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Uma epidemia oculta
Sociedade

Uma epidemia oculta

Uma epidemia oculta

Embora vivamos na época mais tecnologicamente conectada da história, os índices deste problema dobraram nas últimas décadas — como uma “epidemia oculta”, que ameaça jovens e velhos, ricos e pobres, homens e mulheres. Saiba do que se trata.

John Horvat IITradução: Equipe Christo Nihil Praeponere14 de Julho de 2021Tempo de leitura: 6 minutos
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Um amigo trabalha numa clínica médica em uma cidade de médio porte no meio-oeste [N.T.: dos Estados Unidos, de onde fala o autor do texto]. Ele me falou sobre um tipo peculiar de paciente que aparece em busca de tratamento. São jovens e velhos, ricos e pobres, homens e mulheres. Pode-se dizer com segurança que são um grupo representativo da América.

O curioso é que esses pacientes não estão doentes.

Eles estão solitários. Ele me informou que médicos da equipe lhe disseram que é cada vez maior o número de pacientes que vão à clínica sem ter doença alguma. Embora tentem disfarçar, querem apenas conversar com alguém. Querem a atenção de alguém que se importe com eles. E os médicos frequentemente percebem que, nesses casos, o melhor remédio é uma boa conversa. Depois da consulta, eles saem do consultório felizes com alguma recomendação geral e ansiosos pelo próximo encontro.

O mundo lá fora é solitário e depressivo. No entanto, tudo leva a crer que essa história é um indício de que algo mais profundo está acontecendo. Isso tem origem no fato de que as relações sociais e a prática da virtude estão em frangalhos, e está cada dia mais difícil resolver esse problema.

Solidão: uma epidemia oculta. — A solidão é um problema muito real. Tem-se chamado esse problema de “epidemia oculta”, que ameaça muitos americanos. Mais de 40% dos adultos nos EUA dizem sentir-se sozinhos. Embora vivamos na época mais tecnologicamente conectada da história, os índices de solidão dobraram desde os anos 1980

A solidão afeta a saúde física, a longevidade, os níveis de estresse e a saúde mental. Também leva as pessoas a buscar refúgio nas drogas, nos opiáceos, na comida em excesso, na bebida e… nas conversas.

A solidão tem muitas causas. Uma delas é o fato de que muito mais pessoas vivem sozinhas hoje. O órgão norte-americano responsável pelo censo (U.S. Census Bureau) relata que um terço dos americanos com mais de 65 e a metade daqueles acima de 85 vivem sozinhos. A queda nas taxas de casamento e de fertilidade também contribui para a solidão. Com estilos de vida mais inconstantes, ficou mais fácil manter amigos e familiares mais distantes do que nas gerações passadas.

Juntos a sós. — Estar sozinho não é a única causa de solidão. Talvez não seja nem mesmo a causa mais comum. A solidão também pode afetar alguém que está cercado de gente. Nesse caso, o problema não está na falta de relacionamentos, mas no fato de que esses relacionamentos carecem de profundidade e sentido

Sociólogos como Sherry Turkle usaram expressões fortes como “estar juntos a sós” para descrever essa nova solidão. Ela descobriu que há um número crescente de pessoas que vivem com outras, mas usam aparelhos eletrônicos como mediadores da realidade. Esses aparelhos definitivamente não aumentam a conectividade. O que fazem é criar uma distância entre as pessoas, com sua velocidade, brevidade e distanciamento. Ao contrário do contato cara a cara, no contato virtual as pessoas podem facilmente se esconder umas das outras.

O autor Robert Putnam declara em seu livro Bowling Alone, referência no assunto, que a perda de envolvimento civil está destruindo a comunidade, apesar de viver em seu seio. Desde os anos 1960, houve um afastamento voluntário da comunidade que deixou as pessoas desorientadas e sozinhas.

Para piorar as coisas, os lugares em que as pessoas se reúnem hoje são estéreis e pouco convidativos. Lugares como centros comerciais, shoppings e aeroportos tornaram-se meros lugares de reuniões sociais, onde as pessoas ficam juntas (muitas vezes atadas a seus aparelhos celulares), mas não falam umas com as outras. Consequentemente, as pessoas se sentem sozinhas.

