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Luto por Dom Henrique Soares
Igreja Católica

Luto por Dom Henrique Soares

Luto por Dom Henrique Soares

Momentos de luto, como este, pedem mais oração e silêncio do que palavras. E, no entanto, não podemos deixar de dizer algumas delas, pois a morte de Dom Henrique Soares deixa perplexos a todos nós, católicos do Brasil.

Equipe Christo Nihil Praeponere19 de Julho de 2020Tempo de leitura: 2 minutos
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Momentos de luto, como este, pedem mais oração e silêncio do que palavras. E, no entanto, não podemos deixar de dizer algumas delas... 

A morte de Dom Henrique Soares deixa perplexos a todos nós, católicos do Brasil. Sim, sabemos, estamos sujeitos ao mesmo fim, e ninguém está imune a doença alguma. E, no entanto, quando um dos nossos é vitimado fatalmente pela enfermidade, surpreendemo-nos, abatemo-nos, enlutamo-nos. 

Não é correto dizer que perdemos um grande bispo, porque quem quer que morra no Senhor não se perde, absolutamente. E, no entanto, desde já nos pesa a ausência deste homem tão querido, que com sua fé iluminava o Brasil inteiro, que com sua caridade abrasava os corações todos que o ouviam, seja de perto, em sua diocese, seja de longe, através da internet. 

Pouco depois da notícia de seu falecimento, começaram a circular inúmeros vídeos seus falando da realidade da morte. Em todos eles, muita lucidez, muita serenidade e, sobretudo, muita catolicidade: quem quer que o ouvia pregar tinha a sensação de poder como que tocar com as mãos as verdades da nossa santa religião.

Ainda antes de o coronavírus fazer suas primeiras vítimas no Brasil, ele, que infelizmente viria a ser vitimado pelo mesmo vírus, manifestou em seu Facebook estar bastante consciente do quão maiores são os perigos espirituais: “Que vírus perigosos, estes: o mundanismo, o relativismo, a impiedade, o secularismo, a perda do sentido do sagrado, a imoralidade, a vulgaridade... Vírus que provocam a morte da alma! Sobretudo destes, livre-nos o Senhor nosso Deus!”

Muito nos consola saber que Dom Henrique morreu como viveu: segundo comunicado da família, ele “fez questão de enfatizar, antes da entubação, com a firmeza da sua têmpera e profundidade da sua fé, que estava espiritualmente bem, inteiro, nas mãos de Cristo”. 

Grande esperança nos dão, também, as datas dos últimos acontecimentos da vida de Dom Henrique. Atendendo à súplica que todos fazemos na saudação angélica, a Santíssima Virgem velou pela morte de seu filho com verdadeira delicadeza de mãe: Dom Henrique foi entubado no dia de Nossa Senhora do Carmo e faleceu no dia mariano por excelência: o sábado.

Diante disso, só o que nos resta é repetir as palavras do Apocalipse: “Felizes os mortos que doravante morrem no Senhor. Sim, diz o Espírito, descansem dos seus trabalhos, pois as suas obras os seguem” (14, 13). 

Ditoso Dom Henrique, sim, mas por ora ficam em nós a dor e o abatimento. Ditoso Dom Henrique, sim, mas nem por isso o privemos do consolo das nossas orações: “Dai-lhe, Senhor, o descanso eterno. E que a luz perpétua o ilumine. Requiescat in pace.”

Amém, amém.

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A pandemia e os quatro cavaleiros do Apocalipse
Doutrina

A pandemia
e os quatro cavaleiros do Apocalipse

A pandemia e os quatro cavaleiros do Apocalipse

Pandemia do coronavírus, nuvem de gafanhotos, peste bubônica, guerra civil. Talvez seja o cenário ideal para um filme apocalíptico... mas é só a realidade mesmo. Estaríamos, então, vivendo os momentos finais descritos por São João no livro do Apocalipse?

Equipe Christo Nihil Praeponere15 de Julho de 2020Tempo de leitura: 11 minutos
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Doenças, pragas, ciclones, terremotos, conflitos políticos e sociais. Talvez seja o cenário ideal para um filme apocalíptico... mas é só a realidade mesmo. Desde que os primeiros casos de coronavírus surgiram, em dezembro de 2019, o mundo parece ter mergulhado num abismo sem fundo. Notícias perturbadoras chegam a cada minuto, disseminando pânico, irritação e o que nos leva à seguinte pergunta: estaríamos vivendo os momentos finais da história humana?

