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“Parem, parem diante do Menino”
Espiritualidade

“Parem, parem diante do Menino”

“Parem, parem diante do Menino”

No Natal, nós celebramos o Verbo que se fez carne e veio a este mundo para trazer a paz. Mas a paz do Menino Jesus não é simplesmente uma ausência de conflitos ou um estado de ataraxia. Ela exige um empenho do coração.

Equipe Christo Nihil Praeponere29 de Dezembro de 2020Tempo de leitura: 6 minutos
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A mensagem do Natal não é que a paz virá automaticamente porque Cristo nasceu em Belém; aquele nascimento em Belém foi o prelúdio do nascimento dele em nossos corações por meio da graça, da fé e do amor. A paz pertence só aos que querem tê-la. Se não há paz no mundo hoje, não é porque Cristo não veio; é antes porque não o deixamos entrar (Venerável Fulton Sheen).

A partir da noite bendita de Natal, todos os homens deveriam repetir, antes de dormir, as palavras do profeta Simeão: “Deixai, agora, vosso servo ir em paz, conforme prometestes, ó Senhor. Pois meus olhos viram a vossa salvação, que preparastes ante a face das nações”. A oração das Completas, na Liturgia das Horas, proclama justamente esse hino de louvor e ação de graças pelo Verbo que se fez carne e veio a este mundo para trazer a paz.

A paz do Menino Jesus, porém, não é simplesmente uma ausência de conflitos ou um estado de ataraxia, por assim dizer. Ela exige um empenho do coração. Trata-se, como diz S. Paulo, de uma perseverança na tribulação, que “leva a uma virtude comprovada, e a virtude comprovada desabrocha em esperança” (Rm 4, 4), na certeza de que Deus é capaz de realizar o que prometeu, ou seja, “um novo céu e uma nova terra”, onde não haverá mais morte, nem luto, nem grito, nem dor (Ap 21, 1.4). Por isso, seguimos lutando para preservar o dogma da fé e a lei moral, mesmo quando tudo parece perdido e condenado à desolação. Si vis pacem, para bellum: “Se queres a paz, prepara-te para a guerra”.

Nosso Senhor advertiu, na pregação do Evangelho, que é do coração dos homens, ferido pelo pecado original, que se originam as guerras mundiais ou civis. Porque se uma pessoa não consegue vencer as próprias inclinações egoístas e desordenadas, a chance de ela vir a se rebelar contra o seu irmão é altíssima. Durante a década de 1990, o mundo assistiu horrorizado à guerra fratricida que se desencadeou na região dos Bálcãs, antiga Iugoslávia. Um cenário que parecia ter ficado para trás, depois dos tratados de paz e do julgamento de Nuremberg, voltou a se apresentar com toda a crueldade: campos de concentração para uma “limpeza étnica” e civis mortos nas frentes das câmeras. É que não existe acordo diplomático capaz de apaziguar as paixões humanas se estas não tiverem sido purificadas pela graça.

Nesse contexto, o Papa João Paulo II foi uma das poucas vozes mundiais a dirigir uma palavra de sabedoria aos responsáveis pelas guerras. No dia 18 de dezembro de 1994, quarto domingo do Advento, poucos dias antes do Natal, ele clamou da janela de seu quarto: “Parem, parem diante do Menino”. Quase como um Arcanjo Gabriel, o Santo Padre quis dirigir o olhar dos pastores de seu tempo àquele que veio trazer a paz para os homens de boa vontade. Mas notem a locução adjetiva: homens de boa vontade. A paz do Menino Jesus só é dada a quem faz guerra contra as más inclinações e se detém diante da criança, a fim de contemplá-la. Homens de vontades desenfreadas, por outro lado, são como uma locomotiva que avança loucamente contra tudo o que está em seu caminho. E ela só para quando cai em um precipício, ou seja, no inferno.

Esse clamor do Papa João Paulo II é especialmente oportuno para nossa época também. Após um ano conturbado pela pandemia de Covid-19 e outros problemas, chegamos a dezembro na mesma condição descrita pelo profeta Jeremias: “Esperávamos paz, mas não veio nada de bom, um tempo de cura, e eis o terror” (8, 15). Nos meses de espera por uma solução, populações inteiras se trancafiaram em casa, mas não para contemplar o Menino. Na verdade, apenas um “pequeno resto” manteve como pôde a oração e outras práticas de piedade, mesmo longe dos sacramentos. Os demais, porém, se dedicaram aos prazeres da carne, deleitando-se em lives, séries, comilanças e impurezas, esperando não de Deus, mas do faraó do Egito a libertação e a paz. E o que receberam foi apenas decepção, ansiedade, depressão e medo da tal “segunda onda”, consequências funestas para a saúde mental que já são avaliadas pelos especialistas como uma “pandemia oculta”.

Mas a locomotiva desgovernada, mesmo assim, não quer parar diante do Menino. Ela segue estabanada em busca de um “grande recomeço” para a civilização, em cujo centro não esteja mais Deus nem o ser humano, mas uma pequena elite autoritária que arrogou para si a “salvação do mundo”. E essa elite já não esconde a que veio: é para implantar a “Nova Era”, a “Era de Aquário”, onde todos viverão supostamente livres e em paz para ser e fazer o que quiserem, de mudança de sexo a aborto. Só que essa liberdade virá apenas, insinuam eles, se nós, homens de pouca monta, aderirmos, com religioso obséquio da vontade e da inteligência, a tudo o que disserem e ensinarem as suas instituições mundanas. Do contrário, o coturno e o punho de ferro do Estado nos aguardam.

