Padre Paulo Ricardo
CNP
Christo Nihil Præponere"A nada dar mais valor do que a Cristo"
Todos os direitos reservados a padrepauloricardo.org®
O grande risco de não pensar no inferno
Espiritualidade

O grande risco
de não pensar no inferno

O grande risco de não pensar no inferno

O inferno não é um assunto a ser evitado; é um lugar a ser evitado. E não pensar nele é um grande risco. Podemos inclusive nos enganar com a ideia de que ele não existe. Mas pensar sobre o inferno é uma ótima ideia. E uma boa maneira de nos mantermos fora dele.

Dale AhlquistTradução: Equipe Christo Nihil Praeponere7 de Julho de 2021Tempo de leitura: 4 minutos
imprimir

Todos sabemos que vamos morrer, e todos odiamos o fato de que iremos morrer. Porque a morte é algo podre. É o “fracasso da carne”. Na verdade, Chesterton usou o medo da morte para fazer as pessoas apreciarem melhor a vida. Era por isso que, quando alguém dizia que não valia a pena viver, Chesterton sacava uma arma e se oferecia para atirar na pessoa. De repente, por alguma razão, quando fitamos o tambor de uma arma, vemos que a vida vale a pena! A vida é boa. A vida é preciosa.

Embora o medo da morte seja universal, o medo da condenação é mais pessoal e mais individual, porque esse temor é a voz de nossa consciência que nos julga. É o senso inescapável de que, se recebêssemos o julgamento que realmente merecemos, ele não seria agradável. Justiça é algo que todos desejamos quando achamos que fomos prejudicados, mas também é algo em que realmente não gostamos de pensar no restante do tempo, ou seja, na maior parte dele. O medo de ser realmente condenado é apenas uma profunda compreensão de que Deus é justo.  

Assim como Chesterton usou o medo da morte para despertar uma maior valorização da vida, também recorreu ao medo da condenação para estimular um maior apreço pela salvação. Geralmente, o medo da condenação é retratado como algo muito negativo, mas Chesterton não hesita em apresentá-lo como algo bastante positivo. Em São Francisco de Assis ele diz:

Um ateu muito honesto com quem debati certa vez usou a expressão: “Os homens só têm permanecido na escravidão por causa do medo do inferno”. Como lhe mostrei, se ele tivesse dito que os homens só foram libertados da escravidão por causa do medo do inferno, ao menos teria se referido a um fato histórico inquestionável.

Foi o medo do inferno que libertou os escravos, que, ao contrário de seus proprietários, não tinham medo do inferno. Thomas Jefferson se inquietou com o fato de que os recém-formados Estados Unidos da América, fundados sobre a liberdade, não haviam libertado os escravos. Ele se preocupava, dizia, “porque Deus é justo”.

Ao longo da história, os santos e outros amantes da justiça pregaram em defesa da reforma da sociedade, a fim de torná-la mais justa e menos infernal para os pobres e oprimidos. Usaram palavras simples sobre coisas boas como pão, terra, filhos e igrejas, e palavras simples sobre coisas ruins como crime, pecado, morte e inferno.

Pregaram aos presunçosos e aos que estão satisfeitos consigo mesmos, aos que abusam de cada um dos dons de Deus, inclusive o da linguagem, para criar filosofias cujo objetivo é naturalizar a religião. Chesterton diz que essas filosofias são de uma “brandura insondável”. Com certeza se esqueceram de Deus, mas seu grande erro antes disso foi ter esquecido o inferno.

“A Queda dos Anjos Rebeldes”, de Eugenio Cajés.

Quando nos esquecemos do inferno, esquecemo-nos da realidade mais ampla fora de nós. Cedemos ao egoísmo e egocentrismo. O inferno é a separação de Deus. Para piorar as coisas, o inferno é ficar aprisionado a si mesmo. 

Naturalmente, o inferno é sempre retratado como fogo, mas quando nos esquecemos dele congelamos. (Provavelmente, é por isso que Chesterton compara a Escandinávia ao inferno). Ele diz: “O inferno é o lugar onde nada pode acontecer”. Não podemos agir. Nada pode acontecer. Somos congelados. Por isso o inferno é simbolizado por correntes, e o céu por “asas livres como o vento”.