Desfazendo os laços comunitários. — Há ainda um terceiro tipo de solidão, o mais prevalente e profundo de todos. Consiste na solidão causada pelo rompimento dos velhos laços comunitários. Esse isolamento sempre assombrou a modernidade, e agora está assumindo formas mais radicais.

Os fortes laços morais da família, do trabalho, da comunidade e da igreja são aqueles que ligam uma pessoa a uma identidade firmemente enraizada na realidade da vida cotidiana. Eles envolvem a pessoa em uma vida comum dentro da virtude. Esses laços são os melhores remédios contra a solidão.

A modernidade está focada em indivíduos que constroem identidades a partir de seus entornos. As pessoas só cuidam de si mesmas. Assim, são encorajadas a engajar-se naquilo que Thomas Hobbes chamou de “guerra de todo homem contra todo homem”, que cria tensão, uma vez que todos são vistos como supostos competidores.

Com o enfraquecimento dos laços comunitários, os indivíduos modernos construíram alguma identidade em associações vagas, em grupos abstratos e impessoais, sejam eles partidos políticos, times esportivos, grupos empresariais ou movimentos sociais. 

Mas esses vínculos rasos não substituem nossa apaixonada necessidade de uma comunidade. Pelo contrário, promovem o individualismo e deixam as pessoas solitárias.

Criando uma identidade. — Essa situação ajuda a explicar a solidão atual. Agora, até mesmo essas estruturas sociais mais rasas da sociedade liberal estão abaladas e destruídas. Nosso problema, tanto à esquerda quanto à direita, é a inabilidade de encontrar uma identidade fora da comunidade e da virtude. Quando não conseguimos encontrar uma identidade, nós a “criamos”.

Assim, o estilhaçamento de todo gênero de comunidade deu origem à ascensão de políticas identitárias, de modo que as pessoas se identificam com um mundo como elas imaginam que deveria ser. A frenética intemperança do nosso tempo levou à derrocada de todo freio moral, o que permitiu que as pessoas se identificassem com o que quisessem. Ideias e sistemas ideológicos podem ser facilmente distorcidos para se conformar a uma realidade imaginária quando não há âncoras sociais.

O resultado é que as pessoas não sabem quem são. Estão despedaçadas e solitárias.

A busca pela vida em comunidade não será negada. — Qual é a solução para essa terrível solidão que assombra nossa sociedade em ruínas? A maioria dos especialistas aponta para os governos. Eles irão encarregar assistentes sociais de visitar ou ligar para as pessoas solitárias. Eles tentarão mobilizar redes de voluntários para manter os solitários ocupados. Eles buscarão maneiras de forjar relacionamentos mecânicos entre as pessoas. Eles farão montanhas de estudos sobre a solidão. No Reino Unido, já nomearam até um Ministro para a Solidão.

Contudo, essas soluções só tratam os sintomas, não as causas. Como os pacientes que vão ao médico sem ter qualquer doença, as pessoas solitárias não estão em busca de qualquer relacionamento. Elas buscam relacionamentos profundos que expressem uma preocupação verdadeira e lhes confiram uma identidade. Estão procurando uma vida comunitária.

“A busca pela vida em comunidade não será negada”, escreve o sociólogo Robert Nisbet, “pois surge de algumas das poderosas necessidades da natureza humana — necessidades de um claro senso de propósito cultural, associação, posição e continuidade”.

Essa busca vigorosa por uma verdadeira vida comunitária é o que está faltando aos esforços para superar a epidemia de solidão. Os esforços atuais não fazem nada para minar a presente cultura hedonista e individualista, que produz uma multidão de pessoas solitárias.

Laços comunitários. — Alguém poderia objetar que não é fácil restabelecer laços comunitários. Isso é verdade, uma vez que todas as coisas de valor exigem esforço e sacrifício. Porém, esses laços, sendo naturais, são acessíveis.

O vínculo familiar é o primeiro e mais fundamental de todos. Quando as pessoas mantêm e fortalecem esse vínculo, ele é um meio excelente de evitar a solidão. 

O vínculo mais vigoroso e acessível é aquele que se dá entre o indivíduo e Deus por meio da Igreja. Qualquer um, por mais solitário que esteja, pode recorrer a Deus e ser atendido. Quando esse vínculo vai bem, todos os outros também podem ir. 

