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Jesus, que nos ama, alertou várias vezes sobre o Inferno
Doutrina

Jesus, que nos ama,
alertou várias vezes sobre o Inferno

Jesus, que nos ama, alertou várias vezes sobre o Inferno

Contra a “heresia” moderna de que todos serão salvos, creiamos nesta verdade fundamental: ninguém nos ama mais do que Jesus Cristo, mas também ninguém mais do que Ele alertou-nos sobre o Inferno e o Juízo.

Mons. Charles PopeTradução: Equipe Christo Nihil Praeponere5 de Fevereiro de 2020Tempo de leitura: 11 minutos
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Nos dias atuais, muitas pessoas apresentam o Inferno como uma contradição ao amor de Deus; Jesus, porém, associa essas duas realidades. Aqui está uma verdade fundamental: ninguém nos ama mais do que Jesus Cristo, mas também ninguém mais do que Ele alertou-nos sobre o Inferno e o Juízo. Ele deu aviso após aviso e contou parábola após parábola, advertindo de forma clamorosa sobre o julgamento divino e a realidade do Inferno.

Todavia, nenhuma “heresia” de nossos dias é mais difundida ou perniciosa do que a negação do Inferno, de que ele existe e é habitado por muitas almas. Uso aspas na palavra “heresia” apenas porque eu, como simples padre, não tenho o poder de declará-la formalmente como tal. No entanto, “heresia”, em um sentido mais amplo e descritivo, significa, de forma simples, escolher entre as verdades reveladas. Confrontado com verdades que estão em certa tensão — como a justiça de Deus e a sua misericórdia, ou a liberdade humana e a soberania de Deus —, o “herege”, para resolver a aparente tensão, escolhe uma verdade e joga fora a outra. Enquanto a ortodoxia crê em “ambas”, a “heresia” afirma uma e nega a outra.

No que diz respeito aos ensinamentos sobre o Inferno e o julgamento, o “herege” não consegue conciliar o amor e a misericórdia de Deus com a realidade do Inferno e da separação eterna dEle. No entanto, o Amor Encarnado, Jesus Cristo, falou sobre isso mais do que qualquer outra pessoa. Assim, o problema de não aceitação da realidade infernal está em nós, não em Jesus nem no Pai.

Simplesmente nos recusamos a obedecer ao que é ensinado e a aceitar que, por termos livre-arbítrio, as escolhas que fazemos são determinantes. Ficamos iludidos, acreditando no “todos viveram felizes para sempre”, como se a vida fosse um conto de fadas. Tentamos negar que nossas escolhas constituem nosso caráter e que este, por sua vez, condiciona nosso destino eterno. Nesta vida, recusamo-nos a assumir a responsabilidade pelas escolhas que fizemos, mas, um dia, não seremos mais capazes de renunciar a tal responsabilidade. Em vez disso, culpamos a Deus — que enviou seu próprio Filho para nos salvar — como se Ele fosse mau; e atribuímos a Ele a responsabilidade por irmos ou não para o Inferno.

Enquanto isso, Deus está implorando: “Vinde a mim. Vinde a mim antes que finalmente chegue a hora de partir e fechar a porta!

Portanto, ou Deus é amor e somos livres para escolhê-lo — ou rejeitá-lo — em nosso próprio ato de amor, ou Deus é um “chofer” que conduz todos ao Céu, sem se importar em que situação estamos para viver com Ele na eternidade. Em outras palavras, o livre-arbítrio consiste na capacidade de fazer escolhas, entre as quais a de negar a Deus. Nesse sentido, o Inferno existe enquanto consequência última do livre-arbítrio.

Precisamos estar convencidos disso assim como Jesus estava. Ele nos exortou e advertiu constantemente. Ele nos conhece e sabe como somos teimosos e obstinados, e que não gostamos de saber o que devemos fazer. Sim, Jesus observou tristemente que muitos — de fato, “a maioria” — preferem ir para o Inferno que servir no Céu (cf. Mt 7, 13).

Devemos, então, superar nossa presunção orgulhosa de que a salvação é algo fácil de se alcançar, e ouvir os clamores de nosso Salvador, Jesus Cristo. Devemos aceitar amorosamente seus conselhos, permitir que Ele acenda em nós um santo temor, a fim de que nos esforcemos convictamente para permanecer na graça de Deus e assim alcançar a salvação.

Novamente, recordemos esta verdade fundamental: ninguém nos ama mais do que Jesus Cristo, mas também ninguém mais do que Ele alertou-nos sobre o Inferno e o Juízo. Permita que o Senhor associe essas duas realidades no seu coração. De forma suave e terna, Jesus está chamando: “Ó pecador, volte para casa!” Não seja iludido pela “heresia” moderna de que todos serão salvos. Jesus não ensinou isso, nem os Apóstolos, que são seus porta-vozes e sucessores no ministério. Não tente anular ou corrigir Jesus; seja obediente e aceite, com amor e fé, o que Ele ensinou. O Inferno é real; e nós precisamos de um salvador, mas Ele quer ouvir o nosso “sim”.

Para demonstrar as constantes advertências de Deus à humanidade, gostaria de apresentar uma coleção de “textos de alerta”, como uma espécie de antídoto para essa “heresia” dos tempos modernos.

Textos sobre o Inferno e o Juízo

As duas primeiras passagens são do Antigo Testamento e exemplificam a tradição profética na qual Jesus se fundamentava:

  • “E haverá uma vereda pura, que se chamará o caminho santo; nenhum ser impuro passará por ele, e os insensatos não rondarão por ali” (Is 35, 8).
  • “E quando se virarem, poderão ver os cadáveres daqueles que se revoltaram contra mim, porque o verme deles não morrerá e seu fogo não se extinguirá, e para todos serão um espetáculo horripilante” (Is 66, 24).