É claro que essa Babilônia não deve durar mais que uma hora de pé. A ela bem se aplica a advertência do Papa Pio XI aos líderes de sua época: “Os males vão se agravando a cada dia, [...] sobretudo porque as diversas propostas e as repetidas tentativas dos homens de Estado para remediar a situação foram até agora inúteis e inclusive contraproducentes” (Ubi Arcano Dei Consilio, n. 11). O Santo Padre falou essas palavras num contexto diferente do nosso, é verdade, mas do qual podemos tirar lições bem pertinentes, a julgar pelos efeitos negativos da I Guerra Mundial sobre a moral e a religiosidade das pessoas e o modo como os políticos quiseram remediá-los.

Pio XI viu que os homens queriam superar o período anterior construindo uma nova civilização, um “novo normal”, por assim dizer, em cima de acordos frágeis e de uma moral débil, que não tivesse mais Cristo como medida. Por isso, o Papa recordou-lhes as palavras do profeta Isaías: “Aqueles que abandonam o Senhor, perecerão” (1, 28), uma sentença divina verificada em todos os tempos, afirmou o Santo Padre, “mas realizada agora com maior evidência aos olhos de todos”  (Ubi Arcano Dei Consilio, n. 27). Porque os homens que querem construir um mundo sem Deus “fracassam com frequência em todos os intentos realizados para reparar os males e salvar os restos de tantas ruínas” (Id.). Quando olhamos para a forma como as autoridades querem enfrentar a crise atual, com muitos se aproveitando da situação para guerras políticas, ideológicas e, inclusive, biológicas, não nos soam verdadeiramente proféticas essas admoestações do Bispo de Roma? De fato, a única coisa que esses homens conseguem produzir é mais perturbação em vez de paz.

“Sem mim, nada podeis fazer”. Por isso, aproveitando o tempo do Natal, é urgente que atendamos àquele clamor de S. João Paulo II, detendo-nos diante do Menino e deixando que Ele gere em nosso coração “as virtudes comprovadas” e “a esperança que não decepciona”, das quais nos fala S. Paulo (Rm 5, 3-5). Apenas corações virtuosos podem permanecer em paz no interior de suas almas enquanto aguardam pacientemente o triunfo definitivo do Senhor. E são esses corações virtuosos que devem tomar a peito o cuidado pela próxima geração.

Pior que a pandemia de Covid-19 é a pandemia de pecados que se instalou dentro dos homens, dos quais se espera a direção das próximas décadas. Se estes, portanto, e não aqueles corações virtuosos, vierem a assumir o controle dos governos e instituições, devemos nos preparar para um futuro muito sombrio e “a humanidade, que já agora corre grave risco, chegará talvez desgraçadamente, apesar da sua admirável ciência, àquela hora em que não conhecerá outra paz além da horrível tranquilidade da morte” (Gaudium et Spes, n. 82).

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Até quando devemos festejar o Natal?
Liturgia

Até quando devemos festejar o Natal?

Até quando devemos festejar o Natal?

O mundo secular “se prepara” para o Natal meses antes, com decorações extravagantes, comilanças e muitos gastos, e quando chega 26 de dezembro, todos agem como se o Natal tivesse “acabado”, quando ele, na verdade, estava apenas começando.

Peter KwasniewskiTradução: Equipe Christo Nihil Praeponere25 de Dezembro de 2020Tempo de leitura: 6 minutos
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O mundo secular “se prepara” para o Natal — se é que podemos usar esse verbo — meses antes, com decorações extravagantes, comilanças para as festas e muitos gastos; mas, quando chega o dia 26 de dezembro, todos agem como se o Natal tivesse “acabado”. No máximo, permitirá um ou dois dias para se recuperar dos excessos das festividades e depois voltará ao trabalho. Na melhor das hipóteses, as decorações são mantidas até 1.º de janeiro ou um pouco mais tarde, para “adentrar” o novo ano. Depois disso, o período de comemorações termina.

Os católicos, porém, deveriam ter uma concepção totalmente diferente do Natal. O certo seria, antes do nascimento do Senhor, observar o tempo penitencial do Advento, preparando-nos, sem extravagâncias, para a grande festa da sua vinda. Tradicionalmente, as famílias decoravam a árvore de Natal nos dias 23 ou 24, pouco antes do grande dia. Na Missa da vigília, inicia-se, de fato, o Natal do Senhor, que é intensamente celebrado por uma oitava (oito dias, de 25 de dezembro a 1.º de janeiro, quando se recorda sua circuncisão, ou também a conhecida Solenidade de Maria, Mãe de Deus).

Contudo, o tempo do Natal estende-se até a Epifania do Senhor, em 6 de janeiro (o famoso “décimo segundo dia”) e inaugura quarenta dias de festas natalinas, que se encerram em 2 de fevereiro, com a festa de Nossa Senhora das Candeias, ou da Purificação da Bem-aventurada Virgem Maria, também conhecida, por seu título grego, como festa da Apresentação do Senhor. Em outras palavras, há quatro círculos concêntricos de celebração: o Natal, sua Oitava, os doze dias e, por fim, os quarenta dias que se lhe seguem.

Não podemos nos render à abordagem secular que, de certa forma, “celebra” o Natal antes do Natal e não depois, como deveria ser. Precisamos realmente nos esforçar — na maneira como decoramos nossas casas, no modo como guardamos o domingo e os dias de preceito, nas histórias que lemos e nas outras atividades que fazemos em casa — para manter vivo o espírito do Natal, mesmo nesse período de 26 de dezembro a 2 de fevereiro, que, numa visão secular, é uma “baixa temporada” para os negócios. Para nós, o grande “negócio” que podemos fazer, ou o grande “presente” que podemos receber, é celebrar o belíssimo tempo do Natal de maneira digna e festiva! A observância desse tempo litúrgico em nossas vidas torna-se uma contundente catequese contracultural sobre um dos mistérios fundamentais da fé cristã: a Encarnação do Filho de Deus. Esse é o ponto primordial de toda a história universal e da história particular de cada homem, mulher e criança.