Se considerarmos apenas o que fala Jesus, no Evangelho de São Mateus, sobre o fim dos tempos, a resposta é não: “De fato, há de se levantar nação contra nação e reino contra reino. Haverá fome e terremotos em vários lugares. Tudo isso é o começo das dores” (24, 8). Acontecimentos infaustos, por mais graves que sejam, não indicam necessariamente a iminência do Juízo Final. Eles, na verdade, são um aviso de que devemos estar sempre preparados para o retorno de Nosso Senhor, que “virá como um ladrão” (1Pe 3, 10). Por isso, a nossa atenção deveria voltar-se, antes de tudo, para a santificação de nossas almas, a fim de que, quando Ele vier, nos encontre “puros e santos”.

Isso, porém, não quer dizer que não devamos estar atentos aos sinais dos tempos. Se, por um lado, não sabemos que dia será o fim do mundo podemos, por outro, ter certeza de que estamos no “tempo das dores”, na medida em que o cerco se vai fechando contra os filhos da luz, seja por projetos que pretendem nos levar aos tribunais, seja por perseguições explícitas nas ruas. O mundo moderno odeia tanto ou mais o cristianismo quanto um dia o odiou o Império Romano e demais opositores do Evangelho ao longo de dois milênios. As dores da Igreja, de fato, começaram no Calvário, e o que vemos em nossos dias é, por assim dizer, mais um capítulo dramático da grande batalha entre as forças de Deus e a prepotência do diabo. E essa batalha só vai terminar quando se tiver completado o número dos eleitos, pelo que “Ele está usando de paciência para convosco, pois não deseja que ninguém se perca” (1Pe 3, 9).

A “peste”, a “fome” e a “guerra” estão, biblicamente, ligadas à purificação pela qual os homens precisam passar, sobretudo quando aumenta entre eles a iniquidade e a idolatria. E é exatamente essa a condição atual do gênero humano: vemos coisas escandalosas acontecerem onde menos se esperaria. Em razão disso, o respeitado exorcista Pe. Duarte Sousa Lara recomenda, para estes tempos, um sério aprofundamento sobre os textos proféticos e as mensagens de Nossa Senhora, em sintonia com o Magistério da Igreja e os fatos históricos, a partir dos quais todo fiel pode formar um reto juízo sobre o que deve fazer para agradar a Deus e sobreviver às investidas do inimigo. “O coronavírus foi apenas um aperitivo” e, consequentemente, “devemos estar atentos ao que está acontecendo à nossa volta e ao que Deus nos diz”, adverte o sacerdote.

Todo esse quadro traz à tona um dos textos bíblicos mais comentados entre cristãos e não-cristãos: o Apocalipse de São João tem, sem dúvida, uma mensagem impressionante, sendo constantemente citado em livros, filmes, séries e novelas. Embora não seja uma obra propriamente “profética”, ela apresenta tal conjunto de “símbolos”, “imagens” e “exortações”, que é impossível não pensar nela neste estado de calamidade causado pela pandemia. Nesse sentido, e segundo a proposta do Pe. Duarte Sousa Lara, é importante conhecer mais esse texto bíblico, que fala abertamente da “peste”, da “fome” e da “guerra” que se abaterão sobre os homens, como uma “grande tribulação”, em consequência de seus pecados.

A interpretação do Apocalipse. — O livro do Apocalipse (do grego apokálypsis, “revelação”) foi escrito pelo Apóstolo São João, por volta do fim do séc. I, quando ele se encontrava na ilha grega de Patmos, por conta da perseguição de Domiciano. É preciso conhecer bem esse contexto para compreendermos a mensagem do livro. Não se trata de uma obra para anunciar desgraças, mas de uma composição literária que, tendo como pano de fundo o acossamento dos cristãos naquele período, recapitula a história da humanidade e da Igreja por meio de “símbolos” e “imagens”, cujo fio condutor é a luta entre o Cordeiro de Deus e a antiga serpente. Por isso, o livro do Apocalipse é o livro da esperança cristã, porque revela a mão providente de Deus, que governa o mundo e se aproveita até das artimanhas do maligno para conduzir o gênero humano à salvação eterna.

Com efeito, grande parte dos exegetas tende a adotar a “teoria da recapitulação”, proposta pelo dominicano Pe. Ernest-Bernard Allo, no livro Saint Jean, L’Apocalypse, como a mais adequada para interpretar o último livro da Sagrada Escritura. Segundo essa teoria, os números, símbolos e imagens que São João apresenta não se devem entender de forma literal, mas como uma composição literária lógica pela qual o Apóstolo, cujo estilo é o de uma águia sobrevoando a presa, vai encaminhando pouco a pouco o leitor até o destino desejado: a certeza de que Deus está no controle de todas as coisas. “Levando em conta essa peculiaridade de estilo”, explica Dom Estêvão Bettencourt, “podemos dizer que o autor sagrado não expõe os sucessivos acontecimentos concretos da história do cristianismo, mas apresenta a realidade invisível que se vai afirmando constantemente por detrás dos episódios visíveis da história”.