A única solução real para a solidão é um retorno à ordem moral. Até lá, seremos como pacientes que pedem um tratamento para doenças indeterminadas que contaminam nossa sociedade solitária e em ruínas.

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O primeiro genocídio moderno ocorreu na Revolução Francesa
História da Igreja

O primeiro genocídio moderno
ocorreu na Revolução Francesa

O primeiro genocídio moderno ocorreu na Revolução Francesa

O primeiro genocídio moderno ocorreu na França, em 1793. Foi levado a cabo por apóstolos do Iluminismo, modernos e progressistas, e teve por alvo camponeses católicos da região francesa da Vendeia. Conheça esta história, infelizmente desconhecida de muitos.

John ZmirakTradução: Equipe Christo Nihil Praeponere13 de Julho de 2021Tempo de leitura: 7 minutos
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O dia 14 de julho, provavelmente, passa sem muita festa em sua casa, mas a data — celebração da Queda da Bastilha — marca o início da maior perseguição organizada contra os cristãos desde a época do imperador Diocleciano. Esse dia, começo da Revolução Francesa, também plantou as sementes das ideologias assassinas do socialismo e do nacionalismo que envenenariam os dois séculos seguintes, ceifando a vida de milhões de fiéis e outros civis inocentes. Nesse ínterim, os dois movimentos políticos acumularam um número expressivo de cadáveres. 

Em Death by Government [“Morte pelo Governo”, sem tradução para o português], o pesquisador R. J. Rummel afirmou que: 

durante os primeiros 88 anos deste século, quase 170 milhões de homens, mulheres e crianças foram baleados, espancados, torturados, esfaqueados, queimados, desnutridos, congelados, esmagados, forçados a trabalhar até a morte, enterrados vivos, afogados, enforcados, bombardeados ou mortos de inúmeros modos por governos que mataram cidadãos ou estrangeiros desarmados e indefesos.

Mas o primeiro genocídio moderno desse tipo ocorreu na França, com início em 1793. Foi levado a cabo por apóstolos do Iluminismo, modernos e progressistas, e teve por alvo camponeses piedosos da região da Vendeia, na França. Quando chegou ao fim, cerca de 300 mil pessoas haviam sido mortas pelos exércitos da República.

“Henri du Vergier na Batalha de Cholet, em 1793”, por Paul-Émile Boutigny.

Essa história é pouco debatida na França. Na verdade, um dedicado historiador que leciona numa universidade francesa me disse: “Não devemos mencionar a Vendeia. Qualquer um que fale sobre o que ocorreu lá não tem nenhuma perspectiva de carreira acadêmica. Portanto, ficamos em silêncio sobre o assunto”.

É sobretudo na própria região da Vendeia que as lembranças são preservadas, o que possivelmente explica por que essa parte da França até hoje é mais religiosa e conservadora do que qualquer outra do país. Em 1993, no 200.º aniversário dessas atrocidades, o governo local inaugurou um museu para lembrá-las — com direito a uma visita de Alexander Soljenítsin, que em seu eloquente discurso observou que o assassinato em massa de cristãos na Rússia foi diretamente inspirado pelo que ocorrera na Vendeia. Os bolcheviques, disse ele, se espelharam nos revolucionários franceses, e o próprio Lênin considerava os massacres da Vendeia o modo correto de lidar com a resistência cristã.

Foram fazendeiros comuns das regiões da Vendeia e da Bretanha que, em 1793, se insurgiram contra os radicais de classe média em Paris que controlavam o país. Os ideólogos da Revolução já haviam:

  • executado o rei e a rainha e deixado seu jovem filho morrer doente na prisão;
  • tomado a Catedral de Notre-Dame, removido seus símbolos cristãos e consagrado no altar uma prostituta como “Deusa da Razão”;
  • declarado uma “guerra de libertação” revolucionária contra a maioria dos outros países na Europa;
  • suspendido todas as celebrações protestantes, em honra ao culto estatal da Razão;
  • confiscado todas as propriedades eclesiásticas dos católicos, expulsando milhares de monges, sacerdotes e freiras, abandonados aos próprios cuidados; depois, venderam a propriedade aos seus amigos a fim de angariar fundos para suas guerras;
  • determinado que todo o clero jurasse lealdade ao governo, ao invés de à Igreja; e
  • implementado o primeiro alistamento militar universal da história, recrutando pessoas comuns — em sua maioria, camponeses piedosos, mas confusos por causa dos slogans que imperavam em Paris — para lutar pela Revolução. 