Infelizmente, as reformas litúrgicas na Igreja não necessariamente ajudaram as famílias a viver o tempo do Natal tão bem como deveriam. 

“Adoração dos Pastores”, de Juan Bautista Maino.

O primeiro problema foi a abolição total das “comemorações”. Por muitos séculos, a Igreja fez uma observância adequada de vários eventos que eram celebrados ao mesmo tempo, usando um conjunto adicional de preces ou orações durante a Missa (na coleta, nas orações que o sacerdote faz em segredo e na oração pós-comunhão). Assim, como 26 de dezembro é a festa de Santo Estêvão, 27 de dezembro é a de São João e 28 de dezembro é a dos Santos Inocentes, sempre havia — além das orações próprias desses dias — as orações adicionais do Natal, para que os católicos recordassem continuamente que o Natal é uma festa que se estende por oito dias. Hoje, muitas vezes pode parecer que seja uma festa de um dia só.

O segundo problema é a “perda”, para todos os efeitos, da festa da Epifania do Senhor, que, em vez de ser mantida em 6 de janeiro — como fora por milênios no Oriente e no Ocidente —, agora é “colocada” de forma conveniente no domingo mais próximo, a fim de não causar nenhum contratempo ou surpresa em nossa rotina de trabalho. Isso, porém, acaba por neutralizar a celebração da Epifania enquanto um acontecimento especial, igualando-a às demais celebrações dominicais, em vez de reconhecê-la como uma festa de luz que irrompe no mundo “de surpresa”, assim como irrompe em nossas vidas na segunda-feira ou na quinta-feira ou em qualquer que seja o dia, jogando por terra nossa rotina e nos ajustando ao senhorio de Deus sobre o tempo. Através de um dia específico, é como se o Senhor, de fato, estivesse nos “convocando” para sua festa, porque sabe que seremos preguiçosos ou preocupados demais para dela participar.

Nesse sentido, a leitura do texto The Epiphany of Our Lord — “A Epifania de Nosso Senhor” —, do grande liturgista Dom Prosper Guéranger [1], ajuda-nos a apreciar a tremenda magnitude dessa festa, que, por tantas razões, é estupenda e gloriosa. Na verdade, a Epifania compartilha com as festas do Natal, da Páscoa, da Ascensão e de Pentecostes a honra de ser chamada, no Cânon Romano da Missa, de “um dia santíssimo”. É uma festa que devemos comemorar de todo o coração, esperando que um dia as autoridades da Igreja a devolvam ao seu status anterior como um dia sagrado de preceito, a ser observado em 6 de janeiro.

O terceiro problema é a abolição do “tempo da Epifania”, um período de várias semanas após o dia da Epifania do Senhor, que conduzia para o tempo da Septuagésima [2].

Felizmente, todos esses três elementos — as comemorações, o dia da Epifania e o tempo da Epifania — ainda são observados onde quer que a liturgia latina tradicional tenha sido preservada ou retomada. O número de igrejas que seguem o Summorum Pontificum e o número de famílias que moldam suas devoções de acordo com essa liturgia continuam a aumentar.

Devemos manter vivo o espírito natalino, conservando a decoração da casa e as devoções até a festa da Purificação (ou, se o domingo da Septuagésima cair antes de 2 de fevereiro, até o sábado daquele final de semana) [3] ou, pelo menos, até o Batismo do Senhor, tradicionalmente comemorado em 13 de janeiro, o dia da oitava da Epifania. O mesmo se aplica às igrejas católicas: elas não devem ceder à pressão secular, mas conservar suas árvores, grinaldas, luzes e outros sinais de Natal até o dia do Batismo do Senhor, ou até a festa da Purificação. Somos chamados a ser magnânimos, e não medíocres, a fim de seguirmos a exortação de S. Paulo que ouvimos no Domingo Gaudete: “Alegrai-vos sempre no Senhor. Repito: alegrai-vos!” (Fl 4, 4).

O mesmo se aplica à Páscoa e à sua Oitava, bem como à solenidade de Pentecostes e à sua Oitava (nos lugares em que os católicos mantêm sua tradição). De qualquer forma, temos muitas razões para dar o passo extra de tornar essas festas visíveis, alegres e memoráveis. Não precisamos ficar envergonhados se for necessário nos afastarmos dos costumes familiares ancestrais, a fim de “redescobrir” e, até certo ponto, “reinventar” as férias; essa é, em maior ou menor grau, a condição da maioria dos católicos ocidentais que zelam por manter viva a própria fé.

Devemos, pois, aceitar humildemente que temos muito trabalho a fazer e, então, começar a agir, dando um passo de cada vez. Nas devoções e costumes familiares, busquemos introduzir, a cada ano, um desses tempos litúrgicos ou dias festivos dos quais nunca participamos antes e, se tudo correr bem, continuemos no próximo ano. Pensemos em como organizar isso, mobilizando também as crianças mais velhas para ajudar. Certamente, depois de algum tempo, viveremos em nossas famílias os costumes de Natal, Páscoa e Pentecostes com os quais gostaríamos de ter crescido.

Notas

  1. Há também uma versão espanhola deste texto, que pode ser acessada aqui (Nota da Equipe CNP). 
  2. No rito romano tradicional, a Septuagésima é um tempo litúrgico penitencial que compreende as três semanas imediatamente anteriores à Quaresma. Seu nome, “setenta” em latim, refere-se à quantidade (aproximada) de dias que faltam para a Páscoa do Senhor (Nota da Equipe CNP).
  3. Neste ano de 2021, o sábado anterior ao domingo da Septuagésima cai no dia 30 de janeiro (Nota da Equipe CNP).