Ironicamente, só podemos agir neste mundo se houver um inferno. Só podemos agir se soubermos que nossas ações são importantes, eternamente importantes. Só podemos agir se nossas ações — boas e más — tiverem consequências.    

Em outras palavras, sem inferno não há livre-arbítrio.

Fomos feitos para o céu, mas não somos obrigados a ir para lá. Chesterton diz que é um dogma fundamental da Igreja Católica “que todos os seres humanos, sem exceção, foram feitos de modo especial, foram moldados e apontados como flechas reluzentes cuja finalidade é atingir o alvo da bem-aventurança”. Porém, as hastes dessas flechas, diz ele, “carregam as penas do livre-arbítrio e, portanto, formam a sombra de todas as trágicas possibilidades do livre-arbítrio”.

A mais trágica dessas possibilidades é a condenação eterna. A Igreja sempre tentou enfatizar “a maravilha da glória possível”, mas também tem de “chamar a atenção para as trevas da tragédia possível”.

No entanto, há no seio do cristianismo, e no da Igreja Católica, uma heresia crescente e insidiosa chamada universalismo. É a ideia de que todos irão para o céu independentemente do que fizerem. Evidentemente, isso contraria a doutrina da Igreja. Mesmo assim, vemos em muitos lugares uma resistência cada vez maior para falar sobre o inferno e as “possibilidades trágicas” que acompanham a glória do livre-arbítrio. Os universalistas superaram os protestantes, que reduziram o plano da salvação à ideia de que bastava a fé para obtê-la, enquanto os universalistas jogaram fora até mesmo a fé. Agora a salvação não depende de nada.

Mas a dignidade humana depende da doutrina do livre-arbítrio. Chesterton diz que o outro nome dela é responsabilidade moral. Também afirma que “pendem dessa perigosa e sublime liberdade o céu, o inferno e todo o misterioso drama da alma”, isto é, a incrível possibilidade de “um homem se separar de Deus”. Mas o fato de um homem poder se reconciliar com Deus é ainda mais dramático. Não há fundamento lógico — nem teológico — para a ideia de que podemos nos reconciliar com Deus sem que possamos nos separar dEle.

O inferno não é um assunto a ser evitado; é um lugar a ser evitado. É um grande risco não pensar nele. Podemos inclusive nos enganar com a ideia de que ele não existe. No entanto, pensar sobre o inferno é uma ótima ideia. E uma boa maneira de nos mantermos fora dele.

Comentários

Os comentários são de responsabilidade exclusiva de seus autores e não representam a opinião deste site. Se achar algo que viole os termos de uso, denuncie. Leia as perguntas mais frequentes para saber o que é impróprio ou ilegal.

Santa Maria Goretti: um “tapa na nossa cara”
Santos & Mártires

Santa Maria Goretti:
um “tapa na nossa cara”

Santa Maria Goretti: um “tapa na nossa cara”

Sob ameaça de violências e morte, Santa Maria Goretti guardou sua pureza inviolável, enquanto nós, querendo, caminhamos alegre e tranquilamente para a impureza que, mais cedo ou mais tarde, nos levará para o inferno.

Equipe Christo Nihil Praeponere6 de Julho de 2021Tempo de leitura: 4 minutos
imprimir

“Não! Deus não quer! Se fazes isto, vais para o inferno! Que fazes, Alexandre? Não me toques! É pecado!”: assim “Marieta gritava, mais preocupada em defender o seu pudor do que a sua vida” [1].

O depoimento acima foi recolhido da boca do próprio Alexandre Serenelli, assassino de Santa Maria Goretti, e atesta uma coisa: para se conservar na graça de Deus, o ser humano deve fazer de tudo, inclusive suportar a própria morte.

De fato, a pequena camponesa que a Igreja hoje celebra — e que contava, quando morreu, apenas “11 anos, 8 meses e 20 dias” de vida — não defendeu a virgindade com raciocínios meramente humanos [2]. Não foi por uma questão de honra pessoal que ela lutou até o fim para não ser violada — ainda que essa fosse, humanamente falando, uma causa muitíssimo justa. Sua preocupação, externada nos gritos terríveis com que se defendia do algoz, eram a vontade de Deus e a salvação da alma de seu agressor. Como todo mártir, Maria Goretti aferrava-se à , desprezando o mundo visível pelas realidades invisíveis. Mesmo analfabeta, a menina descobrira, a partir da educação cristã dos pais, que havia algo maior que a vida natural: a graça divina dentro de si. Por ela, valeria a pena gastar tudo, inclusive derramar o próprio sangue. E por isso ela resistiu [3].