No Novo Testamento, principalmente nos Evangelhos, são inúmeras as referências a esse tema: 

  • Aqui João Batista adverte: “Ele tem na mão a pá, limpará sua eira e recolherá o trigo ao celeiro. As palhas, porém, serão queimadas num fogo inextinguível” (Mt 3, 12).
  • Até mesmo a ira injusta, sem arrependimento, pode levar ao Inferno. Nós tendemos a justificar nossa raiva; mas Deus adverte que não podemos caminhar para o Céu apegando-nos a isso: “Mas eu vos digo: todo aquele que se irar contra seu irmão será castigado pelos juízes. Aquele que disser a seu irmão ‘imbecil’, será castigado pelo Grande Conselho. Aquele que lhe disser ‘louco’, será condenado ao fogo do Inferno” (Mt 5, 22).
  • Tendemos a “maquiar” o pecado, mas Nosso Senhor não: “Se teu olho direito é para ti causa de queda, arranca-o e lança-o longe de ti, porque te é preferível perder-se um só dos teus membros a que o teu corpo todo seja lançado no Inferno.” (Mt 5, 29) Obviamente, Jesus não está dizendo que devemos nos mutilar, mas que o pecado é mais grave do que perder os nossos olhos, pés ou mãos. Mesmo que não pensemos assim, Deus nos adverte que nosso maior problema é o pecado, e não nossa saúde, ou finanças físicas, ou qualquer outro problema passageiro; nosso problema mais sério é o nosso pecado.
  • “Porque, se perdoardes aos homens as suas ofensas, vosso Pai celeste também vos perdoará. Mas, se não perdoardes aos homens, tampouco vosso Pai vos perdoará” (Mt 6, 14-15). Essa é uma advertência bem clara de que devemos permitir que Deus nos conceda o dom da misericórdia e do perdão. Caso contrário, não poderemos entrar no Céu: bem-aventurados os misericordiosos, pois obterão misericórdia.
  • Nosso Senhor adverte que o número dos que se perdem é maior que o daqueles que se salvam: “Entrai pela porta estreita, porque larga é a porta e espaçoso o caminho que conduz à perdição e numerosos são os que por aí entram” (Mt 7, 13).
  • Tenhamos um santo temor, a fim de que não percamos o que realmente importa, a graça de nos unirmos a Cristo: “Não temais aqueles que matam o corpo, mas não podem matar a alma; temei antes aquele que pode precipitar a alma e o corpo no Inferno” (Mt 10,28).
  • “E tu, Cafarnaum, serás elevada até o céu? Não! Serás atirada até o Inferno! Porque, se Sodoma tivesse visto os milagres que foram feitos dentro dos teus muros, subsistiria até este dia.” (Mt 11, 23). O fato de estarmos inseridos na Igreja não nos garante a salvação; ao contrário, exige mais responsabilidade de nós, pois a quem muito foi dado, muito será cobrado.
  • Haverá um juízo final, no qual o trigo será guardado e o joio será queimado: “No tempo da colheita, direi aos ceifadores: arrancai primeiro o joio e atai-o em feixes para o queimar. Recolhei depois o trigo no meu celeiro’.” (cf. Mt 13, 24-30)
  • Nesse juízo final, responderemos por cada ato que realizamos: “Eu vos digo: no dia do juízo os homens prestarão contas de toda palavra vã que tiverem proferido.” (Mt 12, 36).
  • As advertências de Cristo são contundentes: “Serpentes! Raça de víboras! Como escapareis ao castigo do Inferno?” (Mt 23, 33).
  • A recompensa será dada de acordo com as nossas ações: “Ele se voltará em seguida para os da sua esquerda e lhes dirá: ‘Retirai-vos de mim, malditos! Ide para o fogo eterno destinado ao demônio e aos seus anjos. Porque tive fome e não me destes de comer; tive sede e não me destes de beber; era peregrino e não me acolhestes; nu e não me vestistes; enfermo e na prisão e não me visitastes’.” (cf. Mt 25, 41-46)
  • Aqueles que levam os outros a pecar terão que responder a Jesus pelo que fazem: “Mas todo aquele que fizer cair no pecado a um destes pequeninos que creem em mim, melhor lhe fora que uma pedra de moinho lhe fosse posta ao pescoço e o lançassem ao mar!” (cf. Mc 9, 42-48)
  • No juízo final, muitos não serão reconhecidos por Deus: “Sempre em caminho para Jerusalém, Jesus ia atravessando cidades e aldeias e nelas ensinava. Alguém lhe perguntou: ‘Senhor, são poucos os homens que se salvam?’ Ele respondeu: ‘Procurai entrar pela porta estreita; porque, digo-vos, muitos procurarão entrar e não o conseguirão. Quando o pai de família tiver entrado e fechado a porta, e vós, de fora, começardes a bater à porta, dizendo: Senhor, Senhor, abre-nos, ele responderá: Digo-vos que não sei donde sois. Direis então: Comemos e bebemos contigo e tu ensinaste em nossas praças. Ele, porém, vos dirá: Não sei donde sois; apartai-vos de mim todos vós que sois malfeitores. Ali haverá choro e ranger de dentes, quando virdes Abraão, Isaac, Jacó e todos os profetas no Reino de Deus, e vós serdes lançados para fora. Virão do Oriente e do Ocidente, do Norte e do Sul, e se sentarão à mesa no Reino de Deus. Há últimos que serão os primeiros, e há primeiros que serão os últimos’.” (Lc 13, 22-30’).
  • Seremos julgados por nossa inobservância aos mandamentos: “Quem me despreza e não recebe as minhas palavras tem quem o julgue; a palavra que anunciei, essa o julgará no último dia. Em verdade, não falei por mim mesmo, mas o Pai, que me enviou, ele mesmo me prescreveu o que devo dizer e o que devo ensinar. E sei que o seu mandamento é vida eterna” (Jo 12, 48-50).
  • Jesus, o justo juiz, virá em breve a fim de nos julgar: “Eis que venho em breve, e a minha recompensa está comigo, para dar a cada um conforme as suas obras. Eu sou o Alfa e o Ômega, o Primeiro e o Último, o Começo e o Fim. Felizes aqueles que lavam as suas vestes para ter direito à árvore da vida e poder entrar na cidade pelas portas. Fora os cães, os envenenadores, os impudicos, os homicidas, os idólatras e todos aqueles que amam e praticam a mentira! Eu, Jesus, enviei o meu anjo para vos atestar estas coisas a respeito das igrejas. Eu sou a raiz e o descendente de Davi, a estrela radiosa da manhã” (Ap 22, 12-16).