A estrutura que o Apocalipse segue, de maneira geral, é a da descrição por septenários: as sete igrejas, os sete selos, as sete trombetas e as sete taças. O sete é um número que indica perfeição e se refere também à totalidade ou plenitude das coisas mencionadas por São João. A partir do cap. 6, temos o “septenário dos selos”, em que aparecem as figuras dos quatro cavaleiros, cuja simbologia muito nos interessa. É nesse capítulo que São João descreve minuciosamente como Deus atua com relação aos acontecimentos da história humana e como a ação do maligno no mundo, por meio da “peste”, da “fome” e da “guerra”, não é algo absoluto, mas que está limitado pela própria vontade divina, que age silenciosamente para fazer com que tudo concorra para o bem dos que amam a Deus.

Os quatro cavaleiros do Apocalipse. — De início, o coração dos leitores já é consolado pela afirmação de que “o Cordeiro abriu o primeiro dos setes selos”. Toda a mensagem que se segue deve, portanto, ser entendida a partir do alto, porque o Cordeiro é Nosso Senhor. Nessa passagem, temos também a figura do primeiro dos quatro animais — o leão, segundo Ap 4, 7 —, que diz: “Vem”. É tradição interpretar os quatro animais como figuras dos quatro evangelistas, que anunciam a vinda de Cristo. E surge, em resposta ao chamado do primeiro animal, o cavalo branco e seu cavaleiro. “Tinha um arco e foi lhe dada uma coroa”, completa São João, dizendo: “Saiu vencendo, e para vencer ainda mais”.

Destaque de “Morte num cavalo amarelo”, de Benjamin West.

Alguns querem ver nesse cavaleiro branco a imagem do Anticristo. Todavia, uma leitura canônica tende a nos convencer do contrário: o cavaleiro branco é ninguém menos que Jesus glorioso, que desce do Céu para pôr fim às maquinações do inimigo de Deus. O arco que São João menciona aparece no livro das Lamentações, quando o escritor sagrado menciona a fúria do Senhor contra a idolatria de Israel (cf. 2, 4). Também em Deuteronômio se pinta o retrato de Deus como um guerreiro que afia a espada para se vingar de seus inimigos e dar a paga aos que o odeiam (cf. 32, 41). São João tinha um conhecimento profundo do Antigo Testamento, de modo que muitas imagens presentes no Apocalipse são retiradas de lá. Finalmente, a própria revelação de São João, no cap. 19, mostra quem é o guerreiro misterioso: “Vi então o Céu aberto, e apareceu um cavalo branco. Aquele que o montava chama-se Fiel e Verdadeiro: ele julga e combate com justiça” (v. 11).

Após essa visão, São João fala da abertura do segundo selo e do pedido do segundo animal, o touro: “Vem”. Esse pedido não pode ser interpretado como uma súplica por calamidades, mas como a aceitação do plano de Deus, que permite a ação do mal para misteriosamente revelar a soberania do bem. Vem, por isso, o cavalo vermelho, e ao seu cavaleiro é “dado o poder de tirar a paz da terra”. Notem que o poder do cavaleiro não procede dele mesmo. Como na história de Jó, o diabo recebe permissão de Deus para atormentar a humanidade. A cor vermelha indica o derramamento de sangue e as perturbações provocadas pela guerra. É também a cor do dragão (cf. Ap 12, 3) e das vestes da mulher prostituta (cf. Ap 17, 13). A guerra que esse cavaleiro provoca tem mais um caráter de guerra civil que de um conflito entre nações. Como lemos no texto, a sua incitação leva os homens a se matarem uns aos outros.

Do mesmo modo, depois da abertura do terceiro selo, o terceiro animal, o homem, pede e o cavalo preto vem. A este é dada a permissão para atacar as colheitas da primavera (trigo e cevada), mas não as do outono (azeite e vinho). O seu poder, como o do cavaleiro vermelho, é igualmente limitado. Todavia, a cor preta e a balança são símbolos da morte provocada pela fome, que chega em decorrência da guerra e da destruição das plantações.

Outro detalhe do mesmo quadro de Benjamin West.