“Antes morrer do que pecar”. Eis a verdade em que creram, de modo particular, todos os mártires da Igreja; verdade em que todos os católicos deveriam acreditar. De acordo com uma teologia mais moderna, no entanto, preocupada com “proporções” e “adaptações”, talvez as pessoas não devessem ser tão rigorosas assim no cumprimento dos Mandamentos. Talvez fosse necessário avaliar, no caso concreto, a resposta que se pode oferecer a Deus; seria necessário distinguir os bons aspectos de cada situação. Assim se procura legitimar, hoje, desde a aceitação das várias e mais disparatadas religiões até as relações entre pessoas do mesmo sexo. “Uma coisa é o conceito de pecado — eles dizem —, outra são as circunstâncias concretas em que se encontram as pessoas”.

A essas pessoas que parecem crer, também só em teoria — porque, na prática, defendem o que defenderia qualquer pessoa sem fé —, seria necessário lembrar a dura e tão esquecida advertência de Nosso Senhor no Evangelho: “Seja o vosso sim, sim; o vosso não, não. O que passa disto vem do Maligno” (Mt 5, 37). Ou, como diz o Papa Pio XII:

Pode haver situações em que o homem, e especialmente o cristão, não pode ignorar que deve sacrificar tudo, inclusive a própria vida, a fim de salvar a própria alma. Todos os mártires no-lo recordam. E os há em grande número, também em nossos tempos. Mas será que a mãe dos Macabeus e seus filhos, santas Perpétua e Felicidade, sem embargo de seus recém-nascidos, Maria Goretti e milhares de outros, homens e mulheres venerados pela Igreja e que se opuseram à “situação”, sofreram inutilmente — e até por engano — uma morte sangrenta? Certamente não. E eles, com seu sangue, são os testemunhos mais expressivos da verdade contra a “nova moral”

Santa Maria Goretti, por exemplo, não “relativizou” o pecado que a fez padecer. Ao contrário, reconheceu-lhe a gravidade desde o princípio, e por isso mesmo se negou a consentir; acolheu as consequências terríveis desta escolha e ofereceu-as todas a Deus, como reparação e, ao mesmo tempo, intercessão por seu algoz.

Nisso ela se assemelhou sobremaneira a Nosso Senhor em seu sacrifício expiatório. Não deixa de ser significativo, a propósito, que celebremos o testemunho de sangue desta criança justamente no mês de julho, dedicado ao Preciosíssimo Sangue de Cristo. 

De fato, assim como Jesus no Calvário, esta pequena viu o sangue jorrar das feridas abertas pelo assassino em seu corpo imaculado. “Na cama” onde a colocaram depois do atentado à sua integridade física, “Maria jazia toda salpicada de sangue” e “as roupas se lhe enfiavam nas feridas, causando-lhe dores indizíveis” [4]. 

Também em perfeita configuração a Cristo, ela concedeu ao seu agressor nada menos que o perdão. “Marieta, Jesus morreu perdoando ao bom ladrão; e você perdoa de todo coração ao assassino?”, perguntaram-lhe. “Oh, sim”, respondeu. “Eu também lhe perdoo por amor de Jesus. E desejo vê-lo bem perto de mim no Paraíso” [5].

Mais tarde, seu desejo seria atendido: Alexandre se converteria verdadeiramente ainda na prisão, e passaria o resto da vida fazendo penitência por seu crime. Mas seu pecado teve um preço imediato. O perdão de Maria não foi “barato”. Às 15h45min do dia 6 de julho de 1902, ela não resistiu e faleceu. “Apagava-se uma lâmpada na terra e acendia-se uma estrela no céu” [6].

A morte desta mártir é o completo avesso da mentalidade mundana moderna, que afetou até pessoas de Igreja. Hoje, diante do pecado, como reagem os católicos? Cientes de que irão ofender a Deus, eles nem por isso deixam de pecar, já “seguros” de que se confessarão depois. Pecar é como extrair um dente, ou nem isso. É uma trivialidade, um ato que facilmente se cancela com algumas palavras mais ou menos sinceras diante de um padre. 