Jesus exortou os Apóstolos a pregar, ensinar, governar e santificar em seu nome. Assim, nos textos apostólicos, é o próprio Cristo que nos fala:

  • “Procurai a paz com todos e ao mesmo tempo a santidade, sem a qual ninguém pode ver o Senhor.” (Hb 12, 14)
  • “Vós todos considerai o matrimônio com respeito e conservai o leito conjugal imaculado, porque Deus julgará os impuros e os adúlteros.” (Hb 13, 4)
  • “Falai, pois, de tal modo e de tal modo procedei, como se estivésseis para ser julgados pela Lei da liberdade. Haverá juízo sem misericórdia para aquele que não usou de misericórdia. A misericórdia triunfa sobre o julgamento.” (Tg 2, 12-13)
  • “Tu, ó homem, que julgas os que praticam tais coisas, mas as cometes também, pensas que escaparás ao juízo de Deus? Ou desprezas as riquezas da sua bondade, tolerância e longanimidade, desconhecendo que a bondade de Deus te convida ao arrependimento? Mas, pela tua obstinação e coração impenitente, vais acumulando ira contra ti, para o dia da cólera e da revelação do justo juízo de Deus, que retribuirá a cada um segundo as suas obras: a vida eterna aos que, perseverando em fazer o bem, buscam a glória, a honra e a imortalidade; mas ira e indignação aos contumazes, rebeldes à verdade e seguidores do mal. Tribulação e angústia sobrevirão a todo aquele que pratica o mal, primeiro ao judeu e depois ao grego; mas glória, honra e paz a todo o que faz o bem, primeiro ao judeu e depois ao grego. Porque, diante de Deus, não há distinção de pessoas.” (Rm 2, 3-11)
  • “Acaso não sabeis que os injustos não hão de possuir o Reino de Deus? Não vos enganeis: nem os impuros, nem os idólatras, nem os adúlteros, nem os efeminados, nem os devassos, nem os ladrões, nem os avarentos, nem os bêbados, nem os difamadores, nem os assaltantes hão de possuir o Reino de Deus.” (1Cor 6, 9-10)
  • “Assim, eu corro, mas não sem rumo certo. Dou golpes, mas não no ar. Ao contrário, castigo o meu corpo e o mantenho em servidão, de medo de vir eu mesmo a ser excluído depois de eu ter pregado aos outros.” (1Cor 9, 26-27)
  • “Assim, meus caríssimos, vós que sempre fostes obedientes, trabalhai na vossa salvação com temor e tremor, não só como quando eu estava entre vós, mas muito mais agora na minha ausência.” (Fl 2, 12)
  • “Ora, as obras da carne são estas: fornicação, impureza, libertinagem, idolatria, superstição, inimizades, brigas, ciúmes, ódio, ambição, discórdias, partidos, invejas, bebedeiras, orgias e outras coisas semelhantes. Dessas coisas vos previno, como já vos preveni: os que as praticarem não herdarão o Reino de Deus!” (Gl 5, 19- 21)
  • “Quanto à fornicação, à impureza, sob qualquer forma, ou à avareza, que disto nem se faça menção entre vós, como convém a santos. Nada de obscenidades, de conversas tolas ou levianas, porque tais coisas não convêm; em vez disso, ações de graças. Porque sabei-o bem: nenhum dissoluto, ou impuro, ou avarento — verdadeiros idólatras! — terá herança no Reino de Cristo e de Deus. E ninguém vos seduza com vãos discursos. Estes são os pecados que atraem a ira de Deus sobre os rebeldes. Não vos comprometais com eles.” (Ef 5, 3-7)

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A “velha senhorinha de igreja” que conheceu o Menino Jesus
Espiritualidade

A “velha senhorinha de igreja”
que conheceu o Menino Jesus

A “velha senhorinha de igreja” que conheceu o Menino Jesus

Ela era idosa, seu esposo já há muito morrera, e ela passava “noite e dia” rezando e jejuando no Templo. A descrição soa-lhe familiar? A profetisa Ana se enquadra bem no perfil da “velha senhorinha de igreja”.

Br. Titus Mary Sanchez, O.P.Tradução: Equipe Christo Nihil Praeponere31 de Janeiro de 2020Tempo de leitura: 3 minutos
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Você já viu uma delas em público, até em lugares nos quais pensou estar só. É provável que já tenha sido beijada por alguma ao menos uma vez na vida. Nós todos já conhecemos uma delas. É possível que haja uma na sua própria família. Quem sabe você mesma não seja uma delas. Sim, eu estou falando das “velhas senhorinhas de igreja”

Elas existem faz muito tempo. No evangelho deste domingo (festa da Apresentação do Senhor), somos apresentados a uma chamada Ana. Ela é idosa, seu esposo já há muito morrera, e ela passa “noite e dia” rezando e jejuando no Templo (cf. Lc 2, 37). A descrição soa-lhe familiar? Ana se enquadra bem no perfil da “velha senhorinha de igreja”

Nessa leitura, Ana é retratada ao lado de um senhor chamado Simeão. Ele primeiro profetiza que o menino Jesus é o Salvador de Israel e que Maria irá tomar parte no plano salvífico de Deus de uma forma única e misteriosa. Ele sabe, porque recebeu essa revelação do Espírito Santo (cf. Lc 2, 26). De modo semelhante, Ana profetiza sobre Jesus ser o Redentor de Israel bem no final da leitura do evangelho (cf. Lc 2, 38). 