O último animal, a águia, acompanha a abertura do quarto selo e a vinda do cavalo verde. “O seu cavaleiro era chamado ‘a morte’, e o ‘Hades’ o acompanhava”, diz o texto do Apocalipse. A cor verde é a dos cadáveres em decomposição, dos milhares de mortos, “a quarta parte da terra”, conta São João, “pela espada, pela fome e pela peste”. Com essas figuras, o Apóstolo retoma os três flagelos contra a humanidade rebelde, que a Sagrada Escritura geralmente menciona em diferentes passagens (cf. Lv 26, 23–29; Dt 32, 24s; Ez 5, 17; 6, 11–12; 7, 15; 12, 16).

O desfecho do cap. 6 e o que se segue nos caps. 7 e 8 mostram, finalmente, a diferença entre os que se mantêm fiéis à promessa de Deus e os que renegam a fé diante da calamidade. Estes últimos, “os reis da terra, os epígonos e os chefes militares, os ricos, os poderosos” etc., fogem apavorados, pedindo aos montes para esconderem seus rostos “da face daquele que está sentado no trono e da ira do cordeiro” (6, 15); aqueles, por outro lado, recebem a marca de “servos do Senhor” e saem da “grande tribulação” com suas túnicas lavadas e alvejadas no sangue do Cordeiro. E eles “nunca mais terão fome, nem sede, nem os molestará o sol, nem algum calor ardente”, revela São João, “porque o Cordeiro, que está no meio do trono, será o seu pastor e os conduzirá às fontes das águas da vida” (7, 16–17). Em outras palavras, o cavaleiro branco, que vem para vencer, não permite que nada de mau lhes aconteça, concedendo-lhes a graça para suportarem qualquer tribulação. E o septenário é finalizado com a abertura do sétimo selo e o silêncio contemplativo da corte celeste diante da obra de Deus (8, 1).

O número dos eleitos, 144 mil, é símbolo da universalidade da salvação de Deus, que não faz distinção de pessoas: a Igreja é católica e, por isso, reúne santos dos quatro cantos da terra, das doze tribos de Israel à geração dos doze Apóstolos. Multiplicados um pelo outro e por mil, representam “a multidão imensa, que ninguém podia contar, gente de todas as nações, tribos, povos e línguas”, que estarão de pé no Juízo Final para proclamar: “A salvação pertence ao nosso Deus, que está sentado no trono, e ao cordeiro” (6, 9).

O Apocalipse da pandemia. — Esse “septenário dos selos” é, de acordo com Dom Estêvão Bettencourt, o “mais sóbrio e nítido, que, pode-se dizer, resume o livro inteiro”. A partir desse texto, podemos identificar os quatro cavaleiros que também vieram em nosso tempo, neste momento de pandemia, e fazer a nossa profissão de fé no guerreiro branco, que vem para vencer. Como nos conforta a visão do Apocalipse de São João, pois em cada infortúnio da história humana se esconde um propósito divino, ao qual devemos nos aferrar para sobrevivermos espiritualmente à “grande tribulação” infligida a nós pelas mãos do inimigo de Deus. 

Se esta será objetivamente a última tragédia antes da vinda definitiva de Nosso Senhor é coisa que não podemos saber, nem deve nos interessar tanto quanto a necessidade de formarmos um coração profundamente dócil e conformado ao Sagrado Coração de Jesus. Porque, se não estamos na iminência do Juízo Final, isso não nos exclui da possibilidade imediata de um juízo particular, considerando o grande número de vítimas do coronavírus e de outras pestes.

“Sede sóbrios e vigiai”, aconselha-nos São Pedro. Porque, de fato, o nosso adversário, o diabo, está nos rodeando “como um leão a rugir, procurando a quem devorar”. E é somente “firmes na fé”, certos de que iguais sofrimentos atingem também nossos irmãos pelo mundo, que poderemos, nesta vida, resistir às suas maquinações, sejam elas “guerras”, “pestes” ou “fome” (cf 1Pe 5, 6–11). Ao fim, o que importa é sermos incluídos entre os bem-aventurados que lavam suas vestes no Preciosíssimo Sangue do Cordeiro; só eles “poderão fruir da árvore da vida e entrar na cidade pelas portas” (Ap 22, 14).

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Seria o coronavírus uma punição divina?
Espiritualidade

Seria o coronavírus uma punição divina?

Seria o coronavírus uma punição divina?

Como um Deus bom pode permitir o sofrimento? Deus provoca o sofrimento como punição pelo pecado? O novo coronavírus é o juízo de Deus sobre a humanidade? Para responder a essas perguntas, é preciso considerar primeiro o que é “sofrimento”.