A vida desta virgem, por sua vez, é um verdadeiro “tapa na cara” da juventude moderna, tão habituada aos prazeres fáceis da carne. Sob ameaças de violência e morte, Maria Goretti guardou sua pureza inviolável, enquanto nós, querendo, caminhamos alegres e tranquilos para a impureza que, mais cedo ou mais tarde, nos levará para o inferno. 

Para os corações retos a vontade de Deus é tudo” [7]; para os corações desviados, porém, o pecado é tudo, e a vontade de Deus não passa de um obstáculo para a sua “felicidade” egoísta e autossuficiente. A pergunta é quando acordaremos desta ilusão de morte — se é que acordaremos a tempo. 

Não abusemos mais da misericórdia e da paciência de Deus para conosco. — Santa Maria Goretti, rogai por nós!

Referências

  1. Padre J. C. M. Colombo, Santa Maria Goretti, mártir da pureza. 2.ª ed. Paulinas, 1949, p. 70.
  2. Id., p. 82.
  3. “Causa verdadeiro espanto — diz o Decreto da Introdução da Causa — o alto grau de virtude que atingiu essa menina, que naquela desolada região não recebera instrução nem leiga, nem religiosa, a não ser as práticas que ouvia na igreja, os rudimentos do catecismo para a Primeira Comunhão e o exemplo dos pais. Pois, sendo analfabeta, não tinha nem sequer o recurso da leitura. É bem certo que os puros de coração têm a intuição de Deus; que Deus revela seus segredos aos pequeninos; e que nos pequeninos se manifesta de um modo maravilhoso; que a virtude e os dons infusos do Batismo se aperfeiçoam pelo Crisma e se alimentam pela Eucaristia” (Ibid., p. 65).
  4. Id., pp. 9 e 73.
  5. Id., p. 79.
  6. Id., p. 82.
  7. Id., p. 28.

Comentários

Os comentários são de responsabilidade exclusiva de seus autores e não representam a opinião deste site. Se achar algo que viole os termos de uso, denuncie. Leia as perguntas mais frequentes para saber o que é impróprio ou ilegal.

“Transracial”: a história do inglês que decidiu “virar” coreano
Sociedade

“Transracial”: a história
do inglês que decidiu “virar” coreano

“Transracial”: a história do inglês que decidiu “virar” coreano

Nossa cultura degradou-se ao ponto de um jovem inglês passar por 18 cirurgias plásticas, insistir em que é um coreano não-binário e, por fim, usar os mesmos argumentos da ideologia de gênero para defender a sua “transição racial”.

Jonathon van MarenTradução: Equipe Christo Nihil Praeponere5 de Julho de 2021Tempo de leitura: 4 minutos
imprimir

Como Rod Dreher observa em seu recente livro Live Not By Lies: A Manual for Christian Dissidents [Não Viva de Mentiras: Um Manual para Cristãos Dissidentes, sem tradução para o português], ideologias perversas podem conquistar civilizações inteiras simplesmente porque a maioria das pessoas escolhe viver de mentiras, mesmo que não acredite nelas, simplesmente porque isso é mais fácil. O ódio ameaça as sociedades — a apatia as destrói. Por isso, enquanto uma minoria barulhenta e muito poderosa nos Estados Unidos concorda com a agenda transgênero, a vasta maioria da população simplesmente não se incomoda em protestar. Isso é assim, em boa parte, porque estes movimentos não impactam o nosso dia a dia — até, de repente, impactarem.

É óbvio para qualquer pessoa com olhos e um córtex pré-frontal em funcionamento que o movimento trans está tirando sarro de todos nós. Mas, mais especificamente, está tirando sarro das mulheres. São as mulheres que estão sendo forçadas a dividir vestiários e banheiros com suas “irmãs” de gogó; são as mulheres que saem arrasadas de eventos esportivos; e, parece loucura, são as mulheres que, em essência, têm de ouvir que homens biológicos são melhores em ser mulheres do que elas mesmas.