Quando os parisienses foram buscar os filhos dos vendeianos para levá-los ao exército, estes finalmente reagiram e lançaram uma contrarrevolução em nome de “Deus e do rei”. Ela se espalhou rapidamente pelo noroeste da França, restringindo a ação dos exércitos profissionais do governo, que combatia grupos destreinados de guerrilheiros, muitos deles armados apenas com mosquetes de caça.

O primeiro genocídio moderno. — Como escreveu Sophie Masson, descendente dos rebeldes que combateram na resistência vendeiana:

As atrocidades se multiplicaram, os extermínios eram sistemáticos; começaram do topo e eram executados com deleite na base. Ao menos 300 mil pessoas foram massacradas naquele período, e os intrusos que se negavam a fazer o serviço eram baleados ou completamente desacreditados. Mas, mesmo assim, o povo resistia. Ainda havia aqueles que se escondiam nas florestas e armavam emboscadas, que lutavam corajosamente como leões, mas eram abatidos como porcos quando capturados. Não havia misericórdia; todos os líderes eram fuzilados, decapitados ou enforcados. Muitos não podiam sequer descansar em paz: o corpo do último líder foi esquartejado e distribuído a cientistas; a cabeça dele foi conservada num pote, o cérebro foi examinado para verificar se a semente da rebelião se encontrava na mente de um selvagem...

“Ninguém deve ficar vivo”. “As mulheres são sulcos reprodutores que devem ser arados”. “Só devem restar lobos para vagar naquela região”. “Fogo, sangue e morte são necessários para preservar a liberdade”. “Seus instrumentos de fanatismo e superstição devem ser esmagados”. Essas foram algumas das palavras que a Convenção usou ao falar da Vendeia. Seus inofensivos cientistas sonharam com todos os tipos de novas ideias: o envenenamento dos suprimentos de farinha, álcool e água; a construção de um curtume em Angers, que se especializaria no tratamento de pele humana; a investigação de métodos para queimar pessoas em grandes fornos a fim de que a gordura dos corpos pudesse ser retirada com maior facilidade. Carrier, um dos generais republicanos, escarneceu essa pesquisa: esses métodos ‘modernos’ demorariam demais. Seria melhor usar métodos de massacre mais tradicionais: afogamento em massa de homens, mulheres e crianças (todos nus), muitas vezes amarrados juntos, de acordo com o que ele chamava de ‘matrimônios republicanos’; eles eram arremessados de barcos especialmente construídos, puxados até o meio do Loire e então eram afundados; perfuração em massa (com baionetas) de homens, mulheres e crianças; esmagamento das cabeças de bebês em paredes; massacre de prisioneiros com canhões; as torturas mais terríveis e hediondas; queima e pilhagem de vilas, cidades e igrejas. 

A perseguição só terminou de fato quando Napoleão chegou ao poder em 1799 — e precisava de paz na França para que pudesse iniciar suas guerras de conquista. Ele arranjou às pressas um acordo com o Papa, e a Vendeia se acalmou. 

Como a Revolução se tornou satânica. — Naturalmente, as coisas não deveriam sair dessa maneira. A Revolução começara com uma crise financeira e prometera acabar com uma monarquia absolutista, talvez junto com tropas britânicas. Luís XVI era um rei bondoso, ainda que não fosse muito competente. Ele havia retirado as prolongadas e vergonhosas penalidades legais que pesavam sobre os protestantes e judeus, impostas por seus ancestrais durante uma época de maior intolerância. Ele levou o reino à falência depois de financiar a Revolução Americana. (Por gratidão, o Congresso americano pendurou um retrato do monarca no Capitólio e deu o nome de Bourbon a um condado do sul. O uísque foi inventado lá.) Os legisladores franceses que se reuniram em 1789 pela primeira vez em mais de um século queriam, a princípio, reformar o governo, e não substituí-lo.