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Quem não reza, trepida de medo à toa!
Espiritualidade

Quem não reza,
trepida de medo à toa!

Quem não reza, trepida de medo à toa!

Há muitos perigos rondando o mundo, desde vírus microscópicos a globalistas sedentos de poder. Mas quem está na graça de Deus e tem vida de oração, não precisa “trepidar” de medo por nada disso...

Equipe Christo Nihil Praeponere23 de Dezembro de 2020Tempo de leitura: 5 minutos
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Deum non invocavérunt: illic trepidavérunt timóre, ubi non erat timor, “A Deus não invocaram; onde não havia o que temer, trepidaram de temor” (Sl 52, 6) [1]: estas palavras aplicam-se tão bem à atual situação da humanidade, que seria até preciso verificar se não foram escritas pelo salmista como profecia para 2020... 

Brincadeira à parte, na verdade é uma ilusão pensar que as circunstâncias por que estamos passando são absolutamente inéditas. Não somos tão especiais assim: como diz o Eclesiastes, “não há nada de novo debaixo do sol” (1, 9). Além disso, não é sem razão que as Escrituras são inspiradas. O Espírito Santo pensou cada uma de suas linhas atemporais, e na leitura e meditação delas encontramos grande conforto em meio à tribulação [2].

Mas por que dizemos ser estas linhas tão apropriadas? Porque a atual pandemia desencadeou sobre o mundo uma verdadeira onda de terror. Desta não há quem tenha sido poupado. A uns, é o medo da doença e do sofrimento, da solidão e da morte. A outros, é o medo do caos social e econômico, do futuro incerto e nada alvissareiro: fala-se agora de um “Grande Reset” global, uma tentativa de transformar por completo as relações entre as pessoas no mundo pós-coronavírus, e as discussões éticas e políticas sobre vacinas só estão no começo. Motivos para temer, aparentemente, não faltam. 

Ao citar o versículo acima, porém, nossa pretensão não é apontar o dedo aos outros e rir dos seus temores, pois também nós os sentimos. O medo é uma experiência universal, uma reação natural ao mal, que não podemos simplesmente “apagar” de nossa humanidade. Nosso Senhor mesmo, “provado como nós em tudo, exceto no pecado” (Hb 4, 15), experimentou o temor da morte no Horto das Oliveiras, com seu Preciosíssimo Sangue chegando a escorrer da pele como suor (cf. Lc 22, 39-46; STh III 15 7c.).

O problema não é, pois, o medo que sentimos, mas sim o que fazemos dele. O temor não chega a ser reprovável quando é só um sentimento, um frio na espinha ou um arrepio na nuca. Quando ele vai para o coração e passa a ser pensado, alimentado e até “racionalizado”, eis o grande perigo. 

Perigo que se torna ainda maior quando o medo é nutrido por uma alma que não invoca a Deus. Deum non invocavérunt, diz o Autor Sagrado. É interessante observar que, embora este salmo comece fazendo uma clara alusão aos descrentes, a quem hoje chamamos de ateus — Dixit insípiens in corde suo: Non est Deus, “Disse o insensato em seu coração: Deus não existe” (v. 1) —, não são eles os únicos a “trepidar” nesta época de pandemia. O temor e o tremor são hóspedes também dos religiosos, dos cristãos, dos católicos. E para que eles sejam afetados é muito simples: basta que não rezem ou, se rezavam, que deixem de fazê-lo. Receita infalível da desgraça! 

Não estamos falando do Terço ou de uma outra prática de piedade qualquer que, num dia determinado, alguém deixou de rezar, por cansaço ou por alguma eventualidade, não. Estamos falando de um ateísmo prático, de um hábito consolidado de viver como se Deus não existisse, de levar a vida, passar os dias, lidando só com as coisas materiais, correndo atrás apenas do que pode saciar a carne… sem dar a Deus o que é de Deus, sem voltar os olhos para o Céu e reconhecer que tudo o que temos e somos nos vem dele, e de que nosso futuro está, em última instância, nas mãos dele. 

Estamos falando, em suma, da falta (ou da perda) de fé na Providência divina: eis a causa dos temores vãos em que vive grande parte da sociedade. Pois, apesar dos vírus microscópicos que atacam nosso sistema imunológico e dos poderosos globalistas que ameaçam a autonomia das nações, se as pessoas cressem realmente que Deus está no controle de tudo, seria fácil perceber que, para além das aparências, em nenhuma destas coisas há razão para ter medo. Se todos os fios de cabelo de nossa cabeça estão contados, por que temer os perigos deste mundo, que só nos podem atingir o corpo?

Agora, é claro, se a nossa alma não está com Deus, se não estamos em estado de graça, então, sim, temos o que temer. “Tudo concorre para o bem dos que amam a Deus” (Rm 8, 28), mas o mesmo não está garantido aos que não o amam. Dormindo e acordando no pecado mortal, encontramo-nos expostos à maior das desgraças que existe: a condenação eterna. Numa situação assim, tudo é motivo para temor. É por isso que quem vive no pecado nunca está tranquilo: o homem desgraçado pode até ter seguranças neste mundo, pode até ter muitos bens e riquezas, pode até ter uma “saúde de ferro”... Se a morte o apanhar, vai tudo por água abaixo. É por isso que também ele vive a trepidar.