Por exemplo, um homem que se identifica como mulher — Kataluna Enriquez — foi coroado Miss Nevada, deixando fora do páreo 21 concorrentes femininas no ringue da beleza. E como você acha que a grande mídia reagiu a este novo patriarcado drag? A NBC o chamou “uma vitória histórica”. O Courier Mail o chamou “uma bela e extraordinária rainha”. O Entertainment Weekly despejou um “está fazendo história”. Grupos LGBT celebraram amplamente este salto adiante em sua revolta cultural, e é fácil dizer por quê.

Penso que concursos de beleza são, em geral, shows de exploração e pornografia soft, mas acontece que até mesmo esse bastião de objetificação feminina pode ser colonizado por homens — não como guarda-costas, mas como “moças”.

Mas a coisa ainda vai piorar. Um sujeito chamado Oli London, um influenciador britânico que é obcecado pelo astro K-pop Park Jimin, decidiu passar por uma série de cirurgias plásticas grotescas a fim de se transformar num sósia de Jimin. Tendo-se convertido numa paródia perturbadora de seu ídolo, ele agora se apresenta em público como um coreano não-binário

Digamos o óbvio: ele é um inglês branco. Mas porque lhe disseram que um homem pode tornar-se mulher com um retoque aqui e ali, ele — muito compreensivelmente — acredita ter-se transformado num coreano de gênero indistinto.

Ele postou um vídeo proclamando sua nova identidade: 

Eu me identifico como coreano. Esta é a minha cultura. Esta é a minha terra natal. É exatamente o que pareço agora. Eu também me identifico como Jimin, e este é o meu nome artístico. Eu sei que isso pode ser um pouco confuso para as pessoas — ninguém nunca se revela como coreano, mas isso é uma coisa que vocês sabem, se me acompanharam em minha jornada. Nos últimos oito anos, eu realmente lutei com problemas de identidade, com aquilo que sou… Eu finalmente passei por minha cirurgia de transição racial.

É desnecessário dizer que houve um monte de reações negativas — mas os críticos dele não têm muito onde se apoiar. Eles passaram os último cincos anos, mais ou menos, criticando vigorosamente quem quer que discordasse da premissa de que você pode escolher sua própria identidade e moldar-se a si mesmo dentro dela, e não há razão lógica pela qual um homem pode tornar-se mulher, mas um homem branco não pode tornar-se coreano. Oli respondeu dizendo basicamente o seguinte: 

Se você pode ser transssexual, você também pode ser TRANSRACIAL. Por que têm dois pesos e duas medidas e são tão hipócritas as pessoas que me criticam por ser coreano (sic). É o mesmo caso de alguém que nasceu no corpo errado e deseja virar um homem ou uma mulher. Eu, de fato, nasci no corpo errado.
O jovem inglês Oli London, com a máscara de seu ídolo pop coreano.

Ele chega a dizer que tomou coragem graças a todos os que têm “saído do armário” e se identificado como os vários e diversificados membros do “clube do alfabeto”, e que também ele gostaria de aproveitar o Mês do Orgulho [LGBT] para fazer sua revelação. London passou por 18 cirurgias plásticas (o que fica muito, muito à vista), usa o mesmo linguajar que as pessoas trans usam e afirma ter-se “sentido bonito pela primeira vez”. Ele diz que antes se sentia preso no próprio corpo. Ele chega até mesmo a anunciar seus próprios pronomes. Em seguida, encoraja outros que se identificam como coreanos, japoneses ou qualquer outra etnia a seguir seus passos e revelar-se em público. Afinal, por que não? Como seria possível que alguém se opusesse, depois de todas as coisas que nos têm enfiado goela abaixo ao longo da última década?

Eu pensei que o vídeo de London seria uma espécie de sátira, mas não foi. Ele parece muito doentio, e ele não parece coreano — ele parece ter sofrido um assalto e recebido no processo uma boa surra. Se eu não tivesse visto por mim mesmo as notícias e assistido à sua revelação, pensaria que ele estava apenas de brincadeira — ou, quem sabe, até mesmo “trolando” o movimento trans

Mas ele não está. Ele fala realmente a sério. Nossa cultura degradou-se ao ponto de um jovem inglês passar por 18 cirurgias plásticas, insistir em que é um coreano não-binário e, por fim, usar os argumentos que governos ocidentais têm estado ocupados em transformar em lei nos últimos anos para alertar as pessoas de que é melhor não tirar onda com a cara dele.