Depois de ler pela primeira vez essa passagem, a importância desses dois “velhinhos de igreja” talvez nos passe desapercebida; afinal de contas, Jesus e Maria geralmente são o foco desse trecho. Poderíamos nos perguntar, então, o que significa a presença de Ana e Simeão. 

A tradição cristã oriental os inclui entre os últimos dos profetas do Antigo Testamento. Por séculos, os profetas pregaram às tribos de Israel, alertando-as para que se arrependessem de seus pecados, voltassem à lei de Deus e se preparassem para a chegada do Messias — palavra que significa, literalmente, “o ungido”. Profetas como Isaías, Jeremias, Ezequiel, Daniel, Oséias e Jonas (a lista poderia se estender ainda mais), todos esperaram ansiosos a vinda do Messias.

Mas, enquanto os profetas do Velho Testamento falaram do Messias que viria, Ana e Simeão receberam a perfeição da profecia, pois testemunharam o cumprimento das promessas de Deus. Ana e Simeão podem ter visto com seus olhos um bebê judeu, mas com os olhos do coração eles viram o verdadeiro Messias de Deus

Esses geralmente esquecidos “velhinhos de igreja” são uns dos primeiros a receber o dom da , dado a todos que acreditarão nessa criança que é o Cristo: “A fé é o fundamento das coisas que se esperam e o argumento das que não se veem” (Hb 11, 1).

O cumprimento da promessa do Messias é muito mais do que poderiam esperar os mais devotos dos judeus: Jesus, o Messias, revela que irá vencer a morte, conceder a vida eterna e habitar nos corações do povo escolhido de Deus por meio do dom da fé. Nas Escrituras, Jesus deixa claro que Ele e seu Pai virão e farão morada nas almas dos que o amam (cf. Jo 14, 23). Santo Tomás acrescenta que é pela fé, então, que “a vida eterna começa em nós” (STh II-II, 4, 1c.).

“Calma, você está me dizendo que, pela fé, a vida eterna, o Céu, começa na minha alma… agora?”

É exatamente isso que estou dizendo.

Nós fomos agraciados com o mesmo dom da fé que deu a Ana ver o Senhor sem um apelo externo — ela recebeu uma luz interior. A “velha senhorinha de igreja” com que se encontraram Maria e José é um lembrete e um sinal de que Deus é fiel a suas promessas: “Eu sou a ressurreição e a vida; quem crê em mim, ainda que esteja morto, viverá, e todo aquele que vive e crê em mim não morrerá eternamente. Crês nisso?” (Jo 11, 25-26).

Uma “velha senhorinha de igreja” responde a essa pergunta de Cristo com fé simples e despretensiosa: “Sim, Senhor, eu creio que tu és o Cristo, o Filho de Deus” (Jo 11, 27).

Se ter fé significa tornar-se um pouco dessas “velhas senhorinhas de igreja”, e se essas pessoas são realmente agraciadas com uma breve visão do Deus eterno em seus corações… então também eu quero ser como elas.

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As origens da festa da Purificação de Nossa Senhora
Liturgia

As origens da festa da
Purificação de Nossa Senhora

As origens da festa da Purificação de Nossa Senhora

Desde suas origens, nos primeiros séculos, até a recente reforma do Missal: saiba como se desenvolveu ao longo dos séculos a festa da Apresentação do Senhor, com a qual se encerra formalmente o ciclo litúrgico do Natal.

Gregory DipippoTradução: Equipe Christo Nihil Praeponere30 de Janeiro de 2020Tempo de leitura: 9 minutos
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— Escrevendo no final do século XIII, o comentarista litúrgico medieval Guilherme Durando descreve a Purificação como uma “festa dupla” [1]:

Em relação àquele que nasceu, a festa é chamada de “Hypapante”, isto é, “o encontro” (em grego), porque naquela solenidade a profetisa Ana e Simeão encontraram Nossa Senhora quando ela foi ao templo para oferecer seu Filho, o Cristo. A vinda do Senhor ao templo significa sua vinda à Igreja e à mente de cada alma fiel, que é um templo espiritual. O Senhor profetizou essa vinda por meio do profeta Malaquias: “Vou mandar o meu mensageiro para preparar o meu caminho” (3, 1-4). Segundo, em relação àquela que deu à luz, a festa também é chamada de Purificação porque a Santíssima Virgem, embora não tivesse necessidade de purificação, e não estivesse sujeita à lei da purificação, quis mesmo assim cumprir o preceito da Lei (cf. Lv 12, 1-8).

Esse preceito declara que, quarenta dias depois de dar à luz, uma mulher “levará até a porta do tabernáculo do testemunho um cordeiro de um ano de idade para o holocausto, e uma jovem pomba ou rola em sacrifício pelo pecado, entregá-los-á ao sacerdote, que os oferecerá perante o Senhor”. Por essa razão, a Purificação serve como o encerramento formal do tempo do Natal e é celebrada exatamente quarenta dias depois dele

Sua ligação com o Natal é expressa com clareza nas Primeiras Vésperas (da Forma Extraordinária do Rito Romano), cujas antífonas são as mesmas da Oitava de Natal. Cada uma delas fala da Virgem especificamente em referência ao nascimento do Salvador, como, por exemplo, a segunda: “Quando natus es ineffabíliter ex Vírgine, tunc implétæ sunt Scriptúræ: sicut plúvia in vellus descendísti, ut salvum fáceres genus humánum: te laudámus, Deus noster — Ao nascerdes da Virgem de modo inefável, a palavra de Deus se cumpriu plenamente: como chuva na relva descestes dos céus e viestes salvar-nos! Glória a vós, nosso Deus!” 