O verbo usado na Vulgata é este mesmo: “trepidar”. Ao escutá-lo, a primeira imagem que nos vem à mente é a de um automóvel. Um carro que trepida onde não devia trepidar — conduzido por bom motorista e em pista regular — certamente está com problema mecânico e deve ser levado à oficina. Pois bem: do mesmo modo, uma pessoa que treme diante das adversidades desta vida precisa se resolver. Se seu problema é o pecado, ela precisa de arrependimento (e de um sacerdote, para se confessar). Se ela está em graça, no entanto, a única coisa que precisa fazer é parar de escutar a voz do inimigo e dar ouvido à palavra de Deus: Non timébis a timóre noctúrno, a sagítta volánte in die, a negótio perambulánte in ténebris: ab incúrsu, et dæmónio meridiáno, “Não temerás sustos noturnos, nem a seta que voa de dia, nem o inimigo que anda nas trevas, nem os assaltos do demônio do meio-dia” (Sl 90, 5-6). 

O remédio para os nossos temores está, portanto, na obediência a Deus e na oração confiante dirigida a Ele. Qui confídunt in Dómino, sicut mons Sion: non commovébitur in ætérnum, qui hábitat in Ierúsalem, “Os que confiam no Senhor são como o monte Sião; nunca será abalado o que habita em Jerusalém” (Sl 124, 1-2).

Notas

  1. Este Salmo reza-se, no antigo Breviarium Romanum, toda quarta-feira, na hora Prima; e na atual Liturgia das Horas, na terça-feira da II Semana do Saltério, hora Sexta.
  2. “Os que se dedicam à oração recebem a ajuda do Senhor, que, por menos que eles se esforcem, lhes dá contentamento para que suportem os sofrimentos” (S. Teresa de Jesus, Livro da Vida, VIII, 8. In: Escritos de Teresa de Ávila. São Paulo: Loyola, 2001, p. 65).

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São Januário, os nossos pecados e os castigos de Deus
Liturgia

São Januário,
os nossos pecados
e os castigos de Deus

São Januário, os nossos pecados e os castigos de Deus

Ninguém é obrigado a crer num sinal como o do sangue de São Januário, em Nápoles. Mas no Deus que recompensa os justos e castiga os maus, neste, sim, estamos obrigados a acreditar, sob pena de deixarmos de ser católicos e vigilantes.

Equipe Christo Nihil Praeponere21 de Dezembro de 2020Tempo de leitura: 16 minutos
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Vimos nesta semana que antecedeu à do Natal algumas pessoas preocupadas com o fato de que o célebre sangue de S. Januário (guardado em um relicário em Nápoles) novamente não se liquefez, como é costume que aconteça no dia 16 de dezembro. A ausência do sinal milagroso — que sói acontecer em outras duas épocas do ano, desde tempos imemoriais — é vista pelos fiéis da região como um presságio de calamidades. Por isso o povo, crente de que o “silêncio” de seu santo padroeiro é devido a seus pecados, põe-se a fazer oração e penitência, invocando a misericórdia de Deus sobre si, sobre sua terra e, em última instância, sobre o mundo inteiro.

Trata-se de uma atitude tipicamente medieval esta (e não usamos o termo em sentido pejorativo): o povo católico, reunido dentro de uma igreja, dirigindo preces e súplicas aos céus, para se ver livre de algum mal iminente. Fenômeno “medieval”, nós o chamamos, porque o homem da Idade Média acreditava nestas coisas: Deus, sua Providência, sua justiça e misericórdia, seus castigos e favores aos homens.

Não incorramos em idealizações indevidas: sabemos que, noutros tempos e lugares, essa religiosidade podia facilmente descambar — como realmente acontecia — para uma credulidade excessiva, quando não para o próprio pecado de superstição. O extremo de nossa época, no entanto, e de nosso mundo, é o oposto: falta-nos o mínimo de fé, o mínimo necessário para nos dizermos católicos, ou para nos identificarmos com os católicos de outras eras e locais. A relíquia do sangue de S. Januário, por exemplo, hoje é facilmente desprezada como um artefato medieval (agora sim, em sentido pejorativo), e as pessoas que dão crédito ao seu caráter milagroso, ou que de algum modo se preocupam com o que a sua não-liquefação prenuncia, são sem mais tachadas de exageradas, fanáticas e adjetivos do gênero.

Mas por que os céticos e os despreocupados estão errados? Porque, seja qual for o estado em que se encontre o sangue milagroso de S. Januário, os fatos que se passam ao nosso redor, as notícias que recebemos nos jornais, o estado de decadência espiritual em que se acha a nossa civilização, são matéria suficiente para que coloquemos nossos joelhos no chão e invoquemos, entre gemidos e súplicas, o auxílio de Deus para nós e nossas famílias. (Só para não deixar demasiado abstrata essa descrição da realidade, consideremos como 2020 começou com Jesus Cristo abertamente humilhado por Satanás em plena Sapucaí, e terminou com uma “celebração ecumênica da maconha” dentro de uma igreja católica em São Paulo.)

É verdade que ninguém é obrigado a crer num sinal como o de Nápoles; mas no Deus que recompensa os justos e castiga os maus, como testemunha toda a história da salvação — do Antigo Testamento até os nossos dias —, neste, sim, estamos obrigados a acreditar, sob pena de deixarmos de ser católicos. Ninguém é obrigado a aceitar a tese (divulgada na internet por alguns bispos e bons teólogos) de que a pandemia de coronavírus é um castigo dos céus pela perversidade dos homens; mas que nossa sociedade vive uma situação sem precedentes de pecado, que clama a justiça de Deus, não são necessários dons especiais para reconhecer: basta ter olhos para enxergar a realidade e um mínimo de fé na divina Providência. 

Só que, aparentemente, a consciência moral e religiosa dos católicos se perdeu em meio às inovações tecnológicas, aos divertimentos e às dissipações das últimas décadas. A expressão “castigo” mesma, que usamos já mais de uma vez ao longo desta matéria, foi há muito abolida do vocabulário católico. E pior: muitos já nem crêem que Deus realmente castigue os pecados dos homens, com alguns chegando ao absurdo de afirmar que o Inferno não existe ou que, se ele existe, está vazio e quase ninguém vai parar lá. 