Assistir ao vídeo da revelação de Oli London é como ver uma tragédia desenrolar-se em tempo real — e ele, infelizmente, é apenas um microcosmo para uma legião de jovens tão confusos, feridos e iludidos como ele próprio.

Notas

  • Os bonecos personalizados acima são dos integrantes da banda coreana BTS — entre os quais está Park Jimin, o cantor com quem Oli London quer se parecer. 

Comentários

Os comentários são de responsabilidade exclusiva de seus autores e não representam a opinião deste site. Se achar algo que viole os termos de uso, denuncie. Leia as perguntas mais frequentes para saber o que é impróprio ou ilegal.

Uma ameaça oculta ao catolicismo
Igreja Católica

Uma ameaça oculta ao catolicismo

Uma ameaça oculta ao catolicismo

Uma ameaça séria ao catolicismo assoma no horizonte e está oculta ao nosso redor. Ela poderia muito bem dizimar as fileiras da Igreja, e talvez isso já esteja até acontecendo. O que é terrivelmente perigoso, pois essa ameaça abala os próprios fundamentos da nossa religião...

Eric SammonsTradução: Equipe Christo Nihil Praeponere2 de Julho de 2021Tempo de leitura: 8 minutos
imprimir

[Este texto não é de autoria do Pe. Paulo Ricardo; foi escrito por Eric Sammons e vertido à língua portuguesa por nossa equipe.]

Uma ameaça séria, até existencial, ao catolicismo assoma no horizonte e está oculta ao nosso redor. Ela poderia muito bem dizimar as fileiras da Igreja, e talvez isso já esteja até acontecendo. O que é insidiosamente perigoso, porque essa ameaça abala os próprios fundamentos do catolicismo.

Não estou falando da crise de abusos sexuais, ou da falta de coragem episcopal, nem do crescimento das heresias, embora todas essas ameaças sejam terríveis. Só que a Igreja enfrentou esse tipo de desafios no passado e os superou, ainda que às vezes com perdas significativas. 

Estou falando de uma ameaça verdadeiramente nova: a virtualização do mundo.

O mundo se tornou virtual. Embora essa tendência esteja se desenvolvendo há décadas, as paralisações relacionadas à COVID-19 finalizaram o processo. Nós nos comunicamos facilmente uns com os outros por textos, mídias sociais e bate-papos no Zoom. Quase todos os produtos que compramos podem ser entregues à nossa porta. Agora, até “assistimos” à Missa online! Para muitos (a maioria?) de nós, a vida acontece mais online do que offline.

Aos olhos de muitos, a virtualização mundial é considerada um bem absoluto. Ela permite mais conexão, mais lazer e mais acesso às informações do que nunca. Só que há um problema: ela é a antítese de uma vida católica equilibrada. Eu até argumentaria que ela destrói o catolicismo.

Se há uma palavra que resume o catolicismo, é encarnacional. Nossa fé se baseia na Encarnação: Deus se fez homem. Ao se tornar parte do mundo físico, Deus elevou o mundo físico a si. Quase tão importante quanto, Ele fez do mundo físico o meio através do qual o alcançamos. Em outras palavras, a religião católica é muito física. Ela precisa de “coisas” para funcionar: pão, água, contato físico etc. Sem os sacramentos (e os sacramentais), o catolicismo se reduz a uma religião completamente diferente — e falsa.

Agora, antes de continuar, deixe-me tratar das objeções que já consigo escutar. O que dizer do eremita, ou do prisioneiro de consciência católico posto em confinamento solitário? Estou dizendo que eles são incapazes de praticar o catolicismo porque lhes falta o “material” físico? 

Claro que não. Mas a própria natureza extrema de suas vidas aponta para o fato de que eles são verdadeiras exceções, e não a regra. Uma verdade subjacente à humanidade é que Deus nos criou como seres físicos, e que “não é bom que o homem esteja só” (Gn 2, 18). Ele nos criou para estarmos uns com os outros. Deus também fez o mundo físico para ser a escada através da qual ascendemos a Ele. 