No Breviário de São Pio V, essas antífonas são cantadas com os salmos vespertinos para as festas da Virgem, mas em outros lugares eram usados os salmos das Vésperas de Natal. Em Liège e em outros lugares, o hino das Laudes do Ofício de Natal, A solis ortus cardine, era cantado nessas Vésperas no lugar do hino mariano Ave maris stella. Em muitas igrejas, o branco, cor litúrgica do tempo do Natal, era usado nas Missas do tempo para o período entre a oitava da Epifania e a Purificação, e o uso do verde só começava depois do dia 2 de fevereiro. (Em Paris, esse costume continuou até 1870.) 

A liturgia também marca formalmente a Purificação como o fim de todo o ciclo de celebrações que forma a primeira parte do ano eclesial. No primeiro domingo do Advento, a oração pós-comunhão (no rito tridentino) começa com as palavras: “Que possamos receber (suscipiamus) vossa misericórdia, ó Senhor, no meio do vosso templo”, enquanto o Intróito da Purificação (abaixo), citando de modo mais exato o Salmo 47, começa com o verbo no indicativo: “Nós recebemos (suscepimus), ó Senhor, vossa misericórdia, no meio do vosso templo.” Essa mudança indica que aquilo que pedimos e aguardávamos no Advento foi completamente recebido no nascimento de Cristo

Deve-se notar, também, que a Quarta-feira de Cinzas pode cair, no máximo, no dia 4 de fevereiro. (Isso não ocorre desde 1818 e só ocorrerá novamente em 2285.) Portanto, o ciclo do Natal, incluindo o tempo preparatório do Advento, sempre ficará separado do ciclo da Páscoa, incluindo o tempo preparatório da Quaresma, por um intervalo de pelo menos um dia.

— No final do século IV, a peregrina Egéria escreveu no famoso relato de sua visita à Terra Santa que o Encontro do Senhor com Simeão no Templo foi celebrado lá com particular solenidade, “tal como a Páscoa”, quarenta dias depois da Epifania. Na época dela, a Epifania comemorava todos os eventos do nascimento do Senhor, e portanto o Encontro era celebrado no dia 14 de fevereiro. Esse arranjo é observado até hoje no Rito Armênio. Quando, pouco tempo depois, a festa do Natal foi adotada no Oriente (e, em alguns lugares, até antes disso), a Epifania oriental focava no Batismo do Senhor; o Encontro, por ser um evento de sua infância, foi então adiantado para 2 de fevereiro, contando os quarenta dias a partir de 25 de dezembro.

A Apresentação, por Vicente López y Portaña.

Afirma-se com frequência que, quando foi introduzido no Ocidente em meados do século VII, o Encontro tornou-se uma festa mariana, enquanto o Oriente continuou a observá-la como uma festa do Senhor [2]. Isso vem de uma análise bastante superficial de seu título litúrgico e de seus textos. É verdade que seu nome latino aparece muito cedo como “a Purificação da Virgem Maria”, como, por exemplo, no Sacramentário Gelasiano e no lecionário de Murbach, ambos de meados do século VIII. Também é verdade que ela foi considerada uma festa mariana na Idade Média. Porém, seu caráter de “festa dupla” de origem grega jamais foi esquecido; cerca de um século antes de Durando, Sicardo de Cremona escreveu: “Portanto, hoje é uma solenidade dupla, daquela que dá à luz e daquele que nasce, isto é, da Mãe e do Filho; em relação à Mãe, é chamada de ‘a Purificação’; em relação ao Filho, ‘Hypapante’, que é traduzido por ‘o Encontro’” [3]. 

A tradicional Missa Romana da Purificação se refere à Virgem apenas onde ela é mencionada no Evangelho, e quase secundariamente na oração pós-comunhão. Da mesma forma, os ritos que precedem a Missa se referem a ela uma vez na primeira oração da bênção das velas (mais uma vez, de modo quase secundário) e duas vezes nas antífonas processionais. O duplo caráter da festa observado por Sicardo e Durando é expresso de forma mais clara no Ofício, do qual muitas partes são tomadas das festas comuns da Virgem. No entanto, mesmo neste caso o invitatório, as leituras e os responsórios das Matinas, bem como as antífonas das Laudes (também usadas nas Horas seguintes), referem-se todas ao Encontro de Cristo com Simeão.

De acordo com o Liber Pontificalis, o Papa São Sérgio I (687-701) instituiu uma procissão da igreja de Santo Adriano no Fórum Romano até Santa Maria Maior, a ser realizada na Anunciação, na Dormição e na Natividade da Virgem, e na “festa de São Simeão”. Nascido na Sicília, mas de origem síria, com certeza esse papa tinha familiaridade, desde sua juventude, com as liturgias de tradição latina e bizantina. Há uma boa evidência de que uma procissão com velas foi associada à festa desde tempos mais remotos, como observam também as Butler’s Lives, mas ela desapareceu por completo no Oriente; hoje, nas poucas igrejas orientais nas quais é feita, trata-se de uma latinização muito recente. Não há menção a velas nas palavras do Liber Pontificalis sobre o Papa Sérgio, nem nos antigos livros litúrgicos romanos; a primeira referência a uma bênção das velas no dia 2 de fevereiro é encontrada no final do século X.