Em que mundo vivem estes teólogos da salvação universal? No mesmo em que nós. Mas, pelo visto, eles decidiram imputar a Deus a suprema indiferença, disfarçada sob uma aparência falsa de bondade e misericórdia. Comentando sobre isso, escreve o seguinte o Pe. Royo Marín (Dios y su obra, pp. 627-628, tradução e grifos nossos): 

É aterrador contemplar o espetáculo que oferece o mundo em matéria de deveres religiosos. […] A maior parte dos homens não tem para com Deus outra coisa além de frieza, apatia e indiferença […] Chega-se a combater a Deus, a declarar-lhe abertamente guerra. Tenta-se, sem rodeios nem dissimulações, destroná-lo, arrancá-lo de todas as inteligências e de todos os corações. Faz-se burla dele e de suas leis; Ele é desafiado, é provocado impudicamente, é amaldiçoado e blasfemado, é coberto de insultos e impropérios; é culpado por todos os males e desgraças do mundo. É impossível imaginar uma subversão mais total e monstruosa da honradez, do bem e da justiça.

[…] É coisa clara que Deus não pode permanecer indiferente diante deste monstruoso estado de coisas. Impede-lho sua infinita santidade e seu infinito amor. Um Deus que permanecesse indiferente à violação mais descarada de todas as suas leis, que permitisse fossem pisoteados seus direitos sem oposição alguma, não seria digno do nome de Deus. Uma tal atitude não poderia qualificar-se de bondade e de misericórdia, mas de debilidade, negligência e descumprimento das leis indeclináveis da justiça, da verdade e do bem. Tem de castigar, e castiga de fato, inexoravelmente, os delinquentes. A dor é o grande ministro e executor de sua justiça.

Assim é, de fato. E este ensinamento não se põe em questão na verdadeira doutrina católica, como se depreende da leitura de qualquer bom livro de Teologia (consulte-se, por exemplo, o excelente Manual de Teología Dogmática, de Ludwig Ott, p. 95ss) ou catecismo. O de S. Pio X, por exemplo, dá lições como as seguintes (grifos nossos):

317. Que pedimos na sétima petição: Mas livrai-nos do mal? — Na sétima petição: Mas livrai-nos do mal, pedimos a Deus que nos livre dos males passados, presentes, futuros, e especialmente do sumo mal, que é o pecado, e da condenação eterna, que é o seu castigo.

425. É um grande pecado a impureza? — É um pecado gravíssimo e abominável diante de Deus e dos homens; rebaixa o homem à condição dos irracionais, arrasta-o a muitos outros pecados e vícios, e provoca os mais terríveis castigos de Deus nesta vida e na outra.

429. Que devemos fazer para observar o sexto e o nono Mandamentos? — Para bem observarmos o sexto e o nono Mandamentos, devemos invocar frequentemente e de todo o coração a Deus, ser devotos de Maria Virgem, Mãe da pureza, lembrar-nos de que Deus nos vê, pensar na morte, nos castigos divinos, na Paixão de Jesus Cristo, guardar os nossos sentidos, praticar a mortificação cristã, e frequentar os sacramentos com as devidas disposições.

950. Que males causa à alma o pecado mortal? — O pecado mortal: 1.º priva a alma da graça e da amizade de Deus; 2.º fá-la perder o Céu; 3.º priva-a dos merecimentos adquiridos e torna-a incapaz de adquirir novos; 4.º torna a alma escrava do demônio; 5.º fá-la merecer o Inferno e também os castigos desta vida.

Ora, se é assim — e se o castigo divino aparece nos próprios Evangelhos —, o que explica que não se fale mais dele — e até que não se creia mais nele?

Uma das razões para esse silêncio e incredulidade deve ser encontrada no velho adágio católico: lex orandi, lex credendi, “a lei da oração é a lei da fé”. A verdade de que nossos pecados atraem sobre nós a ira de Deus, de que devemos fazer penitência por eles, só deixou de ser crida porque primeiro deixou de ser rezada. Não por todas as pessoas, é claro, porque os livrinhos populares de oração continuaram (e continuam) a nutrir a piedade dos fiéis e a inculcar nas pessoas mais simples a necessidade de reparar os próprios pecados [1]. O que não saiu das mãos e das bocas das senhoras do Apostolado da Oração, no entanto, foi sorrateiramente sonegado à mais importante classe de orantes dentro da Igreja: os sacerdotes, os ministros ordenados, tirados do meio do povo justamente para se unirem a Cristo vítima no altar, oferecendo-se em sacrifício pelo povo. 

Por que dizemos isso? Porque é triste constatar como foram tirados da liturgia reformada após o Concílio Vaticano II elementos que, noutros tempos, protegiam a vida ascética, primeiro dos padres e, depois, de todo o rebanho sob seu cuidado.

Trazemos a seguir dois, apenas dois exemplos, de como a “ira”, a “punição” e a “vingança” de Deus… simplesmente desapareceram da oração católica oficial desde a década de 1970, depois de milênios de cristãos (e, antes deles, de judeus) procedendo de forma completamente diversa em sua oração.

Um expurgo: os salmos imprecatórios

Em primeiro lugar, falemos da omissão dos salmos imprecatórios do Ofício Divino [2]. Todos sabem que a Liturgia das Horas é a oração diuturna da Igreja, constante, perseverante, incessante. A ela aderem religiosos e religiosas, sacerdotes e, (graças a Deus) principalmente após o Concílio Vaticano II, uma multidão de leigos. É a oração litúrgica mais importante que se faz na Igreja depois da Santa Missa. Não sem razão os ministros ordenados, ainda ao se tornarem diáconos, prometem diante de seus bispos rezá-lo com fidelidade — e fazem-no sob pena de pecado mortal (os que ainda acreditam nele, é claro). 