O mundo digital que estamos criando, no entanto, rejeita essencialmente o contato humano direto e a interação com o mundo físico. Mesmo antes da COVID, tínhamos o fenômeno dos zumbis de smartphones — incontáveis pessoas olhando para suas telas e rolando incessantemente por seus feeds ao longo do dia. Mas as restrições da COVID-19 aceleraram nossa descida para a terra virtual e muitos estão agora com tanto medo de doenças que nem mesmo querem estar próximos fisicamente uns dos outros. Isso representa um sério problema para uma Igreja baseada na fisicalidade. Oferecer Missas ao vivo e conferências virtuais apenas agrava o problema.

Como os católicos devem responder a essa tendência perturbadora? Promovendo uma vida encarnacional e intencionada

Primeiro, os católicos devem ser “encarnados”. Precisamos redescobrir a superioridade do físico sobre o virtual. Recentemente, vi um anúncio de uma “conferência virtual de teologia do corpo”. Parece até uma ironia. Se isso não nos fizer parar para refletir, eu não sei o que mais fará. Afinal, a teologia do corpo existe para nos lembrar a importância de nossos corpos físicos e como eles não são apenas um apêndice extra da alma, mas uma parte essencial de quem somos. Qual o sentido, então, de discutir isso em uma conferência incorporal?

E, claro, isso nem se compara à Missa transmitida ao vivo. Tenho consciência de que muitas paróquias estão fazendo o melhor que podem para se adaptar a circunstâncias extremas. Em muitíssimos casos, porém, muitos padres — e seus paroquianos — levaram isso um pouco longe demais [1].

Na melhor das hipóteses, uma Missa assim é um substituto pobre de outra em que os membros do Corpo de Cristo podem realmente estar presentes na atualização do Sacrifício da Cruz (eu não acho que o Apóstolo João teria feito uma live do Calvário, ainda que isso fosse uma opção em seu tempo; talvez Judas o tivesse feito). Na pior das hipóteses, ela sinaliza que o mundo físico — inclusive o mundo físico dos sacramentos — é secundário e “não essencial”

O homem compartilha semelhanças e diferenças com os anjos e o reino animal. Somos um híbrido de corpo e espírito, e é fundamental para o nosso ser que os dois trabalhem juntos. Ao contrário de tantas heresias velhas e novas, não rejeitamos o aspecto físico de nossa natureza, mas entendemos que o físico intensifica — ou diminui — a nossa vida espiritual. Interagir com outros católicos na vida “real”, realmente assistir à Missa e receber o Corpo de Cristo, falar com o sacerdote em pessoa no confessionário — todas essas são atividades físicas que ajudam a nos levar para Deus.

Em segundo lugar, como católicos, devemos colocar intenção nas coisas que fazemos. Sempre que alguém faz uma crítica ao mundo digital, as acusações de que essa pessoa está se tornando um amish são descartadas [2]. Em vez de lutar contra essas acusações, vou me inclinar a seu favor. É um equívoco comum pensar que os amish rejeitem a tecnologia. Eles não a rejeitam. O que fazem é tomar decisões deliberadas, enquanto comunidade, sobre se uma nova tecnologia é, em geral, benéfica ou não. E embora nós, como católicos, não tenhamos de concordar com suas decisões finais, essa atitude deliberativa deve ser abraçada por nós. 

Bem, eu não sou um ludita (outro epíteto comum que se usa de vez em quando) [3]. Estive profundamente envolvido no boom da Dot-Com no final dos anos 90 como o primeiro funcionário de uma das primeiras empresas de hospedagem na web e cofundador de um dos primeiros registradores de domínio. (Meu apreço contínuo por tecnologia pode ser visto em minha adoção de criptomoedas). Atualmente, sou editor de uma revista exclusivamente digital, que a maioria dos leitores acessa em seus smartphones. Mas minha relação de longa data com a tecnologia me levou a ver que, nessa matéria, não há uma decisão de “tudo ou nada”: ou rejeitamos toda a tecnologia moderna ou aceitamos sem crítica cada tecnologia mais recente no momento em que ela é lançada. 