Pe. Dwight LongeneckerTradução: Equipe Christo Nihil Praeponere13 de Julho de 2020Tempo de leitura: 6 minutos
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Teodiceia é o nome que se dá a um dos enigmas centrais da fé. “Se Deus é sumamente bom e onipotente, por que existe o sofrimento? Se ele é sumamente bom, deseja acabar com o sofrimento. Se é onipotente, é capaz de pôr fim ao sofrimento. Portanto, não deve ser sumamente bom nem onipotente”.  

Do ponto de vista de uma lógica de Ensino Fundamental, isso sem dúvida parece razoável. Além disso, sempre me surpreendeu o fato de alguns filósofos e teólogos ainda gastarem energia com esse raciocínio. Por isso, suspeitei que, na verdade, eles não quebram a cabeça com o assunto: trata-se, antes, apenas de uma birra adolescente por terem decidido que não gostam de Deus.

A questão permanece, todavia: “Como um Deus bom pode permitir o sofrimento? Deus provoca o sofrimento como punição pelo pecado? O novo coronavírus é o juízo de Deus sobre a humanidade?”

Para responder à pergunta, temos de analisar, em primeiro lugar, o que é “sofrimento”. Ele poderia ser definido como uma dor de qualquer espécie, e a dor nem sempre é algo ruim — embora faça nos sentir mal. Se você encostar a mão num forno quente, sentirá dor, uma resposta natural para fazê-lo tirar a mão do forno. A dor que você sente em alguma parte do corpo é um sinal de que algo não está bem. Se a parte dianteira do seu carro apresentar alguma oscilação ou ruído, você terá de levá-lo a uma oficina para conserto. Uma dor física é um indicativo de algo semelhante. Algo está errado e precisa ser reparado. Embora esse tipo de dor seja realmente penoso, não se trata de algo mau em si.

Um segundo tipo de sofrimento é aquele que causamos em nós mesmos. Se você beber alguns litros de uísque todos os dias, provavelmente terá uma doença no fígado e outras desordens dolorosas. Da mesma forma, se você fumar ou comer porcaria em excesso, poderá desenvolver doenças físicas decorrentes de suas más escolhas. Se mantiver relações sexuais perigosas, não se surpreenda se contrair alguma doença terrível. Escolhas têm consequências, e boa parte do nosso sofrimento vem de nossas próprias más escolhas. Podemos até nos arrepender, mas não faz sentido queixar-se muito se os únicos culpados somos nós mesmos.

Um terceiro tipo de sofrimento é a dor causada por outras pessoas. Por meio do crime, do abuso, da violência, da ganância e da luxúria nós não fazemos mal somente a nós, mas também a outras pessoas. Deus não pode ser culpado por isso. Ele poderia acabar com o sofrimento que causamos em nós ou nos outros? Tecnicamente, sim, Ele poderia fazê-lo; mas, na realidade, não está obrigado a fazê-lo, pois isso violaria a nossa liberdade. Ele vê todo o sofrimento que causamos em nós e nos outros e o detesta, mas não o evitará sempre e necessariamente. Ele pode, de algum modo, interferir? De algum modo, sim, mas voltarei a esse ponto adiante. 

O quarto de tipo de sofrimento é causado por atos desonestos corporativos. Um governo, uma empresa ou qualquer outro grupo de pessoas pode causar sofrimento por meio de sua legislação ou de suas decisões. Isso pode, em alguns casos, provocar um sofrimento que não se pode especificar e imputar a um agente causal ou resultado particulares. Assim, por exemplo, uma companhia de eletricidade pode instalar linhas elétricas em um bairro e, ao fim e ao cabo, descobrir que viver perto delas aumenta a probabilidade de ter câncer. Outro exemplo é o de uma empresa de alimentos que põe aditivos ou conservantes em seus produtos (algo que parece seguro), quando, na verdade, acumular tais produtos no organismo causa problemas de saúde inesperados. Neste caso, o sofrimento é mais geral, e nós nos expusemos a ele, mas sem malícia ou intenção de cometê-lo. Trata-se do efeito colateral de alguma ação que realizamos, de forma individual ou coletiva.  

O quinto tipo de sofrimento é semelhante ao anterior. É o sofrimento causado por um grupo ou nação como resultado de alguma outra intenção. Assim, um país pode enviar soldados para derrotar um ditador e restaurar a liberdade, mas o preço dessa justiça é o sofrimento generalizado, muitas vezes de inocentes. 