Algumas reformas eram realmente necessárias: como observaria Tocqueville, a centralização imposta por Luís XIV e por Luís XV havia abalado a vida política na França, concentrando nas mãos de tecnocratas o poder sobre as vidas de cidadãos quase integralmente em Paris. Como era esperado, arruinaram as coisas.

Diferentemente do reino irmão do outro lado do canal, a França não possuía um parlamento permanente e nenhuma lei comum que protegesse as pessoas de prisões arbitrárias; além disso, a economia era em grande medida dirigida pelo Estado, não por cidadãos livres. A Igreja na França, embora ainda estivesse em comunhão com Roma, era em grande parte controlada pelos reis, que nomeavam bispos e determinavam políticas. Na verdade, os reis de França, Espanha e Portugal se organizaram para obter a supressão dos jesuítas, cuja lealdade a Roma e rejeição do direito divino dos reis punha-os sob suspeita, e cuja defesa dos direitos dos índios atrapalhava o “progresso”.

O vácuo educacional criado pela destruição da Companhia de Jesus foi rápida e ironicamente preenchido pelos filósofos do Iluminismo. A primeira geração que cresceu sem a influência dos jesuítas atingiu a maioridade em 1789. Os abusos que viriam a marcar a Revolução — incluindo a execução em massa de sacerdotes e freiras — foram apoiados por intelectuais educados com os panfletos caluniadores de Diderot, repletos de mentiras pornográficas sobre as “vidas secretas” de monges e freiras.

Na verdade, há uma semelhança assustadora entre a literatura anticlerical que preparou o público para a pilhagem de mosteiros e as mentiras antissemitas espalhadas pelos nazistas. O eufemismo usado para descrever o roubo de propriedades eclesiásticas pelo Estado — “secularização” — encontrou eco, na década de 1930, no termo que o governo alemão usou para se referir ao roubo de propriedades dos judeus: “arianização”. Como os judeus são realmente um povo sacerdotal, não surpreende a existência de tais paralelos satânicos. Assim como os fascistas justificaram suas atrocidades ressaltando a proeminência dos judeus na economia e na imprensa, os esquerdistas ainda defendem a perseguição à Igreja destacando sua influência política. Eles não deveriam sair impunes por isso. Espero em vão pelo historiador que escreverá uma comparação completa entre antissemitismo e anticlericalismo.

Em 1989, ajudei a organizar a Missa fúnebre por todas as vítimas da Revolução. Convidamos o cônsul-geral francês, mas ele alegou que já tinha um compromisso. Na própria Vendeia, um amigo francês me contou que algumas pessoas ainda usam braçadeiras negras no feriado nacional e têm das três cores da Revolução a mesma opinião que os negros americanos têm da bandeira de batalha dos Confederados. 

Enquanto tememos pelo futuro da liberdade religiosa na América, lembremos aqueles que morreram pela liberdade e pela fé antes de nós. Deus não permita que tenhamos de seguir os passos deles.

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Duas crises, uma coisa necessária
Espiritualidade

Duas crises,
uma coisa necessária

Duas crises, uma coisa necessária

Em sua luta para proteger os índios, no filme “A Missão”, dois jesuítas recorrem a métodos bem diferentes. Um deles empunha uma espada, e o outro, um ostensório. Mas só este tem poder duradouro para nos levar à vitória — ainda que seja a vitória do martírio.

Dan BurkeTradução: Equipe Christo Nihil Praeponere13 de Julho de 2021Tempo de leitura: 4 minutos
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Não há como negar que enfrentamos na Igreja uma crise de enormes proporções. É bem provável que nos assustemos com as manchetes diárias de escândalo, acusações, ocultações, mentiras, infidelidade aos votos e à doutrina e imoralidade na hierarquia da Igreja — coisas que a deixam vulnerável e desacreditada no exato momento em que o mundo mais precisa de sua liderança moral.

Se você suspeita que nosso inimigo está usando uma estratégia deliberada e zombeteiramente irônica, então você tem razão.

