade de Cristo no altar do sacrifício. Ame sacrifícios; Ele deu sua própria vida. O Sagrado Coração irradia amor que se dirige ao outro: os pobres, esquecidos, doentes e enlutados. Seu Coração morre e ressuscita por nossa causa. Orgulhosos e rancorosos, os demônios invejam o poder de Cristo para salvar por meio do amor sacrificial. Sempre que amamos com sacrifício, nossa armadura espiritual é fortalecida.

6. Sagrado Coração: Reparação. — “A verdadeira devoção ao Sagrado Coração depende de uma compreensão adequada da reparação, um antigo termo teológico que remete à correção, expiação, salvação e redenção”, explica o Pe. Kubicki. Em seu livro Jesus de Nazaré: da entrada em Jerusalém até a Ressurreição, Bento XVI escreveu: “Deus não pode pura e simplesmente ignorar toda a desobediência dos homens, todo o mal da história, não pode tratá-lo como algo irrelevante e insignificante. Uma tal espécie de ‘misericórdia’, de ‘perdão incondicionado’, seria aquela ‘graça a baixo preço’ contra a qual se pronunciou com razão Dietrich Bonhoeffer, diante do abismo do mal do seu tempo”. Cristo pagou a dívida dos pecadores. Mas o pecado continua. Nós, que cremos, podemos nos unir à reparação de Cristo e oferecer nossos sofrimentos e sacrifícios para ajudar a reparar. A devoção ao Sagrado Coração de Jesus nos ajuda a entrar no amor reparador de Cristo. Assim, marcamos território, subtraindo do diabo as tantas almas que ele levaria para o abismo.

7. Sagrado Coração: união com o Imaculado Coração. — A Igreja celebra a festa do Sagrado Coração na sexta-feira e a festa do Imaculado Coração no sábado para nos recordar a unidade que há entre elas. Jesus Cristo e sua Mãe Maria estão unidos na vontade do Pai e não podem ser separados. A devoção e a consagração ao Sagrado Coração de Jesus complementam espiritualmente a devoção ao Imaculado Coração de Maria. Essa união sagrada constitui uma fonte de proteção contra os espíritos malignos. Entre o Sagrado Coração Eucarístico e o Coração virginal e Imaculado, há um espaço reservado para você e para mim, onde nenhum espírito maligno ousa entrar. Permaneçamos sob a proteção amorosa dessa união entre o Sagrado e o Imaculado Coração, onde estamos seguros enquanto caminhamos no vale da morte e do mal.

Essa devoção traz muitos frutos espirituais porque, como escreveu o Papa Bento XVI: “Nosso Deus não é um Deus remoto intangível em sua bem-aventurança. Nosso Deus tem um coração”. E o seu coração? A quem ele pertence?

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Junho, o mês dos irmãos
Santos & Mártires

Junho, o mês dos irmãos

Junho, o mês dos irmãos

“Esta é a verdadeira fraternidade: pela efusão do próprio sangue eles seguiram a Cristo”. Junho pode ser considerado “o mês dos irmãos”, pois nele encontramos um quarteto de mártires fraternos que conquistaram juntos a vida eterna.

Peter KwasniewskiTradução: Equipe Christo Nihil Praeponere18 de Junho de 2021Tempo de leitura: 5 minutos
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Um dos mais belos aspectos da liturgia romana tradicional é o rico calendário de santos que ela nos põe diante dos olhos, ano após ano. 

O calendário do moderno rito papal de Paulo VI, de 1969, removeu mais de 300 santos; ao mesmo tempo, reorientou a celebração da primeira parte da Missa em uma marcha mais regimentada através da Escritura, tornando opcional o uso dos “próprios” que se referiam aos santos. O resultado é uma liturgia que parece muito mais distante e separada do culto aos santos e de seus traços particulares, sem qualquer compensação de nos sentirmos mais próximos e ligados à adoração de Cristo, que é o Rei deles. 