Em todos os exemplos acima, o sofrimento não é causado por Deus, mas por seres humanos de um modo ou de outro. Resta, no entanto, outra categoria de sofrimento: os desastres naturais. Um epidemia, um terremoto, um tsunami ou deficiências congênitas parecem fazer parte da ordem natural. Por que Deus não resolve esses problemas e elimina esse tipo de sofrimento? A resposta cristã sempre foi que o mundo inteiro está “quebrado”. Há nele uma fratura profunda. A ordem natural se encontra decaída, sofre com a desordem e confusão, e nós participamos desta condição desordenada.

Logo, Deus enviou-nos o coronavírus como uma punição? Penso que não. Ao contrário, Ele se aproveita das ocasiões de desastres e catástrofes que ocorrem ao longo da história para nos dar um alerta: lembrarmo-nos da verdadeira natureza da realidade. Quando o sofrimento decorre do pecado, há uma punição, por assim dizer, natural decorrente do próprio pecado; quando o desastre ocorre por meio das vidas desordenadas que levamos, coisas ruins acontecerão. Deus planejou o sistema para funcionar de determinada maneira, e quando nos desviamos do plano original as consequências são terríveis, mas não acho que lá do alto Deus envie raios como castigo.

O que devemos pensar, então, das passagens do Antigo Testamento que parecem retratar um Deus “vingativo”, que envia deliberadamente catástrofes como punição? Creio que a resposta não esteja tanto no caráter de Deus quanto na percepção que nós temos dele. Nos primórdios da nossa relação com Deus, era natural entender esses desastres como castigos intencionais devidos ao pecado. Jesus, no entanto, cumpre a Lei e os Profetas e ensina que essa forma de compreender Deus é parcial. Ele é um Deus de justiça, mas também um Deus de misericórdia, e Jesus revela ao mesmo tempo a justiça e a misericórdia de Deus. Ele de fato julga a humanidade, mas o faz por meio da lei da misericórdia, que é cumprida na justiça dispensada por Ele.

Isso me leva de volta à questão: Deus de algum modo “interfere” em situações de sofrimento? Sim, interfere. Creio que, muitas vezes, Ele interfere para impedir o sofrimento pelo auxílio dos nossos anjos da guarda e pela nossa participação na vontade divina com as nossas orações e sacrifícios. Creio que, muitas vezes, Deus usa nossas orações, de modo que a sua graça é dispensada em situações de sofrimento para nos aliviar e libertar delas. Note-se, contudo, que Ele não viola o nosso livre-arbítrio ao agir assim, porque, neste caso, é o nosso próprio livre-arbítrio que se une à sua vontade onipotente para trazer bondade e graça ao mundo.

Mas há um nível mais profundo de interferência. A cruz nos ensina que, às vezes, Deus não impede o sofrimento humano e nem sempre nos liberta dele. Em vez disso, Ele mesmo mergulha no sofrimento. Não nos tira dele; enfrenta-o conosco. Quando os três jovens judeus foram jogados na fornalha incandescente, o rei viu junto deles uma quarta pessoa. Foi uma “epifania” de Cristo e uma lição sobre a profundidade do sofrimento do próprio Deus encarnado. Ele sente a nossa dor. Suporta as nossas iniquidades. É um homem de dores acostumado à tristeza. 

Que resposta, enfim, temos de dar perante a crise do coronavírus? Com certeza, jejuar e rezar para que Deus nos livre desta situação; ajudar todos os que sofrem, caso tenhamos possibilidade; fazer tudo o que está ao nosso alcance para evitar a disseminação da doença, o sofrimento e a morte, mas também rezar e pedir a Deus força para caminharmos pelo vale da sombra da morte, sabendo que Ele caminha atrás de nós.

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Como um monge começou a reconstruir o Ocidente
Testemunhos

Como um monge
começou a reconstruir o Ocidente

Como um monge começou a reconstruir o Ocidente

Ele restaurou a vida religiosa, reformou a liturgia na França, renovou o canto gregoriano, compilou a obra dos Santos Padres e ainda ajudou a desenvolver a doutrina de dois dogmas da Igreja. Conheça, em breves linhas, a vida de Dom Prósper Guéranger.

R. Jared StaudtTradução: Equipe Christo Nihil Praeponere13 de Julho de 2020Tempo de leitura: 7 minutos
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O último dia 11 de julho, festa de São Bento, também foi aniversário de refundação da Abadia de São Pedro de Solesmes, na França, realizada em 1833 pelo Venerável Dom Prosper Guéranger e outros cinco sacerdotes. 