Mas existe também outra crise, talvez mais velada, mas igualmente perigosa. É a crise nas almas que amam sua Mãe, a Igreja, e enxergam um abismo cada vez mais profundo entre o que é a Igreja e o que ela deveria ser. Ao verem a amada Noiva ficar cada vez mais desfigurada por seus pecados internos, é compreensível que sintam a tentação de ceder à frustração, à ansiedade e até à indignação. 

Temos de fazer algo! Um lamento furioso surge de algum lugar no meio do caos. É um grito de guerra que chama a atenção e é assumido por muitos que se desesperam e desejam lutar por aquilo que amam. Mas há um problema fundamental: o lamento muitas vezes surge do lado errado do abismo. É o grito de batalha do demônio, habilmente disfarçado e malicioso. Ele fica satisfeito quando pegamos em armas — porque, em seguida, pode nos manipular por meio de nossas paixões e conseguir o controle de ambos os lados da guerra.

Não é um lamento novo, pelo menos não para aqueles entre nós que testemunhamos as repercussões do Concílio Vaticano II, quando centenas de milhares de religiosos, sacerdotes e leigos perderam a fé (e tantos outros os hábitos e colarinhos), e passaram a seguir uma Igreja pseudomilitante, baseada na ação e na “justiça social”. 

Na superfície das coisas, isso parece hoje uma guerra diferente, mas a ameaça daquela época é a mesma que enfrentamos agora. Para que a reforma e a renovação sejam autênticas, duradouras e vivificantes, devem estar firmemente enraizadas no chamado de Cristo, que nos convoca para o único necessário. Unum est necessarium, diz Ele, com a palavra viva que reverbera até hoje. É o lembrete de que a oração deve ser o principal e de que palmas unidas são mais fortes do que punhos erguidos ou braços entrelaçados.   

A verdade é que estar na presença dele — para adorar, pedir, ouvir e nos unirmos a Ele, e nos unir às angústias dele — é o principal meio para curar a Igreja, isto é, de dentro para fora, extraindo do Coração dele a graça que transforma aquilo que toca (a começar por nós) e nos leva a cooperar seriamente com a ressurreição de seu Corpo eclesiástico, orientando e animando nossa energia e sabedoria para uma reforma autêntica e duradoura. Temos de nos posicionar contra o erro? Temos de revelar a verdade e expor as mentiras? Sim, e com empenho. Mas temos de fazê-lo segundo os caminhos de Deus, e isso significa: de acordo com as ordens dele.  

Temos de ser Maria primeiro e depois Marta, a começar pela dedicação à escuta de Deus. É a partir das profundezas de sua presença, e só então, que começaremos a discernir os modos como Ele quer que atuemos em seu nome. Então, é claro, já não seremos nós a agir, mas Ele a agir por meio de nós. É Ele quem renova, restaura e ressuscita. Sem Ele, nenhuma dessas coisas é possível — e quaisquer vitórias aparentes são, na melhor das hipóteses, ilusórias ou temporárias.

Não há nada de “ordinário” na oração. Ela não é um recurso final ou uma bandeira branca. Não é um recuo. É o centro da batalha e o reino que deve ser conquistado primeiro — todas as outras fortalezas cairão quando recuperarmos o poder da oração e do jejum. Aqueles que rezam e conversam intimamente com Deus não podem fazer nada menos que agir, mas agem com a sabedoria e o poder dele, e esperam em paz os resultados dele, no tempo dele.

Aqueles que rezam são os primeiros a se erguerem preparados para uma batalha que, em última instância, não é contra “a carne o sangue”, mas contra “principados e potestades”. Os verdadeiros inimigos da Igreja não estão nas manchetes. São seres espirituais cujas estratégias sutis contrárias à Igreja — e a nós, em nossos pensamentos e emoções — podem ser conhecidas e superadas. Como? Temos de ser vigilantes e conscientes, e aprender a distinguir entre o bem e o mal por meio da oração. Podemos aprender isso. Devemos vencer a guerra.

Vêm-me à mente as arrebatadoras cenas finais do filme A Missão [1], nas quais dois homens, que consagraram suas vidas a Deus, ambos com intenções nobres, lutam para proteger os nativos de comerciantes portugueses de escravos e recorrem a métodos muito diferentes na batalha pela missão de San Carlos. Um deles empunha uma espada; o outro, um ostensório. Apenas um deles tem um poder duradouro. Apenas um deles nos levará à vitória — mesmo que seja a vitória do martírio.