Num paradoxo formidável, a intensa veneração que os santos recebem na Missa em latim — especialmente Nossa Senhora, mencionada dez ou onze vezes, em comparação com as menções no rito de Paulo VI, que vão de uma a quatro — realça de alguma forma a dignidade sublime do Filho de Deus, cuja face os santos contemplam e do qual todos eles são imagem, como heliotrópios seguindo o curso do Sol. O culto aos santos, longe de diminuir o senhorio de Cristo, manifesta antes o seu poder e extensão. Ele é muito maior quando vemos a grandeza da corte que o circunda

Há então, de tempos em tempos, “agrupamentos” especiais dentro da grande companhia dos santos, que encontramos organizados no calendário tradicional pelas misteriosas disposições da divina Providência. Um exemplo é o que eu gosto de chamar “o mês dos irmãos”, junho, onde encontramos um quarteto de irmãos de sangue que conquistaram juntos a vida eterna

Em 9 de junho, celebramos as festas dos santos Primo e Feliciano, assim descritos no Martirológio Romano

Em Nomento, na Sabina, o natalício dos santos Mártires Primo e Feliciano, irmãos, em tempo dos Imperadores Diocleciano e Maximiano. Estes gloriosos Mártires, já avançados em anos passados no serviço do Senhor, depois de suportarem, ora juntos, tormentos iguais e comuns, ora separados um do outro, tormentos diversos e esquisitos, finalmente mortos ambos à espada, por ordem de Promoto, Presidente de Nomento, consumaram o curso de sua feliz peleja; os seus corpos transladados mais tarde para Roma, foram colocados honorificamente na Igreja de santo Estêvão Protomártir, no Monte Célio.

Em 18 de junho, a festa de Santo Efrém, o Sírio, acompanha a comemoração dos santos Marcos e Marceliano, sobre os quais diz o mesmo Martirológio

Em Roma, na estrada Ardeatina, o natalício dos santos Mártires Marcos e Marceliano, irmãos, aos quais, presos e atados a um tronco, por ordem do juiz Fabiano, foram fincados nos pés agudos pregos; mas como não cessassem de louvar a Cristo, foram traspassados com lanças pelos lados, e com a glória do martírio, passaram aos reinos celestiais. 

Se for rezada a Missa para esses irmãos — embora o mais usual seja dizer a Missa de Santo Efrém, que foi adicionada ao calendário mais tarde —, este texto especial de Alleluia é recitado ou cantado: Allelúia, allelúia. Haec est vera fratérnitas, quae numquam pótuit violári certámine: qui, effúso sánguine, secúti sunt Dóminum. Allelúia, “Aleluia, aleluia. Esta é a verdadeira fraternidade, que a espada jamais pôde violar: foi pela efusão do próprio sangue que eles seguiram a Cristo. Aleluia”.

Em 19 de junho, festa de Santa Juliana Falconieri, comemoram-se os santos Gervásio e Protásio: 

Em Milão, os santos Mártires Gervásio e Protásio, irmãos, ao primeiro dos quais tanto tempo o Juiz Astásio mandou açoitar com látegos chumbados, que exalou o último suspiro; ao segundo, depois de espancá-lo com paus, mandou cortar a cabeça. Os corpos destes santos foram encontrados por santo Ambrósio, por divina revelação, banhados no próprio sangue e tão incorruptos como se tivessem sido mortos no mesmo dia; em cuja transladação, um cego, tocando o féretro, recobrou a vista, e muitos, vexados dos demônios, ficaram livres.

Por fim, cai no dia 26 de junho a memória dos santos João e Paulo, aos quais a devoção em Roma era tão forte, que seus nomes se acham no Cânon Romano. O Martirológio nos dá a respeito deles este breve relato: 

Em Roma, no monte Célio, os santos Mártires João e Paulo, irmãos, o primeiro dos quais era mordomo-mor e o segundo primicério de Constância Virgem, filha do Imperador Constantino, e ambos mais tarde, em tempo de Juliano Apóstata, foram mortos à espada e receberam a palma do martírio.