Você pode se perguntar por que esse evento, para além dos beneditinos, é importante. Solesmes tornou-se um grande centro de renovação para toda a Igreja, e a sua renovação pôs em evidência uma figura de personalidade marcante, que viria a supervisionar as obras. Guéranger (1805–1875), originalmente sacerdote diocesano, viu uma querida igreja local literalmente em ruínas, uma abadia medieval cujos vestígios seriam demolidos, e sentiu um chamado não somente para restaurar o edifício, mas também para começar uma nova vida como monge. A resposta dele, eco da de São Francisco, implicou não apenas a restauração de uma igreja em particular, mas um suporte para a própria Igreja. 

D. Prósper Guéranger, retratado por Claude Ferdinand Gaillard.

As ruínas vistas por Guéranger foram as da Abadia de Solesmes, conhecida por sua estatuária medieval. Essa foi apenas uma pequena parte da destruição geral da Igreja causada pela Revolução Francesa e por Napoleão. O tirano da Córsega havia tratado de promover o extermínio quase completo do monasticismo na Europa porque considerava os contemplativos inúteis para a sociedade. Quando Guéranger foi ordenado sacerdote no início do século XIX, os beneditinos estavam à beira da extinção na França. Ele viria a presidir ao retorno da vida monacal não somente na França, mas também na Europa em geral.

Sem dúvida, é difícil superestimar a influência de Guéranger na Igreja como um todo a partir do século XIX. Além de ressuscitar os beneditinos, ele combateu os remanescentes do galicanismo e do jansenismo, deu início ao movimento litúrgico, preparou o caminho para a declaração dos dogmas da Imaculada Conceição e da infalibilidade papal e instruiu diversas gerações de católicos por meio de sua monumental obra O Ano Litúrgico.  

A oração é a maior dádiva do homem”, diz Guéranger no início de O Ano Litúrgico, obra pela qual provavelmente é mais conhecido. Essa obra dá testemunho do estudo contínuo que Guéranger realizou sobre a liturgia romana e da devoção que nutria por ela. É difícil crer que, quando foi ordenado, Guéranger teve de receber uma permissão especial para celebrar a Missa no rito romano em lugar do então generalizado rito galicano da França. Guéranger defenderia o rito romano com êxito em sua terra natal, mas também o propôs como centro da espiritualidade para os católicos leigos. O Ano Litúrgico serve como guia diário para os católicos rezarem e meditarem as orações da Missa e do Breviário, e também para se envolverem com maior profundidade em cada tempo litúrgico.   

Solesmes também se tornaria o centro da renovação do canto gregoriano. Guéranger explicou que “as grandes impressões da alma tinham de ser cantadas” e que os “cristãos […] não podem se satisfazer em recitar; eles também devem cantar [1]. Para ajudar a Igreja a louvar a Deus por meio do canto, Guéranger começou outra grande obra de reconstrução, dedicando Solesmes à restauração do canto gregoriano. Não foi uma tarefa fácil, já que as melodias e metodologia antigas haviam sido corrompidas a tal ponto, que Guéranger se viu obrigado a reconhecer que o “canto verdadeiro fora esquecido, mutilado, mudado, alterado” [2]. Para resolver o problema, o abade recorreu aos manuscritos medievais e com a ajuda de seus monges iniciou um grande programa de restauração. O projeto atingiu o ápice quando o Papa S. Pio X confiou ao abade Joseph Pottier, protegido de Guéranger, a restauração do canto gregoriano para toda a Igreja, o que teve como resultado a edição vaticana do Graduale Romanum

Como na restauração do canto, Solesmes também foi influente na compilação e promoção de obras dos Padres da Igreja. Guéranger enviou em missão um de seus monges, D. Jean Baptiste François Pitra, pela Europa afora para encontrar manuscritos. Pitra colaborou com J.-P. Migne em sua monumental série Patrologia. Ele também ficou conhecido por seu trabalho arqueológico sobre a Igreja oriental, tendo passado sete meses na Rússia e supervisionado novos livros litúrgicos para os ritos orientais. Pio IX nomeou Pitra cardeal e o designou para o posto de bibliotecário da Biblioteca do Vaticano, confirmando a importância universal da obra de Solesmes

Além do apoio à reforma litúrgica e ao estudo da Patrística, Guéranger desempenhou um papel importante na preparação dos fiéis para a proclamação de dois importantes dogmas no século XIX. O primeiro foi a Imaculada Conceição, proclamado pelo Papa Pio IX em 8 de dezembro de 1854. Quatro anos antes, Guéranger escrevera para o Papa um breve tratado sobre essa doutrina a pedido do núncio papal na França. Ele concluía o tratado com o seguinte argumento: “De tudo quanto estabelecemos até aqui, segue-se a conclusão de que a Imaculada Conceição da Santíssima Virgem é parte da doutrina da Igreja Católica […], e qualquer ataque a esse artigo de fé seria um grave insulto à Esposa de Jesus Cristo” [3].  