Notas

  1. Sobre esta célebre produção de 1986, vale a pena destacar que há algumas cenas de nudez nela presentes e, embora a maior parte delas seja um retrato mais natural que erótico — pois as tribos indígenas, antes de ser evangelizadas, de fato se vestiam com pouquíssimas roupas —, nunca é demais agir com atenção, prudência, discernimento antes de assistir a um filme assim, especialmente quando se é pai ou educador, e há crianças e adolescentes por perto. Para entender um pouco com que tipo de cena é possível deparar neste filme, recomendamos que se confira, antes, a seção Parents Guide deste filme no site IMDb.

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Sete irmãos, sete mártires
Liturgia

Sete irmãos, sete mártires

Sete irmãos, sete mártires

Ter sete filhos é uma coisa “de outro mundo” para a nossa época. Mas não para a liturgia da Igreja, que até pouco tempo atrás celebrava, todos os anos, os Sete Irmãos Mártires de Roma e os Santos Macabeus do Antigo Testamento.

Peter KwasniewskiTradução: Equipe Christo Nihil Praeponere8 de Julho de 2021Tempo de leitura: 4 minutos
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No calendário católico romano tradicional, o dia 10 de julho é a festa dos Sete Santos Irmãos, Mártires, e de Santas Rufina e Secunda, Virgens e Mártires. Os sete irmãos, filhos de Santa Felicidade [1], foram mortos em Roma e sepultados em quatro túmulos:

  • Alexandre, Vidal e Marçal, na Catacumba dos Jordanos, na Via Salária; 
  • São Januário, na Catacumba de Pretextato, na Via Ápia; 
  • Félix e Filipe, na Catacumba de Priscila, na Via Salária;
  • São Silvano, na Catacumba de Máximo, na Via Salária.

Aqui nós temos a versão cristã dos sete irmãos judeus dos Macabeus, cujo martírio também é celebrado pelo calendário tradicional em 1.º de agosto (com uma comemoração em São Pedro ad vincula [2]). Eles são os únicos santos do Velho Testamento presentes no calendário romano geral para a Missa.

Ambas as festas foram removidas pelos reformadores litúrgicos (entre os mais de 300 que foram retirados). Isso é lamentável por várias razões. Mencionarei apenas três. 

Primeiro, esses santos são celebrados desde tempos imemoriais, não só pela Igreja romana, mas também pela maior parte das igrejas orientais. Eles formam um vínculo com o culto da Igreja primitiva em sua catolicidade ininterrupta, a “Igreja indivisa” do primeiro milênio.

“Martírio dos Sete Macabeus”, por Antonio Ciseri.

Segundo, os irmãos judeus em particular nos lembram que a Igreja de Cristo, o Israel de Deus, existe desde o princípio do tempo, ainda que ela não estivesse completamente formada até a vinda de Cristo e o derramamento do Espírito Santo. Os israelitas piedosos já eram, como ensina claramente Santo Agostinho, membros da Igreja por antecipação, por sua fé na redenção futura de Israel e no Messias. Esse é um corretivo necessário à falsa ideia de que o Antigo e o Novo Testamentos pertencem a duas diferentes religiões: os judeus e os cristãos. Na verdade, a Bíblia como um todo pertence à Igreja porque ela inteira aponta para Cristo, como aquele que devia vir ou como aquele que já veio e há de vir de novo em sua glória.

Terceiro — e o mais importante para nossa época —, essas duas festas celebram famílias numerosas. Sete irmãos foram martirizados, mas eles provavelmente tinham irmãs também, que não são mencionadas nos registros. O novo calendário litúrgico, até onde sei, não celebra nenhuma família numerosa como grupo de santos.