De modo notável, a Coleta desta última festa define uma nova forma de “fraternidade de sangue” que é alcançada pela fé em Cristo, o qual derramou o seu sangue por nós, e pelo derramamento do próprio sangue por Ele: 

Quáesumus, omnípotens Deus: ut nos gemináta laetítia hodiérnae festivitátis excípiat, quae de beatórum Joánnis et Pauli glorificatióne procédit; quos éadem fides et pássio vere fecit esse germános. Per Dóminum nostrum..., “Nós vos pedimos, ó Deus onipotente, que neste dia de festa sintamos a dupla alegria do triunfo dos bem-aventurados Paulo e João, os quais irmanou de verdade a mesma fé e martírio. Por Nosso Senhor Jesus Cristo…”.
“Martírio dos Santos João e Paulo”, de Guercino.

O Gradual da Missa é tomada do Salmo 132: Ecce quam bonum, et quam iucúndum, habitáre fratres in unum, “Vede como é belo e agradável a vida harmoniosa entre irmãos”, e o Alleluia repete o de 9 de junho, em continuidade e complemento à ideia da Coleta: Allelúia, allelúia. Haec est vera fratérnitas, quae vicit mundi crímina: Christum secúta est, ínclyta tenens regna caeléstia. Allelúia, “Esta é a fraternidade verdadeira, que venceu o mundo, seguiu a Cristo e reina agora venturosa na glória do paraíso. Aleluia”.

Uma ironia final deve ser mencionada: muitos dos santos removidos por Paulo VI são santos que nós, católicos romanos, veneramos em comum com os cristãos ortodoxos do Oriente. É o caso de três desses pares de irmãos juninos: Marcos e Marceliano (cuja festa no calendário oriental é em 18 de dezembro), Gervásio e Protásio (celebrados pelo Oriente em 14 de outubro) e João e Paulo (observados no mesmo dia). Um dos mais danosos legados da reforma litúrgica foi, por um lado, o enxerto de elementos “bizantinizantes” estranhos no rito romano e, por outro, o expurgo de elementos genuinamente comuns que sempre estiveram presentes — um golpe tanto contra a fidelidade ao tipo quanto contra a fraternidade eclesiástica.

Haec est vera fraternitas: essa é a verdadeira fraternidade que une os mártires, que une todos os cristãos nos vínculos da fé e do sofrimento, onde quer que eles estejam, seja qual for seu status ou estado de vida. Em uma inversão da lógica do mundo, segundo a qual o sangue é mais espesso do que a água, a religião cristã nos mostra que a água é mais espessa que o sangue: a irmandade espiritual inaugurada pelo Batismo nos une mais profunda e eternamente que os laços da geração biológica e da cultura familiar. Na verdade, é precisamente o Batismo cristão de ambos os cônjuges que faz o seu amor humano natural e o seu ato de geração serem elevados ao nível da caridade e da fecundidade sobrenaturais no sacramento do Matrimônio, e é esse mesmo Batismo, vivido, que torna a família uma imagem da vida que têm em comum os santos no Céu.

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A obra-prima do Artista divino
Espiritualidade

A obra-prima do Artista divino

A obra-prima do Artista divino

Ao contrário dos escultores humanos, Deus não trabalha com matéria morta. Não somos um bloco de mármore ou uma massa de argila sem vida. O divino Artista nos deu a liberdade de corresponder (ou não) aos golpes de seu cinzel e ao suave toque de seus dedos.

Elizabeth A. MitchellTradução: Equipe Christo Nihil Praeponere11 de Junho de 2021Tempo de leitura: 5 minutos
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Dizem que Michelangelo era capaz de ver as figuras que ele esculpia através dos rudes blocos de mármore. Seu trabalho como escultor consistia em libertar a obra de arte da pedra e fazer a imagem vir à tona. Em correspondência praticamente perfeita com o arquétipo na mente de Michelangelo, sua imagem de Nossa Senhora da Piedade (a Pietà), dolente, silenciosa e amorosamente abandonada à Paixão de Nosso Senhor, irradia o poder de uma obra-prima.