D. Guéranger, Abade de Solesmes, em seu leito de morte.

Guéranger não apenas defendeu a doutrina com beleza; a maneira com que ele propôs a solução não foi menos importante. Ele argumentou, especificamente, a favor da autoridade do papado para proclamá-lo. Em vez de precisar da definição de um Concílio ecumênico, “permanece, pois, o juízo do Romano Pontífice, a quem Jesus Cristo confiou um poder tão grande por meio da própria constituição da Igreja, que as decisões de um Concílio ecumênico só possuem valor depois de serem confirmadas por ele” [4]. Guéranger argumentou que um assunto de tal importância deveria apoiar-se na infalibilidade da Igreja, e não em “um elemento humano da fé da Igreja”, isto é, numa tradição não formalizada dogmaticamente [5].   

A solução de Guéranger ao tema da Imaculada Conceição, baseada na autoridade papal, também aprofundou sua contínua oposição ao galicanismo. Ele observou que “essa autoridade soberana e divina foi abalada na França”, mas seria reforçada novamente por meio de uma declaração infalível do Papa sobre a preservação de Maria de toda mancha de pecado [6]. Isso nos leva ao segundo ponto do serviço que Guéranger prestou ao desenvolvimento da doutrina: a infalibilidade papal. Seu livro A Monarquia Papal (sem tradução para o português), publicado em 1869, pouco antes da proclamação do dogma pelo Concílio Vaticano I, foi escrito em resposta a uma obra de dois volumes do bispo de Sura, Henri Maret, teólogo e decano da Universidade de Paris, que havia subordinado a autoridade do Papa à do Concílio ecumênico. Pio IX escreveu um Breve em resposta à obra de Guéranger, dizendo ao autor que, “em Nossa avaliação, o sr. prestou um serviço extremamente útil à Igreja” [7].

Sem dúvida, Guéranger tinha em mente o desenvolvimento da doutrina quando escreveu: “Os fiéis [deveriam] desejar o desenvolvimento do Credo para que possam entrar cada vez mais na posse da verdade” [8]. Como em sua defesa da Imaculada Conceição, Guéranger apresenta uma exposição completa do fundamento da infalibilidade papal, começando com a S. Escritura e perpassando a Tradição para demonstrar que o próprio Magistério anterior dos Pontífices e Concílios estabeleceram as bases para uma nova e definitiva proclamação. Ele também argumenta a favor de um consensus fidelium (communis) sobre a doutrina, do qual são testemunho os teólogos (particularmente os escolásticos), os fiéis e, sobretudo, os santos. Em conclusão, Guéranger procurou superar a cautela um tanto generalizada dos que reconheciam a veracidade da doutrina, mas achavam inoportuna sua proclamação. Mais uma vez, sua resposta se mostrou verdadeira: qual seria o benefício de privar os fiéis de uma profissão e articulação mais plenas da verdade [9]?

A influência do Venerável Guéranger na Igreja de sua época é verdadeiramente espantosa: ele restaurou a vida religiosa, reformou a liturgia na França, renovou o canto gregoriano, compilou a obra dos Padres da Igreja e deu uma importante contribuição ao desenvolvimento da doutrina de dois dogmas! A vida de D. Prosper Guéranger foi, de fato, uma vida de reconstrução da Igreja a partir das ruínas deixadas pela Revolução Francesa e pela longa corrupção do galicanismo que a precedera. Guéranger é, portanto, um modelo para todos nós renovarmos a nossa própria vida espiritual, revitalizarmos a nossa oração litúrgica e aprofundarmos o nosso estudo e fidelidade à doutrina da Igreja. Numa época de grande desintegração, Guéranger pode ser um modelo de reconstrução para todos os fiéis!

Referências

  1. Citado em Solesmes and Dom Guéranger, p. 95.
  2. Id., p. 104.
  3. On the Immaculate Conception, St. Michael’s Abbey Press, p. 119.
  4. Id., p. 115.
  5. Id., p. 120.
  6. Id., p. 117.
  7. The Papal Monarchy, Loreto Press, p. xxiii.
  8. Id., p. 123.
  9. Cf. Id., p. 234.

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