Desde 1970, no entanto, na contramão de dezenove séculos e meio de Igreja Católica, os Salmos não são rezados na sua integridade pelos clérigos do rito romano. Isso porque certos versículos, — e nalguns casos, salmos inteiros — tidos como difíceis e “obscuros”, foram simplesmente expurgados do Divino Ofício. O motivo para a mutilação parecia pastoralmente muito adequado: haveria uma “certa dificuldade de ordem psicológica” (Instrução Geral para a Liturgia das Horas, n. 131) na récita de maldições como as seguintes...

Os pecadores perverteram-se desde o seu nascimento [...].
Deus lhes quebrará os dentes na sua boca;
o Senhor quebrará as queixadas desses leões.
Serão reduzidos a nada como água que passa [...].
Serão destruídos como a cera que se derrete [...].
Alegrar-se-á o justo ao ver a vingança;
lavará as suas mãos no sangue do pecador.
E o homem dirá: Se deveras há recompensa para o justo,
é certo haver um Deus que os julga sobre a terra (Sl 57, 4.7-8.9.11-12).

Ó meu Deus, agita-os como uma roda,
e como uma palhinha diante do soprar do vento.
Como fogo que queima uma selva,
e como chama que abrasa os montes,
assim os perseguirás com a tua tempestade,
e com a tua ira os aterrarás.
Cobre os seus rostos de ignomínia,
e deste modo buscarão o teu nome, Senhor.
Sejam envergonhados e perturbados para sempre, sejam confundidos e pereçam.
E conheçam que te é próprio o nome de Senhor,
e que só tu és o Altíssimo em toda a terra (Sl 82, 14-19).

Ó Deus, não cales o meu louvor,
porque a boca do pecador e a boca do traidor abriram-se contra mim [...].
Sejam abreviados os seus dias, e receba outro o seu ministério.
Fiquem seus filhos órfãos,
E sua mulher viúva.
Andem vagabundos dum lugar para outro os seus filhos,
e mendiguem, e sejam lançados fora das suas habitações [...].
Não tenha quem o ajude, nem haja quem se compadeça dos seus órfãos.
Sejam exterminados todos os seus filhos,
em uma só geração fique apagado o seu nome (Sl 108, 2.8-10.12-13).

Palavras bem pesadas todas estas, é verdade, mas cabe perguntar: se por séculos os judeus e, depois deles, os santos, rezaram esses salmos — e com razão porque, constantes da Sagrada Escritura, são verdadeira Palavra de Deus —, não seria o caso de aprendermos a lê-los da maneira correta, à luz do Evangelho? Por que os católicos do século XXI não podem rezar os salmos imprecatórios dirigindo seu ódio, sua indignação e suas forças vitais contra os demônios, que querem nossa perdição eterna? Ou contra as seduções do mundo, que parecem rodear-nos agora com mais força do que nunca? O primeiro Papa escreve-nos dizendo: “O vosso adversário, o diabo, rodeia como um leão a rugir, procurando a quem devorar”, e ajunta: “Resisti-lhe, firmes na fé” [3]. Ora, de que modo se supõe que devamos resistir a um leão? Com rosas, sorrisos e afagos?

Não, os salmos imprecatórios, se são Palavra de Deus — e nós o cremos —, precisam, sim, ser rezados. Deus os pensou, cada um deles, assim como cada um dos versículos das sagradas páginas — e pensou-os especialmente para momentos como os nossos, onde abundam a covardia e a pusilanimidade, o desânimo e a anemia moral, a fraqueza e a sedição diante do mal. Não se trata de começar uma guerra, mas de saber que nós já estamos em uma, na qual está em jogo nada menos do que a nossa salvação eterna. 

Uma mudança de tom generalizada

Falemos em segundo lugar da mudança de tom que é notável, de modo geral, nas orações litúrgicas atuais, em comparação com o que se rezava antigamente. Devido à atual situação de peste em que nos encontramos, poucos exemplos ilustram tão bem o abrandamento de nossas súplicas a Deus do que a atual Missa in tempore universalis contagii, publicada pela Sagrada Congregação para o Culto Divino em 30 de março como suplemento litúrgico contra a pandemia de Covid-19 (e que pode ser encontrada aqui, em vários idiomas) [4].

Note-se bem o seguinte: não estamos falando aqui de erros teológicos ou de orações más. Os excertos que vamos comentar a seguir são parte de um texto litúrgico legítimo da Santa Igreja, que não só pode como deve ser rezado pelos sacerdotes pedindo a Deus misericórdia nestes tempos difíceis. Nada disso está em questão. Só não podemos fechar os olhos para as discrepâncias alarmantes entre o que a Igreja está rezando em 2020 e o que ela rezava um século atrás, por exemplo, diante da gripe espanhola. 

A antífona de entrada de hoje diz: “Ele suportou as nossas enfermidades e tomou sobre si as nossas dores” (Is 53, 4). Mas o intróito da Missa votiva in tempore mortalitatis, presente no Missal de 1962, rezava o seguinte: 

Recordare, Domine, testamenti tui, et dic Angelo percutienti: Cesset iam manus tua, et non desoletur terra, et ne perdas omnem animam viventem, “Lembrai-vos Senhor, da vossa aliança, e dizei ao Anjo que golpeia: Cesse já a tua mão, e não seja desolada a terra, para que não faças perecer toda alma vivente”. 