A bênção romana é tipicamente simples, e segue um padrão similar ao da bênção dos ramos. Cinco orações são feitas sobre as velas; em seguida, são aspergidas com água benta e incensadas. Finalmente, são distribuídas enquanto o cântico de Simeão Nunc dimittis é entoado com a seguinte antífona depois de cada verso: “Lumen ad revelationem gentium: et gloriam plebis tuae Israel — Uma luz para a revelação dos gentios, e a glória de vosso povo, Israel.” Após uma segunda antífona e uma breve coleta, vem uma procissão acompanhada pelo cântico de duas longas antífonas. A primeira delas é tomada da Liturgia Bizantina; a segunda é do Evangelho do dia:

Adorna, ó Sião, o teu leito nupcial e recebe nele Jesus Cristo que é o teu Rei. Recebe Maria em teus braços, que ela é a porta do céu e traz consigo o Rei da Glória, da nova luz. A Virgem aproxima-se trazendo ao colo o Filho que gerou antes do sol e que Simeão, tomando-o nos braços, apontou aos povos como o Senhor da vida e da morte e o Salvador do mundo.

Revelou o Espírito Santo a Simeão que não veria a morte sem primeiro ver o ungido do Senhor. E quando levaram o menino ao Templo, tomou-o nas mãos e bendisse ao Senhor, dizendo: “Agora, Senhor, podeis deixar partir vosso servo em paz.” V. Quando o pai e a mãe de Jesus o levaram ao Templo a fim de cumprirem por Ele as prescrições da Lei, Simeão tomou-o nos braços.

Enquanto a procissão entra na igreja, um dos responsórios das Matinas é cantado; repare como a repetição do verso completa de forma inteligente a doxologia no final. 

R. Ofereceram por Ele ao Senhor um par de rolas ou dois pombinhos: conforme está escrito na Lei do Senhor. V. Depois de se completar o tempo, em que, segundo a Lei de Moisés, Maria devia ser purificada, levaram Jesus a Jerusalém, a fim de o apresentar ao Senhor, segundo o que está escrito na sua Lei. Glória… * Segundo o que está escrito na Lei.

Segundo a tradição histórica romana, usavam-se paramentos violáceos na procissão e brancos na Missa celebrada após o retorno à igreja. Clero e fiéis seguram velas acesas (na medida do possível) durante a procissão, enquanto o Evangelho é cantado e do Cânon até a comunhão. 

— Foram feitas muitas tentativas improváveis de conectar a bênção e a procissão da Candelária com o antigo rito romano de purificação da Lupercália. O Venerável Beda, escrevendo por volta do ano 720, diz que o rei romano Numa dedicou fevereiro ao deus Fébruo, outro nome para Plutão, “que supostamente tinha poder sobre os ritos de purificação”, e o instituiu como um mês de vários ritos para purificar religiosamente a cidade. (O nome do mês e do deus deriva de “februare — purificar”.) Beda diz, então, que a religião cristã aprimorou “esse costume”, sem mencionar a Lupercália especificamente, ao instituir uma procissão com velas em seu lugar “no mesmo mês, no dia de Santa Maria” [4].

A Lupercália é mencionada várias vezes por outros Padres da Igreja, e até no final do século V o Papa São Gelásio I sentiu a necessidade de combater alguns vestígios dessa celebração. Ainda era realizada na cidade uma corrida que fazia parte do festival, e numa carta para um senador romano que defendia o evento o papa sugere com sarcasmo que os corredores deveriam retornar à prática mais antiga e correr nus. A ideia de Beda se torna mais tentadora como explicação para as origens da procissão quando consideramos que a Lupercália era celebrada entre os dias 13 e 15 de fevereiro, coincidindo com a data original da Purificação no Oriente; e que, além disso, o nome da festa cristã que inicia o mês romano da purificação foi alterado em Roma para “a Purificação”.  

Apesar disso, é muito improvável que quaisquer vestígios do rito pagão tivessem permanecido na época do Papa Sérgio, que instituiu a procissão quase dois séculos depois de Gelásio, e não somente para a Purificação, mas para todas as festas marianas. Nesse ínterim, Roma havia sofrido um considerável despovoamento durante as pragas e guerras do século VI, que deram um duro golpe nos antigos costumes e instituições da cidade. Além disso, não há razão para crer que a festa tenha sido celebrada no Ocidente numa data diferente do dia 2 de fevereiro.

Referências

  1. Rationale Divinorum Officiorum 7, 7.
  2. Cf., por exemplo, os verbetes relevantes na antiga Enciclopédia Católica, as revisões de 1956 das Butler’s Lives, v. 1, p. 235, e o v. 3, p. 397, da obra The Sacramentary do Beato Ildefonso Schuster; esta se refere, de um modo um tanto incorreto, ao seu “caráter predominantemente mariano”.
  3. Mitrale 5, 11.
  4. De temporum ratione XII: PL 90, 351.

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As Cruzadas foram um ato de amor
História da Igreja

As Cruzadas foram um ato de amor

As Cruzadas foram um ato de amor

Admiremos ou não os cruzados, o mundo que conhecemos hoje não existiria sem o empenho deles. Não fossem estas guerras de defesa chamadas Cruzadas, a fé cristã que moldou o Ocidente teria sucumbido ao islã e seguido o caminho da extinção.

Thomas F. MaddenTradução: Equipe Christo Nihil Praeponere27 de Janeiro de 2020Tempo de leitura: 9 minutos
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São muito comuns os equívocos sobre as Cruzadas. Geralmente, elas são retratadas como uma série de guerras santas contra o islã, conduzidas por Papas ávidos de poder e travadas por fanáticos religiosos. Supõe-se que elas foram o epítome da presunção e da intolerância, uma mancha negra na história da Igreja Católica em particular e da civilização ocidental em geral. Uma espécie de protoimperialistas, os cruzados levaram a agressividade ocidental ao pacífico Oriente Médio e então deformaram a esclarecida cultura islâmica, deixando-a em ruínas. Não precisamos ir muito longe para encontrar variações desse tema. 