Como um amigo me alertou, é preciso destacar, para fins de precisão, que há várias questões históricas sobre quem foram exatamente esses sete irmãos e se eles foram ou não irmãos de sangue e todos filhos de uma Felicidade. O chamado Sacramentário Leonino contém sete diferentes Missas para eles, das quais apenas uma diz, no Prefácio, que eles eram irmãos. O Sacramentário de Gellone (c. 780) os chama de irmãos no título de sua Missa, mas as orações dela, mais antigas (as mesmas que constam no Missal de São Pio V), não se referem a eles como tais, e Santa Felicidade sequer é mencionada. Eles foram mortos de diferentes maneiras e enterrados em lugares diversos, o que acrescenta uma camada mais de mistério [3]. Por outro lado, conforme o contra-argumento de outro amigo, a tradição de que eles eram irmãos remonta, aparentemente, ao século IV, dada uma inscrição descoberta em 1966 na Catacumba dos Jordanos: 

SEPTIMO EX NUMERO FRATRUM … / HIC VOLVIT SANCTUS MARTYR SUA CON(dere membra) / ATRI(a quod) CAELI SCIRET SIBI LONG(a parata), “Ao sétimo do número dos irmãos... / Aqui quis o santo mártir guardar os seus membros, / Como soubesse estarem os átrios largos do céu preparados para si”.

E São Gregório Magno não achava que estivesse fora de questão a consanguinidade dos mártires, apesar de eles terem sido sepultados separadamente.

“Martírio de Santa Felicidade e de seus sete filhos”, por Francesco Coghetti.

Em outras palavras, a história é bagunçada e nós não sabemos ao certo o que se passou. As coisas são assim quando lidamos com registros muito antigos: nós não esperamos ter todas as provas de que precisamos para obter certeza histórica. Mas o ceticismo não é a resposta correta para legendas dos santos que foram acolhidas e celebradas pela Igreja por tantos séculos. É útil contra o racionalismo moderno continuar fazendo o que a Igreja nos dá em sua tradição, mesmo que alguns estudiosos não fiquem satisfeitos com isso. Por mais importante que seja o trabalho desses intelectuais, não se pode permitir jamais que eles tenham a última palavra. Foi o que aconteceu na reforma litúrgica, e a completa desolação que a ela se seguiu assombrará a memória da Igreja até o fim dos tempos.

Obviamente, a finalidade das comemorações de sete irmãos, tanto no dia 10 de julho quanto no dia 1.º de agosto, é venerar esses mártires, exultar em sua vitória, implorar sua intercessão e imitar o seu exemplo — o tamanho da família é um tanto ou quanto acidental. Ainda assim, é uma realidade que se impõe às mentes dos católicos: eis aqui sete irmãos de sangue, que inevitavelmente farão os fiéis se acostumarem, de modo sutil, com a ideia de que é perfeitamente normal uma família com (pelo menos) sete filhos. Essa seria mais uma das formas através das quais a Missa Tridentina oferece uma antítese à propaganda moderna contra a família.

Uma última observação: o outro par de santos que se celebra no dia 10 de julho, Rufina e Secunda, são virgens mártires do século III cujas relíquias foram transladadas neste dia, no século XII. Sua legenda afirma que se tratava de irmãs de um senador romano, de nome Astério. Seus noivos, Armentário e Verino, eram cristãos, mas renunciaram à fé quando Valeriano começou suas perseguições. Também aqui: que modelos perfeitos para os jovens modernos de hoje, que podem se ver forçados a escolher entre a fidelidade e a apostasia!

Notas

  1. Esta Santa Felicidade não é a mesma mencionada no Cânon Romano juntamente com a irmã, Perpétua, e cuja memória se celebra no dia 6 de março. Trata-se de uma santa romana martirizada em data desconhecida. Está enterrada na Catacumba de Máximo. Seu nome já aparece no calendário das festas romanas do século V, e sua memória se celebra no dia 23 de novembro, junto com São Clemente (N.T.).
  2. As relíquias dos Santos Macabeus, honradas em Antioquia no tempo de São Jerônimo, foram transportadas no século VI para a Basílica de San Pietro in Vincoli, “São Pedro Acorrentado”, em Roma (N.T.).
  3. Segundo o antigo Martirológio Romano, “Januário, depois de açoitado com varas e maltratado no cárcere, correu flagelado com látegos chumbados; Félix e Filipe foram mortos a pauladas; Silvano morreu lançado num precipício; Alexandre, Vidal e Marçal foram decapitados” (N.T.). O novo Martirológio nada fala do modo como morreram os irmãos.

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