É claro, ninguém recriminará o autor da atual Missa contra a peste por ter citado a profecia do Servo Sofredor. Como já dito, não há nada de errado aqui. Mas a convicção de que é o Senhor, em sua Providência, que permite o mal, muitas vezes para nossa correção e salvação, infelizmente é uma verdade da qual poucas vezes ouvimos falar. E, no entanto, ela está presente não só no intróito desta Missa antiga, mas também na sua leitura epistolar, tomada do Livro dos Reis (II 24, 15-19.25), e antífona de ofertório, tomada do livro dos Números (17, 11).

Voltemos, porém, à atual Missa contra pandemias. A longa (e bela) oração de coleta de agora diz: 

Deus eterno e onipotente, nosso refúgio em todos os perigos, olhai benignamente para as nossas aflições e angústias; como filhos, com fé Vos pedimos: concedei o eterno descanso aos que morreram, conforto aos que choram, cura aos doentes, paz aos moribundos, a força aos que trabalham na saúde, a sabedoria aos nossos governantes e a coragem para chegarmos amorosamente a todos glorificando juntos o Vosso Santo Nome. Por Nosso Senhor Jesus Cristo, vosso Filho, que é Deus convosco na unidade do Espírito Santo. Amém.

A coleta do Vetus Ordo, embora mais breve, possui uma mensagem direta e cortante: 

Deus, qui non mortem sed poenitentiam desideras peccatorum: populum tuum ad te revertentem propitius respice; ut, dum tibi devotus exsistit, iracundiae tuae flagella ab eo clementer amoveas. Per Dóminum…, “Deus, que quereis não a morte, mas a penitência dos pecadores: olhai propício para o povo que a vós se volta; para que, enquanto permanece devoto a vós, dele afastes com clemência os flagelos de vossa ira”.

Poderíamos ir adiante e comparar as demais orações das duas Missas para a mesma ocasião, mas estas da coleta são suficientes para nos deixar perplexos. Em ambas há, sem dúvida, um pedido comum a Deus para que “olhe” para nossa situação, se compadeça de nós e mude a nossa sorte. Mas só em uma se vê o reconhecimento humilde do que ensejou tudo aquilo por que estamos passando: o nosso pecado. Ora, é muito mais fácil ver o mal físico e pedir que cesse; exige porém um ato de fé e contrição olhar para ele e dizer: “Com meu pecado, Senhor, eu merecia muito mais do que isso”.

Essa atitude de coração — muito mais do que a linguagem — está ausente não só de muitos textos da liturgia reformada, como também das nossas orações pessoais, das nossas meditações e das nossas catequeses. Quantas vezes os chamados “grupos de oração” não servem senão para as pessoas afagarem os sentimentos feridos umas das outras, ao invés de dirigir a Deus atos de adoração, súplica, ação de graças e propiciação pelos pecados — que é como deve ser a prece de todo católico? 

Precisamos resgatar, com urgência, a consciência de que o nosso pecado ofende a Deus e exige reparação. Não podemos ser coniventes com este século, que perdeu por completo o senso do mal moral e chega mesmo a blasfemar contra Deus e tudo o que é santo. Precisamos reagir com vigor ao escarcéu que se faz mundo afora contra os direitos divinos, pois, se nós católicos não o fizermos, ninguém mais o fará. 

Para tanto, nós sabemos, é preciso começar batendo no próprio peito e confessando: Peccavi nimis, cogitatione, verbo, opere et omissione, mea culpa, mea culpa, mea maxima culpa. É preciso lançar um olhar para dentro do nosso próprio coração e reconhecer: é aqui que começa a batalha contra o mal, eis o primeiro lugar onde Deus precisa triunfar sobre os seus inimigos

Nessa luta, só o que não vale é ficar parado, cruzar os braços, entregar os pontos. O sangue de S. Januário não se liquefez de novo, é verdade. O que fazer, então? “Penitência, penitência, penitência!” A começar por nossos pecados, que já não são poucos. Seria muito belo ver a Igreja do mundo inteiro convocando jejuns e vigílias depois que o sinal milagroso de S. Januário nos foi novamente negado! Seria muito sério — e certamente chamaria a atenção de muitos — se cada pároco de aldeia trovejasse de seu púlpito palavras inflamadas contra o nosso pecado, que mantém sólido o sangue de um santo e faz ser vertido o Sangue de um Deus, que ajunta males sobre as nossas cabeças e provoca fomes, pestes e terremotos…

Na falta de tudo isso, quem tem de agir somos nós: em nossa vida pessoal, dentro de nossas casas, no seio de nossas famílias. Sejamos os “pararraios” que Deus tão insistentemente pede que seus servos sejam, aplacando a sua ira e atraindo as bênçãos que Ele tanto deseja dispensar sobre uma humanidade que é, incluídos nós, tão ingrata ao seu amor.

Notas

  1. Veja-se, por exemplo, o singelo manual de orações da Serva de Deus Lola (uma leiga de Minas Gerais que sobreviveu alimentando-se apenas da Eucaristia por 60 anos e ofereceu sua vida em verdadeiro holocausto a Deus, até morrer, no ano de 1999, em odor de santidade).
  2. Sobre isso, ler P. Kwasniewski, The Omission of “Difficult” Psalms and the Spreading-Thin of the Psalter. Rorate Caeli, 15 nov. 2016.
  3. Estas palavras de S. Pedro, inclusive, constam nas Completas do antigo Ofício Divino em todos os dias da semana. Na atual Liturgia das Horas, elas foram preservadas na terça-feira.
  4. Para que se perceba que essa mudança de tom não é de hoje, vale a pena ler, entre outras coisas, P. Kwasniewski, Comparison of Old and New Prayers for Blessing of Ashes. OnePeterFive.com, 26 fev. 2020.

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