Qual é então a verdade sobre as Cruzadas? Especialistas ainda estão tentando chegar a um acordo sobre isso, ao menos em parte. Porém, já é possível ter certeza sobre muitas coisas. Para começar, as Cruzadas em direção ao Oriente foram, sob todos os aspectos, guerras de defesa. Foram uma resposta direta às agressões de muçulmanos — uma tentativa de reversão ou de defesa contra as conquistas islâmicas nos territórios cristãos.

Os cristãos do século XI não eram fanáticos paranoicos. Os muçulmanos realmente os perseguiam. Embora eles possam ser pacíficos, o islã nasceu e cresceu por meio da guerra. Desde a época de Maomé, a expansão islâmica sempre se deu por meio da espada. O pensamento islâmico divide o mundo em dois campos: o território do islã e o da guerra. Não há nenhum território para o cristianismo ou para qualquer outra religião. Num Estado muçulmano, cristãos e judeus podem ser tolerados sob a lei islâmica. Porém, no islã tradicional, Estados cristãos e judaicos devem ser destruídos e suas terras, conquistadas. 

Quando Maomé guerreou contra Meca no século VII, o cristianismo era a religião predominante em relação ao poder e à riqueza. Como era a fé do Império Romano, abarcava o Mediterrâneo inteiro, incluindo o Oriente Médio, onde havia nascido. Portanto, o mundo cristão foi o principal alvo dos primeiros califas e assim permaneceu, para os líderes muçulmanos, ao longo do milênio seguinte.

Os guerreiros islâmicos atacaram os cristãos com imenso vigor logo após a morte de Maomé. Foram muito bem-sucedidos. Palestina, Síria e Egito — outrora as regiões mais cristãs do planeta — sucumbiram rapidamente. No século VIII, exércitos muçulmanos conquistaram todo o norte da África e Espanha, regiões cristãs. No século XI, o Império Seljúcida conquistou a Ásia Menor (Turquia moderna), que era cristã desde a época de São Paulo. O antigo Império Romano, conhecido pelos historiadores modernos como Império Bizantino, ficou reduzido a pouco mais que a Grécia. Desesperado, o imperador em Constantinopla enviou uma mensagem aos cristãos da Europa Ocidental para pedir ajuda aos seus irmãos e irmãs do Oriente. 

Foi isso o que deu origem às Cruzadas. Elas não foram a criação de um Papa ambicioso nem de cavaleiros gananciosos, mas uma resposta a mais de quatro séculos de conquistas por meio das quais os muçulmanos já haviam tomado dois terços do antigo mundo cristão. A um dado momento, o cristianismo teve de se defender, como fé e cultura, para não ser absorvido pelo islã. As Cruzadas foram essa defesa. 

No Concílio de Clermont, em 1095, o Papa Urbano II pediu aos cavaleiros da cristandade para que repelissem as conquistas do islã. A resposta foi tremenda. Milhares de guerreiros fizeram o juramento da cruz e se prepararam para a guerra. Por que o fizeram? A resposta a essa pergunta foi muito incompreendida. Após o surgimento do Iluminismo, tornou-se usual afirmar que os cruzados eram simplesmente sem-terra e inúteis que se aproveitaram de uma oportunidade para roubar e pilhar num território distante. Obviamente, os sentimentos de piedade, abnegação e amor a Deus manifestados por eles não deveriam ser levados a sério, pois eram somente uma fachada para encobrir planos obscuros.

Durante as duas últimas décadas, estudos de documentos, assistidos por computador, demoliram tal narrativa. Especialistas descobriram que, em geral, os cavaleiros cruzados eram homens ricos que possuíam muitas terras na Europa. Não obstante, eles abriram mão de tudo voluntariamente para realizar a santa missão. Participar de uma Cruzada não era algo barato. Até senhores ricos podiam facilmente ficar pobres junto com suas famílias por participarem de uma Cruzada. Faziam-no não por almejarem riquezas materiais (algo que muitos deles já possuíam), mas porque tinham a esperança de ajuntar tesouros onde nem as traças nem a ferrugem os poderiam consumir

Eles tinham profunda consciência do quanto eram pecadores, e estavam dispostos a suportar as privações da Cruzada como um ato penitencial de amor e caridade. A Europa está repleta de documentos medievais que confirmam esses sentimentos, documentos por meio dos quais aqueles homens falam conosco até hoje. Basta que os escutemos. É claro que eles não se opunham a capturar espólios quando isso era possível. Porém, a verdade é que as Cruzadas eram notoriamente ruins para a pilhagem. Poucas pessoas enriqueciam, mas a grande maioria retornava sem nada.

Urbano II deu aos cruzados dois objetivos, e ambos continuaram sendo essenciais para as Cruzadas orientais nos séculos seguintes. O primeiro era resgatar os cristãos do Oriente. Como disse o sucessor dele, Inocêncio III:

Como pode um homem amar o próximo como a si mesmo, segundo o preceito divino, quando, sabendo que seus irmãos na fé são mantidos pelos pérfidos muçulmanos em estrito confinamento e oprimidos pela mais pesada servidão, não se dedica à tarefa de libertá-los? É por acaso que ignorais que milhares de cristãos são mantidos na escravidão e na prisão pelos muçulmanos, além de serem torturados com inúmeros suplícios?

O professor Jonathan Riley-Smith argumentou corretamente que “a participação numa Cruzada era entendida como um ato de amor” — neste caso, o amor ao próximo. A Cruzada era vista como um serviço de caridade para corrigir uma terrível injustiça. O Papa Inocêncio III escreveu o seguinte aos cavaleiros templários: “Realizais com atos as palavras do Evangelho: ‘Ninguém tem maior amor do que aquele que dá a sua vida por seus amigos.’”