O mesmo se dá com as imagens vivas trabalhadas pelo Artista divino.

O Senhor vê através de cada um de nós sua própria esperança pelo cumprimento perfeito de tudo o que Ele nos criou para ser. Para cada ser humano, há um arquétipo divino dentro do coração de Deus. Nós nos tornamos, em maior ou menor medida, a pessoa que Ele nos chamou a ser, e quando correspondemos mais de perto a seu perfeito ideal para nossas vidas, também nos tornamos uma obra de arte.

E há, todavia, uma diferença. Deus, o divino Artesão, não trabalha com matéria inanimada. Não somos um bloco de mármore ou uma massa de argila sem vida. Nosso Senhor infundiu em nós o seu Espírito Santo, deu-nos a liberdade de corresponder (ou não) a seus golpes artísticos. O gênio amoroso de nosso divino Artesão é que Ele trabalha com matéria viva, que respira e possui livre-arbítrio.

Santa Edith Stein trata desta colaboração entre o Artista divino e sua obra de arte viva no poema espiritual I Am Always in Your Midst [“Eu estou sempre em vosso meio”]:

O eterno Artesão… não mexe com matéria morta;
Na verdade, a sua maior alegria criativa é
Que, debaixo de sua mão, a imagem mexe,
Que a vida, para encontrá-lo, se derrama.
A vida que ele próprio colocou dentro dela
E que agora desde dentro lhe responde
Aos golpes de cinzel ou ao suave toque do dedo.
Assim ajudamos Deus em sua obra de arte [1].

“Aos golpes de cinzel ou ao suave toque do dedo”. Nós sabemos os momentos em que o Mestre Artesão nos molda com seu martelo. Já sentimos a natureza dura e contundente dos golpes. Quantas vezes não nos desviamos para evitar sua mira precisa e perfeita! E, então, o seu dedo acaricia. O fino acabamento é acrescentado imperceptivelmente com o menor e mais suave de seus pincéis.

O resultado desta colaboração é o esplendor da alma humana trazida para perto da beleza divina por meio da graça, imagens vivas que declaram o divino Amor ao qual corresponderam, ultrapassando até mesmo as mais impressionantes obras de arte materiais. E nós todos reconhecemos uma tal obra-prima, quando a encontramos.

As imagens vivas que encontrou ao longo de sua conversão chamaram Santa Edith Stein a refletir sobre a origem delas. Em Frankfurt, enquanto pretendia visitar os museus e a catedral, ela se viu paralisada diante de uma mulher que havia simplesmente se ajoelhado para rezar: 

Nós paramos na catedral por alguns minutos e, enquanto olhávamos ao redor com respeitoso silêncio, uma mulher carregando uma cesta de mercado apareceu e se ajoelhou em um dos bancos para rezar rapidamente. Aquilo foi algo inteiramente novo para mim… Jamais pude esquecer isso.

Essa modesta mulher não ficaria sabendo jamais do impacto profundo que seu ato de fé diário teria sobre uma grande mente filosófica à procura da verdade. Não foi um argumento teológico que convenceu Edith Stein da pessoa de Cristo, mas a conversa que ela testemunhou entre uma dona de casa e o seu Senhor.

Antes de entrar na vida religiosa, Edith Stein; antes de entrar na vida definitiva, Santa Teresa Benedita da Cruz.

Mais tarde, a própria Edith Stein se tornaria uma imagem viva, em sua disposição de sofrer o martírio no campo de concentração em Auschwitz. Durante suas horas finais, ela confortava as crianças cujas mães, perturbadas, não conseguiam lhes dar os cuidados convenientes. Conta-se, de fato, que em seus atos de amor e misericórdia ela parecia “uma Pietà viva”, ao carregar aquelas crianças sofridas nos braços, no lugar de Cristo. Com isso, ela dava testemunho pleno de sua fé no Senhor ao qual havia entregado a própria vida.