Em vez disso, devemos refletir se uma nova tecnologia — e o modo como a usamos — ajuda ou a nos aproximar ou a nos afastar da união íntima com Cristo e da edificação de seu Corpo aqui na Terra. Devemos perguntar também se a nova tecnologia leva a uma existência mais “incorpórea” e, portanto, menos “encarnacional”. Sim, os métodos modernos de comunicação beneficiaram a sociedade de muitas maneiras. No entanto, eles têm um custo

Um dos principais preços que pagamos é a perda da conexão direta. Em vez de passar o tempo conversando na varanda — ou mesmo no telefone — com um amigo, enviamos atualizações rápidas e dispersas para dezenas de conhecidos. Temos testemunhado neste século uma queda vertiginosa na adesão das pessoas a uma religião, fenômeno que coincide diretamente com um aumento tremendo de “comunidades” virtuais — e as duas tendências podem estar relacionadas. O ato de ignorar alegremente os custos das tecnologias modernas pode significar suicídio para o catolicismo

E, claro, há o problema óbvio de estar sujeito às big techs, que estão se tornando cada vez mais anticatólicas [4]. 

Em termos práticos, acho que isso deve nos levar a repensar dois aspectos básicos da vida moderna: encontros físicos e o uso de smartphones/mídias sociais. Primeiro, devemos resistir ao impulso de “nos tornarmos virtuais” em nossas interações com outras pessoas. Encontre maneiras de se encontrar fisicamente com familiares, amigos e colegas de paróquia. Recentemente, perguntaram-me o que os pais católicos podem fazer para manter seus filhos na Igreja e meu primeiro pensamento foi que eles passassem mais tempo — tempo real, não virtual — com outras famílias católicas. Essas relações constroem um apreço pelo real, o que leva a um apreço mais profundo por Aquele que é a fonte de toda a realidade.

Em segundo lugar, devemos repensar séria e urgentemente nossa relação com as mídias sociais, principalmente o modo como as usamos nos smartphones, que estão perpetuamente ligados a nós. Quantos de nós mal conseguem encontrar tempo para rezar, mas passam várias horas por dia navegando por feeds de mídia social nos próprios smartphones? Mesmo que as big techs apoiassem os valores católicos, o tempo médio gasto em seus produtos excederia em muito esses valores para a maioria de nós. Em vez de acessar o Facebook, precisamos gastar mais tempo buscando a face de Deus em seu book (“livro”): as Sagradas Escrituras. 

Isso não significa necessariamente que devamos descartar todas as mídias sociais (embora isso seja o melhor para algumas pessoas). Nosso relacionamento desordenado com as mídias sociais poderia ser reorganizado simplesmente removendo-as de nossos smartphones e usando-as apenas em nossos computadores desktop. Talvez até consideremos usar um telefone sem internet [5]. Passos como esses nos ajudam a controlar o nosso uso, e não o contrário.

Levar uma vida encarnacional e intencionada não é um caminho fácil. Na verdade, quase tudo em nossa sociedade hoje está configurado para se opor a esse caminho. No entanto, os católicos sempre foram chamados a ser contraculturais; e seguir esse caminho, raramente trilhado, pode ser um meio de viver uma vida autenticamente católica em uma cultura que precisa desesperadamente desse testemunho.

Notas

  1. O problema não está, evidentemente, na transmissão ao vivo pura e simples das Missas, mas nos efeitos que a sua popularização acarreta. A Missa a que se assiste via TV ou celular não está no mesmo nível da Missa de que participamos presencialmente, e essa é a grande questão (N.T.).
  2. Os amish são um grupo religioso cristão que vive principalmente nos Estados Unidos e no Canadá. Eles são conhecidos por costumes como o uso restrito de equipamentos eletrônicos, inclusive telefones e automóveis (N.T.).
  3. Chamavam-se luditas os correligionários de Ned Ludd que, no início do século XIX, se opuseram com protestos à mecanização do trabalho. Por extensão, o termo se aplica a qualquer pessoa que se oponha à industrialização ou às novas tecnologias (N.T.).
  4. As big techs são grandes empresas de tecnologia que, por terem desenvolvido serviços inovadores, abalaram o mercado e conseguiram grande domínio a nível mundial. São exemplos incontestáveis de big techs a Apple, o Google, o Facebook e o Twitter (N.T.).
  5. Aqui, no original, o autor utiliza a expressão dumbphone (“telefone burro”), em um claro jogo de palavras com o termo smartphone, que significa literalmente “telefone esperto” (N.T.).

Comentários

Os comentários são de responsabilidade exclusiva de seus autores e não representam a opinião deste site. Se achar algo que viole os termos de uso, denuncie. Leia as perguntas mais frequentes para saber o que é impróprio ou ilegal.