O segundo objetivo era libertar Jerusalém e outros locais santificados pela vida de Cristo. A palavra cruzada é moderna. Os cruzados medievais consideravam-se peregrinos que realizavam atos de justiça no trajeto em direção ao Santo Sepulcro. A indulgência que recebiam era ligada canonicamente à indulgência da peregrinação. Esse objetivo era descrito com frequência em termos feudais. Quando convocou a Quinta Cruzada em 1215, Inocêncio III escreveu:

Meus queridos filhos, considerai com cuidado o seguinte: se qualquer rei temporal fosse tirado de seu domínio e, talvez, capturado, não olharia para seus vassalos como infiéis e traidores quando sua liberdade ficasse novamente intocada e chegasse o momento de fazer justiça… a menos que eles tivessem comprometido não apenas suas propriedades, mas também a si próprios na missão de libertá-lo? E, de modo semelhante, Jesus Cristo, Rei dos reis e Senhor dos senhores, a quem não podeis negar a servidão, que uniu vossas almas aos vossos corpos e que vos redimiu com o Sangue Precioso… não vos condenará pelo vício de ingratidão e crime de infidelidade se descuidardes de ajudá-lo?

A reconquista de Jerusalém, portanto, foi um ato de restauração, não de colonialismo, e uma declaração aberta de amor a Deus. Os medievais sabiam, é claro, que Deus tinha poder para reconquistar Jerusalém para si — na verdade, Ele tinha poder para pôr o mundo inteiro sob seu governo novamente. Porém, como pregou São Bernardo de Claraval, sua recusa em fazê-lo era uma bênção para seu povo:

Digo novamente: levai em conta a bondade do Todo-poderoso e prestai atenção em seus planos de misericórdia. Ele impõe a si uma obrigação para convosco (ou antes simula isso), de modo que possa ajudar-vos a satisfazer vossas obrigações para com Ele… Considero abençoada a geração que pode aproveitar a oportunidade de uma indulgência tão rica como essa.

Pressupõe-se com frequência que o objetivo central das Cruzadas era a conversão forçada do mundo islâmico. Nada poderia estar mais distante da verdade. Do ponto de vista dos cristãos medievais, os muçulmanos eram os inimigos de Cristo e de sua Igreja. O objetivo dos cruzados era derrotá-los e defenderem-se deles. Nada mais. Os muçulmanos que viviam em territórios conquistados por cruzados geralmente recebiam a permissão para conservar sua propriedade, seu meio de vida e — sempre — sua religião. Na verdade, ao longo da história do Reino Cruzado de Jerusalém, o número de habitantes muçulmanos superou bastante o de católicos. Foi só no século XIII que os franciscanos começaram a tentar converter os muçulmanos. Porém, tais tentativas foram em grande medida infrutíferas e ao fim e ao cabo foram abandonadas. Seja como for, não se recorria à ameaça de agressão, mas à persuasão pacífica.

Cinquenta anos depois, quando a Segunda Cruzada estava sendo preparada, São Bernardo pregou muitas vezes que os judeus não deviam ser perseguidos:

Perguntemos a qualquer um que conhece as Sagradas Escrituras o que o Salmo vaticina sobre os judeus. “Não rezo pela destruição deles”, ele diz. Os judeus são para nós as palavras vivas da Escritura, pois sempre nos recordam o que Nosso Senhor sofreu… Sob o governo dos príncipes cristãos, eles suportam uma difícil servidão, mas “apenas esperam o momento de sua libertação”.

Contudo, um monge cisterciense contemporâneo de São Bernardo chamado Rodolfo incitou as pessoas contra os judeus da Renânia, apesar de Bernardo ter escrito várias cartas para exigir que ele parasse com aquilo. No final das contas, ele se viu obrigado a ir pessoalmente até a Alemanha, onde alcançou Rodolfo, enviou-o de volta ao seu convento e interrompeu os massacres. 

Afirma-se com frequência que é possível ver nessas perseguições as raízes do Holocausto. Pode ser verdade, mas se for o caso, essas raízes são muito mais profundas e abrangentes do que as Cruzadas. Judeus morreram durante as Cruzadas, mas o objetivo delas não era matar judeus. Foi exatamente o contrário: Papas, bispos e pregadores deixaram claro que os judeus da Europa deviam ser deixados em paz. Numa guerra moderna, chamamos mortes trágicas como essas de “dano colateral”. Mesmo com tecnologias inteligentes, os Estados Unidos mataram um número muito maior de inocentes em guerras do que os cruzados jamais poderiam imaginar. Porém, ninguém argumentaria com seriedade que o propósito das guerras americanas é matar mulheres e crianças. 

Da confortável distância de tantos séculos, fica muito fácil olhar com desprezo para as Cruzadas. Afinal, a religião não deve ser motivo para guerrearmos. Porém, devemos ter em mente que nossos ancestrais medievais sentiriam a mesma repugnância de nossas guerras infinitamente mais destrutivas, porque travadas em nome de ideologias políticas. Mesmo assim, tanto o soldado medieval como o moderno lutam, em última instância, por seu próprio mundo e por tudo o que faz parte dele. Ambos estão dispostos a realizar um enorme sacrifício, desde que seja em prol de algo que amam, algo maior que eles. Admiremos ou não os cruzados, o fato é que o mundo que conhecemos hoje não existiria sem o empenho deles. A antiga fé do cristianismo, com seu respeito pelas mulheres e sua aversão à escravidão, não apenas sobreviveu, mas prosperou. Sem as Cruzadas, ela poderia muito bem ter seguido o caminho do zoroastrismo, outro rival do islã, rumo à extinção.

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