Nossa Senhora mesma, devotada tão profundamente ao Espírito Santo, viveu como uma obra-prima da Vontade Sacratíssima do Senhor em cada momento de sua vida. Seu Coração sempre foi um com o divino Coração. Sob o seu Imaculado Coração, o Coração divino tomou a carne de um coração humano. Assim, onde quer que estivesse Nossa Senhora, ali a vontade perfeita do Senhor para sua vida se fazia manifesta. Sua entrega fiel e de fé traz os nossos corações ao Coração de seu divino Filho, dispondo-nos a abraçar com total confiança o melhor e mais santo plano de Amor do Pai.

A força de uma tal obra-prima exige uma resposta à altura. Não podemos parar diante do vidro do museu, admirar a imagem e continuar nosso caminho. Precisamos ser mudados interiormente. Escreve Edith Stein: 

Dificilmente haverá um artista que, crendo, não tenha se sentido compelido a retratar Cristo na cruz ou carregando a cruz. Mas o Crucificado exige do artista mais que uma mera representação de sua imagem. Ele exige que o artista, assim como qualquer outra pessoa, o siga: que ele, ao mesmo tempo, se transforme e permita a si mesmo ser transformado numa imagem daquele que carrega a cruz e é crucificado.

Quando nós re-criamos dentro de nossas próprias vidas a verdade e a beleza que a imagem revelou, nós refletimos uma vez mais o majestoso esplendor da magnífica arte de Nosso Senhor. O próprio Cristo mostrou o caminho. Oferecendo a si mesmo aos golpes de martelo do guarda romano no monte Calvário, sua imolação se torna a nossa Redenção. A lança do centurião perfura-lhe o lado, do qual sangue e água jorram como sinal de purificação e da vida de seu Coração glorioso e trespassado, sempre pronto a acolher-nos.

Através dele nós vislumbramos o caminho perfeito. Com Ele, respondemos ao seu chamado, adorando, louvando e correspondendo à graça de sua Santa Cruz, a obra-prima de amor por meio da qual Ele redimiu o mundo.

Notas

  1. The eternal Artist… does not work on dead material; / His greatest creative joy in fact is / That under his hand the image stirs, / That life pours forth to meet him. / The life that he himself has placed within it / And that now answers him from within / To chisel blows or quiet finger stroke. / So we collaborate with God on his work of art. A tradução que fizemos foi feita a partir da versão inglesa do poema.

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Religiosa morta em sacrifício satânico é beatificada pela Igreja
Santos & Mártires

Religiosa morta em
sacrifício satânico é beatificada pela Igreja

Religiosa morta em sacrifício satânico é beatificada pela Igreja

Morta por ódio à fé, a religiosa italiana Maria Laura Mainetti teve seu martírio reconhecido pela Igreja. Ela foi vítima de “três meninas influenciadas por uma seita satânica”. As três haviam recebido aulas de catequese da irmã, quando mais novas.

Carol GlatzTradução: Equipe Christo Nihil Praeponere10 de Junho de 2021Tempo de leitura: 3 minutos
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Uma religiosa brutalmente esfaqueada em um sacrifício satânico foi beatificada como mártir no dia 6 de junho, na cidade do norte da Itália na qual ela servia.

O Papa Francisco exaltou a beatificação da irmã Maria Laura Mainetti, 60 anos, membro da Congregação das Filhas da Cruz, depois de rezar o Angelus no mesmo dia com peregrinos reunidos na Praça de São Pedro:  

[Ela foi] assassinada há vinte e um anos por três meninas influenciadas por uma seita satânica. Que crueldade! Precisamente ela, que amava os jovens mais do que qualquer outra coisa, e que amou e perdoou aquelas mesmas meninas, prisioneiras do mal. A irmã Maria Laura deixa-nos o seu programa de vida: “Fazer cada pequena coisa com fé, amor e entusiasmo”.

A cerimônia de beatificação aconteceu em Chiavenna, na diocese de Como, onde a irmã serviu como professora, catequista e líder de sua comunidade religiosa.

A irmã Maria Laura Mainetti, agora beata.

O Cardeal Marcello Semeraro, prefeito da Congregação para as Causas dos Santos, presidiu a cerimônia de beatificação e a Missa. No altar havia um relicário contendo uma pedra manchada com o sangue da beata; o material foi encontrado no lugar de seu assassinato. 

O Cardeal disse que a religiosa pediu a Deus a graça da “verdadeira caridade”, que significa amar a Deus mais que a si mesmo e ao próximo como a si mesmo.

Nascida em 20 de agosto de 1939, perto de Milão, ela sentiu o chamado à vocação religiosa depois que um padre lhe disse: “Tu deves fazer algo de belo pelos outros”.

Ela começou a dar aulas em 1960, em escolas elementares cuidadas por sua congregação, em diferentes cidades da Itália. Dedicou sua vida a prestar auxílio a pessoas marginalizadas, como dependentes químicos, delinquentes juvenis, miseráveis e prostitutas.

As assassinas da irmã Maria Laura foram três garotas que tiveram aulas de catequese com ela quando mais novas. De acordo com o depoimento que deram ao tribunal, as adolescentes — uma com 16 e duas com 17 anos — queriam sacrificar uma pessoa religiosa a Satanás e escolheram a irmã, ao invés do pároco, por ela ser franzina e mais fácil de atacar.

As três haviam planejado esfaquear a religiosa seis vezes para indicar o número bíblico da Besta, em 6 de junho de 2000, o sexto dia do sexto mês do ano.

Quando a atacaram e capturaram, a religiosa rezou pelas garotas, pedindo a Deus que as perdoasse

As jovens mulheres foram condenadas por homicídio, mas receberam sentenças reduzidas pois o tribunal determinou a sua insanidade parcial à época do crime. Liberadas da prisão, elas receberam novas identidades, passando a viver em cidades diferentes da Itália.

Em junho de 2020, o Papa reconheceu o martírio da irmã Maria Laura Mainetti, por ela sua morte in odium fidei, isto é, “por ódio à fé”. Agora, a canonização da religiosa depende do reconhecimento de um milagre atribuído a sua intercessão.


[Comentário de nossa equipe: Por que “as adolescentes queriam sacrificar uma pessoa religiosa a Satanás”? Porque queriam ajuntar ao crime de homicídio um pecado de sacrilégio. Pode ser que, aos olhos da Justiça secular, essa distinção tenha pouca importância. Mas, para as pessoas envolvidas com o mundo das trevas, ela faz toda a diferença: é um fato que realmente aumenta a gravidade da falta cometida. 

É por essa mesma razão que o furto das espécies eucarísticas consagradas não é um roubo qualquer; que a ofensa feita a um sacerdote é mais grave que a feita a um simples leigo etc. O que é santo, ou o que foi separado para o culto a Deus, tem maior valor. E o que o demônio puder fazer para “manchar” a obra de Deus, profanando as coisas (ou, no caso, as pessoas) consagradas a Ele, ele fará, como se pode ver.

O que deixa os anjos maus sem dúvida ainda mais revoltados, é que até mesmo os atos pecaminosos que eles incitam, no entanto, terminam redundando na glória de Deus e dos seus santos. Foi justamente o caso desta religiosa, agora beatificada pela Igreja. A brutalidade de que ela foi vítima, o perdão que concedeu a seus algozes na hora da morte, o sacrifício que ela, em seu coração, ofereceu a Deus — enquanto suas assassinas pensavam estar favorecendo o reino de Satanás… Tudo não passou de instrumentos nas mãos da divina Providência.

Para saber mais a respeito da ação dos anjos bons e maus, não se esqueça do curso que Pe. Paulo Ricardo está preparando justamente sobre esse assunto: “Anjos e Demônios”.]

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